O rio
despreocupado
O rio
cauteloso passou
E a
paisagem caudalosa.
O poeta o semideus
o avatar dos homens e dos bichos apareceu pouco tempo antes do século XX.
Isso me causa surpresa porque
faz tempo paca, e naquela altura do mundo ainda era tarde tarde o Império do
Brasil.
Sempre
lembrou o lugar
A roupa
florida
O cheiro
dos seus pulsos
O riso de
corruíra
O sol a
lua no espaço
O brilho
dos olhos
Os outros
mil beijos
E sempre e
muito pouco tempo.
Mas dali ele só nasceu, só
trouxe a data, mal soube qualquer coisa. E veio a falecer, embora, com a plena
ditadura militar, os anos 70 sem graça com taça com nuvens baixas e pesadas de
chuva.
A todo momento
Em toda parte,
Faz tudo que for possível o
homem
O impossível o tempo.
Todas as providências são
tomadas
Para que as coisas corram
assim.
Não, nem claro que gostasse de
militares, de caciques, de coronéis, de fidalgos, de potentados, de
fazendeiros, mas puro acaso, jogo de sortes do azar. Porque uma vez, como
grande poeta que sempre foi,
Céu com azul surrealista
As árvores paradas
As copas paradas
As folhas verdes esperando o
vento.
O sol no chão da chuva
No chão do vento
No chão do tempo.
- e se eu fosse Deus -, teria
feito melhor morrer, e encerrar a carreira ou antes ou depois dessa página obscura
obtusa pontiaguda da República do Brasil.
No
entanto, entre esse todo tempo do nascimento até a morte, muita coisa sucedeu
na sua vida, muita água rolou por debaixo das pontes. E praticamente 98% cantou
contou, seja em verso ou em prosa.
Uma nuvem estupenda e
silenciosa remava para o norte para o sul
E fazia
horas e havia estrada
Lá por
cima ainda um avião naquela direção
Um vento qualquer contava as
folhas da paineira uma por uma.
A voz da
corruíra lembrava ela
Com a
manhã febril
Quase não
comia e pouco dormia.
Um rio ali
perto sem cessar.
Ela tão
exuberante
Bebia água mineral sem gás a
todo momento.
Tudo tinha
um certo razoável tempo e espaço.
Que horas eram?
Que asas?
E se Deus não quisesse não haveria
lua não haveria urutaí tambiú ajapá guarapiapunha-do-banhado estrada de ferro
mar praia de Ipanema
Tudo moderno era aquilo
maravilhoso e sempre excitante
Se tivesse mais algumas praias
tudo seria até bem melhor a engraçado.
O que não
publicou e nem confessou abertamente, o seu melhor amor na adolescência, é uma
menina bonita esperta ruiva alegre avenca-da-terra saltitante cabelinhos
perdidos nas ventas aveia-do-campo toda verdinha talhe de indaiá palmeira olhos
de passarinho pichororé e por ela se deixa levar eternamente, e brincou versos e
prosas a vida toda
Os poetas fantasiam
versos para o que vêem
sonham
para o que pensam.
- vindo a perdê-los num naufrágio
do 23 dia do março mês do 36 ano na costa de Pernambuco, Jequié, Ariranha do
Ivaí, Jaguaquara, Itiruçu, Arujá, Papagaios, São Miguel dos Campos, Pitangui -,
O sol reboou montanha acima
E seus raios vieram pela praia
até as altas magníficas paineiras
Andorinhas costuravam
ziguezagueavam violões entre os ramos e as abas das casas
A tesoureira piou com importância
desde o galho seco do guaré
O casal de joões-de-barro...
gargalhadas
Uma tucano-de-bico-verde
comendo a castanha do coquinho do butiá-da-serra
Um eufônico gurandi-azul
O bem-te-vi-do-campo com
taquicardia.
quando foi que ela virou de
costas os brincos brincaram e se foi para Manaus, aldeia da tribo guaianá, praça
Castro Alves, forte de São Marcelo, pedra sentada do Rei Sabá,
Um beicinho querido
E escondeu o rosto delicado,
A luz impressionante
complicada se instalava devagar.
foi embora da sua idade, da
sua casualidade, da sua vida toda e da cidade natural e nunca mais voltou nem
mandou notícias. Não, não voltou mais e nunca mais se ouviu falar dela.
Cabelos surpresos
Rosto formidável
Sorrisos de férias de trem
Lábios acintosos
Os pulsos perfumados.
Olhos delirantes ou suspeitos
Seios suspensos
Cotovelos na janela
Negligentemente com a língua
molhada.
A lua na sua rua
A lua nos seus lábios
A lua nos seus quinze
dezesseis dezessete
A lua passou em o antebraço.
Tocou no seu rosto
Seus lábios
Seu ombro
Não sabia como abraçá-la
O que dizer
Os olhos saciados
O sonho de beijá-la.
Sumiu como se fosse reaparecer
no fim da história, mas na verdade não voltou mais, enganando o final feliz ou não
completando o círculo do eterno retorno.
Se lembrou bem de um começo de
tarde
Em primeiros de janeiro.
Os pobres bichos não pertencem
A lugar algum nenhum!
Completamente estranho, pois,
interrompeu uma história boa e linear, pois, que poderia ter sido, pois, e não nem
nunca será.
Passou dezoito (18) anos
Um verdadeiro milagre
Comendo doce de abóbora.
Com o
passar do tempão, essa história mal resolvida, só lhe traria narrativas e
poemas de saudades saudades.
Ela foi
para lá de queira Deus
Foi para a
montanha
Foi para o
vale
Foi se
misturar aos índios apinajé
Foi para o
alto rio Solimões
Foi para
até se confundir.
Quando se
soube, por volta de 1999, que os governos eleitos resolveram fazer uma rua com
seu nome - foi uma época um tempo decisivo - com guararibas com ajuruatubiras
com maracanãs-do-buriti com cães e guias com carros de passeio com prédios de
apartamentos com lojas de comércio em varas, côvados, arráteis, onças e oitavas.
O sol novo
em folha
Nadava
corria flanava voejava
Com
espontaneidade,
Nuvens
incidentais
Olhavam o
relógio de pulso
E isso com
despreocupadamente.
Pois viu em todas as outras
gurias pois aquela sua adolescente muito adourada. Pois amando várias como se aquela fosse pois a
última a primeira a eterna a deusa.
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