terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Contos de Santa Luzia (12)


                                               
        
         Apareceram Jegue carregado de Moça. A dupla em cheio em meio do território terrão bem pelas dez e doze. Eram dez e quinze. O sol as constantes correntes de poeira tudo era muito calor e confuso e sufocante. A caatinga em dia de sol chapado e poeira poeira nos olhos. Fazia um calor mormacento.
Pouquinho antes da aldeia, aconteceu isso: Jegue travou as quatro rodas as orelhonas cruzaram recruzaram e nem queria dar mais um passo e de jeito nenhum. O burrinho ficou estátua. Focinho filtrando a poeira reinante insuportável. Ouvidos à espreita.
Seu quadrúpede com Moça nas costas desenhados no chão em a sombra da manhã. A hora que ia passando tiquetaqueou Jegue e Moça indecisos. O vento que sempre dizia aaaaa e terra solta no ar quente queimada.
Jegue de olhos azuis e pelo cor cinza pela Moça de olhos acinzentados. Empacou e amarrou o burro. Dali ali além nem mais. E riscou a pata dianteira na terra seca requeimada chamejante. Ainda chiou zurrou ooooo até a Moça se flagrar que era o fim da linha da picada.
         Moça as pernas longas os pés em sandálias franciscanas de pescador quase arrastando o chão. E levava o cabelo cor de fogo todo torcido no alto da cabeça e preso por espetinho de osso marrom brilhante envernizado. Boleou a perna apeou do Jegue dorso em arco e esperar o quê.
E ela com a descolorida cara de maquiagem-poeira. Vê se achava uma saída miraginal. E nem soube mais o que fazer. E ele olhava à frente olhos fixos em alvo olhos lacrimejantes cheios de poeira. Jegue tinha nome de árvore. Moça já nem sabia o que dizer o que fazer quantas vezes passou as mãos nos cabelos engomados aterrados.
         Pois Moça pegou a bolsa de couro cru a tiracolo passo compassado para fugir de uma possível intermação e seguiu desacompanhada. Caminhou trocentos mil metros em duas horas e tanto. Sol entre nuvens pesadas de poeira vermelha. Mais meia hora. Passos deixando rastos. Mais outro tanto. E mostrava maneira jeito de balançar os braços em o caminhar. Fazia um calor de quarenta e sete graus.
E Moça entrou na aldeia Santa Luzia na manhã das 11 e 22 horas. A coisa evoluiu. E veio 13h e 30 min. Para falar ministério, ela procurava um ser das espécies dos fanerógamos - podia ser oposto ou nem -, do signo de capricórnio, para com esse juntar as manias e idiossincrasias e horas e dias e anos de por vir.
         Um tempo teimoso que caía sobre a pacata ou pataca aldeia de Santa Luzia. Nem chovia há meses. Plantas já haviam estorricado. Um silêncio de tudo abandonado sem insetos ou quaisquer outros bichos semoventes, etc. Um calor impossível. Diferentes crianças, pés descalços e cascosos, brigavam e fumavam cigarro de palha na calçada da capela. Calor de fornalha. Golpes de vento jogando terra seca na cara. Calor terrível de derreter o rasto da freguesa.
         Que a Moça se dirigiu ao ex-açougue para ter com onde quem conversar. Queria muito tomar um comprimido para dor de cabeça. Suando pegajosa perfume vencido cabelos empapados. Estava cansada demais, a boca cheia de terra. Sol inclemente das quatorze. O ex-Açougueiro lhe apareceu de supetão pela esquerda e:
         - Ei, Moça! A Moça chegou a pé, cansada e desabitada?
         - Olha, meu! Sei que é difícil, mas preferiria um chá de cidrilha.
         - Uma coisa eu garanto garanto. A vila nem come e nem bebe há doze anos dois meses e duas semanas e vinte e dois dias.
         Moça contou até cinco dedos. Fácil chegar num lugar estranho e já fazer de conta que tinha aprendido as quatro operações. Mulheres boas fazem sensação pelos quatro cantos e muito rapidamente. Moça nem era de marte nem de saturno nem de Divinópolis nem de Ibaté nem de Itaboraí nem de Corumbá nem de São Miguel do Araguaia.
         Moleques unidos na pracinha a fim de derrubar, do alto daquele galho seco de paineira derretida, derrotar mesmo um molequinho o mais jovem entre eles de uns onze anos com feições de trinta. O pequeno via aquelas pedras voando muito perto da cabeça uuuuu e nem bola. De repente, até pensava fossem comidas voando, mas... passavam tão rápidas uuuuu passavam tão nervosas sozinho passavam tão assoviantes uuuuu. E moleques ali do chão caprichavam cada vez mais com as estilingadas, bodocadas, fundadas. Que um pivete o acertou tooooo bem nos peitos. Foi uma comemoração geral, alarido, escarcéu, gritaria, barulheira. Molequinho empoleirado, ou avezinha torta, o atingido em cheio, caiu com tudo, se despencou, voou sem querer, sem as asas, caiu direto no chão tuuuuu já durinho, sem um pio, desfolhando as perninhas, erguendo poeira, esparramando as asinhas e os bracinhos e os cabelos engessados de terra. E gurizada aplaudiu o seco atirador, o certeiro atirador, bater de latas, gargalhadas, pontapés, petelecos nas orelhas, tapas fortes taaaaa nas costas.
         Assim, que horas eram?, Moça ficou conversando assuntos ali no ex-açougue com o ex-Açougueiro. Conversa que o ex-Açougueiro olhos amarelos puxava afiava o facão testava a serra de fita e vestiu o jaleco apropriado.
E Moça aceitou aquele papo baaaaa porque nem tinha nada de certo para aquela tarde naquele lugar fodido. Já passavam das quinze horas. Dezesseis horas e quinze minutos. A coisa evoluiu. Dezesseis e cinquenta e cinco. Quantos assuntos? Oito, nove, vinte, quinze recontos um atrás do outro. Cinco e mais seis da tarde. O saci rodava rodopiava no meio do pó vermelho da única rua, rua Única. Fazia um calor modorrento. Moça nem viu o ferruginozinho, viu foi só o redemoinho, ouviu o iiiii. Às cinco e meia da tarde. Moça fingiu nem ter sono, mas quase dormia, vacilava, pescava, batia cabeça, e delirou:
- Eu fui essa figura no quiosque comendo pastel de queijo com garapa em plena praça José de Alencar em o Rio. Eu fui ao Rio em junho uma vez na primeira e fui outras e pretendo mais algumas.
- Eu lá estive já um tempo, dois anos atrás, morei dois meses e duas semanas e dois dias na ilha de Marajó. Nadei de peixe gurijuba apapá aruanã curimatã andei de barco e fui muito ao redor das ilhas e mais ilhas e canais do tal arquipélago de Marajó. O boto-cinza o peixe-boi a pororoca o grande rio Amazonas Melgaço Soure Afuá o oceano Atlântico uau. Eu já tinha apreciado “Três Casas e Um Rio”.
Depois, Moça se arrastou como um lagarto bêbado até uma pequena janelinha lateral. Suor cintilante na testa. Nem tinha pressa em fazer as coisas. Subiu pela parede. Media a parede a palmos. Paciência ou complacência. No fundo do delírio procurou fazer um plano de fuga, e caiu. Tanto sono nem era para menos e:
         - Acho que... vou cair... desta pa-rede... opa...
         Os pés querendo andar as mãos agarradas na parede que caía com ela sobre ela. E se pegou pensando, perdeu o que pensava. A parede raaaaa caiu junto. Suando muito o peito sufocado. Imaginou coisas do passado distante e nem tão distante, delirou:
         - Eu compareci presente no carnaval de Olinda. Igual todo mundo, subi os morros de Olinda e olhei Olinda coqueiros-carandaí e o mar de Olinda. Coisa em si pra nós todos tão liiiiinda. E dançamos frevo na frente da igreja de N S das Neves. Também, o dia os turistas a vista estavam tão lindos!
         - Eu corri nós corremos era eu e ele, corremos até alcançar a marquise da loja de ferragens Timbé. Chovia como nunca como sempre como D mandava. Sem parar de rir sem galochas verdes guarda-chuva sem capa transparente impermeável. Plena tarde fim de tarde rua Voluntários da Pátria começo de verão fim de dezembro capital dos gaúchos.
         - Eu, de volta de Valença, eu que já conhecia a taba dos praquio, fui levada para dois dias em Vitória. E a primeira coisa que fiz em Vitória foi olhar o forte São João, de longe. De noite mandei e-mails. E a manhã seguinte, a praia do Canto que se destaca merece.
         O ministério da aldeia de Santa Luzia, disso aí sem chuva sem chover, tinha muitos tucurus de anos e anos abandonados. O saci, a bordo do seu redemoinho em espiral, levava embora os redemoinhos e escondia todos os rastos de todos. Tudo vermelho e o que não era cinzento, poeira e calor.
         Uma bola atômica abrasava a vila o fim do mundo o fim dos tempos tudo. Um sol medonho que só fazia esfarelar pulverizar a terra. Daí, uns bafos de poeira vermelha, venenosa, daninha, irrespirável.
         - Eu andando de bicicleta. Meu caminho preferido. A praça o horto o parque. Pedalando. Quando jaguapebas passeiam de coleirinha com as donas. E parei na sombra de uma gigantesca pracaxi. Postada ali olhando em volta um pé no chão outro no pedal as mãos no guidão. Era relaxante re-laxante.
         Pronto, agora assim, de Moça um peso quadrúpede nos ombros canga pesada. Pendeu a cabeça para frente e capotou. No meio da rua Única pequenos remoinhos parecidos com os malfeitos e feitiços e arruaças e artes iiiii do saci.
         Sete horas e tanto da tarde. Vinte horas em ponto. A coisa evoluiu. Vinte e pouco e vinte e tanto. Quase nove da noite. Uma palhoça de telhado de sapê pegou fogo ministeriosamente. Uns aldeões e umas aldeãs correram lá. Tentaram abafar as chamas atirando terra seca com as pás enxadas picaretas, as cumbucas as próprias mãos.
         Acordou acelerada ofegante e coberta de suor. A imaginação berrava caleidoscópio eeeee corres berrantes variadas. Sentia os pés frios enformigados. As mãos segurando a testa os cotovelos no balcão muita muita fadiga. Pensou pedir um pouco de beijos nos pés aos pés:
         - Alguém vem vindo...
         A moça se viu agarrada com unhas e dentes na cadeira. Nem conseguia traduzir o que o Açougueiro argumentava. Tentando engatinhar, encontrar defesa, fazendo suposição. Do ponto de vista da moça, ela já dormira e acordara dez vezes naquela última hora. Na verdade já estava anestesiada. Nem queria se entregar. Fazia um calor de matar. E o tempo, de repente, nem fez a menor sombra menor diferença menor mossa. Nem ela mais se preocupou com o peso dos minutos que não passavam. Olhos fora da cabeça. E outros fora do corpo e sobre o cepo do açougue.
         Os bichos noturnos os diabos sempre saem pela noite. Cada qual pega seu rumo como num trevo de quatro folhas. São todos por si e procurando, o lobisomem, brigam como cachorros, o caapora, se atiram pedras e paus e facas e tiros, a mula-sem-cabeça, disputam no coice no soco tudo que encontram, o anhangá-pitã, irônicos neurastênicos vaidosos e demônios infantis outros já adultos.
         Os olhos abertos bolinhas de gude parados no cepo. Era dia, era noite, era poeira, era delírio, era susto? Era ontem, era hoje, era amanhã, era de manhã, era de tarde? Nem curto, nem longo, nem largo, nem alto, nem nada. Os olhos o olhar fixos sem brilho sem luz querendo ver bem abertos sem ver fixos firmes longe. Tudo desaparecendo fugindo dos olhos. Meia volta e volver. Seis a sete passos? Emergência, alerta. Os de dentro sair, os de fora querendo entrar. Que horas? Noite adentro noite afora. Tudo parecia calmo e andar sempre devagar. Falta do que fazer? Queria descansar e dormir dormir.
         Lá outro lado da rua, a ex-casinhola de duas portas sem janela, o fogo comera tudo. O alto da noite pegava no breu como um trapo sujo encardido de poeira e cinzas. Subia uma lua confusa poluída contaminada. Nem havia razão nenhuma de nada.
O caapora passeava no capoeirão seco estalando gravetinhos secos chutando pedras pedrinhas assoviando viiiii como extraterrestre. Vento em ondas vermelhas pesadas aterradas. O caapora se espojava no pó vermelho atrás dos tucurupucas abandonados. Dava muita bola para a lua, as sombras de nuvens de poeira as estrelas os ventos com sabores de terra queimada os planetas, saturno.
         O Açougueiro puxou um pito do bolso do casaco pendurado no cabide. Sentou fumou, praticamente sem tirar os olhos dos olhos da moça. Agora era anúncio o preço os fregueses clientes espetinhos tira-gostos aperitivos. Por onde começar o produto final? Que janelinha aberta para a noite...
         - E aí, vai que vai?!
de lua arrastada em plena onda de poeira fumaça. Um silêncio sozinho mexido pelo vento aaaaa carregando a poeira vermelha as cinzas cinzas.
         Pegou Açougueiro passou passou algumas peças no moedor. Um cubinho na boca para aplacar o seco da boca. A moça com os embutidos. Onze horas da noite. Vinte e quatro horas. Uma hora. A coisa evoluiu. Uma hora e dois minutos e doze segundos. A moça ensacada engarrafada amarrada com barbante na ponta. Uma e tanto e passando...
O que o Açougueiro encontrou no bucho da moça?, vejamos ali, então: uma tampinha de garrafa de cerveja marca importada engarrafada em Vassouras; uma esferinha de aço de rolamento de roda de bicicleta dezoito marchas lembrança do triatlo de Ribeirão Bonito; uma chupeta de plástico de mamadeira tamanho de um dedo fura-bolo cor mais ou menos furta-cor; um resto de massa de tomate Siparuna enlatada em Macaíba, Sergipe; uma moeda de cinco centavos platinada começo de um milhão; um grampo de cabelo marca Iuberi; uma camisinha colorida de amarelo e verde com sabor levemente caju; um farrapinho de lã sem cor definida desses de limpar móveis e utensílios e óculos; um esgoto sobra baba de comprimido genérico para dor de cabeça.
         Quando muito, o lobisomem procurou entrar nas choças das aldeãs solteiras, viúvas, nervosas, insones e a fim. Nem importava a longevidade adiposidade escolaridade. E empurrou portas quase despregadas, forçou janelas podres, subiu telhado de palha seca procurando cair já dentro sobre a cama a esteira nos braços da anfitriã. O terrível mutante querendo entrar a qualquer custo pagando o preço que for. E rondou as casas pela noite toda, uivou, arranhou as paredes de barro seco, mordeu as paredes de urupema trançada. As aldeãs solteiras nem conseguiram mais dormir nem rezar. Lobisomem vezes ficou uivando ruuuuu aprendendo a assoviar em cima de tucuruvas abandonados.
         A mula-sem-cabeça veio pateando pela única rua da aldeia de Santa Luzia, rua Única. Soltando labaredas, expelindo fumaça, relinchando nem se sabe como ieeeee olhos lacrimejantes nem se sabe como. Parou e cravou os cascos no pó da rua quando viu a lua ultrapassar uma pequena nuvem de poeira. Aí, sim senhora, relinchou ieeeee.
         O Açougueiro raspava os ossos os artelhos da ex-moça. Duas horas. Duas e pouco. Mastigava uns petiscos aqui e ali, de guloso. Duas e tanto da madruga. A coisa evoluiu. Três da madrugada - para uns era tarde e para outros era cedo. O estava cansado, molhara a camisa, leve dor nas costas com a hérnia de disco. A pancada insistente latejante de um lado do crânio de um início de dor de cabeça crônica.
         O nos últimos derradeiros e petiscava beliscava assim e assim, de guloso. E faltavam rapar dois ou três dos ossos mais delicados e pequeninos e charmosos do pezinho da ex-moça. Ela sempre fora magrinha, modelo de magreza, uma elegância, caule de palmeira-iará, tinha balança de precisão em casa. A noite ia indo embora. Três e meia. Três e trinta e três tigrinhos tridimensionais trescalantes tigrando na trilha de trigo da tribo: bem rápido. A coisa evoluiu. Três e quarenta e quantos.
A mula-sem-cabeça, ou burra-de-padre, pateou no pátio da choça, catou a chave escondida no vaso de folhagem seca, olhou cuidou olhar para os lados, ieeeee rinchou, mugiu:
- Melhor deixar o assunto me descansar, uma vez.
O lobisomem uivou ruuuuu com o coração desabrigado, caminhando no ritmo do seu desagrado, a boca cheirando palha seca e terra queimada.
E anhangá-pitã, de repente, se derreteu com os primeiros respingos de sol e foi escorregar escorregou cheio de artimanhas teeeee fulminado para o fundo do poço seco.
O viiiii caapora, cocar caído na cabeça, quatro e um quarto, olhos cheios de poeira vermelha, andando de costas de volta para o ex-capoeirão, lá para trás das casas de cupins vazias, e voltar a ser índio ou bicho invisível.
         Um redemoinho no meio da rua poeirenta. Já era dia de dia outro dia quinze pras cinco. Antes um riso escarninho madrugador iiiii. E lá se ergueu um pó vermelho e umas folhas secas rolaram umas pedrinhas rolantes seeeee cantaram. E o saci aterrissou. O saci riu alto iiiii. Olhou em volta... A aldeia já o conhecia, a vila já lhe cheirava conforme, e já lhe pertencia. Farejou os rastos pelo pó vermelho da rua Única, esfregou as mãos, riu iiiii. Depois saiu andando num quique. Saiu quicando e rindo iiiii sempre.
         O sol esticou um ou dois raios flagrantes, entre nuvens baixas de grossa poeira vermelha, raios contados raios interrompidos raios raros raios sujos de poeira. O dia como que gaguejou e tossiu acordando, balbuciou de garganta seca, estremunhou ainda tonto de sono e preguiça e noite mal dormida. Os raios tímidos raiaram um a um e lenta e fracamente. Fazia um calor de amassar de arrasar. O lugar todo de Santa Luzia acabado e sem graça carcomido requeimado requentado.
         Falando em ministério, o sol levantou mesmo naquela horinha sem matinada. E já tinha suas flamas de fogo para sair pelo dia poeirento. Pois o sol era uma lenda. O sol ou o dia de cinzas. Começando pelo começo, o sol torrando a pequena vila perdida no meio do nada descampado. Outro dia de sol que já se transfigurava em forno fornalha. Nem chovia há meses. Ao meio-dia a bola de fogo já era uma bicicleta. Mas o sol era uma lua. Na tarde abafadíssima, o sol já estava desfilando e falando com a senhorita Maria Alice. Uma após hora era com a irmã da senhorita Patrícia, nativa de Ribeirão Pires. Na sequência imperou tostar bronzear com Isabel mais Leopoldina, as princesas do palácio São Cristóvão e Quinta da Boa Vista. Porém o sol era uma espaçonave. E no fim do dia de janeiro, avermelhado, o Quaraci passeou para a noite em prata com a Jaci. E no outro dia de pela manhã, nem muito cedo, cinco e vinte e cinco da manhã, sem arvoredos e passaredos, antes do solzão, passeou no terrão queimado do arraial com a filhinha Duda no colo. Era isso mesmo uma biografia uma ilha uma caminhonete verdezinha tração nas quatro patas um chafariz esgotado e um dia inteiro de sol imperial queimando carvão mineral.
         Sol quente naquele momento, tudo terminado, tudo embutido, cortado, retalhado, desossado, triturado, embutido, costurado, moído, que o Açougueiro se sentou e fechou os olhos vermelhos vermelhos. Cerrou os olhos por um momento sonhando com os olhos da Moça. As mãos bem trêmulas do esforço, da pressa, do cansaço.
O saci entrou pulando e rodando pelo meio da rua poeirenta dono do dia. Queria saltar virar cambota fazer círculos redemoinhos espiralados dono do mundo. Queria correr nos remoinhos de pé-de-vento até o fim da rua e voltar levantando poeira. E ria muito alto iiiii vaidade dos vaidosos erguendo poeira vermelha.
         Cinco e meia da manhãzinha ressequida cor de palha seca. O dia já saía apontando pedras e faíscas. O sol vinha para rachar mais uma volta no fim do mundo. O Açougueiro dormia sobre a esteira no chão da lojinha abarrotada de embutidos gulosos. Eram cinco e trinta e um. Eram cinco e quarenta. A coisa evoluiu. Eram quatro e cinquenta e seis.


domingo, 6 de dezembro de 2015

Sim, Os Capixaba Já Sabem E Voarão Praqui

         




        

         Olho olha só que lua cheia que noite clara parece dia cheia de luar. As crateras da lua as manchas. Será que a lua quer dizer? De mais a mais, a cidade perto prateada. Ganha tanto em claridade como em amplitude. Assim sendo, como papel branco com desenhos de lápis preto. Tudo esclarecido, o ipê-amarelo da praça da Bandeira enfeitado de natal e ano novo. Pedreira e lajes e painéis de basalto figuras trabalhar de pedra.  
         Presa no alto da polissêmica torre de tevê e existia uma moça linda cabeludona que só tinha de seu e do mundo o sonho o voo os seus sonhos. Sobrevivia sonhando, e vivia de sonhos, porque comia e bebia voos sonhos e fantasias. Cada dia tinha um sonho uma revoada e um sonho digno.
         Me deixa em paz me põe contente daqui da torre sino me sintoniza zen que poderia ver sim senhor a África, se eu quisesse.
         Hoje, nem nada nem meu aniversário nem carnaval nem feira agropecuária pelo afora meu país. Sem comunicações, sem ligações, a polícia nem vem aqui, nem os gatunos, nem os e-mails.
         Cada coisa em seu lugar conto ninguém acredita e de novo um outro dia.
Me deixaram um bolo de chocolate com cobertura de chocolate. Tenho o dia todo e os pássaros me socorrem, andorinhas, tico-ticos, corruíras, encontros, joões-de-barro, tesoureiras, grimpeiros, japacanins, sabiás-laranjeiras.
         Quanto mais cresço e permaneço e me convenço mais tenho medo de altura ventania chuva de granizo.
         Minha begônia-de-folha-estreita está plantada pega vento pega chuva pega sol num vaso bem na parede eu converso perto junto da janela leste.
         Vejo como é bom e necessário, um sono tranquilo que dorme a cidade dos neopratenses, e embala acaricia tudo. O sol cai do morro estalando ouro ouro e a um tempo as plantas, violeta-do-mato, lanceta, castanha-mineira, jacitarapuí, mutamba, canela-de-ema, os pássaros as pedras as palavras o rio brilham luz miraculosa na manhã lavada lavada. Os alunos do colégio Tiradentes as calçadas de árvores em fila indiana os alados plumosos, jaós-do-sul, violas, pipiras, soldados-pagos, tchintchorrintchos, fruxus, bem-te-vis-de-três-riscas, bando de caturritas, voam voam buscando adquirir comprar roubar os tons tonalidades as cores vivas os furta-cores.
         Aprendi uma porção de coisas de mais esse mês de maio demais.
Gastava um sonho a cada dia por dia ao longo das tantas horas. Passava a mão afofava os cabelos caracolados as penas do pescoço encrespadas bonitos fartos eletrizados. Porque os sonhos economizava-os reciclava-os pacientemente tinham que ser voar bem fantasiados e compridos e aproveitados e avoados.
Acho bom mesmo.
Às vezes me vem de dormir na rede então eu deito me entrego no embalo da rede e durmo, rooon-que!...
De manhã muito clara, e brasil, o sol volta de boa lembrança e o seu normal incendiado numa faixa branca, me diz:
- Me chama, quem me chama?!
Daqui olho o horizonte, mas antes a localidade a comunidade de Guabiju. Eu bem que poderia ter nascido lá me criado lá ou estudante quem sabe voltando pra lá em férias.
A chuva é uma coisa especial barbaridade. Entra pela minha janela.
Tive um irmão que derrubei lá pra baixo daqui de cima foi ontem queria comer minha comida e beber minha água não posso nem quero dividir o que é meu sou mais emplumada mais forte duas horas e vinte.
Neste fim de ano queria queria estar viajar voar entrar em outras paragens orbitar... Sarandi, Rolândia, Marialva, Campo Mourão, Pitanga, Bambuí, Vera Cruz, Maringá.
As coisas que me aparecem por aqui me aparecem me vêm pelo ar em formas de objetos voadores óvnis com ou sem vento com ou sem cheiro com ou sem aviso com ou sem calor.
Quando vem tempestade vem do sul preciso evitar deixar fechar as janelas a torre xique-xique balança e pode até quebrar, uma vez. O fim do mundo seria eu a última a saber.
Um dia vocês vão me ver voar daqui pra fora ali fora.
Sento no parapeito da janela as costas num lado do caixilho uma perna em cima a outra pendendo dentro para dar equilíbrio peso sustentação nada nas mãos o olhar abrangente capela São Caetano campal capela São Braz campáscuo Fazenda do Pratinha a pele do braço arrepiada as penas eriçadas pela brisa.
Era estava uma filhote de gavião-real, tinha bico de harpia, garras muito potentes de guiraçu, penas de acangoera e asas de uiruuetê. Seria porque seria uma grande predadora das mais enormes fortes velozes vorazes. Seu poder iria dominar exclusivos trinta quilômetros quadrados ao redor desde a polivalente torre antena de tevê. Seu potencial seria e poderia se alimentar de todo bicho abaixo dos três quilos e meio que pudesse roubar e carregar e matar e destrinçar e comer. A visão das mais penetrantes do mundo caçaria em pleno ar assistiria ao passeio por exemplo do ratão-do-banhado em meio ao piri ao aguapé-branco pra lá pra cá num alcance telescópico superior a dois mil metros.
Eu abranjo abarco abraço balanço as asas de balança para o largo espaço. Pergunto pra D:
- E esta agora?
Automaticamente, Ele nem como por que nem me responde. E eu penso bem de mim o pensamento salta me respondo:
- Resposta competente.  
         Pouco tinha aprendido da sorte ou quase nada ou quase o comum ou quase praticamente a mesma coisa. Quase nada sabia das manhas do normal no mundo. Mas seu instinto a levava a pôr as mãos nos cabelos, crinas exageradamente longas e sedosas, esfregar o rosto sem marcas sem rugas sem vincos, os olhos vidrados, o postural, os seios firmes e as pernas quentes atléticas compridas bem torneadas. Muitas atrações! Todos os dias na bicicleta ergométrica. Voar se aprende tentando voar como avião helicóptero pandorga parapente asa-delta.
         Nuvens pesadas misturadas a polifônica torre eletrizada em raios e trovões, tum! tum! tum!... muitas oito vezes mais alta que a chuva apontando acima fura-bolo mastro da gávea varando o remoinho das nuvens, quase levantamos voo neste furacão nesta tormenta neste temporal.
         Às vezes passo uns calafrios de sono, pesco, assinto, caio numa vertigem de sonolência perco os sentidos por um dois segundos, pesco, pesco, concordo, então eu medido faço ioga concentro para não cair da poligráfica torre de ferro em barras cilíndricas.
         A realidade acontece. Me vem me surge me aparece superveniente este sol de afobado novembro. Coisas sempre acontecem.
         Se dependurava temerariamente na ponta da janela por fora o vento na cara as nuvens nadando por baixo os urubus os bimotores os balões de ensaio os balões dirigíveis. Segura por um dedo presa por uma unha da garra, pingente placa descolada roupa no varal. Acenava abanava gesticulava com as asas lá pra baixo aos terráqueos pratenses.
         Luzes piscando vermelhas avisando lanternas a torre chocalho e rangenta, trrreeê! trrreeê!... e olho para os lados eu e a polimórfica torre na noite fechada na cerração densa.
         Tenho muitas paciências comigo mesma o meu pensamento longe voador na frente pôr vir os voos rasantes os cruzeiros turísticos os panoramas... São Joaquim da Barra, Cajamar, Uberlândia, Pirapora do Bom Jesus, Orlândia, Luz, Curitibanos, André da Rocha, Corumbá.
         Aqui em cima não proliferam insetos. Eu gosto. Formigas são mais frequentes. Até na lua há formigas! As mariposas prefiro por conta dos voos assimilo por causa das asas. Existem mais espécies de formigas numa árvore da Amazônia seringueira-vermelha que em todo continente europeu.
         Acho que vou pretendo acordar bem cedo amanhã cedo.
         Eu aproveito e concordo e afirmo que os índios poianaua nem derretam nem despedacem nem detonem a torre maracá.
         Me deixaram um pote cheio cheio de salada de frutas de cores. Vou de janela para janela só olhando o gosto que me dão. O cérebro que se liquefaz. E resumido o mundo todo tudo.
Debaixo deste céu que sim e muito longe, onde D também é muito grande, me deixo minha fome de asas e voos e rapinas.
         Esta policrônica torre de rádio e tevê apontando ponte o infinito é muito alta que parece uma sumaumeira-da-terra-firme, um jequitibá-branco, uma castanheira-do-pará, um pinheiro-do-paraná, um mogno-brasileiro.
Lá em baixo já disse já sou a cidade de Nova Prata o meu povo farejando sempre em volta da furna bairro Basalto do ninho bairro Sagrada Família da toca bairro Santa Cruz como fazem os tatus-bolas.
As nuvens invadem o meu cômodo a minha sala.
         Os meus longos cabelos que tenho os cabelos longos pisassem e o desgosto que puxassem eles aterrissassem lá no chão e esvoaçassem pela lateral da torre ganzá até o meio das costas penas de fazer cocar estendessem como vestido pela poliédrica torre abaixo.
         Sua boca em momentos salivava, engasgava suavemente a sua garganta, e algumas palavras uns nomes lhe saltavam saltavam. Mas sem preocupação e problema e ambiguidade. Falava com a parede e com a planta begônia e com os sonhos os personagens dos sonhos os alados dos voos, os tinguaçus, os tucanos-de-peito-branco, os tuins, os canários-da-terra, as pombas-rolas, os coró-corós, os pintassilvas. Seu vocabulário era de aprendiz de voar com asas e fantasias e saudades.
Mais lentamente tudo calmo o espaço oxigenado nenhum rádio sem vozes sem satélites nem gritos de carnaval, respiro fundo, quando voar quero pousar pautar ali em baixo pausar pisar descer naquela árvore dedaleira-preta.
         Quando tem chuva vento me sinto navegando no ar quando tem qualquer coisa a estrutura da torre campainha vacila e murmura, crrrrê! crrrrê!... e balança e brincos e pendentes e depende como agora.  
         Os fogos de artifícios procuram aqui o topo da antena e explodem na minha cabeça, tom! tom! tom!... E vai ser assim mesmo a noite toda por toda a madrugada. É fim de ano é campeão do campeonato é casamento na Matriz é eleição do prefeito é inauguração das novas luzes na praça da Bandeira é festa de São João Batista um dos padroeiros.
         O céu é todo azul todo meu o dia todo branco e lá embaixo corre como fio barbante jogado um rio de nome Retiro.
         É como eu digo.
         Então, voo irei subirei até o sol... e quando o sol me eclipsar... se preparem pois vou vir descer com tudo e bem representada em mim mesma veloz como veloz sem sombra as asas em forma de cruz como uma flecha.
         Daqui nem vejo mas prevejo, nem consigo visualizar mas a curiosidade me antecipa, mapeia, turistando por aí, os diferentes lugares e as saudades dos lugares que gostaria muito e quem sabe um dia, Estrela, Santa Maria, Guaporé, Erechim, Cotiporã, Áurea, Três Arroios, Anápolis, Casa Nova.
         O tempo me fala confessa o tempo e o vento se viraram contra o feiticeiro.
Quantos papagaios-verdadeiros eu calculo e de voz esganiçada sobrevoam neste exato.
         A torre cincerro e a moça tinham duas janelas, uma do nascente e outra do poente. Dois metros e dez de ponta a ponta das asas abertas asas abertas se preocupando em voar. Olhava para o mundo agnóstico, lá em baixo. Admirada com a chuva, alerta com o dia claro e azul e barulhento. E assim presenciava assistia acompanhava num amplo raio em volta. Passarinhos buscavam curiosos suas janelas pela manhã pela tardezinha, coleiro-do-brejo, birro, tucão, galo-de-campina, sebinho, sanã-ocelada, alcaide.
         Volto a falar com o Silêncio. Falo com D ou comigo. Eu falo e Ele não responde e Ele não diz nada.
Agora aqui assim o vento desperta por que meus cabelos minhas penas.
 Na esquina aí em triângulo das ruas Itália e Uruguai, meu avô foi bodegueiro, meu tio mercadinho meus primos com minhas primas mercado supermercado mercadão atacadão.
Cabelos abundantes sacudidos para o alto ou em xaxim. Um pacote de erva. O pacotão com embrulho de papel marrom amarrado com barbante. Sempre começaram a jogar atiravam na sala através da janela com certeza um mensageiro positivo estafeta. A moça ideias tropeçavam no põe dispõe predispõe. E ávida agarrava a encomenda o presente com as duas garras retráteis de rapina. Atarefada rápida excitada nervosa correria batia o bico adunco te-te-que!... o coração, dun-dun-dun!... Paredes tatuadas, decoradas, via se mexendo, caducando, alucinada, dopada, palmeira-piaçaba enrolada em sucuri de língua comprida, tuco-tuco farejando cauteloso o ar durante a trilha pedalando triciclo pela cana-brava, praça Sete de Setembro em Belzonte, saíra-de-chapéu-preto gorjeando riu-riu-riu-riii!... gesticulando erguendo os braços as asas olhos redondos, grupo da tribo cricati passeando no shopping comprando celular camisa da seleção calça legue boné do colorado, colibri-rubi enticando com flor amarela de veludinha, museu Nina Rodrigues abrindo as portas de par em par também domingos e feriados, macaco-prego-do-peito-amarelo sempre cricrocracrejando craaaá!... pelo alto galhos ramos folhas verdes da caixeta-amarela... Olhava os pés as unhas em curva as canelas emplumadas como se fossem restos distantes de outro ser ave mitológica. Ria um riso fácil mecânico. Largada na rede largada. Toda derramada em ma-ravilhas. Uma serenidade liberdade fraternidade honestidade. Uma preguiça esquecida. Nuvem azul de cheiro de capim seco. O corpo o seu corpo parecia outro corpo. Ria sorria sorriso de ícone guerreira índia. Voo alto no céu limpo área de pouso Campo Formoso rio atrás de morros Morro do Chapéu a gavioa Sento Sé gavionando.
Estava inchada de aérea quanta tolerância quando acordei. Vim para este posto da minha janela. Acordei levantei caminhei as garras afiadas até aqui na porta da janela, e olho a cidade lá embaixo o Centro um ônibus saindo da rodoviária suponho para a RS-324 rumo de Nova Bassano.
         Outro dia subiu até aqui em cima um macaco até aqui em riba e ele me viu e me disse e me chiou macaqueando careteando:
         - Eu sou uma vespa-de-rodeio!
         Pois respondi corrigindo vontade de tomar um suco de abacaxi bem gelado, disse:
         - Não, cara! Você é um macaco-de-bando. Conclusão.
         - Quê?! Nada a vê, meu!
         E a sorte era assim, os dias lentos, passados em meio aos sonhos das janelas dos voos que viriam caso viessem. Não tinha como exercitar outra coisa. Mergulhava para dentro de si piloto automático na invenção na criação particular e águas limpas. Voava para o próprio interior livre verde brilhante como o natural de um vale depois da chuva.
         A politeísta torre monumental oscila e eu já devia ter me acostumado.
         Tenho quase certeza convicção, que os caingangue nem queimar nem tocar fogo nem fazer fogueira incendiar derreter a torre sirene, então.
         Olho sempre para aquele lado de onde vem o sul. É de lá que vem o vento o mais frio vem a chuva plumagem impermeável as nuvens carregadas o vendaval. Daquela região, e sempre vem ser assim.
         Aqui em cima é legal e se vê bem como são toco com a ponta dos dedos das asas onde estão para onde vão estas tais nuvens esgarçadas.
         Ia buscar o sol ia buscar a lua ia buscar uma ou duas estrelas as cadentes as guias as vermelhas amarelas azuis brancas. Como D como deusa, projetava criava e assumia. Banzava mentia e caminhava de uma entre uma para uma janela e outra.
         O dia que vou voar vocês vão ver, uh-vuuu!...
         Até que nem sou contra a matemática os triângulos a aritmética a geometria a álgebra e relembro e recomendo “O Homem Que Calculava”.
         Pesquiso a tarde acalorada mormacenta sufocante bico aberto no espaço tudo se transparecendo tudo impalpável. Vejo de hora para outra as nuvens rolantes grossas uivantes tempestade tormenta nuvens estrondos parará-ti-bum!... chicotes queimados a construção sobrenadando mastro de barco sem as velas cata-vento barbatana de avião ou tubarão e à deriva acima das nuvens.
         Quanto quanto gosto de viajar, quilômetros, pulando de lugar para lugar, no voo, no velejar das asas, planando as correntes dos ventos quentes e se possível... Ipuã, Vila Flores, Passo Fundo, Portão, Rio Grande, Tapiraí, Bagé, Barretos.
         E D me manda o que tiver o que vem por aí o que achar melhor o que um dia passa a existir o que Ele quer, o sol a lua as estrelas os nomes a espaçonave que chega para me olha vai embora para o fim o início da galáxia espiralada.
         Não tem e eu nem tenho mesmo outro jeito.
         Acho engraçada esta politrófica torre de telefone. Muda o vento muda tudo. São as oito ou oitenta bandejas que conto bandejas orelhões escudos parabólicas.
         Daqui de cima as formigas andam atarefadas pegam as caixas de fósforos e vão trabalhar bairro Industrial e voltam do trampo. E eu sou uma gavião-de-penacho, piééé! piééé!...     
         Nem sei mais o que dizer o que ouvir o que fazer o que debater asas, o que foi que eu disse...
         Até que um dia morreu de morrer. Ainda jovem e emplumada e cheia de sonhos e pronta se aprontando para voar e viajar e gavionar. Seu corpo inteiro de comprido esticado se deitou de longo no piso frio da sala da torre de guizos e foi apodrecendo se decompondo. E se deteve séria o desvoo restado o corpo espalhado depenado mergulhado de longo espichado. Depois secou, foi crosta, rachou, crestou, empedrou, virou pó, foi levada pelo vento...
Chegaram e encontraram a notícia uns passarinhos uns tijuzinhos e logo começaram a pipiar a beliscar a saltitar a bicar a esgrafiar a riscar um casal até que enfim fez ninho e três ovinhos sardentos e família e parentes.
         A polifílica torre pintada de vermelho e branco ficou para titia para a igreja mais próxima para os alpinistas de fim de semana e tremendamente funcional multifuncional. Local ideal alto esotérico para ninho de formigas-de-novato e para enxame colmeia de jataís-pretas e para passagem secreta de mão-de-cabelo no seu aspecto fantástico e para as lélias orquídeas florir engraçar colorir sossegadas e para refúgio de morcegos que nas noites, tsê! tsê!... saem à procura à procura e acham e para gavião-puva nidificar ninho ninhal e para bandeira nacional distender auriverde pendão conforme o pé-de-vento com voz tatalante.