sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Aline de irrefragável (romance) - capítulo 20




O dia tinha o céu limpo e varrido e ar condicionado, o som do ar cheio dos aromas das flores da mata, como por exemplo a rabo-de-rato, a quina-de-são-paulo, a tapaciriba-branca, a bacopá... Não havia frio nem chuva nem vento carpinteiro. Nem geada naquele período do ano. Nem chuva o céu queria para aquele dia. O vento era brando ponderoso. O vento fazia corredor e viajava de nordeste para sudoeste, se é que estava possível.
Quanto vamos chegar ao ano 2048 setembro às 18h 9min quarta-feira?
De lado um pouco por fora da praça em decúbito lateral o rio Massangana. O rio escorregando sempre gota a gota lágrima suor orvalho se separando das pedras dos dias das horas das pessoas. Ciliado de plantas e bichos nhambus-pretos sapos-bois pica-paus-de-penacho abelhas frecheiras quebra-pedras quinas-de-pernambuco catingas-de-formiga povoado de camarões-d’água-doce cascudos charutinhos traíras... caminhando no passo andando na marcha correndo no trote chispando no galope...
Flutuar em dirigível planador balão globo aerostático da Agência Nacional de Aviação Civil. A paisagem eleita cartão-postal vale rio das Antas e montanhas. Um sol luxuoso e perfeito e impensável. 
O pai do Joel foi e se sentou, como ultimamente vinha fazendo sempre pela história afora, num banco da praça. Já vinha com a cuia preparada e cevada. Era só sentar e ir se servindo de água quente e beber o amargo. Serviu a água fervente da térmica e foi chupando o mate e olhando em volta. Era todo um tipo de ser vivente. Na expectativa. E como convém. Dentro do mundo.
Canteiros de plantas, guanxumas, catanduvas, pitumbas, carás-de-caboclo... monumento ao imigrante italiano família, agasalhada e entrouxada para viagem, etc., por ex. Praça Joaquim Nabuco, patrimônio da cidade. Ao redor as ruas de paralelepípedos. Em volta do largo os principais prédios da cidade, a prefeitura, a catedral, os bancos, a rua mais movimentada a avenida Capinzal do Norte, com destaque para o prédio este de amarelo ouro do museu Marquês do Recife.
E as gurias que se abriam se esforçavam se inventavam nuns risos sorrisos e divertidos e bonitos e recreativos mais como coloria o mundo já para o dia todo. Um conjunto delas ali em tropelia chegando da praça das Pedras. Meninas garotas as gurias com celulares de 2 ou até 3 e meio contos de réis gostavam de festas iam a todos os lugares, e mais, bebiam mas nem ficavam de pileque, ficavam muito mas nem namoravam, muito vaidosas sem serem artistas, fazendo unhas das mãos dos pés mas nem penteavam os cabelos como as atrizes da novela. Andavam em bando porque andar juntas era mais divertido.
20-poço-dantense.
Com as palavras de Aline: tararaca, charola, truísmo, jagodes, estupefato, paleolítico, neolítico, mixórdia, pantógrafo, glicólico.
20-frei-martinhense.
Ana Ricarda, seus dezesseis anos estalando de moderna e nova e risonha, uma maravilha de harmonia e sintonia, ilha da magia, brinquedo de faz de conta, olhos líquidos, risos líquidos, olhos de azeviche, e vocábulo oceânico: praia de Jurerê, lagoa da Conceição, bairro da Trindade pertinho da UFSC...
Comendo um sorvete de abacaxi e pitangas, que bem mereceu.     
Sentia o vento anunciando chuva, um vento vindo, e ela sentia o vento de chuva que corria vindo do noroeste, o sempre noroeste.
Garapa com gotas de abacaxi ou limão mais pastel de queijo.
Todos olhando para o céu, nem ao mesmo tempo, embora caminhando.
Gente com cabelo na moda de nambiquara, com barba de cenoura, com bigode de nobre, com bolsa de papelão, com guarda-chuva de macega, com sonhos de nuvem.
Sacudiam a cabeça, mexiam os braços: na perpendicular.
Olhos de azul cobalto; precisava fazer alguma coisa.
Dia de quinta-feira abriu com sol durante todo o dia, que perdurou o dia todo.
Na manhã seguinte foi a mesma coisa.
Mas a quinta-feira era saudável e tratável e conforme, e tanto, que Ana Ricarda resolveu passear até o aeroporto de Confins e casas de combogó. E mais evidente do que qualquer outra. Espontânea e vaporosa.
A guria de bolsa com espelhinhos nem era dali e em síntese análise percepção dialética lógica e era da terra do Cruz e Souza.
Na rua Belágua desembarcou do táxi e continuou a pé, e mirueira, bicos-de-guará, lelias-da-bahia, cervejas-de-pobre... e os gredelins, corruíras, tucanos-de-peito-branco; muito mais.
Como merecia este sol das 14h e 28min?
De repente para e olha... um automóvel zero bala vermelho do tipo novo e vermelho com detalhes verdes. E parada no meio-fio olhando.
Não havia à vista ou no cartão nenhuma cigarra estertorando, formiga humana laboriosa, besouro pesado pintado de colorido brilhante, cães de coleira com nome próprio, cheiro de pipoca caramelada e buzina de touro brabo.
Ouviu e leu no celular a grande e impagável notícia do preço da soja nos mercados do mundo mundial global, negócios da China.
20-terra-altense.
Com as palavras de Aline: desabalado, resfolgante, escalonamento, agnóstico, desdigo, epílogo, embelecida, churi, elipse, ilação.
20-xinguarense.
Sonhos adolescentes cômodos gênio e de Ana Ricarda, o quarto, no quarto de dormir e pensar, pijama pantufas ou pé no chão:
“A iluminação espiritual é obtida com retiro pessoal para lugares altos e solitários e solidários. Se sentar na pedra e ficar por ali até nem querer mais. Olhando as pedras e perdendo a conta. Olhando a natureza da rocha. Isolada do mundo até esquecê-lo ou vê-lo por dentro. E olhar para dentro de si também. Meditar. Pensar leve. Diante da natureza e para dentro de si mesma. Nem sempre é possível ou relaxante.
“Escolher um lugar bonito para pensar no mundo em paz. Com pedras e árvores e pássaros e silêncio, ou um sossego de humanos. Nem muito frio nem muito quente, temperatura nos 20ºC é o ideal. Um lugar para acampar seria o correto. Um mês, duas semanas, dez dias no mínimo. Com plantas ao redor ervas-de-santa-luzia grãos-de-porco cristas-de-mutum arapiracas...
“A serra da Mantiqueira tem ótimos ambientes de relaxamento e pedras brilhantes. A serra dos Órgãos muitos lugares propícios para pensar no ser, para expandir a alma e deixar que voe; o ser-estar. A serra do Cipó nem perde para nenhum lugar alto como lugar propício para se perder, ou melhor, se deixar do mundo profano e buzinador. Particularmente prefiro a beira do rio Capivari, em Agaci.
“Chegar no lugar alto e de ar meio rarefeito, respirar fundo, sentar na pedra, e olhar o horizonte feito de corcovas de montanhas. Numa pedra alta e perigosamente sobre o abismo. Ouvir os passarinhos da região, ver as plantas da região, as flores da estação, as cascatas rolar, as frutas do lugar iguarias leves doces ou agridoces feitas à base de ingredientes principais. Melodiosamente tocar as pedras, pegar as pedrinhas preciosas, achar quem sabe um diamante do tempo dos diamantes e do Caminho do Ouro. Quem sabe um amuleto uma chave um mapa.
“Se desse para escolher o alto da montanha! Acordar sempre com o sol no céu todo azul. Um dia ou outro com chuva sem vento também seria bom. Mas sempre chuva de verão. E sol de verão. E manhãs com passarinhos de peito amarelo e canto territorialista e voos paisagísticos, tiriris, anacãs, almas-de-gato...
“Ter o tempo para pensar o dia todo? É possível? Nem se afobar com o tempo que tem ou que vai e vem. Passar o tempo que se tem e que sobra sentada sobre o umbigo do mundo e de D. E nada de perguntas para sem respostas.”
20-nova-russense.
Ana Ricarda, eu já disse, e bom esclarecer comentar explicar, nem era propriamente do tempo profundo das platibandas e águas-furtadas. Ela nasceu e planejada para algum futuro, porém incerto.
O céu alto e azul-claro, tuiutis e sanhaços, depois azul, falcão-peregrino, após azul-escuro, andorinhas de costas cinzentas e peito branco, o mesmo céu de ontem, o céu passando bem, o céu dos aviões comerciais e helicópteros e discos voadores.
Abelhas tubibas grupo enxame frota exército arboreto.
Azul sorridente sol sorridente dia deslumbrante, oxalá!
- Que sabor de sorvete você gostaria, é calor é quente, é frio?
Mirou às vezes que desfilava aí, mirou rodeou titubeou o livro centenas de segundos até que uma hora comprou, carregou no lugar da costela que faltava trouxe leu economizou emprestou discutiu doou.
Ana Ricarda, como toda guria que adora seus cabelos, pedalou pela ciclovia com ótima condição física e rua Carlos Trein Filho. Tinha lá seu corpo elástico verdadeiro alinhado verde falante como água da chuva.
Nem havia cigarras serrando sem parar sem parar nos troncos das palmeiras-barrigudas. Nem havia besouros escaravelhos tocando batendo pererengas em os pereiros-da-catinga.
O calor das 13h e 33min subia da calçada de pedra basalto e tremulava como vapor fantasma vaporando, bafão.
O sol começou voando baixo, depois voando, após voando alto, ainda de tarde voando abaixo da linha do horizonte e falando gauchês. E sol para oeste poente holofote ocidente patriarcal.
20-abaiarense.
Frases sentenças de Pedro:
- Sem dúvida de sol forte, as pessoas iam de boné e ou guarda-sol até o cânion do Funil e Bom Jardim da Serra.
- Já porque era o movimento da segunda-feira e o pouco que adiantou, no entanto.
- Pois o cãozinho de nome Tala se soltou da corrente e correu fugindo pela rua Bom Lugar em fora.
- Sol escorchante de olho de gavião-carijó feroz.
20-arvorezinhense.
Com as palavras de Aline: siderado, tartamudeia, atabalhoadamente, baldado, pélago, cortejar, ensejo, intricar, cabotinagem, argentarismo.
20-caseirense.
As três calçadas laterais da praça Princesa Isabel faziam limites com as ruas Lago da Pedra e Sítio Novo e avenida Camba, praticamente um triângulo escaleno. A figura arboral da cidade de Rebouças. Além de outras.
 Ribaçãs chegaram chegaram para quebrar a tardezinha madrinha pequenina. Maracanãs vieram gargalhando lá dos fundos da mata de lá e funcionários da indústria do entretenimento. Emas trazendo nos braços os filhotes cansados e marotos e manhosos. O jacu apareceu e crau. O jucurutu acendeu apagou acendeu as lanternas. O par de caraúnas casados aproximaram piaram coçando a cabeça. A maria-é-dia nem aguentou e caiu no sono. O galo-de-campina ficou permaneceu num pé só. Papa-lagarta já dormia ao relento. Pitiguari cantou piou assobiou bateu asas e mudou de pouso. Jutiti estridente. Socó rouco. Carão de bico longo penas plumas e penacho. Xexéu se fez de lá pra cá e de mola. Seriema olhou as unhas soprou as unhas ciscou se preocupou. É certo contar com numerosidade muito abundância. Ou isto e aquilo.
Isto, hoje em dia, nem se vê mais ou menos. Hoje tá mudado. Se ouve o trem moderno no seu tempo partindo para o ABCD paulista.
O pai do Joel tomava um chimarrão ali já desde umas nove horas e tudo mais. O movimento de passagem, gente indo e vindo, gente pra lá e pra cá, era sempre bom e intenso. Dava para se distrair. Desempregados vinham esperar aluguel pico ou frete.
Um pé de espinho-de-maricá, um tronco de guapuruvu, um canto alto e feliz e imperial de bem-te-vi-do-bico-largo. O que mais tinha? O que mais esperar? A lavadeira-de-cabeça-branca 90 dias de idade.
Na praça todos querem ver, tudo se quer conhecer, todos querem falar e falam ao mesmo tempo.
Porque aí aparecia a chuva. Porque aí vinha prometia uma chuva incrível. Os acontecimentos se aceleraram e as nuvens se enfureceram. Coisa de minutos. Raios e trovões foram ouvidos e vistos aqui embaixo com desdém. Seu ivuranhê pendeu mais para boreste. E como veio passou saiu, emboralá!
Uma cadelinha passeando com sua dona, olhar esgazeado, boca alegre e cauda esportiva, pelo de tonhonhoim!, cheirando tudo que havia pulando as poças-d’água e latindo de vez em quando. A dona tinha paciência de mamãe de vovó. A cadelinha olhava e requeria. A mamãe e dona professora de H do B no colégio Municipal Cabixiana. A guaipequinha puxava a guia e parecia eufórica pelo dia pela hora. Todos se perguntavam ali na praça Princesa Isabel e presentes:
- Quem é ela?
- Para onde vai?
- Aonde vais?
Um cavalo pigarço se contentando solto com a grama-do-pará no campinho com goleiras de dois tijolos. Grande cavalo professor e crítico e arquiteto. Nos fins de semana e feriados pedalava na estrada BR-470 fazia lá seus 15 a 20 quilômetros pela manhã e no trote, pa-ra-pa-tá ta-tá ta-tá!... Dia de semana de segunda a sexta dava aula na escola Estadual Sinimbu junto à praia Barra Grande, ensino fundamental e o médio. Matérias que caíam no Enem e nos concursos públicos.
A praça Princesa Isabel com estátua gigante da famosa Princesa Imperial Regente Isabel a Redentora. No distante passado, o lugar teve até chafariz com peixes naturais, apaiaris, mandiaçus, bacus-de-pedra, lambaris, piaus... mas hoje ainda mantém o velho coreto para retretas e discursos políticos, os espaços calçados para o povo andar e rodear namorando, os blocos ensaiar as marchinhas de carnaval nas vésperas de carnaval, e coisa e tal, camelô de vez em vez aparece gente de fora embora nem seja necessário ou permitido ou desejado.
20-abadianense.
Ana Ricarda, para quem sabe, chega ao vestíbulo da universidade o busto de Carlos Gomes na coluna de concreto afixada ama placa de bronze que dizia bastos cabelos bigodes. Com riqueza de detalhes.
Donde quê, os passarinhos todos da estação tocavam instrumentos ao seu dispor assobios voos pios risos rinchos, paródias, mas os mais engraçados eram sem dúvida as corruíras.
O sol, legítimo e implosivo, caminhava inteligentemente seu itinerário diário habitual. Sol de placas amarelas. Que horas são.
Donde quê, bandana amarela para segurar os cabelos grossos alçados.
E se dizia desde manhã por aí completamente isto: o dia está para chuva no decorrer do período, ventos, umidade, temperatura, tempo, clima, jogo de futebol na areia e o escambau.
A direção foi dada na partida, o sentido a pessoa adquire ou escolhe ou acontece, total: a dita mesmo.
Naquela hora da noite enluarada e estrelada, clichê, o mais sério e importante era a lua subir no céu que subiu. Atrás dela vinha uma capeba-do-norte árvore feita.
Depois de certa hora alta, a lua nem funcionou mais e sumiu e apagou, e ficaram as estrelas que eram tantas e espalhadas e esfarrapadas.
Donde quê, nem nuvens nem morcegos nem corujas-buraqueiras nem bacuraus-cauda-barrada nem superstições. Nem casas nem pontes nem ruínas de capelas.
Passou um avião, comercial ou de combate?, muito alto e barulhento, passou para o sul relampeando o pisca-pisca. E assim por diante.
O dia novamente vem chegando na hora marcada, deslizando no sabão da comemoração dos pássaros, aparecendo à frente, para baixo, para cima, e a noite nem mesmo demorou.
Donde quê, manhã suave como a cor verde, o sabiá-laranja melhor interprete da redondeza, e a planta violeta-montes nem queria mais saber nem precisava mais entender.
Sorriso do rio Azul quebrado de luz como um peixe dourado pintado mandi-bandeira...
Donde quê, bom dia canários-do-ceará boas árvores moça solerte passando olhando os pés bom dia de sol ouro puro bom dia abelhas guarupus bom dia tribo marubo plantas floridas, amapás, meruás, perobas-de-minas, taiuiás, uafés...
20-sãojoaquinense.
Com as palavras de Aline: embevecimento, encalistrado, rastaquera, chiste, deificar, iconoclasta, insólita, tarja, suflê, diligentemente.
20-guabirabense.
Frases sentenças de Pedro:
- As árvores tremiam, umas frutas caíam, folhas, uma goiabeira-do-mato saltou uma goiaba no chão deixou num baque surdo.
- A chuva lá fora, o pai se sentou numa cadeira de respaldo alto, o mais moço caçula dos filhos se sentou num mocho de três cascos, o cachorro Tauá se deitou perto do fogo se enrodilhou.
- A rua Brejo Grande do Araguaia, a estrela no começo da tarde, a bicicleta sozinha ao som da luz do céu profundo.
- Um dia desses eu estava andando andando pelo céu satisfeito e nem encontrei ninguém conhecido da tevê: aonde foi todo mundo importante famosos?
20-itamaratiense.
As perguntas de Paulo:
- Domingo de manhã, todas as horas, é sempre muito claro, as avenidas arborizadas, o dia sem nuvens, nem é?
- Sabe o que aconteceu no aconchego do contemporaníssimo?
- Que quem vem por aí hoje em dia?
- Que é que vai se fazer, hein?!, do legado.
20-biquense.
E também, será possível?!, a Ana Ricarda acordou com retorcidos jeitos modos conformes e gestos de se estalar em múltiplas, em cipó, em rio, em bocejos, gato-do-mato, em preguiça, em gavião-peneira, em cognato, em tudo que tem cauda.
Amanhecia em começo um esperto dia de domingo vinte e três de novembro, e para quem queria.
Lá e nasceu, lá se criou, lá se envolveu, lá se meteu em casa de marimbondo.
Os mangues-mansos, as jipiocas, os mofumbos, os lírios-das-pedras... caem brotam crescem frondejam florescem frutificam e ainda continuam.
Um passarinho anônimo ficou de assobio para a namorada... e vice-versa, pela manhã, enquanto as pessoas escutavam em silêncio, em silêncio e atenção.
Bertioga fica numa praia paradisíaca, hum!...
Tinha na mão um sorriso, nos olhos uma aventura de caminhada pela mata, na boca uma bala azedinha, na testa um ar olímpico, nas mãos um celular verde, no espírito um sonho descendo o rio Água Amarela e procurando o lendário Caminho do Sabarabuçu. Um pouco a leste de Colorado do Oeste.
Cunhãs trucá vendendo cestos trançados de folha de macaíba na praça Carlos Gomes. Eram tão certas e às oito horas e vinte minutos e exatamente uma sexta-feira céu branco quinze de maio de dois mil e onze.
O vento começou tudo, nem novamente, mas outra vez outro turno.
As nuvens se organizando em montes de palha branca.
O sol pintara as árvores de verde balançando gorjeando aplaudindo.
As árvores soltaram os pássaros amarelos com peitos amarelos, e tchintchorrintchos, tibirros-do-brejo, pintassilgos...
Domesticadas casas de alvenaria, pátios de grama, o sendeiro preguiçoso.
A principal menina do dia, arisca perfumosa, passou um pouco rápida, mas em leveza, daí a ideia de quem a viu foi repisá-la em câmara lenta várias vezes, Ana Ricarda uma cor móvel ambulante e porque a principal menina do bando merecia, demorada beleza.
A paisagem era tudo isso aqui e aquilo, os riachos procurando descer sempre e o mais rápido possível, o canário-assoviador cantando no alto do marmeleiro-do-campo, os cardeais pulando de pedra em pedra, os anus-brancos assustados trocando do facheiro para a mutamba-preta, e tudo separado uma coisa só, o sol ia baixo quando o céu começou a trocar de lugar, mais precisamente no limpo que no fechado.
Pela tarde já, ou tardezinha da tardinha, selou o cavalo baio ou castanho e saiu, estudante de etnografia. 
Só que o dia anoiteceu às 18h e 06min chuvoso ventoso friozinho pros lados de da região dos reserva uaicá.
20-são-roquense.
Com as palavras de Aline: alvorotado, compassiva, epicentro, glauco, esteta, imantar, boemia, lança-perfume, sexismo, perfectibilidade.
20-poaense.
O dia aquele caiu num período nublado e úmido e enjoado e descompassado. Podia chover a qualquer estalo, e se necessário. O céu enfarruscado prometia garoa chuviscar chuva chover, idiossincrasias.
Gaudêncio, descendente de Gaudêncio, foi com dois manos buscar mel ou lenha no matinho ainda perto do quilombo, criciúmas, uvatingas, itapicurus, canudos-de-pito, surros, angicos-do-campo... Um bando de tucanos-de-bico-preto voou em algazarra. Os negros olharam para o alto, para os lados, pararam para escutar ouvir. Levavam uns paus em ponta e uma faca como armas.
Vinte minutos depois ouviram tiros para os lados do quilombo. Assustados até nem poder, correram para socorrer, pararam atentos, olhos grandes, surpresa.
Gaudêncio, cor negra 34 anos de idade casado três filhos residente desde dois anos no quilombo Sambaíba, subiu na árvore bem mais alta e olhou para os lados do quilombo. A aldeia estava sendo atacada por homens brancos e pretos em cavalos, outros a pé mesmo, muitos homens armados e dando tiros e prendendo os negros negras idades todos.
O Gaudêncio desceu rapidamente do angico-rajado, parasitado de cabeças-de-boi, e se precipitou para o quilombo, a toda. Os outros quatro se entreolharam, olhos grandes, e fincaram o pé deitaram o cabelo para o meio do mato espesso fechado seguro, e coisa e tal.
Chegando na beira do terreiro, esbaforido, resfolegante, sôfrego, soltando os bofes pela boca, babando de susto e cansaço, Gaudêncio viu palhoças incendiadas, mulheres presas, homens presos, velhos e velhas mortos, crianças presas, bichos domésticos presos, tudo preso em correias e ferros. Ele correu para os lados do casebre para ver da mulher e dos filhos, mas já era tarde. Tentou chegar mais perto e foi visto e preso na hora. Esperneou como pôde e nem conseguiu se salvar. Tentou lutar e foi espancado como animal de carga.
Poucos negros conseguiram agarrar o mato e se refugiar se salvar. Velhos e velhas que nem prestavam mais para o trabalho escravo foram deixados para trás ou mortos.
Os caçadores de escravos fizeram uma boa colheita, a granel, a rodo, e riram satisfeitos, parangolés, etc., por ex, esfregaram as mãos e deram gargalhadas batendo no peito com satisfação.
20-descansense.
Os sonhos de Ana Ricarda eram tão naturais e bons que mereciam durar para sempre. E ela comprou uma bertolônia para a área, imaginar:
- Que bom saber do mundo geral, universal, total. Bem que existe o mundo, sim. É só querer que tudo se resolve e está em casa. É só ir caminhando e em frente que tudo dará certo. Férias no rio Corumbiara que banha Junqueiro e Limoeiro de Anadia e Craíbas...
“O céu mais alto que o céu azul. Dá para contar as várias camadas de céu, dos céus e céus. Cada céu, meu! Um mais alto que o outro. Outro mais azul-clarinho que o outro. Mas nem é de céu que vim a este mundo.
“Pedaços grandes de terras paisagens frutíferas. O país das árvores altas e sempre verdes. O país dos passarinhos dos peixes das árvores dos rios dos insetos escamas-vírgulas. O país das orquídeas bromélias abelhas muriquis. O país dos quero-queros dos tuiuiús das andorinhas dos papagaios das coiranas-de-caravelas. O país das borboletas com cores mágicas e traçados misteriosos. O país dos bichos-preguiças das capivaras dos jacarés dos tucunarés, numerosos.
“Mares profundos com verdes ou azuis e de corais e arrecifes e atóis. Praias de areia fina e branca com coqueiros dando coco de graça. Matrinxãs, saguirus, piaus no rio São Marcos, baleia-franca no mar de Bertioga.
“Montanhas fortes com ar puro bem em cima e horizontes para se ver ao longe. O sol nascendo e desaparecendo na praia de Cidreira. As estrelas em números e mais limpas. A lua bem perto subindo da árvore fruta-de-coruja. O vento fazendo ginástica na curva correndo na reta subindo degraus na academia de ginástica. Os discos voadores em câmara lenta, céu limpo noturno. Cidades sagradas e antigas e abandonadas. Abelhas iraís procurando doce nas flores do dia nas flores de macela-da-terra cabiúna-do-mato jurubeba-de-espinho... Regiões dominadas pelos índios macurape.
“Eu mesma gosto de pitangueiras das folhas de pitangueiras das pitangas e que delícias. Pitangas e frutinhas amarelas vermelhas folhas flores frutos em forma de desenho leves e o lugar que a planta escolheu morar e partir. Pitangueiras do jeito delas, de longe de perto, voando abelhas e outros mosquitos, vontade crescente, sentidos salientes, gostosas. Somente olhando do tranquilo, explicável, árvore outras vezes de saguis-imperador. Árvore de conversas baixas com vagar. E falou ou nem foi atrás: ‘E por que nem me chamaram antes?’ Tudo ao redor. E música bonita, e além da estrada. A praia de Capão da Canoa bebendo do mar em ondas certeiras.
20-aguasfriense.
Gdogno, rosto escarificado, habitava como raça tipo gênero masculino na campina larga árida disputada de Angola, e África. Aquele dia, ele e mais sete manos da aldeia, procuravam caça sorrateira no meio da capoeira esturricada. Podia ser qualquer coisa que se mexesse, e tal e qual. Debaixo de um sol na manhã pé ante pé tudo muito seco e difícil. Era muito desfavorável. A caça quase nem titubeava e eles todos em geral passavam fome famintos famélicos. Todo ano aquela seca extinguia gente e bichos e plantas, nada nada. A caça minguava, sumiam. Os donos das terras, como o povo de sua aldeia, tinham que aguentar a seca caso contrário perdiam também aquele lugar para morar tradicional. Tinham que aguentar até voltar a época das chuvas da fartura a estação das águas. E ir levando com o que dava e podiam e os deuses consentiam permitiam.
Os oito caçadores, enrolados em tangas feitas de couro de girafa e pintados de barro para proteger a pele do sol e dos insetos, procuravam qualquer rastro qualquer bicho qualquer semovente. Um dia muito quente e insuportável poeirento, andar e desandar. Uns ratinhos do deserto foram vistos rastinhos por aí. Os caçadores estavam armados de espetos pontudos e pedras e cassetes. As pequenas caças e os grandes bípedes caçadores. Era ter paciência e calma e tranquilidade e esperança.
- Tem muito rato roedor aqui - disse e prometeu um dos manos.
- E são enormes e gordos e nutritivos, pois nem - completou o outro mano.
O sol cruzou todo o dia muito muito quente. Poeira vinha no vento. Os caçadores viam miragens de frutas para colher de bichos gordos de bandos de pássaros rápidos para caçar e rios para beber pescar nadar.
Perto da noite, os oito homens caçadores de ratinhos voltaram para a aldeia. O sol caía vermelhando e amarelando no horizonte do céu sem uma nuvem. O vento ainda vinha do sul e falando baixo. Voltavam com dois ratos pequenos e magros e pedintes. Caçadores muito cansados. Sentiram um arrepio no corpo ao perceber que a aldeia estava toda quieta quieta e alguns trastes jogados. Estranharam aquilo assim e pararam na hora. Pé ante pé foram chegando, cheirando, observando atentamente.
De supetão, de dentro dos casebres feitos de paus e couros de zebra, saltaram dezenas de homens negros armados até os dentes. Eram os caçadores de escravos e todos na África os conheciam ou sabiam de ouvir falar.
 Gdogno foi alcançado e recebeu muitos socos no pé do ouvido até aquietar e obedecer. Os oito que chegavam do deserto, tentaram fugir mas nem conseguiram ir muito longe. Estavam mais cansados. Dos oito ninguém conseguiu escapar, foram alcançados, agarrados, espancados, amarrados, xingados e enjaulados. Gdogno também gritou o que pode, tungado, surrado, agredido.
E então todos os manos da aldeia viajaram presos uma semana ou mais. No rumo dum lugar que eles nunca tinham ouvido falar e muito menos sabiam se era neste país ou noutro. O porto Angola. Quando chegaram todos os presos estavam quase famintos e sedentos. Ali no porto foram passados numa revista e selecionados para embarque imediato.
Gdogno aguardava, ele mais centenas, no entreposto do porto debaixo duma cobertura de palha. Já começava a ter uma vontade de morrer. Muitos negros amontoados, gemendo, uivando, chorando, negros e negras, adultos e crianças misturados, quase nus.
Certo dia na boca da noite, Gdogno entre eles, foram embarcados como gado. Gdogno e outras centenas. Enfiados no porão dum galeão português. Todos no porão no escuro presos pelo pé. O navio a navegar para onde como num gigantesco pesadelo. O barulho do mar no casco do navio. A choradeira geral.
Todas as horas os mortos eram soltos das correntes e jogados no mar. O açoite estalando os gritos o medo do inferno. E uma grande vingança dos deuses. 
Um dia foram todos levados para terra. Que lugar era aquele? Num outro mundo, num outro planeta, numa outra galáxia.
Todos os acorrentados foram puxados do galeão e levados a um galpão na beira da praia. Os homens brancos olhavam o gado contavam e esfregavam as mãos. Veio muita comida e muita água fresca para engordar o rebanho.
Poucos tinham passado pelo vasto oceano. Dos que chegaram, mais da metade ficaram no mar, mergulharam, tentaram nadar de volta pra casa, para os entes queridos, para os fundos caminhos dos deuses, ou se esqueceram por completo.
Gdogno olhou em volta e nem tinha parentes à vista. Procurou e nem viu ninguém da sua aldeia. Todos negros de Angola, uns até inimigos da sua tribo, tribos diferentes, muitas tribos ali representadas, todos unidos pela corrente, cada um por si e os deuses nem mais lembrados.
Quinze dias comendo do bom e do melhor. Foi levado numa praça com muito negociante de gado olhando examinando pesquisando o melhor preço a melhor oferta a melhor peça. O gado preso na corrente e praticamente nu. Tanto as fêmeas como os machos. Foi um homem branco, e gordo e barbudo de vários meses chapéu grande e alto, que chegou perto e lhe bateu com o cabo do relho na perna e berrou:
- Compro! Compro!
O próprio Gdogno nem compreendeu, mas entendeu. Um negro do lado do branco gordo abriu a boca de Gdogno. O branco olhou os dentes de Gdogno. Apertou os músculos dos braços. Olhou as pernas. Olhou tudo. Olhou todo bem olhado o corpo do Gdogno. Depois o branco passou para outros negros e negras e fez a mesma coisa as outras compras.
Aquela noite Gdogno foi separado, ele e mais dois negros e três negras, numa baia coberta de telhas vãs. No outro dia, todos amarrados em fila indiana, seguiram com o homem branco e gordo e mais um outro branco, estes a cavalo, os outros nas mulas, os dois negros os três caboclos mestiços com os índios nhandeva e armados e para onde.
O bando a tropa seguiu a trilha que começou a subir uma serra muito alta e verde e pedregosa. Trilha de tropeiros. Era um país verde e cheio de mato. Muitas turmas pareciam seguir a mesma estrada no mato e para muitos outros lugares no sertão. Os homens viviam armados até os dentes e davam alguma ração de engorda e muita água.
Subiam a serra da Mantiqueira. Caminhos e escalaminhadas pela serra contornando o rio Campo Belo cascata do Maromba cachoeira das Flores e pico das Prateleiras, sempre mais sempre em frente. O país dos rios das árvores, itapiúnas, paineiras-barrigudas, beijos-do-mato, ervas-de-sapo, malvas-do-campo... e muitos passarinhos de vozes diferentes.
Durante dias e noites durante quantos dias mais de treze dias, caminharam dormiram caminharam andaram no meio do mato subindo morros o país das árvores dos miados e ruídos dos bichos dos gatos-do-mato-grandes, sauás, suindaras, arapongas...
Chegaram a uma casa grande uma fazenda de café, depois de vinte dias de noites e dias pelas entradas e saídas dos matos. Subindo e descendo montanhas, atravessando rios, dormindo no mato, muitos mosquitos, tipos de insetos, miados de jaguatiricas.
Na fazenda outros negros espalhados no pasto, na casa, na lavoura, no pátio. Plantava-se café em plantações, abóboras, mandiocas, milhos, horta; cuidava-se de galinhas e vacas e mulas e porcos.
O grupo dos novos escravos ficou ali no meio do terreiro calçado de tijolos vermelhos. Foram soltos das correntes. Rodeados de curiosos de todas as cores e idades. Era um mundo à parte.
Um padre falou coisas na língua dos brancos. E os batizou. E Gdogno ficou sendo chamado dali em diante de Gaudêncio. Um nome difícil que nunca iria saber falar.
- Você é Gaudêncio! Nem se esqueça, Gau-dên-cio!
Foram empurrados para um galpão feito de pau-a-pique e coberto de capim-balça trançado. Os homens ganharam uma enxada, as mulheres uma cesta de taquara. Foram empurrados para a roça já no mesmo dia da chegada, e assim por diante.
Umas 13h da tarde cheia de sol e calor e etc., e por ex.
E Gaudêncio olhou em volta. E ele olhou o mato e era um país cheio de matas...
20-chupinguaiense.
Pronto, e D nem diz o que está sentindo nem o que vai prescrever muito menos acontecer. O caso estentórico a notícia estourou estrupício estripulia na cidade como notícia bombástica mesmo.
Mas que se há de fazer ou desfazer?
Os irmãos Corticeira eram ótimos caras com todo mundo, a vizinhança, os amigos, parentes, colegas, os conhecidos, escambau, tinham uma pequena estufa de mudinhas de juazeiros e juremas e piripiriocas e tauaris... Até nem sabiam dizer não. Um mais patusco outro mais travesso terceiro mais traquinas.
Quem nem tinha muito, tinha pouco ou quase nada, mas tinha. Quem nem tinha nada, precisava ter para crer. Eles eram assim e caso contrário modo de quê precisavam ser inventados.
- Que upa! Vocês já ouviram falar da história dos índios aparaí? Ainda mais!
- Que upa! Vocês já ouviram dizer da história dos índios timbira? Outra coisa!
- Que upa! Vocês já ouviram contar da história dos índios charrua? Além disso!
Três Corticeira foram ao ginásio do União ver futsal masculino e feminino, um campeonato anual que todo ano tradicional era a única atração de Nova Prata e famoso em toda a microrregião. Quem gostava de futsal. Para quem gosta de futsal.
- Xuá, xuá!... Uns olhos dela aromados de alegria e flor de alfazema-brava, mirindiba, umbaúba...
- Xuá, xuá!... Foi ela acompanhar que os pássaros nas pacaviras-grandes cantavam de um por um caraxué, pavãozinho-do-mato, tauá...
- Xuá, xuá!... Mas o coração paritá nem sentiu e passou batido feito cavalo cardão feito apóstrofe feito cicerone feito gavião-pescador feito blasonador...
Um dos irmãos preferia as peleias dos marmanjos, o outro preferia tanto fazia como tanto fez ou faz, e o terceiro preferia os confrontos das gurias. O terceiro disse isso e os outros dois riram um riso calmo bonachão quase sério complementar. Meia hora depois o mais velho foi comprar cerveja esta engarrafada produto em Augusto Corrêa e trouxe três copos descartáveis para poder apreciar geladinha no más.
- Principalmente a filha do seu Cadilho irmã nova do Mufumbo e que atende por Mucica, hein?!, vai pensando.
- Fundamentalmente a Jacitara a Iatá as encrencas da dona Juruva também do seu Corixo Jacumaúba, compreende?!, é mais forte.
- Essencialmente a derivada do seu Curupuruí e de dona Juriti irmã mais em conta da Tajã e que atende por Envira, entende?!, é simplesmente suspense.  
No intervalo entre o segundo e o terceiro jogo (cada noite eram quatro partidas) os irmãos sempre também chegavam ao balcão do bar do ginásio para um rápido abastecimento de pastéis de queijo pastéis de palmito com suco de cupuaçu. E naquela horinha nem podia nem foi diferente. Encostaram e pediram uma ceva e três copos de plástico e três sandubas com margarina empacotada produto em Guaramiranga. Olhando as gurias pra lá e pra cá. Umas até bem interessantes na ida e na volta. Entre eles mesmos quase nem se falavam. E até pareciam que se entendiam sem fala mesmo. De boca cheia era mais engraçado. E riam à socapa.
Nem se falaram nada durante a cerveja e o lanche. Uns resmungos por causa de uma ou outra menina boa que passou, e olhos compridos. A cerveja foi consumida com sanduíches. Ficaram satisfeitos. Voltaram a subir as arquibancadas de concreto do ginásio e se acomodaram para mais um jogo. Lado a lado os três e intermináveis. O mais velho na esquerda o do meio distribuindo o jogo o mais novo na ala da direita.
- Xilindró! Vamos ter que fazer uma mezinha de tamaquaré-miúdo, aru e cuité!
- Léria! Umas folhas de mulungu abrem todas as metas e goleiras, tajaçu e imburana!
- Picardia! Algo como um xerimbabo ajuda na hora do abafa, paruru e chibé!
Acompanhavam a bola com os olhos parecendo ariranhas do rio Ajuaí. O irmão da esquerda com os cotovelos nos joelhos segurando o queixo, o do meio com as costas e os cotovelos no cimento da arquibancada, o da direita segurando uma canela trançada sobre a outra perna e meio se balançando para frente e para trás. Comentavam um e outro lance jogada entrada, riam quando achavam engraçado, deglutiam passes e dribles e cabeceios. Quase sempre achavam engraçado quando pelo menos um achava engraçado. Olhavam se voltavam olhando sempre o mesmo lado da quadra pensavam quase igual embora quando muito já se coçavam se divertiam se enticavam de diferentes modos maneiras lugares e cacoetes.
- A ilha de Marapatá. Nesse caso vamos contratar mais um ou dois e são sejam capazes de driblar. O que falta é um ou até dois talentos igual ao Arapaçu ou Peririguá.
- O rio Miranda. Quem sabe um talento que adivinhe tudo e mais um pouco. O que carece é um craque ou dois como Sacaí ou Mangaua.
- E lajedo do Pai Mateus. Pode de ser um liso de couro curtido e que tenha uma boa disposição de correr pela ala. O que se precisa é um ou dois foras de série tipo o Pitorra ou Muri.
Mais um pouco e foi o da direita bocejou, o do meio olhou o digital com números grandes arábicos e abriu a boca, o da esquerda convidou espreguiçando as mãos segurando a cabeça:
- Ah, vamo embora?! O período da lua minguante e nem todo rio Gurupi aparece de anastomose, matupá, matupá!
- Ah, vamo se mandá?! A época da lua nova e nem todo rio Inhacica faz uma mupéua, tijucupaua, tijucupaua!
- Ah, vamo nessa?! A fase da lua crescente e nem todo rio Cubatão do Sul tem vaticano, catuleiro, catuleiro!  
Os outros dois já se levantaram. Os três se levantaram e foram indo, se esgueirando pelo meio dos pés e pernas e joelhos das pessoas sentadas até chegar embaixo no corredor perto do alambrado. Pedindo licença, cumprimentando um e outro conhecido, pedindo por favor e sorrindo, um após o outro e o terceiro. Onde descia um vinham os três. Quem via o primeiro via o trio.
- Logo eu feitiço e compenetrado? Comigo é no arrasta-pé de Palmácia!
- Logo eu mistério e despachado? Tô ligado no baile de Guajará!
- Logo eu magia e certame? Sempre também presente contente com as danças de São Caetano de Odivelas!
Pegaram a porta da rua e saíram na rua Oeiras do Pará para voltar em casa e imarcescíveis. O carro estava estacionado a meio quarteirão perto da loja Tereterê de materiais de construção e afins.
            Era uma mesma noite de cidade pequena.

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