sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Aline de irrefragável (romance) - capítulo 1




Em algum lugar inclusive e já na Via Láctea.
Inefável mas diáfano.
Olhe quem vem vindo aí!
Quem olha quer saber. Conta nos dedos da mão.
Vamos ver tudo de novo e conforme o lugar.
Primeiro o mundo já está assim assim. Segundo depois o mundo começou e nasceu e surgiu, vem quicando. Tudo muito rápido, em questão de eras e milênios e continentes e oceanos. O que era o que nem era, já ninguém sábio.
Morros que rodeiam de perto atrapalham e encurtam e estringem e estreitam os tais de horizontes visuais. E quando verão, frio; e quando inverno, calor. A gangorra quente e gelado dentro do mesmo museu e galeria de exposições.
O mundo nem existia nessa tarde do planeta, e foi plantado ali no meio dos morros onde hoje se chama Nova Prata. Da colina ainda dá para ver que está tudo azul no céu e tudo verde no chão. O mato e um pequeno riachinho leste para oeste passando entre as plantas, anônimo, sem correnteza de rio, o barulho de periquitos-ricos porque nascem muitos que frutificam coquinhos coqueiros-do-campo, maçarandubas-verdadeiras, ervas-do-fogo, chicas, gramas-do-pará, mentruzes... Mas compartilham outras coisas várias e interessantes e miúdas... e oxalá!
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O gliptodonte previsível nem desaparece vai embora e nem chega a lugar nenhum. Retorna à ilha pela via ponte Colombo Salles. Revolta para resgatar, no caso. Quer ser tauari na praça Santos Dumont? Quer ser uma pedrona do morro da Cruz? O gliptodonte é D perambulando sem lugar fixo ou ideia fixa antigo e eterno. Oblação ofertando, oferecendo ofertando a Tupã. Em vez de procurar o rio Uraricoera volta para a cidade o lugar de antes. O gliptodonte é calunga no mundo dos homens dos animais dos vegetais dos automóveis. Quer ser sabiá-do-banhado no bairro da Trindade? Quer ser perdigão sem perdiz sem perdigotos na rua Domício da Gama? Pois o gliptodonte passou e foi crescendo desenvolvendo envolvendo e por tudo isso: chácara, capela, arruado, aldeia, arraial, vila, distrito para chegar solto desimpedido pachorrento no bairro do município.
Em a rua Mariluz com a rua Ibirapuitã de a Gravataí.
Quando fui a São Paulo praça da República comprei 17 livros nos sebos ali por perto, ruas Constâncio Alves, Jardim de Angicos, Macuxi e outras. Dois deles eu li na sequência até para esta coincidência: o personagem central para “Calidoscópio”, de Gastão S. Campos se chama Dionísio. E a seguir o personagem central de “Amazona” de Sérgio Sant’Anna apelidada Dionísia. Um casal, na verdade. Outra coincidência no mesmo lote mas diferente. Tinha adquirido também naqueles sebos uns livros de J. B. de Mello e Souza. Pois olhe. Fico olhando e pego um que outro pra ler. À tarde continuo lendo um livro de memórias “Ao Longo do Caminho”, Annibal M. Alonso, quando, coincidentemente lá pelas tantas o autor cita eu leio um autor da amizade e ninguém mais que o João Batista de Mello e Souza. É muita! E coincidência assim nem sei para que que serve ou desserve. Sem contar que leio um dos últimos exemplares de João Batista de M. e S., eram três, no dia de São João Batista dia 24 de junho. E ainda nem resolvi se isso tudo mesmo é coincidência ou nanja, de alguma forma.
Eu tenho essa mania de buscar mais que buscar encontrar coincidências por aí. São absurdos. Uma ou umas regras esquisitas estúrdias e até onipresentes. São coisas também bem simples do acaso, etc. Uma delas quando comprei dois livros no mesmo sebo mesmo instante lá em Uberlândia bairro Itaboraí numa travessa de nome também interessante Itambi. Trouxe pra casa e tal e qual. Leio um e passo imediatamente pro outro. Já lendo o segundo percebo que, confirmado a coincidência, qual seja? Em ambas as histórias havia um certo personagem homem, nem importante, aparecia somente em um determinado ponto da história, sem muita razão de ser, e que primava por uma característica de falar e deixar as frases as expressões pelo... sem na verdade... entendeu?! Isso nas duas histórias. Taí a coincidência. Outra coisa: os escritos eram, tanto de um como de outro livro, narrados por mulheres autoras escritoras. Uma era natural de São Paulo e ambientou a história no Recife; a outra era de Belo Horizonte e ambientou a história em São Paulo. Pois então tá. E as coincidências fazem a gente andar. Assim, dois ou mais acontecimentos que se sobrepõem: coincidência. As coincidências fazem a gente pensar iludir que há algo... escrito nas estrelas... ou na íris do olho esquerdo do gavião-quiriquiri...
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Todo mundo todos quaisquer olhando para as árvores. Um momento de verde e todos gostam de olhar e pertencer e se sentir os vegetais. As árvores que guardam o verde, mandaravé, candeia-de-caju, ingazeira, assa-peixe, milho-cozido... O punhado de verde que se vê ao longe no parque Guaíra, na rua João Alfredo, na praça Guarurama...
Olhe que assim nem é raro e difícil e quase impossível!
A praça fazia um quadrado, um pentágono, um paralelogramo, etc., e o pai do Joel olhou a igreja do outro lado depois da rua, majestosa por fora, as mãos nos bolsos, e se controlando para não fumar. Tinha uma sombra de abieiro, foi e ali se sentou no banco de cimento, sob o abieiro, o braço esticado na borda do encosto, a vontade de fumar já nem lembrava mais tinha ido embora, o abieiro sem abios, uma perna dobrada sobre a outra. O pai do Joel olhando em volta, olhando a volta da praça, a igreja com pontas para o céu que quer azul-ferrete. Uma nuvem com cara de casa de jabuti.
E avó com neta pela mão esquerda. Andorinhas trissando a todo custo, a todo pano, alimentação aérea, voando muito rápidas, ziguezagueando. Vivem em média oito anos? É pouco. É muito. Pra quê? Carro com alto-falante anunciando a barateira lojas Arariboia. Umas borboletas e joaninhas e brincos-de-princesa e amendoeiranas compondo o ambiente de vantajosas cores.
O mundo em todo lugar, Três Rios, Valença, Sinimbu, Sério, Bandeira do Sul... Uma pajurá fazendo sombra. Duas cabureíbas fazendo estrias de luz e sombra na calçada. O ruído de carros motores pneus buzinas motos na avenida Tapaiúna.
As praças se parecem em boa parte. Ao menos em a maioria. Se repetem na figura. Há muitas em forma de triângulo. Qualquer figura faz uma praça. Qualquer praça já é uma figura. Mas isso mesmo nem importa. Chove lá agora em São Romão?
Uma mulher, talvez procurando, bolsa nova das grandes com fechos por todos os lados, começou a contar uma novidade como nunca como esta. Ela veio descendo desde lá do bairro Campé. Atravessou meia praça por entre canteiros de arnicas-do-campo e brinquedos infantis e pedestres. Parou em frente ao pai do Joel e disposta, mangas arregaçadas, flor no cabelo: uma bromélia, uma agnésia, uma orquídea, etc. Uma hipotenusa. E foi puxando a história de dentro de si mesma uma narrativa assim:
- Eu me chamo Junara de quê, e venho toda vida de Lindoia do Sul. Cheguei já faz um tempo nesta cidade litorânea e tudo bem. Gosto que seja assim, etc. Ondas novas de fluxo e refluxo e influxo. Me deixem contar o resto, deixe!
"A jovem de pijama azul-clarinho, que dorme com o travesseiro entre as pernas, está aí agora, dez horas da manhã, na varanda da sacada do décimo segundo andar, semiacordada, e olha molemente açucaradamente a cidade se movimentar a seus pés.
“Pois a adolescente de pijama sou eu, como se fosse eu, somos nós, eu e ela, era eu quando guria. As duas pouco se conhecem pouco se falam, etc. Os caminhos surgem confusos, mar de confusões, rio Paraibuna. Fatos estranhos acontecem acontecendo.
"Não tem empregada ainda, o pai trabalha, a mãe trabalha, os irmãos trabalham ou nem nasceram, e ela cursa o ensino médio no colégio Nossa Senhora Aparecida. Mas um dia - sonha como todos sonhamos, etc. - terá duas empregadas, um salário desejado, um carro quatro portas, ampla família com marido e filhos, um emprego para a vida, e muitas viagens coisas de bom proveito bom retiro, Heliópolis, Santo Antônio de Pádua, Alegre, Guiricema, serra de Itatiaia, cascata do Chuvisqueiro, praia do Caripi... 
“Eu pensava assim o mundo comigo e igual com ela. O mundo pensa assim, por que eu não pensaria nem pensaríamos e com razão?! Como se um mistério estivesse para ser desvendado tocado em frente. Como se uma história para ser narrada. Como os pássaros, coleirinhas, sanhaços, estrelinhas, tipiós, anus, juritis... como o vento como o sol como o rio Pomba na manhã ligeira.
"Enquanto isso, enquanto nós, ela foi preparar um suco de abacaxi com caju e um sanduíche com pão de centeio e queijo de Minas. Escuta música no celular pendurado na orelha, acompanhando o ritmo que é bom e envolvente e brincante. E lê, displicentemente, umas revistas de variedades, uns folhetos de anúncios. Uma beldade com asas de ave o riso solto branco espontâneo. E vê tevê no desenho animado. E gorjeia imitando um saíra-militar.
“Quais os segredos que se escondem por ali, de mim, de nós, dela mesma? Um olhar que procura por respostas. E tenta descobrir por mim por ela uma forma de abrir o cofre. E eu, como outra, falo no ouvido: "Junara! Você deve fazer o que eu mandar, oquei?!" E Junara me responde, do seu jeito juvenil e espontâneo adolescente: "Tenho feito de tudo para não perder a cabeça diante de semelhantes coisas." E cruza os braços me abraçando apertado. Alguém poderia entrar ali no seu quarto de dormir e perguntar de supetão de bate-pronto, assustando-a, "que é que você está pensando?!" E Junara cruza os braços me aquecendo me escondendo.
"No banho gostoso da manhã já alta e totalmente dominada por um sol caseiro abrangente eterno, lá fora, eu vi meus dois firmes tenros verdes e quase inéditos peitinhos deslizar ao gosto do sabão. Recordo o fulano no corredor do colégio. E quem mais? Já sei a blusa que sairei para o dia de aula. Tudo no meu corpo está no lugar que D colocou e bem. Sei que perturbo os guris as gurias e em quê: pernas longas, cabelo alçado, umbigo de fora, boca entreaberta, olhos baixos, etc., jeito de andar. Falar nisso, ainda não me convenci a um piercing no umbigo. Até porque esta tatuagem de flor de orquídea no ombro acho pouco.
“Quero saber quero preciso quais os segredos. Eu quero ela quer queremos ver o interior do cofre do baú do brinquedo. Eu mesma coisa. Quero ver o que tem ali dentro. O Guairá com seus limites o rio Iguaçu o rio Paraná o rio Tietê. E sinto ou adivinho que tem de tudo um pouco e apetecível.
"De volta à sacada no décimo segundo andar. Os braços abertos. As pernas abertas. Polichinelo. A cidade terá uma grande surpresa um belo dia. E promessa é dívida. Avião militar manobrando exercícios a jato.
“Sinto já uma comichão de alegria só em pensar que chegaremos à universidade e nem estudaremos nada, apenas conversas no bar-lanchonete, e olhe lá!, com a galera dos cursos os desocupados as politizadas os descolados as descoladas. Rir com todos os dentes. E opinar políticas de meio ambiente. Sentar na grama monja debaixo na sombra do jundiaí caramanchão rodeado de damas-da-noite, maracujás-açus, batatas-de-purga...
“Ficamos diante do espelho tentando buscar um entendimento um início de mim mesma de nós lá por dentro. E nos abraçamos demoradamente. E procuramos nadar pra frente rio Carangola que peixe anda pra frente.
“Tudo acontecendo ainda pra ontem, muito mais em pensamento e sonho e fantasia, e ela ali frente ao espelho ou debruçada na janela. Fecho bem os olhos que são pra sonhar melhor. Penso e me pergunto: eu penso isto? E quem com quem na praça Pádua Dias no Tatuapé?
"Caminho pelo quarto e paramos frente ao espelho da penteadeira amacio os cabelos caminhamos até a janela aberta semicerro os olhos contra o vento. O sol brilha como diamante branco ao mesmo tempo que o céu faz um infinito de esmeralda. Um dia iremos até Pitangui, Marataízes, São Bernardo do Campo, a aldeia dos uru-eu-uau-uau, pico das Prateleiras... Manhã inalcançável. Manhã de sono atrasado. Manhã de açaí-do-alto-amazonas, manhã de Gramado Xavier, manhã de Riozinho, rua Pereira Filgueiras...
“Algumas vezes tenho silêncio, outras sonhamos relaxadas pensando no porém no empós, aqui é Floripa, lá no continente São José e Palhoça. Muito simples e sem mais nem menos. Passamos os dias encantadas, à noite também. Insisto em conseguir esclarecer alguma coisa. O roteiro estampando a tela do computador, Barbacena, reserva indígena panati, bairro Vila Vilma em Santo André...
"Pensando bem, analisando hoje, ficará em casa satisfeita assistindo tevê e tirando cumprimentando o sono adiado."
A mulher completou a história e tinha 38 anos meses e ainda pontuou:
- Bem, a guria que fui e que é, e aqui está, então, uma pena que nem conseguiu fazer o tempo parar, etc. Hoje o mundo nem é o mesmo e já mudou. Hoje mesmo um dia de dezembro, folhas flores frutos, praia de Areia Preta, pássaros aviões nuvens. Entendeu?!
O pai do Joel aprendeu nesses anos de procura em procura, de praça em praça, que as praças se parecem com um resumo das cidades de cada cidade. Uma praça se parece com uma ilha, punhado de árvores grandes, espelho de água no meio, bancos para sentar, cães e pessoas passando todas as horas. Tipo assim a praça Rui Barbosa, em Cataguases. A praça Clóvis Bevilácqua em Miraí. A praça Ramos de Azevedo, em Aparecida do Norte. A praça José de Alencar em Boqueirão do Leão. E as cidades começam sempre nas praças principais e a primeira praça inicial do lado de uma igreja que vira Matriz e catedral. As cidades começam nas praças centrais e depois dali vão embora para os limites do mundo. Até quando.
O pequeno reduto de aves que os ativistas querem tirar dali e levar pro mato, cinco cercados de tela de arame, uns pios estranhos, uns guinchos surpreendentes, uns ruídos de mato, jaós-do-sul, tiribas-fogos, papas-lagartas-do-mangue, juritis-vermelhas, inhambus-anhangás, cujubis... nem não tinha que ver, patos-corredores, aracuãs-de-sobrancelhas, pariris, chimangos, saracuras-do-mangue, batuíras-de-esporão, arirambas-da-mata, capoeiras-cachorras, mutuns, guaracavas...
Crianças apostando risos e gargalhadas nos balanços, escorregadores, gangorras, labirintos, monumento a D. Pedro I. Nem escondem se escondem são os risos e sorrisos, algazarra, alarido, gandaia. Entrando na fila para o tobogã.
Guria azougue é assim mesmo. Peroba-brava é assim. Carro novo vermelho marca tem placa de Ubá. Formigas-cabeçudas são assim andam assim trabalham assim coletivizam assim. Enquanto que porém em Canudos do Vale, meu amigo! Os azulinhos-do-sul são assim. Porque lá em Jesuânia... E o resto é assim também. E o supérfluo é assim com certeza.
Como dizem e imitam e eu repito: nasceu virou mexeu largou pegou andou ainda nem acabou.
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Em Triunfo às 13h e 13min pegando pé ante pé a rua 13 de Maio. O que já é muito! Para vir embora de rodoviária. E isso é superstição? É coincidência do acaso inusitado. Sob um forte sol que eu sei e garanto. Inesperadamente. Olhei no relógio suando a hora sob a lua, etc. Não deu pra combinar com o dia treze (8) mês treze (12) nem o ano treze (2017). Paciência, então. E coincidência folgada assim mesmo.
E mais. Eu estava na internet lendo umas coisas curiosas sobre o Circuito das Grutas e que são compreendem diversas cidades de Minas Gerais. Coincidência. Minutos depois na tevê telejornal e já passava um filminho depoimentos com umas moças que se perderam na gruta na caverna estalactites estalagmites e só encontraram nanicos monstrinhos pré-históricos alienígenas anônimos que vivem na escuridão nas profundezas. Na falta de uma coincidência mais impactante mais tipo elementar... esta seria mais uma e absurda, quiçá displicente. Emboralá!
E se perguntar por que que o B não tem nem teve elefantes brancos cangurus ursos pandas. Dizem que já teve preguiças-terrícolas-gigantes e felinos com dentes de sabre. Todos os melhores países do mundo países do bem têm seus elefantes elefantas o Vietnam o Myanmar a Tailândia a Índia o Moçambique a Angola... Quando o gliptodonte volta pra casa pro seu lugar no mundo cidade predileta ele já chega torto avariado zambro sono e lento. Um gliptodonte torto cambaio, ou sei lá o quê, ou sei lá como, é um bicho mamífero extinto desdentado. Falar a verdade: vem para despencar, vem para ficar. Seus últimos passos na areia da praia da Joaquina...
Rua David Canabarro com a Sete de Setembro em Taquari.
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O Gaudêncio filho de Gaudêncio batizado Gaudêncio, como o pai o avô o bisavô o etc., fora vendido, junto com a mulher Juçara, tapanhunas, ambos ainda com dezenove e dezesseis anos, para um pequeno fazendeiro na localidade de Jacuí e interior de Minas Gerais limites de Goiás.
Tempos aqueles e quem viu os terráqueos e os lunáticos.
Não importa como e onde e por quê, mas Gaudêncio ficou mais velho e quase imprestável 32 anos e Juçara 29 anos - com cinco filhos todos já espalhados pelo mundo e negociados - e foram revendidos a preços baixíssimos e para um pequeno camponês de Olhos d'Água, mais ainda interior de Minas Gerais fronteira com Bahia. O casal seguiu amarrado sentadinho num carro de bois pelo meio das montanhas e vales e encostas onde pouca gente nem existia e muito menos habitava.
Paisagens verdes-claras mil tons de verde verdes-gaios, vegetação de pau-terra-do-campo, capimpeba, mata-cavalo, carqueja-amargosa, ingá-ferradura, figueira-de-folha-branca, mata-pasto... Regatos riachos ribeirões córregos banhados passando a vau e costeando o rio Piranga o rio Xopotó o rio Juruá as terras da tribo janduí...
Um par de araras versicolores multicores coloridas bem juntinhas arengar e encostadinhas e se catando titilar com o bico curvo adunco. Perdizes e perdigões e perdigotos arteiros grasnar se escondendo pelos camapus ou birus-mansos ou arrabídeas-rosas, jaós altivos piar trilar em alguma reboleira algum grotão, gavião-belo guinchar chiar pelo alto em revoadas no calor do meio-dia grulhar rastejando sombra espectro em cruz.
Os pés de vento chegavam de lugares diferentes e inusitados, Muaná, Itaetê, Pariquera-Açu, Queimados, bairro Pedra de Guaratiba... e então redemoinhavam na picada aberta no mato do cerrado. Era tudo tão longe e vazio de sorte alguma. Todo mundo sabia que não existia mais nada para fora do mundo. E as almas dos mortos ou do outro mundo gemendo e arrastando correntes e grilhões, tumbas enfeitadas de itãs, subiam da terra ali por volta da alta noite enluarada ramos secos das pitaicas mostrando as garras as unhas as pinças.
Gaudêncio e seus 32 amarrado a um peso de ferro o dia e a noite. De dia fazia tarefas no pequeno curral de oito vacas leiteiras e 20 borcos e tantas galinhas. Sempre com uma coleira de cachorro que lhe dava relativos certos controlados movimentos. De noite dormia no porão enrolado nuns pelegos e acorrentado junto a um poste, suado cansado arquejante esbaforido exausto tonto, e mas já com bem menos possibilidades de se movimentar. 
Dormia ali no porão do casarão em companhia da Juçara também presa na corrente. Era para que não aproveitassem a falta de guarda que ficavam sempre presos arrastando pesos. Comiam suficientemente e podiam dormir no mesmo pelego uma vez por semana. O casal dormia em companhia de pulgas piolhos baratas aranhas ratos piuns lacraias escorpiões cobras lagartos e o que fosse. Os cães da casa deitavam sempre por perto, o Cacuri, o Campé, a Branca.
Pois Gaudêncio nunca estava de bom humor, sempre num dia difícil e nublado baixo. Aqueles anos sempre preso na bola de ferro na corrente com coleira e sino no pescoço igual o muar guia da tropa. Ia para o pelego já consumido pelo sono sonolento esfalfado escalavrado esfrolado desanimado zonzo indiferente combalido perturbado despedaçado friorento. A alma saindo na frente do corpo, ou o corpo caindo antes da alma. E não conseguia mais nada do corpo da mente do espírito do sonho.
Sem nenhum resto de tempo e sem nenhum pensamento sobrando. Não pensava em nada. Seu todo era pura fadiga. Transido de frio. Nem tinha gosto para nada e ninguém. Fazia de tudo um pouco, canoeiro, cavouqueiro, pedreiro, carreiro, telheiro, ferrador, lenhador...
Quase sempre Gaudêncio ficava tão cansado, quase sempre Juçara estava tão cansada, às vezes os dois, às vezes nem conseguiam fazer o que mais gostavam e a única diversão que os donos deixavam fazer e até incentivavam.
E a noite sem lua sem estrelas sem caburé-de-orelha sem saci sem cachaça acordava num dia de muita luz ou muita chuva cheio de pássaros e aves entupindo as paxiúbas, as cedroranas, os cebolinhos-cheirosos, as quinas-de-cuiabá...
Mas sem nada de nada menos que nada.
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Frases sentenças de Pedro:
- Eu nhandeva queria galo-da-rocha ser carvalho-nacional como capim-marmelada o guriatã-de-bananeira mundo mico-leão-preto inteiro caparu.
- Sabe, Madalena, aquela estrada da linha Casemiro de Abreu, Madalena, as árvores centenárias frondosas grandes, Madalena, a nossa escola 11 de Agosto, Madalena, e o mundo todo, Madalena! Você já esqueceu próclise mesóclise ênclise, Madalena, querida, Madalena! Você já te perdi, Madalena, os berloques pingentes penduricalhos, Madalena, e fitas babados filós, Madalena!
- E sem que ninguém perguntasse: Que é que você quer ser quando crescer, guri?!
- Faz ainda da sua história toda abundante, etc., uma só frase: Eu vi!
- Eu para uma menininha que me olhava e me perguntou perguntei: por quê? Ela respondeu e eu perguntei: por quê? Ela me respondeu surpresa e perguntei: por quê? Ela respondeu sorrindo porém eu indaguei: por quê? Ela me respostou rindo rindo de água na boca e me olhava.
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Com as palavras de Aline: baiuca, afusar, safa!, rifão, asserção, paraninfo, adamantino, periodiqueiro, bímano, solfa.
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Desde a tenra manhã, hoje mesmo cedo, que o gliptodonte passa e repassa por aí nas ruas quaisquer provocando testando os latidos elogiosos dos cães cercados em suas casas. Andando e procurando nada. E o restante do grupo da família da grei o clã os correligionários? Para diante do reflexo da vitrine na loja das Casas Couratari. Tudo é coletivo mas ele só e vazio e lento lento. E quase se reconhece. Parado quase se duvidando. E alameda Txapacura com renque de pereiros-da-serra. Porque a sensação é complexa. Tentando achar algum defeito algum caroço alguma cor algum mofo. Tentando encontrar uma saída uma porta uma janela um porto: banzando. O lugar, a rua ou a cidade, é mais importante que ele mesmo. Tem nenhuma certeza. E tão-pouco nenhuma pressa. Talvez calor. Sente até que foi e nem voltou. E nem tem de quê.
A rua Marquês de Caravelas com a rua Marquês de Abrantes em Feira de Santana.
Primeiro eu li o livro de título “Furna Encantada”, de Heloiza A. Nascimento. E descobri a palavra: cajá. E cajá é um tipo de fruto que é raro por aqui no sul do B. Muito bem! Mas aí a coincidência, pois dois dias depois, e passando na rua Rodrigues Alves, eu mais minha colega de serviço a Elã (estudiosa entendida de política nacional pesquisadora do Plano Cohen, capitão integralista Olympio Mourão Filho, etc), eis que ela me aponta: “Ei!, olha lá! É uma cajazeira carregada lotada de cajás maduros, meu!” Como que ela sabe?, me perguntei na hora. E lhe perguntei: “Onde, onde?!” Eu que nunca ouvira ou enxergara a palavra cajá agora estava diante de uma cajazeira plena completa de cajás. Nem sabia que tal planta existia assim na natureza concreta felizmente e dava frutos. Então, isso é uma coincidência característica do nosso tempo o 21 ou mera casualidade. Adejavam as aves da estação, e que nem se deve desmerecer.
E mais. Eu só acredito vendo com as próprias mãos ou os pés. Eu só adivinho sabendo. Por uma sempre estranha coincidência. Eu acredito piamente em coincidências pois elas me acontecem, por ironia do destino, ao acaso. Mas algumas parecem inacreditáveis e até brincadeira. Impossível, improvável? Eu sempre acho que minhas coincidências são dicas escritas para mim. Nem tenho dúvidas. São as pegadas do mistério e então é só segui-las para descobrir tudo. Tipo mapa do tesouro o Eldorado do Carajás. E eu assumo que são verdadeiras no sentido de não serem à toa. Sabe o que é isso: você está dentro de um dia (28 de abril) e abrir um livro na primeira página e a história começando com essa mesma data?! É incrível. E de se arrepiar. É de fazer pensar. É tudo menos normal. É surreal. Ou tudo a ver, congruente, correspondente, coincidente, expressa semelhança, pertinente. Então, aberto o livro, “O crime da gaiola dourada”, de R. F. Lucchetti, e conto esta surpresa. E vou além. Me pergunto: “Que força foi essa que fez coincidir?” Puro acaso. Pura simplicidade divina? Até porque minha consciência está tranquila pois nem minto. Uma conspiração universal, admito, isso sim. Se nem existe uma força maior no universo se não existe D então por que se pensa Nele? Por que as coincidências? Que que ganho com isso? Onde eu vim parar?



Aline de irrefragável (romance) - capítulo 2




  Ana Ricarda (menina antes bem antes de mulher de mãe e etc) mais leve que uma pena, pluma, paina, sorvete de pitanga, bem doce. Acariciando o próprio rosto, jogando os cabelos para trás, cruzando os braços diante do espelho no quarto e nada de tatuagem (por enquanto).
Quase na hora, praticamente. E o quadrilátero tem quatro lados bem conhecidos.
- Você gosta de História do B? Que fase?
Naquela manhã uma manhã diferente a cada manhã. E zumbiam as abelhas zum-zuns de confidências reuniões. O sol colaborava voar malandramente como a fogueira acesa alada espontânea do pensamento. Mania e balda das rodriguézias.
Bem, vamos lá!, o beija-flor verde metálico de gola branca, ali pela vizinhança, está chamando sem parar, e dia dias semanas mês.
Ela somente a Ana Ricarda comprou duas malas, fez tudo direitinho, preparou o cabelo vermelho, telefonou para as melhores amigas (Abaiara, Acari, Aracuã, Anajatuba e Caúna), adquiriu a passagem para Prata do Piauí, as coisas de sempre, e foi visitar os primos e as primas os tios os avós antigos maternos.
            Afastou os cabelos dos olhos mil vezes. Viajar ela achava era uma moda. Apressou o passo. Esfregou as mãos. Jogou a mecha com as costas da mão e bem para trás.
            - Procurando o céu o mar a árvore a montanha os horizontes.
            Cada momento cada etapa colecionava uma coisa diferente e importante. Colecionou músicas dos cantores sertanejos universitários do pancadão do axé do brega paraense. Colecionou vasinhos de orquídeas da mata atlântica as bromélias da serra do Espinhaço os artesanatos aracadaini. Colecionou balas e doces e sempre uma para cada bochecha. Pois por ontem colecionava sapos de enfeite de todos os tipos de materiais e cores e poses e tamanhos e regiões, etc.
            No dia seguinte bem cedo, pronto, acordou com o frio na barriga feito pela ansiedade da partida. A luz da manhã batia na persiana, assim, toque! toque!... Mas toda despertada, elegante como um talhe de palmeira acumã, toda flexível, tenra, ofegante, azul-celeste, samambaia, garrida. Sorriu um sorriso de perfume suave e banho bem tomado. Depois esticou os braços abriu as mãos alongou as pernas mostrou a língua.
            Algumas nuvens se esforçavam e por aparecer num céu muito azul e limpo e claro e azul de cristal. E o tempo e o rio e a qualidade do ar e o despertar das pataquinhas, das begônias-sempre-floridas, das gloxíneas, dos tinhorões, das murtinhas, o xuaxalhar!... das folhas da veludinha. Todas tinham o que competir e dizer e o dia por fazer, garrular!... balar!...
            - Procurar rio lagoa enseada com praia branca de areia fina peixes mandando.
            Todos a olhavam a guria querendo vê-la. Arrastando uma mala e uma bolsa a tiracolo. Nunca um dia tão-somente pra lá de admirável. O rabo de cavalo balançando pêndulo insistente e arrogantemente. Chorão chamando fêmea na copa da axuarana.
            Então, por certa e qualificada e nobre manhã de novembro de alta temperatura, em diante, etc., a menina apareceu no pátio da casa da avó do avô. Ela ali de tempos em tempos inteira de cima pra baixo, etc.
            Quantos moradores moravam ali na casa com a avó e o avô? Ótimo. E sobre a mesinha de centro uma acariquara, um araticum-catinga, um apuruí, uma ameixa-da-terra, um abajeru (lado a lado bem dispostos dentro da bandeja de latão sobre o tampo retangular de vidro transparente).
            Lá pelas 17h e 08min, mais ou menos, sentados lado a lado a menina a prima o primo a amiga da prima o amigo do primo, e o primo contou que havia por ali por perto aparecendo no pátio nas árvores de vez em quando talvez na grama do jardim, uma ave de tamanho médio para pequeno com cantar que lembrava xuatê ou coisa assim e tinha um brilho de penas de sete cores, saíra-de-sete-cores. E isso interessou muito a guria, naquele dia mormacento assazonado. A nuvem confidencial.
            Assim, Ana Ricarda foi até o canteiro do jardim fazer uma espera com quirera de milho e fotografar. Uma atração para atrair a avezinha, a cor, o canto, o bichinho. Esperou que o fabuloso passarinho aparecesse. E ele não apareceu naquele dia nem na outra manhã. A chuva centenária, a chuva sempre alegre, a chuva para melhorar, a chuva para o entardecer.
            Pois, Ana Ricarda foi até a praça Mururé em frente fazer espera com arroz quebradinho e aguardou o fantástico passarinho que não deu as cores nem as curiosidades nem os gorjeios. Nem era tempo. Demorou esperando uma semana e dois dias e meio mas, não apareceu o tipo nem nenhum tipo pipiou por perto. Cansou os olhos de olhar e a foto por tirar o autorretrato.
            Quando que chovia era espetacular espetáculo. Tutores com seus bichos de estimação passeavam de guarda-chuva na calçada da rua Trombudo Central. Árvores evocativas. Neblina na serra do Japi.
            - Procurando as cores as árvores as aves as casas as disputas de território.
            Como Ana Ricarda foi até o capoeirão e limpou um metro quadrado de terreno na terra preta para fazer a espera com migalhas de pão e se sentou camuflada atrás de um pé de carvão-de-ferreiro. No outro dia e mais outro não havia passarinho espetacular que surgisse e nem desaparecesse. Nem era a vez a estação a comidinha adequada.
            2-urumutum.
            Com as palavras de Aline: seira, ucharia, choutar, dobadoura, opimo, gonzo, ressupino, crisol, báratro, crivo.
            2-sabiá-da-campina.
            Quando, Ana Ricarda foi até a quadra vizinha e fez a espera de bolachinhas salgadas na calçada e se escorou na sombra de uma muirajuba marcando o tempo no relógio analógico. O passarinho nem sim nem não totalmente sumido e invisível e feliz e sonhador e enigmático passageiro quem sabe do acaso.
            Total, Ana Ricarda foi reclamar com a prima e a amiga da prima:
            - Não vi nada do aladinho sete cores maravilhosas! Com quem vou fotografar?
            - Você ouviu um assobio assim, tchintchorrintcho!!!...
            A menina Ana Ricarda (pro futuro de Ana Emília, a filha) disse certamente que nem nem nunca:
            - Não sei, nem ouvi, não me lembro, nem vi sete cores, ora! As árvores da praça Visconde de Cabo Frio se agitavam, uma vez!
            Por isso mesmo, a prima disse uma coisa sensacional que espantou todo mundo, a amiga da prima olhou por baixo dos óculos, Ana Ricarda principalmente ali pertinho e interessada:
            - Você tem que perguntar para as índias catuquinaru. Elas são livres e gostam.
            - Acui-cui!
            Ana Ricarda foi dormir na primeira noite com essa na cabeça e nem voltou mais.
            - Aquiqui!
            O pensamento claro como a manhã, como esperando qualquer coisa, como querendo prosseguir.
            Bairro da Trindade avenida Valentim Magalhães rua simples e até invertebrada.
            - Mas o que é que posso fazer?
            Foi fácil e cômodo e abrangente, ali pelas 8h e 18min, Ana Ricarda se encontrou com a manhã a quarta-feira o novo dia, etc., e os degraus do dia, as nuvens derramando açúcar no ar, os tamaris brincando nos galhos da guaçatunga. Havia disputa entre ideias.
            Ana Ricarda (futura mãe de Ana Carolina, outra filha) despertou e andou até a tribo dos catuquinaru ouvir fotografar, chios!... chios!... e penas do passarinho sete cores imperdível e frutas do mato e cambucás.
            Os catuquinaru moravam no vale do Itajaí-Açu. A primeira coisa que os catuquinaru perguntaram para a menina:
            - Você tá fugindo de quê ou indo ao encontro de qualquer coisa? Posso saber?
            Aí, Ana Ricarda explicou que queria trocar imagens de aves que eles catuquinaru colecionavam e brincavam e estimavam e imitavam. Até para fazer um álbum muito brilhante e colorido e apresentável. E colecionou no gravador também os guinchos de humaitás.
            O pensamento guiando os passos, e como bebendo água e respirando, e como olhando as montanhas com a mão em pala.
            Árvores morros árvores serras azuladas muitas e completas e as abutuas-do-rio verdejantes. O arvoredo agitado pelo sol, pacificado de vento verde, etc. Quem diria!
            - Procurando rio de cascata e corrente e remanso e piscina natural.
            Onde passa o rio São Francisco, e ali por perto encontrou com os xucuru-cariri. Os índios pescavam no rio e caçavam à vontade pela caatinga. Tinham pequis para comer e jequiás para vender. Foram com a menina até a cascata. Sugeriram voos de carcará. Recomendaram erva da ipecacuanha-preta. Descansaram na sombra da gameleira. A manhã sem falta.
            O pensamento subindo degraus de nuvens, e como se elevando, como acompanhando. Havia outra razão.
            O dia nem custou a sair. Nuvens altas o dia solto e tudo por fazer. O ar com sabor pitanga, araçá, sete-capote, buri-do-campo, mais pitangas amarelas com abelhas zumbindo.
            Jogou os olhos e a vista para cima da paisagem verde. A floresta continuava agitada de vento verde. Verde total da floresta para sempre. E nenhuma palavra trocada foi trocada. A canela-de-folha-larga fazendo de moradia para bando de soins.
            Ana Ricarda (mãe futura de Ana Paula, terceira das filhas) toda satisfeita rosto sadio e olhar de canário-da-terra. Amarelo o dia amarela as asas as penas amarelo o gorjeio.
            E com o azul das alturas um pouco mais de azul dos olhos azuis. Os azuis que se emprestavam muito. Indiferentes as ucuubas-punãs. Conterrâneos os pepinos-do-mato.
            2-soldado-do-nordeste.
            As perguntas de Paulo:
            - E agora pra onde vai?
            - Mas de quem e alvíssaras estamos pelas boas-novas?
            - Por que várias espécies de sobras despojos restos sobejos?
            - E o conjunto musical da terra pé de serra com Santana de Parnaíba?
            - Já viu a loja Sebe-Bardo como ficou por fora?
            - Aprontamos tudo até a manhã de sexta-feira?
            - Como que nem não manda alguém?
            2-ibijaú-guaçu.
            Não obstante... e Ana Ricarda pegou um piquira foi até a aldeia dos guajá, em Açu. Falou com eles todos as índias velhas e pediu emprestado pios de pássaros bem luxuosos e bonitos e coloridos e serelepes. Ouviu ganhar gargalhadas de maitacas-roxas.
            O pensamento como simples, como procurando o rio, como inventando números inteiros e matemáticas por toda a extensão da paisagem de galeria. A trilha das Três Pedras na área de Bofete e Botucatu.
            Um diapasão, incrivelmente, lembrando um bem-te-vi-de-bico-largo. Manhã cheia, sol volátil. Manhã acima dos 25ºC.
            - Globo terrestre! Eu vi o sol na manhã, ouvi o ciscador, tomei banho de rio, etc.
            Morro acima o vento estranho, morro abaixo o vento invencível, por dentro do vale o vento infatigável. Um vento enrolado seguindo os passos. Revoluteio de andorinhas. Trovoadas escapando de dentro ou de trás do morro. Aguaceiro despencou em forma de cortina. O vento no meio da chuva. E toda a natureza em toboágua.
            - Procurando caverna gruta loca lapa.
            Logo logo chegou às terras dos tingui-botó, ali na serra da Mantiqueira. E pediu concertos de alados exclusivos endêmicos. Presenteada com, cicios!... e tititios!... de tié-fogo. Cochichos avisos em surdina de pipira-de-prata. 
            O pensamento sem explicação, e como limpo e penteado, e como distinguindo as cores separadamente. Sementes de aprajus, perobas-amargas, pirangas, mandingas...
            - Acredito nem incorrer em exagero, uma vez.
            Perto, então bem pertinho, junto praticamente, um canto de passarinho já alterou o mundo, e que dividiu o mundo em mundo daqui e mundo dali dois lados inteiros de para lá para cá.
            - Em uma fração de segundo ápice átimo...
            Manhã nova e cenário grandioso da mesma floresta, manhãzinha rápida. O voo da ave pernalta. Os lepilepis!... das asas do udu-de-coroa-azul. A goiabeira-do-mato carregada. O vento agitava as jabuticabas-do-cerrado, o rio Cuiabá cortava o mundo em duas partes certas importantes. Cada nuvem tinha um enfeite na cabeça, um chapéu diferente escondendo os cabelos revoltos os cabelos arrebicados as crinas crespas.
            Pés no chão, um dia descalça, outro dia um espinho, mais outro dia uma mordida de formiga, um belo dia um escorregão nas lajes perto do rio, e a menina explorava os matos e capoeirões e florestas e brejos e beiras de rio e escalando o pé de curupiá cabelo trançado em diadema.
            Ana Ricarda vai visitar agora os índios cupinharó, ali em Cabeceiras. Ana Ricarda ao natural. Solicitou umas lendas coloridas brilhantes esvoaçantes. Comparou a imitação das cunhantains e curumins com os cantos gritados de uma arara-canindé.
            O dia era bom e bom era andar no dia, etc. Possível, mas por pouco quase impossível. Seria milagre fazer imaginar outro dia assim. Tem índio que coleciona acha interessante colecionar espinhas e dos diferentes peixes.
            O pensamento vai se esticando, e como que aguardando seu complemento de qualquer maneira, e como colocando figuras no ar.
            Para saber quem é, tem que chamar por Ana Ricarda, e chamou:
            - Que dia da semana é depois de sexta-feira, hein, guria?
            E no primeiro dia ela passou sem olhar. Bem no limiar. No segundo ela mal cumprimentou. Sem nada para fazer. No terceiro ela foi mais além e chegou perto. Sentiu a temperatura ambiente. No quarto dia ela entrou na aldeia dos cambeba, na praia da ilha Diamante. O pajé Ubirajara sacudia o maracá para chamar chamar ancestral espírito sagrado, parente do ar ou da terra, fantasma da ave de rapina.
             Que os cambeba disseram para ela ouvir ver e decidir:
            - Nós temos mascotes de soias, e parentes próximos de canto de pepitas.
            Que ela aceitou em troca de trabalho na roça junto das cunhãs:
            - Aceito em troca de ajudar na roça de milho colher milho comer milho verde, pode ser? Eu gosto muito de mexer com a terra as plantas e os animais sociáveis.
            Quando o pensamento que se repete, e como trocando a fantasia pelo correto, e como mantendo o sossego na hora de escolher o acaso.
            Nesta boa hora h todos já devem ter descoberto identificado adivinhado o rio corrente catadupas de qualidade alturas consideráveis barulhos em quantidade rio Paraíba do Sul por baixo da terra.
            2-gavião-mateiro.
            Com as palavras de Aline: gazil, jarreta, galhofar, adelgaçar, farrancho, descante, despicar, custódia, casula, aljofre.
            2-saudade-de-asa-cinza.
            O riso da menina Ana Ricarda a saltar da boca e dos olhos resplandecentes, o cabelo percebendo o vento, calma para aprender a nadar. Que queriam aqueles olhos de guria? E ela derramou seus olhos pela paisagem manhã paisagística passarinha borboleta ululante. Iluminado sorriso resplendente.
            - Procurando procurar árvore fruto de árvore frutífera comestível.
            Pitaguaras bebendo do rio, curvadas para o rio, verdes de rio claro. Acarapixunas pulando na água. Muiás ergueram os olhos. Muricis descendo frutinhas para os dourados, as traíras, bagres, os pirarucus, os graviolas, lambaris, os gravataís, os mandubés, pacamãos...
            A menina apoiou as costas numa peroba-de-goiás. E cabelos lindos, olhos já lindos conhecidos, boca muito belíssima. Bonita sombra descendo estriada da galharia. E falando para si mesma:
            - Se eu não viesse aqui isso tudo e mais um pouco nem existia, também.
            E foi embora para os lados dos índios canamari, perto de Abatiá. Eles tinham pressa em negociar palavras novas de papagaios-do-peito-roxo, negociar chilreios de cricriós, negociar cambucis, pinhões, pequenas cestas feitas de palha de caxandó trançado. Eles tocavam música cantos com muremurés, teirus...
            O dia vinha entrando nascendo chegando cheio de azul e sol rodeado de montanhas árvores rio zumbidos de besouros dobres de pintassilgos-da-mata revolteios de andorinhas. Um morro todo do tamanho de uma montanha na serra do Cipó. Que só visse!
            Então, uma luz de ouro e diamante num leve ar reconfortante de esmeralda, tudo muito bem trabalhado em quinta-feira das 10h em diante. Embora meio na dúvida. Nuvens espertas douradas aterrissando no planeta, sobrevoando nesta Terra. Canto de pitanguá, viuviuviu-riiii!...
            O pensamento não sabe ainda de onde vêm as ideias, e como segue o caminho interior, e como brinca de arrumar quebra-cabeças palavras-cruzadas caça-palavras palavras-chave, e desarrumar os labirintos e espirais e remoinhos.
            - Procurando montanhas de pedra e animais de pedra fragas penedos e formas de animais nas pedras nas nuvens nas árvores.
            Uma bonita tarde que apareceu assim, lá estava a tarde descendo os barrancos da esquerda rumo os vermelhos do rio em frente derrapante. Araçá-pedra carregado de xauins. Lancha subindo o rio para entregar mercadorias em Juiz de Fora e Porto Feliz e Osório e Rio dos Cedros...
            Perto da noite já estava com os índios pipipã e ilha São Francisco do Sul. A taba em forma de coroa. As picadas as travessas indo e voltando do rio da mata taiobal do grotão do cafundó. De presente poses de araçaris-bananas voar em redor e de brinde uns, retintios!... de patuqueiras e mais gosto maduro das guabirobas amarelas.
            A menina perguntou para os silvícolas pipipã:
            - Mas vocês viram veem o sete-cores já cantar?
            - Sim, claro, o sete-cores. O sete-cores espera acabar a noite ali escondido no meio da condurango. Quando a luz surge ele pula em busca do sol. Quando é hora de madrugar ele canta como nunca como sempre como ninguém. O sete-cores é assim mesmo. Porém, eu nunca vi nem ouvi me contaram e dizem que é reconto.
            Uma lua parada e normal e cheia e hipnótica, ainda. Logo o fiscal celeste apita um assobio fino e um raio com trovão começa a chover. Reconfortante, espumosa, inesquecível, líquida, deliciosa como sabor de açaí no céu da boca.
            Então, a menina já tinha todos os cantos e cantares e frutinhas que procurava? Tinha o suficiente de fotografar? Para fazer um acompanhamento fundo musical? Cinco dias de carnaval em Pituaçu? Comer abóbora de polpa amarela com açúcar refinado por cima caramelado? Plantando o verde sadio ali por onde passava, azougues-do-campo, chás-da-terra, pinheirinhos-de-sala, brilhantinas-brasileiras...
            E a resposta simples como o pensamento que não se desvia e que não esvazia e que nem se contradiz:
            - Sim, claro, e praticamente.
            2-galo-da-rocha.
            O gliptodonte prisioneiro do seu torrão natal do seu sertão do seu clima do seu corrimão. E as últimas semanas os últimos dias as últimas notícias. Anda devagar e faz tudo lentamente, aposentadoria, pachorrentamente. Uma serra da Capivara seu círculo de giz? Já nos últimos anos sonhava pouco, e voltou: “Antes e antigamente, aqui neste lugar, corriam trilhas de tropeiros. Foi bem antes antigos. Tropas de burros burras porque conseguiam carregar mais e melhor pelos caminhos estreitos pedregosos desfiladeiros atalhos desvios atoleiros.” Depois os gliptodontes acabaram foram extintos ou se mudaram para outras aguadas paragens ambientes. Ele mesmo nascera gliptodonte neste lugar. Teve como gliptodonte que andar e andou por este país solar. E como gliptodonte sempre volta, voltou, retornou, olhou pra trás. E revoltou a sua serra da Canastra? Agora até conseguiu muitos livros para ler mas nem saco para tanto. O gliptodonte também conhecido como Dente de Pedra não come bem não bebe além de água mineral e dorme mal e acorda de madrugada acorda de primeira. Somente anda pelas ruas, que lhe recordam lhe parecem ruas de outrora. Repara nas formigas-carregadeiras. Antes uma casa e agora um prédio de dezoito pisos. Passa aqui ali como em qualquer lugar ou lugar algum. Um sorriso misterioso nos beiços. E sem saber o que pensar. E sem lembrar de como cavar com suas próprias unhas retráteis.
            Avenida movimentada Fernão Dias Paes Leme com outra avenida arborizada Borba Gato em Pedro Leopoldo.
            Eu lia, por que talvez, um conto de horror ou terror: “Os Três Cachorros do Senhor Heitor”, de Rosa Amanda Strausz. Já na primeira frase eu ouvi um latido de cachorro vindo lá de fora na vizinhança. Talvez na rua aqui em frente Félix Pacheco talvez amarrado na corrente ou preso no cercado ou morador do prédio ao lado. Na hora eu pensei: “É pura coincidência.” E continuei lendo e pensando. O cão lá de fora voltou a acoar. Era um cão sem com linhagem pedigree nacional estirpe importada. Era uma cadela malhada marrom azul-clarinha e usando um lenço de seda combinando no pescoço. Dos grandes pequenos ou médios, interativo. Depois de hora parei de ler terminei o conto. E fiquei olhando a parede? O cão lá fora silenciara. Pura coincidência semeada ao acaso. Tem gente que gosta e confia mais no cachorro que no parente. Tem cadela língua solta olhar simpático singela popular que gosta de passear na praça Eurico Gaspar Dutra todos os dias ali pelas seis em ponto. Tem cão que gosta mais de dono que de pessoas e outros gatos e cachorros. Cão cadela com atitudes filosóficas civilizadas atitudes características idiossincrasias. Minha tia Candonga tinha uma cadelinha chamada Chusma que se derretia no verão nem tinha nenhuma vocação para frutas e legumes mas e gostava muito de sorvete e picolé.
            2-jesus-meu-deus.
            Com as palavras de Aline: farândula, ganga, fototipia, supino, cendal, jogral, trangalhadanças, protração, altívolo, prolóquio.
            2-iraúna-grande.
            A filha de Aline estava no aeroporto Santos Dumont, o dia 26 o mês de maio o ano 2014, um leve incômodo em o siso lado direito. Mas esperando avião e paciência e caminhar para lá de lá pra cá. E fazia um círculo. E desfazia umas pegadas pistas.
            A seleção estava em campo jogando com a seleção uruguaia na cidade na tela de João Pessoa, Alagoas. O gramado era verde e a torcida verde-amarela. Um quadro líquido tridimensional no alto da parede e as pessoas aqui roendo as unhas e a jovem até sorrindo a socapa dos preocupados inúteis. Um jogo mas porém um passatempo de lazer.
            Sentada numa poltrona por acaso por sorte ali na sala aclimatada e tal. Sem muito lanche no estômago. Comera um minuto atrás no hotel Itambé um pastel de queijo, uma lasquinha de goiabada e uma vitamina de cenoura-beterraba-açaí-alface. Barriguinha no tanquinho, aliás e etc. Vasos exposição de chusqueias, interessantes interessante.
            Esperava o voo para Porto Velho, Mato Grosso do Sul. Aliás, o voo já estava atrasadão. Já andara até o janelão trocentas vezes ida e volta. “Que que houve, meu!”, se perguntava. Pensara chupar um picolé de pitangas, caso estivesse em oferta. Voo recomendado para Icaraí de Minas...
            Um grupo anajá desfilando aguardando com roupas da cidade e enfeites de botoques e tintas e desenhos da tribo na cara no corpo. E chamavam a atenção tiravam selfes com outros esperantes aguardantes.
            Dezesseis horas e vinte cinco minutos, agora. Já devia estar no ar há um século e meio, até agora nada. Poucas explicação explicações. Voo recordado para Pintópolis...
            Uma garotinha magrinha, os pais cuidando, se aproximou, olhou a jovem filha de Aline, sorriu e ganhou de volta um outro sorriso. A menininha resmungou algo, muxoxou, se contorceu e foi dar umas voltas. Arrastava os tênis fazendo ruído. O solado do tênis piscando em verde. Era época dia de conhecer Anísio de Abreu...
            Parecia tudo um jogo de paciência e espera e aguardo. Um jogo de xadrez com as peças indo e vindo para os mesmos lugares. O mundo tão engraçado, de um ângulo de vista, de um ponto de vista, de um certo olhar desinteressado sonolento precário.
            - Por que D criou a formiga?
            - Para ser amiga da cigarra! Ou a vizinha!
            O mundo, pensava a filha de Aline, do vaivém dos aeroportos, todos os lugares do mundo e adjacências. Tem gente que prefere passar as férias em Socorro. Outros uma semana com os índios curuaia. Ainda a pedra da Ema em Burarama território de Cachoeiro de Itapemirim. Voo patrocinado para Cambuquira...
            As pessoas esperam do mundo, os tuins, os brecambuçus, as favas-contra... O mais dia os mesmos dias.
            Naquela hora o aeroporto e um aquário. A menininha contando poltronas tocando uma por uma. No painel, voos com sobremesa para Águas Belas, Campo Grande, Uberaba, Rio Grande, Campina Grande, Porto Real do Colégio, Ajuricaba, Biguaçu... voos com direito a almoço e suco de caju para Mâncio Lima, Baturité, São José da Coroa Grande, Brejo da Areia... voos com acompanhante para Ipiranga do Norte, Magé, Penedo, Itaberá, Ilha das Flores, Feira Nova, Itaiçaba...
            Asfalto paisagens de aviões prédios barracões pneus homem de abafador vermelho vivo nas orelhas trator carregado de bagagens rastos de pousos céu de teto baixo esfumaçado. Prédios da cidade apontando as nuvens ocasionais.
            Os pais da garotinha falavam com uma senhora de amplo vestido azul que não era nem mãe nem sogra nem avó sequer de uma das três. Vai saber!
            O casal cuidava da guriazinha, leva e trás de lá pra cá, como se cuida de um tesouro ou uma relíquia ou um mito ou uma beata ou uma lenda ou uma fonte de água potável. Ela a guriazinha fazia o que queria e perguntava gesticulava. As perguntas às vezes inéditas:
            Ao mesmo tempo, se achando, a menininha fazia de explorar o mundo com livre arbítrio e autoconfiança e cabelos soltos, carismática simpática hipnótica prismática.
            Quando as pessoas modernas olhavam os aviões e os celulares, jornal debaixo do braço, revista, livro grosso de capa dura para esquecer na poltrona lá no desembarque, e se perguntavam:
            - Vamos todos viajar no escurão da noite?
            - Por que D chove quando bem quer?
            - Quando começou tudo isso de hora marcada?
            Menininha veio de lá e se aproximou novamente da filha de Aline, subiu na cadeira estofada bem do lado, meio desajeitada, como uma criança aprendendo o mundo, e olhou a jovem nos cabelos. A outra a cuidou de rabo de olho, sem querer dar muita confiança, sem querer dar ousadia, os pais fingindo não cuidar, a guriazinha se sentindo o centro das atenções, o foco dos sorrisos, mais a tensão dos pais disfarçando, a estrela o astro do filme, perguntou:
            - Nhenhenhém?!...
            A filha de Aline olhou sem entender, e o pai, muito ligado, e mãe muito atenta, de lá, traduziram, quase em coro:
            - O seu nome... ela perguntou.
            A loja do lado oferecia relógios com pulseira de ouro e ponteiros de diamantes. Piso tátil. A vitrine enriquecia o valor dos perfumes de cores diversas e cheiros amazônicos. O quiosque vendia bichos de estimação de pano para dormir na viagem bem fofos e de preferência os com cara de bicho do cerrado. Os telefones sempre com um brinquedinho mais moderno e imperdíveis e pagáveis em até 20x. Voo amanhã cedo para Várzea Branca...
            Daí, a jovem olhou a garotinha mesmo, a menininha não era feia de uma vez, se parecia muito com a mãe talvez, até um pouco com o pai quem sabe, e vice-versa.
            De mais perto a garotinha tinha cabelo mais vermelho quase de fogo, um nariz pequeno, uns olhos pequenos e azuizinhos. Ela a garotinha só tinha olhos e ouvidos e boca para perguntas. Praticamente uma perguntadeira:
            - Ocê biu... di vaia Co-pa-ca-ba-na?
            A guriazinha tinha mais curiosidade, pilhas novas, bateria nova, antenas novas e modernas e felizes, queria mais e foi se expandindo:
            - Dos... anins...
            - Dois anos, o que você tem? - e a jovem, para provocar provocar, mostrou três dedos.
            Para falar a verdade, e todos se decepcionaram: não apareceu ninguém celebridade famoso conhecida da tevê no palco do saguão atleta da Seleção para embarque ou desembarque. Era um horário de pobres e anônimos e comuns e consoantes. A maioria ensurdecedora. A minoria multidão popular. A maioria dos zumbis.
            A menininha olhou a mão da jovem e ficou na dúvida do número de dedos. E olhou.   Pegou e saiu fora, foi bater a cabeça nos vidros grandes da vidraça enorme, deu mais umas voltas pelo longo saguão, os pais policiando, fingindo ler um livro volumoso cada um com seu best-seller saído do cinema recém-recém, a guriazinha pediu sorvete ou picolé, os pais muito felizes ou gostando imenso cada um da sua leitura e sorrindo até rindo alto, a anjinho pediu chocolate ou suco de caixinha, a menina um bem divino um bem de todos uma realização interpessoal a dois conjugal.
            Um mundo do outro mundo dentro de um mundo dentro de um mundo o mundo. Agora sim agora não talvez quem sabe. Voo direto correto para Araçariguama...
            A filha de Aline bocejou, tapeando três vezes a boquinha. E cometeu um espreguiçamento com, huuuu!... Segurou a cabeça com as mãos estendeu a nuca. Os cabelos... pronto, em cascata para trás. Lindos cabelos cuidados caros.
            E a guriazinha veio que veio em outra vez para perto da jovem. Uma velocidade sem parar e sem por quê. Pegou as pontas dos cabelos vermelhos da filha de Aline. Comparou com os seus. Achou bom e riu. Achou que devia e disse, perguntando:
            - Em que que... bondade voá, nhanhã?
            Subiu tênis acendendo luzinha na poltrona de tecido vermelho, os dentes pequenos sorrindo, os cabelos enormes, olhou brilhante, perguntou outra coisa: