Segunda-feira a filha de Aline olhou a
própria cara na tela na cena. Como num espelho. Como numa miragem.
- Ah!, se fosse na tevê, no cinema, no
palco.
E ficou contemplando com saudade saúde
do que sonhou e nem foi, nem houve, nem teve, não deve, nem pode, nunca.
Nem quis mais olhar. E olhava. Não olhou
mais. Se virou para ir dali, ir para onde?, ir para onde for. Quieta e de
costas dando as costas de ombros e nem olhando para trás.
Paralisou no meio do vento brando da
tarde clara. Parou no meio do mundo, bem onde ela estava. Completa e ao mesmo
tempo geômetra. Parou sob o mulungu florido e bonito. Parou porque achou de
fazer. Parou na sombra acolhedora. Para o oeste a cidade de Estreito, a de
Divino; para leste o município de Independência, o de Pancas. Parou parada sem
um movimento mais brusco, parou para olhar muito atentamente o
canarinho-da-terra e sua amiga carijó ali no poleiro de espera. Eram tão leves!
Ambos conversando de galho em galho. A moça parada e sublimada e extática e
humana. Os dois aladinhos namorados elétricos conversando em tiotios na língua
deles. A pitangueira logo ali. A veludinha ainda ali. O cipó-do-reino
engatinhando. A menos quê.
A filha de Aline e a Letícia, se
encontraram no meio do aeroporto de Porto Velho:
- Aí, guriiiia!...
- Nem... me... diiiiga!...
E foram aos beijos apresados, beijos em
cima da hora, beijos atrasados, demorados, ansiosos, abraços apertados,
embalados, carinhosos, agarrados, muito espremidos com gemidos e murmúrios de
carinho e aconchego, tudo muito urgente, apertado e de emocionar. De se olhar
nos olhos.
Posto quê, e de noite as estrelas a
visita pessoal da lua, etc., por ex.
À noite foram na boate Marimã. Na mão
cada igual uma cerveja pequena. Circulando no ambiente apertado, alucinante,
ruidoso, libidinoso, escorregadio, pegajoso. Entre tribos e gentes dos mais
diferentes. Luzes piscando e girando e colorindo. Barulho, principalmente. Os
caras pegando no cabelo, mostrando a língua, coçando o saco, babando, examinando
calculando o produto na mesa. As garotas batendo a língua, mandando beijinhos
caprichados, passando bilhetinhos, pegando no cabelo, cheirando bem de perto,
olhando, bocejando.
Fim de ano na praia da Joaquina. Saíram
do hotel cinco estrelas numa camionete lotada de risos relinchos uivos e
conversas. Umas gralhas gralhando. Haja piada pra contar.
- O que mais gostei esta manhã.
Por enquanto a filha de Aline e mais
sete coleguinhas total de oito. Uma festa de esnobes da empresa de adubos. E os
espumantes dos melhores, e o vinho do melhor, e as cervejas das melhores. O
churrasco da carne mais macia do sul, os canapés dos produtos mais caros, as
guloseimas mais enfeitadas, as frutas do norte...
A filha de Aline ganhou um colar de
muitas voltas. Um dia iria contar quantas contas lucrara.
- O que mais gostei esta tarde.
E não vê que a festa era fechada com
convidados numerados e escolhidos e bem servidos e bem falantes. E no salão bem
decorado, com música ao vivo de batuque, rolou tudo que se possa pensar de bom
numa festa bem divertida descontraída. Rolou tudo que podia e cabia dentro das
quatro paredes, na piscina, na sala, na varanda, no jardim, na garagem, no
pequeno aeródromo.
Na manhã voltaram ao hotel e bem
baleadas e mortinhas e mordidas, bêbadas e passadas no papo, chateadas e
chatas, cansadas e usadas.
No mesmo dia, já à noite, foram por
conta e somente as oito, todas, na praia Brava, um bar festejado Patuscada,
comer peixe tainhas, e rir e contar vantagens de ontem ou anteontem, debater
sobre os presentes que ganharam e os favores que os esnobes fizeram na festa.
- O que mais gostei esta noite.
Certa hora, o pensamento nem a
reconhecia mais. Isso era dúvida. O próprio pensamento nem a queria mais por
perto. E ela ficou olhando o teto deitada na cama na cidade de João Pessoa,
barulho de mar, buzinas, tevê ligada.
Estava na fazenda do freguês. Tinha gado
branco nelore sem aspas, praticamente, tinha helicóptero, iate no rio Raposa, motoaquática,
bicicleta e lambreta. Esquadrilha de periquitos-ricos, ao entardecer, trocaram
de mato. Um trator com motorista da fazenda levantando poeira vermelha para os
lados do galpão. Das macegas e capoeiras e pastos vieram povoar o ambiente os
mosquitos e no escurecer perto da noite.
No outro dia foram ver o pari no açude
perto do rio Raposa. Andaram a cavalo no pasto no campo, ela rindo, aprendendo.
Depois pararam no meio das árvores, dos buritis, dos gravatás, olho-de-boi
voando leve, monarca voando levíssima, caixão-de-defunto borboleta desequilibrada
no ar entre as folhas disfarçada de folha.
A filha de Aline andou no cavalo em pelo
e nua. Rindo mas detestando. Só para atender um pedido, ou fazer vontade, ou
ganhar um presente.
Em frente do casarão da fazenda um carro
de bois. Para enfeite. Rodeado de maracujás-perobas, sobre as gotas-de-orvalho
bem verdes, tenras, viçosas.
- O que mais gostei esta semana.
Mais um dia e nadaram num pequeno açude.
Lavaram os cavalos e foi divertido. Se fizeram ali na grama na sombra do
bucho-de-boi. Nadaram no açude como na tribo.
Ela simplesmente nem tinha aprendido a
nadar na escola.
17-estrofe.
A primeira e única filha de Aline estava
ali, largada largada sob o sol terrível furioso quentíssimo e em a praia
paradisíaca de nome a praia Mole. Ela levava um cabelo curto, castanho, até os
ombros. Os olhos cerrados atrás dos óculos grandes. Era jovem e pronta e esguia
e provocativa. Os peitinhos desenxabidos sem biquíni eram médios pra pequenos,
praticamente duros. Em baixo, ela usava o biquíni verde, que pra nem entrar
areia. Deitada ainda na toalha fabricada numa industria de Casserengue e sob um
sol sempre ciumento. E as pessoas que passavam ali por perto a olhavam e podiam
pensar o que quisessem, até porque cada um tem seu pensamento que só interessa
a quem pensa e que é todo seu somente seu e cada um por si. O sol lambendo os
desenhos puros e rápidos da guria, morenando bronzeando, com a tarde toda. O
oceano Atlântico.
- Que importância o meu império? O que
tenho feito?
Letícia durante um voo para Boa Vista,
voo noturno, de sono as duas, pouco assunto, assuntos já esgotados, o pouco
papo que já restava depois de já 5h de voo, escalas, voo, cochilos, revistas,
espumante, preguiça e pra quem conta toda a história de cabo a rabo em 5
minutos contadinhos:
- Quando é hora de cama, guria? A cama
da paz e solita no más, claro.
- Hum...
- Uma hora a gente chega lá, sabe. Eu te
digo.
- Nem chegamos sobre a floresta,
dizem... por aí.
Letícia pensou, cabeça no encosto da
poltrona decorada, disse só para dizer:
- Quando eu cansar disso tudo vou pra
Santa Teresa ou Santa Leopoldina.
- Eu estava pensando em olhar os
passarinhos de Cachoeirinha do Sul ou Ibiraçu.
- Tem lugar para mais uma?
- Para o resto dos dias e meses e alguns
muitos anos, vários.
Ela estava com o freguês, o cliente, bem
em frente na mesa a dois num restaurante chinês de Uberaba, 11h e 22min. Nem
tinham assunto? Sabia falar de gado leiteiro? De pasto bom para gado de corte?
O preço do boi gordo no mercado de Estrela Dalva? Que esperança. Tinha de
achar, então. E começou falando de um filme que viu... Até tomar uns goles
gelados de espumante e depois a coisa de falar deslanchou descarrilou. E lá
fora chuva que chovia, ainda. Eles dois entraram no restaurante rindo, correndo
da chuva, vindos do carro na rua. Quinze minutos sem energia, luz de gerador,
pediram luz de velas. E riram, fazer o quê?, até de manhã, às 5h e 34min. Uma
intimidade de fantasia, e mais com risos e papos forçados de dar dor de cabeça.
Quando no sítio, em Estrela, lugar
aprazível, vento na estação das abelhas tiúbas, brisa melíflua, ela foi passear
entre as árvores e viu uma casa de joão-de-barro. Em construção, na verdade.
Quase no final, outro sim. E teve outra ideia, ela mesma, sozinha: um nome para
nomear e chamar pelo nome o seu sítio. Qual seria? Qual poderia ser melhor?
Pensar um pouco, mas nem muito.
O joão-de-barro subia com o bico cheio
de barro, outro joão-de-barro, com certeza a maria-de-barro, gritava e se
pinchava lá de cima. Descia a outra gritando, subia o um com bico cheio. Uma
obra de dias sem parar e engraçada, arquitetos.
Sonhava com roupas sujas, um monte
delas. Uma pilha enorme das suas roupas sujas e encardidas. Ela estava na
lavanderia? Não via direito. Nem, ela estava agora num quarto e nem tinha
pressa alguma pela frente. Pegava peça por peça e virava para fora, desvirava
do avesso. Uma bermuda que fizera de calça azul apertada... e acordou
preocupada com o sonho estranho e sem sentido.
No pátio do sítio em Cachoeirinha do Sul
- sítio com nome e tudo agora: Imbaúba, nome de árvore como sempre quis -, bem
debaixo de um araçá, a dois metros da janela do quarto, ela pendurou uma
bandeja de madeira. Era para tratar os passarinhos incidentais. Gostava disso,
se preocupava com isso, pensava nisso. E quase só vinham canarinhos-da-terra e
suas namoradas as carijós. Eram também muitos. Um que outro chupim,
sabiá-laranja, tico-tico, sem-fim e beija-flor-tesoura-verde este que até
buscava também o néctar das flores vermelhas ou brancas... entendeu?!
A colega Içaúba um dia começou a tuitar
e retuitar com isso:
- Achei ter visto ocê na rua Mariaté.
- Quando? Por quê?
- Aqui em Cascavel, 22h da noite, por
aí...
- Acho que nem... porém todavia
entretanto...
- Parecia com você, era bem parecida e
tal...
- Que cabelo?
- Um cabelo exótico, tipo bem branco em
cordas...
- Como aquela da novela bíblica?
- Isso, justamente...
- Então, foi engano, é...
- Tá, então, tudo bem contigo?
- Estou indo para Juiz de Fora e depois
ilha das Pedras ou ilha do Imperador...
- Com os melhores votos e cumprimentos!
- Sinceramente verdadeiramente sua!
A filha de Aline estava com dúvidas.
Qual sapato vermelho adquirir? Um, qual; dois, quais? E tinha mais meia hora
para gastar especulando, pensando, fazendo escolhas, decidindo, passar o
cartão.
- Quanto custam os dois?
- É tanto, senhorita.
- Então, me vê também aquele lenço de
pescoço, aquele mesmo com tomada aérea de ilha da Restinga em Cabedelo.
Uma árvore gigante. Ela pensou. Uma
árvore verde. Ela permaneceu pensando. Uma árvore quieta. Ela pensava. Uma
árvore na paisagem do centro da cidade de Nova Santa Rita. Ela ainda pensava
como ninguém. Uma guria curiosa na janela do parque hotel Quiriri. Uma árvore
ela pensou. Uma árvore jacitarapuí é um carma muito lento e demorado.
Entrou para Porto Alegre às 11h e 12min.
O dia estava no compasso, claro, quente, lógico, oportuno, arroio Dilúvio,
avenida Ipiranga, bairro Praia de Belas.
Um picolé no bairro Floresta. O jornal
debaixo do braço, pura distração para nem ler, no máximo as manchetes de capa e
contracapa.
Táxi até o hotel Tuim de chofre com o
estuário Guaíba. Que já foi rio.
Um restaurante no quinto andar no centro
da cidade, tipo às 3h e 13min da tarde. Um barco no rio, descendo para a lagoa
dos Patos. Onde agora é laguna.
Uma pernada na Redenção. Um sorvete de
goiaba-do-mato na esquina das ruas Cacimba de Areia com Cacimba de Dentro.
Vinte e duas a obrigação, fazer o quê.
O vento da noite repassou o mundo das
coisas na cabeça da filha de Aline. Ela se enrolou como um cachorrinho tímido e
friorento. Um cão sempre está esperando algo alguém e comida. Nem dorme nunca,
de todo.
Uma árvore duas
toneladas e meia, cento e vinte anos e alguns meses, trinta metros e outros
centímetros, mil e tantos cajus por ano ao preço de tanto por quilograma.
Tendinha na beira de frente em a praia da Cidade Nova. Os clientes chegavam com
minirroupas e chinelas rasteirinhas de dedo.
17-rótulo.
Com as palavras de Aline:
desídia, imponderável, atavio, lidador, terrado, sarau, louçainha, compatibilidade,
eflúvio, selha.
17-parelha.
- Tudo me parece bom
aconchegante explicativo.
Pois a filha de Aline
foi no horto buscar e adquirir uma mudinha de imbaúba. Por que imbaúba? Uma
imbaúba das boas e do gosto das formigas. Levou duas, levou mais, decidiu na
hora plantar muitas. Que tipo de solo, que tipo de clima, quanta água, quanta
sombra, quanto vento? Adotou essa ideia há poucos dias.
Ela uma guria
instintiva, bem-apessoada, imponente, animada, turbante de seda florido:
- O que devo fazer se
nem aparecer o sol? Esta cidade tem um apenas museu.
E gostava sempre gostou
quando aterrissava em Maceió. A varanda do mesmo hotel Ocara. Deitava na rede
na sacada e torrava ao sol. Pronto, cardumes de nuvens, enxames de nuvens,
bandos, cáfilas, alcateias grupos de nuvens. Assim mesmo muito sol e calor. Lá
em cima passava o rasto do vento, nem o mesmo vento daqui de baixo. Nenhuma
desgarrada. Entardecendo. Nuvem com cara de bicho de ave acanati, por ex.
De vez em quando
buracos entre as nuvens para ver a terra. As luzes das cidades, Maraã, Uarini,
Cana Brava do Norte... e mais estrelas incontáveis. Rio Miriri e o bairro Pedra
de Guaratiba. Se nem fosse um barulho de ronco de motor. Parecia um tapete de
algodão pairando nas alturas da noite da noite. Após despontando a pedra do
Baú, depois a reserva dos iaualapiti, ainda veio o chão do Confins.
Ao andar princípio da
natureza e todos viam ela filha de Aline tinha na rua das Alfaias a calçada de
pedras basálticas vamos ver! o corpo alongado tudo natural etc a cabeça o
pescoço os ombros mas identificada muito pelo andar precioso e correto e
ensaiado. Recém-chegada. Também tinha um sol para cada habitante um morro com
árvores casas ruas uns barcos dormindo no ancoradouro e o sol e o céu. Agora a
rua Barão do Amazonas.
Amanhecendo na ilha do
Arvoredo, rente à ilha do Arvoredo. Ela sentada no iate, em companhia. Os periquitos-de-asa-azul
voando para a ilha do Arvoredo. Uma pequena enseada acomodou o barco. Ouvindo
os periquitos e a enseada. Os caras pescando, as colegas pescando e rindo. Ela
olhando a enseada, os periquitos entrando na ilha pelo alto e gritando, o sol
aparecendo de vez, um pouco de cerração típica das manhãs, sol nascendo e
gaivotas. E o barco na enseadinha pouco balança. Ela pensou ter visto um galeão
de corsários piratas. Pensou mesmo. Uma tropa deles.
- Hum!... Feita
rarefeita refeita perfeita.
De novo ela deitada na
cama com preguiça, e nua. Fazia calor e era verão e dia quente de sol no mundo
todo. Pela manhã cortara os cabelos máquina zero. E para disfarçar novos
brincos grandes e balançantes e ruidosos e faiscantes e ricos. Mas estava
deitada sem nada por cima.
Choveu aquela tarde um
exagero. Ninguém vinha visitar. Por que chover tanto assim? Telefone nem tocou.
Telefonar? Mas chovia tanto que a cidade ficou encoberta pelo som das nuvens
baixas. E chovia orgulhosamente desde o sétimo andar do prédio. Chovia muito, e
emboralá! espontâneo.
Chegou no terreno do
sítio de Cachoeirinha do Sul e plantou o pezinho. Esburacou. Colocou a
plantinha e encheu o resto com terra preta. Regou. Ficou olhando o caso com
saudade já da planta alta e grande e falante bem na sua frente. E falou com
ela:
- Vê se cresça e
apareça e floresça e abrigue umas formiguinhas!
- Nem tem de quê.
Ela preferiu andar
pelas ruas àquela hora. Com certa pose, mas sem muita pressa. Para nem parecer
desocupada e à toa. Reparando ali e aqui, azedas-de-são-paulo,
inhames-cigarras, jarmins-do-mato... Olhando vitrines da rua Bela Vista do
Piauí. Olhando e com um embrulho debaixo do braço. E com olhar no chão? Quase
raspando o chão. Um olhar vago e cansado e despreocupado. Fazendo horário. Parou
de repente e comprou um sorvete de caju com abacaxi com pitanga. O jeito era ir
ao cinema ver a estreia longa metragem 3d “As Tranças do Careca”.
17-divisa.
A tradicional praça - o
pai do Joel sabia de cor - sempre cheia de árvores altas, jardins com cerquinhas
bonitas para bicicletas nem entrar, onde havia um chafariz nos tempos antigos,
monumento do melhor escritor da cidade o seu Cruz e Souza, algumas cigarras
endoidecidas azucrinando, sombra de saboneteiras verdes e altas, pássaros
atores, curiós, corruíras, pica-paus-do-papo-amarelo, quero-queros, soldadinhos,
tiriris... mulheres com vestidos curiosos amarelos vaporosos coloridos
desenhados à mão, casal de pombas-rolas arisco.
Um moço de nome Ubá
Ceata, disse se chamar assim porque nascera de uma árvore ou debaixo de certa
árvore com esse nome, esticou a voz e galopou mundo afora imitando extravagante,
extraordinário:
- Quando as pedras
surgiram monoblocos.
“Quando foi, foi devido
às duras tempestades de inverno às duras penas. E se amontoaram se atolaram
perto dos rios e lagos, arroio Inhanduí e rio Tacutu... os exemplos. Depois
posteriormente fizeram a usina hidrelétrica Serra do Facão lá em Catalão.
“Assim, ali, ficaram
sonhando um bom tempo com dias melhores e maduros.
“Veio o verão e a água
baixou. Apareceu a serra do Oratório. O governo legitimou a reserva de
desenvolvimento sustentável Mamirauá.
“Com fome, as pedras
resolveram crescer e se tornar gente bípede. Mas ainda dependiam de muitas
outras coisas externas para serem atrizes. Dependiam das chuvas, por exemplo.
Dependiam da reserva biológica do Tinguá. Dependiam da maravilhosa curtida
procurada praia de Marambaia.
“Um casal teve 12 filhos: 6 meninos e 6
meninas. Tanta fertilidade causou a ira o ciúme e o despeito de uma árvore
venenosa que decidiu matar a todos. Todos os viventes do planeta, sem exceção.
A árvore nociva fez o que fez criando até certo ponto as ruínas do parque São
João Marcos, uma vez.
“Depois, a mesma árvore ciumenta comeu o
cérebro de cada um deles. Ao se alimentar dos cérebros das vítimas, a árvore
fanática cometeu um crime hediondo. Por quê? Porque só aos vermes, que são
nojentos e asquerosos, era permitido tamanho atrevimento. Os deuses e deusas nem
permitem que ninguém saia dos limites nem seja melhor que ninguém.
“A árvore indigitada então foi condenada
ao jeito que hoje se encontra. Como? Quando? Com galhos e folhas ao vento, com
flores, com frutos, com frutas de época em época mas... presa e exilada e destinada
às raízes profundas da terra.
“Os doze assassinados as doze vítimas
com seus cérebros comidos pela árvore, se encontraram no mundo do além muito
alto muito alto. Um mundo de ar puro perfeito e espiritual. E se uniram e
decidiram fazer de tudo para voltar. Porém eram almas azuis. Acharam injusto a
sorte que tiveram e precisavam ter mais uma oportunidade, queriam lutar por
isso, ter mais um tempo na terra, no aquém, etc. E a quem perguntar?
“Por isso contrataram um pajé dentre os
fantasmas por ali perdido entre as nuvens e que sabia de mágicas e alquimias.
Quem sabe ele conseguisse pudesse, com sua grande astúcia e meneios e gritos e
fumaças e temperos e feitiços em geral e os mais secretos, defender a causa dos
doze mortos prematuros.
“Esse pajé - de nome Ubá - era muito
velho e velhaco e pelintra. Mas porém e até, um sábio natural de Arari filho da
floresta amazônica Amazônia Legal.
“Com isso, e com a ajuda do fantasma da
mãe do pai, o pajé conseguiu salvar pelo menos quatro dos mortos prematuros:
dois moços e duas moças. Para que no mínimo a terra continuasse procriando. Os
dois casais, os quatro, antes de partir de volta para o aquém, prometeram de
pés juntos retornar quem sabe um dia ao céu para agradecer e presentear e
reverenciar os espíritos nublados. Refazerem as tais e quais idas e vindas.
- Temos intenções de voltar um dia para
este ar rarefeito! Aguardemmm!...
“O pajé também conseguiu escapar do
mundo dos mortos disfarçado de gavião-carijó atravessando o rio Mutum a bolapé.
E foi morar longe das pessoas que podiam reconhecê-lo, longe da aldeia
damacuri, longe de Capão do Cipó, distante de Alvarães, longe distante da serra
do Imaruí, para mais pra lá de Barcelos ou a serra do Aracá. Passou a habitar
uma ilha entre o rio e o mar, ilha essa recém-nascida de um sutil movimento da
terra ilha bonita e secreta e anônima ilha mana amiga companheira comadre ilha repintada
de pindobas-do-sul de araçás-cinzentos de macaúbas-mirins... e ao abrigo da
gruta do Centenário.
“Hoje em dia, então, devido isso tudo
que aconteceu, as pedras são consideradas gente no melhor modo de dizer no bom
sentido da palavra. E se espalharam se espalham pelo mundo, nadam no rio
Ibicuí, por exemplo, e vão aportar em Inhaúma, Santa Teresa, Rio Claro, Monte
Alegre, André da Rocha, Alvinópolis... como exemplos.
“Mas com o dever de morrer e voltar
tempo cumprido para o além. Um dia desses, quem sabe.”
17-letreiro.
Foi quando muito por esse tempo que se
planejou uma sorte e que vou narrar e contar como foi onde foi.
A filha de Aline aquiesceu, meneou a
cabeça, passou as mãos nos cabelos. Saiu no corredor social. Pegou o elevador
quase silencioso, e aromatizado. Vista panorâmica ampla da cidade de Marília. A
porta corrediça de vidro que dava pra rua Gonçalves Dias abriu automaticamente.
Vasos com os tais antúrios. Sensação invasiva. O barulho e a agitação e o calor
da cidade entrando pelo seu metabolismo. Despertou de todo. Foi caminhando pela
calçada, escolhendo um destino qualquer, bairro Catumbi, admirando os pontos
comerciais. O mundo parecia além aquém suficiente excessivo, etc., por ex. Desfiles
comidas e doces na padaria na lancheria na confeitaria pensamentos olhar céu
universal abano de cabeça e o sorriso fácil. Convenhamos.
Já subindo a rua Assunção do Piauí, ela
bateu a mão na cabeça e acabou de bagunçar ainda mais os cabelos, pensando,
olhando o chão. Um mongo cantando no galho da mandioqueira. Um beija-flor-preto
procurando néctar nas flores da colher-de-vaqueiro. Pois um colibri nunca se
aborrece e tem o coração melhor que tudo. Prédio decadente, talvez século
passado, antiga loja de secos e molhados. Zoou a buzina na curva da avenida
Presidente Vargas com a avenida Castelo Branco.
A porta lateral da caminhonete deslizou
suavemente e a filha de Aline entrou, e sem dizer nada nem ouvir nada. O
automóvel parou num prédio comercial dos grandes. As coleguinhas quase de
sempre estavam ali na porta de entrada, rindo, conversando alto, fumando,
rindo, gargalhando, telefonando, a Letícia a viu ela primeiro:
- Daí, guria do meu coração alegrado!
- Já sei. Conta uma novidade.
- O mundo é suco de caju ou pequi!
- E então vamos receber em lingotes de
ouro.
Saía, àquela hora, muita gente do
shopping Aljube Aracadaini. Todos carregados de sacolas e sorvetes e
telefonando. Pracinha de entrada com árvores epítetos engraçados, caaxiós,
oanaçus, moreiras, canudos-de-pito... As duas colegas foram entrando, assim
meio remando contra a correnteza, nadando contra a maré. Parede de massa
corrida já pintada de azul e desenhos criativos.
- É verdade! Mas descansa, vai!
A modelada Letícia exalava sensualidade
até pelos olhos, pela boca, pelo hálito, pelos muxoxos, pelos verbos e
adjetivos separando as sílabas. E Letícia cheia de cabelos de um lado do outro.
Ambiente climático e novo em folha.
- Letícia, minha nega!
- Que que é guria?!
- Me vende um beijo gostoso e aqui e
agora! Assim vou pegar o teu rosto com as duas mãos e te chupar de canudinho!
- Você só nem parece mas é uma criança!
E uma amiga de coleção!
O inferninho no último andar do shopping.
Luzes tipo girândola cortando o salão com cheiro de espumantes, vinhos,
cervejas, caipirinhas, peixes fritos e gargalhadas. Praticamente muito mais
colegas que homens. Os caras eram todos de família com eira beira tribeira algibeira
e sombreira.
- Fala alguma coisa picante.
- Butantã.
- Fala coisa muito de água boa!
- Cachoeira do El Dorado.
- Fala um lugar melhor e mais protegido!
- O pana do Jaú.
A filha de Aline girou a cabeça com
velocidade controlada ou comportada para fazer seus longos cabelos aproveitar o
movimento e jogá-los para as costas. Viu isso num comercial de xampu cabelos
suaves e leves e brilhantes e femininos.
O tipo a sua frente tinha um cabelo repicado,
loiro, óculos escuros, cerveja na mão e cara de qualquer coisa que se queira
dizer na hora da necessidade, ou seja, simboralá!
17-dístico.
Com as palavras de Aline: favônio, palavra-ônibus,
acerbo, palavra-valise, nímio, palavra-chave, sainete, trucar, requestar,
frívolo.
17-lema.
Entre as ruas de Porto Alegre ambas a
rua Luciana de Abreu com a rua Santo Inácio, iam e vinham.
O gliptodonte com a altura do mundo nos
ombros nas costas na paleta, etc. Tinha poucos inimigos olhando bem nenhum
mesmo até por isso nem correu risco de extinção. E está aí, móvel e cascudo
como um carro de piloto automático. Nem tem mais estômago para destilados fermentados
derivados aperitivos licores sambas limãozinhos caipirinhas. O horto entupido
das árvores dos arbustos das plantas típicas do mato das veredas, oeiranas,
espelinas-verdadeiras, pepinos-de-papagaio, juncos-de-cobra... O ar nem só de
aviões nuvens e dos pássaros das aves bacuraus-pequenos capuchinhos
perdizinhas-do-campo guaxes... As ruas becos dos cachorrinhos animais
domésticos pequenos irracionais carentes humanos. Prefere nem se atrapalhar com
trânsito de pessoas de automóveis de restaurantes de repartições públicas. Pois
o gliptodonte nem fala nem resmunga é enrolado até as orelhas. Mora em o bairro
da Trindade mas pode aparecer nos lugares próximos adjacentes pegados andando a
esmo bairro da Pavuna bairro Marechal Hermes bairro Ricardo de Albuquerque...
Ganha um pouco do governo por serviços prestados, de repente até um esmifra e
desses por aí. E olha as horas ordenadas no cebolão com admiração elementar
para o período da manhã, 8h e 18min, cláusula elemento condição fator.
Eu fui ao encontro das coincidências.
Quem nem vai que dê a pedrada primeira. Em Porto Alegre pela cidade peguei o
ônibus até o Beira-Rio. Era dia de sábado de manhã e à tarde jogo com a SER
Caxias válido pelo Gauchão. Na volta a pé Cidade Baixa e as ruas da República e
José do Patrocínio e General Lima e Silva... no mínimo. Chego em casa no hotel
entre outras coisas pego meu livro, já à noite, umas histórias do cronista
Juremir Machado da Silva o mesmo cruzamento perambulando fizeram os
personagens. Eu acredito! Coincidência é isto sim, e eu me sinto bem.
Coincidência é notícia boa. E vale um pedido que será atendido. Nem sou calango
nem sauveiro nem capimpeba nem embiruçu, e eu desço como outro qualquer é o meu
rio Surumu em a reserva indígena Raposa Serra do Sol. Quem tá no rio é pra
navegar!
17-máxima.
Tão buscada, tão querida, ao mesmo tempo
tão inextricável, a filha de Aline acordou, acordou por partes, vigésimo andar,
acordou por etapas e postas, abriu um olho, os dois, suspirou sem querer e
tentou aprender os objetos do quarto do hotel Baru, sempre hotéis, sempre
quartos estranhos, já nem ligava mais para a decoração, tudo bem, levantou e
foi pro banho, casa de banho, piscina, banheira, ligou o rádio de cabeceira,
foi pra dentro da ducha refrescante. Mas se fosse pensar...
- Estou pensando ou estou caminhando
pela curva da Guajuvira?
O sul o oeste, latitude 22°12’ 2’’,
longitude 15° 13’ 5’’, altitude 600m, temperatura média de 25°C, fuso horário
em relação a Brasília mais 2h, cidade de Cruzeiro do Sul, Estado do Acre, hotel
de floresta Aracê. E quem conhece já viu.
Noite longe, estrelas em números
infinitos, estrelas em figuras de animais, estrelas pintadas de cores
quilométricas, nomes próprios e mitos; manhã perto original, engraçada, cheia
de joões-de-barro e camaxilras, árvores se mexendo, manjerona-do-campo,
alecrim-do-mato, aroeira-do-rio-grande, goiaba-de-espinho... mas tudo
simbolicamente aéreo. Novo Hamburgo e parque Floresta Imperial antes do almoço.
A filha de Aline andava de bolsa a
tiracolo, rua Barreiras do Piauí, olhando as vitrinas sem entrar nas lojas, viu
na livraria uma capa com mulher bordada no colo e braços e uns já cabelos
volumosos e fofos. Total: comprou o livro.
A corrente de pensamentos a levava para
onde, parque Terra Ronca, Óbidos, Ereré, São Francisco do Oeste, Rorainópolis...
Suspirou profundamente. Bloqueou a mente. As estrelas nasciam na noite de
Brasília e DF.
Menos prazer com mais trabalho,
totalidade: salário.
As coleguinhas da filha de Aline vieram
muitas de todos os ângulos do país para o festival dos produtos alimentícios
sem pesticidas da Paru-Ubá. E eram magras e despojadas na maioria, as garotas.
Letícia sorria e se agarrava ao cotovelo da amiga predileta melhores amigas.
Janaína de olhos enviesados, magnéticos, sarcásticos, sardas na pele de todo o
rosto, cabelos vermelhos e lindos, curtos, esfiapados, um sorriso largo e
preciso, sensualidade arrebatadora. Ana Paula olhos verdes hipnotizantes
original de Pereiro. Bárbara hipnotizantes olhos azuis. Nádia negros
hipnotizantes olhos grandes. Marilena se movia com graça, engraçada e suave.
Helena ficou assim por mais de três horas e natural de Catas Altas. Diversas
cadeiras de todos os tipos e sentadas pernas longas cruzadas. Ângela magnífico
olhar castanho e sorriso constante. O jardim com águas deslizantes,
crepitantes, correntes, borbulhantes, efervescentes. Originalidade leveza
Junara nacionalidade estilo havia uns sorvetes no caminho e até mesmo movimento
e comédia abundância de cabelos escovados abacaxi caju açaí. Espumantes
frisantes trescalantes correntes, fluentes, estridentes, risonhos.
No cinema acompanhada de pipoca e uma
barra de chocolate, bem possível: o espião que nem acreditava em mistério, o
espião que nem esperava em mistério, o espião que nem conhecia em mistério, o
espião que não entrava de jeito nenhum em mistério. O espião e a espiã o casal
que veio da serra dos Cristais e particularmente de Santa Isabel do Rio Negro.
Dez dias de férias no sítio Imbaúba e a
filha de Aline colhia jabuticabas do seu pequeno jabuticabal. Era bom,
blupe!... Frutos doces para gente gulosa como ela, frutos doces para pássaros
morcegos formigas e até bicho-preguiça e mesmo
macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta, se fosse o caso.
Os olhos dela, os grandes olhos claros
vagavam por tudo sem ver nada e ninguém. Se levantou do banco fofo, caminhou
até a janela aberta, voltou logo logo ao banco de pano, procurou os cabelos
lisos; muita coisa junta.
- Se eu fosse pensar eu andaria pela
calçada da rua Olavo Bilac em Oriximiná ou por aí mesmo pela curva da
Guajuvira, hein?!
O tempo seria uma roda, um cão mordendo
o rabo, uma bola, um bando de chama-marés, um círculo, um jogo de xadrez. O
tempo seria infinito e circular. O tempo seria repeteco do passado do presente
do futuro do passado. O tempo seria a piramboia.
Pegou o Salgado Filho umas 23h e 11min,
baldeação em Guarulhos\Cumbica talvez aí pela 2h e 21min, até chegar no Galeão quem
sabe 3h 36min. Duas revistas e uma de cruzadas? Os cochilos e devaneios, isso
sim!
- Voando a doze mil metros ou quem sabe
passeando em a curva da Guajuvira, entende?!
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