sábado, 16 de agosto de 2014

Você A Conhece?


      

 

          

 

       O rio despreocupado

       O rio cauteloso passou

       E a paisagem caudalosa.  

       O poeta o semideus o avatar dos homens e dos bichos apareceu pouco tempo antes do século XX.

Isso me causa surpresa porque faz tempo paca, e naquela altura do mundo ainda era tarde tarde o Império do Brasil.

       Sempre lembrou o lugar

       A roupa florida

       O cheiro dos seus pulsos

       O riso de corruíra

       O sol a lua no espaço

       O brilho dos olhos

       Os outros mil beijos

       E sempre e muito pouco tempo.

Mas dali ele só nasceu, só trouxe a data, mal soube qualquer coisa. E veio a falecer, embora, com a plena ditadura militar, os anos 70 sem graça com taça com nuvens baixas e pesadas de chuva.

A todo momento

Em toda parte,

Faz tudo que for possível o homem

O impossível o tempo.

Todas as providências são tomadas

Para que as coisas corram assim.

Não, nem claro que gostasse de militares, de caciques, de coronéis, de fidalgos, de potentados, de fazendeiros, mas puro acaso, jogo de sortes do azar. Porque uma vez, como grande poeta que sempre foi,

Céu com azul surrealista

As árvores paradas

As copas paradas

As folhas verdes esperando o vento.

O sol no chão da chuva

No chão do vento

No chão do tempo.

- e se eu fosse Deus -, teria feito melhor morrer, e encerrar a carreira ou antes ou depois dessa página obscura obtusa pontiaguda da República do Brasil.

       No entanto, entre esse todo tempo do nascimento até a morte, muita coisa sucedeu na sua vida, muita água rolou por debaixo das pontes. E praticamente 98% cantou contou, seja em verso ou em prosa.

Uma nuvem estupenda e silenciosa remava para o norte para o sul

       E fazia horas e havia estrada

       Lá por cima ainda um avião naquela direção

Um vento qualquer contava as folhas da paineira uma por uma.

       A voz da corruíra lembrava ela

       Com a manhã febril

       Quase não comia e pouco dormia.

       Um rio ali perto sem cessar.

       Ela tão exuberante

Bebia água mineral sem gás a todo momento.

       Tudo tinha um certo razoável tempo e espaço.

       Que horas eram? Que asas?

E se Deus não quisesse não haveria lua não haveria urutaí tambiú ajapá guarapiapunha-do-banhado estrada de ferro mar praia de Ipanema

Tudo moderno era aquilo maravilhoso e sempre excitante

Se tivesse mais algumas praias tudo seria até bem melhor a engraçado.

       O que não publicou e nem confessou abertamente, o seu melhor amor na adolescência, é uma menina bonita esperta ruiva alegre avenca-da-terra saltitante cabelinhos perdidos nas ventas aveia-do-campo toda verdinha talhe de indaiá palmeira olhos de passarinho pichororé e por ela se deixa levar eternamente, e brincou versos e prosas a vida toda

       Os poetas fantasiam versos para o que vêem

       sonham para o que pensam.

- vindo a perdê-los num naufrágio do 23 dia do março mês do 36 ano na costa de Pernambuco, Jequié, Ariranha do Ivaí, Jaguaquara, Itiruçu, Arujá, Papagaios, São Miguel dos Campos, Pitangui -,

O sol reboou montanha acima

E seus raios vieram pela praia até as altas magníficas paineiras

Andorinhas costuravam ziguezagueavam violões entre os ramos e as abas das casas

A tesoureira piou com importância desde o galho seco do guaré

O casal de joões-de-barro... gargalhadas

Uma tucano-de-bico-verde comendo a castanha do coquinho do butiá-da-serra

Um eufônico gurandi-azul

O bem-te-vi-do-campo com taquicardia.

quando foi que ela virou de costas os brincos brincaram e se foi para Manaus, aldeia da tribo guaianá, praça Castro Alves, forte de São Marcelo, pedra sentada do Rei Sabá,

Um beicinho querido

E escondeu o rosto delicado,

A luz impressionante complicada se instalava devagar.

foi embora da sua idade, da sua casualidade, da sua vida toda e da cidade natural e nunca mais voltou nem mandou notícias. Não, não voltou mais e nunca mais se ouviu falar dela.

Cabelos surpresos

Rosto formidável

Sorrisos de férias de trem

Lábios acintosos

Os pulsos perfumados.

Olhos delirantes ou suspeitos

Seios suspensos

Cotovelos na janela

Negligentemente com a língua molhada.

A lua na sua rua

A lua nos seus lábios

A lua nos seus quinze dezesseis dezessete

A lua passou em o antebraço.

Tocou no seu rosto

Seus lábios

Seu ombro

Não sabia como abraçá-la

O que dizer

Os olhos saciados

O sonho de beijá-la.

Sumiu como se fosse reaparecer no fim da história, mas na verdade não voltou mais, enganando o final feliz ou não completando o círculo do eterno retorno.

Se lembrou bem de um começo de tarde

Em primeiros de janeiro.

Os pobres bichos não pertencem

A lugar algum nenhum!

Completamente estranho, pois, interrompeu uma história boa e linear, pois, que poderia ter sido, pois, e não nem nunca será.

Passou dezoito (18) anos

Um verdadeiro milagre

Comendo doce de abóbora.

       Com o passar do tempão, essa história mal resolvida, só lhe traria narrativas e poemas de saudades saudades.

       Ela foi para lá de queira Deus

       Foi para a montanha

       Foi para o vale

       Foi se misturar aos índios apinajé

       Foi para o alto rio Solimões   

       Foi para até se confundir.

       Quando se soube, por volta de 1999, que os governos eleitos resolveram fazer uma rua com seu nome - foi uma época um tempo decisivo - com guararibas com ajuruatubiras com maracanãs-do-buriti com cães e guias com carros de passeio com prédios de apartamentos com lojas de comércio em varas, côvados, arráteis, onças e oitavas.

       O sol novo em folha

       Nadava corria flanava voejava

       Com espontaneidade,

       Nuvens incidentais

       Olhavam o relógio de pulso

       E isso com despreocupadamente.

Pois viu em todas as outras gurias pois aquela sua adolescente muito adourada.  Pois amando várias como se aquela fosse pois a última a primeira a eterna a deusa.