Esta
história de ficção brasileira que vou contar um conto daqui um pouco, se passou
perto do mar à beira-mar praia areias finas falésias barachas ilha da Laje ilha
de Araçatuba e ondas muitas ondas, chuá, chuá!... e perto e junto do mar-oceano
Atlântico Sul. Numa cidade banhada pelo mar mais comprido do planeta global. E
nesta cidade, onde vive Lilás, se passou a história com ela mesma suas melhores
amigas e demais companhias limitadas. Talvez numa destas longas e brilhantes e
materiais e cinematográficas comunidades de Torres, Crisópolis, Pedro Gomes, Ipu,
Ilhéus, São Luís, Búzios, Reriutaba, Itajaí, Aurelino Leal, Ubatuba, Chuí...
- Maaaaanhêeeee!...
Lilás abandonou
o quarto de dormir, e surpresa e chateada e surpreendida, clamou:
- Oh,
maaaaanhêeeee!...
- Que é? Tô
aqui! Cada uma, meu!...
A menina
encontrou a mãe na cozinha e atarefada. A mãe de Lilás fazia um belo bolo de
fubá? Fazia pudim de leite condensado com receita da vovó materna? Ralava uma
ou duas orgânicas cenouras cruas? Fatiava abacaxi trescalante importada rodoviariamente
de Eldorado do Sul? Temperava salada de tomates diretos da horta ali do lado?
Colocava mais água no feijão pretinho e típico da feijoada brasileira? Mexia o
refogado suculento? Coloria o prato de salada com alfaces pepino chuchu repolho
couve-flor?...
- Manhê!... -
exclamou a guriazinha.
- Que é, fale!
É importante tanto assim?!
- Nem sei, mas
acho que perdi minha joia gargantilha que você me deu no natal e ano novo! Nem
sei e nem a encontrei, etc. e tal!
- Como assim,
perdeu?! Nem brinque, filha!
- Perdendo,
ora! Nem a encontro mais! Revirei tudo! Olhei mais de uma vez! Espiei debaixo
da cama do armário da cômoda da mesa do computador!...
- Nenhuma
pista onde como por que foi? Aqui em casa, na rua, no colégio, no clube Marquês
de Olinda? Pense bem, meu tesouro a minha imagem e semelhança!
- Acho que foi
no meu quarto mesmo! Nem saí com ela! Tenho certeza. Quer dizer, pode ser, né?!
Onde mais?!
- Ah, então
você a extraviou! Uma hora você acha! Tudo bem! Está em casa!
- Mas preciso
dela agora! Imediatamente, entende?!
- Calma,
procure melhor! Se está extraviada no quarto logo logo você a encontrará! Pode
estar debaixo do seu nariz, e daí?! Volte lá e procure melhor e procure com
calma! Pare, respire e procure!
- Nem tenho
essa calma, ocê sabe! Pra mim eu mandava comprar outra e pronto!
O
vento inodoro asséptico incolor, que vinha universal entrando pela janela da
cozinha da casa da família da menina Lilás, era também vento do mar era vento igualmente
do oceano maresia era vento que passava liso deslizando pela lâmina do mar. O
sol enigmático também. O sol que ilumina e reina e clareia e governa tudo. O
sol confundido às vezes com deuses com D com uma estrela de primeira magnitude.
Astro orbitado luminoso estudado que aqui neste lugar procura aparecer sempre
de manhã e por detrás do morro dos Cavalos ou da Pedra do Altar.
- Que que eu
faço, meu? E isto nem é legal, né?!
- Procurou bem
mesmo? Procurou debaixo da poltrona? Procurou sem intenções de encontrar? É
mais fácil encontrar quando nem se quer encontrar, entendeu?! Quer uma fatia de
abacaxi? É pra ti, minha preciosidade incalculável!
- Q-quero!
Hum!...
Lilás pegou a fatiazinha
de abacaxi simples única e correu para o quarto. Ia aproveitar para ajeitar
aquilo tudo, a bagunça a zorra a revolta a contrarrevolta, etc. a revolução a
contrarrevolução, a reforma da constituição. Fatia frágil de abacaxi tão
seriamente doce e agridoce, com água na boca, ife! ife!...
A menina
começou outra vez a vasculhar o quarto, todos os cantos, debaixo disso e
daquilo, gastando horas, ouvindo um som escolhido a dedo, trabalhando dias
inteiros, parando num caderno já preenchido, folheando revistas com figuras
estelares, pensando em reformar o mundo as batalhas as escaramuças as
oligarquias e ou a cadeia alimentar...
- Quem comprou
esta casa da esquina e telhado de telhas de barro?
- Quem mandou
fazer esta rua Cláudio Manuel da Costa?
- Quem plantou
na calçada em fila indiana estas muitas mudas de árvores de lei?
- De que
horizonte estamos falando?
O
velho e natural som das ondas do mar, muá! muá!... e que se ouve de onde for
num raio de 3km ao redor. Lilás ouvia som de garagem som-barulho-ruído som
enlatado som de trator fora de estrada som de escola de samba e bateria som de
moto acelerada. Mas se ela quisesse mais, de vez em quando na sorte lá dela ela
queria, podia ouvir o som que vinha desde o mar-oceano, truá! truá!... como um
rumor de bicho gigantão pré-histórico. Bem melhores os sons do mar, vuá! vuá!...
e buliçosos efervescentes.
- Onde será? E
para quê? Que D me preste atenção! Também isso se paga?
Quando esgotou
a paciência, cansadona de procurar, Lilás teve vontade de sair para passear em
plena transversal Osman Lins na esquina em frente rua Barão de São Gabriel, e
saiu. Foi logo avisando aos interessados pais, no caso a progenitora:
- Tô saindo,
gente!
- Onde você
vai?, Lilás! - perguntou a mãe. Terminou de fazer o que precisava fazer e
arrumar e organizar e estudar dobrar a roupa as tarefas escolares!...
- Já volto já!...
Lilás pegou a
bíci e foi visitar a amiga Rê. Uma ou duas quadras aí por perto bairro
Capistrano de Abreu amarrado junto unido à lagoa das Custódias. Parecia
terça-feira, o dia mais preferido da menina tão galante. Nem era quarta-feira.
Era, sim, uma boa e dourada quinta-feira. Lilás pedalava pela calçada já
condicionada à acessibilidade. Passava casas, prédios de apartamentos no máximo
oito andares, cães sem família, cães acompanhados, levas de carros
estacionados, paineiras, pitangueiras, umbus, tarumãs... que mais,
pindaíba-vermelha, anajá-mirim, airiaçu, imburana-vaqueira, inhaíba...
Pedalava, ria um pouco sozinha, olhava outro tanto, olhava um pouco de tudo,
olhava tudo um pouquinho... ouvia os pássaros conforme o canto e mantendo o
território particular, saíra-pintor, araçaripoca, piaçoca, saudade-de-asa-cinza,
garrichão-de-bico-grande... e mais as coletivas associadas frenéticas
marrecas-do-pará, arirambas-de-cauda-ruiva, andorinhas-serradoras...
Se
fosse domingo as pessoas da cidade onde se passou esta história, as pessoas
iriam à praia e algumas praias a escolher, praia do rio da Barra, praia do
Cassino, praia do Campeche... De aéreo de carro de lotação de carona de apezinho
no mais. Vão e vêm de qualquer dia ensolarado, mas principalmente nos domingos
e sábados ensolarados quando nem de feriados assoalhados. E o mar desta cidade,
onde vive Lilás, estava um bom mar salgado ancestral austral. Aliás, o mar é
bom e verde aconchegante mexido móvel hexagonal hialino ebúrneo evento bordão
navio álgebra elipse submarino macaco...
Chegando em
casa da Rê, residência metida entre árvores oitis na região compreendida entre
os bairros de Marquês do Herval e do Barão de Itapevi, foi pra já:
- Rê! Perdi
minha gargantilha, tá ligada? Me dá uma ideia de achar e nova!
- O quê? Nem!
Que problema!
-
Tô preocupada! Você nem sabe como e quanto! Nem tenho vontade de rir!
- Mas onde? Na
praça Gonçalves de Magalhães no recreio na sorveteria no calçadão no trajeto no
ônibus no parna Serra das Lontras?
- No meu
quarto e cômodo particular, praticamente! Suspeito que perdi no meu quarto
mesmo, tá ligada! Só que nem consigo achar! Deve estar debaixo do meu nariz! Ou
entre os lençóis as fronhas os cobertores...
- Que tipo! Tem
certeza?
- Que perdi? E
que perdi no meu quarto?
- É!... Me
explique melhor!
- Sim, claro
que tenho! Nem só digo como afirmo! Nem saí com a gargantilha, juro! É algo inédito
pra mim, entende?! Coisa que aconteceu comigo e hoje!
Então, Rê
ficou matutando e moendo ideias no cinzento coco. Procurava imaginar hipóteses,
possibilidades, acontecimentos, acasos fortuitos, tratados, teses. As duas
garotinhas, mesma idade, dez anos, escutavam música mpbu, desligavam o som e ligavam
a internet ou vice-versa. Às vezes cantavam em conjunto em coro com a dupla de
cantoras sertanejas universitárias irmãs gêmeas de maior sucesso preferidas no
momento na mídia.
- E nem foi o
cachorrinho? Você tem o Atro, pois é? Ele é arteiro ou brincalhão!
- Ah!, mas ele
é um cão respeitoso, jamais faria um erro assim comigo. Nem pisaria na bola!
Sim, com certeza, Atro tá fora dessa!
- É, tá difícil
e ao mesmo tempo complicado! Um mistério e nenhum suspeito! Eu acredito que
vamos resolver até amanhã de manhã!
Rê amiguíssima
queria ajudar a amiga hoje mesmo. Sugeriu e de puro coração:
- Reze prum
santo que ele acha pra você! Eu acredito!...
- É mesmo! É
possível! Que santo? Que santa?
- Hem?!...
- Qual santo é
melhor pra achar coisas perdidas, São Cristóvão, Santa Clara?
- Nem será São
Expedito? Ouvi falar na tevê e muita explicação com testemunhas!
- Ah, é, é!
- Confie! Quem
sabe!… Olhe que milagres acontecem, né, meu?!
Então, Lilás
saiu da casa de Rê agora mesmo com essa ideia religiosa balançando no cérebro
da massa gelatinosa. E era uma saída ou uma entrada sublime divina elevada até
os céus. E o que mais pensar, enquanto andando pela rua da feira livre, bonecas
de pano de olhos bem abertos, vasos de barro argila ou porcelana ou cerâmica,
verduras, legumes, Josés, Marias, tapetes fabricados em Coxim, esteiras
artesanais dos índios tirió, tecidos de chita e chitão, ervas medicinais como
por exemplo o pipiri o maracujá-branco a arnica-da-chapada a jurema-mirim, mel
das abelhas aramás, flâmulas e plumas e fitas e bandeiras e estandartes e
pendões:
- Agora... o
seguinte! Onde tem padroeiro Santo Expedito? Na igreja mais próxima? Posso ir e
pedir na igreja mais catedral? Vou à igreja mais deslumbrante? Quando precisamos
carecemos, se encontra uma igreja próxima e perto de casa? Um templo uma igreja
ou um altar?
Assim a menina
andou pela rua Tomás Antônio Gonzaga, pedalou, cruzou por grupos de pessoas
indo ou voltando do trabalho, pares de pessoas, filas de pessoas esperando
acertar na loteria esportiva... e assim pelo estilo, cruzou na faixa do
pedestre para a avenida Exoaladi, bancas de revistas e jornais impressos,
bancas de flores folhagens maracujá-azul olhos-de-cabra-verde... mudinhas de
pinhão-roxo e begônias-sempre-floridas e estévias... esquecendo quase de olhar
o caminho de casa. Pensando em santo Expedito sem nunca ter rezado pra ele pra
ninguém.
- Eu posso ir
e vir se eu quiser?
- Eu posso
ficar de bobeira se eu assim quiser e me permitir?
- Eu posso
aguardar por uma hora ou mais se eu precisar?
- De que
cidade você é?
A
decidida Lilás morava numa cidade turística balneário perto do mar-oceano
Atlântico Sul. Então, jamais moraria numa cidade longe do mar nas montanhas
serra campos floresta. Quais cidades longe do mar, quais cidades que Lilás nem
estaria morando no tempo desta história? Vamos ver, assim como exemplos. Algumas
cidades longe do mar, e que nem são cidades à beira-mar litorâneas: Lajes,
Pelotas, Solidão, Cuitegi, Marília, Sorriso, Teresina, Rio Branco, Apucarana, Teotônio
Vilela, Juazeiro do Norte, São Mateus do Maranhão, Alcinópolis... Pois está
dito que estas cidades nem são cidades à beira-mar. Assim, nem eram nessas cidades
que se passava se rodava se filmava se encenava se narrava narrativa esta
história.
-
Você mora em cidade de Argirita ou Bequimão ou Vitória de Santo Antão?
-
Você mora neste município perto do rio Capivari?
-
Você mora no bairro Pedro Kilkerry da receptiva Chã de Alegria, entendo?
-
De que lado da serra da Bodoquena ocê morava?
Quase
chegando, Lilás estava pedalando a sua magrela e feliz e giz e imperatriz. Se
quisesse poderia espichar os olhos e olhar o mar. O mar logo ali à direita. E
cheirar o ar que vinha do mar. O rio Corrente recém-chegado de GO. E ainda
escutar o mar com o mangue com a enseada com o cais com o píer. Era possível
ainda ver barcos sobre o verde do mar. Coxilhas do mar, porque o mar balançava
um pouco galopava corcoveava. O rio Campo Belo também se junta ao mar. E por
que barcos gostam do mar? Talvez pelo inverso motivo dos trens nem gostarem do
mar. Nem os carros, caminhões e ônibus gostam do mar. Os aviões talvez nem
gostem do mar. Os navios navegam o mar desde longe e vêm aportando, Santa
Cecília, Alfredo Marcondes, Escada, Mirinzal, Olinda Nova do Maranhão, São José
do Rio Claro...
Nesta
cidade aqui neste lugar específico, que vivia e ainda vive perto e à sombra do
mar, desfilavam desfilam convivem amigos, conhecidos, estranhos, vizinhos,
turistas, visitantes, migrantes. E o mar passa tranquilidade. Então, custe o
que custar, o mar é meu é seu é de todos e muito nosso!
Na
cidade da beira-mar, cidade esta da história que se conta e se passa adiante,
tem insetos marinhos, frutos do mar, cheiros marinhos, pessoas do mar
marinheiros, aves marinhas, barcos que pescam na costa costeiros. Um porto onde
ancoram navios iates transatlânticos petroleiros as embarcações.
-
Que você pretende ser quando crescer?
-
Que estádio de futebol você visitou e tirou fotos?
-
Que havia de novo no shopping Contraforte?
-
De que a partir de que time de futebol você vê o mundo?
Ao chegar em
casa Lilás encontrou o almoço na mesa e bem servido organizado sobremesa e tudo
mais. Muito bom. Mas nem ligou pra comida nenhuma e sorvete de açaí. Só pensava
no mistério que era achar a tal e bendita gargantilha feita de diferentes
materiais exclusivos. Um objeto caro para ela e que era ainda seu enfeite de
festa preferido.
- Que tá
pensando, Lilás? - perguntou a mãe. Acuda, acuda!
- Na minha
gargantilha extraviada e preciosa e colorida!
- Nem se
preocupe! Se você nem achar a gente te compra outra! Nem era nenhuma joia rara,
ou lá tão cara assim! Deixe disso!
- Mas eu gosto
dela! Talvez gostava, então! Talvez eu faça uma romaria até o morro de São
Jerônimo! Talvez eu vá até a lenda do chapadão da Zagaia, em?! Quem sabe eu
peça ao tal Santo Expedito em troca de um donativo!
- O santo das
causas impossíveis? É uma, hein?!
Quem
olha bem olhado um copo cheio de água cristalina pode pensar até que está
diante de um exemplo de mar. Se um copo cheio de água nem dá impressão de mar
pelo menos de lago ou lagoa com certeza que se assemelha. Que é uma lagoa? Um
lago faz sentido? Que faz de um estuário uma laguna? Um monte de água ali
reservatório açude atrai muitos peixes e outro bichos afins, curimbatás,
piabas, cobras-de-vidro, sapos-flamenguinhos, minhocoçus,
marrecas-grandes-de-marajó...
À tarde parte
do dia, poucas horas após o almoço, a menina ainda nem tirara da cabeça a ideia
fundamental de encontrar a relíquia. Até com a ajuda do Santo Expedito. Virou o
prato do dia, para dizer de alguma maneira, achar a joia relíquia. Pegou e foi
atrás do santo achador e custe o que custar.
Passeou sem
rumo pelo centro da cidade procurando o endereço do santo. Estava na rua Nina
Rodrigues e muito atarefada e apressada e confusa e ansiosa. Como qualquer
criança, louquinha para resolver o caso do sumiço do colar e ainda hoje. Alguém
sabia como? Descansou cinco minutos na praça Marquês de São Vicente. Alguém
estava preparado preparada para resolver a charada?
Já no calçadão
Manuel Balaio se deparou com várias barraquinhas tendas e mostruários. Uma
delas chamou sua atenção para sempre. Parecia parecida com um sonho. Um sonho
porque a mulher da barraca prometia milagres transformações quimeras utopias
metamorfoses com o que vendia.
- Venha, se
aproxime, olhe, olhar nem paga nada... Se achegue, olhe, admire, mire, observe,
compare, adquira... - apregoava a vendedora ambulante de lenço estampado na
cabeça segurando o longo cabelo preto.
Lilás parou
mesmo e prestou toda a atenção que podia nas mercadorias ali oferecidas em
exposição multiplicidades. Falava a vendedora e sem parar acostumada:
- Veja, minha
senhora, meu senhor, minha menina, todo o mundo que me escuta e mais além... Estes
sacis são os melhores sacis do mundo, muito espertos, mágicos e bebem pouco... Para
falar a verdade, estes sacis nem comem nada nem gastam nada com comida e
comilança... Vejam, comprovem como são elegantes, espertos, serelepes, mágicos,
atômicos, aflogísticos, sáxeos, milimétricos, alferes, paraquedistas,
antológicos, dietetas, sobrinhos, célebres, antiquados...
Aí a vendedora
dona Ara Antífona falou a coisa certa, definitiva e capital importante que
Lilás esperava ou que lhe bastou para se convencer se converter:
- Esses sacis
são especiais de mágicos... Eles acham objetos perdidos, trazem sorte para quem
os adquire, comem pouco e se afeiçoam muito muito aos donos ou donas... São
excelentes companhias, e mascotes sem igual... Nem reclamam de nada e favorecem
muito muito e até demais... No mínimo são até melhores que quaisquer santos ou
santas...
- Senhora Ara!
Estes sacis acham mesmo coisas perdidas ou extraviadas?
- Claro,
claríssimo, sem dúvida, nem falham nunca, cem por cento de garantia
comprovada... A menina perdeu algum objeto de estimação... Uma joia rara... Uma
gargantilha... Um presente de aniversário... Algo alguma coisa que quer
recuperar...
- É, eu perdi
uma gargantilha! Como adivinhou?
- Tudo bem,
berembembém!... O saci vai te encontrar essa gargantilha, pode confiar cem por
cento... Vai, compre, leve, que você nem se arrependerá nesta e noutras perdas
extraviadas... O saci é mágico para essas coisas mesmo e sem contra indicação
sem prazos de validade de qualidade...
- É certo? É
batata? É garantido? É legal?
- Tô te
falando e bem alto, minha linda... Mistério resolvido e de um dia pro outro,
minha cara... Só três reais e que baratíssimo... Baixo preço por muito favor...
Lilás puxou as
três moedas e comprou o saci já feito em série. Esqueceu o Santo Expedito ou a
Santa Clara. Nada também de amolar o santo divino e que com certeza tinha um
céu e uma terra inteira para pesquisar. Correu para casa guiando a bíci numa
mão só, passarela sobre o rio Salobra e à jusante da avenida das Verbenas.
- Maaaaanhêeeee!...
comprei um saci...
A mãe e o pai
foram apresentados alertados ao pequeno mágico, ao unípede feiticeiro, ao pequeno
míni mínimo moleque ao guri travesso folclórico imaterial:
- Esse é o
saci! Ele vai me auxiliar a encontrar a minha joia perdida extraditada!
-
Mas parece apenas e somente um enfeite de mesa, filha! - disse o pai.
- Só parece
enfeite! Na verdade ele age! Ele age invisivelmente telepaticamente! A camelô me
garantiu me disse que ele tem poderes poderosos e fortes! Ele atende ao pedido
da dona, no caso eu mesma! É prestativo! É obediente! É indiferente! É diurno e
noturno! E mágico como um mago xamã! Faz pajelança como faz lambança!
- Nem sei nada!
Um bonequinho de dez centímetros de horizonte, filha... Nem se iluda nem perca
seu tempo, acorde - falou a mãe.
Bem, chegou a
noite e os escalavrados sacis agem automaticamente de noite noturnamente
madrugada insones. Lilás colocou seu novo sobressaltado amigo sobre a mesinha
de cabeceira e disse pra ele disse com palavras simples claras únicas:
- Seguinte, saci
por quê! Eu vou dormir, tá legal?! Vou deixar um recado escrito e pra você trem
pessoa! Vê se trabalhe pra encontrar minha gargantilha tão necessária! Até
amanhã! E boa noite e boa sorte!
Lilás, como humana
que era, e atuava principalmente no período do dia, foi pra baixo dos lençóis,
pensou duas ou três coisas inevitáveis, principalmente torcendo que o prematuro
saci funcionasse, e aterrissou no sono profundo uma nuvem aconchegante. Como igual
mergulhar no fundo do mar e nadar nadar nadar... (três vezes).
- Era lá um
saci zagal ou uma saci fogo-fátuo?
- Era lá um
pajé dos chuala-chavarana ou uma pajé dos xavante?
- Era lá um
feiticeiro bombordo ou uma feiticeira estibordo e boreste?
- De que
divindade autoridade você faz parte ou representa?
A própria menina
partiu para o mundo da ficção idealizada, e deste planeta prático, porque o
sono tem o poder de carregar as pessoas para os cafundós do fantástico sonhado
fantasiado inimaginável. E é como cair num poço sem fundo. Lilás então já nem
mais sabia o que se passava deste lado do planeta Terra que, ora vejam!, se
parece com uma bolinha de gude climática e fechada em si mesma ensimesmada. E o
fundo do mar só fazia, convenhamos, assim: blublublu! blublublu!...
O
mar é um ente masculino e verde; a lua é um ser feminino e espacial. Depois a
lua influencia o mar as marés. Mais além o mar tem conteúdos muito calculados e
variados e enquanto que a lua passeia no céu mais alto sideral. Os
divertimentos das estações.
O
mar vem pelo ar. O ar é muito de mar e oceano. O mar sopra o ar. O mar muda o
que ele quiser. O mar tem portos espalhados pelo mundo conhecido, Glória do
Goitá, Poções, Campo do Tenente, Álvares Machado, Pedro do Rosário, Estância
Velha, Guapimirim... Nos portos desembarcam marinheiros e marujos, turistas e
pescadores.
-
Assim nem me conhece então ainda?
-
Tem como acenar pro mar e sorrir?
-
Como eu poderia imaginar um engano da minha parte?
-
De que espécie você é?
Existem
acontecem, neste país que nasci, muitas cidades que nunca viram o mar. Mas nem
é por causa dessas cidades distantes da costa que a história vai e se passa à
beira-mar. Esta história se passa perto do mar porque aconteceu perto do mar. E
quais cidades, outras cidades, chegam perto do mar via rio Cachoeira? Talvez numa
delas ainda se passa esta história outras histórias causos anedotas, Garopaba,
Osório, Macaé, Igarassu, Bom Jesus do Itabapoana, Areiópolis, Rio Grande, Santana
do Ipanema, Varzedo, Aracaju, Santo Antônio de Jesus, Casserengue...
E demais de
mais a mais, enquanto a menina dormia um sono justo, e por causa disso,
aproveitando esse detalhe viajante ao país dos sonhos lá dela, o personagem saci
acordava destampava a garrafinha vinha a este mundo surgia subia despertava
levantava do estado de estátua desinibia. Para agir conforme os mistérios do
aquém os enigmas do além as dúvidas do porém as interrogações do por quê.
- Hã!...
hã!... ooofffe!... - bocejou o finório o somítico o avarento.
O licenciado saci
santo, ente fora de uso, acordou e olhou em volta. Assim fácil. A luz do quarto
estava apagada e tudo meio que na penumbra na moita opaco. Mas ele bodega
aberta via mesmo no escuro; tanto no claro, como no breu; tanto dentro como
fora da garrafa; tanto paralisado como energizado.
- Hum!... Um
cômodo dormitório de gente pessoa humana! Gostei!
Foi e se virou
de lado olhou observou e reconheceu um pires com balas de mel uma barrinha de
chocolate e bolachinhas marias acompanhadas de um copo de leite gelado.
- Opa! Legal! Nada
mal! Prazer em conhecê-las! - disse ele, esfregando as mãos. Tô mesmo com fome
e sede! Em frente!
Bebeu o leite
todo, como fazem os gatos ou os cachorrinhos, com a língua, leeepe! leeepe!...
aceleradamente. Um pouco de leite e uma bolachinha maria. Um gole de leite e
uma mordidinha no chocolate apetitoso. Uma balinha de mel com gole de leite
escorrendo pelo queixo esfomeado.
No final deu
um baita arroto, uooorque!... lambeu o prato e o copo e se sentiu mais feliz
giz motriz, disposto a trabalhar, disposto a qualquer coisa, capaz de andar
andar... Um saci antes e depois igual um sino desconfia sabe que tem uma missão
a fazer. Um saci sábio dantes sabe e entende e compreende quando tem coisas a
cumprir. E que pode acontecer tudo por menos que nada.
- Ah!, deixe
comigo, deixe eu ver o que está escrito... sim, é isso: procurar uma
gargantilha assim assim. Assinado: a Lilás! Sei, é esse o nome da menina aí
dormindo! Bonito nome! Simpatizei!
Bem alimentado
e disposto cheio de energia e vigor, o saci-pererê entidade e sacerdote arrumou
a garganta, hum! hum!... e foi quicando ao trabalho labutar.
- Deixe ver...
por onde começar... o que podemos fazer... vamos a ver!...
Sua tarefa era
encontrar uma joia típica de gente, no caso uma gargantilha de menina. Portanto,
começaria a vasculhar em primeiro lugar o quarto da pequena.
- Vou começar
por aqui mesmo! Quem sabe a coisa nem esteja mesmo aqui bem perto, hein?! E bem
debaixo do nariz da garotinha!
Como se sabe,
já foi dito, o contemporâneo saci era pequenininho, uma perna, uma camiseta
amarela, uma bermuda verde sem bolsos, um cachimbo aceso, um gorro vermelho na
cabeça. Assim seus movimentos pelo quarto seu trabalho de procurar tarefas são
lentos são pacientes são pula-pulantes são silenciosos e suaves e sutis.
O quarto da
menina, aliás, era um armazém de coisas: móveis, roupas, brinquedos, cadernos, livros
na estante, computador, bola de vôlei, guarda-sol, mochilas, vasos, ornatos em
geral... A menina tinha lá sua coleção de bonecos imitando sapinhos, sapinhos
de porcelana, sapinhos de pelúcia, sapinhos de plástico e sapinhos grandes e
médios e pequenos. Sapinhos de todas as cores, sapinhos amostra grátis,
sapinhos de vária procedência. Só nem tinha sapinhos de verdade - porque seria
mesmo maldade com o bicho e o Ibama nem autoriza.
O sétimo saci
mito era sozinho, vivia somente, trabalhava por conta própria, obedecia um
instinto primitivo natural dos entes mágicos invisíveis criativos. Ia
vasculhando todos os cantinhos recantos pedaços do quarto embalados em sombras
e ou mais ou menos iluminados. Debaixo de qualquer coisa, sobre os móveis,
dentro dos bolsos da roupas, dentro das bolsas, dentro das caixas, dentro das sacolas,
dentro dos sapatos, sob os diferentes objetos, atrás dos poucos quadros da
parede. Andava pra cá e pra lá pelo cômodo todo subia e descia os móveis
escalando com auxílio de barbantes pulando numa perna só sumindo e aparecendo em
golpes de mágica, sendo para ele mesmo uma brincadeira superdivertida superacessível
intercontinental.
O saci
engenheiro civil era o tipo de ser que já se acostumara a trabalhar sozinho em
toda sua história. Nem tinha com quem perguntar e responder, trocar uma ideia,
bater um papo, levar um lero-lero, ouvir e resmungar. De repente, fazia isso
com os botões, com qualquer objeto a sua frente, nem que fosse para um bibelô,
um buraco de fechadura, um quadro na parede ou um espelho.
- Seguinte!
Palavrão: inconstitucionalissimamente! Ufa!... Tô falando! Essa aí sim foi
demais! Essa foi e é palavrão!
Talvez o saci prata
da casa conseguisse vasculhar o quarto todo da menina essa noite mesmo. Mas se
precisasse terminar outro dia, quer dizer, na noite seguinte, nem haveria
tornaria problema. Única coisa era que a menina Lilás teria que ficar
aguardando pacientemente.
- Vejo isto,
isso e aquilo, viro, reviro, observo mais atentamente um pouco mais e vejo
aquele outro e mais outras coisas, todas, sem exceções, uma por uma, etc., até
o final da lista! E por mim mesmo um o eu gênio!
Esse saci
singular pós-moderno um nada pouco vaidoso presunçoso, procurava o espelho do
quarto, se olhava, se repetia, se ajeitava, fazia micagens, mostrava a língua,
fazia fumaça com o cachimbo. Os sacis sotaventos e barlaventos, e esse aí era
assim mesmo, se vestem com bermudas comuns camisa normal e comum roupas vestimentas
informais populares baratas encontradas sortidas nas feiras de camelôs. Uns
usam gorro vermelho; esse usava um gorro vermelho. Outros já usam cachimbo,
coisa de largar fumaça; esse fumava cachimbo para poluir o ar imaginário.
Encontraremos ou encontraríamos sacis lendas tipo abaçaí em diferentes partes abaçás
e lugares do mundo deste globo terrestre ou quem sabe quem viu quem teve sorte,
Tarabai, Anastácio, São João Batista, São Vicente Férrer, Tamboril, serra
Crueiras, rio Araranguá, cascata Boca da Onça, travessa Barão de Palmares...
Então o saci
hábito saudável e puro parou junto à janela e olhou a lua colada no céu. Pensou
sobre o satélite natural da Terra encanto dos terráqueos e terráqueas:
- Sim, por que
nem! A lua é um prato decorado alto-relevo baixo-relevo; está sempre de frente!
Sentia ele,
saci 9 e 99 ribeirão, coisas no peito olhando a lua. Então ficava enfeitiçado e
parado e de olho arregalado... se sabe lá o quê, por quê, até quando quê.
- Tô aqui pra
olhar e xeretar! Tô aqui pra achar uma relíquia de estimação, também! Nem tô
com pressa! Nem sei se vô achá! Nem sei se devo achar!
Nem teve mais
ânimo para procurar vasculhar, enfim, em toda durante a noite comprida malhar
trabalhar. Esperou o dia chegar; e a menina despertar. Esperou olhando as
estrelas e pronto. Teve uma cadente que caiu rente da parede do firmamento. Ou
seria um satélite artificial? Outras algumas e nem caíram e ficaram por lá
presas e suspensas parecendo pontos iluminados marcas aromáticas, Boa Nova,
Ipaporanga, Monsenhor Tabosa, Dário Meira, rio Coxipó, cachoeira 7 de
Setembro...
Se
ouvia, sim senhor e sim senhora!, muito bem o marulho do mar, vuuublu!
vuuublu!... Mar com espumas nas dobras e flutuantes. Os peixes, pensando bem,
os peixes voam no corpo líquido e verde do mar. O céu voa, e voa alto, o céu
voa se espelhando no suco verde do mar. E há peixes no mar como estrelas no céu
no céu. Confira se for capaz: o mar e o céu são a mesma coisa com o horizonte
separando os irmãos gêmeos.
Quando
uma onda afunda, plantas e coisas e bichos de todos os tipos são jogados no
fundo do mar, blublu! blublu!... Aí, então, o mar-oceano vira um mar com
tesouro de náufragos naufrágios. Nesta cidade, deste mar e desta história junto
ao mar, faziam muitos anos que nem apareciam mais monstros marinhos. Uma vez
aparecia um monstro a cada seis meses. As lendas ainda nem estavam
sobreviventes. Hoje em dia nem aparece mais nada e nem nada. Quem somente viu
monstro marinho na tevê documentário: polvos gigantes, esponjas gigantes,
arraias marinhas gigantes, plataformas de petróleo gigantescas, baleias mega-hipergigantes
amamentando filhotes ultragigantes.
Tá bom. Quando
Lilás acordou pela manhã, o proto-humano feiticeirinho garatuja estava junto à
janela e paradinho e comportadinho aproveitando uma réstia de luz do sol. Completamente
boneco completamente estátua, sem história, desencantado, sem espírito, sem
alma, como um enfeite, como um afoxé, como um acessório, instrumento, autarquia,
ferramenta e em si mesmo assentado.
- Hã!... que...
que... p-preguiça... hum!... Que faz aqui na janela, imaginário mineral saci
analista de sistema? Comeu gostou dos doces... é... hum!... Encontrou a joia,
recuperou a gargantilha? Comeu todas as bolachinhas marias, hem?!... Procurou espionou
pesquisou a relíquia da família?
Claro que o saci
múltiplo ganzá nem ouvia a menina. Nem ela mesma queria isso. Só falava por
falar. Porque era seu hábito costume falar com suas coisas, seus personagens, seus
sapinhos de mentira, seu mundo em volta. Lilás nem mesmo acreditava que seu
saci metálico estampilha fosse encantado desencantado divino adivinho e quiçá.
Achar
a gargantilha tão caríssima? Lilás nem sabia por onde começar. Ela nem sabia o
que iria achar o que iria acontecer ou deixar de acontecer. E Lilás pensava
levemente encontrar sua gargantilha de estimação, ou seu objeto precioso.
-
Nem suporto pensar minha gargantilha que resolveu me abandonar, se esconder de
mim, de mim desaparecer, escafeder-se!
Acostumada Lilás
foi para o chuveiro depois café da manhã, pouco mais a escola. Rotina e sempre
praticamente as mesmas coisas úteis ou nem tão úteis. Com ela iam seus
movimentos ora estudados ora decorados ora gestos preferidos ora habituais.
- Esta manhã
eu posso sair de bicicleta até a rua Gervásio Pires?
- Esta manhã
eu posso fazer compras no mercado Marrafa?
- Esta manhã
eu já posso assistir tevê até o meio-dia?
- De que
matéria incandescente foi e é perfeito o sol?
O
mar cheira a peixe de couro de escama de sal. O mar são os olhos fundos de
alguém. O mar é sempre bonito da serra do Mar. O mar é uma gota de água no
fundo dos céus de alguém. O mar é verde-limão. O mar nem é de ninguém. O mar só
cabe dentro dele mesmo e de mais ninguém. O mar sempre existiu no litoral de
Francisco Beltrão, Catunda, Manfrinópolis, parque da serra do Papagaio... O mar
é o exército e confessa ou afirma declara reclama: “braço forte e mão amiga!” E
ninguém tem nada com isso!
O
mar desta cidade, onde passa agora esta história, onde mora Lilás, este mar é
internacional é federal é estadual é municipal é local e é endêmico. Nesta
cidade, cidade litorânea, somente existe um hotel à beira-mar. E o prédio deste
hotel está sempre rodeado de coqueiros tortos palmeiras tortas soprados pelo
vento que vem, entre idas e vindas indo e vindo, das ilhas marítimas.
-
Que altura você tem? Assim, até ontem ao meio-dia, um (1) metro e oitenta (80)
e cinco (5), mais ou menos.
-
Você mora em apartamento ou casa? Moro no condomínio Zimbório bairro Barbeta
avenida Marechal Hermes da Fonseca número tal e qual de 1 a 10.
-
Sua cidade natal fica à margem de um lago lagoa ou rio riacho? Precisamente no
lado esquerdo do rio Perdido à cerca do parque Ibitipoca.
-
Quanto tempo você leva de casa até o aeroporto de Viracopos-Campinas? Coisa de
menos de cinquenta minutos, sem engarrafamento.
Quantas
pessoas moram numa cidade paradisíaca junto ao mar? Que pessoas gostam de morar
à beira-mar? Há pessoas que sonham morar na costa e aproveitam vir de outros
rincões para ali se instalar, por exemplo, Dom Macedo Costa, Conceição do
Almeida, Pirapemas, Abreu e Lima, Angelândia, Verê... Que nomes essas pessoas carregam
desde criança e que vêm namorar na praia na enseada? São as Anas Carolinas,
Margaridas, Antônios, Marias do Carmo ou Carminhas, Alines, Fernandas, Fernandos,
Joanas, Antônias, Fátimas, Tainaras...
No pátio da
escola estadual de ensino fundamental Conde de Porto Alegre, Lilás se encontrou
com suas melhores amigas, Rê, Esmeralda e Pérola.
- E aê? - começou
Rê. Onde D cravou a serra de Tianguá?
- Nem
acredite! Mas imagine imagine! Adquiri um quartau saci-pererê radioamador! -
disse Lilás.
- É bom?
Valeu? - interrogou Pérola.
- Na verdade nem
sei e desconheço! Sacis telecomunicações autoescolas por isto apenas trabalham
à noite na moita camuflados! Nem passam relatório! Desconfio que até nem querem
se mostrar! E também espero que nem me espiem dormindo, tá ligada?!
- E nem é o
caso de mesmo ficar de olho? Como acontece, então? - Esmeralda se terminava cheia
de dúvidas.
- Sacis rés-do-chão
são seres sensacionais e simpáticos e mágicos! Trabalham sozinhos! Nem
compartilham com gente, com pessoas, com bípedes! Ainda bem!
- Nem se
misturam, é? Por quê?
- Difícil de
dizer! Talvez sejam lá diabinhos mafuás sossegados, tá!
Esse foi o único
assunto que Lilás teve no dia: sua gargantilha de estimação extraviada, e o litúrgico
saci interposto investigador. Dois tentos a zero.
- Você conhece
minha história e do meu caro torçal de ouro?
- Você
reconhece meu perfume de nome Bramante essências fundamentalmente?
- Você
concorda comigo e em tudo que eu disser?
- De que
seguir estrada rio você pretende?
Bem,
então, o mar nunca vai acabar. O mar engole rios e rios. O mar engole baleias-brancas,
baleias-azuis, baleias-jubartes, baleias-francas, tubarões-baleias... O mar
carrega transatlânticos, superpetroleiros, megapetroleiros, plataformas de
petróleo, submarinos nucleares, ilhas flutuantes... O mar cria pororocas onde
encontra o rio-mar. O mar rufa tambores de aço.
Uma
criança que sempre viveu em cidade bem perto do mar será que gosta de comer
chocolate? Claro que sim! Gosta de sorver sorvetes de açaí? Evidente que sim! Gosta
de guaraná no sorvete de chocolate? É óbvio ululante! Já subiu em árvores
altas, cedro-cheiroso, cambará, manacá-da-serra, araribá-vermelho, cutucaém...
e tem interesse em ver outros bichos e animais e seres vivos, saruês,
saguis-leãozinhos, cuís, guirás-acangataras, limpa-folhas-coroados,
gralhas-brancas, pássaros-frades...
Veio a tarde
para a cidade de a beira-mar. Veio a tarde do mar até a cidade. Chegou a tarde
para as pessoas e as coisas. Veio a tarde para a menina Lilás. Foi passando a
tarde. Tudo passando em ritmo de rotina conhecida. Veio o pôr do sol requentar
radiar sobre o gigantesco mar revolto.
Lilás
sabia andar de bicicleta e com os braços cruzados. Sabia porque fazia já um
tempo que aprendera a pedalar bícis. E Lilás andava, parava, sempre de cabeça
nas nuvens. Nem falar que fosse muito absurdamente alta. E também cheirava o
mar e sem querer. Quem vive numa cidade de beira-mar escuta o mar sem querer e
constantemente. Plantas que sabem respirar conviver com a responsabilidade de
abraçar os tempos que sopram do mar, comandás, sapatinhos, gameleiras-de-pinga,
sorveiras, acauás...
De dia o saci desenho
arqueólogo se comportava como um bibelô comum, todo concreto, estático, boneco,
enfeite de mesa, peso de papel, pedra-sabão, manequim, cristo-redentor,
procurador-geral, guarda-mor... Acordava depois que todos já puxavam o ronco. Era
isso normal, era de lei, da ordem das coisas que fazem de conta e que fazem o
mundo mágico. Ele burlador carrapato cassaco ressuscitava aí pela meia-noite em
diante.
Então, o tipo emblemático
sobrecomum esperou que todos roncassem para voltar a agir a acontecer a atacar.
A casa estava totalmente em paz, quieta, estalando de quietude, cricrilando de
parada no ar, vazia de sons.
- Hã!...
hã!... ooofffe!... que horas? - se perguntou o serelepinho o cambão.
O saci 100
anos colecionador acordou, resmungou, tomou o copo de leite gelado acompanhado
de bolachinhas marias. E foi trabalhar, o são pega. Como um morcego voou como
um morcego literal voo baixo parcial. Nessa noite procuraria o objeto perdido
em outro canto noutro cômodo da casa na sala de estar, como exemplos.
Enquanto assim
e se aproveitando do sossego geral, o travesso soca ressoca espiou o relógio digital
sobre a mesinha de cabeceira e opinou aparteou:
- Olhe só!
Essa gente dorme tarde pra dedéu! Depois querem o quê? Que eu ache as coisas em
um piscar de olhos? Que nada! Vou fazer o serviço que e se eu quiser! Se cansar
no meio do caminho, nem faço! Vou fazer o possível e somente o que eu puder! Se
terminar, terminei; se nem terminar, nem terminei!
Mais mas era
mesmo isso aí. O saci miração trabalhou e correu atrás da gargantilha pela
madrugada toda. Saci primeiro-sargento afro-brasileiro correu, subiu e desceu,
quicou como bola quicando no gramado no piso sintético no assoalho, sumiu no ar
e apareceu de surpresa. Resmungou se sabe lá com quem e como, indignado ou nem:
- Tá difícil,
cara! Tá brabo, meu! Pior mesmo são as gavetas e estantes e os samburás os
pacotes os embrulhos!... Gavetas modernas são luxos e dificuldades a mais!
Gavetas e prateleiras e estantes, tá entendido!
Era o
exercício de sempre. Procurar todos os cantos, ângulos, recantos, repartições,
subir em móveis, espiar tudo, descer, se acautelar, quicar daqui e dali, pensar,
descartar, sumir no ar, aparecer como por mágica, abrir e fechar portinholas.
Atrás dos espelhos e quadros e debaixo dos tapetes por dentro dos sofás e
poltronas e almofadas e cadeiras estofadas e baús e fundos falsos...
E o tipo
entidade sacro procurava sempre trocar ideias com ele mesmo solilóquio:
-
Nem sei por que faço esse serviço de procuras! Eu nem gosto disso! Nem sei se
vou conseguir! Acho que nem! Talvez desista! Acho que nem vou desistir de nada!
Será que vale a pena ou eu nem nasci pra essas coisas? Tenho dúvidas! Desistir
nem é comigo... dou-lhe uma duas três!...
O bicho
manhoso obra-prima nem encontrou nada na sala. E no fim do trabalho da noite
preferiu tomar um banho morno. Debaixo de uma boa e suave ducha, chuá! chuá!...
E, claro, claro como água, que o saci vice-governador extraclasse tomou banho
numa perna só. Ele livre-pensador era bom nisso. E quem sabe um dia seria um
mascote de time de futebol e campeão nacional mundial de tudo.
O
mar corre até o mar mais próximo. O mar chega a entrar no mar e para. O mar se
cansa e dorme no hotel do mar-oceano avenida principal Coronel Gomes Carneiro.
Aí, no outro dia, na outra semana, no próximo mês, o mar volta carregado para
casa. O mar, todos sabem, quer se queira ou nem, carrega rios de longe em longe
rio Siriji rio Mearim rio Marombas, lagoa de Cima... e desde as últimas cidades
das montanhas quais sejam, Matões do Norte, Muniz Ferreira, Ladainha, Alto
Longá, Querência do Norte, Ipatinga, Itaara... E mês após cruzando mês
distâncias inacessíveis... Quando todo mundo acha que devem existir muitos
bichos vivendo soltos nas praias das cidades que vivem à beira-mar. Bichos
domésticos que as pessoas usam como bichos de estimação ou filhos ou irmãos:
cachorros, porcos, cavalos, ratos, gatas, galinhas, patos, perus, ovelhas,
cabritos, bodes...
Quando o
pessoal da casa levantou da cama e chegou ao banheiro quarto de banho... opa!, chuveiro
funcionando magicamente e aquela surpresa estava lá esperando, toda esperando,
aguardando, chocando, sob um longo chuá!... em cascata, estatuazinha da silva e
esperando que caísse a mala do céu:
- Oh, Lilás! -
berrou a mãe.
Lilás gritou
lá do próprio quarto e ainda toda ensonada e sonolenta:
- Hum!... Que
é?!
- Olhe aqui! Venha
até o banheiro ver uma coisa muito estranha!...
- Quê? Que estranha?
Lilás se
ergueu da cama, lentamente e sem pressa e devagarzinho, foi e encontrou seu saci
neolatino anti-herói no meio de uma chuva artificial organizada. Já estava estátua
escalavrada em pedra-sabão ou basalto ou arenito ou granito.
- Mas como
veio parar aqui, mãe do céu?
- Pra mim que
você olha e pergunta, fia?
- É ou nem é o
barão de Jacuí? É ou nem é o visconde de Santa Teresa?
Como sempre já
era domingo de manhã posta e Lilás pegou da bicicleta (sem para-lamas e ou
para-barros) e foi se encontrar com seus colegas da Sociedade Amigos Amigas da Pitangueira
- SOAAPI. E era um grupo instruído ali do bairro que protegia e amava e
apreciava idolatrava as pitangueiras e as pitangas e o pitangal. Tinha uma
florestinha delas na praça do bairro. Tinha e há uma porção delas espalhadas
pelas casas e ruas e jardins do bairro Miranha misturadas sem preconceito a
outras espécies plantas endêmicas que fazem companhia, arrudas-do-campo, arrozes-do-campo,
cravinas-do-campo, sombras-de-touro, cipós-de-gota... e tudo parecia bem se
percebia ótimo e moravam ali em harmonia, capim-sapê, campainha-branca,
alfazema-brava, clúsias...
Ficou a parte
da manhã toda por lá e aprendeu coisas de flores, frutos e comportamentos das
pitangueiras. Conheceu outras experiências de cultivadores de pitangueiras
sementes enxertos universidades de São Martinho, Campos dos Goytacazes, Damião,
Nova Russas... Visitaram uma chacrinha ali por perto, propriedade de um sócio da
SOAAPI, almoçaram por lá, comeram pitangas, pitangatuba, pitanga-preta,
pitanga-da-praia, pitanga-traíra... e experimentaram doces e bolos de pitangas,
sucos de pitangas, geleias de pitangas, variedades de pitangueiras,
pitangueira-comum, pintangueira-de-jardim, pitangueira-do-campo,
pitangueira-vermelha... os pássaros e passarinhos interessados nas pitangas e
também companheiros das pitangueiras pacíficos comportados presentes
onipressentes, anus-brancos, sabiás-do-mato-grosso, arapongas,
coleiros-do-brejo, pés-lavados, marrecas-apaís... e todos muito bem passaram o
dia e mais riram e ou cantaram um montão.
O
mar é ele mesmo em pessoa sempre saudável e jovem. O mar é gente é vizinho é
parente é bicho de estimação e é exigente. O mar é um deus sonoro líquido autossuficiente.
O grande verde mar o tão falado mar, nem é azul. O mar é verde. O céu sobre o
mar é que é azul. Então, o céu azul cai no mar verde. Também debaixo de chuva.
Grandes cidades industrializadas preferem o mar e seus limites a lápis com o
céu, Volta Grande, Cedral, Condado, São Miguel das Matas, Altos, nação da tribo
terena, país da nação marabitana...
Tal
e qual mar que vem olhar a cidade onde mora a Lilás, este mar assim este belo mar
é sempre o mesmo mar. E por perto o mar nem é cara-raiada nem é um biguatinga nem
é um bem-te-vi-pato nem mesmo um caititu atolado até o pescoço nem é um boto-cinza
ou boto-comum namorador de Janaínas... e pronto.
-
Quem pode imaginar hoje em dia ali o tiom-tiom?
-
Quem pode voar e dar asas à fantasia carnavalesca igual os sovis?
-
Quem já viu de manhã o que esperam os da turma dos pitanguás ou neneis?
- De que parte
senda promontório vem a chuva torrencial?
Na parte da
tarde, já em casa caseira doméstica, a menina curtiu a companhia das amigas de
colégio, Rê, Esmeralda, Pérola. Levaram as horas ouvindo axé, comendo pipoca
com guaraná, provando roupas estilos modas tendências comportamentos e rindo à
toa. Muito som, tevê e planos para o futuro. Essas meninas aí esperarão impacientemente
estarão ali aguardando o dia em que poderão ler “Iracema” de J. de Alencar e ou
a trajetória do beato José Lourenço no Caldeirão da Santa Cruz do Deserto.
Este
mar que já se falou, mar que vive banhando a cidade onde mora esta história,
este mar sensacional tem dono? Quem é o dono do mar por além do mar ser dono de
si? É o Ariovaldo? A Juvenilda? O Hélio? A Alzira? Fora um poeta Alberto de
Oliveira? Seria o Joaquim de Sousândrade? É o tubarão-lixa, o mero, o
peixe-voador, a tartaruga-marinha, a borboleta-corujinha, as muitas abelhas
borás-bois? Um tal e qual marquês do Paraná? Seria o marquês de Monte Alegre? Os
valorosos descendentes dos heroicos caiapó-cararaô? O exército do general
Hipólito Ribeiro? Os cidadãos cidadãs de Igaraçu do Tietê e Solânea e Coruripe
e Pires Ferreira e Uauá e?...
-
Eu mesmo conheço Santa Maria Madalena e Feliz Deserto e Chorrochó!
-
Eu ainda nem conheço Pilões e Pilõezinhos e Hidrolândia!
-
Eu já ouvi falar de conhecer Boa Viagem e Senador Rui Palmeira e Macatuba!
-
Quando for a vez de Algodão de Jandaíra e Ampére e São Martinho da Serra!
Madrugada sem
sandálias, duas horas da madrugada de uma quarta-feira, o saci pé no chão
antilógico caranguejo (às vezes com uma sandália de tiras de couro trançadas)
acordou e cheirou os ruídos internos interiores estomacais da casa. Estava sozinho
e responsável vigilante igual como sempre nestas horas mortas. Pronto para sua
missão de encontrar a tal gargantilha joia e objeto perdido. Bebeu todo o copo
de leite pasteurizado e comeu todas as bolachinhas marias deixados produtos pela
menina Lilás. E, sem mais preâmbulos e delongas, foi trabalhar. Vasculharia em
aquela noite a cozinha e a dispensa lotada de víveres mantimentos
quinquilharias alimentos e outros alguns artefatos.
Num canto do
cômodo viu um violão, dedilhou, tirou uns acordes quase harmônicos, umas notas
avulsas, uns sons ao acaso da sorte, assobiou, fiu-fiu-fiu!... e desistiu
desistiu. Meio que brabou bramou consigo mesmo insistindo:
- Nem estou a fim
de! Apesar que cantar faz bem e espanta os pensamentos insistentes ou chatos ou
medonhos!... Nestes casos e somente nestes casos, é!
Largou a viola
e procurou investigar, espionar, observar, bisbilhotar, calcular, considerar.
Abriu a cristaleira e espiou potes, copos, xícaras, jarras, pratos, travessas, subiu
e desceu estantes prateleiras, verificou utensílios alguidares e garrafas e
frascos.
Certa altura saci
deus da mecânica estampa gandaia parou diante de um livro ali esquecido... e se
interessou pela história saga original:
“Um dia
diferente aquela uma gaivota de sorte comum, que acompanhava o rio Maciambu até
a localidade de Goiana no litoral, colocou um ovo na rampa de um certo morro
ladeira cabeço declive com aclive. Este ovo tipo órfico terso meio redondo nem
teve companhia de outros irmãos ou irmãs, restou sozinho e perdido ali por dias
e noites. Logo logo o sol tombaria como uma tarde tombaria de tardinha enquanto
continuaria entardecendo lenta lentamente banho-maria.
“Nem foi
sequer o ovo caçoleta hino assediado por bicho predador, papa-ovos, chupins,
tucanos-de-peito-amarelo, ratos-de-pentes, caranchos, lagartos, sorros, ouriços-cacheiros,
tanajuras-manteigas, homens ou mulheres nada veganos... No entanto, nem se sabe
que motivo, que situação, se a terra tremeu e se o pico Escalavrado oscilou ou
sei lá que força estranha no ambiente, o fato é que o ovo acólito rolou rolou
rolou... e ainda rolou em meio às plantas avencas-de-espiga e velózias... outros
tantos tinhorões e facheiros-pretos... mais pra baixo em derredor das
sambaíbas-da-baía e cravinas-do-campo... e caiu dentro do mar, plooou!...
Abrindo o caminho inóspito seu próprio caminho estrada como um ser um monstro
já vivo natural e fazendo sorte caminho estrada rio rua Barão da Passagem e
numa velocidade qualquer nem muita ininterrupta, plooou!...
“Então, por
mágica ou nada, o mar se confundiu com o céu junto do horizonte fininho. O
horizonte do mar e o horizonte do céu, imexíveis, prensados, se juntaram num
risco só: verde-azul. O azul era vidrado, água com tinta azul, luminoso. O
verde era espelhado, água com tinta verde, brilhante. O céu e o mar foram
confundidos irmãos em uma apenas entidade identidade mundial.
“Mas o ovo lenda
oitão ou outão, que nem é redondo redondo ou novidade... e este pousou no chão
do fundo do mar e submergido, blu-blu-blu!... Quando muito este mundo e seus
poucos pormenores. Fosse o que fosse o ovo óvni, nem estatura nem costura,
maior ou menor que a Terra governada pelo sol. Que obstáculos lhe podiam ser
úteis com muitas árvores e plantas, copaié, buchinha, araçá-congonha, tucaiá...
separando os pássaros dos cantos interpretações, tovacuçus, gaviãozinho,
cararás, arapapás... alados que aterrissavam sobrevoavam as cidades,
Itapissuma, Guimarães, Patis, Capitão Enéas... que moraram ao largo e de perto
e próximas do mar.
“Uma tainha
analfabeta, e de pronto de repentemente curiosa, se amarrou dele gostou do ovo
oval ovocélula e veio chocá-lo adotá-lo. Foi amor à primeira vista, coisa
impulsiva de mamãe maternal materna desde o tempo que morava no cardume. Tudo
bem. E tudo normal como no primeiro dia do mundo e, blublublu!...
“Poucas horas
mais tarde nasceu uma gaivotinha do tal ovo girândola rolante importante
palimpsesto. A pequenina avezinha nem piou... por enquanto. Nem piou porque
estranhou, ainda de fraldas, o fundo líquido do mar banho no azul banhada. Onde
se viu e se enxergou?! Conheceu a mãe peixe tainha e achou que tudo estava cem
por cento como no conto da história. A gaivotinha adornada foi bem servida, bem
cuidada, bem tratada com frutos do mar tenros do fundo do mar-oceano. Ninguém a
visitou ninguém apareceu com presentes enfeites brinquedos doces. Se acostumou
a princípio com aquele meio ambiente submarino úmido aquático aquoso muito
aquoso encharcado líquido. Se acostumou a viver mergulhada e lá de vez em vez de
quando em quando ir ou vir à superfície para dar uma pouca respirada uma olhada.
Adorava a mãe tainha que nem a largava vinte e quatro horas, dia e noite sete
dias da semana, feriados e dias santos liquefeitos e incluídos.
“E os poucos nada
nadar dias foram passando subaquaticamente temporariamente reticentemente... As
noites nadando natação foram existindo mergulhadamente ensopadamente
cronologicamente... Claro que se podia dizer que era uma rotina, apesar de
gaivotinhas submergidas e tainhas nem saberem se explicar sobre o que é um dia
igual ao outro um dia puxando pelo outro. Se sentiam felizes, comiam bem, e
isso era tudo, tudo e muito principalmente. Gaivotinha avezinha dentro da água
e com a mãe peixe tainha, blu! blu! blu!... e parecendo tudo parado azul paradas.
“Vamos dizer
que passou um mês e tanto ou mais de 31 dias marítimos. A gaivotinha já adquirira
uma certa autonomia, treinava caminhadas, batia as asas, nadava e vivia mergulhada
subaquaticamente como um peixe-papagaio. Era o orgulho da mãe tainha. Era a
surpresa do lugarejo atol das Rocas a lés-nordeste da cidade de Afogados da
Ingazeira e Poço das Trincheiras e Olho d’Água das Flores e Natal-RN. Se
divertia entre as algas corria buscar estrelas-do-mar guaiamus brincava nos
arrecifes e corais e plataformas petroleiras... A gaivotinha ensopada curtia as
primeiras penas que nasciam, crescia um bico com força e seus olhos abertos viam
mais longe aguados no fundo do mar e mesmo até kms de profundidade e
glugluglu!...
“Aí, um belo
dia subaquático e qualquer, blu! blu! blu!... a gaivotinha molhada sentiu uma ansiedade
inexplicável de partir e nadar e sumir no céu do outro lado do mar. E pedalou,
bateu as perninhas, as asinhas, embalou velocidade e partiu... E surgiu emergiu,
voou para o céu como um anúncio de propaganda de creme dental. Saiu do mar subiu
para o céu feliz sorrindo e refrescante. E o céu parecia outro mar com intervalos
comerciais. Se soltando respingada respirando pelos pulmões decolando pinga e
pingando, alçou voo... O sol se sentindo ocupado ou de fato culpado caso nem
podia se comportar com tanto calor. E foi o que foi o sonho da humanidade voar.
“Era agora ou
nunca um mar azul e alto, e muito mais leve. Em vez de bater pernas e asas como
nadadeiras para nadar, a gaivotinha bateu asas para voar para secar enxugar e navegar
no espaço éter aéreo. Ainda aprendendo e desajeitada. Ficou imensamente feliz
com a paisagem, a liberdade, o ar solto, os pulmões abertos, o panorama, essas
outras paisagens sem nuvens. Olhou tudo, viu muito mais, o horizonte ampliado,
outros bichos, outras aves, e muitas aves parecidíssimas com ela mesma. Reflexos
de mar tons marinhos correntes de ar aviões comerciais. Era outro país, outro
continente, outro planeta. Uma luz caleidoscópica que nem parava de rebrilhar e
se revolver e se mostrar. Sentiu o sol forte nos olhos o calor nas penas a
brisa suave no bico, tudo tudo. Encontrou outro mundo e definitivamente
praticamente vazio espaço aéreo nordeste sudeste. Uma vitória fantástica ao ar
livre em cartaz. Aérea em movimento paisagens panorama descontínuas pouco
transformadas e sensacionais, etc. Praticamente pertencente aos astros celeste
divina sideral ecológica.
“A avezinha cansou
de orbitar e pousou morro do Couto na primeira ilha de pedra na frente do
caminho do voo da aventura. Parecia uma rainha de céu e mar. E era mesmo. Com
almofadas de nuvens ainda pouco cheias esgarçadas. E sentiu fome e mergulhou
flecha rapidamente. Pescou de cara por acaso do cardume uma enorme tainha
patriota. Nem ficou sabendo nem lhe passou pela ideia nem lhe contariam que
aquele peixe tainha que aquela tainha bicada ocasionalmente pelas costas
poderia e talvez quase com certeza altas probabilidades fora mesmo sua mãe adotiva.”
O saci entretempo
antanho ou oitibó desligou o livro e voltou as suas funções e preocupações e investigações.
Continuou a trabalhar e a procurar até a madrugada e o resto do fim da noite.
Uma rotina. Ouviu o canto do galo, mas nem soube onde. Lá fora, o mar batia nas
pedras da orla lambia a areia da praia Mole. Lá fora também, no alto do céu e
do orbe, D podava cortava roçava o mato do céu noturno com uma foice de lua crescente.
O nume o
disfarce o banguê ou saci chegou até uma guloseima de abacaxi, que encontrou na
geladeira no fundo da prateleira, e começou a saboreá-la degustá-la. Falou para
ele mesmo, firme e convicto:
- Hum!... totalmente
pra você, meu estomagozinho predileto! Hum!... somente para nós os dois, é
claro! E bom apetite! E boa noite!
Em casa de
Lilás quem acordava antes de todos cedo de madruga era a mãe e atarefada. Era
ela que vinha sempre na frente de todos expulsando das camas. E foi ela ainda
que descobriu e revelou e conversou:
- Hei! Quem
comeu minha guloseima e doce de abacaxi? Que que esse brinquedo está fazendo
aqui na geladeira e congelado? Lilás esquece tudo jogado, assim, aí, claro!...
Um
mar é importante porque nem desiste nunca. E até uma vez nos anos mais antigos
da história do mundo as pessoas acreditavam que o vento nascia dentro do
mar-oceano. Que o vento nascia no meio do mar. E as pessoas, uma vez e isso faz
uma cara, acreditavam em ilhas de coqueiros tortos no meio do mar. As pessoas,
tempos atrás e perdidos na história, acreditavam em tesouros de piratas no
fundo do mar, blublublu!... É que as pessoas de antes e da pré-história,
pessoas continentais, de agora da era moderna, de sempre, acreditavam, acreditam
e vão levar ainda a acreditar que basta querer admirar olhar para sair por aí a
navegar a velejar.
E Lilás saiu
para o seu dia de rotina comum original pacífico oficial. Pela manhã, colégio
Barão de Ivinheima distrito de Inhaí em Diamantina. À tarde passeio no parque
das Emas e rio Formoso e rio Jacuba, emboralá!, deveres tarefas de escola e
pouco mais. Mais tarde aldeia dos bará-tucano em plena reserva território e
remar em canoa prática rio Una e ilhas flutuantes de aguapés e madressilvas-verdadeiras
e baronesas rainhas-do-lago...
- Você viu
minha joia intensamente brilhante?
- Você pode me
ajudar a abrir a janela e a porta?
- Você me
passa o arroz e a salada?
- De que
futuro estaremos lá?
O
mar é verdinho e maravilhoso e muito mais. O sol é amarelo-laranja. A lua é prato
queijo louça. O vento é assobio intermitente na copa das árvores. A cidade,
perto do mar, longe do sol, longe da lua, corrida pelo vento, a cidade nem é
nada, a cidade é grande, a cidade é pequena, a cidade nasce e tem e se enamora
de outras cidades limítrofes coirmãs, Central do Maranhão, Descoberto, Leopoldina,
Cocal de Telha, Agrolândia...
No fim da
tarde requentada tocou o telefone, triiim! triiim!... Era a formosa e
exuberante Esmeralda, das melhores amigas e Lilás recebeu:
- Oi,
comadre!...
- Alô!... -
respondeu Lilás. Pois nem! Quem deseja?
- Alô digo eu,
Lilás! É Esmeralda, a linda!
- Hum!... Como
vai? Como está? Onde está?
- Esqueci de
perguntar como vão as investigações! Você achou a gargantilha? O saci
iconoclasta entretanto é bom detetive?
- Ah!... Assim
que vai nem vai, né!
- São sem
dúvidas reimpressionantes!...
Lilás
estava preocupada com a demora e teimosia do seu objeto de estimação. E Lilás
deu um suspiro, ora!... E depois já falou articulando:
- Sabe o que é,
Esmeralda? Vou esperar mais um ou dois dias! Quer dizer, noites! Se em daí para
diante nem aparecer uma simples e pequena novidade contranovidade eu troco de
investigador e feiticeiro e pajé, pois nem?!
- Que você
pensa de pedir a Santo Expedito? - perguntou Esmeralda. Pede vai já lá várias
coisas para ganhar uma, né?! Onde será que ele mora e habita base aérea?
Lilás
ficou pensando. Um pensamento... Que pensando bem os pensamentos são mesmo
extraviados. Extraviados ou extravagantes? A amiga tinha certeza ou nem tanto?
Lilás continuou na mesma e filosofando. Ideias extraordinárias e extraoficiais.
E Esmeralda voltou com outras razões sempre da fantasia dela mesma e puxando:
- Eu acho, de
minha parte, que santo é melhor que sacis exóticos, sei lá!
- Tô achando
também, Esmeralda! Tô achando e me convencendo! De acordo!
Na noite
seguinte naquela noite mesmo como de costume como era costume ao saci pergunta
em resposta porta e janela divindade, ele particularmente esperou que todos na
casa adormecessem para apenas então começar a agir e se acionar se movimentar. Dessa
vez bisbilhotaria a varanda o pequeno pátio a garagem e arredores. Antes de
sair tomou o copo de leite geladinho e comeu as deliciosas bolachinhas marias
barradas com geleia de abóbora esta importada de Sobradinho-BA.
O bacurau
relógio de pulso ou saci passou por debaixo da porta e chegou na área, lá pra
fora da casa. Na varanda mexeu em vasos, plantas, cadeiras espreguiçadeiras,
redes de deitar. No pátio, o cão Atro cochilava o sono da madrugada. Atro
dormia com os olhos fechados e as orelhas abertas. Nesse espaço de terreiro,
pequeno pátio quintal, o saci pífaro pela primeira vez quicante olhou uma
bergamoteira, uma pitangueira, umas bromélias perto do muro da casa, grama
cortada, outras plantas, barbatimão, lixeira, maracujá-suspiro,
ixora-brasileira, sempre-viva-da-serra... passando os olhos acesos por tudo. Na
garagem o automóvel, um pneu careca encostado na parede, uma tevê antiga
esquecida num canto, um armário cheio de ferragens ferramentas de jardinagem e
de mecânicas, uns produtos de limpeza sobrados esquecidos, uns tarecos por
consertar, garrafas vazias de vidro ou plástico, móveis antigos descartados,
produtos de beleza fora dos padrões da estética atual e ou televisiva... E o saci
xereta matéria-prima desabafou destrambelhou:
- Onde estará
essa bendita joia ou gargantilha quatro voltas, hein?! Se eu tivesse uma sorte
de detetive de primeira viagem!... Vou subir no topo da copa alta desta guajiçara
para ver mais longe adiante e de um todo os 360°.
O saci cateto recomendado
chegou perto do Atro e sorrateiramente detonou um soprão com baita barulho de
permeio imediato, barritou:
- Vruuuu!...
Atro cão
cachorro cusquinho acordou, pulou, saltou e se ergueu no sobressaltado e já
pronto pra briga pro confronto. E Atro canídeo ainda sapateou, balançou a
cauda, mexeu as orelhas e nem acreditou no que viu a sua frente. Esfregou os
olhos mais cara amarrada ainda dentes molares sisos caninos incisivos à mostra
e acoou, ganiu, latiu, perguntou:
- Auauau!... Quem
é você, seu enxerido alto-falante?!
- Tô a
trabalho, sossegue! Calma! Respire! Deixe explicar, seu mané! - dizia o saci,
figura bastante decreto-lei.
- De que mundo
você veio, seu pezinho?
- Nem precisa
saber! E porque nem é da tua jurisdição!
- Hum!... Que
esnobe, o tipinho! Todo cheio de si e mais alguma coisa que nem sei
identificar! Eu, hein?! É príncipe dos altos coturnos, naturalmente!
Então o
pequeno feiticeiro resolveu bancar o perguntador detetive investigador:
- Sabe, Lilás
tá tão chateada com o desaparecimento da gargantilha! Nossa! Tá um trapo de
preocupação! Foi você, seu Atro, que escondeu a gargantilha da nossa amiga
amigável? Pode dizer, eu compreendo e nem revelo segredos!
O
cão Atro ficou preocupado e sentido. Baixou a cabeça, mexeu as orelhas,
encolheu a cauda, andou em roda da própria cauda, etc. Nem se sabia já se era
de raiva ou espanto ou pena da bela Lilás menina tão galante. Atro, nome
esquisito e diferente, bradou com razão canina:
- Auauau!...
Você tá querendo me sujar com a menininha Lilás, é?! Porque eu sou um cachorro
de palavra, tá ligado?!
Saci
senador deputado morador de garrafa entidade forçou a barra. Nem foi na onda do
melhor amigo da menina. Disse com todas as letras pertencentes às palavras
sonoras e faladas na língua das gentes do lugar:
-
Foi você que surripiou, levou, tascou, escondeu, aliviou, abiscoitou, bispou a
gargantilha joia objeto de estimação da nossa amiga menina Lilás! Confesse, vai!
Erros assim podem ser perdoados! Confesse, vai! Faltas e descuidos acontecem
com qualquer pessoa, tá claro?! Diga a verdade e nada mais que a verdade!
Confesse vai e que ainda é possível remediar e botar os panos quentes os pingos
nos is, uma vez!
Atro
ficou superchateado supersaturado e hipertenso. Atro correu atrás do saci
bisbilhoteiro detetive de primeira ordem. Mas o saci acadêmico professor
oficial era mágico além de muitas outras coisas exóticas e tal. Atro cansou de
representar o cão superaudacioso. Atro nem quis esconder mais. E Atro, o cão
amigão da menina Lilás, resolveu abriu o jogo e esclarecer a peraltice. E que
já era hora, afirmou:
- Hum!... Hum!...
Confesso! A gargantilha tá aí na caixa de areia e bem protegida!
- Ah, na caixa
de areia! Como nem adivinhei! Somente um cão poderia esconder um objeto furtado
numa caixa de areia! Bem muito original!
- Vai contar
pra Lilás que fui eu? Pode contar, eu mereço todo e qualquer desprezo que vier,
tá ligado?! Cães e cachorros cometem sempre estas coisas peraltices!
- Nem sei. Tô
pensando. Que você acha? Me convence do contrário, mané!
- Sabe, fantasiei
comigo que Lilás nem precisava mais desse objeto de enfeite! Afinal é apenas
uma quinquilharia, né?! Encontrei a gargantilha jogada pelo chão, ali na
varanda e... bem, pensei que Lilás nem queria mais saber da gargantilha, etc.,
e tal e qual! Talvez já vou lá pensar melhor da outra vez, em?!
O
feiticeirinho fotomontagem papel-jornal voltou para o interior da casa e com a
missão dada por finalizada e encerrada e resolvida. Recuperara o objeto da
menina Lilás. Trabalho feito e fechado. Aí era só esperar o dia amanhecer. Missão
dada, missão cumprida. Ao acordar a menina olharia sobre a mesinha de cabeceira
e daria com a preciosa e afetiva gargantilha.
Sendo o fim do
trabalho fim da história, o saci extraterrestre religioso cientista retornaria
ao mundo dos invisíveis impossíveis indescritíveis. Esperaria sua nova missão.
Fosse naquela mesma casa ou em qualquer outra residência ou apartamento ou
mansão ou palácio ou escritório ou cabana ou barraca ou meio ambiente ou gruta.
Fosse lá onde fosse que seja que será. Qualquer coisa o federal ministro
secretário saci voltaria, desencantaria e procuraria encontrar o que fosse.