Um domingo
dia claro, espacial, a guria sonhava comigo, enlevada, e a morte na surpresa. O
dia bifocal o sonho desnorteado a partida quilômetro de arrancada.
Só havia
mesmo o necessário para chegar na hora.
E eu não soube mais, não soube
nunca e de nada que ela me amava muito. Foi tão surreal, tão impatriótico, tão
desnecessário, Deus servido!
As horas saem do tempo para andar
com a corrente do rio, etc.
Nasci aos 13 anos quando ela
me deu um beijo sem eu pedir. Eu segurara seu cabelo mas não pedira beijos. Ela
disse “não gosto que puxem meu cabelo!” e me deu o beijo. Despertei. Tudo novo
de árvore nova cheirando a verde em folha. Nascia para os 13 anos de idade e
lia tudo que me caía nas mãos e nunca fui muito criativo. Ela era loira como já
estavam lindas as minhas primas.
Quem me contou me contou e nem
soube me contar. Foi assim muito à queima-roupa, entre outros assuntos, na
calçada da rua Catimbó, dia de comemoração cívica, buçuís carregados de
coquinhos amarelos. O que distingue os humanos das pessoas dos bichos das
coisas é a ausência ou a presença de cauda. Todos os dias a gurizada todos os
dias jogava pelada todos os dias no campinho todos os dias da pracinha todos os
dias depois da aula.
O amanhecer se dirigiu ao rio Pontenji
às árvores à montanha ao oceano, etc. Há pessoas que desaparecem desaparecem...
Os pássaros se demoraram contando, tuí-tuí, beneditos, maguari,
furriel-vermelho, carancho, jacupemba, cambaxirra-grande, tinguaçu, barulhento.
Eram as 11h e 35min. Uma superbrancura sobrenatural de ofuscar a paz.
Primeiro dia de aula eu a vi
ela me olhava apresentação de professores indicação das salas de aulas me
perguntou “você é irmão de fulano?” Respondi que não nem nunca. E ela me
explicou “seus olhos são iguais iguaiszinhos verde-claros e um ponto a seu
favor”.
Mil e tantos multidão povo de
pensamentos quentes frios indo e vindo sossegados ariscos voando caminhando nadando
revoltando uns mais elásticos. Mil e invisíveis tantos e muitos e uma estrela.
Me pareceu ouvir gritos de
gaivotas alcatrazes atobás-pardos, às dezenas centenas milhares, isso embora, a
350km da costa e a 800m de altitude na serra Gaúcha.
O tempo me começou a correr. Como
a morte é legal é supetão é barranco é xerém é mata-burro é quixó, é mil-homens.
Galáxias enormes em espirais para se ver e se ouvir, uma vez.
Certa tarde de jogo eu estava
no Beira-Rio e pensei nela, não sei por quê?, devo ter visto alguém próximo em
tudo, os olhos, os cabelos anelados arrumados tipo arapuã, o sorriso, os
trejeitos, os tênis floridos, a camiseta com o 10 às costas, calça saruel. Olhos
bonitos fundos na cor sem fim, olhos que esqueciam a dona, olhos dela mesma ver
e a gente mergulhar. Agradáveis de olhar e se ver.
A água toma conta dos peixes,
o ar toma das aves, o vento toma das folhas. Rufares de tambores, nitridos de
antas, ululares de bugios, ornejares de ônibus automóveis motos, estridulares
de avoantes.
A guria
era calma, quieta, contemplativa, corpo acentuado e de formas
surpreendentemente filarmônicas esportivas equilibradas ondeadas. Estudava a
faculdade de turismo em Chapadão do Sul, cumpria suas obrigações caseiras e
cotidianas, obedecia a mãe o pai os irmãos, brincava com o Caju cachorro linguiça
de estimação, dormia na hora que lhe recomendaram, cavalo às terças e sextas
pela manhã, etc, nem nada a tirava do juízo. Agora, o que foi, seus sonhos eram
o seu tudo. Tanto que até quem mais a conhecia duvidava.
Um dia
como nunca outro dia nem tempo em mês de outubro nem espaço na lancheria, ela
apareceu e “querido!”. Uma vez que outra, seus cabelos caracóis longos
encobriam o rosto uma mecha desequilibrava pela frente dos olhos. Doce
semblante.
Um
sanhaçu-verde cantava quarta-feira complicado uma casa verde com seis portas
azuis e dezoito janelas, isso mesmo, verão ou setembro particularmente, no céu
um drone intrigante, nos espantamos duas vezes mais, para onde correm as águas
do rio Piabanha, gentes dos cauaíbe imitando pio de aves zumbidos de insetos
rumores de bichos murmúrios de índios.
Tudo tão longe e distante, tão
parado e deserto, tão alheio e aéreo, tão leve e passageiro. Concentrada no
sorvete de pitangas perfume de rosas cabelo em xaxim no alto da cabeça com
cravo de osso.
Depois da
visita à igreja folheada a ouro, andamos em volta da praça com estátua de D.
Pedro II, as árvores centenárias frondosas, jequitibá, calafate,
capeba-do-norte, oeirana, copaié, dormideira-grande, guajuvira-branca e como
fazer progressiva no cabelo para uso irrestrito em dia chuvoso.
Os carros
pararam na esquina diante da sinaleira no código de barras os carros e motos
pararam eram das cores motores ligados me olhavam me viam e ficaram me cuidando
provisoriamente particularmente.
Um nome de
vento sem pé nem cabeça vindo da lua nova, uma claridade pintada de azul
soprando do mar, peixes entre os arrecifes, cangulo, xaréu, saberê, canguá,
bodião-papagaio; noite correndo por dentro ora por fora.
Morreu e superou.
Acordou suspirou retornou a si aquela que é e abriu os olhos e deixou o navio para
trás. Subiu foi flutuou leve parecida folgada que respirava que olhava tudo
parentes amigos convidados o mundo que era o mesmo. Tudo igual só ela somente
do jeito de vapor. O mundo foi saindo. O céu sempre o céu, algumas nuvens ou
almas, o vento sempre o vento, alguns aviões ou árvores. Olhando o céu do ponto
de vista mais perto. As estrelas maiores. O azul mais verde. De repente se deu
de abrir uma das janelas azuis e “oi, querido!”, tudo tão mais perto, mais plus.
O sol
apareceu nas 10h, os carros passavam sem cerimônia, o rio Tijuco passava,
passando por quantos o vento, por cima o azul com pingos de nuvens bem brancas,
as plantas cheirando folhas verdes, ajará, mata-pasto, carnaúba, nhambuí, ervas-de-lagarto,
tingui-da-praia, viraru, peroba-iquira, ela me olhou com adocicação, me passou
a mão e “querido!” disse juntinho de cabeça no ombro.
Perto do
natal de 2004, fomos ver “A Volta do Chupa-Cabra” no melhor e único cinema de
Nova Prata, ela me confessou bem no ouvido esquerdo “ah, eu que tenho querido!”.
Por
exemplo, nesse dia de sua morte, sonhava comigo e eu mal não tinha ideia. Ela
via um mundo dela cheio das coisas que se procura, e que juntos passáramos a
procurar na maior alegria, coisas simples como ir ao parque Marinha do Brasil,
a uma festa só para ouvir música ao vivo e comer doces de coco, exercícios de
aritmética, caminhar de mãos dadas se equilibrando no cordão do meio-fio,
conversar coisas banais de casos sem importância da tevê, de futuros passeios
em Paraopeba, trocando, isso sim sem falta sem faltas, a cada 10 metros dez
metros, um beijo na boca com confeitos com estalado.
Quando me
perdi quando me perdi, o seu sonho me encontrou. Viagem e viagens. Viajávamos
de trem bala pelo centro-oeste goiano recordando as paradas, Toledo, Ponte Alta
do Norte, Jacareí, Paraibuna, Bambuí, Luz, Onça de Pitangui, Rio Tinto, Macau...
A noite se
afastou. Ainda bem, o dia apareceu. Ainda melhor. E se a culpa for minha.
Os peixes
voavam sem aterrissar, as aves nadavam de braçada no mar azul, o calango
procurava o tronco caído escorado, as abelhas e as formigas buscavam explorar o
terreiro o pátio a calçada da rua Xarias. As sombras faziam a tarde parecer
quase sol. Passou um cão risonho, em si mesmo, farejando tudo por nada. A
copaíba-vermelha achou que estava viajando com o vento... mas logo logo
esqueceu. Um cauteloso sagui-branco... típico artista de televisão... como um
atacante artilheiro de time de futebol... e pronto para cobrar o pênalti... deu
o pulo do gato e sumiu na platibanda.
O sol,
olhos distantes longe, parou na árvore e deitou. Deus, disse também: “Aí não é
lugar!” Tudo artisticamente preparado para início começo de alguma coisa e
cheiro de tinta verde. O sol procurou cores entre as pedras nos morros nos rios
por trás das cachoeiras na fronde das árvores no forte dos Reis Magos.
Conversas com as ruas da cidade com as pontes as praças o museu de História
Natural.
Sua
aventura no mundo pode-se dizer que não houve pois não pesou sua existência em
nada. E o que sonhou somente sonhou e mais ninguém. Coisa muito sutil, vapor
mesmo, coisa que não interferia, nem fiquei sabendo, eu que era personagem eu
que era personagem. Morreu quieta para não acordar os sonhos do sonho.
A lua,
pesada, subia por trás das grandes árvores e era tudo. A lua a lua três quatro
cinco luas. E estrelas aos milhares para milhões e milhões de distância. Vento
com volume adequado conversava com as bicuíbas. Lua parabólica inacreditável
onça-pintada chocalhar de ondas calçada da avenida Atlântica.
Um dia numa
manhã de muita chuva, nos vimos na rua Caeté, ela me chamou me chamou, eu a
cumprimentei com a mão, veio correndo para me pegar me pegar, embarquei num
táxi urgente que tinha um negócio compromisso para o bairro Retiro e longe e
estava horas atrasado. Talvez tenha sido a última vez que a vi com merecida, se
bem ou não me lembro.
Lá longe
onde um rio foge entre as montanhas. Foge para onde mesmo se espera. Os índios
caiapó-metuctire falam com as árvores. Patativa-boiadeiro oitizeiro
probabilidade. Um rio de verdade.
Foi sim
que me lembro aquele dia aquelas horas oito horas e escuridão nove horas escuro
dez e meia escuro meio-dia escuro treze horas escuro. Todo mundo pensando no
fim dos tempos. Tudo enevoado sombrio misterioso oculto maroto velhaco. Nós da
multidão enchemos as ruas as praças sob os postes de luz buscando as
explicações prevendo o fim do mundo um cometa na iminência de bater na Terra a
bomba H levantando poeira, etc. Dia-noite comprido frio parecia que era para chover
chuva ácida. Estudantes fazendo arruaças incendiando carros quebrando vitrinas
explodindo caixas eletrônicos escalando o gradil da prefeitura.Todos nós
vestidos para o inverno roupas pesadas quentes escuras encapuzados mangas e
calças compridas. A lua multiplicada calma no meio da cerração entre as nuvens
atrás dos galhos secos antenas de rádio. As aves do dia piavam esperando sem
entender. Os insetos da noite incertos zumbindo nos ouvidos. Aviões decolando
com luzes amarelas vermelhas grandes pequenos piscando luzes coloridas.
Reportagens extraordinárias na tevê. Escuro demais forçávamos a vista. Àquela
hora ainda escuro todos se perguntavam “por quê?” Todo o mundo procurando
cientistas para entender o fenômeno. As culpas recaíam sobre a fumaça das
fábricas as queimadas na lavoura o efeito estufa a exploração do pré-sal, etc. Corremos
todos para a praia. Paramos diante do mar. Na areia mal e mal na penumbra vimos
a mulher deitada. Ela acordou, se arrepiou, olhou para trás sentou na areia.
Tirou tirou os óculos escuros... E o milagre! Apareceu o sol e foi às quinze e
trinta e dois na tarde clara. E que namorada! Uns raios de sol azul vararam as
poucas nuvens e se cravaram no solo, nas pedras, nos prédios, nos vidros fumê, que
milagre!, o dia acendeu clareou expandiu pintou de cores. A mulher tirou os
óculos escuros, e que guria, meu! e o sol deu o ar das graças e o sol apareceu.
Quem sabe fora
um dia que eu telefonara e ela me assegurara que voltaria do além-mar na forma
de uma formiga içá ou de uma bizogue ou de um pássaro
papa-arroz-de-barriga-branca ou de um riacho afluente do rio Juruá ou caxingui ou
de uma árvore copiúva, etc. Me assegurara me prometera combináramos e ríramos
muito.
Vento,
muito vento. Sol, muito sol. Nuvens, muitas nuvens de chuva. Zumbidos, muitos
barulhos. Principalmente à noite.
E eu que
sei pouco dos sonhos que ela me tinha, que me levavam, que me embelezavam, nem
faço o obséquio de chorar. Fico, assim como estou agora, todo esquisito e sem
mudar meu domingo. Não sou de me obstinar. Fico olhando terminar o dia
normalmente. Não sou de bater no peito. É como se eu não a tivesse conhecido,
como se não a tivesse adorado, como se não a tivesse merecido. Não sou de me ofender.
E é como
se a esperasse sempre toda vida de outras idas e vindas, oquei!?