sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Aline de irrefragável (romance) - capítulo 17




Segunda-feira a filha de Aline olhou a própria cara na tela na cena. Como num espelho. Como numa miragem.
- Ah!, se fosse na tevê, no cinema, no palco.
E ficou contemplando com saudade saúde do que sonhou e nem foi, nem houve, nem teve, não deve, nem pode, nunca.
Nem quis mais olhar. E olhava. Não olhou mais. Se virou para ir dali, ir para onde?, ir para onde for. Quieta e de costas dando as costas de ombros e nem olhando para trás.
Paralisou no meio do vento brando da tarde clara. Parou no meio do mundo, bem onde ela estava. Completa e ao mesmo tempo geômetra. Parou sob o mulungu florido e bonito. Parou porque achou de fazer. Parou na sombra acolhedora. Para o oeste a cidade de Estreito, a de Divino; para leste o município de Independência, o de Pancas. Parou parada sem um movimento mais brusco, parou para olhar muito atentamente o canarinho-da-terra e sua amiga carijó ali no poleiro de espera. Eram tão leves! Ambos conversando de galho em galho. A moça parada e sublimada e extática e humana. Os dois aladinhos namorados elétricos conversando em tiotios na língua deles. A pitangueira logo ali. A veludinha ainda ali. O cipó-do-reino engatinhando. A menos quê.
A filha de Aline e a Letícia, se encontraram no meio do aeroporto de Porto Velho:
- Aí, guriiiia!...
- Nem... me... diiiiga!...
E foram aos beijos apresados, beijos em cima da hora, beijos atrasados, demorados, ansiosos, abraços apertados, embalados, carinhosos, agarrados, muito espremidos com gemidos e murmúrios de carinho e aconchego, tudo muito urgente, apertado e de emocionar. De se olhar nos olhos.
Posto quê, e de noite as estrelas a visita pessoal da lua, etc., por ex.
À noite foram na boate Marimã. Na mão cada igual uma cerveja pequena. Circulando no ambiente apertado, alucinante, ruidoso, libidinoso, escorregadio, pegajoso. Entre tribos e gentes dos mais diferentes. Luzes piscando e girando e colorindo. Barulho, principalmente. Os caras pegando no cabelo, mostrando a língua, coçando o saco, babando, examinando calculando o produto na mesa. As garotas batendo a língua, mandando beijinhos caprichados, passando bilhetinhos, pegando no cabelo, cheirando bem de perto, olhando, bocejando.
Fim de ano na praia da Joaquina. Saíram do hotel cinco estrelas numa camionete lotada de risos relinchos uivos e conversas. Umas gralhas gralhando. Haja piada pra contar.
- O que mais gostei esta manhã.
Por enquanto a filha de Aline e mais sete coleguinhas total de oito. Uma festa de esnobes da empresa de adubos. E os espumantes dos melhores, e o vinho do melhor, e as cervejas das melhores. O churrasco da carne mais macia do sul, os canapés dos produtos mais caros, as guloseimas mais enfeitadas, as frutas do norte...
A filha de Aline ganhou um colar de muitas voltas. Um dia iria contar quantas contas lucrara.
- O que mais gostei esta tarde.
E não vê que a festa era fechada com convidados numerados e escolhidos e bem servidos e bem falantes. E no salão bem decorado, com música ao vivo de batuque, rolou tudo que se possa pensar de bom numa festa bem divertida descontraída. Rolou tudo que podia e cabia dentro das quatro paredes, na piscina, na sala, na varanda, no jardim, na garagem, no pequeno aeródromo.
Na manhã voltaram ao hotel e bem baleadas e mortinhas e mordidas, bêbadas e passadas no papo, chateadas e chatas, cansadas e usadas.
No mesmo dia, já à noite, foram por conta e somente as oito, todas, na praia Brava, um bar festejado Patuscada, comer peixe tainhas, e rir e contar vantagens de ontem ou anteontem, debater sobre os presentes que ganharam e os favores que os esnobes fizeram na festa.
- O que mais gostei esta noite.
Certa hora, o pensamento nem a reconhecia mais. Isso era dúvida. O próprio pensamento nem a queria mais por perto. E ela ficou olhando o teto deitada na cama na cidade de João Pessoa, barulho de mar, buzinas, tevê ligada.
Estava na fazenda do freguês. Tinha gado branco nelore sem aspas, praticamente, tinha helicóptero, iate no rio Raposa, motoaquática, bicicleta e lambreta. Esquadrilha de periquitos-ricos, ao entardecer, trocaram de mato. Um trator com motorista da fazenda levantando poeira vermelha para os lados do galpão. Das macegas e capoeiras e pastos vieram povoar o ambiente os mosquitos e no escurecer perto da noite.
No outro dia foram ver o pari no açude perto do rio Raposa. Andaram a cavalo no pasto no campo, ela rindo, aprendendo. Depois pararam no meio das árvores, dos buritis, dos gravatás, olho-de-boi voando leve, monarca voando levíssima, caixão-de-defunto borboleta desequilibrada no ar entre as folhas disfarçada de folha.
A filha de Aline andou no cavalo em pelo e nua. Rindo mas detestando. Só para atender um pedido, ou fazer vontade, ou ganhar um presente.
Em frente do casarão da fazenda um carro de bois. Para enfeite. Rodeado de maracujás-perobas, sobre as gotas-de-orvalho bem verdes, tenras, viçosas.
- O que mais gostei esta semana.
Mais um dia e nadaram num pequeno açude. Lavaram os cavalos e foi divertido. Se fizeram ali na grama na sombra do bucho-de-boi. Nadaram no açude como na tribo.
Ela simplesmente nem tinha aprendido a nadar na escola.
17-estrofe.
A primeira e única filha de Aline estava ali, largada largada sob o sol terrível furioso quentíssimo e em a praia paradisíaca de nome a praia Mole. Ela levava um cabelo curto, castanho, até os ombros. Os olhos cerrados atrás dos óculos grandes. Era jovem e pronta e esguia e provocativa. Os peitinhos desenxabidos sem biquíni eram médios pra pequenos, praticamente duros. Em baixo, ela usava o biquíni verde, que pra nem entrar areia. Deitada ainda na toalha fabricada numa industria de Casserengue e sob um sol sempre ciumento. E as pessoas que passavam ali por perto a olhavam e podiam pensar o que quisessem, até porque cada um tem seu pensamento que só interessa a quem pensa e que é todo seu somente seu e cada um por si. O sol lambendo os desenhos puros e rápidos da guria, morenando bronzeando, com a tarde toda. O oceano Atlântico.
- Que importância o meu império? O que tenho feito?
Letícia durante um voo para Boa Vista, voo noturno, de sono as duas, pouco assunto, assuntos já esgotados, o pouco papo que já restava depois de já 5h de voo, escalas, voo, cochilos, revistas, espumante, preguiça e pra quem conta toda a história de cabo a rabo em 5 minutos contadinhos:
- Quando é hora de cama, guria? A cama da paz e solita no más, claro.
- Hum...
- Uma hora a gente chega lá, sabe. Eu te digo.
- Nem chegamos sobre a floresta, dizem... por aí.
Letícia pensou, cabeça no encosto da poltrona decorada, disse só para dizer:
- Quando eu cansar disso tudo vou pra Santa Teresa ou Santa Leopoldina.
- Eu estava pensando em olhar os passarinhos de Cachoeirinha do Sul ou Ibiraçu.
- Tem lugar para mais uma?
- Para o resto dos dias e meses e alguns muitos anos, vários.
Ela estava com o freguês, o cliente, bem em frente na mesa a dois num restaurante chinês de Uberaba, 11h e 22min. Nem tinham assunto? Sabia falar de gado leiteiro? De pasto bom para gado de corte? O preço do boi gordo no mercado de Estrela Dalva? Que esperança. Tinha de achar, então. E começou falando de um filme que viu... Até tomar uns goles gelados de espumante e depois a coisa de falar deslanchou descarrilou. E lá fora chuva que chovia, ainda. Eles dois entraram no restaurante rindo, correndo da chuva, vindos do carro na rua. Quinze minutos sem energia, luz de gerador, pediram luz de velas. E riram, fazer o quê?, até de manhã, às 5h e 34min. Uma intimidade de fantasia, e mais com risos e papos forçados de dar dor de cabeça.
Quando no sítio, em Estrela, lugar aprazível, vento na estação das abelhas tiúbas, brisa melíflua, ela foi passear entre as árvores e viu uma casa de joão-de-barro. Em construção, na verdade. Quase no final, outro sim. E teve outra ideia, ela mesma, sozinha: um nome para nomear e chamar pelo nome o seu sítio. Qual seria? Qual poderia ser melhor? Pensar um pouco, mas nem muito.
O joão-de-barro subia com o bico cheio de barro, outro joão-de-barro, com certeza a maria-de-barro, gritava e se pinchava lá de cima. Descia a outra gritando, subia o um com bico cheio. Uma obra de dias sem parar e engraçada, arquitetos.
Sonhava com roupas sujas, um monte delas. Uma pilha enorme das suas roupas sujas e encardidas. Ela estava na lavanderia? Não via direito. Nem, ela estava agora num quarto e nem tinha pressa alguma pela frente. Pegava peça por peça e virava para fora, desvirava do avesso. Uma bermuda que fizera de calça azul apertada... e acordou preocupada com o sonho estranho e sem sentido.
No pátio do sítio em Cachoeirinha do Sul - sítio com nome e tudo agora: Imbaúba, nome de árvore como sempre quis -, bem debaixo de um araçá, a dois metros da janela do quarto, ela pendurou uma bandeja de madeira. Era para tratar os passarinhos incidentais. Gostava disso, se preocupava com isso, pensava nisso. E quase só vinham canarinhos-da-terra e suas namoradas as carijós. Eram também muitos. Um que outro chupim, sabiá-laranja, tico-tico, sem-fim e beija-flor-tesoura-verde este que até buscava também o néctar das flores vermelhas ou brancas... entendeu?! 
A colega Içaúba um dia começou a tuitar e retuitar com isso:
- Achei ter visto ocê na rua Mariaté.
- Quando? Por quê?
- Aqui em Cascavel, 22h da noite, por aí...
- Acho que nem... porém todavia entretanto...
- Parecia com você, era bem parecida e tal...
- Que cabelo?
- Um cabelo exótico, tipo bem branco em cordas...
- Como aquela da novela bíblica?
- Isso, justamente...
- Então, foi engano, é...
- Tá, então, tudo bem contigo?
- Estou indo para Juiz de Fora e depois ilha das Pedras ou ilha do Imperador...
- Com os melhores votos e cumprimentos!
- Sinceramente verdadeiramente sua!
A filha de Aline estava com dúvidas. Qual sapato vermelho adquirir? Um, qual; dois, quais? E tinha mais meia hora para gastar especulando, pensando, fazendo escolhas, decidindo, passar o cartão.
- Quanto custam os dois?
- É tanto, senhorita.
- Então, me vê também aquele lenço de pescoço, aquele mesmo com tomada aérea de ilha da Restinga em Cabedelo.
Uma árvore gigante. Ela pensou. Uma árvore verde. Ela permaneceu pensando. Uma árvore quieta. Ela pensava. Uma árvore na paisagem do centro da cidade de Nova Santa Rita. Ela ainda pensava como ninguém. Uma guria curiosa na janela do parque hotel Quiriri. Uma árvore ela pensou. Uma árvore jacitarapuí é um carma muito lento e demorado.
Entrou para Porto Alegre às 11h e 12min. O dia estava no compasso, claro, quente, lógico, oportuno, arroio Dilúvio, avenida Ipiranga, bairro Praia de Belas.
Um picolé no bairro Floresta. O jornal debaixo do braço, pura distração para nem ler, no máximo as manchetes de capa e contracapa.
Táxi até o hotel Tuim de chofre com o estuário Guaíba. Que já foi rio.
Um restaurante no quinto andar no centro da cidade, tipo às 3h e 13min da tarde. Um barco no rio, descendo para a lagoa dos Patos. Onde agora é laguna.
Uma pernada na Redenção. Um sorvete de goiaba-do-mato na esquina das ruas Cacimba de Areia com Cacimba de Dentro.
Vinte e duas a obrigação, fazer o quê.
O vento da noite repassou o mundo das coisas na cabeça da filha de Aline. Ela se enrolou como um cachorrinho tímido e friorento. Um cão sempre está esperando algo alguém e comida. Nem dorme nunca, de todo.
Uma árvore duas toneladas e meia, cento e vinte anos e alguns meses, trinta metros e outros centímetros, mil e tantos cajus por ano ao preço de tanto por quilograma. Tendinha na beira de frente em a praia da Cidade Nova. Os clientes chegavam com minirroupas e chinelas rasteirinhas de dedo.
17-rótulo.
Com as palavras de Aline: desídia, imponderável, atavio, lidador, terrado, sarau, louçainha, compatibilidade, eflúvio, selha.
17-parelha.
- Tudo me parece bom aconchegante explicativo.
Pois a filha de Aline foi no horto buscar e adquirir uma mudinha de imbaúba. Por que imbaúba? Uma imbaúba das boas e do gosto das formigas. Levou duas, levou mais, decidiu na hora plantar muitas. Que tipo de solo, que tipo de clima, quanta água, quanta sombra, quanto vento? Adotou essa ideia há poucos dias.
Ela uma guria instintiva, bem-apessoada, imponente, animada, turbante de seda florido:
- O que devo fazer se nem aparecer o sol? Esta cidade tem um apenas museu.
E gostava sempre gostou quando aterrissava em Maceió. A varanda do mesmo hotel Ocara. Deitava na rede na sacada e torrava ao sol. Pronto, cardumes de nuvens, enxames de nuvens, bandos, cáfilas, alcateias grupos de nuvens. Assim mesmo muito sol e calor. Lá em cima passava o rasto do vento, nem o mesmo vento daqui de baixo. Nenhuma desgarrada. Entardecendo. Nuvem com cara de bicho de ave acanati, por ex.
De vez em quando buracos entre as nuvens para ver a terra. As luzes das cidades, Maraã, Uarini, Cana Brava do Norte... e mais estrelas incontáveis. Rio Miriri e o bairro Pedra de Guaratiba. Se nem fosse um barulho de ronco de motor. Parecia um tapete de algodão pairando nas alturas da noite da noite. Após despontando a pedra do Baú, depois a reserva dos iaualapiti, ainda veio o chão do Confins.
Ao andar princípio da natureza e todos viam ela filha de Aline tinha na rua das Alfaias a calçada de pedras basálticas vamos ver! o corpo alongado tudo natural etc a cabeça o pescoço os ombros mas identificada muito pelo andar precioso e correto e ensaiado. Recém-chegada. Também tinha um sol para cada habitante um morro com árvores casas ruas uns barcos dormindo no ancoradouro e o sol e o céu. Agora a rua Barão do Amazonas.
Amanhecendo na ilha do Arvoredo, rente à ilha do Arvoredo. Ela sentada no iate, em companhia. Os periquitos-de-asa-azul voando para a ilha do Arvoredo. Uma pequena enseada acomodou o barco. Ouvindo os periquitos e a enseada. Os caras pescando, as colegas pescando e rindo. Ela olhando a enseada, os periquitos entrando na ilha pelo alto e gritando, o sol aparecendo de vez, um pouco de cerração típica das manhãs, sol nascendo e gaivotas. E o barco na enseadinha pouco balança. Ela pensou ter visto um galeão de corsários piratas. Pensou mesmo. Uma tropa deles.
- Hum!... Feita rarefeita refeita perfeita.
De novo ela deitada na cama com preguiça, e nua. Fazia calor e era verão e dia quente de sol no mundo todo. Pela manhã cortara os cabelos máquina zero. E para disfarçar novos brincos grandes e balançantes e ruidosos e faiscantes e ricos. Mas estava deitada sem nada por cima.
Choveu aquela tarde um exagero. Ninguém vinha visitar. Por que chover tanto assim? Telefone nem tocou. Telefonar? Mas chovia tanto que a cidade ficou encoberta pelo som das nuvens baixas. E chovia orgulhosamente desde o sétimo andar do prédio. Chovia muito, e emboralá! espontâneo.
Chegou no terreno do sítio de Cachoeirinha do Sul e plantou o pezinho. Esburacou. Colocou a plantinha e encheu o resto com terra preta. Regou. Ficou olhando o caso com saudade já da planta alta e grande e falante bem na sua frente. E falou com ela:
- Vê se cresça e apareça e floresça e abrigue umas formiguinhas!
- Nem tem de quê.
Ela preferiu andar pelas ruas àquela hora. Com certa pose, mas sem muita pressa. Para nem parecer desocupada e à toa. Reparando ali e aqui, azedas-de-são-paulo, inhames-cigarras, jarmins-do-mato... Olhando vitrines da rua Bela Vista do Piauí. Olhando e com um embrulho debaixo do braço. E com olhar no chão? Quase raspando o chão. Um olhar vago e cansado e despreocupado. Fazendo horário. Parou de repente e comprou um sorvete de caju com abacaxi com pitanga. O jeito era ir ao cinema ver a estreia longa metragem 3d “As Tranças do Careca”.
17-divisa.
A tradicional praça - o pai do Joel sabia de cor - sempre cheia de árvores altas, jardins com cerquinhas bonitas para bicicletas nem entrar, onde havia um chafariz nos tempos antigos, monumento do melhor escritor da cidade o seu Cruz e Souza, algumas cigarras endoidecidas azucrinando, sombra de saboneteiras verdes e altas, pássaros atores, curiós, corruíras, pica-paus-do-papo-amarelo, quero-queros, soldadinhos, tiriris... mulheres com vestidos curiosos amarelos vaporosos coloridos desenhados à mão, casal de pombas-rolas arisco.
Um moço de nome Ubá Ceata, disse se chamar assim porque nascera de uma árvore ou debaixo de certa árvore com esse nome, esticou a voz e galopou mundo afora imitando extravagante, extraordinário:
- Quando as pedras surgiram monoblocos.
“Quando foi, foi devido às duras tempestades de inverno às duras penas. E se amontoaram se atolaram perto dos rios e lagos, arroio Inhanduí e rio Tacutu... os exemplos. Depois posteriormente fizeram a usina hidrelétrica Serra do Facão lá em Catalão.
“Assim, ali, ficaram sonhando um bom tempo com dias melhores e maduros.
“Veio o verão e a água baixou. Apareceu a serra do Oratório. O governo legitimou a reserva de desenvolvimento sustentável Mamirauá.
“Com fome, as pedras resolveram crescer e se tornar gente bípede. Mas ainda dependiam de muitas outras coisas externas para serem atrizes. Dependiam das chuvas, por exemplo. Dependiam da reserva biológica do Tinguá. Dependiam da maravilhosa curtida procurada praia de Marambaia.
“Um casal teve 12 filhos: 6 meninos e 6 meninas. Tanta fertilidade causou a ira o ciúme e o despeito de uma árvore venenosa que decidiu matar a todos. Todos os viventes do planeta, sem exceção. A árvore nociva fez o que fez criando até certo ponto as ruínas do parque São João Marcos, uma vez.
“Depois, a mesma árvore ciumenta comeu o cérebro de cada um deles. Ao se alimentar dos cérebros das vítimas, a árvore fanática cometeu um crime hediondo. Por quê? Porque só aos vermes, que são nojentos e asquerosos, era permitido tamanho atrevimento. Os deuses e deusas nem permitem que ninguém saia dos limites nem seja melhor que ninguém.
“A árvore indigitada então foi condenada ao jeito que hoje se encontra. Como? Quando? Com galhos e folhas ao vento, com flores, com frutos, com frutas de época em época mas... presa e exilada e destinada às raízes profundas da terra.
“Os doze assassinados as doze vítimas com seus cérebros comidos pela árvore, se encontraram no mundo do além muito alto muito alto. Um mundo de ar puro perfeito e espiritual. E se uniram e decidiram fazer de tudo para voltar. Porém eram almas azuis. Acharam injusto a sorte que tiveram e precisavam ter mais uma oportunidade, queriam lutar por isso, ter mais um tempo na terra, no aquém, etc. E a quem perguntar?
“Por isso contrataram um pajé dentre os fantasmas por ali perdido entre as nuvens e que sabia de mágicas e alquimias. Quem sabe ele conseguisse pudesse, com sua grande astúcia e meneios e gritos e fumaças e temperos e feitiços em geral e os mais secretos, defender a causa dos doze mortos prematuros.
“Esse pajé - de nome Ubá - era muito velho e velhaco e pelintra. Mas porém e até, um sábio natural de Arari filho da floresta amazônica Amazônia Legal.
“Com isso, e com a ajuda do fantasma da mãe do pai, o pajé conseguiu salvar pelo menos quatro dos mortos prematuros: dois moços e duas moças. Para que no mínimo a terra continuasse procriando. Os dois casais, os quatro, antes de partir de volta para o aquém, prometeram de pés juntos retornar quem sabe um dia ao céu para agradecer e presentear e reverenciar os espíritos nublados. Refazerem as tais e quais idas e vindas.
- Temos intenções de voltar um dia para este ar rarefeito! Aguardemmm!...
“O pajé também conseguiu escapar do mundo dos mortos disfarçado de gavião-carijó atravessando o rio Mutum a bolapé. E foi morar longe das pessoas que podiam reconhecê-lo, longe da aldeia damacuri, longe de Capão do Cipó, distante de Alvarães, longe distante da serra do Imaruí, para mais pra lá de Barcelos ou a serra do Aracá. Passou a habitar uma ilha entre o rio e o mar, ilha essa recém-nascida de um sutil movimento da terra ilha bonita e secreta e anônima ilha mana amiga companheira comadre ilha repintada de pindobas-do-sul de araçás-cinzentos de macaúbas-mirins... e ao abrigo da gruta do Centenário.
“Hoje em dia, então, devido isso tudo que aconteceu, as pedras são consideradas gente no melhor modo de dizer no bom sentido da palavra. E se espalharam se espalham pelo mundo, nadam no rio Ibicuí, por exemplo, e vão aportar em Inhaúma, Santa Teresa, Rio Claro, Monte Alegre, André da Rocha, Alvinópolis... como exemplos.
“Mas com o dever de morrer e voltar tempo cumprido para o além. Um dia desses, quem sabe.”
17-letreiro.
Foi quando muito por esse tempo que se planejou uma sorte e que vou narrar e contar como foi onde foi.
A filha de Aline aquiesceu, meneou a cabeça, passou as mãos nos cabelos. Saiu no corredor social. Pegou o elevador quase silencioso, e aromatizado. Vista panorâmica ampla da cidade de Marília. A porta corrediça de vidro que dava pra rua Gonçalves Dias abriu automaticamente. Vasos com os tais antúrios. Sensação invasiva. O barulho e a agitação e o calor da cidade entrando pelo seu metabolismo. Despertou de todo. Foi caminhando pela calçada, escolhendo um destino qualquer, bairro Catumbi, admirando os pontos comerciais. O mundo parecia além aquém suficiente excessivo, etc., por ex. Desfiles comidas e doces na padaria na lancheria na confeitaria pensamentos olhar céu universal abano de cabeça e o sorriso fácil. Convenhamos.
Já subindo a rua Assunção do Piauí, ela bateu a mão na cabeça e acabou de bagunçar ainda mais os cabelos, pensando, olhando o chão. Um mongo cantando no galho da mandioqueira. Um beija-flor-preto procurando néctar nas flores da colher-de-vaqueiro. Pois um colibri nunca se aborrece e tem o coração melhor que tudo. Prédio decadente, talvez século passado, antiga loja de secos e molhados. Zoou a buzina na curva da avenida Presidente Vargas com a avenida Castelo Branco.
A porta lateral da caminhonete deslizou suavemente e a filha de Aline entrou, e sem dizer nada nem ouvir nada. O automóvel parou num prédio comercial dos grandes. As coleguinhas quase de sempre estavam ali na porta de entrada, rindo, conversando alto, fumando, rindo, gargalhando, telefonando, a Letícia a viu ela primeiro:
- Daí, guria do meu coração alegrado!
- Já sei. Conta uma novidade.
- O mundo é suco de caju ou pequi!
- E então vamos receber em lingotes de ouro.
Saía, àquela hora, muita gente do shopping Aljube Aracadaini. Todos carregados de sacolas e sorvetes e telefonando. Pracinha de entrada com árvores epítetos engraçados, caaxiós, oanaçus, moreiras, canudos-de-pito... As duas colegas foram entrando, assim meio remando contra a correnteza, nadando contra a maré. Parede de massa corrida já pintada de azul e desenhos criativos.
- É verdade! Mas descansa, vai!
A modelada Letícia exalava sensualidade até pelos olhos, pela boca, pelo hálito, pelos muxoxos, pelos verbos e adjetivos separando as sílabas. E Letícia cheia de cabelos de um lado do outro. Ambiente climático e novo em folha.
- Letícia, minha nega!
- Que que é guria?!
- Me vende um beijo gostoso e aqui e agora! Assim vou pegar o teu rosto com as duas mãos e te chupar de canudinho!
- Você só nem parece mas é uma criança! E uma amiga de coleção!
O inferninho no último andar do shopping. Luzes tipo girândola cortando o salão com cheiro de espumantes, vinhos, cervejas, caipirinhas, peixes fritos e gargalhadas. Praticamente muito mais colegas que homens. Os caras eram todos de família com eira beira tribeira algibeira e sombreira. 
- Fala alguma coisa picante.
- Butantã.
- Fala coisa muito de água boa!
- Cachoeira do El Dorado.
- Fala um lugar melhor e mais protegido!
- O pana do Jaú.
A filha de Aline girou a cabeça com velocidade controlada ou comportada para fazer seus longos cabelos aproveitar o movimento e jogá-los para as costas. Viu isso num comercial de xampu cabelos suaves e leves e brilhantes e femininos.
O tipo a sua frente tinha um cabelo repicado, loiro, óculos escuros, cerveja na mão e cara de qualquer coisa que se queira dizer na hora da necessidade, ou seja, simboralá!
17-dístico.
Com as palavras de Aline: favônio, palavra-ônibus, acerbo, palavra-valise, nímio, palavra-chave, sainete, trucar, requestar, frívolo.
17-lema.
Entre as ruas de Porto Alegre ambas a rua Luciana de Abreu com a rua Santo Inácio, iam e vinham.
O gliptodonte com a altura do mundo nos ombros nas costas na paleta, etc. Tinha poucos inimigos olhando bem nenhum mesmo até por isso nem correu risco de extinção. E está aí, móvel e cascudo como um carro de piloto automático. Nem tem mais estômago para destilados fermentados derivados aperitivos licores sambas limãozinhos caipirinhas. O horto entupido das árvores dos arbustos das plantas típicas do mato das veredas, oeiranas, espelinas-verdadeiras, pepinos-de-papagaio, juncos-de-cobra... O ar nem só de aviões nuvens e dos pássaros das aves bacuraus-pequenos capuchinhos perdizinhas-do-campo guaxes... As ruas becos dos cachorrinhos animais domésticos pequenos irracionais carentes humanos. Prefere nem se atrapalhar com trânsito de pessoas de automóveis de restaurantes de repartições públicas. Pois o gliptodonte nem fala nem resmunga é enrolado até as orelhas. Mora em o bairro da Trindade mas pode aparecer nos lugares próximos adjacentes pegados andando a esmo bairro da Pavuna bairro Marechal Hermes bairro Ricardo de Albuquerque... Ganha um pouco do governo por serviços prestados, de repente até um esmifra e desses por aí. E olha as horas ordenadas no cebolão com admiração elementar para o período da manhã, 8h e 18min, cláusula elemento condição fator.
Eu fui ao encontro das coincidências. Quem nem vai que dê a pedrada primeira. Em Porto Alegre pela cidade peguei o ônibus até o Beira-Rio. Era dia de sábado de manhã e à tarde jogo com a SER Caxias válido pelo Gauchão. Na volta a pé Cidade Baixa e as ruas da República e José do Patrocínio e General Lima e Silva... no mínimo. Chego em casa no hotel entre outras coisas pego meu livro, já à noite, umas histórias do cronista Juremir Machado da Silva o mesmo cruzamento perambulando fizeram os personagens. Eu acredito! Coincidência é isto sim, e eu me sinto bem. Coincidência é notícia boa. E vale um pedido que será atendido. Nem sou calango nem sauveiro nem capimpeba nem embiruçu, e eu desço como outro qualquer é o meu rio Surumu em a reserva indígena Raposa Serra do Sol. Quem tá no rio é pra navegar!
17-máxima.
Tão buscada, tão querida, ao mesmo tempo tão inextricável, a filha de Aline acordou, acordou por partes, vigésimo andar, acordou por etapas e postas, abriu um olho, os dois, suspirou sem querer e tentou aprender os objetos do quarto do hotel Baru, sempre hotéis, sempre quartos estranhos, já nem ligava mais para a decoração, tudo bem, levantou e foi pro banho, casa de banho, piscina, banheira, ligou o rádio de cabeceira, foi pra dentro da ducha refrescante. Mas se fosse pensar...
- Estou pensando ou estou caminhando pela curva da Guajuvira?
O sul o oeste, latitude 22°12’ 2’’, longitude 15° 13’ 5’’, altitude 600m, temperatura média de 25°C, fuso horário em relação a Brasília mais 2h, cidade de Cruzeiro do Sul, Estado do Acre, hotel de floresta Aracê. E quem conhece já viu.
Noite longe, estrelas em números infinitos, estrelas em figuras de animais, estrelas pintadas de cores quilométricas, nomes próprios e mitos; manhã perto original, engraçada, cheia de joões-de-barro e camaxilras, árvores se mexendo, manjerona-do-campo, alecrim-do-mato, aroeira-do-rio-grande, goiaba-de-espinho... mas tudo simbolicamente aéreo. Novo Hamburgo e parque Floresta Imperial antes do almoço.
A filha de Aline andava de bolsa a tiracolo, rua Barreiras do Piauí, olhando as vitrinas sem entrar nas lojas, viu na livraria uma capa com mulher bordada no colo e braços e uns já cabelos volumosos e fofos. Total: comprou o livro.
A corrente de pensamentos a levava para onde, parque Terra Ronca, Óbidos, Ereré, São Francisco do Oeste, Rorainópolis... Suspirou profundamente. Bloqueou a mente. As estrelas nasciam na noite de Brasília e DF.
Menos prazer com mais trabalho, totalidade: salário.
As coleguinhas da filha de Aline vieram muitas de todos os ângulos do país para o festival dos produtos alimentícios sem pesticidas da Paru-Ubá. E eram magras e despojadas na maioria, as garotas. Letícia sorria e se agarrava ao cotovelo da amiga predileta melhores amigas. Janaína de olhos enviesados, magnéticos, sarcásticos, sardas na pele de todo o rosto, cabelos vermelhos e lindos, curtos, esfiapados, um sorriso largo e preciso, sensualidade arrebatadora. Ana Paula olhos verdes hipnotizantes original de Pereiro. Bárbara hipnotizantes olhos azuis. Nádia negros hipnotizantes olhos grandes. Marilena se movia com graça, engraçada e suave. Helena ficou assim por mais de três horas e natural de Catas Altas. Diversas cadeiras de todos os tipos e sentadas pernas longas cruzadas. Ângela magnífico olhar castanho e sorriso constante. O jardim com águas deslizantes, crepitantes, correntes, borbulhantes, efervescentes. Originalidade leveza Junara nacionalidade estilo havia uns sorvetes no caminho e até mesmo movimento e comédia abundância de cabelos escovados abacaxi caju açaí. Espumantes frisantes trescalantes correntes, fluentes, estridentes, risonhos.
No cinema acompanhada de pipoca e uma barra de chocolate, bem possível: o espião que nem acreditava em mistério, o espião que nem esperava em mistério, o espião que nem conhecia em mistério, o espião que não entrava de jeito nenhum em mistério. O espião e a espiã o casal que veio da serra dos Cristais e particularmente de Santa Isabel do Rio Negro.
Dez dias de férias no sítio Imbaúba e a filha de Aline colhia jabuticabas do seu pequeno jabuticabal. Era bom, blupe!... Frutos doces para gente gulosa como ela, frutos doces para pássaros morcegos formigas e até bicho-preguiça e mesmo macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta, se fosse o caso.
Os olhos dela, os grandes olhos claros vagavam por tudo sem ver nada e ninguém. Se levantou do banco fofo, caminhou até a janela aberta, voltou logo logo ao banco de pano, procurou os cabelos lisos; muita coisa junta.
- Se eu fosse pensar eu andaria pela calçada da rua Olavo Bilac em Oriximiná ou por aí mesmo pela curva da Guajuvira, hein?!
O tempo seria uma roda, um cão mordendo o rabo, uma bola, um bando de chama-marés, um círculo, um jogo de xadrez. O tempo seria infinito e circular. O tempo seria repeteco do passado do presente do futuro do passado. O tempo seria a piramboia.
Pegou o Salgado Filho umas 23h e 11min, baldeação em Guarulhos\Cumbica talvez aí pela 2h e 21min, até chegar no Galeão quem sabe 3h 36min. Duas revistas e uma de cruzadas? Os cochilos e devaneios, isso sim!
- Voando a doze mil metros ou quem sabe passeando em a curva da Guajuvira, entende?!


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