sábado, 24 de dezembro de 2011

Contos de Santa Luzia (5)

           Sol indivíduo incrivelmente verão e empoeirado. Labirinto de nuvens baixas vermelhas tecidas de terra vermelha. Encontro congresso assembleia reunião de compridas nuvens de poeira. Um vento incidental movimentando nuvens de poeira de lá pra cá, de alto a baixo. Poeira que surgia de alguns lugares, que se apresentava ali, que se arrastava para todos os outros lugares. Chão calcinado e pedregoso. Tudo incendiado cinzento incendiando queimado torrando. Poeira demais.  
O carreteiro parou tudo:
            - Ôoooa!...
            - Uuuuh!... Uuuuh!...
            - Auaaau!...
Olhou, se virou, se revirou, calculou, coçando o peito varonil e volumoso e peludo. Tudo falido, tudo abandonado, tudo seco, tudo acabado, tudo vermelho de terra vermelha. Ninguém por perto dando sinal de sorte. A estrada poeirenta e pedregosa e abandonada. Sol homem por trás além sobre as nuvens vermelhas. Um lugar sem fim sem começo nem fim. Em o meio no fim de o mundo. Total meio de um mundo extinto, desidratado, distante, balançante, gingante, periclitante.
            O carreteiro, a carreta de duas rodas raiadas e coberta de lona marrom, dois bois de novecentos e cinquenta quilos e tanto, um cusquinho preto com manchas brancas na cauda e nas mãos e nos pés.
Chegavam ali muito sucumbidos pelo calor, aturdidos pelo mormaço, sacudidos pelos dias de distância, os dias de verão. A carreta gemendo, rangendo, rinchando, raspando. Os possantes incapazes com o próprio peso, o tamanho do reboque, o valor dos trastes. O cusquinho não erguia mais a cabeça, língua pendente, focinho requeimado, olhos semicerrados, acompanhava a sombra da carroça pelo chão de cinzas. Haviam andado muito aqueles dias e eram de outro mundo, outro tempo, outra sorte.
Durante o caminho a bifurcação. Um chão de terra vermelha e pedras soltas seguia para a direita, para onde; a outra estradinha de terra e pedras soltas seguia para a esquerda, e com tabuleta indicando o distrito de Santa Luzia.
O da carreta pensou, repensou, coçando o peito, arranhando o peito de bronze, alisando o peito de cobre, afagando com a mão direita o peito montanhoso. De repente já resolveu tirar um cigarro de palha do bolsinho flutuante lado esquerdo da camisa aberta. Bombachas de pano riscado, chinelas de couro fechadas na frente. Chapéu largo de palha quebrado na testa preso pelo barbicacho, óculos de grau de lentes amarelas, a barba hirsuta, camisa de gola manga curta marronzinha com riscas amarelas e dois três botões abertos no peito bombado.
A comichão no cérebro buscava uma resolução. A mão esquerda já alcançava a garrafa de cachaça. E bebeu o último gole. Daí mesmo, sentado na tábua de ex-imbuia feita banco da carroça, jogou o vasilhame contra uma pedra da beira do caminho, tlafe!... mil cacos e caquinhos, o cão se assustou:
- Auaaau!...
O se decidiu pelo rumo da vila de Santa Luzia. A curiosidade abria pedaços soltos no seu pensamento cansado, travado, derretido. E cutucou os bois com a ponta da longa vara tirada de uma ex-ibirarema:
- Uuuupa!...
- Mmmma!... Mmmma!...
O condutor tinha já seus 160 anos na cacunda. Esquecera de desaparecer. Um peito largo e avantajado, mais avantajado e largo devido à camisa aberta descobrindo o peito espaçoso. A sorte o olvidara completamente. Só se morre uma vez.
Entrou na aldeia lentamente no passo lento dos bois assoleados e lentos e pachorrentos, chiado monótono das rodas desengraxadas, umas incertas horas, lugar quieto e poeirento e moribundo. Sol senhor confirmando o estio sem tréguas.
A aldeia de Santa Luzia sob o calor insuportável, insuperável. Sempre verão, sempre o verão. Ex-árvores paineiras ali na pracinha espetando o amarelo do céu com seus braços queimados. Nenhum pouco de movimento, nenhuma intenção de movimento, poeira no ar, tudo parado, nada acontecendo.
Estacaram ali no meio da pracinha sem sombra e chão esturricado, terra assada na brasa:
- Ôoooa!...
- Uuuuh!... Uuuuh!...
- Auaaau!...
O olhou a sua volta, procurou, reolhou. Uma vilinha de nada, minúscula e chapada pelo astro de fogo. Uma única rua no meio e vinte casebres de pau-a-pique dos lados cobertos de sapê. Pedras soltas ao acaso. Boca de forno. Aqui e ali cercas de pedras empilhadas em taipa, cercas de caniços fincados um lado a lado o outro, capoeiral queimado pelo verão sem fim, chão de cinzas e pedras amarelas, tucurus arruinados...  
O carreteiro aliviou os pesados. Soltou a canga para um lado. Parou olhando ao redor. Coçou o peito de cerdosos pelos. Depois, apontou o nariz para a padaria. Sempre seguido pelo estropiado cusquinho. Chegaram ali na ex-vitrine da ex-padaria. Tudo fechado, tudo tapado, tudo entregue, tudo acabado, tudo zerado. Olhou em volta.
Voltaram para junto da carroça na pracinha pelada. O cachorrinho de cauda entre as pernas trôpegas tossindo alérgico ao pó. O bípede se sentou na borda da carreta e puxou um cigarro de palha de milho. Bebeu o último gole de pinga e jogou fora a garrafa vazia, se espatifou, tlafe!... contra uma pedra, o cão se assustou:
- Auaaau!...
O chegante ainda tirou mais um crioulo do bolsinho flutuante esquerdo da camisa e fumou. Deitou no chão mesmo, sob a carroça, e dormiu a sesta. Acordou uma e meia hora depois, esticou os braços e pernas estalando as juntas e os ossos, se contorceu, cheirou o ar entupido de poeira. Coçou o peito de longos e enrolados pelos. Socou a caixa do peito. Olhou em volta, reolhou, recapitulou. A vila ali toda extinta e mal paga. A capela da santa Luzia, e descascada, e rachada, e destelhada, e pelando ao som do astro-rei. O cusco de boca aberta e língua caída e olhos fechados e filosofia apagada.
            Pois o viajante reparou, lá mais adiante próximo a uma cerca de taquara seca mal e mal em pé, uns aldeõezinhos descalços e magros e ossudos e arteiros brincando de bandido. Um dos malvadinhos foi escolhido e preso. O tipinho queria fugir, mas o resto do bando não o largava. O preso lutava e gania e tentava morder e tentava chutar. Puxavam-no pelas orelhas, pelas pernas, pelo cabelo, pelo burrinho. Estavam com propósito de fazer uma cirurgia plástica no sorteado.
Então, o estrangeiro embicou para o lado da ferraria. Não convidou o cãozinho, e o guaipeca acordou na hora e se convidou e foi sem cerimônia, e seguiu acostumado o rasto do patrão. Ex-ferraria fechada lacrada, nem ferreiro nem ex-ferreiro. O precisava arrumar alguma coisa da carreta. Desapontado, e voltaram à pracinha desfigurada. Pedras soltas atiradas por ali. Sol gente importante sempre muito quente.
No trajeto entre a ex-ferraria e a pracinha, conheceu a viúva. Coçou o peito total, alisou os pelos avermelhados, os fios de arame farpado do peitoral. A solteira bem mais alta que o carreteiro uns dois palmos e tanto. Cocó no alto da cabeça e calçando tamancos de ex-caroba-branca, o cumprimentou:
- Boas tardes.
- Tardes.
O carreteiro seguiu para o seu acampamento. O cusco, depois de lamber os tamancos da viúva, seguiu atrás no rasto do chefe. A mulher ainda esperou no mesmo lugar mais um instantinho. Ficou olhando fixamente os dois personagens.
Dona daqueles olhos insones passou a língua seca pelos lábios queimados, balançou a cabeça, sacudiu o corpo todo, fez muxoxo e, enfim, meia volta voltou para casa. A viúva passava noites e noites sem pregar os olhos. Talvez mesmo por serem noites muito quentes, os dias muito mormacentos, as noites de poeira e lua e estrelas frias, os dias de céu amarelo, sol índio velho macanudo muito quente e quentíssimo.
Alguns anos sem uma gota sequer de da chuva. A vila já vaporada coberta de poeira vermelha e pedras soltas ao léu. Tudo seco para sempre, sempre. Sol pessoa física entornava diariamente, atrás sempre das nuvens pesadas de terra vermelha, o seu próprio caldo de vulcão.
            A turma de pivetes arteiros às voltas com o ladrãozinho indigitado. Já tinham sacaneado o preso umas tantas horas e tanto. Não bastara. Puxavam o pivete ladrão por uma coleira. Puxavam-no pelo burrinho. Puxavam-no pelas orelhas. O preso não resistia mais, não latia, não miava, não zumbia, não vaiava. O pivetinho, ladrão de fantasia e descoberto por sorte, só obedecia, obedecia. Passeava obrigado com os torturadores por aí, para cima e para baixo, de cá pra lá e de lá pra acolá. Curumins todos deslumbrados, atrevidos, olhos lunáticos, arranhados nas pernas nos braços, cabeças encaroçadas, cabelos sem cor ou da cor da terra vermelha, todos sem camisa, bermuda ou calção vermelho de terra vermelha, sempre dos pés a cabeça vermelhos de poeira vermelha.
A carreta deixada sozinha, apoiada no chão pela haste, derretia com paisagem na brasa. Sol senhor branco. Debaixo do toldo, aberto na frente e atrás, poucas mercadorias para vender ou trocar. A canga deixada no chão. A parelha de mansos e pesados e franqueiros ali deitada respirando com lentidão o ar quente. Os gigantes chacoalhavam as guampudas cabeçorras, preguiçosos e sonolentos. O cusco deitado, língua pendida do lado da boca, tirando ossos especiais de dentro do sonho, esgravatando o chão na ilusão de encontrar alguma coisa para manducar, raízes, insetos, cheirando e mordendo pedras amarelas. O homem sentado no chão com as pernas encolhidas, os joelhos junto ao peito de ferro rebrilhante, os braços abraçando as canelas, o cigarro no canto da boca.
Então, horas depois, o carreteiro se ergueu. O cusco o imitou muito cansado tonto. O homem coçou o peito de pelos aéreos, bateu o tambor peludo do peito, socou o peito com as duas mãos fechadas. Apontou para o armazém, ex-armazém, armazém despovoado abandonado. O cusco o seguiu, o seguia sempre, e sem ser convidado. Sol primo por parte pedalando entre nuvens de poeira. O carreteiro encontrou, encontraram o ex-armazém fechado e abandonado e falido e arruinado. Deram meia volta e foram ao açougue. Encontraram, encontraram o ex-açougue e tudo fechado e pregado e lacrado e caindo aos pedaços.
Poucos metros da carreta, o carreteiro armou uns paus de lenha, preparou um fogo para assar o frio da noite. Já a tarde entrava na boca do lusco-fusco, noite engolia a tarde indefesa, as nuvens pesadas de pó topavam com as primeiras estrelas. O cusco o rodeou esperançoso, lambendo-lhe os calcanhares rachados, perseguindo e cheirando seu rasto na poeira vermelha. Os bois bateram as guampas, sonolentos, hipnotizados pelo calor. O céu escurecia de um jeito confuso. Pedras soltas mil deixadas assim assim por ali. Céu fechado de poeira. Coçou o largo peito povoado de pelos grossos, peito descomunal. As ex-árvores queimadas da pracinha, estorricadas pelo calor, pareciam espetos pretos em direção do cosmo, do infinito.
Não se ouvia um pio, um zumbido, um ronco, uma pancada, o som qualquer de uma presença aérea ou terrestre ou subterrâneo. E pintaram por si uma, duas... todas as estrelas e a lua. Confusas, atrás das nuvens de poeira. Os bois engoliam em seco. A lua, as estrelas, os planetas, as nebulosas, as volutas, as espirais. Olhando bem até disco voador tossiu, pintou, sacudiu, riscou, pirilampou.
O cusquinho lambia uma pedra doce. O capoeirão incendiado pelos meses e meses de verão direto, minado de tucurus podres - lá por trás dos casinholos que se esfarelavam caindo de um lado ou de outro -, o capoeirão escondia fantasmas noturnos, fantasmas às vezes com sombra outras sem sombra, fantasmas que não respondiam nem perguntavam...
Nessa oportunidade reapareceu a viúva. O carreteiro coçou o peito enciclopédico, ilha inteira de rocha vulcânica, quina de navio. Ela vinha de braços cruzados, coque no alto da cabeça, estalando nos calcanhares umas chinelinhas de borracha de dedo, olhando, calmamente reparando. Alta como uma mulher muito alta. Seca e elegante como uma estaca seca retirada de uma ex-escova-de-macaco. O cusco a olhou com apetite com esperança com ilusão de apetite. Os bois ficaram num silêncio cansado e sem mugido e dorminhoco. A mulher parou ali em pé, braços cruzados no peito, olhos insones, lenço de seda floreado no pescoço fino comprido, vestido floreado comprido até o meio das canelas, e como uma visita tímida:
- Boas noites.
- Noites.
A solteira perguntou, queria saber, inquiriu, indagou. E ela cheirou e vasculhou as mercadorias na carreta. Depois, ela se virou para o cusco e o chamou de Totó. O cusco gostou, riu para ela e balançou a cauda, balançou a cauda. Aí, a viúva foi até os bois, não tão perto, e quis saber o nome dos bois, seus nomes, raça, pesos, medidas, procedência e costumes. O carreteiro ali acrocado perto da carreta a bunda mais baixa que os joelhos. A mulher era lenta, calma, era seca em praticamente quase tudo, e também em compensação não tinha bigode.
O carreteiro reparou os olhos mal dormidos da viúva. Coçou o peito de escova de aço, fios de escova de aço. Ele nunca esperava nada de nada de ninguém de nada. Mas a viúva o convidou para chegar em casa. O carreteiro não se encorajou, não se mexeu, não se convenceu, não se animou, não foi. A dupla de bois nem ali, jogada no chão de terra escaldada. O cãozinho procurava lamber os pés da mulher. Ela ainda caiu com os olhos ardentes ardidos sobre a cheirosa montanha peluda do visitante. Queria bem enfrentar aquele paredão escarpado, colar o ouvido na parede, ouvir o tum! tum!... do outro lado. Bater como um inseto na vitrine. A viúva se despediu, braços cruzados sobre o peito, passos por dentro da noite, passos se transferindo, entrando na escuridão, deixando um rastro de teque! teque!... na poeira.
A noite avançou. As estrelas quietas, pálidas, embaçadas, distantes, políticas, irreais, perenes, trêmulas, esquisitas, aéreas, incríveis, encobertas. A lua mudando de lugar, um caco branco de louça, um pedaço de prato, uma colher de sopa de prata. O cusco dormitava sobre as mãos cruzadas, com frio, sonhando deveres de casa. Os plenicórneos quietos, bocarras abertas, sufocados de ar quente. O carreteiro secou a garrafa de branca e a jogou, tlafe!... nas pedras, o cusco deu um pulo nervoso, elétrico:
- Auaaau!...
Aí mesmo, ali e aqui, cá e acolá, a noite parecia um breu puro, sem lados, sem chão, com teto de olhinhos acesos, com cheiro de poeira, despovoada de som, sabor indiscutível de poeira no ar. Os bois não resolviam mais nada. Um mutante correu por ali pelas quebradas, se pressentiu a corrida pela capoeira queimada, escalando montes de pedras, atravessando cercas de taquaras-pocas, imitando perfeitamente rastos de mula-sem-cabeça saci lobisomem...
Pela manhã, o carreteiro encangou os gigantes preguiçosos mal dormidos:
- Muuuu!... Muuuu!...
O carreteiro coçou o largo peito taurino de fios maduros e crespos. Paredão do peito enfeitado de pelos misturados de cores, uns mais longos, etc. Socou o muro rochoso do peito. Subiu na carreta e tocou:
- Uuuupa!...
- Uuuuh!... Uuuuh!...
- Auaaau!...
Sol sujeito raiado de vermelho. A poeira voava em nuvens, procissão de nuvens, assim isso isso o porquê do rei-sol branco com raios vermelhos.
O homem tocou para a ex-ferraria. Pedras soltas perdidas esquecidas por ali. Precisava tratar de uma roda. Queria estar preparado para desistir da vila e atravessar o longo longo terral vermelho e escaldante. Seria uma longuíssima jornada e tanto.
Um repente, o carreteiro estava cercado por todos da vila aldeãos e aldeãs e aldeõezinhos. Que todos saíram de onde. O carreteiro coçou o peito peludo de macaco grande. O cusco se atiçou, se enervou, rosnou, grrrrrr!... Os aldeãos cercaram o carreteiro e os bois e o mascote com olhos carregados de rasgar, amassar, retalhar, partir, bifar, picar, destroncar, quebrar, fatiar, serrar, cortar, embutir.
Os aldeãos lançaram a rede para cima do carreteiro, assim como as aranhas enredam uma mosca para a refeição. O cusco achou ruim, péssimo, horrível, xingou e acoou:
- Auaaau!...
O carreteiro não conseguiu sair da renda, da trama, da rede, da teia, da malha fina. Não conseguiu alcançar e coçar o seu grande e peludo peito bronzeado. Preso pelas orelhas, o cusco tentava morder a canela mais próxima, chupar a barra da calça mais próxima, lamber as correias da sandália franciscana mais próxima. Os bois fecharam os olhos cansados esgotados pesados bovinos. Bois anestesiados pelo calor.  
E os aldeões e as aldeãs e os aldeõezinhos seguraram o carreteiro aí no meio do círculo, da ciranda, cirandar. Um aldeão se destacou com um tacape. Depois, ergueu a madeira de extinta totajuba bem acima da cabeça. E largou o malho na testa do carreteiro. Foram tantos golpes, várias vezes, várias vezes, tantos golpes pesados. O cusco xingava com uivos latidos acoos rosnados. Até que a cabeça do carreteiro finalmente entrou para os ombros. O cusco não se conformou, não se conformava, não podia se conformar, esperneava, tremia, batia o queixo, rilhava os dentes, ganiu:
- Grrrrrr!...
O relógio poeirento parado das horas lentas. Sol irmão grande fogueira amarela por trás das nuvens vermelhas de poeira. Vila despachada para o meio do deserto de terra vermelha. Pedras soltas sem conta por tudo pedregulho. Rua única e poeirenta. O lugar tudo rebocado de poeira vermelha.
E da sua costumeira cadeira de balanço, na varanda coberta de ramos secos de palmeira catolé, a viúva olhava meio cochilando o dia inútil e poeirento da aldeia. Tomou aquele susto ao ver um carreteiro entrando pela única rua de terra e pedrinhas soltas. Vinha o desconhecido lá na sua carreta puxada por dois bois cansados, esgotados, cabisbaixos. Por baixo da carreta se esgueirava um guaipeca tonto e torto e esgoelado. Vinham do lado da manhã muito quente e astro amarelo, amarelo. Sol pessoa rebrilhante demais. E a mulher tomou esse susto e se pôs de pé como um espeto a jato. Pensou sozinha e para dentro de si, engolindo em seco: “Não é possível, mas poderá vir a ser, se já não está sendo.”
Desceu a escadinha torta da varanda, escadinha de três tabuinhas de ex-arco-de-pipa, escadinha poeirenta, e foi até o portão, portãozinho feito de ripas de ex-manacá-açu, portão escangalhado e coberto de poeira vermelha. Ela ficou ali, no meio do verão sem fim e da poeira da rua única, um tempo, mais um tempo e tanto. Pedras soltas incomparáveis número tamanhos pelo chão. Sempre de olho firme sobre o carreteiro, seus bois tontos e seu vira-lata zonzo. Ela mesma de braços cruzados amparando os peitos. Só mais tarde entrou para a casa, para a casa, arrastando os tamancos de ex-peroba-tabuada.
A solteira pensou muito. Inquieta toda vida. Enquanto pensava também se olhou no espelho pendurado na parede do quarto. A mão procurava a babaquinha. Queria muito tomar um banho, se perfumar de rosas ou outras flores, soprar da cara as olheiras insones, se livrar da poeira vermelha, etc. Pegou da escova e se penteou diante do espelho oval. E voltou a se pentear demoradamente em frente do espelho oval da penteadeira. Depois, armou um pericote no alto da nuca. E voltou à varanda, se sentou na cadeira de balanço, se balançou, geeeelim! geeeelim!... cadeira feita de ex-coração-de-boi. Não tirava os olhos e ver o estrangeiro, seus bois, seu cusquinho lá na pracinha acampados. A mulher desejava o carreteiro a apertasse de qualquer jeito, com as mãos, com o peito de couraça, com as mãos cheias de dedos, com o peito em escudo.
Quando o carreteiro se dirigiu à ferraria abandonada, a viúva tomou a decisão de interceptá-lo. Aguardou o momento certo. Aí, pegou e foi mesmo. A garganta secava e foi secando, secou, seca. Ficou nervosa e quis tossir. A garganta queimando. Gosto de poeira, cheiro de poeira. Ela cruzou com o carreteiro bem no meio da rua única e poeirenta:
- Boas tardes.
- Tardes.
- E o moço é ambulante viajante mascate regateiro?
- Compro, troco, vendo. 
A viúva viu o homem coçar o peito peludo de fios encaracolados em molinhas. O cusquinho se enamorou dos tamancos da madame e se enrodilhou ali no chão junto dos pés da mulher. Esta olhava o homem de peito de pedra pedreira peito peludo. Ela olhou o peito do homem e não pôde desenvolver um pensar muito além. Ficou vendida pelo colosso encouraçado. Não pensou muito bem. Fixou somente o peito de sino de bronze. Não conseguiu pensar duas vezes. Não contou até três. E falou qualquer coisa para dizer, dizendo:
- Que negócio que é?
- Livros e gibis e revistas usados ou seminovos, álbuns antigos de figurinhas de times de futebol, antigos álbuns de famílias, bulas de remédios, tevês portáteis, cds antigos, dvds usados, bolachões de vinil, fitas cassete, caixinhas de música com berliques e berloques, tudo usado ou de segunda mão.
- Ãhn!... O moço não tem um romance de 870 páginas ou mais?
- Se tenho.
- Gosto de livros grossos, volumosos, lentos, psicológicos, longos, circulares, pesados, densos, profundos.
A mulher secou o carreteiro com o olhar analítico de um técnico de academia de ginástica aeróbica. O carreteiro fez um sinal com a mão na aba do chapéu e seguiu em direção ao seu acampamento, escoltado pelo cão de estimação, pedras de feitios e soltas e lascadas por aí no chão esturricado, cãozinho mirrado e nervoso e desconfiado.
Então, dali para frente, a viúva suspirou, cruzou os braços no peito e voltou para casa. Poeira poeira cobrindo tudo. Voltou no seu estilo de passos medidos e uniformes e cansados. O pensamento querendo inventar ou achar uma saída para as horas longas, intermináveis, incontáveis, fundas, secas, poeirentas. Pensou na babaquinha já há muito sem um trato um troço um tapa um teto.  
Na varanda descascada da antiga cor azul, a viúva procurou a cadeira, a cadeira. E se sentou na cadeira de balanço, se balançou, geeeelim! geeeelim!... Embalava-se numa ideia de evasão. Os olhos não viam nada, embora voltados para o acampamento do viajante. Esses devaneios cansados lhe davam ainda cansaço maior, alergia nas pernas e nos braços, tremedeira, irritação, inquietação, coceira. Queria o tempo perdido de volta, muitos tempos. Os dentes apertavam e rilhavam, a língua seca e a garganta quente, a boca com gosto de terra. As ordens mais ou menos elétricas dos nervos chegavam às mãos e precisavam ser atritadas, esfregadas, coçadas, descarregadas na babaquinha. Uma ânsia que lhe dava dor na barriga vazia. E a curiosidade abrindo pedaços em branco no seu pensamento, pensamento. E a ideia ia e voltava, cada vez mais se escurecendo, empastelando, enovelando.
Anoitecera. Fora mais nada que as nuvens de poeira engrossando a escuridão. Talvez ainda um e outro ente fantasma pela capoeira seca, fantasmando, escalando o pedregulho, invadindo tucurus desabitados...
Então, a viúva achou melhor ir até o carreteiro. Ainda amarrou um lenço floreado de pescoço. O homem tinha feito um fogo para afastar a friagem da noite. A mulher foi indo e se chegou e se aproximou, já estava lá. Braços cruzados junto aos peitos:
- Boas noites.
- Noites.
- Lugar para um acampamento.
- Hum...  
A viúva foi até a carreta olhar para as mercadorias. O cusquinho veio cheirar seus pés e tamancos, lamber os calcanhares empoeirados. Ela revirou para descobrir um livro grosso, pesado, massudo, pacote, tijolão.
- O moço já leu todos estes livros? Já ouviu todos estes cds? E assistiu todos estes dvds? E colecionou todos estes álbuns com suas figurinhas de futebol?
Assim, a madame se agachou junto ao cãozinho. Chegou perto do cão e só esperou que este lhe abanasse a cauda para acariciá-lo, alisá-lo, adulá-lo. O cachorrinho se jogou no chão com desmaio, balançou a cauda, falou, soprou, quatro pernas para o ar, pediu, pediu. E a mulher o escovou na testa, entre as orelhas. E o sacudiu pelo focinho. E olhou o cusquinho nos olhos. Deu-lhe um abraço. O cãozinho lhe lambeu as mãos, o pescoço, as orelhas, o rosto, o cabelo, o nariz, a boca, etc. Ela lhe deu um beijo na boca. Se beijaram na boca com lambidas. Ele retribuiu com lambida. A mulher entendeu assim:
- Cãozinho manero. Por que não vem comigo pra casa? Por que não vem me fazer companhia?
De surpresa, a viúva se lembrou dos bois. Estes estavam ali quietos, deitados, cansados, dormitando, atrás da sombra da noite. Bois enormes na sombra da noite, fracos de cansaço e preguiça e sono, olhar apagado, cansados de tudo, orelhas caídas, entorpecidos, desativados, desleixados. A viúva queria saber o nome dos elefantes, dos hipopótamos, dos rinocerontes, dos dinossauros:
- Que nomes?
- E é o Bordado e é o Vermelho.
- Hum!... Bordado... Vermelho...
A viúva chegou mais perto dos gigantes. Os bois direcionaram as grandes orelhas. As aspas bonitas e quase altas. E a viúva queria tocá-los nos pelos, talvez sentir-lhes o calor, o cheiro, fazer um agrado nas ancas, tocar nas guampas, tocar nas aspas, tocar nos cornos, tocar nos chifres, tocar nos galhos, tocar nas antenas:
- São sociáveis, esses pés-duros?
- Olha...
A viúva acariciou o Bordado e olhou o Vermelho. Já alisou o Vermelho e admirou o Bordado.
E esse era o ponto, até que enfim, que ela mesma resolveu falar o que viera falar, buscar, negociar, contratar, pedir, trocar, oferecer, permutar. O cãozinho se arrastava no rasto da mulher, sempre nos garrões da solteira, lambendo a borda dos pés secos da viúva. Era mesmo difícil para ela ter essa coragem toda, mas teve, tinha de ter, e falou para os bois - que o carreteiro estava perto ouvindo:
- Tenho uma babaquinha bem sozinha lá de casa. Vem dá uma chinelada na babaquinha lá de casa.
A viúva desabafou assim, mas assim de cabeça baixa, braço esticado sobre o Bordado, olhar solto sobre o Vermelho, acrocada ali mesmo e de saia balão cobrindo as pernas. E se o carreteiro gostasse de flores, a saia era florida. As flores se foram se extinguiram há muito no lugar, então, restou o vestido dela florido, e que o homem podia reparar.
Falada a provocação, ela ergueu os olhos para os quatro do carreteiro. Esperando confirmação. Admirou o homem coçar de pelos fortes o peito de casco de tartaruga. Esperou que o homem e ele demorava numa resposta, num quase longo coçar o baú do peito, o guarda-roupa do peito, a cama quadrada do peito. Aí, ela ainda olhou de soslaio para o meio das colunas arcadas do carreteiro a ver se enfim o burro dele dava um relincho, um sinal, um solavanco, um pinote, uma estocada, um sinal, uma cambalhota. O burro lá dele não deu por nada. De qualquer jeito a viúva tinha que acreditar até o último minuto da prorrogação.
A escuridão se atolou no meio profundo da noite mundial. Uma nuvem inteira de pó vermelho tomava pela vilinha. A nuvem interminável e seus grãos doces de terra amarela. A resposta que a viúva aguardava não veio e cansou e chateou e já demorava demais. E a resposta dele não apareceu. Então, depois de longos tempos, a viúva procurou aperfeiçoar a mesma ideia:
- Levamos um dvd. Levamos um cd de música lenta. Levamos um álbum com fotos antigas de família.
Assim sendo, ou não, a viúva olhou o céu fechado em amarronzado. Olhou tentando ver as estrelas querendo contá-las querendo saber o nome de todas querendo nem olhar para nenhuma. Queria ouvir um som lunar. E procurou adivinhar os planetas e o nome dos planetas e a cor dos planetas e o lugar distante dos planetas e as luas dos planetas. Seriam planetas ou estrelas. Estariam acima ou abaixo. Seriam nuvens de poeira ou pedras preciosas.
O escuro, então, se confundiu se misturou num abraço com a escuridão. A noite se povoou de sacis nos redemoinhos, lobisomens na capoeira seca, mulas-sem-cabeça entre os tucurus abandonados...
Pois aí, dessa vez, a viúva para o carreteiro:
- Meus parabéns.
- Quer levar o livro grosso e pesado e emparedado de letrinhas miúdas?
E sem mais o quê, a viúva foi se retirando. Entrou no escurão, livrão sob a axila, sem olhar para trás, sem olhar para a ponta empoeirada dos tamancos de ex-guaçatumba, gosto de poeira na língua, sem olhar para trás, engolindo em seco, dentes tritando grãos de terra, peque! peque!... o tamanco nos calcanhares, o cachorrinho atrás até ali, lambendo o rasto, cheirando e lambendo as pegadas.
Em casa, diante do espelho oval, os olhos vazios e sombreados, o pensamento desanimado, o pensamento fracassado, o pensamento frustrado, o pensamento desiludido, os gestos lentos, a babaquinha na mão, na mão. O olhar esquecido. As sombras na parede de um tal azul descascado. Os cabelos soltos até pouco abaixo dos ombros. Testa franzida e dor nas costas, nas juntas. Falta de ar puro. Garganta seca. Dois braços, duas medidas, duas pernas, dois dedos, duas entradas, duas saídas.
Depois, depois das horas longas, se conformou para o quê. Olhou da janela lá para a pracinha. A sombra do carreteiro na pouca luz da fogueira. A noite quieta sem um som de qualquer. Mas a babaquinha insone era o pior o mais ruim. Surrando a babaquinha. Os mesmos móveis de antigamente, a parede de um azul depois do azul. As paredes que não falam, as paredes de pau-a-pique, as paredes frouxas, as paredes esburacadas. Uma noite entupida de calor e poeira.  
Passou as horas, a noite toda, uma noite esperneada, três séculos de noites sem pregar os olhos. Levou um tempo desse jeito. Aniquilada e grudada na ideia do carreteiro. Gorila de peito peludão pesando 90kg, 100kg, 120kg, 200kg, quantos e tantos quilos.
No dia seguinte acordou olhando pela janela. Olhos quebradiços. Olhar pisado. Olhando sem paisagem. Olhos empedrados, ardidos, secos, míopes, vidrados. O carreteiro sumira, esvaziara, não estavam mais lá acampados na praça.
Um pouco depois para o sul ouviu os latidos do cãozinho, os xingamentos do totozinho, os desaforos do vira-latinha, os acoos do cusquinho, os ganidos do cachorrinho:
- Auaaau!... Grrrrrr!... Tsouuu!...
A solteira se encaminhou, então, para a única rua e rua poeirenta e rua pedregosa. Sol pessoa esbranquiçada batendo forte, torrando, esturricando. Pedras soltas sem conta de tamanhos pelo chão cinzento.
Ela reparou os aldeões dando um trato no carreteiro. Afundavam-lhe a cabeça com um tacape feito de galho da ex-piá-banheira. A viúva chegou bem perto. Ouviu estalos de ossos. A cabeça do carreteiro enfiada entre os ombros, como se fosse uma tartaruga recolhida. O cãozinho vociferando, arranhando, mordendo, bufando, uivando muito pior que inconformado:
- Aiuuuu!... Aiuuuu!...
Naquele dia os vilões ainda precisaram do dia todo para carnear o carreteiro, os bois, o cusco. Não viram nem o tempo cinza-claro passar. O dia sempre um forno e as horas quentes. Sol indivíduo amarelo guardado de nuvens de poeira vermelha.  
            Os moradores da vila Santa Luzia ficaram estavam carnavalescos. Cegos de apetite, surdos de apetite, mudos de apetite, tontos de apetite, delirantes de apetite, contentes de apetite. E tocaram flautas, gaitas, pratos, reco-recos, panelas, triângulos, frigideiras, trombetas, apitos, trombones, violas, saxofones. Trocavam risadas, safanões, risos, beliscões, tafonés, gargalhadas, sardelinhas, empurrões, socos, gargalhadas, tapas, chutes, piparotes, cascudos.

Adanhamica

            Era uma vez...
            E “era uma vez...” é uma excelente pergunta.
Sempre andando o caminho, atualizando o placar, testando o vigor, melhor compondo a minha forma, temperando a filosofia, desligando a ansiedade, abastecendo a coragem. Que me lembro, é isso.           
            Peguei meu boné, sempre de boné e tudo bem. Quando é calor, bermuda e manga curta; quando é frio, calça de abrigo e blusa de abrigo; quando é chuva, guarda-chuva. O calçado um par de tênis amaciado como se deve usar.
            Nasci totalmente dentro do São Cristóvão. E faço as caminhadas. Estou fazendo ultimamente. O seguinte roteiro. Vou pela avenida Placidina de Araújo, vou pela rua Flores da Cunha com ipês-amarelos; e volto pela avenida Borges de Medeiros de jacarandás-cabiúnas. Essas plantas, na temporada de novembro e dezembro, vivem cheias de flores e atapetam o chão. São as ruas mais incríveis e que vão fora a fora da cidade, praticamente.
E não caminho todos os dias, mas muitos dias no mês e durante todo o ano.            
Naquele dia campeão, pretendia cumprir esse mesmo tema: ir até o centro descendo a Placidina e a Flores e voltar subindo pela Borges, bastantes árvores, etc, casas, lojas, ruas.
            Eu aprecio muito isso e raramente vou à noite. Posso ir na boca da noite, de tardezinho, o sol fraquinho, o sol descendo, o sol no horizonte, o sol com pôr do sol. Prefiro ir sempre pela manhã, quase cedinho.
Aquele dia estava se indo já ali pelas umas dezenove horas. Tudo bem. Pássaros flechando pra cá e pra lá a todo instante, joão-de-barro, coleirinha, cricrió, pomba-de-espelho, arapaçu-de-bico-preto, tico-tico, cochi-de-garganta-branca, pintassilgo. Um gavião-carijó levitando no espaço em branco, brincando na corrente de ar quente.
Energias magnéticas, elétricas, caloríficas, luminosas, ondulatórias, radiantes, hidráulicas, cinéticas, nucleares.
            Não vou caminhar necessariamente para pensar, mas o pensamento vem e às vezes me governa.
            O sol nasce, pelo menos uma vez por dia, quase sempre do mesmo lado no mesmo ponto. Acontece com o sol com a lua. O sol vem e vai, mas não muda, não se muda, mudo.
            Todo mundo sabe disso, mas às vezes se esquece.  
Quando vou pensando, penso em qualquer coisa que me vem à cabeça. Quando não penso em qualquer coisa, penso em pensar qualquer coisa ou me esqueço até de pensar. Ou penso sem saber sem querer muito levemente suavemente placidamente. Pitangueiras cheias de folhas e adornos de pingentes pitanga. Vez ou outra procuro pensar um pensamento invisível e não acho o pensar e não encontro o que pensar e o pensamento me dribla sem eu saber.
O dia marcado, eu descia a Placidina por trás do colégio Onze de Agosto, tarde macia, e um cachorrinho malhado começou a me seguir. O sol em idade de decrescimento. Quando olhei para trás o cãozinho descalço fingiu e não me olhou. Mais um pouco ele passou por mim cheirando o chão de paralelepípedos. Passou por mim, não me olhou, fingiu não me perceber, etc. Seguiu na frente, na minha frente, em frente, a cauda alçada em arco. Parava a cada latão de lixo e ficava farejando, procurando para um lado e outro da rua.   
Eu gosto de pensar enquanto caminho. É bom pensar coisas amenas leves conformes. E sempre se arranja algo para pensar até mesmo sem querer sem precisar sem concluir. A diferença entre uma lesma e um caracol. Prefiro as coisas surrealistas pra pensar. E tem gente que até gosta de caminhar ouvindo música, por quê?, porque não precisa pensar e tem gosto pra tudo.
            O que eu mais gosto, nessas horas de caminhadas, é pensar uma ideia completamente complacente. Complacentemente, que eu digo, é uma ideia fora do meu dia a dia. Por exemplo. Como seria bom e confortável e prático e saudável se eu acertasse na loteria. E faço já uns planos de milionário ricaço. Se eu fosse milionário, voaria sem demora no meu jatinho até São Paulo no estádio Morumbi pra ver o meu time campeão. E pilotaria o meu jatinho particular, junto com mais os amigos e as amigas, e iria dar um bico até o Japão ver meu time ser bicampeão.  
            Vou caminhar sempre que posso. Ultimamente é isso que vem acontecendo. Vou me distraindo, olhando as coisas, e eu olho os prédios de sete andares, os carros de lanterna acesa, um ou outro buzinando e dando adeus, bicicletas, gurias interessantes com muito cabelo até os ombros e franja caída nos olhos, vitrines com livros da moda, cachorrinhos acompanhando senhoras em passeio pela calçada, penca de pessoas paradas frente às vitrines, uma guria de cabelo curto azul, outros entrando para tomar sorvete, estudantes com mochila nas costas e celular no pé do ouvido.
            Saí para a caminhada que gosto que sempre faço sempre que posso. De manga curta e bermuda. A tarde rebentando e se fazendo noite daquele jeito, naquele dia, estava tépida. Tépida? Tépida. A boca da noite campeã estava quente agradável tranquila, muito tépida. Aqui e ali vaga-lumes taxiando entre as moitas de vassoura, são joão, cinzeiro, guamirim-felpudo, carijó, jaguaramuru, maria-pereira.
            Ainda na descida rumo ao centro, Flores da Cunha e tal - os ipês-amarelos nessa hora bem tão amarelos, ou amarelos adivinhados -, não contive minha gulodice e parei e subi no pé da cerejeira-do-mato, ali na beira da calçada, ali sob o foco de luz do poste e para apanhar um punhado de cerejas pretas de tão maduras.
É meio atitude de guri fazer uma coisa dessas, mas como ninguém estava vendo, tudo bem. Não olhei pro lado pra ver e ter certeza se alguém me cuidava. Porém, um passarinho que já estava recolhido ali entre os galhos ficou assustado, confuso, irritado e reclamou. (Um passarinho ou uma coruja ou um morcego, sei lá - não deu pra ver direito, não vi muito bem na hora do tal lusco-fusco -, mas só podia ser). Como piou na língua dele e eu não entendi, deixei ele piar sozinho, guinchar à vontade, bater as asas irritado, rir solito no mais, e continuei minha caminhada.
E fui descendo a rua comendo as frutinhas que muito me vinham na lembrança da infância pelos matos e capoeiras do bairro São Cristóvão e do bairro Retiro. Achei mesmo que o pássaro se riu, gargalhou, achei.
O sol é mecânico. O sol na verdade não para de andar de um lado a outro dentro de casa - deste para aquele outro lado do mundo.  
            Passei em frente à parada de ônibus dos alunos do Aparecida, umas 7h e 32min, dia decrescendo, hora campeã, fui caminhando sossegado, não sou de correr nem fazer o trote, fui caminhando pela calçada, olhando o chão para não escorregar e nem tropeçar e nem atropelar e nem ser atropelado e nem pisar em procedimento de cachorro, passei ali pela parada de ônibus quando uns brincalhões começaram a gasguitar qualquer coisa tipo, assim:
            - Mosquito, mosquito!...
            Nem te ligo!, não é comigo, pensei na hora. E não pensei duas vezes em mim, não pensei em nada, olhei pros postes iluminados que atraíam mariposas engraçadas. Apesar de ter achado exagero, eu nem me voltei para olhar a galerinha vaiar. Por que não vão então pra casa jogar vídeo gueime, hein?! Pensei e não falei, e achei mesmo que era um pensamento desarrazoado e que a vaia não era cabida e nem dirigida a mim.
Continuei caminhando, tranquilo, na minha, subindo o morro, já do outro lado da cidade e passando pela igreja Matriz.  
            Olhei para o alto da igreja. Pois uma curicaca vinha descendo até que pousou com calma no telhado do templo. A ave gigante escolhera descansar ali e ninguém tinha nada com isso. Aterrissou mesmo naquele enfeite em pontas apontando para o céu lá no alto escurecendo e àquela hora. Pousou e ficou olhando. Os braços e mãos nas costas. Como uma bonita e esquisita clave de sol. Um bando de andorinhas, pilotando jatos supersônicos, declarou a guerra.
E continuei andando porque era bom caminhar e a noite estava boa e crescendo campeã. Se encontrasse os meus amigos João e Cade e Rogério poderíamos jogar conversa fora até secar uns chopes com tais porções de batatas-fritas.
Uma copaié subiu sobe desde muito entre a aba da casa verde de olhos azuis e o muro de branco na rua do Basalto. É uma árvore boa de se ver. Ramos para o alto, procurando o espaço, folhas aéreas. Na aparência, ótima de saúde. Autoestima astral astronáutica.  
E fui sempre no meu passo, fazendo a minha caminhada e tal. Os pés avançando pelas lajes da calçada, contando as pedras, um saquinho de plástico “por favor me joga na lixeira”. Um pouco com tensão na batata-doce da perna direita, mas isso me era normal.
            Pela frente do boteco Pirajá, passando na calçada, olhando para dentro só para ver, ouvi o pessoal ali conversando, vi uns tomando traguinho, outros fumando porta pra fora, a tevê ligada na novela, ouvi conversas sobre futebol, sobre o governo pra ruim mais pra péssimo. Fui observando da calçada, passando no meu passo de jabuti sossegado, fui vendo e ouvindo pouca coisa.
            Já sei, ainda tive tempo de pensar andando comigo: esses tipos chegam em casa, esses aloprados, conversam dois minutos com a esposa e os filhos, e a mulher já descobre que assistiram o capítulo da novela, e ela pergunta:
            - Mas onde você estava que assistiu novela?
            - No Pirajá, vendo os melhores lances dos jogos da rodada.
            E antes que me esqueça, foi de dentro do Pirajá que um tipo que ainda não identifiquei até hoje - e se era meu conhecido ou meu meio-conhecido ou meu desconhecido, sei lá! -, gritou pra fora, talvez na minha direção:
            - Mosquito, mosquito!...
            Fiquei intrigado e olhei em volta, olhei para trás... Que será, meu?! Será que é comigo ou estou com mania de perseguição?, pensei. Deixei pra lá, dispensei, desencanei. Podia ser o apelido de alguém. Eu nunca tive apelido de Mosquito.
            No céu uma lua seca, redonda, novidade, plenilúnica, notívaga e platinada. Pulou de repente que até me fascinou. Umas estrelas por trás do mundo, vamos dizer assim. Não tive tempo de contá-las. Não quis arriscar o passo. Alguns carros estacionados em diagonal junto ao meio-fio, as placas de alguns países próximos do planeta Terra, Dois Irmãos, Cotiporã, Vista Alegre do Prata, Erebango, Vila Flores, Barras-PI, Fagundes Varela, Protásio Alves, André da Rocha, São Jorge. O vento soprando calminho nas folhas dos sapuvuçus, e nas palmas da pindobeira.
Uma casa baixa com uma vaca de fibra de vidro parada na varanda. E eu olhar para as árvores me faz bem. Não, não ia chover, talvez amanhã, pensei, só lá por próximo sábado, catapultei. Sempre chove no sábado que é pra alegrar a chuva do fim de semana. Contando cada quadra uma lua exótica e outra quadra. E aquele fim de semana seria...
Levemente pensei telefonar pra Alice e sugerir jantar fora na pizzaria ali em Veranópolis, por exemplo, ou mais pra lá em Caxias do Sul, ou ainda mais longe em Nova Petrópolis, fazia três dias quê.
            Passei em frente de uma loja amarela com a tabuleta explicando no alto da entrada: a Hixcariana, loja cantinho dos bichos de estimação e pets e mascotes. E um cãozinho colorado latiu por dentro do cercadinho de ripinhas pintadas de azul e branco. Me cheirou, me visualizou, me uivou, me olhou com desprezo surpreendente, ergueu o focinho me cheirando e me latiu na língua fácil dele que eu já traduzi na hora, assim:
            - Mosquito, mosquito!...
            Não acreditei, claro. Desde quando cachorro late coisas traduzíveis, legendáveis, dubláveis?! Isso não existe, meu!, pensei.
Continuei subindo o morro pela calçada de cá da Placidina de Araújo. Acontece com a lua com o sol. Os guabijus campeões estavam largando frutinhas pelo chão que era uma barbaridade. Tentei alcançar umas quantas e estavam muito altas e era perigoso escorregar, mas... mas peraí, meu! Me caiu a ficha. Que história foi essa de cachorro latir em português?! Não, não era uma boa hora para ficar imaginando coisas do desenho animado. Não era momento para ter esse tipo de absurdo no meio dos pensamentos. Eu estava surtando, estava sonhando extraordinários, levando o mundo na brincadeira, caminhando com ideias na altura das nuvens, só podia ser. Quase voltei falar com o guaipeca, mas resisti, desconversei, disfarcei e aí pensei... sei lá!
            Na esquina da Júlio de Castilhos com a Presidente Vargas, passando esbaforido pela frente da barbearia Anaiá, o próprio barbeiro seu Aracati me olhava da soleira da porta e me acenava com a mão dele. E ele repetiu um refrão com a voz arrastada igual a dele mesmo, um bordão que vinha me acompanhando e me seguindo pela caminhada não sei desde onde e por quê, alguma coisa que eu ouvia e não assinava, esse estribilho mesmo:
            - Mosquito, mosquito!...
            Mas será que é o pé da cobra, meu! Isso é comigo ou estou piorando?! Onde se viu tamanha viajeira, meu! Eu pensava essas e outras e me questionava. Mas também pensei que a rua é pública e democrática e campeã e qualquer um pode gritar o que quiser.
E quase voltei pedir maiores explicações ao seu Aracati. Olhei para trás e ele havia sumido. Olhei para os lados, olhei as solas dos tênis, olhei para trás outra vez... continuei a caminhada. Hum!... será que era a dengue? Que será esta história de mosquitos, pernilongos, borrachudos, hein?! Não pode ser comigo, pensei, nunca tive esse apelido, repensei!
            Olhei a lua lunática. Agradecer àquela noite como aquela noite. Sem aquela noite a lua não seria necessária, não seria possível, não seria impossível.
            O mundo dá voltas e voltas. O tempo não passa. O rio corre para a foz. Depois, pensando bem, o rio tropeça em algumas cascatas, o vento faz o tempo revoltar arrepiar, o mundo não sai sequer das idas e vindas de um globo giratório.  
            Parei no alto do morro de lá. Ali num degrau da escadinha da Gruta, no Horto. Respirei uns cinco minutos, dez minutos, talvez vinte, respirei, bebi água da garrafinha, olhando a noite com ruídos de noite, carros rodando, tevês nos telejornais, olhando a cidade campeã um pouco do alto. Era legal e eu apreciei e aprendi e me diverti.
            O vento soprava nos caaxiras, marmeladas, sapopemas, angicos, cragoatãs-brancos, paineiras. Noite astronômica. Era outra coisa, outra coisa!    
Tinha até um pinheiro araucária campeão falando com a lua bola de prata. O pinheiro abrira os braços. A lua tirava fotos com o celular. Depois conversaram mais um pouco. O pinheiro não ia embora.
Será que em Aquidabã essa hora da noite, será que lá está chovendo?, pensei. A hora era a mesma, talvez um pouco mais cedo. Aquidabã devia ser legal, Aquidabã supercampeã, continuei pensando. Aquidabã tem um nome bonito. Deve ter uma pracinha chamada praça da Bandeira ou praça Tiradentes ou praça Landell de Moura.
E o ar que se respira e a água que se bebe. Passaram duas potrancas no trote. Uma delas tinha rabo de cavalo, a outra uma faixa de pano branco segurando as crinas. Trotavam num galopar esquipado como duas bonitas azulega e baia.
A praia de Arambaré. Que será que é. Nunca fui, um dia irei. Tem que estar ventando por lá, pensei. Fazendo ondas no mar. Lugar de sorte. Arambaré foi achado.   
E bebi mais um gole de água e me ergui e vim embora. Tudo estava bem. Queria pensar algumas coisas. Fui pensando o que pensar. Se a ideia não pintasse, paciência. O que fazer nas férias de janeiro: pescar na beira do rio Sabia, acampar na beira do rio da Prata, nadar nos remansos do rio Itacaiúnas, remar canoa nas corredeiras do rio Cacondé junto das terras dos oro-uins. Já eram uns três para quatro quilômetros de caminhada, lua matemática, meia-volta volver. E tudo bem.
            Entrei pela rua Pinheiro Machado e mais adiante pegaria a rua Visconde de Mauá até topar com a avenida Borges. A lua flutuava, chutada pra fora no espaço. Pela altura passei ali em frente do ginásio do União e um camarada de outros futebóis me jogou essa, me cumprimentando, me saudando, me alugando:
            - Mosquito, mosquito!...
            Dessa vez eu estranhei e estranhei o meu amigo. Quando se viu, meu! Parece noite de mosquito e mosquitos! Mas pera aí!... E comecei a reparar que não eram só mariposas pelo espaço. Havia mais que isso. Talvez alguns besouros, zumbidos e outros insetos campeões. É, podia ser!
            Pensei telefonar pra Alice e convidar até uma pizzaria em Nova Bassano, por exemplo, ou mais longe até Vila Maria, quem sabe lá por Santo Antônio do Planalto, três dias quê, é muito.
            A lua parada no meio da estratosfera. A lua com a cara e cheia de pontos alternados alternativos. A lua nasce de uma árvore, de uma cidade, de um sétimo andar, de um açude, e depende.
            No fundo da panela, no centro da cidade, e subindo para São Cristóvão, antes Sagrada Família, a loja Manaí: calças, camisas, etc, calçados, e com moças ajeitadas em uniforme verde segurando a porta de vidro. Algumas pessoas sentadas na varanda tomando chimarrão. Subir todos os santos ajudam. E eu estava ali pra isso.
            Dali mesmo olhando o alto, se via o céu lá pro fundo contado de estrelas Marias. O Cruzeiro do Sul voando na constelação. Céu campeão cumprindo ordens.  
            Por perto da casa do tio e tia e primas - que eu não ia entrar pra tomar um mate e bater um papo, deixaria pra uma outra vez, quem sabe -, por ali nessa altura, uns carinhas que desciam na contramão, e eram uns quatro, um deles me olhou riu e disse, uma velha canção da moda, só podia ser:
            - Mosquito, mosquito!...
            Passei por eles, eles quatro passaram por mim, eu parei, foram indo, esperei tomarem uma distância, e xinguei cobras e lagartos com arame farpado. Em voz baixa, claro. Chegando a uma única conclusão possível:
            - Me deram apelido de Mosquito e eu nem imagino. É, é isso mesmo. Ou sei lá, meu!
            Me sentia já com certo cansaço e meio requentado pelo corpo inteiro. A caminhada fora de uns três quatro mais a volta de uns três quatro quilômetros. O normal o de sempre, mas cansa, cansou. Tudo bem, era isso mesmo. Obrigado.
            Olhei a padaria Itaguari. A padaria com vitrines rebrilhando, e motivos natalinos, heras imitando plástico, pinheirinho imitando plástico, nuvens imitando algodão, bonequinhos imitando família de Belém do Pará. E pensei entrar por que não entrar. Um pão de queijo, um pastel de queijo, uma fatia de bolo de chocolate, uma fatia de torta de chocolate, um suco de açaí, um suco de caju. Parei no vidro como um inseto. Fiquei trocando sabores entre um bolo de laranja e um bolo de pequi. Pensei, calculei oito ao quadrado, muito, assaz, bastante, foram três voltas ao mundo pensando. Me sugeri entrar e comer uma massa-folhada. E decidi mesmo passar vontade e seguir adiante embora. Oxalá! Parabéns! Queria comer qualquer coisa doce porque estava em fase de crescimento. Paciência.
            O cãozinho cheirando pela beira da rua. Meio de lado no trote das quatro pernas. Me apareceu ali na entrada dos postos de gasolina. Olhou para o latão frente do hotel e continuou pela rua, pelo meio-fio. Era o mesmo vira-latinha de manchas pretas e brancas, cauda aérea em arco, língua pendente, orelhas grandes, língua de fora, etc.  
            Passei por baixo dos araçás da calçada perto de casa, na calçada de casa, abri o portãozinho e tal. E cheguei em casa, e fui subindo a escadaria, abri a porta, o quarto, o cômodo, a peça, e fui direto tomar meu banho, e me olhei no espelho de passagem... mas... peraí, meu!...
            - Mosquito, mosquito!...
Foi o que gritei comigo mesmo ali no meio do espelho que me devolvia:
 - Mosquito, mosquito!...
E mais mosquitos. O boné... Não, não era possível, meu! Não tinha acontecido comigo! Meu boné estava sujo de procedimento de passarinho, cara! E um enxame de mosquitos rodeava, acompanhava, talvez de onde, seguia desde sempre, a caminhada toda... uma sujeirinha branca rodeada de mosquitos.
Pensei, repensei onde poderia ter sido o incidente... Só pode ter acontecido na hora que fui roubar cerejas da cerejeira-do-mato, pensei. E o passarinho ou coruja ou morcego, dono do pedaço, acabou se vingando e me sujando, só pode, pensei. Aquela risada ainda ressoava nos meus ouvidos. E o aladinho tinha feito procedimento no meu boné, etc. E a sujeirinha atraíra os insetos e os danadinhos ficaram me acompanhando o itinerário todo da caminhada. E o pessoal da rua tentando me alertar:
- Mosquito, mosquito!...
            Que pena! Que sorte! Que mico! Que nada! Que mala!

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O ARCAZ

O Arcaz


         O tempo o mundo o movimento o sorteio: são entes irmãos quadrigêmeos que sempre existiram no mundo.
         Entes singulares. Prontos para qualquer coisa. E pedem pedem muito.
         E os dias se sucederam, mais as noites, em par ou ímpar. Alarido de gralhas-do-pantanal.
         Os entes irmãos todos juntos ou soltos tudo podem, tudo podem.
         É pra ser assim.
         E bem dispostos, dispostos, procuravam um assunto forte para conversar. Comiam algum tipo de cogumelo. Vestiam cores gigantes de azul em verde do vermelho no amarelo.
A paisagem sempre ali.
         O tempo falou para os irmãos - pronto para encolher a perninha direita e esconder a cabeça debaixo da asa esquerda -, admitiu, ronronou:
         - Acho que vou dormir.
         De vez para vez - e se virando de cabeça para baixo, plantando bananeira -, o mundo concordou, e disse numa questão:
         - Mais alguma coisa?
         O movimento cochilou. Pescou. Cabeceou. Seguiu os passos.  
O sorteio franziu a testa. Baixou a aba do boné. Tinha muito e tudo por fazer.
         E o sol nasceu exato para mostrar como os milagres se fazem milagres todos os dias e bem feitos. E isto é bem mais provável.
A ave anambé-uma voou pousou aterrissou até ali na fava-de-três-folhas, e riu de qualquer coisa engraçada e piou:
- A árvore é minha!
         Daí a dias.
         Passagem estreita sinuosa acidentada, o rio Obim tropeça aqui e ali e cai, uma vez ou outra vez, em degrau, e altos degraus. Arapoca-branca, paricá-da-terra-firme, tanheiro, sobro, cairuçu-do-brejo, espinilho, plantas de sorriso tonto.
         Já em mais ou menos dias a situação se definia, definia.
         Quatro da tarde, como um quadrado ambulante, os quatro saíram juntos a caminhar. Todos olhando ao redor. Um procurou admitir o que o outro imaginara.
         O dia era aberto, a tarde era agradável na sombra do tamboril-da-mata florido, o canto do neinei, bicicletas de gurias em cabelos ao vento pela calçada com algazarra gigante.
         Os entes são imateriais os dias longos os dias cumpridos.
         O mundo experimentou assobiar uma canção comum típica do guaracava-cinzento. O movimento colecionou pedras soltas de arredores de Sítio do Mato. O sorteio fez brincadeira de pular no rio Gargaú. O tempo copiou uma folha de centáurea-do-brasil.
Quem mais rápido?
Lá pra cima, lá pra cima tudo azul, mais azul que qualquer coisa mais azul. Lá por cima tudo aquilo por fora e por dentro.
         O mundo nada perde, não perde alguma coisa, entende.
         O sorteio escolhe cantar o que todos e todas merecem ouvir.
         Todos os quatro habitam igual ou trabalham igual. São assim mesmo. São indestrutíveis.
         O movimento é muito exigente e grandessíssimo.
         O tempo tem pensamentos longe, fechando a tarde.
         Entes moços demais, comem demais, bebem demais, idade correta demais. Uma feita tiraram férias para o alto rio Purus, Boca do Acre.
         São os quatro entes livres. Sempre aonde um vai os quatro estão. Quarteto intergaláctico.
O que se pode dizer?
         A lua apareceu e começou a seguir as horas da noite os grilos os morcegos os pios dos caburés-ferrugem, entre outros. A lua deslizando na parede estelar.
         Um dia como outro qualquer, pela manhã, todo o ambiente esperou o sol e ele não apareceu. Assim, choveu desde cedo e o dia chuvoso. A chuva lá pelas tantas em vez de parar engrossou. Chove agora com tudo.
Nasceram flores de orquídeas e de bromélias de todas as cores e as abelhas e zangões e vespas não saíram mais do ambiente, os louva-a-deus, os escaravelhos, as formigas, as borboletas, as abelhas gostaram muito.
         E as eras com os quatro entes irmãos inseparáveis - e que persistiram muito perto um do outro brincando juntos e namorando juntos as mesmas gurias juntas, habitaram o mesmo cômodo da itaquatiara (pedra pintada) -, as eras tantas praticamente se colocaram lado a lado uma a par da outra.
         Foram eras, que bonitas e estranhas quando se viu, próximas aos quatro irmãos sempre juntos.
         O movimento pintou as pedras da lapa com tinta de jenipapo. O sorteio contou as folhas da corticeira. O tempo aprendeu a ler de trás para a frente de cabeça pra baixo. O mundo trocou o dia pela noite.
         O sorteio procura estar em por tudo e sabendo enigmas segredos mistérios. O mundo coberto de azul-ferrete longe. O movimento se deixa abalar por nada, por onde. Um momento depois, o tempo desparafusa:
         - Difícil esquecer.
         Árvores com os cabelos esportivos ao vento ao vento, pássaros com as pontas das asas às costas, com as pontas das asas nos bolsos das calças, com as pontas das asas nos bolsos do casaco, com as pontas das asas cruzadas sobre o peito. As cigarras melhorando as reticências de som no mormaço do meio-dia, sol amarelo-pequi, árvores sem sombra.
         O lagarto-de-papo-amarelo correu durante o pedregulho e disse, mostrando a língua:
         - A pedra é minha!
         Conversavam tranquilos os entes, e tanto sem mudar de assunto. Nada era secreto para ninguém. São transparentes.
Daí, noite velha, as onças-pintadas grunhiram roncaram bufaram urraram que os pais do quarteto foram sumidos do mapa.
Aqui as eras se separam um pouco, se distinguem. A partir. Há uma abertura nos conformes. Há separação de quatro interesses. A coisa muda de lugar de figura de modo de sistema de conversa. Tudo balança. Um M de mão na encruzilhada das linhas da mão.  
Os entes já não são os mesmos de outras eras e eras paralelas passadas. Os irmãos desconversam. Evoluem.  
Quando os irmãos se encontraram de novo outra vez se viram de novo, perceberam que tinham muito, que tinham mudado. E todos falaram ao mesmo tempo. Mudaram para fundar quatro impérios distintos. Beberam cervejas comendo queijo de Minas. Separando a laranja em quatro gomos suculentos.
Mudaram para dentro para fora?
E os quatro entes negociaram pela herança do país dos pais e se dissolveram pelos quadrantes, se extraviaram bem para os lados cardeais, os quatro ventos principais.
E por aí foi.
Tudo completamente mudado as novas eras seguindo depois. Eras cheirando a novo em folha.
Os entes irmãos separados autônomos, era uma era a ser inaugurada, mas atuando separados. Cada um com seu problema. Era após era.
Era possível redescobrir?
E se passaram centenas de anos rios ventos continentes.
O rio Uruçuí-Preto borbotou para o alto da montanha de pedras. O rio milagre, o rio certo, o rio bom. O rio não muda, e mudo, e surdo, e cego como as formigas.
Tarde clara ao ar livre, gritaria de suiriris-cavaleiros nas aroeiras. Clara tarde ao cair livre.
Choveu muito, várias vezes, chovia na janela da begônia-sempre-florida, chovia na janela da vassourinha, chovia na janela do ananás. Convincente contente sorriso na mão, o cipoaba escalava pelos braços da maria-preta.
Passaram-se semanas, hora a hora, dia a dia, de par em par, longo em longo espaço, shopping às 11h de segunda-feira, número a número, cestos e cestos de cajus maduros, de um lado e de outro, e sem mais nem menos.
Aconteceu a pirajá. Nasceu o rio Correntes. Apareceu a perdiz do lado do perdigão. Voou já o gavião-real. Dormiram de dia e caçaram à noite, uiraçabas nos ombros, o jaguaretê a jaguaretê. Brotou o crautá. Brincou o quati. Murmurou o pé de ubiratã. O elétrico e metálico guanumbi. Ouriço-preto roeu coquinhos de pupunharana. Atas carregaram recorde de recortes de folhas verdes da porangaba. Grasnaram as gralhas-do-mato nos pajaús. Explicando sentimentos, o saí-açu-azul cantou trinou alegrou no pé de canela-sassafrás - esta planta com a copa já coada pela luz do novo dia que vinha nascendo ao fundo ao distante ao horizonte.
As folhas verdes do cajuí ventilam o ar no vento que passa. Dia rápido e importante. Aves medindo horizonte a horizonte com a ponta das asas.
Pajé Irara da nação guajá falou em anhangás.
Assim mesmo corria, já volumando progressivamente, já satisfeito risonho, já incontido espumoso, já rolando com as pedras, o rio Jaibaras.
Se plantou, na subida do morro, a cidade (passarada) de Aratuba. Se plantou, no meio do vale, a cidade de Araçuaí. Se plantou, no belo dia otimista, a cidade de Espera Feliz. Se plantou, do lado bom do sol preguiçoso, a cidade de Guaraciaba.
Não chovia não fazia calor. Manhã sol azul do espaço. Nuvens de abacaxis.
Se plantou, descendo o morro pelo lado sul, o rio das Contas. Se plantou, para brotar nas pedras lisas, o rio Urucuia. Se plantou, no planalto alto de clima ameno, o pico dos Marins e perto de Piquete. Se plantou, na região dos papagaios-de-cabeça-laranja, a serra do Japi. Se plantou, no meio do sertão típico das flores-de-quaresma, a cidade de Aquirás.
E isso ainda é muito é tudo é ninguém é nada.
Então, como história que o pajé Irara Guajá contou, esta maranduba:
- Cambacica recebeu uma arca de presente de prêmio de brinde de oferta. Esperadamente? Feita de madeira de jipoúba. Cheia de conteúdo pesando e soando lá dentro. Não quis abrir ali na hora de imediato e ver de repente o que continha dentro o conteúdo. Pensou. Não quis. Caminhou até ali durante o cômodo. Não queria saber o guardado da arca? Se debruçou na janela olhando um tanto da sua interessante cidade de Catuji - lugar ótimo de morar e excelente de visitar. E decidiu deixar o assim o baú ainda embrulhado no papel enfeitado decorado e com fita vermelha amarrada em laço, e correr contar mostrar exibir o conteúdo primeiro e com em companhia da prima Enxuí.
“O quaraci já nasceu. O saixê atravessou na igara das nove horas o rio Guaporé - este que nasce na chapada dos Parecis. A família do sagui-amarelo cruzou no maracatim o tal rio Truçu - este que banha a terra formidável dos mariatés. Os rios são lugares dos caminhos e senhores dos caminhos e guias dos caminhos. E rio Beberibe e rio Capibaribe e rio Capibaribe Mirim.
“E Cambacica subiu morros e desceu morros com a arca nos ombros nas costas nos braços na cabeça setenta para oitenta quilos. O quaraci mágico de dezembro a março subia em arco contínuo para o alto azul de sempre. Um quaraci antes do céu.
“E a prima Enxuí morava a vinte e dois quilômetros lá para o alto do morro do Taió, em Santa Terezinha. Lugar este muito afastado de Palma Sola. Lugares estes muito afastados de Vila Nova dos Martírios.
“A uma e uma iam e vinham as horas dos dias das noites. Ora quaraci ora jaci.
“E começou a chover. A chuva batia com o vento na janela da barba-de-lagoa. A chuva esbatia na janela da unha-de-vaca.
“E se entendia o que se falava grunhia gania miava ululava. As árvores sussurravam. As aves murmuravam. Os insetos titilavam. O cavalo fouveiro - vestido na moda, vestido a passeio, vestido conforme -, trocava orelhas, batia quatro patas, soprava hálito milho verde.
“A resistência física de um rio passa pela geografia.
“Não obstante, Cambacica escolheu o seu caminho com seu passo de gente remoçada. Colhia e comia mungubas das mungubeiras da beira da estrada. Quando subia morro parava e olhava para trás, olhava admirando a paisagem que deixava. Depois, instantes, concordava com tudo e ia em frente, deixava para trás, perneava com otimismo. Existem mil caminhos e duas mil e quinhentas caminhadas. E nunca a puranga, nem mesmo, nunca a guria antes uma fruta ou outra fruta lhe soubera tão bem.
“A guria caminhava por planalto médio, estrada de terra vermelha, cerca de arame farpado dos dois lados, estrada poeirenta no meio, sinuosa como nunca se viu, pipiras-pretas assobiando pios engraçados nos pés de tarumã-de-espinho.
“O rio embarcou o seu próprio roteiro.
         “Pelo rumo, pela picada, pela trilha, Cambacica foi brincando, distraindo, reparando, descansando, cantando, assobiando, carregando, parando, descascando castanhas-do-pará, imitando palhaçadas dos passarinhos, trocando murmúrios com as copaíbas-marimaris. Já na bacia do rio Verde Grande. Guria leve entre 18 e 19 anos, jovial linda como sempre, toda empinada, idade correta, muque, cabelos vermelhos esquentando o ambiente, pescoço liso, motivada, braços cheios, lábios grossos, nariz de pedra afilada, sorriso rio Cassiporé, cabelo estrondoso. Enxuta fina dura seca palmeira catolé. Dentes verão nos dentes, quadril estreito e conforme, olhos de Balneário Gaivota. Chapéu de palha trançada de ouricuri e amarrado no queixo com fita verde. Tinha a consciência limpa e tranquila e verde e otimista. Descansava a arca no chão e corria atrás das borboletas azuis, toda tom galante, verde-amarelas, vermelhas, laranjadas com pintas pretas, roxas, numeradas, camufladas, tamanhos, esvoaçantes, etc.
         “Uma hora da tarde de vinte e um, pela Vila Bela da Santíssima Trindade (cidade com mais nome do país), parou para comer o prato típico. E visitar as paredes. Um e outro caneleiro-preto trinando alerta. Todos num dia de quinta-feira e de quaraci forte.
         “Cantou o sanã-de-cabeça-castanha bem no alto da copa da cuaxinguba. Flautou o trombeteiro no meio da saguaraji. Maracanãs-de-colar almoçavam entre as palmas da barriguda. Quero-quero cheirou chuva. Sapo-da-areia cheirou chuva. Surucuá-de-barriga-vermelha viu chuva. Juá-mirim tomou chuva.
         “E cidades passaram por Cambacica, e a guria passou por elas seguindo o rio.
“A guria olhou e viu as árvores e seus frutos, seus ouvidos viram os pássaros de todos os assobios, seu nariz viu as fragrâncias das bromélias, sua pele viu o riso do rio Tererê. Assim estavam todos melhor assim.
“Rio por perdido, rio por achado. Rio por perto, rio por limite, rio por natureza. Rio abençoado.
A Cambacica riu igual junto e dizia, entre risos:
- Eu rio por dentro, rio por fora.
“Por ali um passo, por lá um cruzo, por aquele um atalho. Ela subiu coxilha, desceu coxilha, passou um boqueirão e chegou a uma canhada. Cidade de Alegre, cidade de Bandeira e rio Iraí. Cabelos de franja nos olhos, etc, cabelo formidável, cabelo amarrado com rabo de cavalo. Parou para olhar o tucano-de-bico-preto, escutou o gorjeio do tiziu, trocou pipios com o fruxu, bateu ferrinhos com o ferreirinho, grasnou com a narceja-de-bico-torto, tagarelou com o frango-d’água-azul, estalou língua com maitaca-verde, cascalhou uma risada embandeirada com o joão-pintado. Beija-flor borboleteou, borboletas beijocavam.  
“Então, voando nas asas dos pés, Cambacica passou pela localidade de Jandira, na sombra do maciço de Baturité, nos saltos das águas do rio Pacoti. E, muito boa mesmo, a cidade crescia à margem direita à sombra da beira do rio.
“A luz toda do quaraci caminhava pressa pelo fundo do mar para acordar o dia de radiante. Grande é a floresta, ligeiro é o rio, flutuante o espaço, paciente a montanha de pedras. E o quaraci dentro clareou no começo do dia. Tinhorões arriscaram um tom verde, tangarás-falsos renasceram de bom humor. Um azul compromisso, um azul volátil, um azul missão-cumprida, um azul interpretativo. Antes da serra da Mantiqueira as tais de Rio Claro, Rio Bonito, Rio das Ostras, Rio das Flores, depois atrás da serra da Mantiqueira as tais de Riqueza, Capela, Mafra, Canhoba. Tudo reverberava, areia quente e trescalante.
“Mas, por que não se sabe. Os bichos que viajam e o que falta aos animais.
“Cambacica passou umas horas do dia imaginando como seria esportivo se fosse perambular por Curitiba. Girou essa ilusão essa viagem em torno do pensamento imaginoso. A ideia ia e vinha com escalas em Londrina, Cascavel, Apucarana, Foz do Iguaçu. Se acostumou. Buscou, trouxe, aproximou outras cidades, Maringá, Nova Prata do Iguaçu, Loanda, Guaraqueçaba.  
“A resistência original de uma cidade passa pela história.
“Uma tarde de sábado, baú de chumbo arrastado, perto do rio Munim, longe um pouco da cidade Novo Triunfo, Cambacica deu em “atenção e cuidado” e virou uma capivara. Olhou para os lados e saiu de fininho e ligeirinho e grunhindo. Foi se resolver no meio do maricazal. Os dias e as noites comendo frutas caídas dos coqueiros. Cresceu bem, o pelo brilhante, as orelhas pequenas, grunhindo beatífica, as pernas curtas e fortes, praticamente sem cauda aparente, etc.
“No ano da graça de 2008, depois de quinze anos vivendo no mato como capivara, nadando nas piscinas do rio Pedreira, a tipa voltou a ser gente outra vez. A guria olhou as mãos, olhou os pés, olhou os braços, olhou o cabelo comprido de anos e anos sem pentear, reconheceu a pessoa dela mesma no espelho do açude, se admirou do cabelo espetado, olhou as unhas compridas e achou tudo tão bom.
“Depois a mesma guria seguiu, depois passou umas horas, depois prosseguiu, arca no ombro de cá, e mais logo reparou espantada nos besouros que esvoaçavam em tudo em torno ao redor. Árvores magníficas e brilhantes ao tomando banho de quaraci, cambará, cravo-do-campo, erva-mate, cravo-do-mato, carqueja-amargosa, mairá, cambroé, andiroba, caubi, macaíba, camacã, murtinha, manjerona-do-campo e muitas muitas guassatongas. Rio Anil banhava displicente a localidade de Ponto Belo. A luz nova do dia, a mata à luz nova do dia, etc. Frutificavam as goiabeiras-do-campo. Nidificava a cerejeira-da-terra. Recendiam amarelo os butiás-da-serra. Avencas se faziam confidências. Tinteiras-dos-mangais abraçadas se despediam pressurosas.
“Cambacica - monumento que salta à vista, e corpo estofado liso, sacudida -, confessava o motivo conforme o prometido.
“O rio deixa rasto por onde existe.
“Estava calor, estava claro. A guria desceu até o rio Chopim. Molhou molhou as partes interessadas alcançáveis. Bebeu um pouco com as mãos. Molhou atrás o pescoço, os braços, lavou a cara, sentou na pedra, passou a mão molhada nos cabelos soberbos em penteado Recife.
         “Não obstante, começou a cair uma chuva de verão, passageira, temperamental, abundante, extrovertida, e Cambacica se abrigou sob uma árvore gigante, uma canela-capitão-mor.
“Os raios estouraram contra o céu e Cambacica olhou o céu todo estriado bonito trincado chicoteado riscado rabiscado rasurado. Quando mais, desceu uma noite em pleno dia das onze horas. Em um milionésimo de segundo, um raio-relâmpago estourou com a copa da árvore gigante. Foi o bastante. O golpe de explosão e raio foi fez o chão tremer os ventos assobiarem o céu ao contrário o ar parar no espaço. E o raio destruiu sem nenhum aviso sem nenhum compromisso. Com a pressão, a árvore estourou cheia de faíscas, e Cambacica foi jogada também para o alto a uma distância e caiu ao solo e já com os cabelos em pé ouriçados alçados enfeitados de folhas caídas. Começou a chover como ninguém.
“Mas amorosamente, mas toda acintosa, mas se achando - mais gostosa do que nunca se achando -, e duas horas em após, a cunhantã retomou o caminhar o passo solto e a jornada. Chuva exitosa já-já passara. A guria - carne pouco ampla distribuída rija -, olhou o céu também se renovando, tauató-pintado espiando o ambiente, e daí. Ela olhava sem cansar de ver, cabelos pretos bem negros explosão de negro, etc. Já muita luz, muito dia, muito espaço, muito calor, pouco mais de cores variadas.
“Rio Maracapi, rio abaixo, rio construiu umas casas triangulares de vidro concreto ferro gesso madeira fibra de vidro cimento com janelas triangulares com porta triangular.
“E Cambacica adquiriu um carreto de puxar para carregar a canastra. Como uma mendiga andarilha. E descia um morro anônimo pela altura da BR-101. Era tudo lento em relação aos carros automóveis caminhões motos bicicletas ônibus autos. Estava ainda na subida do morro sem nome e vendo muitos pés plantados de criúva criúva criúva xaxim criúva. Longe distante afastada uma lenda da cidade de Porto Velho, por exemplo.
“Para falar tudo, a guria virou uma maria-de-olho-claro e foi cantar no galho do sorocó. Ficou por aí uns dias procurando namorado para trocar figurinhas. Namorou uma semana foi acaso escolher entre três quatro pretendentes. Nidificou nos ramos ali mesmo do sorocó, num canto longe do vento, afastado da chuva, difícil para os predadores. Colheu por ali e por aqui uns grãos umas sementes umas frutas da estação pitangas guamerins sete-capotes milho perdido no acostamento da estrada. Teve três filhotinhos que amamentou até ensiná-los a voar uma semana de existência de sorte.
“De repente, tudo mudou do dia para a noite. E maria-de-olho-claro já não sabia mais cantar gorjear pipiar e nem voar sobre tudo. Aterrissou na sombra de um tucum-do-campo. Se despediu das asas e caminhou para frente. Tinha morros e coxilhas para ultrapassar no seu passo de guria determinada, arca na cabeça, pedra na cabeça, chapéu pintado de amarelo feito de palha trançada de babaçu na cabeça.  
“E Cambacica e Cambacica seguiu seu futuro promissor. Assim por diante. Morou três meses em Delta, rua Presidente Costa e Silva, edifício Jaruva, número tal, vista para o rio Carinhanha. A escolha das esquinas, trevos, encruzilhadas, curvas, entradas, saídas foram acontecendo na vontade do acaso decididas assim na hora. Se deparou com um jacarandá-cabiúna, se olharam, se abraçaram, ela perguntou primeiro:
- É difícil ser peixe?
- Não, não me lembro.
“Os dois olhavam e apontaram a floresta atlântica. Cordia-preta pousava a jandaia-de-testa-vermelha. Socó-boi-escuro voava a amêndoa-de-espinho. Mutum-de-fava divertia a araçandiva. Curaru-das-caatingas embelezava a batuíra-de-coleira.
“E logo um pouco depois, logo depois, essa Cambacica seguiu seu curso normal em fora. Um pouco tonta. Um pouco aliviada. Um pouco mais pra lá do que pra cá. Bem visível. Entre Olindina e Brejetuba. Um pouco bem pisada na altura dos rins sentindo. Um pouco desgrenhada. Cabelo faraônico. Olhos afônicos. Dentes superlativos. No geral uma arquitetura original rápida e excelente.
- Em uma hora, uma hora e meia - me digo - chego lá em casa de Enxuí. Essas mudanças de temperaturas e climas e ambientes não me preocupam, pois.
“Rio Amapari acima construiu um ginásio de esportes, estacionamento, shopping, parque de diversões, jardim muito grande especializado em mirueiras, nhanicas, quinas, aguaís. 
“Rapidamente, o quaraci levantou e rapidamente as partes foram se destacando do conjunto e rapidamente os pássaros eram os primeiros pulando da alvorada. As marias-leques em bando.
“O coco-de-espinho carregava um cesto de jabuticabas maduras e doces para vender na feira de Palmeirais. O grão-de-cavalo um cesto de folhas verdes esmeralda direção da escola 11 de Agosto. A pé-vermelho carregava um cesto de pães de queijo feitos em Presidente Médici. A aracuã-de-sobrancelhas um cesto de beijus fritos moda Campo Maior.
“Numa certa altura da jornada impossível. Muito afastada de Tufilândia. A cunhantã sentiu um calafrio umas cócegas um formigamento nos pés que chegou até as mãos subindo dos pés às pontas dos dedos das mãos. Parou e se dobrou em duas à margem do rio Água-Quente. Virou ipê-roxo e floriu na primavera. Esperou mais três quatro meses. Apreciava a paisagem com paciência. Falava sozinha ou com parcimônia. Apreciava a paisagem com as mãos nas cadeiras. Em pé com os braços cruzados, sentada com a perna cruzada.
“Um dia, meses depois, arrancou raízes, continuou a caminhada, sombra móvel, arca no arrasto, já virada outra vez em pessoa contente, gingando o corpo como dançando, se desfez do aparato arbóreo e virou voltou a ser gente bípede e continuou o caminho para a casa da prima Enxuí, uma vez.
“Pronto, a paisagem já tinha mudado. Ajeitou o rabo de cavalo. Ressoavam os sentimentos apaixonados do par de caracoleiros. Os urubus-da-mata buscavam os altos pinheiros-do-paraná. Caurés discutiam o valor da moeda nacional. Esmerilhão escutava prosa alheia e não falava nada. Picaparra conversava com o primo taperuçu-preto. Tempera-viola aprendia sanfona de ouvido.
“O quaraci da banda do planeta. As cigarras existiam no meio do dia. O chão vaporava moqueado. Gavião-de-asa-larga procurando do céu do alto. Nem sombra da sombra-de-vaca. Uma sabiá-coleira existia sim.
“O rio Longá alagou perto da mutamba-preta. Era bonito. Tinha até também um horizonte vindo da margem do lado oeste. Para lá o quaraci ia deitar. E acordar a jaci. Faltava pouco, a cararibá já esticava seu longo e fino perfil pela margem do rio Longá. A cigana foi se deitar. Os vite-vites-uirapurus foram dormir. A corujinha-sapo tomava café da noite.
“Cambacica tinha o ombro marcado, tinha o outro ombro pisado, tinha o ombro dolorido, tinha o outro ombro enfaixado, tinha o ombro mordido, tinha o outro ombro cabisbaixo de tanto pesar a canastra-baú recheada de coisas e feita de piúva-do-campo.
“A guria cunhantã viveu mais três anos como poáia. Viveu encurtou desabou desapareceu sumiu um curto espaço de meses, ressuscitou como garrincha-cinza. Depois, com o passar das primaveras, foi ficando verde, foi esverdeando, e se transformou em camará-de-lixa. Quando finalmente passou o ciclo e voltou a ser guria cunhantã, e se viu, entendeu que tinha passado por um longo processo  poáia garrincha-cinza camará-de-lixa.
“Então, quaraci cada vez mais lento, e formidável, mergulhou no crepúsculo, procurando a noite, descendo para os lados do rio das Rãs, achando o pé de cumaru-amarelo, procurando cavernas, destacando pernilongos, lanternando vaga-lumes, transformando morcegos, etc, tomando sopa com jaci.
“O rio sempre passa onde fica a cidade a aldeia.
“Depois de oito nove dias e noites, Cambacica. Após esses caminhos caminhados, lugares conhecidos. Contente com o baú nas costas nas costas. Metade dos dias e noites sem dormir por causa do calor. Depois enfim até que chegou na casa prometida da prima.
“Já havia estado ali de pequena e em outras oportunidades. Reconheceu a rua Jaguaruna esquina com a Pacatuba. Ruas amparadas por alas de mirindibas. Gosto temperado no ar do rio Vila Nova. Nem precisava dizer que ouvia cantar os teque-teques.
         “Chegando à casa da prima Enxuí, e Cambacica primeira coisa foi se abraçarem e se trocarem risos se olharem de perto rir uma para outra de bem de perto de bem com o tanto de sorte a cada uma, etc. Assim, tralalaram cada uma suas coisas dos dias:
         - E eu chorava de dar risadas.
         - E eu deixa te contar.
         - E eu nem preciso te dizer.
         - E eu perdia a noção das horas e do lugar.
“Mais tarde, Cambacica só então apresentou a arca que viera mostrar desfez o pacote descobriu o segredo mostrou o por dentro declarou o baú aberto abriu a tampa desfez o nó de fita vermelha e declarou seus secretos segredos escancarou o recheio o conteúdo.
         “Quando Enxuí viu o interior da canastra, pois aí, teve um choque: dentro uma cobra-coral repartida em medidas precisas e combinadas de cores bem firmes distintas finas bonitas em preto e vermelho.
         “A cobra-coral acordou, se mexeu, serpeou, deslizou como suavidade, procurou sintonizar o calor com a língua, coleou pra fora, esticou a língua bivalente, adulta e segura de si, e blasonou:
         - Quero um roxo-forte contra a gripe.
“A prima Enxuí ficou tão assim e fora de si e deslumbrada que deu dez passos atrás até encostar as costas na parede e sem conseguir piscar e tirar a mão do queixo caído falando parabéns dando os parabéns olhos bonitos arregalados os cabelos crespos lindos caindo na cara linda uma tarde bonita um dia aberto uma janela aberta para a tarde linda.
“E por aí foi.
         “Nove meses após esses episódios parciais, Cambacica deu à luz um lindo bebê guri de nome Marabá que Enxuí foi madrinha nunca as duas parando de rir contentes excitadas. Cambacica olhou a cria que dormia nos braços da tia e afirmou e discursou:
         - Marabá terá vai ficar sempre assim para sempre. Marabá terá vai ser de acordo comigo. Marabá terá dentes fortes olhos brilhantes coração a mil cabelo cortado no estilo memória oxigenada, etc. Marabá terá vai ser sempre o primeiro aluno da classe da fila da chamada. Marabá terá uma profissão de medalhista olímpico. Marabá terá dois filhos casal com a Ana Paula. Marabá terá com muitos dinheiros e natais no bolso. Marabá terá me amparará me amará me não largará.   
“Ninguém teve dúvidas que o filho era de pai anônimo topônimo onomástico. Nem a própria Cambacica tinha grilos quem era o pai onde era o pai por que era o pai.
         “A família de Cambacica internamente oficialmente comemorava os dias comemorativos. A família achou melhor fazer o bem sem olhar a quem e rir para rir mais tarde disso tudo e rir para melhor. Mas acabou o fato do nascimento sendo tratado como magia, milagre, encantamento, deslumbramento, ilusão, comemoração, arte, decoração, paisagem.
“O filho Marabá de Cambacica passou a ser tratado como de nacionalidade patriótica pai divino pai airado pai boto-cinzento pai adotivo pai arcanjo pai de santo pai piloto da aeronáutica pai pajé.”
Os quatro irmãos, cada um a seu modo, cada um no seu retiro, cada qual no seu estilo, cada tal no seu canto do planeta, procuraram o dia o que fazer contando as horas os dias os anos as novíssimas eras coçando o queixo passando a mão no cabelo andando com as mãos nos bolsos andando com as mãos às costas.
Sabiam que eram irmãos, sabiam que tinham irmãos, mas cada um olhava para seu próprio umbigo. Tinham gostos individuais. Tinham gestos próprios. Tinham jeitos profissionais. E tudo parecia que ia sem volta.
O sorteio disse assim, falando alto para o deserto, para as paredes, para o horizonte das caatingas escaldantes, para as pedras fumegantes, para as árvores tortas de folhas pequenas:
- Tem um helicóptero parado ali! Tem um helicóptero para ali! Tem um helicóptero parado ali!...
O tempo inventou a roda. Seu tempo de espera. O tempo tem espinho.
O mundo largo pro gordo e pro magro. Um aquário no abismo entre planetas e estrelas. O mundo é ponte.
O movimento pegou o caminho do meio e foi pela estrada seguindo. Era uma satisfação de se sentir ocupado. E consultava o celular de vez em quando de vez.
Depois da maranduba do pajé Irara Guajá, o novo destino, destino novo, destino outro, destino em frente, destino reservado. Os dias as horas os instantes os rios as cidades. O futuro e os futuros de todos das coisas.
Não tem lá tanta ou quanta mais ou menos explicação. Tentar perguntar mais uma vez?
Volta e meia os irmãos ainda se encontram. Nas férias de fim de ano. A conversa em dia atravessa a madrugada. Quando podem se encontram. Abreciam comer talhadas de abóbora amarela com açúcar. Se encontraram recentemente em Palmeirândia, na beira espetacular do rio Utinga.
Índios e índias guajás brincavam de oca na ocara da taba.
O rio segue o seu rio.
Parecia impossível. A manhã, toda perfeita e misturada, já estava em obras em rebuliço em temporadas em festas em obras individuais e coletivas em matinadas em estações, a manhã toda nova sofisticada verde, novíssima, e todos prevenidos, de novo alvorecer, manhã excelente, ramos de maria-rosa espanando o vento, pixoxó, figuinha-do-mangue, tiê-bicudo, vissiá, corocochó, papa-piri, baiano, golinho, etc, e manhã resplandecente.
O graxaim se ergueu nas patas e cheirou o ar. Depois continuou pelo espaço da capoeira. Farejava tudo muito procurando interessado e presente. Muito satisfeito ainda suspirou. Mais adiante disse de si para si:
- A terra é minha!
Passaram-se semanas, vai e vem como ninguém, gole por gole, de parte a parte, dá cá aquela palha, isso vai ou não vai, duas a duas e três a três, a pouco e pouco, tintim por tintim, houvesse o que houvesse, pé ante pé, val valado valo valeta, dito por não dito.
E por aí vai.  
         O tempo - ente com molas nos pés -, o tempo anda sossegado os dias todos. Aparentemente sossegado? Veraneou nas praias claras do rio Inhambupe. Foi ali e voltou para lá mil vezes e de mãos nos bolsos e de mãos às costas e de braços cruzados e de chapéu de palha de licuri um pouco pendido do lado na cabeça. Trocando os canais no controle remoto. O tempo é tudo que é.
         O mundo - ente que dorme rio abaixo rio acima -, o mundo rodou no máximo próximo o próprio eixo. Foi habitar uma constelação desenhada para este seu propósito. O mundo é tudo que é.
         O movimento - ente artista plástico que estudou no estrangeiro cinco anos com bolsa do governo -, o movimento fez uma casa de pedra perto de um lago de água doce e cristalina na cidade de Retirolândia. Cuidou de uma taipa colhendo pedras soltas pelo campo aberto. O movimento é tudo que é.
         O sorteio - ente que anda de barco e de trem e de bicicleta e de avião e de ônibus e de a cavalo -, o sorteio virou macela-do-campo virou cais-cais virou joaninha virou peixe de água doce virou saci e continua se virando. Como pode, leva e trás o poder de tudo que há. O sorteio é tudo que é.
         O sorteio ficou perdido no meio do recado de um convite importante. O movimento perdeu o chapéu quando na chuva da praia do rio Mamuaba. O tempo consigo mesmo, mas os outros ninguém nem ouviram. O mundo nunca se viu nada igual, caiu em si, pensou, não falou o que pensou.
         No dia seguinte e certo e escolhido e abençoado pelos quatro irmãos quadrigêmeos, entes mágicos e folhados a ouro, Cambacica teve um bebê menino três quilos e novecentos gramas com nome de Marabá.