sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Aline de irrefragável (romance) - capítulo 18




Ele o pai do Joel foi descansar debaixo da cumarurana. Era pouco, tá certo! Se sentou no banco feito aproveitando uma laje basáltica. Abriu o olhar pela praça Nossa Senhora de Nazaré. Esperou uma meia hora ou até mais. E era São Brás ou nada.
Esperou a manhã e boa parte da tarde. Ali pelas 17 horas um vendedor de cintos e carteiras e estojos de celular sentou do lado e foi descascando. O rapaz se chamava Jurubatiba, era da cidade litorânea de Jacobina do Piauí, onde banha o rio Sabia. O cara foi contando, apegado ao seu tirocínio, essa narrativa assaz surrealista:
- Certa tarde de verão, num lugar chamado atualmente de Angical do Piauí, nas terras da tribo dos índios enauenê-nauê, aconteceu uma tempestade de derrubar todas as árvores e assustar todos os animais e apavorar todos os índios e índias e curumins.
“Depois desse dia fantástico e espetacular...
“Aí, então, por sorte ou mágica, apareceu ali naquela aldeia um índio muito forte capaz de gerar 50 filhos numa só noite. Ou poucas horas. Durante meses ele provou isso. Parecia que nem precisava mais ninguém, ele já dava conta de todas e podia povoar o mundo todo e com folga nos domingos. Talvez que os outros índios poderiam ficar (talvez e quem sabe, mas com certeza) com profunda inveja e autoestima pior ainda. Provavelmente gostariam de vê-lo moribundo. Morto ou cabisbaixo.
“Porém esse índio quera todo-poderoso de nome Apuama era o herói das cunhantãs futuras cunhãs. Aldeia essa que vivia na floresta caçando e no rio Guaxupé pescando. Os deuses do mato, sabendo desse poderoso índio, mandaram para o lugar uma monstruosa graxaim que gostava de comer crianças.
“Para combater o mal da graxaim, o baita índio libertou seu lobo-guará alado. Os dois canídeos eram espertos e ferozes. A graxaim era por natureza muito manhosa e sorrateira, o lobo-guará por natureza era matreiro e cuidadoso. Ela de ditos espirituosos e fino humor, ele de chistes e adequados gracejos.
“Os dois animais da floresta se combateram no campo uma semana dois meses em luta de muita técnica e estratégia. Um do lado do sol poente, outra do sol nascente. Uma do lado do sul, outro do lado do norte. Uma no chão, outro no céu. Depois trocaram. Um do lado esquerdo do rio Ligeiro, outra do lado direito da praça Cantão do Valais. Depois se alternaram. Um na água, outra no ar. Uma amiga do rato-de-espinho, outro amigo do guaraguá. Mostrando bem os dentes garras longos e afiados. Uma preferia comer caju, outro preferia à base de açaí. Um de noite, outra de dia. Uma em fevereiro, outro em março. Um defendendo as cores azuis, outra as cores vermelhas. Uma tirava férias em Barra do Piraí ou Araguacema, outro em São Fidélis ou Goianorte. Rosnaram uma pro outro mostrando os belos dentes tenros e afiados e pontiagudos. Nos domingos e feriados foram bem piores ainda os confrontos. Mas nem chegaram a se lascar de verdade e ninguém tirou pedaço de ninguém.
“Ao fim de horas de dias e de meses na peleja, a graxaim com as patas em carne viva de tanto andar e arrodear, e o outro com as asas esfoladas de tanto bater e revoar, foi que acabaram por morrer de fome e sede e cansaço. Uma virou de lado e pofe!... e o outro caiu de cinco metros e tofe!... Sendo assim, se transformaram em pedra solta no caminho, pedra rolada no campo, por aí. E nada para animar e exortar.
“São aquelas duas pedras em pé que hoje ainda marcam a entrada da cidade de Angical do Piauí. Conheceu? Pode conhecer se quiser. Está aberto ao público em geral e por um quilo de alimento não perecível.
“O índio Apuama, herói dos índios enauenê-nauê, teve ainda outro trabalho que foi libertar a aldeia vizinha, a aldeia dos índios amigos os pancaru. Lá foi ele em mais uma missão trabalhar. Ele também gostava disso, tinha o que fazer. Ele adorava isso, tinha a sua vaidade vaidade. A empreitada era de herói.
“Apuama lutou à frente de pequeno grupo de índios pancaru e venceram um poderoso exército invasor, os tais corsários do bairro Catimbó. Esses caras ladrões dos mares e sem alma e sem fé e sem mãe queriam isso sim roubar as montanhas de ouro e prata e pedras ametistas. Além das garotas da rua. Queriam também colher madeira sem trabalhar sem pagar impostos alfandegários. E frequentar assim sem mais nem menos o clube a escola os bares da rua Timburibá.
“Como recompensa e, já que era o herói principal, Apuama tinha direito de se casar com a filha do cacique da aldeia pancaru. Todo herói tem direito a casar e festa de casamento. Pode sim senhor! convidar os amigos amigas e toda a tribo onde nasceu.
“Contudo as coisas nem parecem ser o que são nem acontecer como devem. Em vez de desfrutar desse direito natural e legítimo de casar quantas vezes quisesse, o herói Apuama voltou para sua aldeia natal e ficar mesmo com sua esposa antiga e conterrânea. Ao entrar na sua oca de palha de sapê, viu que um ente do mato estava na esteira com sua favorita e se fazendo passar por ele Apuama.
“O mito o herói, então, quis sacrificar a esposa numa fogueira ou moqueada nas brasas. Mas aí o tal deus do mato, ente de nome Abaçaí - que na verdade era quem namorava a sua esposa -, ficou indignado e mandou uma tempestade violenta muita chuva e vento sobre a aldeia e impediu o sacrifício.
“Um dos muitos filhos do herói Apuama, e que herdara a força e a virilidade e a coragem do pai, conseguiu matar a mãe numa noite estrelada.
“Esse ato hediondo causou outra vez a fúria dos deuses do mato, todos eles reunidos em vingança muito séria, e novamente fizeram cair uma quase interminável chuva de prata ouro e pedras preciosas.
“Assim, a terra acabou sendo consumida num caldeirão de labaredas e fogo e desforras desnecessários. Uma guerra forte e interminável entre os deuses do mato e os guerreiros da tribo. 
“E todos os outros filhos do herói Apuama foram amaldiçoados com fome e sede e cansaço. Principalmente esgotamento físico.”
18-ficção.
As mulheres ali no terreiro, poucas, roupas breves, socavam quebravam moíam o milho no pilão de mão. Dois pilões, duas mulheres cada um, batendo alternadamente e às vezes com risos e graças e canções. Usavam de vestimenta só um pano enrolado em volta da cintura. Todo o pano que tinham. E fazia um frio cortante de chuvas no outono, etc., por ex.
- É surubi!
- É fura-barreira!
As crianças corriam e gritavam ali por perto no terreiro, na capoeira, por dentro dos casebres, se empurrando, se perseguindo, subindo em árvores para tirar pequis, cajus, araticuns, jabuticabas, pitangas... as variedades.
- É facheiro-preto e gaturamo!
- É mangabeira e sanhaço!
Os homens se espalhavam pelo quilombo em geral. Uns iam caçar, outros pescar no açude, outros buscar uns paus no mato ali perto, ainda mais outros ver o plantio de fumo, o plantio de algodão, o plantio de mandioca. Dois faziam uma casinha e já estavam cobrindo de sapê. Outro cortava lenha com um machado muito ruim muito precário tosco.
- É talar rasgar fender arrasar!
- É urdir e enredar e tramar!
De repente, o Estiva entrou correndo no terreiro e já anunciando que vinha vindo lá pelo passo um comboio. Chegou gritando no terreiro e chamando todo mundo, gritando e pulando e muito tenso. De facão numa mão e borduna na outra. Anunciou que os vigias no mato descobriram o comboio, longe dali, longe demais, longe suficiente, já ainda pra lá da serra do Faxinal.
Os homens, então, se reuniram debaixo do pé de umbu, conversaram apressadamente, seu Irani liderou e todos enfim correram buscar as armas que possuíam e correr para o passo. As mulheres nem queriam mais trabalhar de desgosto e ansiedade e preocupação. Isso até seus homens e maridos voltar. Umas choravam, outras batiam nas crianças que queriam perto, outras caíam no chão sem forças, outras pretendiam de ir junto. Logo decidiram elas também ir pro mato, ali perto, mas para se esconder.
- É imitar teitei!
- É camuflar sempre-viva-da-serra!
Todos os negros do quilombo Sananduva atravessaram matos, capoeiras, rios pequenos, rio Jaguari, subiram e desceram morros até alcançar o passo do Acapu. Muito tempo e correndo com determinação. Chegaram seis horas depois e muito cansados. Ali no Acapu se sentaram debaixo das árvores na sombra e protegidos para nem serem vistos pressentidos. Observando e esperando o comboio de estrangeiros. Falta de sossego desassossegados.
- É capataz!
- É capitão-do-mato!
O filho do Gaudêncio o Gaudêncio nunca tinha assaltado comboio. Tinha duas pedras na mão e uma estaca pontuda de pau presa na cinta de embira. Os outros também nem estavam melhores de armas. Uns tinham faca, machado, facão mas muito pobres e enferrujados, etc. Mais outros com estaca, lança, funda, porrete, bacamarte sem pólvora.
Demorava o comboio. Demorou muito. Mas ele vinha. Era a maior aventura da época, e assim por diante. Nem era coisa pra caguincho.
- É eira beira leira tribeira!
- É apanágio, regalia e privilégio!
Demorou muito e os negros ficaram nervosos. Uns pareceram cochilar. Horas esperando e os mosquitos. Tudo muito demorado. Esperando quietos e nervosos e ansiosos. Os tempos passavam de hora em horas.
Numa hora apareceram dois cavaleiros montados cada qual no seu cavalo pangaré pequira. Bem armados, capas de chuva na anca do cavalo, receosos, espreitando tudo, olhando em volta, vigilantes, olhos e ouvidos e faros atentos. Eram os que iam na frente reconhecer o lugar e cuidar da segurança do comboio. Dois deles batedores. Paravam e olhavam em volta o mato o chão pegadas pistas indícios trilhas, vez ou outra. Conferiam rastos de todo tipo, rastos de anta, rastos de onça-pintada, rastos ou restos deixados por eventuais índios waimiri-atroari que ali por ali era com certeza a região deles.
- É catauixi!
- É aruá!
Os quilombolas, à boa distância ali dentro do mato e bem quietos, deixaram os dois seguir andando. Os cavaleiros cavalos quatralvos seguiram pelo passo. A tarde já estava pela metade.
Quase uma hora depois chegava o comboio. Mulas e cavalos quartaus. As mulas carregadas de mantimentos os mais diversos. Os cavalos levando os vigias e condutores e comerciantes e mercadores. Quatro negros escravos iam a pé auxiliando, cuidando das cargas, dos animais, puxando os bois dos carros de bois. Os cavaleiros bem armados nos seus cavalos jerebas pilecas.
- É crista-de-mutum e chircas.
- É breu-branco-verdadeiro e batatas-do-campo.
A tropa o comboio foi mais para frente alguns quilômetros e acamparam perto de um corguinho, na sombra de algumas guabirobas e junto de uma montanha. Os dois batedores avançados já estavam ali também. Os negros do quilombo os seguiram de muito longe, bem protegidos pelo mato, de mansinho, com calma, por dentro da vegetação fechada, buritis-palitos bananeiras-do-campo sucupiras guanandis vinháticos... com atenção, com extrema cautela prevenção.
Logo logo a noite caiu e os negros atocaiados deram mais um tempo. O pessoal do comboio parecia cansado. Acenderam fogueiras, deram de comer aos animais, consumiram o jantar e se recolheram para dormir. Os negros quilombolas olhando impacientes escondidos no escuro da densa vegetação.
- É cipó-cruz, unha-de-gato!
- É marmelinho-do-mato, indaiá-rasteiro! 
Sempre a quietude ou o silêncio ou a espera ou a vigília. Mais tarde, a lua no céu com um colar de contas espalhado e derramado de estrelas, mal e mal iluminava o acampamento. Os quilombolas espiando tudo. Começaram a se aproximar. Com assobios de coruja-católica.
Os seis sete cães do acampamento começaram a se assanhar a se movimentar, e açular provocar acicatar. E muito assustados raivosos começaram a rosnar latir sem parar. Já os assaltantes destemidos cercaram o acampamento e pularam de supetão sobre os cansados e tontos muleiros.
- É retinir!
- É sibilar!
Morreu um assaltante e todos os tropeiros. Dos negros escravos que vieram no comboio, um fugiu pro mato e os outros três foram capturados. Iam ser convencidos depois a ficar no quilombo. O assalto foi tudo muito rápido e veloz e feroz, durou vinte minutos.
Os quilombolas do Sananduva esperaram a manhã para ver o que enterrar, o que levar, reconhecer o caminho a percorrer. Tinham muito que se cuidar. Tinham muito que carregar. Tinham muito que despistar. Tinham muito que voltar cheios de alegria.
- É balandrau!
- É casula!
Ainda bem que a manhã já começava chovendo muito. E chovia muito aqueles meses no sertão de Minas Gerais, Minas do Sertão, Minas do Ouro, Sertão das Minas do Ouro, Sertão dos Cataguases. E choveu o dia inteiro. Mas o assalto rendera enormemente. E valia a pena o risco.
18-quimera.
Gaudêncio, natural do Estado vizinho cidade Avaí bairro Catágua rua Alberto de Oliveira cicatriz na clavícula direita caso de um ferimento à faca plantador de milho mandioca amendoim, etc., acordou de ressaca. Mas tudo bem. Eram o quê? umas 10h com 10min em plena terça-feira, e com espinhos. E levantou meia hora depois do previsto. O dia estava ali era o dia todos os dias de março. Ele mesmo pensou consigo quieto pensativo: “Estou hoje onde estava ontem e vou estar amanhã, é.”
O mundo todo novo amanhecia de pé ante pé. O freguês o cliente, o Gaudêncio no caso, ia ao centro da sua cidade Lagoa Vermelha, peraí! E tudo podia acontecer, hipóteses, maravilhas de destino, acaso interessantes. E todos buscavam a mesma notícia ou a mesma lógica, quem sabe?!
Saiu com seu cavalo castanho cardão colorado guapo, manhã elevada, à tarde, ao escurecer. Vai por aí, para lá, acolá, para qualquer curiosidade, chupa-dentes-de-máscara, sanãs-oceladas, irerês... Olhando os lados, os longes, pensativo, outras vezes conhecendo, repensando, mastigando haste de carne-de-vaca. Curiosidade satisfeita ou mais ou menos, seguia em frente, viajava, assim ia, e a vista no mundo redondo em volta de ervas plantas arbustos árvores, arubatã, cupiúba, louro-branco, timbó-do-campo, erva-de-lagarto, cajamuru, saguaraji...
Andou mais um pouco altura do distrito de Bagualão, rio Camaquã. Parou para prossear com lógica já com seu Turuna Churrião descendente dos sanamaicã, particular participante do movimento dos Luzias liberais revoltosos foi lá em Santa Luzia durante 1842, e assim por diante, como se diz: “Gente boa!”
- Eu vou até lá e comprar adquirir as mudas de guaporanga, entende?!
- Quanto será, hein?!
- E vou sancionar, pois não!
- Não qué?! Também concordo!
- A ordem material intelectual moral espiritual surreal, uma vez!
- Meus parabéns, meu! E que jamais se ouviu!
- O caminho do boi da vaca do bezerro, e segue! E tem mais: São Vicente do Sul, Barra do Ribeiro, Campos Novos, Três Barras...
- Debêntures, commodities!
- O que nasce com a pessoa ingênito congênito inato, isto é!
- Pois o que se passou é de fácil descrição!
- Mas tudo passa pelo passo e espalda ombro e espádua, considerando!
- Uma pendenga!
- Unido coeso e firme! A aporia do presente!
- O calor está bárbaro!
18-esperança.
Pelas grandes e miúdas praças deste nosso país, praças e mais praças, o pai do Joel era crente de encontrar o filho. Mas esse guri era estranho ao mundo, ninguém o vira, ninguém viu, ninguém via.
Ali, aqui na praça Compromisso, entrou em conversas com um com outra com todos que se aproximavam com todos que zanzavam pelo pedaço. Os grupos dos mais variados, gente que chegava na praça e gente para ouvir as narrativas. Os grupos se formavam sempre. Mesmo estranhos mesmo sem querer. E grupos pra cá e pra lá, grupos que se mexiam, uns se formavam, outros se dissolviam, uns chegavam na hora, outros perdiam a hora e outros mais tinham hora certa. E se misturavam e se confundiam e se separavam e se refaziam perto da canela-preta. Os grupos mudavam, as conversas iam e vinham, as conversas desenrolavam, os grupos saíam e voltavam. No geral era uma confusão sem sentido original mas válida. E apareciam propostas palpites turistas de Carangola, Santo Antônio de Pádua, praia de Fora fortaleza de São João, Valença, Igaporã, Bagé beira do rio Negro...
Duas moças caprichadas posicionadas, diariamente. Duas gurias à feição. Lotadas de riqueza poder e prestígio. Elas duas, mesma altura mesmo passo mesmo peso, uma de olhos quebrados, outra de olhos firmes. E não eram enganos dos olhos delas! E nem eram fantasias dos olhos dos circunstantes! Uma delas contou para a outra, já caminhando passando pela praça, a mais firme de olhar focado:
- Quando o menininho Amerê nasceu (mapa genealógico brasão de armas palacetes fazendas) nem sabia o que eram aquelas aves todas do banhado. Tá ligada?!
“Olhava o mundo da sua aldeia cantarurê e as aves dominavam tudo. País das aves e de todas as idades e tamanhos e plumagens, variedade.
“Logo lhe explicaram que deveria ter medo era bom ter medo, pois bicavam e podiam ferir e até matar estripar começando pelos olhos.
“Amerê viu bando dessas aves pelo céu sujando o chão, pousadas nas pedras e causando matinadas e etc, voando sobre os alagados escurecendo os lagos e rios, parque do Cantão, piando e piando muito sem parar pelas 24h do dia a dia e da noite, etc.
“Um dia já se acostumava com todo aquele ambiente, aquele barulho, aqueles ninhais, aquele alarido, aquele revoar. Tá ligada?! E resolveu casar com uma seriema, esta natural do morro Cara de Cão.
“Os índios cantarurê iam à caça das aves mas elas se multiplicavam mais rápido. Quanto mais os índios matavam, mais rápido as aves se reproduziam. Uma praga que tornara a beira do rio Guaporé um ninhal e nem lugar de pesca e lazer dos índios cantarurê. Muito alarido nem dava para dormir. Tá ligada?!
“O curumim Amerê se tornou guerreiro mais forte, mas nem o suficiente para matar muitas aves e livrar a aldeia do incômodo. Aprendeu a lidar com o arco e a flecha, com a zarabatana e o tacape, e todo dia voltava pra casa com o almoço e o jantar garantidos.
“Tanto matou aves o jovem guerreiro Amerê que elas passaram a temê-lo e odiá-lo. Todas elas: os colhereiros, as garças-brancas, os jaburus, os guarás, as saracuras-sanãs, as jacutingas, os biguás, as jaçanãs, os quero-queros... Eram muito aguerridas e de boa memória.
“Mas ainda assim a procriação era maior e incontrolável, incontrolável. A beira do rio Guaporé se tornara um paraíso das aves habitantes dos alagados. E o cheiro que produziam se tornara normal no metabolismo dos índios cantarurê, que lá naquele mesmo lugar tinham de morar e sobreviver e continuar.
“Quando Amerê se tornou um herói imortal, devido à ajuda de uma deusa da mata atlântica, ele mesmo achou que devia, e podia, acabar com as aves e tornar a reserva dos cantarurê um lugar limpo e respirável mais aprazível sem barulho.
“Então, devido a essa ajuda da madrinha deusa, de nome Caá, o guerreiro Amerê armou arapucas e mundéus e venenos curare para aniquilar as aves, e nem deixar nenhuma para semente. E conseguiu.
“Depois de breve euforia, perceberam todos que sem as aves nem teriam mais almoço e nem jantar. E precisaram abandonar a região do rio Guaporé e procurar outro lugar para achar o que comer. Com muitas aves briguentas, quem sabe. Tá ligada?!”
No outro dia maduro ensolarado, o pai do Joel chegou tarde, nove horas e cinquenta e cinco minutos na praça. Um sáurio se assustou e correu entre os tinhorões. Um mendigo pedindo esmolas na ponta de lá. O trânsito pesado descendo da rua Passagem Franca do Piauí. Índios Waurá da beira do rio Açungui vendendo jacás de taquara, urupemas, petecas, tufos de macela-do-campo, enfeites bibelôs brinquedos de madeira com motivos de animais do mato... Tordilho na soga pastando a grama-do-pará do jardim. O tibirro-do-brejo ator de teatro mambembe de galho em galho se escondendo por dentro da gameleira-branca.
Se ouviu uma gargalhada, duas gargalhadas, muitas gargalhadas de marianinhas. Não era impossível, existiam coqueiros catolés, buritis, açaizeiros, cupuaçuzeiros ali pela praça Compromisso. E também subindo a rua da Constituição.
E as pessoas olharam com a mão em pala lá para cima nas copas dos coqueiros. Todos viram marianinhas gargalhando e em conjunto. E as pessoas que olharam riram também.
O pai do Joel olhou as horas e picou a mula. Porque outras praças o aguardavam na frente, quer dizer, praça Augusto Cesar Sandino, praça Gaspar Silveira Martins, praça General Andréa, praça do Buriti, praça Dr. Maurício Cardoso...
18-utopia.
Frases sentenças de Pedro:
- Os rios nem cansam de recorrer ao mar e ao oceano.
- Por ali os heróis em hermas de rua de praça de bosque de palácio em palácio.
- O xaréu desceu da onda e pegou a janela de par em par.
- Um falado e dito comentado antigo Caminho das Tropas o monumento aos tropeiros em Lapa.
- Ana Paula viu o mundo com olhos lilases e verdes e tudo bem.
- Hoje, começou manhã, que dia?, assim o sol, assim o azul, assim as ruas da cidade Caseara, assim a vizinha do outro lado da rua vestida de um verde vegetal.
- As tardes de céu pleno, côncavo, e olhando o dia espalhado no sol pleno, as cigarras serrando o silêncio quente e sem parar.
- Ana Paula se lembrou do morro de grama verde, do cavalo azulego pastando o verde na subida e justamente na sombra do catolé de cocar balançando aos ventos do nordeste.
- O dia luminoso se prestando para isso, total: Gabizinha pedalando na calçada da praça do Redentor.                          
- As árvores selvagens da beira da calçada da rua do Poço, em Protásio Alves, balançavam obsedantemente com o vento vindo do mato e tudo mais.
- Uma noite outra noite, uma noite principalmente outra noite e o coração.
- O astro favorito, a árvore mais ótima ingarana-da-terra-firme, sauás interpretando o aconchego da tardezinha.
- Tatupeba faz buraco junto ao pé de marizeiro, pica-pau-de-pescoço-amarelo dá gargalhada no galho do pereiro, bugio preto balança os galhos do tapiá, tucano-do-bico-preto sacode as folhas do umbu, o inhambuxintã passeia entre as folhas e flores do feijão-fava-bravo.
- Levemente despenteada, despenteada com olhar verde e sorriso oblíquo.
- O céu azul e embaixo o verde com o riso do rio, conforme o dia, no meio da baía a ilha da Laje.
18-ilusão.
Com as palavras de Aline: balaústre, treta, platibanda, tresmalhada, picaré, risibulhenta, provecta, azo, cabalar, probo.
18-sonho.
O primeiro sonho de Ana Ricarda, e aos quinze anos, um domingo, 17h e 43min, tudo começou assim:
“Os monges se inclinam para os quatro cantos do mundo os ventos e, nhã-nhã-nhãs!... Eles nem querem nada de D nem do mundo nem de ninguém nem nada nem nunca. Agradecem tudo o que já existe de pronto e que é perfeito. E é muito e é milagroso e é único. Eles pensam no rio, os rios que correm pelo mundo e caem em cascatas, quedas de água tão boas e bonitas e ruidosas. Eles pensam na montanha, nas montanhas de pedras com arvoredos com vegetação luxuriosa luxuriante com harpias com lagartos e escorpiões e quatis e gatos-do-mato e ariranhas e tuins e socós-de-penacho... Eles pensam no oceano, nos mares dos continentes e nas enseadas e portos e ilhas e rio Guandu e gruta da Pratinha e lagoa da Rondinha... e pesquisa, reflexão, análise, compreensão e ressurreição. Quem vai quem vem.
“Os dedicados monges monjas se inclinam para receber o alimento que o mundo cultiva e doa de bom coração. Junto com os, nhã-nhã-nhãs!... eles pensam na semente do trigo espalhada na terra, o brotinho verde e tenro, o louro da onda ao vento, o homem que colheu e fez o pão nosso de cada dia. Eles pensam e têm tempo para pensar. Nem se esquecem que tudo leva tempo e dura o que D quiser, patativas, concrises, jandiás, ruibarbos-do-campo, mandacarus, mangues-do-pará... As horas nem passam e o destino cuida de tudo nos mínimos detalhes e perfeições.
“Os ajuizados monges que vivem em paz nos mosteiros calmos e feitos de pedra, esses monges profundos, vivem se agradecendo do pouco quase nada que têm que querem e já acham muito.”
Ela Ana Ricarda que conseguiu seu próprio rio e pássaros, sanhaços, galos-de-campina, ferreiros, macuquinhos-da-várzea... para voar navegar caminhar e procurar observar analisar descobrir interpretar. Somente os de estirpes reais nem retornam.
18-absurdo.
Uma sombra pacificadora honesta desenxabida chapéu de abas caídas uma sombra de aroeira-do-sertão, e o pai do Joel, chapéu de palha (tipo seresteiro), sem gravata, dentes de fora, estímulo e foco e meta, sentou no banco de ripas de madeira e ao pé do ex-chafariz, olhou em volta procurando e a praça Largo da Paz.
Ruídos baralhados, carros na rua Boqueirão do Piauí, automóveis e tratores e caminhões de entrega pela avenida Flores do Piauí. O tumulto rodeava a pequena ilha. E pessoas que passavam e cruzavam a praça, entravam e saíam pela praça, um latido de cão, um vento mais alto pelas copas dos pés de comandatubas.
Bom que a praça do Largo da Paz nem tem dono e é de todos. É das árvores que ali vivem, dos passarinhos tibirro-do-campo, das abelhas-mulata, dos cães acompanhados e dos cães vira-latas. Uma pomba-rola pousou... de repente, duas delas pousaram ali na terra do canteiro entre flores de cores das bromélias, dos almeirões-da-terra, dos alecrins-do-campo, dos cipós-escadas... cultivados cuidados pelos servidores ou voluntários ou frequentadores.
Uma mulher impossível para na calçada entre canteiros e um coqueiro catolé, segurava o cabelo com uma mão, para e telefona: “Alô-hã!...” Por que mulher possível? Ela deu três passinhos e parou, três passos e nada, três metros e opa!, três saltos e voltou. Ela mesma de Cacequi (rio do cacique), distrito de Saicã, terra da melancia. 
O sol, hoje ontem amanhã, igual para todos os bem-te-vis. O bem-te-vi-do-bico-largo no alto dos galhos da fruta-de-burro. Do alto o bem-te-vi cantava e observava e controlava tudo como governador do dia. Peito amarelo de sol pelas 10h e 11min.
As duas meninas andando e rindo com mãozinha em concha no ouvido da outra. Umas espertezas. A mulher cabelos no rosto passou cabeça baixa interessante anônima. Uma beleza. O cãozinho xereta e salsicha acompanhado de dona passou balançando orelhas e cauda e língua de fora língua caída. Que esperteza.
A praça do Largo da Paz funcionando como uma despensa da cidade. Todos passam ali. Todos passavam ali. Todos que vão a uma cidade adoram visitar passam pela praça. A praça é de todos e de ninguém. Alguns umbrosos umiris-de-cheiro. Toda a cidade na praça pública. Os tico-ticos pipilam principalmente na manhã festiva.
Ela veio de fora de outra província, andar undoso, morou na cidade na serra na várzea na lombada no tabuleiro mangue brejo coxilha, e ali passou uns tempos ótimos. Cabelos abundantes, preciosos, lisos, fartos, pretos, recorde absoluto até a cintura. Voando nas asas. Nascera num mês de muito vento, e era setembro, pros lados de Macau (Polo Costa Branca). Os pais dela tinham uma cadelinha chamada Gris umas árvores frutíferas no quintal uma loja na avenida Hipólito José da Costa onde vendiam pipas tonéis barris, etc., por ex.
Era difícil acreditar, o pai do Joel parou debaixo do tipi-bravo e espreitou. Mas era mesmo um saíra. Não, nem podia ser, impossível!
18-visão.
Frases sentenças de Pedro:
- Lá por onde o mundo uma quinta-feira em que os pássaros cantavam nas árvores mais altas o verão as pastagens batidas de vento quente.
- Deixo compreendido uma lindeza de cabelo e que total devia à natureza gosta muito mesmo de si dos olhos lindos interessantes e tudo ali agradecido aos céus o sorriso deslizante.
- Ela estava boa de dar um doce e, de vez em vez, tinha aquele olhar langoroso típico das preguiças-de-coleira.
- Um tal de Pixuá ria mesmo a bandeiras despregadas.
- Todos os filhos da prole, na manhã alta de sol completo, todos perto das 11h e 22min, todos com fome olhando o churrasco que demoraria ainda uma hora bem cheia, todos em mangas de camisa.
18-invenção.
Com as palavras de Aline: voejai, parlapatice, escalavrado, prisco, alfaia, macerar, jucunda, debalde, sofisma, minimalismo.
18-fantasia.
Em tempo o sonho número dois de Ana Ricarda, que até nem perder tempo e como passatempo, sonha dormindo:
“O mundo nem nada é de D, o mundo nem é de ninguém, o mundo é voluntário, o mundo é dos animais invertebrados subterrâneos. E por que um mundo sem dono, um mundo povoado, um mundo à deriva, um mundo cheio de loterias? Ninguém sabe. Mas alguém tinha de saber, nem é?
“Existem tantos deuses e nenhum serviu. Deuses por todos os lados, deus para tudo e nem servem. Deuses bons e deuses complicados, deusas com muitas fases, e nem resolvem. É pouco tanto deus? É muito tanta deusa? Precisa de um saci um janaú uma iara um jurupari? E ninguém nem algo responde.
“Os humanos constroem destroem os deuses mas eles nem tão nem aí. É bem melhor acreditar e eu acredito em disco voador.
“E é melhor jogar e ser uma boa jogadora jogador campeonatos campeã do que nem jogar, então.”


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