Sempre que amanhece. E amanheceu
justamente no dia de partir daquela cidade de tantas e tantas igrejas, movida a
santos e tambores “tum! tum! tum!...” Pegariam o rumo do sertão e dos sertões,
Jacupiranga, Pariquera-Açu, caatinga, região árida, agreste, quase um deserto muito
seco, até um dia chegar em Vila Rica de Ouro Preto, Minas Gerais. Tudo de
partida sempre sai na manhã curtida!
- Você nem perdeu tempo com sua
amiga Itã, nem é mesmo, minha miudinha? - dizia o príncipe.
- É, foi o máximo. Aquela Itã,
óxente!, é um buscapé e um Oxalá. Baiana é assim mesmo: onde tem agito, tá
aprontando.
- E eu rodeado de negociantes,
comerciantes, coronéis e caciques. Comendo pastéis e bebendo traguinho de
chambirra. Que coisa mais sem graça. Tinha vontade de mandar tudo às favas contadas
das gencianas-sem-folhas...
- Como se diz por aí e por assim
dizer: ossos oficiais do oficial do ofício!
O verão fazia era tão-só olhar e ver
o verão fazia e refazia as árvores conhecidas, malvas-de-marajó,
alecrins-da-praia, itajubas, araçaeiros... e nem só de árvores mas gorjeios dos
pássaros sempre empoleirados nos galhos e ramos o fim-fim-grande o
picapauzinho-verde-carijó a coruja-do-mato o gaturamo o são-joãozinho, o
grimpeiro...
No segundo dia de caatinga, deserto de terra rachada e
pedregulho, a caravana já sentia o que seria o forno, o mormaço, o sufoco, o
cansaço, o sol na cabeça o dia todo o dia todo. Muito sol no cocuruto, água
racionada, comida idem, bafão triplicado, desânimo puxado. Os cavalos e burros que
ficavam pelo caminho nem podiam ser socorridos e viravam manjar de urubus e
carcarás e escorpiões e mocós e matintapereras e... Mais uma pobreza, uma
secura, uma aspereza desabrigada pela terra, que era de admirar ver gente por
aquelas bandas tentando a sorte sortida. E se era para aprender sobre o país,
conhecer os vários brasis, aquela seria sem dúvida a aula mais desanimada desanimadora
e exaustiva.
- Juro que estou pra lá de esgotada - reclamou a
menina.
- É, sei não, gente! Mas aqui mesmo acho tinha um rio,
um dia desses - desanimou o regente Pedro.
- O rio secou como tudo que secou, etc.
- Nem cabe uma nuvem no céu, sequer.
- E o dia é pra lá de quente...
- E a noite é mais que silenciosa...
Lilás ia observando o acontecimento
o fenômeno das formigas uajus, etc. Lilás olhou os morros distantes azulados e
nem disse mais nada. Meio querendo se distrair distraída olhando os poucos
raros pés de araparis, sem pensar em nada, tão-só reparava o que estava
exatamente a sua frente. Cabia tudo no mundo e ainda sobrava lugar.
Assim mesmo como passaram por
localidades arraiais pequenas comunidades nascentes, vilas depois cidades, Santo
Antônio do Amparo, Camacan, São Manuel, Mangaratiba, Cunha... reserva indígena
da etnia dos campa... Todas essas cidadezinhas com problemas no abastecimento por
causa da seca prolongada. Povoadinhos vilas pequenas e desidratadas, Areias,
Campanha, Barão de Antonina, Passo de Torres... Os rios fininhos e desmamados,
ossos expostos. Céu azul profundo que dava para ver a galáxia todinha todinha
nas noites totais, etc., dava para ver o outro lado do universo. Uma vegetação
baixinha tortinha miradinha de xiquexiques, mandacarus, mairás,
caetés-vermelhos, favelas, ocas, cega-olhos... E desastres catástrofes
destruições ruínas, praticamente tudo que dava errado em outras partes do mundo
também podia acontecer por aí e em maior número e repentinamente.
- Se eu fosse D mandava favorecer
toda essa área do nordeste - declarou a menina.
- Se eu fosse Ele mandava colocar
aqui um rio gigante rio Maquiné rio Paraibuna rio Curu e mais umas muitas
árvores de grande porte, frondosas, florígeras, frutíferas, etc.
- Se eu fosse D coloriria de
pássaros aves das estações, saracuras-do-brejo, galos-da-serra, juruvas,
cochichos, anus-brancos, gaviões-fumaças...
- Se eu fosse Ele plantaria as
plantas amarelas verdes azuis, babosas-do-mato, muricis-da-mata, sapupiras,
juncos-de-cobra, vatingas...
- Se eu fosse D eu nem esquentava
tanto assim o dia todo não, é.
- Se eu fosse Ele eu nem esfriava
tanto assim a noite toda não, é - declarou o príncipe.
O suor a provação o sacrifício no agreste duraram
quase um mês todo. Praticamente um mês de fevereiro pelo deserto da caatinga e
nenhum dia de chuva. Nem chovia há 12 meses. Sol forte de dia, friozinho à
noite. Água racionada de dia, comida racionada de noite. Muitas estrelas no
céu, muitas pedras-monumento no deserto.
- Sabe, miudinha! Por quê?
- É mesmo, seu príncipe Pedro. A exclamação que nem
quer calar: vai aonde!
Uma tarde, umas 15h e 31min., pouco mais pouco menos
começou a pintar umas aves no céu claro. Pássaros de verdade e nem de ficção,
pombas-de-santa-cruz, baguás, oracas, pitiguaris... Um bando de
papagaios-moleiros. Pios das anhumas. Isso deu ânimo novo renovado faceiro à
caravana.
- Hei, hei!... Olha lá, olha lá!...
- São os tais e quais periquitos-ricos, tô certo? -
dizia o regente.
- Talvez seja quem sabe lá as marrecas-caboclas...
- Onde têm pássaros tem rio tem pastagem e campo mais vegetativo
mais verde cheio de frutas cheio de bichos e peixes, etc.
E de fato atrás do morrinho já passava ali mesmo o
grande e famoso rio São Francisco divisa do Estado da Bahia com o de Minas
Gerais. Era um consolo. Procuraram logo um capuaba (pequeno rancho rústico) de
catrumano (morador rural) para saber dos caminhos e de se abastecerem se provisionarem.
Tinha quem imaginava comer arroz com feijão, outro era o mocotó, mais ainda
bolo de fubá... e nem todos eram vegetarianos.
Pararam com tudo na porta da frente do coió (casebre de
costaneira e coberto de palha de buriti) assustando os cães da casa que vieram
latir muito perto dos cavalos dos muares e afrontar o próprio Xuri, etc.
- Ô de casa! - foi o príncipe Pedro.
Sem demora sem delongas apareceu o morador e logo em
seguida a moradora e mais a penca de filhos em escadinha servida com ambos os
gêneros. Pareciam todos bem curiosos com a novidade de gente forasteira
chegando em caravana praticamente sem aviso.
- Pode chegar, seu patrão - foi o modo do homem
convidar.
- Precisamos de umas informações precisamos de água de
comida, etc. - foi falando o príncipe regente.
- Muito bem... Mas pode desmontar e se acomodar que a
casa é do convidado.
Logo sobrevoou a noite, e veio com asas escuras, com
sombras, com estrelas amarelas. As estrelas precisavam ser contadas uma por uma
somadas nomeadas como se fossem cidades conhecidas, Angra dos Reis, Bananal,
Pouso Alto, Balneário Gaivota... (me ajudem!), bairro Roçado em São José...
Eram muitas e brilhantes e distantes e bem bonitas e bem nutridas e bem
siderais. Passeava no ar uma que outra acauã. O barulho do rio São Francisco
continuava sem parar indo pro mar e convidando ao sono refrescava o ar. E
somente amanhã de manhã pela manhã transporiam o caudaloso rio.
O cão Xuri se
enturmou rapidinho com os três guaipecas da casa e foram pelaí sempre na calada
da noite. Para aprontar e acontecer boa coisa que nem era! E a noite caiu com
escuridão estrelada repleta e tal e qual que cachorro vê e fareja até melhor no
escuro. Se alguém perguntasse de que cor eram as estrelas ali no céu muita
gente responderia: “São douradas!” E o horóscopo inteiro estava aceso desenhado
enigmático.
- Ali perto do rio podemos caçar umas queixadas um
quatimundéu e tal - orientou o cão da casa apelidado de Maromba.
- Acho melhor pescar uns peixinhos dos bons e dos
melhores, hein?! - era a cadela da casa apelido de Anani. Nadam ali no rasinho
sempre uns pacamãs uns timburés uns cananas-capetas... Só estender as garras de
dentes e nhaque!...
- A gente podia tentar pegar pato-mergulhão da beira
do rio. Tá assim de mergulhão dando sopa por ali. E nesta hora todos meio
dormindo, entenderam?! - falou o cãozinho filhote do casal da casa e de apelido
Pariri.
Quem na verdade decidiu foi a visita no caso o cão
Xuri descendente de raça dos cachorros-do-mato, latiu, falou e disse:
- Quer saber, gente boa! Vamos é roubar milho lá na
roça. Quero comer milho verde e apetitoso - decidiu por todo mundo o nosso
famoso Xuri.
E todos aceitaram e foram roubar a roça de milho e
outras coisas mais, etc. Um ronco rouco de uma que outra coruja-buraqueira. A
área sombria do cajueiro-bravo. Já o farfalhar restolhar das folhas da palmeira
carandá.
Então, por isso mesmo, pé ante pé, ou melhor, patas
ante patas, foram os quatro quadrúpedes se esgueirando por entre as espelinas
os espinhos-de-santo-antônio as cidreiras-do-mato os sambacuités, etc., até
chegar na beira da roça. E de quem era a roça? Alguém tinha plantado ali o tal e
qual milharal e queria colher e etc. Quem mandava no pedaço de horta?, a
pergunta que sussurrava baixinho.
- A horta é uma das roças da tribo dos índios apotó -
respondeu o cão Maromba. Ou seja, foram eles que plantaram os milhos as
abóboras os amendoins, etc., para que a gente colhesse sem pedir licença, rau-rau-rau!...
- E os autóctones apotó ficam muito muito nervosos e
bravos e irados se alguém invadir e comer o milho deles, por exemplo -
completou Anani.
- Ah, é? Então isso é ótimo. Vamos invadir e etc - decidiu
mais uma vez por todos o nosso destemido corajoso e cheio de vontades particulares
de fazer arruaças e chalaças e trapaças o tal e qual Xuri.
Foram invadindo foram em frente que a noite nem podia
terminar sem antes acontecer a aventura. Até chegar bem rente da lavoura. Até
entrar na roça pela porta de trás. De repente... uma voz no escurão do milharal:
- Quem vem lá?
E se ouviu um tiro, “teu!...”
O estampido ecoou pelo sossego da noite afora adentro
e etc. Que susto! E que susto! Os quatro ficaram pregados no chão orelhas em pé
rabo entre as pernas e muito atordoados estáticos. Tremiam de susto e as consequências.
E se ouvia mais nem grilo falando nem vaga-lume esvoaçando nem
camundongo-do-mato rasteirinho passando apressando, nada nada mais se ouvia de
tão assustado sossegado quieto que ficou. Assim novamente a pergunta a voz na
calada da noite e super e abundantemente estrelada a noite pálida:
- Quem vem aí?
E outra vez um tiro, “teu!...” Perfeitamente um tiro,
tinha que ser um tiro de arma de fogo.
Os quatro na moita atrás dos juquiris. Que fazer que
falar que pensar numa hora dessas? Que latir, ganir numa hora dessas? Olhos
arregalados orelhas em pé rabo entre as pernas, no mínimo. O negócio era abrir
uma toca e sumir. O negócio era deitar o cabelo, ou seja, correr...
- Acho que tem um guarda cuidando da horta, gente -
foi o Xuri quem finalmente conseguiu falar, depois do susto gelado total.
- Então é lógico que seria melhor dar o fooora -
rosnou a cadela Anani.
- Ou a gente cerca ele e pega ele por trás, nem é
mesmo? É uma! - latiu o Maromba.
Tudo era possível. O milharal estava um pouco alto e
isso dificultava a visão dos au-aus. Do lado do milharal tinha a capoeira por
onde os au-aus podiam se mandar, etc. E o negócio tinha que ser bem pensado nos
prós e contras. E como fazer? E o que pensar uma hora extrema? E era o caso do
caçador que virou caça, do procurador que foi encontrado.
- Temos que levar em consideração que ele tá armado -
foi o Maromba.
- Acertou um tiro e babau, boa noite amor! - concluiu
Anani.
- Acho melhor dar o piiira - foi o Pariri.
Depois de pensar um pouco mais lá com suas orelhas
grandes que iam e vinham, Xuri decidiu, aliás, grunhiu:
- Vou ver qual que é desse tal guarda aí, etc. Vou até
chegar perto. Quero cheirá-lo bem de mansinho e na moita e bem de junto dele,
ora! Vou bem sorrateiro. Vou meio que rastejando. Vocês ficam aqui na
retaguarda quietos e atrás da moita de espinheiro-bravo.
- Tu tá louco, animal?!
- Nem se preocupem. Eu vou sozinho e vou porque quero
e vou rasteiro e vou de mansinho.
- Nem seja maluco, seu Xuri - foi a Anani.
- Pois o senhor está desarmado, seu Xuri - foi o
Pariri.
- É, sim, pensa bem no que ocê vai fazê, seu Xuri -
foi o Maromba.
Xuri pegou decidiu nem deu mais resposta nem disse
outra coisa, etc., pegou e foi para os lados de onde pipocaram os tiros. Foi e
foi investigar. Foi espiar. Foi xeretar. Tinha mesmo que cheirar farejar de
perto o perigo, senão nem sossegaria. Achava até que ia viver para sempre. E
que tinha isso mesmo o corpo fechado para facas, balas, flechas e etc.
Na manhã seguinte, aí pelas 10h e 11min., os galos da
casa, quiquiriqui!... cansados de cantar desde bem cedo, já a comitiva atravessava
o fabuloso volumoso famoso garboso rio São Francisco, o velho Chico, e que ali
fazia a beira da Bahia com Minas Gerais. Quem os levou várias viagens daqui para
a banda de lá de uma a outra margem foi o barqueiro catrumano o hospedeiro da
comitiva o chamado conhecido de nome seu Uri Cidrilha mais a mulher dona
Igarassu e os filhos a Capeba o Boré o Tapirapé a Uirina. Trabalho que durou
três horas e mais um pouco, e foi tudo bem pago remunerado nos patacões nos
mil-réis com uns tostões a mais de gorjeta.
- Até um dia! - se despediu o príncipe.
- Vão com D! - disse o seu Uri.
- D seja louvado! - foi a dona Igarassu.
- Inté, gente! - mais uma vez o príncipe Pedro.
A numerosa comitiva já em Minas Gerais, então no meio
da vegetação do cerrado, o verde das plantas, biribás floridos, paxiúbas dando
frutinhas, murumurus mostrando coquinhos... outras aves que nem urubus, as
jacamins, os japus, as iraúnas, as jacutingas, as emas seguidas dos eminhos...
milhares de passarinhos brincando pulando de haste em haste no capim-paraturá,
coleiras, cardeais, sebastiões, barulhentos, papas-lagartas... Pareciam atores
e atrizes de teatro mambembe. Era bonito e os passarinhos estavam gorjeando.
Campos verdes, chapadas, chapadões, anambés-pretos, vales, corredores, banhados
lotados de canaranas-de-folha-miúda e piratantãs e sapos-bois, riachos, capim-amargoso,
cascatas... cachoeira da Marta... lago do Cuniã... serra do Lagarto...
Quem vai em frente nem para nem se volta em direção ao
passado. O passado é lembrança o presente é panorama o futuro só ao D dará.
A graça de Lilás estava nos besouros iaiás-de-cintura.
Por que existe a põe-mesa? O croar, crou! crou!... do gavião-puva. As
mamangabas procurando pólen. E estava o azul do céu de uma cor só e uniforme. E
vinha um vento do mundo todo. E uma montanha emendava em outras montanhas.
Nem lhe passou para ela Lilás despercebida a pequena
confusão das dúzias das dezenas e dos mil milhares das fogos-apagous. Nem as
pedregosas piriricas (corredeiras) no leito do rio São Pedro... do rio Timbó...
Antes disso daquilo passaram algumas cidades
localidades lugares nomeados, Jeremoabo, Paulo Afonso, Pedras de Maria da Cruz,
Dourados, Itaóca... campo dos aborígenes macurape... sem parada sem estada,
somente fazendo sinal de bom dia e muito prazer e até logo e até um dia e tchau
e bênção, seguindo viagem, passaram a nado pelo rio Salgado, os cavalos e mulas
sabem nadar de pescoço pra fora da água e isso desde que nascem. Quem sabe
nadar? E por quê?
Aqui ali cada árvore sabia as horas sabia o sol e a
sombra. Cada árvore no arvoredo sabia falar a língua das plantas. Cada árvore
sabia reconhecer o seu lugar aqui ou ali. Cada arbusto sabia conhecer nascer e
ficar no seu lugar. E umas e outras plantas eram as legítimas quebra-pedras,
sempre-vivas-da-serra, ambrosias-americanas, fumos-de-jardim... E para se ter
uma ideia arborícola, cada planta sabia o mês e dia e hora para verdejar suas
folhas folífera ter suas próprias flores e seus suculentos frutos frugífera.
Pararam numa reserva indígena a aldeia dos potiguara
para recuperar a saúde física e mental. Todos tiveram complicações sérias de
exposição ao sol, falta de boa comida, falta de sossego e descanso, etc. A jornada
dia a dia fora uma tortura, e uma loucura. Era difícil mas um privilégio. Era
um privilégio mas ninguém precisava se matar.
- Sabe, Príncipe, ui! ui!...
consegui um assado de respeito aqui no meu assento - se queixava a menina Lilás.
- E eu, então! Nossa! Quanto
desconforto, quanto sol, quanto chão.
- Nem vou poder sentar sossegada por
um bom período, ui! ui!... - sempre se lamentando a menina.
- E o Xuri, hem, rapariguinha?! Como
vai nosso bom e rápido amigão?
- Tá como pode, coitadinho. Precisa
se cuidar. Pegou muito sol.
- Um pouco de sombra e água fresca,
comida decente, é o que se deseja para todos - declarou o príncipe Pedro.
Pois a aldeia dos potiguara recebeu os
visitantes com gosto e muita comida de caça e pesca e coleta. Era só por uma
noite, talvez duas ou três. Os guias os batedores da excursão, que iam na
frente reconhecendo o caminho e resolvendo as coisas por antecipação, já sabiam
que os índios potiguara nem sabiam falar o português e também que os
brasileiros da caravana nem sabiam falar o nheengatu que era uma mistura de
línguas tupi-guarani, etc. Ou seja, seria bom que se falasse pouco somente o
necessário com mímicas algumas palavras e bem devagar.
- Hoje é um dia solene...
- É noite e eu nem escuto o barulho
da lua...
- Foi um dia quente...
- O sol sempre pode voltar...
- As pacas em bando chovem de
repente no barranco do rio... nos banhados... nas baías... nas corixas... nas
cordilheiras...
Todo mundo da comitiva estava
cansado, e todos foram dormir na rede na esteira no jirau, etc. Algumas ocas
cobertas de folhas de palmeiras-barrigudas cada qual com uma porta e sem
janela. Uns três dragões ficaram fazendo a ronda para cuidar da segurança do príncipe
e comitiva. Era sempre assim. Embora nem precisasse, pois os índios eram de paz
e confiança e tinham o sono leve.
Então, quem quis dormir, quem estava
cansado e com sono foi dormir. Quem nem quis dormir foi ouvir a velha cunhã
Poranga contar patacoadas potocas narrar porandubas inventar histórias
desencantar lendas.
Assim, sentada num cepo de tapaiúna,
a cunhã Poranga começou. Os curumins e cunhantains a Lilás o Xuri os outros
mascotes da curuminzada (cada curumim cada cunhantaim tinha o seu mascote ou xerimbabo)
e todos em volta da narradora os olhos abertos orelhas altas bicos calados:
- Que história vocês querem que eu
conte, hum?!
- Uma história com bichos árvores e
fantasmas - sugeriu o curumim Caopiá.
- Uma anedota com árvores que falam
como gente - sugestão da cunhantaim Suiriri.
- Seria melhor seres que nascem na
água e invadem a terra firme e o ar azul, mãe Poranga - sugestão do curumim
Timbapeba.
- Alguma história que comece com a e
termine com é - boa ideia da cunhantaim Cambaúba.
- Um relato falando dum jabuti ou
jabota que saiu de casa foi por aí saiu de casa se despediu dos parentes e foi
fazer e aventurar poucas e boas - sugestão da cunhantaim Flor-da-Cachoeira.
- Umas aventuras do jaritataca, será
possível? - pergunta do curumim Iperó.
Diante de tantas sugestões e boas ideias
de histórias, a índia Poranga ficou pensando numa lenda ou num mito ou num caso
mágico. E a dúvida ou interrogação fazia nuvem passageira na cabeça da Poranga.
E na dúvida decidiu por a mais b e contando de um a dez optou começou por
perguntar sugestões de personagens:
- E que ator ou atriz preferem como
protagonista da história? Pode ser gente bicho coisa, etc.
- Hum!... A história da iara ou
mãe-d’água - pediu o curumim Araçari.
- Ah!... A lenda do guaraná - quis
ouvir a cunhantaim Suiriri.
- Uê!... Prefiro o conto do boto-cinza
- falou a cunhantaim Flor-da-Cachoeira.
- Opa!... Quero as peripécias do
uirapuru - piou o pássaro Saixê, mascote de Caopiá.
- U-huuu!... Gostaria muito muito
bastante das aventuras do quati - a cunhantaim Cambaúba.
Ufa, ufa! Mas a mãe Poranga juntou
as grandes ideias de histórias com os ótimos personagens míticos e lendários
decidindo ela mesma o seguinte. Olhou todos os seus netos suas netas ali
presentes e decidiu contar a história do:
- Então vou contar a história do pai
do mato. Assim, o pai do mato tem vários outros apelidos caititu, pecari,
patira, cateto...
- Quem é pai do mato e que é
apelido, tia Poranga? - era o pássaro Mongo, xerimbabo ou mascote de Suiriri,
quem assim indagava.
-
Apelido é outro nome que nem chega a ser um nome de batismo, etc. Então, o
melhor dos apelidos para o pai do mato é... porco-do-mato. Entenderam? E o pai
do mato, começando a contar a história, é um ser com poderes mágicos excepcionais.
E quem sabe até um extraterrestre, etc.
“E o pai do mato (principalmente
vivendo na pele de um porco-do-mato) anda sozinho ou acompanhado. Sozinho
quando ele quer andar sozinho e acompanhado de bando da família toda e parentes
muitos quando ele quer andar em grupo. Gosta mais de andar em bando no mato
fechado à procura de gabirobas de pitangas de azedinhas...
- E para onde ele vai? - perguntou
para saber a cunhantaim Cambaúba.
- E para onde foi agora? - para saber
o curumim Araçari.
- E para onde foi no mês passado mês
de julho? - latiu o mascote Xuri.
- E para onde vai quando chove? - a
cunhantaim ou menina Lilás.
A índia velha Poranga continuou com
seu relato, e com todo respeito, e colocando uma palavra atrás da outra:
- O pai do mato ou tateto persegue e
mata quem desrespeita os bichos as árvores as coisas da natureza. Isso é
verdade. Isso é fato. Isso é sério. Ele nasceu para isso: se vingar. O pai do
mato é dono e chefe de tudo que existe na natureza. Amigo dos bichos e árvores
e insetos. Você pode olhar em volta e ver e ouvir o que tem por aí, etc. Tudo tudo
é propriedade responsabilidade do pai do mato. Ele é pai das tapiçuás, do
tiom-tiom, do arapaçu-grande, do canário-de-crista-negra, do bagre-de-água-doce...
- Ele é pai do colhereiro? - queria
saber direitinho o curumim Timbapeba.
- Ele é pai de maçarico-pintado? - o
curumim Caopiá.
- Ele é pai caprichoso da acácia-de-flores-vermelhas?
- dúvida da cunhantaim Flor-da-Cachoeira.
- Ele pai do mato é pai do macaco
cuxiú-de-nariz-branco? - quem tinha a dúvida era o curumim Sirinhaém.
A índia Poranga fazia concordando
com os netinhos, sim-sim!... com a cabeça. Olhava o céu e pensava. Olhava a
plateia e pensava. E foi descarrilando:
- Pois o poderoso pai do mato faz
qualquer um desaparecer e para sempre. É só ele querer. E quando quer é porque
quer. Ele enfeitiça o caçador desalmado e o homem brabo desaparece e pronto. O pai
do mato é um ser mágico e muito convincente. Nem queira você desafiar os
poderes todos do pai do mato. Você pode ser pul-ve-rizado. Você pode virar
poeira, fumaça, picadinho, cisco, resíduo...
- Mas como que ele veio e chegou e
de onde, dona Poranga? - cunhantaim Lilás.
- Cada tribo tem o seu próprio pai
do mato. Ou seja, cada tribo tem uma lenda original que fala das proezas do pai
do mato. Então existem muitas lendas do pai do mato. Assim somos nós os
potiguara. Mas nossos muitos vizinhos irmãos e irmãs também chamam ele de pai
do mato e têm histórias muitas. Umas diferentes outras parecidas, mas sempre
com o pai do mato. Assim são os vizinhos quencatejê-canela ou os juberi ou os
temiminó ou os caingangue ou os campé ou os caiapó...
“Muitas dessas lendas vindas das
várias tribos das várias aldeias, acham que o pai do mato é um guerreiro que já
morreu e virou santo ou espírito mágico, etc. Aí, todo dia de manhã o pai do
mato nasce na pele de um porco-do-mato ou taititu e sai por aí cuidando do que
está errado espiando se tem caçador ou lenhador no mato, verificando qualquer
coisa, etc. Ele é contra fazer barragem de rio, por exemplo. Ele é contra fazer
fogo no mato, por exemplo. Ele é contra garimpar no rio.
“Então, se caso ele precisar virar
uma árvore ele vira. Se precisar virar um outro bicho ele vira. Se precisar
virar um enxame de abelhas ele vira. Se precisar virar bentinho ou louva-a-deus
ele se transforma em galhinho camuflado, etc.
“Está sempre andando correndo pelo
mato e espiando tudo que é lugar. Afinal, tudo lhe diz respeito, tudo é dele,
tudo tem de cuidar. Se ele virar uma planta ele pode crescer e aparecer de 50
metros e olhar tudo lá do alto com suas mil e tantas folhas olhos-folhas e que
na verdade ninguém desconfia. Ele pode ser um perfeito cogumelo. Ele pode se
fantasiar de mandarová.
- Que que pai do mato gosta de fazer
quando nem está trabalhando e caçando caçador? - pergunta da cunhantaim Suiriri.
- Bem, aí ele gosta de comer frutas
caídas do pé, pequi, jabuticaba, mangaba, sete-capote... e ele sempre está
presente debaixo de árvores que dão frutos. Pois o pai do mato é frugívoro. E
gosta de comer frutas e certas folhas folífago e certas flores e certas raízes
e certos grãos granívoro...
“Pai do mato quando é porco-do-mato
ou caitatu gosta muito de andar em bando. Eles conhecem toda a mata e nem se
perdem um minuto sequer. Aí eles vão para uma beira de lagoa ou rio ou sanga
lamber o barro preto.
- Lamber o barro? Mas isso é normal,
dona Poranga? - o curumim perguntou o Araçari.
- Claro que é normal para um
porco-do-mato. Lambendo o barro ou certo tipo de lama eles encontram sal da
terra, sabia? O sal é ótimo para a saúde. Claro que sem exagero. Somente umas
lambidas para temperar as folhas as raízes os frutos que eles comem. Já que a
comida deles nem tem sal ou não é salgada... Então é o jeito.
“E depois os porcos-do-mato fazem outras coisas em
bando e em família. Eles viajam por um território só deles. Eles bebem água
juntos e se alimentam de certa fruta todos ao mesmo tempo e quem pode mais
chora menos. Caminham pelo mato todos juntos e vira uma bagunça, querem saber.
O bando chega até a assustar a própria onça-pintada. E se veem pela frente um
inimigo ou um caçador desalmado eles já batem os dentes que é para mostrar que
estão irritados e prontos para a briga. Enfrentam qualquer um. Correm muito e
farejam melhor que cachorro. Atravessam rio a nado. Quando chove eles gostam e
quando faz muito calor eles deitam e rolam e focinham no lodo.
- Como o pai do mato conseguiu virar
esse ente mágico cheio de sortilégios e profissional da floresta? - se
interessou a cunhantaim Flor-da-Cachoeira.
- Eu acho que ele poderia ser um
bicho muito maior se ele quisesse - o curumim Caopiá deu a sugestão.
- O pai do mato pode ser o que ele
quiser? - a cunhantaim Cambaúba perguntou.
- Afinal o pai do mato é um deus ou
um diabo? - pergunta importante da cunhantaim Itaboraí.
Índia Poranga esticou as pernas de
tantas e tantas caminhadas, os braços dormentes, etc. Olhava os netos e netas
com um olhar pensativo. Ela conhecia todos eles e já tinha pego no colo todos
eles, etc. Pois continuou engrossando o caldo:
- Pai do mato é mágico quando ele
quer. No normal é um porco-do-mato. A diferença é que um dia o grande o super o
mega o feiticeiro Tupã pensou pensou e disse falando consigo mesmo: “Preciso
criar um protetor da mata e que seja um bicho do mato. Então, já sei: vai ser
um porco-do-mato.”
- Por que Tupã escolheu logo o
caititu? - quis saber explicado o curumim Timbapeba.
- É meio que esquisito essa escolha,
porém... - o curumim Araçari achou dúvida.
- E se Tupã tivesse escolhido a
juriti-pupu nem seria também muito justo? - pergunta do cão mascote Xuri.
- Bem, aí Tupã escolheu o
porco-do-mato e estava escolhido. Deve ter tido as suas razões divinas, certo? Achou
assim e escolheu bem. E Tupã fez dele do tateto um ser mágico e original e
esperto. Para cuidar do mato e dos bichos tem que ser muito poderoso e mágico e
invisível. Para dar conta de caçadores e lenhadores e garimpeiros desalmados é
preciso ser forte mas muito independente autossuficiente. E a melhor das vinganças
que o pai do mato tinha nas mãos ou nas patas ou nos cascos era: surpreender
caçadores ou mateiros e fazê-los desaparecer no ar, assim, oh! num passe de
mágica, num piscar de olhos, pofe!...
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