Apareceram Jegue carregado de Moça. A
dupla em cheio em meio do território terrão bem pelas dez e doze. Eram dez e
quinze. O sol as constantes correntes de poeira tudo era muito calor e confuso
e sufocante. A caatinga em dia de sol chapado e poeira poeira nos olhos. Fazia
um calor mormacento.
Pouquinho antes da aldeia, aconteceu isso: Jegue
travou as quatro rodas as orelhonas cruzaram recruzaram e nem queria dar mais
um passo e de jeito nenhum. O burrinho ficou estátua. Focinho filtrando a
poeira reinante insuportável. Ouvidos à espreita.
Seu quadrúpede com Moça nas costas desenhados no chão
em a sombra da manhã. A hora que ia passando tiquetaqueou Jegue e Moça
indecisos. O vento que sempre dizia aaaaa e terra solta no ar quente queimada.
Jegue de olhos azuis e pelo cor cinza pela Moça de
olhos acinzentados. Empacou e amarrou o burro. Dali ali além nem mais. E riscou
a pata dianteira na terra seca requeimada chamejante. Ainda chiou zurrou ooooo
até a Moça se flagrar que era o fim da linha da picada.
Moça as pernas longas os pés em
sandálias franciscanas de pescador quase arrastando o chão. E levava o cabelo
cor de fogo todo torcido no alto da cabeça e preso por espetinho de osso marrom
brilhante envernizado. Boleou a perna apeou do Jegue dorso em arco e esperar o
quê.
E ela com a descolorida cara de maquiagem-poeira. Vê
se achava uma saída miraginal. E nem soube mais o que fazer. E ele olhava à
frente olhos fixos em alvo olhos lacrimejantes cheios de poeira. Jegue tinha
nome de árvore. Moça já nem sabia o que dizer o que fazer quantas vezes passou
as mãos nos cabelos engomados aterrados.
Pois Moça pegou a bolsa de couro cru a
tiracolo passo compassado para fugir de uma possível intermação e seguiu desacompanhada.
Caminhou trocentos mil metros em duas horas e tanto. Sol entre nuvens pesadas
de poeira vermelha. Mais meia hora. Passos deixando rastos. Mais outro tanto. E
mostrava maneira jeito de balançar os braços em o caminhar. Fazia um calor de
quarenta e sete graus.
E Moça entrou na aldeia Santa Luzia na manhã das 11 e
22 horas. A coisa evoluiu. E veio 13h e 30 min. Para falar ministério, ela
procurava um ser das espécies dos fanerógamos - podia ser oposto ou nem -, do
signo de capricórnio, para com esse juntar as manias e idiossincrasias e horas
e dias e anos de por vir.
Um tempo teimoso que caía sobre a
pacata ou pataca aldeia de Santa Luzia. Nem chovia há meses. Plantas já haviam estorricado.
Um silêncio de tudo abandonado sem insetos ou quaisquer outros bichos
semoventes, etc. Um calor impossível. Diferentes crianças, pés descalços e cascosos,
brigavam e fumavam cigarro de palha na calçada da capela. Calor de fornalha. Golpes
de vento jogando terra seca na cara. Calor terrível de derreter o rasto da
freguesa.
Que a Moça se dirigiu ao ex-açougue para
ter com onde quem conversar. Queria muito tomar um comprimido para dor de
cabeça. Suando pegajosa perfume vencido cabelos empapados. Estava cansada
demais, a boca cheia de terra. Sol inclemente das quatorze. O ex-Açougueiro lhe
apareceu de supetão pela esquerda e:
- Ei, Moça! A Moça chegou a pé, cansada
e desabitada?
- Olha, meu! Sei que é difícil, mas preferiria
um chá de cidrilha.
- Uma coisa eu garanto garanto. A vila
nem come e nem bebe há doze anos dois meses e duas semanas e vinte e dois dias.
Moça contou até cinco dedos. Fácil
chegar num lugar estranho e já fazer de conta que tinha aprendido as quatro
operações. Mulheres boas fazem sensação pelos quatro cantos e muito
rapidamente. Moça nem era de marte nem de saturno nem de Divinópolis nem de
Ibaté nem de Itaboraí nem de Corumbá nem de São Miguel do Araguaia.
Moleques unidos na pracinha a fim de
derrubar, do alto daquele galho seco de paineira derretida, derrotar mesmo um
molequinho o mais jovem entre eles de uns onze anos com feições de trinta. O
pequeno via aquelas pedras voando muito perto da cabeça uuuuu e nem bola. De
repente, até pensava fossem comidas voando, mas... passavam tão rápidas uuuuu passavam
tão nervosas sozinho passavam tão assoviantes uuuuu. E moleques ali do chão
caprichavam cada vez mais com as estilingadas, bodocadas, fundadas. Que um pivete
o acertou tooooo bem nos peitos. Foi uma comemoração geral, alarido, escarcéu,
gritaria, barulheira. Molequinho empoleirado, ou avezinha torta, o atingido em
cheio, caiu com tudo, se despencou, voou sem querer, sem as asas, caiu direto
no chão tuuuuu já durinho, sem um pio, desfolhando as perninhas, erguendo
poeira, esparramando as asinhas e os bracinhos e os cabelos engessados de terra.
E gurizada aplaudiu o seco atirador, o certeiro atirador, bater de latas,
gargalhadas, pontapés, petelecos nas orelhas, tapas fortes taaaaa nas costas.
Assim, que horas eram?, Moça ficou
conversando assuntos ali no ex-açougue com o ex-Açougueiro. Conversa que o ex-Açougueiro
olhos amarelos puxava afiava o facão testava a serra de fita e vestiu o jaleco
apropriado.
E Moça aceitou aquele papo baaaaa porque nem tinha
nada de certo para aquela tarde naquele lugar fodido. Já passavam das quinze
horas. Dezesseis horas e quinze minutos. A coisa evoluiu. Dezesseis e cinquenta
e cinco. Quantos assuntos? Oito, nove, vinte, quinze recontos um atrás do outro.
Cinco e mais seis da tarde. O saci rodava rodopiava no meio do pó vermelho da
única rua, rua Única. Fazia um calor modorrento. Moça nem viu o ferruginozinho,
viu foi só o redemoinho, ouviu o iiiii. Às cinco e meia da tarde. Moça fingiu nem
ter sono, mas quase dormia, vacilava, pescava, batia cabeça, e delirou:
- Eu fui essa figura no quiosque comendo pastel de
queijo com garapa em plena praça José de Alencar em o Rio. Eu fui ao Rio em
junho uma vez na primeira e fui outras e pretendo mais algumas.
- Eu lá estive já um tempo, dois anos atrás, morei dois
meses e duas semanas e dois dias na ilha de Marajó. Nadei de peixe gurijuba
apapá aruanã curimatã andei de barco e fui muito ao redor das ilhas e mais
ilhas e canais do tal arquipélago de Marajó. O boto-cinza o peixe-boi a
pororoca o grande rio Amazonas Melgaço Soure Afuá o oceano Atlântico uau. Eu já
tinha apreciado “Três Casas e Um Rio”.
Depois, Moça se arrastou como um lagarto bêbado até uma
pequena janelinha lateral. Suor cintilante na testa. Nem tinha pressa em fazer
as coisas. Subiu pela parede. Media a parede a palmos. Paciência ou
complacência. No fundo do delírio procurou fazer um plano de fuga, e caiu. Tanto
sono nem era para menos e:
- Acho que... vou cair... desta pa-rede...
opa...
Os pés querendo andar as mãos agarradas
na parede que caía com ela sobre ela. E se pegou pensando, perdeu o que
pensava. A parede raaaaa caiu junto. Suando muito o peito sufocado. Imaginou coisas
do passado distante e nem tão distante, delirou:
- Eu compareci presente no carnaval de
Olinda. Igual todo mundo, subi os morros de Olinda e olhei Olinda coqueiros-carandaí
e o mar de Olinda. Coisa em si pra nós todos tão liiiiinda. E dançamos frevo na
frente da igreja de N S das Neves. Também, o dia os turistas a vista estavam
tão lindos!
- Eu corri nós corremos era eu e ele,
corremos até alcançar a marquise da loja de ferragens Timbé. Chovia como nunca
como sempre como D mandava. Sem parar de rir sem galochas verdes guarda-chuva
sem capa transparente impermeável. Plena tarde fim de tarde rua Voluntários da
Pátria começo de verão fim de dezembro capital dos gaúchos.
- Eu, de volta de Valença, eu que já
conhecia a taba dos praquio, fui levada para dois dias em Vitória. E a primeira
coisa que fiz em Vitória foi olhar o forte São João, de longe. De noite mandei
e-mails. E a manhã seguinte, a praia do Canto que se destaca merece.
O ministério da aldeia de Santa Luzia,
disso aí sem chuva sem chover, tinha muitos tucurus de anos e anos abandonados.
O saci, a bordo do seu redemoinho em espiral, levava embora os redemoinhos e
escondia todos os rastos de todos. Tudo vermelho e o que não era cinzento,
poeira e calor.
Uma bola atômica abrasava a vila o fim
do mundo o fim dos tempos tudo. Um sol medonho que só fazia esfarelar pulverizar
a terra. Daí, uns bafos de poeira vermelha, venenosa, daninha, irrespirável.
- Eu andando de bicicleta. Meu caminho
preferido. A praça o horto o parque. Pedalando. Quando jaguapebas passeiam de
coleirinha com as donas. E parei na sombra de uma gigantesca pracaxi. Postada
ali olhando em volta um pé no chão outro no pedal as mãos no guidão. Era
relaxante re-laxante.
Pronto, agora assim, de Moça um peso
quadrúpede nos ombros canga pesada. Pendeu a cabeça para frente e capotou. No
meio da rua Única pequenos remoinhos parecidos com os malfeitos e feitiços e
arruaças e artes iiiii do saci.
Sete horas e tanto da tarde. Vinte
horas em ponto. A
coisa evoluiu. Vinte e pouco e vinte e tanto. Quase nove da noite. Uma palhoça
de telhado de sapê pegou fogo ministeriosamente. Uns aldeões e umas aldeãs
correram lá. Tentaram abafar as chamas atirando terra seca com as pás enxadas picaretas,
as cumbucas as próprias mãos.
Acordou acelerada ofegante e coberta de
suor. A imaginação berrava caleidoscópio eeeee corres berrantes variadas. Sentia
os pés frios enformigados. As mãos segurando a testa os cotovelos no balcão
muita muita fadiga. Pensou pedir um pouco de beijos nos pés aos pés:
- Alguém vem vindo...
A moça se viu agarrada com unhas e
dentes na cadeira. Nem conseguia traduzir o que o Açougueiro argumentava. Tentando
engatinhar, encontrar defesa, fazendo suposição. Do ponto de vista da moça, ela
já dormira e acordara dez vezes naquela última hora. Na verdade já estava anestesiada.
Nem queria se entregar. Fazia um calor de matar. E o tempo, de repente, nem fez
a menor sombra menor diferença menor mossa. Nem ela mais se preocupou com o
peso dos minutos que não passavam. Olhos fora da cabeça. E outros fora do corpo
e sobre o cepo do açougue.
Os bichos noturnos os diabos sempre
saem pela noite. Cada qual pega seu rumo como num trevo de quatro folhas. São
todos por si e procurando, o lobisomem, brigam como cachorros, o caapora, se
atiram pedras e paus e facas e tiros, a mula-sem-cabeça, disputam no coice no
soco tudo que encontram, o anhangá-pitã, irônicos neurastênicos vaidosos e demônios
infantis outros já adultos.
Os olhos abertos bolinhas de gude parados
no cepo. Era dia, era noite, era poeira, era delírio, era susto? Era ontem, era
hoje, era amanhã, era de manhã, era de tarde? Nem curto, nem longo, nem largo,
nem alto, nem nada. Os olhos o olhar fixos sem brilho sem luz querendo ver bem
abertos sem ver fixos firmes longe. Tudo desaparecendo fugindo dos olhos. Meia
volta e volver. Seis a sete passos? Emergência, alerta. Os de dentro sair, os
de fora querendo entrar. Que horas? Noite adentro noite afora. Tudo parecia
calmo e andar sempre devagar. Falta do que fazer? Queria descansar e dormir
dormir.
Lá outro lado da rua, a ex-casinhola de
duas portas sem janela, o fogo comera tudo. O alto da noite pegava no breu como
um trapo sujo encardido de poeira e cinzas. Subia uma lua confusa poluída
contaminada. Nem havia razão nenhuma de nada.
O caapora passeava no capoeirão seco estalando
gravetinhos secos chutando pedras pedrinhas assoviando viiiii como
extraterrestre. Vento em ondas vermelhas pesadas aterradas. O caapora se
espojava no pó vermelho atrás dos tucurupucas abandonados. Dava muita bola para
a lua, as sombras de nuvens de poeira as estrelas os ventos com sabores de
terra queimada os planetas, saturno.
O Açougueiro puxou um pito do bolso do
casaco pendurado no cabide. Sentou fumou, praticamente sem tirar os olhos dos
olhos da moça. Agora era anúncio o preço os fregueses clientes espetinhos
tira-gostos aperitivos. Por onde começar o produto final? Que janelinha aberta
para a noite...
- E aí, vai que vai?!
de lua arrastada em plena onda de poeira fumaça. Um
silêncio sozinho mexido pelo vento aaaaa carregando a poeira vermelha as cinzas
cinzas.
Pegou Açougueiro passou passou algumas
peças no moedor. Um cubinho na boca para aplacar o seco da boca. A moça com os
embutidos. Onze horas da noite. Vinte e quatro horas. Uma hora. A coisa evoluiu.
Uma hora e dois minutos e doze segundos. A moça ensacada engarrafada amarrada
com barbante na ponta. Uma e tanto e passando...
O que o Açougueiro encontrou no bucho da moça?, vejamos
ali, então: uma tampinha de garrafa de cerveja marca importada engarrafada em Vassouras;
uma esferinha de aço de rolamento de roda de bicicleta dezoito marchas
lembrança do triatlo de Ribeirão Bonito; uma chupeta de plástico de mamadeira tamanho
de um dedo fura-bolo cor mais ou menos furta-cor; um resto de massa de tomate
Siparuna enlatada em Macaíba, Sergipe; uma moeda de cinco centavos platinada começo
de um milhão; um grampo de cabelo marca Iuberi; uma camisinha colorida de
amarelo e verde com sabor levemente caju; um farrapinho de lã sem cor definida desses
de limpar móveis e utensílios e óculos; um esgoto sobra baba de comprimido
genérico para dor de cabeça.
Quando muito, o lobisomem procurou
entrar nas choças das aldeãs solteiras, viúvas, nervosas, insones e a fim. Nem
importava a longevidade adiposidade escolaridade. E empurrou portas quase
despregadas, forçou janelas podres, subiu telhado de palha seca procurando cair
já dentro sobre a cama a esteira nos braços da anfitriã. O terrível mutante
querendo entrar a qualquer custo pagando o preço que for. E rondou as casas
pela noite toda, uivou, arranhou as paredes de barro seco, mordeu as paredes de
urupema trançada. As aldeãs solteiras nem conseguiram mais dormir nem rezar. Lobisomem
vezes ficou uivando ruuuuu aprendendo a assoviar em cima de tucuruvas
abandonados.
A mula-sem-cabeça veio pateando pela
única rua da aldeia de Santa Luzia, rua Única. Soltando labaredas, expelindo
fumaça, relinchando nem se sabe como ieeeee olhos lacrimejantes nem se sabe
como. Parou e cravou os cascos no pó da rua quando viu a lua ultrapassar uma
pequena nuvem de poeira. Aí, sim senhora, relinchou ieeeee.
O Açougueiro raspava os ossos os artelhos
da ex-moça. Duas horas. Duas e pouco. Mastigava uns petiscos aqui e ali, de guloso.
Duas e tanto da madruga. A coisa evoluiu. Três da madrugada - para uns era
tarde e para outros era cedo. O estava cansado, molhara a camisa, leve dor nas
costas com a hérnia de disco. A pancada insistente latejante de um lado do
crânio de um início de dor de cabeça crônica.
O nos últimos derradeiros e petiscava beliscava
assim e assim, de guloso. E faltavam rapar dois ou três dos ossos mais
delicados e pequeninos e charmosos do pezinho da ex-moça. Ela sempre fora
magrinha, modelo de magreza, uma elegância, caule de palmeira-iará, tinha
balança de precisão em casa. A noite ia indo embora. Três e meia. Três e trinta
e três tigrinhos tridimensionais trescalantes tigrando na trilha de trigo da
tribo: bem rápido. A coisa evoluiu. Três e quarenta e quantos.
A mula-sem-cabeça, ou burra-de-padre, pateou no pátio
da choça, catou a chave escondida no vaso de folhagem seca, olhou cuidou olhar
para os lados, ieeeee rinchou, mugiu:
- Melhor deixar o assunto me descansar, uma vez.
O lobisomem uivou ruuuuu com o coração desabrigado,
caminhando no ritmo do seu desagrado, a boca cheirando palha seca e terra
queimada.
E anhangá-pitã, de repente, se derreteu com os primeiros
respingos de sol e foi escorregar escorregou cheio de artimanhas teeeee fulminado
para o fundo do poço seco.
O viiiii caapora, cocar caído na cabeça, quatro e um
quarto, olhos cheios de poeira vermelha, andando de costas de volta para o ex-capoeirão,
lá para trás das casas de cupins vazias, e voltar a ser índio ou bicho
invisível.
Um redemoinho no meio da rua poeirenta.
Já era dia de dia outro dia quinze pras cinco. Antes um riso escarninho
madrugador iiiii. E lá se ergueu um pó vermelho e umas folhas secas rolaram
umas pedrinhas rolantes seeeee cantaram. E o saci aterrissou. O saci riu alto iiiii.
Olhou em volta... A aldeia já o conhecia, a vila já lhe cheirava conforme, e já
lhe pertencia. Farejou os rastos pelo pó vermelho da rua Única, esfregou as
mãos, riu iiiii. Depois saiu andando num quique. Saiu quicando e rindo iiiii sempre.
O sol esticou um ou dois raios
flagrantes, entre nuvens baixas de grossa poeira vermelha, raios contados raios
interrompidos raios raros raios sujos de poeira. O dia como que gaguejou e
tossiu acordando, balbuciou de garganta seca, estremunhou ainda tonto de sono e
preguiça e noite mal dormida. Os raios tímidos raiaram um a um e lenta e
fracamente. Fazia um calor de amassar de arrasar. O lugar todo de Santa Luzia acabado
e sem graça carcomido requeimado requentado.
Falando em ministério, o sol levantou
mesmo naquela horinha sem matinada. E já tinha suas flamas de fogo para sair
pelo dia poeirento. Pois o sol era uma lenda. O sol ou o dia de cinzas. Começando
pelo começo, o sol torrando a pequena vila perdida no meio do nada descampado. Outro
dia de sol que já se transfigurava em forno fornalha. Nem chovia há meses. Ao
meio-dia a bola de fogo já era uma bicicleta. Mas o sol era uma lua. Na tarde
abafadíssima, o sol já estava desfilando e falando com a senhorita Maria Alice.
Uma após hora era com a irmã da senhorita Patrícia, nativa de Ribeirão Pires. Na
sequência imperou tostar bronzear com Isabel mais Leopoldina, as princesas do
palácio São Cristóvão e Quinta da Boa Vista. Porém o sol era uma espaçonave. E
no fim do dia de janeiro, avermelhado, o Quaraci passeou para a noite em prata
com a Jaci. E no outro dia de pela manhã, nem muito cedo, cinco e vinte e cinco
da manhã, sem arvoredos e passaredos, antes do solzão, passeou no terrão
queimado do arraial com a filhinha Duda no colo. Era isso mesmo uma biografia
uma ilha uma caminhonete verdezinha tração nas quatro patas um chafariz
esgotado e um dia inteiro de sol imperial queimando carvão mineral.
Sol quente naquele momento, tudo
terminado, tudo embutido, cortado, retalhado, desossado, triturado, embutido,
costurado, moído, que o Açougueiro se sentou e fechou os olhos vermelhos vermelhos.
Cerrou os olhos por um momento sonhando com os olhos da Moça. As mãos bem
trêmulas do esforço, da pressa, do cansaço.
O saci entrou pulando e rodando pelo meio da rua poeirenta
dono do dia. Queria saltar virar cambota fazer círculos redemoinhos espiralados
dono do mundo. Queria correr nos remoinhos de pé-de-vento até o fim da rua e
voltar levantando poeira. E ria muito alto iiiii vaidade dos vaidosos erguendo
poeira vermelha.
Cinco e meia da manhãzinha ressequida
cor de palha seca. O dia já saía apontando pedras e faíscas. O sol vinha para
rachar mais uma volta no fim do mundo. O Açougueiro dormia sobre a esteira no
chão da lojinha abarrotada de embutidos gulosos. Eram cinco e trinta e um. Eram
cinco e quarenta. A coisa evoluiu. Eram quatro e cinquenta e seis.