O dia tinha o céu limpo e varrido e ar
condicionado, o som do ar cheio dos aromas das flores da mata, como por exemplo
a rabo-de-rato, a quina-de-são-paulo, a tapaciriba-branca, a bacopá... Não
havia frio nem chuva nem vento carpinteiro. Nem geada naquele período do ano.
Nem chuva o céu queria para aquele dia. O vento era brando ponderoso. O vento
fazia corredor e viajava de nordeste para sudoeste, se é que estava possível.
Quanto vamos chegar ao ano 2048 setembro
às 18h 9min quarta-feira?
De lado um pouco por fora da praça em
decúbito lateral o rio Massangana. O rio escorregando sempre gota a gota
lágrima suor orvalho se separando das pedras dos dias das horas das pessoas.
Ciliado de plantas e bichos nhambus-pretos sapos-bois pica-paus-de-penacho
abelhas frecheiras quebra-pedras quinas-de-pernambuco catingas-de-formiga
povoado de camarões-d’água-doce cascudos charutinhos traíras... caminhando no
passo andando na marcha correndo no trote chispando no galope...
Flutuar em dirigível planador balão
globo aerostático da Agência Nacional de Aviação Civil. A paisagem eleita
cartão-postal vale rio das Antas e montanhas. Um sol luxuoso e perfeito e
impensável.
O pai do Joel foi e se sentou, como
ultimamente vinha fazendo sempre pela história afora, num banco da praça. Já
vinha com a cuia preparada e cevada. Era só sentar e ir se servindo de água
quente e beber o amargo. Serviu a água fervente da térmica e foi chupando o
mate e olhando em volta. Era todo um tipo de ser vivente. Na expectativa. E
como convém. Dentro do mundo.
Canteiros de plantas, guanxumas,
catanduvas, pitumbas, carás-de-caboclo... monumento ao imigrante italiano
família, agasalhada e entrouxada para viagem, etc., por ex. Praça Joaquim
Nabuco, patrimônio da cidade. Ao redor as ruas de paralelepípedos. Em volta do
largo os principais prédios da cidade, a prefeitura, a catedral, os bancos, a
rua mais movimentada a avenida Capinzal do Norte, com destaque para o prédio
este de amarelo ouro do museu Marquês do Recife.
E as gurias que se abriam se esforçavam
se inventavam nuns risos sorrisos e divertidos e bonitos e recreativos mais como
coloria o mundo já para o dia todo. Um conjunto delas ali em tropelia chegando
da praça das Pedras. Meninas garotas as gurias com celulares de 2 ou até 3 e
meio contos de réis gostavam de festas iam a todos os lugares, e mais, bebiam
mas nem ficavam de pileque, ficavam muito mas nem namoravam, muito vaidosas sem
serem artistas, fazendo unhas das mãos dos pés mas nem penteavam os cabelos
como as atrizes da novela. Andavam em bando porque andar juntas era mais
divertido.
20-poço-dantense.
Com as palavras de Aline: tararaca, charola,
truísmo, jagodes, estupefato, paleolítico, neolítico, mixórdia, pantógrafo,
glicólico.
20-frei-martinhense.
Ana Ricarda, seus dezesseis anos
estalando de moderna e nova e risonha, uma maravilha de harmonia e sintonia,
ilha da magia, brinquedo de faz de conta, olhos líquidos, risos líquidos, olhos
de azeviche, e vocábulo oceânico: praia de Jurerê, lagoa da Conceição, bairro
da Trindade pertinho da UFSC...
Comendo um sorvete de abacaxi e
pitangas, que bem mereceu.
Sentia o vento anunciando chuva, um
vento vindo, e ela sentia o vento de chuva que corria vindo do noroeste, o
sempre noroeste.
Garapa com gotas de abacaxi ou limão
mais pastel de queijo.
Todos olhando para o céu, nem ao mesmo
tempo, embora caminhando.
Gente com cabelo na moda de nambiquara,
com barba de cenoura, com bigode de nobre, com bolsa de papelão, com
guarda-chuva de macega, com sonhos de nuvem.
Sacudiam a cabeça, mexiam os braços: na
perpendicular.
Olhos de azul cobalto; precisava fazer
alguma coisa.
Dia de quinta-feira abriu com sol
durante todo o dia, que perdurou o dia todo.
Na manhã seguinte foi a mesma coisa.
Mas a quinta-feira era saudável e
tratável e conforme, e tanto, que Ana Ricarda resolveu passear até o aeroporto
de Confins e casas de combogó. E mais evidente do que qualquer outra.
Espontânea e vaporosa.
A guria de bolsa com espelhinhos nem era
dali e em síntese análise percepção dialética lógica e era da terra do Cruz e
Souza.
Na rua Belágua desembarcou do táxi e
continuou a pé, e mirueira, bicos-de-guará, lelias-da-bahia,
cervejas-de-pobre... e os gredelins, corruíras, tucanos-de-peito-branco; muito
mais.
Como merecia este sol das 14h e 28min?
De repente para e olha... um automóvel
zero bala vermelho do tipo novo e vermelho com detalhes verdes. E parada no
meio-fio olhando.
Não havia à vista ou no cartão nenhuma
cigarra estertorando, formiga humana laboriosa, besouro pesado pintado de
colorido brilhante, cães de coleira com nome próprio, cheiro de pipoca
caramelada e buzina de touro brabo.
Ouviu e leu no celular a grande e impagável
notícia do preço da soja nos mercados do mundo mundial global, negócios da
China.
20-terra-altense.
Com as palavras de Aline: desabalado, resfolgante,
escalonamento, agnóstico, desdigo, epílogo, embelecida, churi, elipse, ilação.
20-xinguarense.
Sonhos adolescentes cômodos gênio e de
Ana Ricarda, o quarto, no quarto de dormir e pensar, pijama pantufas ou pé no
chão:
“A iluminação espiritual é obtida com
retiro pessoal para lugares altos e solitários e solidários. Se sentar na pedra
e ficar por ali até nem querer mais. Olhando as pedras e perdendo a conta.
Olhando a natureza da rocha. Isolada do mundo até esquecê-lo ou vê-lo por
dentro. E olhar para dentro de si também. Meditar. Pensar leve. Diante da
natureza e para dentro de si mesma. Nem sempre é possível ou relaxante.
“Escolher um lugar bonito para pensar no
mundo em paz. Com pedras e árvores e pássaros e silêncio, ou um sossego de
humanos. Nem muito frio nem muito quente, temperatura nos 20ºC é o ideal. Um
lugar para acampar seria o correto. Um mês, duas semanas, dez dias no mínimo.
Com plantas ao redor ervas-de-santa-luzia grãos-de-porco cristas-de-mutum
arapiracas...
“A serra da Mantiqueira tem ótimos
ambientes de relaxamento e pedras brilhantes. A serra dos Órgãos muitos lugares
propícios para pensar no ser, para expandir a alma e deixar que voe; o
ser-estar. A serra do Cipó nem perde para nenhum lugar alto como lugar propício
para se perder, ou melhor, se deixar do mundo profano e buzinador.
Particularmente prefiro a beira do rio Capivari, em Agaci.
“Chegar no lugar alto e de ar meio
rarefeito, respirar fundo, sentar na pedra, e olhar o horizonte feito de
corcovas de montanhas. Numa pedra alta e perigosamente sobre o abismo. Ouvir os
passarinhos da região, ver as plantas da região, as flores da estação, as
cascatas rolar, as frutas do lugar iguarias leves doces ou agridoces feitas à
base de ingredientes principais. Melodiosamente tocar as pedras, pegar as
pedrinhas preciosas, achar quem sabe um diamante do tempo dos diamantes e do
Caminho do Ouro. Quem sabe um amuleto uma chave um mapa.
“Se desse para escolher o alto da
montanha! Acordar sempre com o sol no céu todo azul. Um dia ou outro com chuva
sem vento também seria bom. Mas sempre chuva de verão. E sol de verão. E manhãs
com passarinhos de peito amarelo e canto territorialista e voos paisagísticos,
tiriris, anacãs, almas-de-gato...
“Ter o tempo para pensar o dia todo? É
possível? Nem se afobar com o tempo que tem ou que vai e vem. Passar o tempo
que se tem e que sobra sentada sobre o umbigo do mundo e de D. E nada de
perguntas para sem respostas.”
20-nova-russense.
Ana Ricarda, eu já disse, e bom
esclarecer comentar explicar, nem era propriamente do tempo profundo das
platibandas e águas-furtadas. Ela nasceu e planejada para algum futuro, porém
incerto.
O céu alto e azul-claro, tuiutis e
sanhaços, depois azul, falcão-peregrino, após azul-escuro, andorinhas de costas
cinzentas e peito branco, o mesmo céu de ontem, o céu passando bem, o céu dos
aviões comerciais e helicópteros e discos voadores.
Abelhas tubibas grupo enxame frota
exército arboreto.
Azul sorridente sol sorridente dia
deslumbrante, oxalá!
- Que sabor de sorvete você gostaria, é
calor é quente, é frio?
Mirou às vezes que desfilava aí, mirou rodeou
titubeou o livro centenas de segundos até que uma hora comprou, carregou no
lugar da costela que faltava trouxe leu economizou emprestou discutiu doou.
Ana Ricarda, como toda guria que adora
seus cabelos, pedalou pela ciclovia com ótima condição física e rua Carlos
Trein Filho. Tinha lá seu corpo elástico verdadeiro alinhado verde falante como
água da chuva.
Nem havia cigarras serrando sem parar
sem parar nos troncos das palmeiras-barrigudas. Nem havia besouros escaravelhos
tocando batendo pererengas em os pereiros-da-catinga.
O calor das 13h e 33min subia da calçada
de pedra basalto e tremulava como vapor fantasma vaporando, bafão.
O sol começou voando baixo, depois
voando, após voando alto, ainda de tarde voando abaixo da linha do horizonte e
falando gauchês. E sol para oeste poente holofote ocidente patriarcal.
20-abaiarense.
Frases sentenças de Pedro:
- Sem dúvida de sol forte, as pessoas
iam de boné e ou guarda-sol até o cânion do Funil e Bom Jardim da Serra.
- Já porque era o movimento da
segunda-feira e o pouco que adiantou, no entanto.
- Pois o cãozinho de nome Tala se soltou
da corrente e correu fugindo pela rua Bom Lugar em fora.
- Sol escorchante de olho de
gavião-carijó feroz.
20-arvorezinhense.
Com as palavras de Aline: siderado, tartamudeia,
atabalhoadamente, baldado, pélago, cortejar, ensejo, intricar, cabotinagem,
argentarismo.
20-caseirense.
As três calçadas laterais da praça
Princesa Isabel faziam limites com as ruas Lago da Pedra e Sítio Novo e avenida
Camba, praticamente um triângulo escaleno. A figura arboral da cidade de
Rebouças. Além de outras.
Ribaçãs chegaram chegaram para quebrar a
tardezinha madrinha pequenina. Maracanãs vieram gargalhando lá dos fundos da
mata de lá e funcionários da indústria do entretenimento. Emas trazendo nos
braços os filhotes cansados e marotos e manhosos. O jacu apareceu e crau. O
jucurutu acendeu apagou acendeu as lanternas. O par de caraúnas casados
aproximaram piaram coçando a cabeça. A maria-é-dia nem aguentou e caiu no sono.
O galo-de-campina ficou permaneceu num pé só. Papa-lagarta já dormia ao
relento. Pitiguari cantou piou assobiou bateu asas e mudou de pouso. Jutiti
estridente. Socó rouco. Carão de bico longo penas plumas e penacho. Xexéu se
fez de lá pra cá e de mola. Seriema olhou as unhas soprou as unhas ciscou se
preocupou. É certo contar com numerosidade muito abundância. Ou isto e aquilo.
Isto, hoje em dia, nem se vê mais ou
menos. Hoje tá mudado. Se ouve o trem moderno no seu tempo partindo para o ABCD
paulista.
O pai do Joel tomava um chimarrão ali já
desde umas nove horas e tudo mais. O movimento de passagem, gente indo e vindo,
gente pra lá e pra cá, era sempre bom e intenso. Dava para se distrair.
Desempregados vinham esperar aluguel pico ou frete.
Um pé de espinho-de-maricá, um tronco de
guapuruvu, um canto alto e feliz e imperial de bem-te-vi-do-bico-largo. O que
mais tinha? O que mais esperar? A lavadeira-de-cabeça-branca 90 dias de idade.
Na praça todos querem ver, tudo se quer
conhecer, todos querem falar e falam ao mesmo tempo.
Porque aí aparecia a chuva. Porque aí
vinha prometia uma chuva incrível. Os acontecimentos se aceleraram e as nuvens
se enfureceram. Coisa de minutos. Raios e trovões foram ouvidos e vistos aqui
embaixo com desdém. Seu ivuranhê pendeu mais para boreste. E como veio passou
saiu, emboralá!
Uma cadelinha passeando com sua dona,
olhar esgazeado, boca alegre e cauda esportiva, pelo de tonhonhoim!, cheirando
tudo que havia pulando as poças-d’água e latindo de vez em quando. A dona tinha
paciência de mamãe de vovó. A cadelinha olhava e requeria. A mamãe e dona
professora de H do B no colégio Municipal Cabixiana. A guaipequinha puxava a
guia e parecia eufórica pelo dia pela hora. Todos se perguntavam ali na praça
Princesa Isabel e presentes:
- Quem é ela?
- Para onde vai?
- Aonde vais?
Um cavalo pigarço se contentando solto
com a grama-do-pará no campinho com goleiras de dois tijolos. Grande cavalo
professor e crítico e arquiteto. Nos fins de semana e feriados pedalava na
estrada BR-470 fazia lá seus 15 a 20 quilômetros pela manhã e no trote,
pa-ra-pa-tá ta-tá ta-tá!... Dia de semana de segunda a sexta dava aula na
escola Estadual Sinimbu junto à praia Barra Grande, ensino fundamental e o
médio. Matérias que caíam no Enem e nos concursos públicos.
A praça Princesa Isabel com estátua
gigante da famosa Princesa Imperial Regente Isabel a Redentora. No distante
passado, o lugar teve até chafariz com peixes naturais, apaiaris, mandiaçus,
bacus-de-pedra, lambaris, piaus... mas hoje ainda mantém o velho coreto para
retretas e discursos políticos, os espaços calçados para o povo andar e rodear
namorando, os blocos ensaiar as marchinhas de carnaval nas vésperas de
carnaval, e coisa e tal, camelô de vez em vez aparece gente de fora embora nem
seja necessário ou permitido ou desejado.
20-abadianense.
Ana Ricarda, para quem sabe, chega ao
vestíbulo da universidade o busto de Carlos Gomes na coluna de concreto afixada
ama placa de bronze que dizia bastos cabelos bigodes. Com riqueza de detalhes.
Donde quê, os passarinhos todos da
estação tocavam instrumentos ao seu dispor assobios voos pios risos rinchos, paródias,
mas os mais engraçados eram sem dúvida as corruíras.
O sol, legítimo e implosivo, caminhava
inteligentemente seu itinerário diário habitual. Sol de placas amarelas. Que
horas são.
Donde quê, bandana amarela para segurar
os cabelos grossos alçados.
E se dizia desde manhã por aí
completamente isto: o dia está para chuva no decorrer do período, ventos,
umidade, temperatura, tempo, clima, jogo de futebol na areia e o escambau.
A direção foi dada na partida, o sentido
a pessoa adquire ou escolhe ou acontece, total: a dita mesmo.
Naquela hora da noite enluarada e
estrelada, clichê, o mais sério e importante era a lua subir no céu que subiu.
Atrás dela vinha uma capeba-do-norte árvore feita.
Depois de certa hora alta, a lua nem
funcionou mais e sumiu e apagou, e ficaram as estrelas que eram tantas e
espalhadas e esfarrapadas.
Donde quê, nem nuvens nem morcegos nem
corujas-buraqueiras nem bacuraus-cauda-barrada nem superstições. Nem casas nem
pontes nem ruínas de capelas.
Passou um avião, comercial ou de
combate?, muito alto e barulhento, passou para o sul relampeando o pisca-pisca.
E assim por diante.
O dia novamente vem chegando na hora
marcada, deslizando no sabão da comemoração dos pássaros, aparecendo à frente,
para baixo, para cima, e a noite nem mesmo demorou.
Donde quê, manhã suave como a cor verde,
o sabiá-laranja melhor interprete da redondeza, e a planta violeta-montes nem
queria mais saber nem precisava mais entender.
Sorriso do rio Azul quebrado de luz como
um peixe dourado pintado mandi-bandeira...
Donde quê, bom dia canários-do-ceará boas
árvores moça solerte passando olhando os pés bom dia de sol ouro puro bom dia
abelhas guarupus bom dia tribo marubo plantas floridas, amapás, meruás, perobas-de-minas,
taiuiás, uafés...
20-sãojoaquinense.
Com as palavras de Aline: embevecimento,
encalistrado, rastaquera, chiste, deificar, iconoclasta, insólita, tarja,
suflê, diligentemente.
20-guabirabense.
Frases sentenças de Pedro:
- As árvores tremiam, umas frutas caíam,
folhas, uma goiabeira-do-mato saltou uma goiaba no chão deixou num baque surdo.
- A chuva lá fora, o pai se sentou numa
cadeira de respaldo alto, o mais moço caçula dos filhos se sentou num mocho de
três cascos, o cachorro Tauá se deitou perto do fogo se enrodilhou.
- A rua Brejo Grande do Araguaia, a
estrela no começo da tarde, a bicicleta sozinha ao som da luz do céu profundo.
- Um dia desses eu estava andando
andando pelo céu satisfeito e nem encontrei ninguém conhecido da tevê: aonde
foi todo mundo importante famosos?
20-itamaratiense.
As perguntas de Paulo:
- Domingo de manhã, todas as horas, é
sempre muito claro, as avenidas arborizadas, o dia sem nuvens, nem é?
- Sabe o que aconteceu no aconchego do contemporaníssimo?
- Que quem vem por aí hoje em dia?
- Que é que vai se fazer, hein?!, do
legado.
20-biquense.
E também, será possível?!, a Ana Ricarda
acordou com retorcidos jeitos modos conformes e gestos de se estalar em
múltiplas, em cipó, em rio, em bocejos, gato-do-mato, em preguiça, em
gavião-peneira, em cognato, em tudo que tem cauda.
Amanhecia em começo um esperto dia de
domingo vinte e três de novembro, e para quem queria.
Lá e nasceu, lá se criou, lá se
envolveu, lá se meteu em casa de marimbondo.
Os mangues-mansos, as jipiocas, os
mofumbos, os lírios-das-pedras... caem brotam crescem frondejam florescem
frutificam e ainda continuam.
Um passarinho anônimo ficou de assobio
para a namorada... e vice-versa, pela manhã, enquanto as pessoas escutavam em
silêncio, em silêncio e atenção.
Bertioga fica numa praia paradisíaca,
hum!...
Tinha na mão um sorriso, nos olhos uma
aventura de caminhada pela mata, na boca uma bala azedinha, na testa um ar
olímpico, nas mãos um celular verde, no espírito um sonho descendo o rio Água
Amarela e procurando o lendário Caminho do Sabarabuçu. Um pouco a leste de
Colorado do Oeste.
Cunhãs trucá vendendo cestos trançados
de folha de macaíba na praça Carlos Gomes. Eram tão certas e às oito horas e
vinte minutos e exatamente uma sexta-feira céu branco quinze de maio de dois
mil e onze.
O vento começou tudo, nem novamente, mas
outra vez outro turno.
As nuvens se organizando em montes de
palha branca.
O sol pintara as árvores de verde
balançando gorjeando aplaudindo.
As árvores soltaram os pássaros amarelos
com peitos amarelos, e tchintchorrintchos, tibirros-do-brejo, pintassilgos...
Domesticadas casas de alvenaria, pátios
de grama, o sendeiro preguiçoso.
A principal menina do dia, arisca
perfumosa, passou um pouco rápida, mas em leveza, daí a ideia de quem a viu foi
repisá-la em câmara lenta várias vezes, Ana Ricarda uma cor móvel ambulante e
porque a principal menina do bando merecia, demorada beleza.
A paisagem era tudo isso aqui e aquilo,
os riachos procurando descer sempre e o mais rápido possível, o
canário-assoviador cantando no alto do marmeleiro-do-campo, os cardeais pulando
de pedra em pedra, os anus-brancos assustados trocando do facheiro para a
mutamba-preta, e tudo separado uma coisa só, o sol ia baixo quando o céu
começou a trocar de lugar, mais precisamente no limpo que no fechado.
Pela tarde já, ou tardezinha da
tardinha, selou o cavalo baio ou castanho e saiu, estudante de etnografia.
Só que o dia anoiteceu às 18h e 06min
chuvoso ventoso friozinho pros lados de da região dos reserva uaicá.
20-são-roquense.
Com as palavras de Aline: alvorotado, compassiva,
epicentro, glauco, esteta, imantar, boemia, lança-perfume, sexismo,
perfectibilidade.
20-poaense.
O dia aquele caiu num período nublado e
úmido e enjoado e descompassado. Podia chover a qualquer estalo, e se necessário.
O céu enfarruscado prometia garoa chuviscar chuva chover, idiossincrasias.
Gaudêncio, descendente de Gaudêncio, foi
com dois manos buscar mel ou lenha no matinho ainda perto do quilombo,
criciúmas, uvatingas, itapicurus, canudos-de-pito, surros, angicos-do-campo...
Um bando de tucanos-de-bico-preto voou em algazarra. Os negros olharam para o
alto, para os lados, pararam para escutar ouvir. Levavam uns paus em ponta e
uma faca como armas.
Vinte minutos depois ouviram tiros para
os lados do quilombo. Assustados até nem poder, correram para socorrer, pararam
atentos, olhos grandes, surpresa.
Gaudêncio, cor negra 34 anos de idade
casado três filhos residente desde dois anos no quilombo Sambaíba, subiu na
árvore bem mais alta e olhou para os lados do quilombo. A aldeia estava sendo
atacada por homens brancos e pretos em cavalos, outros a pé mesmo, muitos
homens armados e dando tiros e prendendo os negros negras idades todos.
O Gaudêncio desceu rapidamente do
angico-rajado, parasitado de cabeças-de-boi, e se precipitou para o quilombo, a
toda. Os outros quatro se entreolharam, olhos grandes, e fincaram o pé deitaram
o cabelo para o meio do mato espesso fechado seguro, e coisa e tal.
Chegando na beira do terreiro,
esbaforido, resfolegante, sôfrego, soltando os bofes pela boca, babando de
susto e cansaço, Gaudêncio viu palhoças incendiadas, mulheres presas, homens
presos, velhos e velhas mortos, crianças presas, bichos domésticos presos, tudo
preso em correias e ferros. Ele correu para os lados do casebre para ver da
mulher e dos filhos, mas já era tarde. Tentou chegar mais perto e foi visto e
preso na hora. Esperneou como pôde e nem conseguiu se salvar. Tentou lutar e
foi espancado como animal de carga.
Poucos negros conseguiram agarrar o mato
e se refugiar se salvar. Velhos e velhas que nem prestavam mais para o trabalho
escravo foram deixados para trás ou mortos.
Os caçadores de escravos fizeram uma boa
colheita, a granel, a rodo, e riram satisfeitos, parangolés, etc., por ex,
esfregaram as mãos e deram gargalhadas batendo no peito com satisfação.
20-descansense.
Os sonhos de Ana Ricarda eram tão
naturais e bons que mereciam durar para sempre. E ela comprou uma bertolônia
para a área, imaginar:
- Que bom saber do mundo geral,
universal, total. Bem que existe o mundo, sim. É só querer que tudo se resolve
e está em casa. É só ir caminhando e em frente que tudo dará certo. Férias no
rio Corumbiara que banha Junqueiro e Limoeiro de Anadia e Craíbas...
“O céu mais alto que o céu azul. Dá para
contar as várias camadas de céu, dos céus e céus. Cada céu, meu! Um mais alto
que o outro. Outro mais azul-clarinho que o outro. Mas nem é de céu que vim a
este mundo.
“Pedaços grandes de terras paisagens
frutíferas. O país das árvores altas e sempre verdes. O país dos passarinhos
dos peixes das árvores dos rios dos insetos escamas-vírgulas. O país das
orquídeas bromélias abelhas muriquis. O país dos quero-queros dos tuiuiús das
andorinhas dos papagaios das coiranas-de-caravelas. O país das borboletas com
cores mágicas e traçados misteriosos. O país dos bichos-preguiças das capivaras
dos jacarés dos tucunarés, numerosos.
“Mares profundos com verdes ou azuis e
de corais e arrecifes e atóis. Praias de areia fina e branca com coqueiros
dando coco de graça. Matrinxãs, saguirus, piaus no rio São Marcos,
baleia-franca no mar de Bertioga.
“Montanhas fortes com ar puro bem em
cima e horizontes para se ver ao longe. O sol nascendo e desaparecendo na praia
de Cidreira. As estrelas em números e mais limpas. A lua bem perto subindo da
árvore fruta-de-coruja. O vento fazendo ginástica na curva correndo na reta
subindo degraus na academia de ginástica. Os discos voadores em câmara lenta,
céu limpo noturno. Cidades sagradas e antigas e abandonadas. Abelhas iraís procurando
doce nas flores do dia nas flores de macela-da-terra cabiúna-do-mato
jurubeba-de-espinho... Regiões dominadas pelos índios macurape.
“Eu mesma gosto de pitangueiras das
folhas de pitangueiras das pitangas e que delícias. Pitangas e frutinhas amarelas
vermelhas folhas flores frutos em forma de desenho leves e o lugar que a planta
escolheu morar e partir. Pitangueiras do jeito delas, de longe de perto, voando
abelhas e outros mosquitos, vontade crescente, sentidos salientes, gostosas.
Somente olhando do tranquilo, explicável, árvore outras vezes de
saguis-imperador. Árvore de conversas baixas com vagar. E falou ou nem foi
atrás: ‘E por que nem me chamaram antes?’ Tudo ao redor. E música bonita, e
além da estrada. A praia de Capão da Canoa bebendo do mar em ondas certeiras.
20-aguasfriense.
Gdogno, rosto escarificado, habitava
como raça tipo gênero masculino na campina larga árida disputada de Angola, e
África. Aquele dia, ele e mais sete manos da aldeia, procuravam caça sorrateira
no meio da capoeira esturricada. Podia ser qualquer coisa que se mexesse, e tal
e qual. Debaixo de um sol na manhã pé ante pé tudo muito seco e difícil. Era
muito desfavorável. A caça quase nem titubeava e eles todos em geral passavam
fome famintos famélicos. Todo ano aquela seca extinguia gente e bichos e
plantas, nada nada. A caça minguava, sumiam. Os donos das terras, como o povo
de sua aldeia, tinham que aguentar a seca caso contrário perdiam também aquele
lugar para morar tradicional. Tinham que aguentar até voltar a época das chuvas
da fartura a estação das águas. E ir levando com o que dava e podiam e os
deuses consentiam permitiam.
Os oito caçadores, enrolados em tangas
feitas de couro de girafa e pintados de barro para proteger a pele do sol e dos
insetos, procuravam qualquer rastro qualquer bicho qualquer semovente. Um dia
muito quente e insuportável poeirento, andar e desandar. Uns ratinhos do
deserto foram vistos rastinhos por aí. Os caçadores estavam armados de espetos
pontudos e pedras e cassetes. As pequenas caças e os grandes bípedes caçadores.
Era ter paciência e calma e tranquilidade e esperança.
- Tem muito rato roedor aqui - disse e
prometeu um dos manos.
- E são enormes e gordos e nutritivos,
pois nem - completou o outro mano.
O sol cruzou todo o dia muito muito
quente. Poeira vinha no vento. Os caçadores viam miragens de frutas para colher
de bichos gordos de bandos de pássaros rápidos para caçar e rios para beber
pescar nadar.
Perto da noite, os oito homens caçadores
de ratinhos voltaram para a aldeia. O sol caía vermelhando e amarelando no
horizonte do céu sem uma nuvem. O vento ainda vinha do sul e falando baixo.
Voltavam com dois ratos pequenos e magros e pedintes. Caçadores muito cansados.
Sentiram um arrepio no corpo ao perceber que a aldeia estava toda quieta quieta
e alguns trastes jogados. Estranharam aquilo assim e pararam na hora. Pé ante
pé foram chegando, cheirando, observando atentamente.
De supetão, de dentro dos casebres
feitos de paus e couros de zebra, saltaram dezenas de homens negros armados até
os dentes. Eram os caçadores de escravos e todos na África os conheciam ou
sabiam de ouvir falar.
Gdogno foi alcançado e recebeu muitos socos no
pé do ouvido até aquietar e obedecer. Os oito que chegavam do deserto, tentaram
fugir mas nem conseguiram ir muito longe. Estavam mais cansados. Dos oito
ninguém conseguiu escapar, foram alcançados, agarrados, espancados, amarrados,
xingados e enjaulados. Gdogno também gritou o que pode, tungado, surrado,
agredido.
E então todos os manos da aldeia
viajaram presos uma semana ou mais. No rumo dum lugar que eles nunca tinham
ouvido falar e muito menos sabiam se era neste país ou noutro. O porto Angola.
Quando chegaram todos os presos estavam quase famintos e sedentos. Ali no porto
foram passados numa revista e selecionados para embarque imediato.
Gdogno aguardava, ele mais centenas, no
entreposto do porto debaixo duma cobertura de palha. Já começava a ter uma
vontade de morrer. Muitos negros amontoados, gemendo, uivando, chorando, negros
e negras, adultos e crianças misturados, quase nus.
Certo dia na boca da noite, Gdogno entre
eles, foram embarcados como gado. Gdogno e outras centenas. Enfiados no porão
dum galeão português. Todos no porão no escuro presos pelo pé. O navio a
navegar para onde como num gigantesco pesadelo. O barulho do mar no casco do
navio. A choradeira geral.
Todas as horas os mortos eram soltos das
correntes e jogados no mar. O açoite estalando os gritos o medo do inferno. E
uma grande vingança dos deuses.
Um dia foram todos levados para terra.
Que lugar era aquele? Num outro mundo, num outro planeta, numa outra galáxia.
Todos os acorrentados foram puxados do
galeão e levados a um galpão na beira da praia. Os homens brancos olhavam o
gado contavam e esfregavam as mãos. Veio muita comida e muita água fresca para
engordar o rebanho.
Poucos tinham passado pelo vasto oceano.
Dos que chegaram, mais da metade ficaram no mar, mergulharam, tentaram nadar de
volta pra casa, para os entes queridos, para os fundos caminhos dos deuses, ou
se esqueceram por completo.
Gdogno olhou em volta e nem tinha
parentes à vista. Procurou e nem viu ninguém da sua aldeia. Todos negros de
Angola, uns até inimigos da sua tribo, tribos diferentes, muitas tribos ali
representadas, todos unidos pela corrente, cada um por si e os deuses nem mais
lembrados.
Quinze dias comendo do bom e do melhor.
Foi levado numa praça com muito negociante de gado olhando examinando
pesquisando o melhor preço a melhor oferta a melhor peça. O gado preso na corrente
e praticamente nu. Tanto as fêmeas como os machos. Foi um homem branco, e gordo
e barbudo de vários meses chapéu grande e alto, que chegou perto e lhe bateu
com o cabo do relho na perna e berrou:
- Compro! Compro!
O próprio Gdogno nem compreendeu, mas entendeu.
Um negro do lado do branco gordo abriu a boca de Gdogno. O branco olhou os
dentes de Gdogno. Apertou os músculos dos braços. Olhou as pernas. Olhou tudo.
Olhou todo bem olhado o corpo do Gdogno. Depois o branco passou para outros
negros e negras e fez a mesma coisa as outras compras.
Aquela noite Gdogno foi separado, ele e
mais dois negros e três negras, numa baia coberta de telhas vãs. No outro dia,
todos amarrados em fila indiana, seguiram com o homem branco e gordo e mais um
outro branco, estes a cavalo, os outros nas mulas, os dois negros os três
caboclos mestiços com os índios nhandeva e armados e para onde.
O bando a tropa seguiu a trilha que
começou a subir uma serra muito alta e verde e pedregosa. Trilha de tropeiros.
Era um país verde e cheio de mato. Muitas turmas pareciam seguir a mesma
estrada no mato e para muitos outros lugares no sertão. Os homens viviam
armados até os dentes e davam alguma ração de engorda e muita água.
Subiam a serra da Mantiqueira. Caminhos
e escalaminhadas pela serra contornando o rio Campo Belo cascata do Maromba
cachoeira das Flores e pico das Prateleiras, sempre mais sempre em frente. O
país dos rios das árvores, itapiúnas, paineiras-barrigudas, beijos-do-mato,
ervas-de-sapo, malvas-do-campo... e muitos passarinhos de vozes diferentes.
Durante dias e noites durante quantos
dias mais de treze dias, caminharam dormiram caminharam andaram no meio do mato
subindo morros o país das árvores dos miados e ruídos dos bichos dos
gatos-do-mato-grandes, sauás, suindaras, arapongas...
Chegaram a uma casa grande uma fazenda
de café, depois de vinte dias de noites e dias pelas entradas e saídas dos
matos. Subindo e descendo montanhas, atravessando rios, dormindo no mato,
muitos mosquitos, tipos de insetos, miados de jaguatiricas.
Na fazenda outros negros espalhados no
pasto, na casa, na lavoura, no pátio. Plantava-se café em plantações, abóboras,
mandiocas, milhos, horta; cuidava-se de galinhas e vacas e mulas e porcos.
O grupo dos novos escravos ficou ali no
meio do terreiro calçado de tijolos vermelhos. Foram soltos das correntes.
Rodeados de curiosos de todas as cores e idades. Era um mundo à parte.
Um padre falou coisas na língua dos
brancos. E os batizou. E Gdogno ficou sendo chamado dali em diante de Gaudêncio.
Um nome difícil que nunca iria saber falar.
- Você é Gaudêncio! Nem se esqueça,
Gau-dên-cio!
Foram empurrados para um galpão feito de
pau-a-pique e coberto de capim-balça trançado. Os homens ganharam uma enxada,
as mulheres uma cesta de taquara. Foram empurrados para a roça já no mesmo dia
da chegada, e assim por diante.
Umas 13h da tarde cheia de sol e calor e
etc., e por ex.
E Gaudêncio olhou em volta. E ele olhou
o mato e era um país cheio de matas...
20-chupinguaiense.
Pronto, e D nem diz o que está sentindo
nem o que vai prescrever muito menos acontecer. O caso estentórico a notícia
estourou estrupício estripulia na cidade como notícia bombástica mesmo.
Mas que se há de fazer ou desfazer?
Os irmãos Corticeira eram ótimos caras
com todo mundo, a vizinhança, os amigos, parentes, colegas, os conhecidos, escambau,
tinham uma pequena estufa de mudinhas de juazeiros e juremas e piripiriocas e
tauaris... Até nem sabiam dizer não. Um mais patusco outro mais travesso
terceiro mais traquinas.
Quem nem tinha muito, tinha pouco ou
quase nada, mas tinha. Quem nem tinha nada, precisava ter para crer. Eles eram
assim e caso contrário modo de quê precisavam ser inventados.
- Que upa! Vocês já ouviram falar da
história dos índios aparaí? Ainda mais!
- Que upa! Vocês já ouviram dizer da
história dos índios timbira? Outra coisa!
- Que upa! Vocês já ouviram contar da
história dos índios charrua? Além disso!
Três Corticeira foram ao ginásio do
União ver futsal masculino e feminino, um campeonato anual que todo ano
tradicional era a única atração de Nova Prata e famoso em toda a microrregião.
Quem gostava de futsal. Para quem gosta de futsal.
- Xuá, xuá!... Uns olhos dela aromados
de alegria e flor de alfazema-brava, mirindiba, umbaúba...
- Xuá, xuá!... Foi ela acompanhar que os
pássaros nas pacaviras-grandes cantavam de um por um caraxué,
pavãozinho-do-mato, tauá...
- Xuá, xuá!... Mas o coração paritá nem
sentiu e passou batido feito cavalo cardão feito apóstrofe feito cicerone feito
gavião-pescador feito blasonador...
Um dos irmãos preferia as peleias dos
marmanjos, o outro preferia tanto fazia como tanto fez ou faz, e o terceiro
preferia os confrontos das gurias. O terceiro disse isso e os outros dois riram
um riso calmo bonachão quase sério complementar. Meia hora depois o mais velho
foi comprar cerveja esta engarrafada produto em Augusto Corrêa e trouxe três
copos descartáveis para poder apreciar geladinha no más.
- Principalmente a filha do seu Cadilho
irmã nova do Mufumbo e que atende por Mucica, hein?!, vai pensando.
- Fundamentalmente a Jacitara a Iatá as
encrencas da dona Juruva também do seu Corixo Jacumaúba, compreende?!, é mais
forte.
- Essencialmente a derivada do seu
Curupuruí e de dona Juriti irmã mais em conta da Tajã e que atende por Envira,
entende?!, é simplesmente suspense.
No intervalo entre o segundo e o
terceiro jogo (cada noite eram quatro partidas) os irmãos sempre também
chegavam ao balcão do bar do ginásio para um rápido abastecimento de pastéis de
queijo pastéis de palmito com suco de cupuaçu. E naquela horinha nem podia nem
foi diferente. Encostaram e pediram uma ceva e três copos de plástico e três
sandubas com margarina empacotada produto em Guaramiranga. Olhando as gurias
pra lá e pra cá. Umas até bem interessantes na ida e na volta. Entre eles
mesmos quase nem se falavam. E até pareciam que se entendiam sem fala mesmo. De
boca cheia era mais engraçado. E riam à socapa.
Nem se falaram nada durante a cerveja e
o lanche. Uns resmungos por causa de uma ou outra menina boa que passou, e
olhos compridos. A cerveja foi consumida com sanduíches. Ficaram satisfeitos.
Voltaram a subir as arquibancadas de concreto do ginásio e se acomodaram para
mais um jogo. Lado a lado os três e intermináveis. O mais velho na esquerda o
do meio distribuindo o jogo o mais novo na ala da direita.
- Xilindró! Vamos ter que fazer uma
mezinha de tamaquaré-miúdo, aru e cuité!
- Léria! Umas folhas de mulungu abrem
todas as metas e goleiras, tajaçu e imburana!
- Picardia! Algo como um xerimbabo ajuda
na hora do abafa, paruru e chibé!
Acompanhavam a bola com os olhos
parecendo ariranhas do rio Ajuaí. O irmão da esquerda com os cotovelos nos
joelhos segurando o queixo, o do meio com as costas e os cotovelos no cimento
da arquibancada, o da direita segurando uma canela trançada sobre a outra perna
e meio se balançando para frente e para trás. Comentavam um e outro lance
jogada entrada, riam quando achavam engraçado, deglutiam passes e dribles e
cabeceios. Quase sempre achavam engraçado quando pelo menos um achava engraçado.
Olhavam se voltavam olhando sempre o mesmo lado da quadra pensavam quase igual
embora quando muito já se coçavam se divertiam se enticavam de diferentes modos
maneiras lugares e cacoetes.
- A ilha de Marapatá. Nesse caso vamos
contratar mais um ou dois e são sejam capazes de driblar. O que falta é um ou
até dois talentos igual ao Arapaçu ou Peririguá.
- O rio Miranda. Quem sabe um talento
que adivinhe tudo e mais um pouco. O que carece é um craque ou dois como Sacaí
ou Mangaua.
- E lajedo do Pai Mateus. Pode de ser um
liso de couro curtido e que tenha uma boa disposição de correr pela ala. O que
se precisa é um ou dois foras de série tipo o Pitorra ou Muri.
Mais um pouco e foi o da direita
bocejou, o do meio olhou o digital com números grandes arábicos e abriu a boca,
o da esquerda convidou espreguiçando as mãos segurando a cabeça:
- Ah, vamo embora?! O período da lua
minguante e nem todo rio Gurupi aparece de anastomose, matupá, matupá!
- Ah, vamo se mandá?! A época da lua
nova e nem todo rio Inhacica faz uma mupéua, tijucupaua, tijucupaua!
- Ah, vamo nessa?! A fase da lua
crescente e nem todo rio Cubatão do Sul tem vaticano, catuleiro,
catuleiro!
Os outros dois já se levantaram. Os três
se levantaram e foram indo, se esgueirando pelo meio dos pés e pernas e joelhos
das pessoas sentadas até chegar embaixo no corredor perto do alambrado. Pedindo
licença, cumprimentando um e outro conhecido, pedindo por favor e sorrindo, um
após o outro e o terceiro. Onde descia um vinham os três. Quem via o primeiro
via o trio.
- Logo eu feitiço e compenetrado? Comigo
é no arrasta-pé de Palmácia!
- Logo eu mistério e despachado? Tô
ligado no baile de Guajará!
- Logo eu magia e certame? Sempre também
presente contente com as danças de São Caetano de Odivelas!
Pegaram a porta da rua e saíram na rua
Oeiras do Pará para voltar em casa e imarcescíveis. O carro estava estacionado
a meio quarteirão perto da loja Tereterê de materiais de construção e afins.
Era uma mesma noite de cidade
pequena.
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