domingo, 18 de fevereiro de 2024

Tambor-Mor

 

                                                          

           

            Um sol quente de fevereiro bronzeava todo mundo e também o mundo inteiro. Uma manhã azul e verde, gostosa saborosa apetitosa. Terminava arrebol um cre-pús-cu-lo! Combinando todos os nossos pensamentos e sonoras e movimentos. Impressionantes fosforescências. E nuvens leves esgarçadas transparentes e trajando a cote, cotidianamente diariamente. Eram horas de sair, ignição.

O astro escolhido do dia, que comanda o diário, fala com razão para toda gente e ilumina: “Ao tamanduá-mirim se deve ao menos 30 000 trinta mil insetos térmitas cupins formigas lava-pés por jornada.” É e está uma inscrição epigrama em bronze colocado monumento em a praça Debrum do Cairel, comunidade de Nova Roma do Sul,  suponho e aprovo: “Se teve ou tem o sonho de morar ali ou aqui, agora temos alguns dados concretos: a tentação de mudar de zona de conforto e conhecer o exótico o desconhecido pode chocar fortemente com a realidade”. O ruge-ruge das folhas e ramos de jarás, icicas, cambucás, cacaus-azuis, babunhas, carajurus, algarobeiras-pretas. A referida praça de toda uma vida, recatada modesta retirada escondida.

Veremos tudo, afeição pensamento lembrança. Sem medir ou esperar retribuição. Efusão expansão de sentimentos. Veremos tudo, o mundo o tempo a sorte. Os estos do mar e o vaivém, flutícolas. Veremos tudo, a beleza gentil e mimosa e garrida. Veremos tudo, ressumbrar ressumar revelar transparecer. Nem é verdade?!

O guasca atrevido, Jô Aljube Troca-Tintas, saía de casa neste exato momento hoje. Tipo assim já nove horas e o sol mandando ver mandando brasa escarlate pleno verão. Pegou o carro na garagem do prédio condomínio Pólipos de Crisólita. E rumo certo do trabalho do serviço na agência de turismo de sua propriedade cia ltda Reposteiro Diorama s. a. A esposa Ana e dois filhos (a guriazinha Táti Querena Carena, o piazinho Tato Pórfiro) já mais cedo se aprontaram e foram eles miúdos pra escola a creche Coração de Maria Escorço e ela pra labuta na fábrica de laticínios Tacaniça da Dorna, em o bairro Granadeiro. Assim a família, identificados e amigados com a rotina.

- Aproveitem as aulas e nem desobedeçam a profe, tá certo?! - sempre esta recomendação da mãe, gestos pudicos e graça inefável e sorriso enlevado de agradar.

- Sei me interessar pelas aulas de geografia e estudar os afluentes do rio Tocantins. Pode deixar! - resumia a Táti, fita precintada atada amarrada no pescoço.

- Quero lembrar de todos os 20 ou 40 times e seus respectivos Estados da federação. Pode confiar! - declarava o Tato, chibante altivo orgulhoso futebolista.

            Assim mesmo e ao natural lapuz rústico grosseiro, o Jô se mexia deslizando pela rua Joaquim Serra Sobrinho e aresta quina esquina com Salvador Furtado de Mendonça. Luz esplêndida. O sol hélio greco-latino, divino eterno e que comanda o dia desde cedo gotas de orvalho aljôfares, diz e com razão racional: “Plante e que se engendrem façam umas frutas!” E gotejado rorejado orvalhado em gênero classe família dos vegetais, tais e quais. O trilar de aves e águia-pescadora, marrecas-rãs, anuguaçus, gaitas, bem-te-vizinhos-ladrões, pica-paus-amarelos, tesouras-do-campo ou bandeiras-do-campo.

            Ali nos arrabaldes da cidade - avenida beira-mar norte Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior -, o Jô personagem protagonista deste episódio, olhou para o mar desde sua nave o auto esportivo e avistou as mesmas águas calmas bonançosas sopitadas emolientes brandas. As baleias-jubartes já chegadas e que vinham parir e amamentar suas crias nesta baía da Ilha Grande. Arquipélago e ilhas pequenas algumas, navios de carga repletos de mercadorias acondicionadas em caixas de aço e barcos a vela jangadas canoas iates de todo preço.

O condutor Jô, grande pensador e de largos horizontes, teve de parar o carro e ficar admirando o fenômeno mais natural e colossal e gigantesco dos últimos meses. E abrir os olhos aos bugalhos, franzir o sobrolho sobrancelhas. Documentado comentado nas redes sociais e aplicativos. Pequenos exíguos acanhados barcos de borracha e a motor dos cientistas da Universidade Trolha Vasqueira (UTV), rodeavam os soberanos desprecatados desprevenidos imprecatados cetáceos: provável mãezona e filhão. Esguichavam em jato de oito metros de tempo em tempo com o seguinte mergulho heroico exibindo a cauda embandeirada identificada. Horas de fazer o quilo, vamos dizer! Será que roncavam? Será que era conversa ou canto?

Nem escapou a perplexidade ao Jô, sujeito cultural e pronto para o coice o chasco e o gracejo mordaz. São os melhores específicos, ínclitos ilustres celebrados. São os melhores específicos, embair lograr iludir seduzir. Nem escapou a ele este encabrestamento, desgraça azar desdita vil mofina. São os melhores específicos, trêfego astuto trefo sagaz. É necessário que eu te diga, digo: é preciso o tempo.

            Vamos com Jô. Como ele conheceu e escolheu o emprego de guia na agência de turismo que agora lhe pertence com propriedade registrada em cartório. Sempre quis viajar e gostava desde tenra idade de geografia. Fez o curso de turismólogo, pra início de conversa. Como assim e tudo, começou de baixo pra cima e de menos a mais. Sazonado amarelecido no gosto impretérito de conhecer novos lugares. Até se tornar o dono da empresa especializada em excursões turísticas e esse estudioso de assuntos no ramo na arte no tema no que for. Sugiro um roteiro?

            - Vamos a um passeio já sonhado! E com muito gosto! - sempre completava Jô, depois de cada negócio e frente a frente com cada cliente.

            A que te dedicas? E lhe perguntavam frequentemente. Mostrava mapas e imagens ao vivo de cidades e lugares cheios de sol. Praias de areia lisa branca e mar azul céu anilado. Oásis paradisíacos sibaritas santuários da flora e fauna. Pontos turísticos célebres verdadeiras celebridades ícones. Orgulhosos mostruários de civilizações antigas milenárias e modernas avançadas. Todas as idades excursões ranchos grupos cobertos ou nem por pubescências lanugens penugens, as idades primeiras segundas terceiras. Símbolos e emblemas de caminhos de destinos jornadas imperdíveis. Sol sal sul e bem arrebicados cosméticos. Passeios de segunda a segunda de dia canícula de noite plenilúnio por serras socalcos plataformas por montanhas lançantes vertentes ladeiras parques cidades e Caravelas, Prado, Vereda, Teixeira de Freitas, Porto Seguro, aldeia pucobié-gavião. Terramarear! Daqui ao céu!

            - Nem ande tropeçando! Nem reproche ou reprove reprovação! - eram seus dizeres e lemas e frases soltas feitas para entusiasmar os fregueses(as).

            Como este Jô, agradecido da geografia, conheceu a sua esposa Ana Jaque Tira-Linhas e começaram a namorar. Foi uma escolha ou um acidente incidente do destino. Com estrondo estrompido estrépito e chuva no decorrer do dia. Ele a escolheu ou foi escolhido. Foi flechada à primeira abordagem ou um estudo a prazo? Veneração reverência. Vamos supor que foi uma procura uma escolha um estudo do próprio e fleumático estorvo aristocrático impassível e mesmo frio estafermo Jô. Achou descobriu a mina (no duplo sentido de ouro e menina) e resolveu pesquisar estudar analisar. E com afinco empenho levar seu tempo para adquirir conquistar agarrar o tesouro. Pachouchada ou investimento empreendimento. E tudo começou na faculdade de veterinária, que ambos frequentavam e eram colegas. Um acercar-se acercamento com zelo desvelo dedicação vigilância e continuidade. Ganhou 10 na nota da persistência. Como a rapina do gavião-relógio, à sorrelfa à socapa de sorrate sorrateiramente. Igual ao zorrilho jaguané, teima birra teiró. Idêntico ao camaleão-de-pedreira, liso achatado camuflado.

            Então, alguém ou D sabe!, foi o acaso que os meteu na mesma sala de aula. Assim mesmo lado a lado e ele olhou pra ela e ela já estava de olho nele. O primeiro encontro e o que dizer no primeiro encontro do primeiro do ano novo:

            - Eu queria estudar mesmo era a tal da hipiatria, conhece? - proseou ele, sempre metido em dobadoura pressa correria afobação.

            - Sempre quero fisiologia ou biofisiologia. Nem sei o que faço aqui - disse ela, lenço colorido trespassado nos ombros.

            - Acho que foi bom e valeu para nos conhecermos - respondeu ele.

            - Sim, e o destino sabe melhor que nós mesmos. Assim está escrito em algum lugar que nem sabemos ou por que tinha de ser - declarou ela, voz fagueira meiga carinhosa.

            Ambos tomaram atitudes ou gestos pensativos. Ambos espíritos atilados hábeis esmerados apurados. Cada qual do seu ponto de vista e origem e sexo e ideologia e teologia, etc. Assim trocaram mais meia dúzia de palavras ali e naquele momento. E ele neófito aprendiz iniciante principiante neste negócio de amor; e ela cândida inocente ditosa pura. Ambos obrigados a alcançar os haveres riquezas posses divícias. Na vontade e na moleza, no inverno ou no verão, na tertúlia passatempo divertimento ou no cacaréu beleléu escarcéu. E, oxalá!, nada de condescender consentir ceder no primeiro revés. E a partida estava empenhada comprometida. Dia ou menos dia e o mês de maio.

            E os dois se reconheceram no mesmo dia? E ele a reconheceu bastou vê-la. Ela era carioca. Toda carioca é fluminense. Frequentava a praia de Ipanema. E todo dia de domingo azul sol mar. E era assim a correta correção das linhas e a harmonia fácil dos contornos.

            - Compreendo quanto deve ser o ganho de uma admiração - disse ele a ela.

            Assim e então, vejamos esta como é a ascensão do astro ígneo do sistema solar. O astro mitrado finório astuto. Ondas marinhas verdes que se esfrolam se estrompam se rompem de encontro às pedras do cais no porto de Alforreca, em Niterói. Na rua Joaquim Nabuco de Araújo levantando os tais e quais turbilhões de poeira e papéis, forte vento Aracati. O vento estouvado imprudente e talvez agastado aborrecido. Metendo à bulha tumultuando provocando os outros todos elementos. E isso tudo junto e livre... deleita a vista e outros sentidos. Quando a natureza quer ela organiza e protagoniza. Quando a natureza quer ela cria constrói e destrói.

            Nem vejo a porta! Era pecha vício falha ou encômio elogio gabo? Era enxacoco ou xacoco? Era beócio ou ignorante? Era praia Alcobaça ou rio Itanhém? Era cabedal ou haveres? Era tarlatana ou bocassim? Era remoque caçoada zombaria ou ninharia inutilidade nuga? Era homúnculo ou mesquinho? É de arromba!

            Jô pegou a bíci e saiu. Estamos em março. O dia prometia altas temperaturas ato de queimar combustão e desde tenra manhã. Pegou a avenida da Terebintina frente do museu do Rico Marchante da Sinecura. Pelo acostamento e com cuidado, ali nem havia a tal e qual ciclovia. Mais adiante a rua José Cesário de Faria Alvim, os carros açodados ligeiros acelerados apurados. Pretendia, o travesso maganão, chegar e chegaria na colina na atalaia pináculo do morro Escaramuça. E aves em bando ali retalhavam o espaço aéreo com voos intermitentes intermináveis e rápidos e circulares e precipitados precisos. Solfejavam os tais e quais pássaros e joões-arredios, ferros-velhos, cais-cais, anus-corocas, bicos-roxos, juritis-azuis, saís-guaçus, canários-do-chão.

Sempre que ele podia procurava ver e sentir a força estranha daquelas pedras pedronas, blocos colunas placas verticais. Favoreciam transmitir uma energia do céu dos deuses. Que deuses e deusas divindades? Um fato. O morro a colina e seus espíritos de pedra dentro da força empedrada. Um cemitério de mártires um lugar de martírios. Uma breve jaculatória oração pedido e, “oh, meu S!”, aos espíritos indivíduos que governam e moram nos montes e peraus e rochedos. E tenho pra mim e comigo que é algo negócio decidido. É algo forte. É fogo da terra feito força.

            Chegando no alto saiu da trilha escabrosa e acidentada, própria para escaladas de bíci, e foi até aquelas umas rochas monolíticos estelas gigantes fazer sua doação. Entregar as oferendas os ex-votos e abraçar as rochas. Subiu por um talude uma rampa. Terra sáfara deserta cheia de pedras pedregulho penhasco. Uma dessas pedras grandes, em força de sino campânula campanuda, sempre lhe chamou mais a atenção e era sua favorita para enterrar o tesouro o doário. Já lhe deu o nome de Campanário, lugar dos sonoros sinos sons chamados em rufar e urrar e atroar. Foi abraçá-la com saudade e esperança. Abraçou com força e sentimento, rosto colado e olhos fechados.

            - Minha convicção perto da esperança - lembrou dizer ele, ideia pensamento persistente e merencório melancólico sorumbático sombrio.

            Em um altar em que muitos aborígenes mais e mais vinham adorar. Prometer para amanhã é fazer menos que hoje! Ali um escasso fio-d’água ribeiro rumorejante descia sim enrolado desenrolando serpejante entre pedras sim e musgos e outra vegetação alguns alegretes vasos de barro para plantas e jalapas-vermelhas, bisturis-do-mato, muirapixunas, coiranas-amarelas, pacaís, mancenilheiras. Mas as pedras estavam aí nas formas dos deuses e deusas. E essas estátuas comunicavam falavam as coisas altas profundas aos ouvidos dos humanos. Lugar tão bom e livre limpo escoimado. Se possível e sim se podia contemplar e entrever bispar avistar a orla do mar a praia de Copacabana.

            Andava pelo meio das pedras e cumprimentando Jô a todas e suas conhecidas. Sempre um abraço uma palavra, que podia ser um pedido de conselho. Concorrência influxo influência do deserto do sossego do silêncio e afastado do rebuliço da cidade. E escutava ditos e recomendações bendições favores dicas e outros pareceres. Talvez os índios silvícolas sabiam da força do lugar e davam nomes àqueles monólitos monumentos. E quem sabe precisavam peregrinar até aí assim como ele. Sentir receber vozes do além ou do aquém. Sempre é possível sempre é possível zombar. Sempre é possível escamotear encobrir. Sempre é possível apoio forção espeque escora auxílio.

            E a alma íntimo âmago estava precisando de um dilema, no primeiro dia do ano. E a garrida estava precisando de uma regalia, no primeiro dia do ano. E a galhofa e o deboche estavam precisando de chasquear e escarnecer, no primeiro dia do ano. E a festa estava precisando um carnaval folia brincadeira, no primeiro dia do ano. E a coquete faceira graciosa namoradeira estava precisando rir gargalhar riso risada cromática, no primeiro dia do ano. Que te digo?!

            Este Jô começou a perceber que nos dias de muito calor e muita luz, no verão em pleno reino do sol, a amada perseguida Ana Jaque nem comparecia às aulas da faculdade. Que que era o motivo? Nem demorou muito. Já entendeu. Eram as 20 praias do lugar. Umas dúvidas simples o assaltaram então depois dessa certeza e conclusão:

            - Onde? Em que praia? O dia todo? Tantas pra escolher!

            Quando os filhos tiveram certa idade, um de 4 e uma de 3, já foi e foram e lhes perguntaram os pais:

            - Que mascotes vamos ter? - perguntou a Ana, mãe amorosa terna participativa.

            - Vocês querem cachorro ou gato? - indagou o Jô, pai participativo terno carinhoso brincalhão.

            Eles os rebentos escolheram ambos os bichos. Ela a Táti escolheu gato e ele o Tato escolheu cachorro. Assim a família teve de buscá-los. E era bom trazer animais para os filhos porque estes podiam brincar aprender e a cuidar ter certas responsabilidades. Toda criança merece um amiguinho de estimação com quem possa conversar. Chamando sim pelo nome o fuão o fulano a sicrana a beltrana.

            Foram ao veterinário na loja veterinária Taçuíra, localizada local à rua Rodrigo Otávio de Langgaard Meneses com o bairro Pirueta Azoada. E pediram informações e demais tais e quais procedimentos e hábitos e sistemas e aritméticas e álgebras de conduta. Com rações e acepipes e petiscos e remédios e atendimentos as horas e os dias da semana. Os quantos e tantos melindres exagerados e impertinências nicas de cada raça ou espécie, tamanho e sexo. Os animais domésticos são protegidos por lei. Os animais domésticos têm direitos e seus donos deveres. A população dos mascotes cresce muito exponencialmente e em todo o mundo.

            - Temos cachorros grandes calmos e agitados, cães pequenos calmos e agitados - descrevia o atendente veterinário, senhor Falbalá Estojo Milho-d’Água.

            - Temos gatos com pedigree e outros os mesmos vira-latas - destacava o mesmo balconista veterinário, senhor Falbalá Estojo.

            - Temos os mascotes da fauna local, pelo pele casco pluma escama, e devidamente registrados e autorizados pelas autoridades competentes e as mixilas, as jacupemas, as cutias, os tracajás, os mandis-bandeiras, os bacuraus, as curicas-urubus - anunciava o atencioso veterinário, senhor Falbalá.

            - Temos xerimbabos altos e fortes e que podem carregar nas costas um certo peso ou seu dono(a) e assim os cavalos as vacas os bodes as cabras os porcos os camelos ou dromedários - discorria esperto o veterinário, Falbalá Milho-d’Água.

            Quando escolheram de comum acordo e todos opinando, ficaram com um cão vira-lata manchas marrom-claras com branco e rapaz sujeito idôneo apto capaz adequado. Uma gata pedrês ou carijó ou malhada ou salmilhada e moça sujeita sincera lhana franca afável. Durante o caminho de volta, entre a loja e casa, já debatiam os diversos palpites de nomes próprios. Pois nomear é dar uma identidade, e efetivamente colocar alguém no mundo.

            - Vou chamar minha gata de... Sanefa! Gostei do nome... Sanefa! - dizia repetia e reforçava a menina Táti.

            - Vou nomear meu cão de... Teiru! Gostei do apelido... Teiru! - falava repetia e teimava o menino Tato.

            No fim das contas e já dentro de casa sabiam o que pretendiam apelidar. Com cartazes e rascunhos e desenhos e vídeos já rasurados. Com testes de paternidade e maternidade. E cada bicho com seus brinquedos brincar e trebelhos trebelhar. Cada ente ou ser animal com seus côvados de limites de território e abrangência de atuação. Achavascados rústicos grosseiros, porém usurários agiotas onzenários. Comilões glutões galfarros. Horários pontuais junto com a família, comida adequada balanceada e cada qual com sua caixinha de areia localizada no pátio.

            - Au-au-au!... - latido tradicional de Teiru e já traduzido ao português brasileiro arrevesado: “Quero comer cinco vezes por dia e água mineral sempre ao alcance!”

            - Miau!... Miau!... - miado padrão de Sanefa e já traduzido ao português brasileiro atravessado: “Vocês sabem que quero e aceito e só durmo à noite após beber meu rico leite morno, tá certo?!”

            Em uma messe em que nem mais se poderá colher a safra. Veja o que lhes digo! Um dia já chamaram corimbo o cacho; tasquinhar o beliscar; serrazinar o cacetear; proêmio o exórdio; mosquear o vagabundear; crivo a joeira; atonia a inércia. As ondas do mar vagas parece que têm origem na lua fases.

            O rio Barueri-Mirim está impagável. Sapos-da-areia coaxam engazopam iludem mentem. Cardume de igangas consertam rápidos apressados atamancadamente atabalhoadamente o dique rasgado. Jaçanãs, rêmiges verde-amareladas, se barafustam adentram com ímpetos impetuosas pelo alagado caçando vermes bichas ruguinhas barrigudinhos sanguessugas girinos sambacaçotes rapa-colheres sapos-conchos. As marias-lecre, possuem exuberante penacho em forma de leque, já ali desse modo apoiadas apiadas ao esteio dos caramanchões naturais. As juruvas jiribas uritutus, aves coraciiformes da família dos momotídeos, quase sempre representando o estado de torpor abatimento delíquio desfalecimento.

            Seriam dez 10 horas passadas. No dia do casamento na festa em pleno clube Cápsula Especial e os convidados os presentes, ou melhor, os que compareceram. Jô convidou e compareceram uns 120, entre h e m. Ana convidou e compareceram 100, entre cervejeiros e cervejados(as). Sala varanda e pátio. Salão em cubículos separados por tabiques de vinháticos-do-campo, os tais e quais diferentes ambientes.

E havia como apareceram os distintos tipos, falas e conversas farelórios mais bemóis e sustenidos, uns personagens emblemáticos ou provectos jurisconsultos. E assim quanto ao mais e profissões forenses advogados bacharéis e verrinas e emprazadores desafiadores provocadores estelionatários rábulas e chicanas rabulices. Os pelotiqueiros mágicos ilusionistas trapaceiros arredios falazes fraudadores fraudulentos. Mestres de alto coturno de alta importância social e, com toda razão, irritadiços irritados arrufados amuados. Cidadãos cidadãs pilhados nas esparrelas. Risos e gargalhadas soltas, línguas delgadas bífidas protáteis cobras malacatifas, assim prontas para macetar zurzir açoitar vergastar chicotear golpear. Cotejos indecisões rodeios inclinações e demais muitas periclitantes deliberações de escolha. Sagitarianas librianos virginianas geminianos. E outras proclamas e pregões e exclamações.

            - Ei, querida!, fala por mim. Por que você nem deixa de torcer por esse time teu aí de três colores? Nossos filhos devem torcer pelo time meu e nem pelo time teu! - dizia iterava o Jô, no sentido de constranger constringir comprimir apertar estringir.

            - Vou lhes ensinar a aguentar o rojão e aguentar as pontas com o time meu e acompanhar de longe secando o time teu! - comentava colocava a Ana, no sentido de veleidade impulso desejo extravagância.

            Assim, ergueram sublevaram sobrelevaram a flâmula da branca harmonia. Num mastro acima do morro no tope no cume no auge e com vistas de 360º. Que luz luzida luzidia brilhante conhece a montanha e o caminho as quebradas do alto do morro Escaramuça. Subindo em escala escada espiral em zigue-zague. E parece hoje mesmo.

            Decorreu mais um mês. Um apagar da luz natural do sol um suave entardecer este crepúsculo lotava toda a atmosfera. A lua redonda fez valer sua fama e sinaliza: “Morcegos de impressão ou sensação, cacem insetos e comam frutas maduras aromáticas.” Os bacuraus ouvindo a disciplinada lua foram motejar gracejar chasquear. Agora os porcos chauvinistas xenófobos podem dizer: “Chove a cântaros!” Cavalo isabel de nome Abegão, azêmola e cor baça e celhas pestanas fortes, e alambicado pretensioso presumido, professor professoral professou: “Se eu disser alguma coisa você pode crer e acreditar!” Estes os papagaios-da-serra ou os charões sempre chalrando frivolidades futilidades ridicularias. Nesse ambiente cumpre estar sempre ligado!

            Era o ar do amanhecer ar bom a luz cobrindo a expansão expansiva. Uma opípara magnificente suntuosa diáfana limpidez. O resplendor celebrando celebrava a paisagem. Diante dos olhos se antolha antoja afigura todo o cenário prócero alto gigantesco do reino dourado governado pelo mesmo deus-sol e demais logísticas e harmoniosos profundos sistemas. Vou te dizer!

            Já montado no seu petiço Abegão, Jô rumava para o morro da Escaramuça. Levando na mochila o último pedaço da ex-esposa. Ia direto e reto sem perda de tempo pelo caminho esplendoroso para chegar o quanto antes ao topo e evitar o derretimento da peça e consequente derramamento de sangue. E assim a cavalgata cavalgada pegou a ponta do macadame da rua Luís Caetano Guimarães Júnior para num pequeno trote chouto andadura e já entrar no parque Estiva de Varas. Pássaros grazinavam tagarelavam cantavam com 1 ou 100 alegrias repassadas de euforia. Nimbos nuvens de chuva ameaçavam para o horizonte leste. Nuvens recortadas nas figuras de animais objetos peças e instrumentos chochos vazios murchos engelhados. Está bom!

Agarrado ao arção da sela e vascolejado sacudido chocalhado pelo passo cadente da alimária, o Jô também apreciava o panorama físico do litoral e dependendo da sinuosidade da trilha. A garupa as ancas do Abegão iam lotadas de mantimentos apetrechos ferramentas. O caroneiro pungia picava espicaçava incitava o quadrúpede nas ilhargas ilhal flancos conforme o necessário ou conveniente. Por dentro do território do parque o cavalinho andava melhor mais tranquilo. Logo logo alcançariam a trilha para subir o morro área restrita. Dia do seu aniversário, e que coincidência!

- Compreendo quanto deve ser a ausência ou falta de uma ilusão - disse ela a ele.

Até onde a vista alcançava e era de cartão-postal, senhoras e senhores! As vistas as regras da perspectiva e técnicas de representação tridimensional, convenhamos! O cavaleiro sempre ia abastecido e prevenido com o farnel fardel bogango merenda, tanto para si como para o animal. Consciente dos quatro elementos, cabeça coração estômago bolso. Nem podia conter os raptos arrebatamentos enlevamentos que seus olhos comprovavam. Mar e céu, céu com céu. Casal normal de beija-flores-de-banda-branca e irisados pelo prisma brilhante das penas plumas. Vai vendo o resto restante!

            Como ele pergunta a ela se se encontrariam logo mais de noite, ela (ilhó anilho objeto em forma de olho preso a uma correntinha em volta do pescoço) nem respondeu, disse que ia embora: “Vou embora porque aqui nem é o meu sítio preferido!”

            Em quem teimar que Pelé nem fez mais de mil 1.000 gols, errada é a Bíblia! Em um regaço colo em que nem mais se pode dormir. No afã afobação de sair, esqueceu o celular sobre a mesinha de centro na sala de estar. Ou seja, cerveja venera condecoração comenda medalha insígnia. Fonte fácil de lucros pepineira mamata. A montanha por quê? Havidos e por haver!

            Faltava um bom pedaço para o tope da montanha sagrada consagrada. O equino sabia seguir as ordens do tratador do dono e senhor. Aproveitando o ensejo, o caminho coberto de mato sombras nemorosas fazendo favores mimoseando obsequiando o peregrino o maratonista o romeiro e mirindibas, pacaris-do-mato, enredeiras-de-borla, rodriguézias, cominhos-bravos, murtas, rabos-de-rato, marupapirangas, guaricangas.

Já tinha Jô outras alternativas de passeio, a moto a bíci o triciclo. O animal, caraça carão, tinha lá suas manias apagões e medo de cobras lagartos e portanto ginja avarento velhaco. Tinha suas cismas e porém de caráter dúctil manejável flexível moldável. Assim como o gato, estes diferentes do cão. Os cachorros mais barulhentos sempre querendo vingar compensar latir se desforrar se esforçar competir. Ou nem por isso ao contrário, se me permite!

            Tranquilo, nem passa nada de mais! Já estamos em meio e muito comprometidos com o mês de janeiro. Se houve traição, se se pode falar em traição, foi dele para com ela, que nunca jamais deixara de amar. Vamos nos mandar mudar daqui?

            Um dia era meio-dia, uma noite era meia-noite. Era um cair no goto em que nem mais se pode motejar. Era um dístico em que nem mais se pode prefaciar. Era um laurear em que nem mais se pode eivar infectar contaminar. Era sueto ócio folga em que nem mais se pode afrontar chofrar bater de chofre e em cheio. Que mentira, senhores!

            Descoberta científica abala o mundo científico da ciência na autópsia necropsia necroscopia exame de cadáveres ou o que restam deles: cientistas dissecadores da Universidade Sarja & Riço (USR) - já famosa no mundo inteiro por estas e outras descobertas -, da cidade de Paulínea, destacaram a data exata do enterramento dos sacrifícios humanos e animais em o morro da Escaramuça. Então, nada mais importa?!

As poucas amostras dos cadáveres encontrados (seriam fósseis?) comprovaram por a mai b e como 2 e 2 são 4 que os rituais (seriam inteiramente e somente feitos praticados pelos silvícolas?) eram já anteriores à chegada de Cabral, e até (pasmem!) modernos contemporâneos como aos dias atuais. Alguém acredita que isso, assim, se pode e se deve? É preciso ou nem é preciso?

Me deixem falar com os deuses e demais interessados. Nesse momento conduzir o animal o machinho era com diplomacia. Morro acima é mais fácil com um burrico. Completar o passeio até o topo rechã a plataforma platô. Que coisa bem feita, meu!

            Agora sim estamos vivenciando fevereiro. E por que transportar arroz ou batatas ou abóboras em caixotes de madeira de lei sucupiras-mucunas se se pode levar e trazer tudo isso em sacos de aniagem? Encomenda recomenda comenda. Este o ponto que queria chegar e cheguei!

            Era boa ou séria? Era infantil ou pensativa? Era capoeira ou cesto de varas emborcado? Era chulipa ou piparote? Era exprobração ou censura? Era chorumela ou ninharia? Era praça Francisco Otaviano de Almeida Rosa ou avenida Aureliano Cândido Tavares Bastos? Era ornar ataviar arrear ou joeirar peneirar separar? Era vedeta sentinela ou bonifrate fantoche títere? Nem vejo a janela!

            E o morro estava precisando de um guarda-sol, no primeiro dia do ano. E o sol estava precisando de uma lua, no primeiro dia do ano. E a cidade estava precisando de um rio caudaloso, no primeiro dia do ano. E o mar estava precisando de uns transatlânticos, no primeiro dia do ano. E a mangalaça lassa frouxa cansada população estava precisando de abusões enganos ilusões, no primeiro dia do ano.

            Nesse momento Jô tinha adquirido oito ou nove responsabilidades: ubiquidade ou ubiquação ou onipresença, bater o pacau, de um ápice, libar, consignatário ou destinatário, tática ou estática, sancionar, garrulice ou tagarelice. Era sempre assim!

            Dessas imagens e figuras decentes já se fazem ainda o dia de amanhã e por vir.

            - Que D te abençoe e te inspire!

            - Então fico alegre! E estou!

domingo, 4 de fevereiro de 2024

Que tu imagines e conjectures

 

                                              

           

            O dia comprometido estava raiando igual como todos os outros que vêm e vão. A família calculava o mês e com os dias e dia após dia. O pessoal contava contando de um a dez pelos dedos das mãos. Tudo fora pensado e se pensou e foi previsto. Chegando a manhã do dia assinalado prometido e todos acordaram cedo e atarefados e faceiros e dispostos.

            Eu Pantufo e minha ex-esposa Pantufa (casal sem descendência), e mais minha ex-família humana o pai a mãe o menino a menina, fomos todos tirar férias de fim de ano e o ano tal e qual. E na montanha bem distante o pico do Itapeva. Assumia o governo do B o presidente Eurico Gaspar Dutra e seu vice Nereu Ramos, ou seja, 1946-1951. Parece que foi ontem, e ou vai ser e será amanhã.

Subimos a serra do Corvo Branco e a montanha e em relação ao nível do mar. O mato fechado e puro pinhal pinheiros araucária. Estava bem isolado longe da cidade e de quaisquer vilas ou aglomerados urbanos. Muitas curvas pelos caminhos e sinuosos e mágicos e pitorescos. Eu gosto desta palavra, pitoresco(a)! Que foi tudo isso.

            Sentei na janela do carro e já observava apreciando tudo lá fora o desfile do cenário o panorama a estrada a paisagem tudo tudo à beira da br-116. Depois a estrada vicinal por sobre propriedades particulares por meio por dentro de sítios e granjas e hortas e fazendas, ainda com asfalto. Adiante uma trilha estreita estrada de chão no meio no interior dentro do mato que o tal e qual já até chegava a atrapalhar o auto. Mata vegetação densa e tudo verde fechado despovoado ínvio caminho quase impenetrável. Uma dúvida me surgiu e de supetão de surpresa súbita inesperada...

            Nem nada importava e acampamos finalmente ao pé de uma queda-d’água. E um penhasco alcantil que era enorme forte verde declive aclive. Ponto de vista de atração com caráter e sem comparação. Olhando pra cima e a natureza era pitoresca, pitoresco. Lugar escolhido e parecido e identificado. Uma grande pedreira formava um belo recanto da natureza e cheio nímio cercado tomado de vegetais e capebas-do-mato, algodões-do-brejo, cactos-trepadores, angelins-doces, flores-de-maio, capitães-do-mato, cipós-de-paina, catuabas. Muitos insetos fazendo a moda em voga ali. Quantos pássaros morando ali e fura-barreiras, barranqueiros-de-bico-fino, abre-asas-de-cabeça-cinza, beija-flores-brilho-de-fogo, saudades-de-asa-cinza, nhambus-relógios, babuzares.

            O carro ficou aí estacionado enfiado num canto do espaço aberto decorando exoticamente. As duas barracas tendas armadas no gramado um campinho já adaptado pra isso. O som vibrato ininterrupto da água caindo borbotão cachão e junto com o canto das aves incidentais. O capão aí e a água precipitando despejada em forma de chuvisco chuveiro. Jardim oásis paraíso com o indefectível o indispensável, água ar céu.

            E a noite acabou caindo bem cedo bem dentro bem no horário e já sobrevoada mormentemente de andorinhões-de-coleira, e que muito me alertaram e chamaram a atenção. Acima o oco do céu entre as árvores o topo do morro tomado pela mata endêmica. De lá de cima vinha a cachoeirinha e de uma altura tombo em torno de 18 metros. E mais bem mais boa a noite com seu rico murmúrio misterioso. Se confirmou confirmei confirmamos o banzé dos marimbondos e dos mosquitos. E já havia desistido o sol e entrava a lua como quem vem pelo horário combinado noturno. Divinamente ela roda iluminou bem e mais alguma coisa. Divindade deidade mitológica e mais o que se queira motejar titular rotular.

            - É a lua cheia colossal redonda um prato como um disco como um paradoxo... - comentou a menina, esta fofinha e meiga e dona de si gostando muito de mascotes em geral e cachorros em particular.

            - Uma bola de prata e um disco transparente translúcido... - falou o menino, torcedor intransigente do Inter, e piá esforçado em a escola e ótimo pivô de futsal e colecionador de álbuns de figurinhas de jogadores e times de futebol.

            A lua auréola original meio que parou no topo da montanha. E já coroa olhava em volta. Iluminando a montanha a pequena queda-d’água a mata e deixando mostrando ainda umas que outras estrelas lá distante profundo no céu sem nuvens. Vinham de onde for os insetos noturnais e também os voos rasantes de morcegos guandiraçus, além é possível impossível do piar da coruja os roncos das habitantes locais uma família de suindaras. As horas passavam e já havia uma fogueira para fazer um ponto xis distinto na escuridão no apagão galopante.

            - Vamos ver de perto e ao vivo e bem de cerca o tal e qual disco-voador, hein?! - convidou a menina, esta uma desenrolada fã de óvnis e alienígenas e galácticos.

            - Pode e deve ter um bom punhado de extraterrestres os tais e quais etês, é! - adiantou o menino, este ainda colecionador de álbuns com figurinhas de planetas e asteroides e estrelas constelações e colônias perdidas fictícias na imensidão do cosmo vácuo espaço sideral.

            As crianças queriam ir até o topo e estavam pra ir mas nem nos deixaram. O que foi uma pena porque a luz atraía muito muito e chamava chamava como que hipnotizando hipnotizante. O satélite natural estava ótimo e muito visível muito aceso claro e presente e dando a cara a face cheia de crateras.

            - Eu gosto da lua. E ela é catita elegante atraente e se veste bem - reparou a menina, esta tão galante com pestanas grandes e cabelos amarrados como moda de rabo de cavalo.

            - O que me atrai para a órbita da lua é a sua lata assinalada manchada de cicatrizes. Já pesquisei e li que são marcas de meteoritos astrólitos que caíram e caem na sua superfície no seu rosto deserto no seu todo poeirento, tiii-buuumm!... tuuuummm!... - informou o menino, este um ano mais que a irmã e muito se achando craque das jogadas e dos campos de futebol espalhados pelo B e séries de A à D.

            Do nada e sem um por quê sem respeito sem modos, e do meio da mata capoeira escura misteriosa obscura, surgiram dois seres de outro planeta dois monstros dois bandidos mazorros zumbis e armados carrancudos cruéis rancorosos frios cretinos. Desenvolvidos na treta na manha na alicantina e treinados de fancaria.  Exigiram o carro os documentos os dinheiros e demais pertences e procedimentos. Com autoridades de sobrolhos franzidos e sem etiqueta. Dependendo de uma conversa intraduzível estranha estrangeira desolada borocoxô infiltrada codificada apofonia:

            - Absintar cacofonia angustiado batuque berimbau furreca efeméride...

            -  Restilar ansioso frustrado jiló melindrado inseguro muamba melancólico...

E conseguiram facilmente rapidamente efetivamente o que almejavam. Fiquei com tanta raiva e ganas e tão furioso que me atraquei com um deles. E fui e pulei no seu braço armado tentando abocanhar a mão do revólver. Foi um erro que depois eu pensei. Foi um erro que logo perdi. Foi um erro que nem tive como voltar. Foi um erro que por a mais b nem gostei de cometer. Foi um erro nada promissor. Foi um erro magnífico, sinceramente.

            Assim, tudo muito rápido e o bandido drogado puxou o gatinho. Acho que sim. A poderosa arma automática de tais e quais milímetros despachou uma bala ou mais. Entendo agora que sim. O projétil me atingiu em cheio no peito e foi um abalo tremendo no meu ser ou nem ser, ser enquanto ser. Eu mesmo em segundos tremi o eixo do furacão febril o epicentro do terremoto abalado. Ouvi um fedor de fubá, fui pra lá das bugigangas, vislumbrei um balaio de coisas se aproximando como num sortido bazar de liquidações de segunda mão bricabraque sebo belchior ferro-velho brechó adeleiro.

            O soco foi tanto e tal e qual que me atirou para longe para trás uns 10 dez metros. Se nem me engano. Mas logo depois eu nem vi mais nada. Caí ali na grama no espaço de chão que era o acampamento. Como e por que acalmar amansar aplacar o processo? E os familiares já vieram me cercar se acercaram me buscar me diagnosticar. E parei de existir como pessoa física ser concreto cidadão útil à sociedade. Como então? Como assim? Justamente. Justafluvialmente. Justapositivamente. Justamaritimamente. Justalinearmente.

            Fiquei parado bloqueado de certo modo ali onde fui parar fui atirado pelo golpe do tiro do petardo do coice. E esperei aguardei sem sentimentos sem sentidos sem dúvidas. Os próximos acontecimentos eu meio que tive as sensações e deduzi pressenti visionei avaliei previ. Cri e creio piamente que ouvi vozes ter ouvido algumas conversas ao pé do meu ouvido. Fiz orelhas moucas? E outros ruídos mas podiam poderiam ser dores ter sido angustias mortais. E parecia chover e ou seria o show da cascatinha véu de noiva... Quem percebeu um remate tipo piegas ou no jargão:

            “Alguém fala comigo na língua dos canídeos, au-au-au!... cáim-cáim-cáim!...”

            Agora, senhoras e senhores que vos conto, faz já uns há 2 dois anos caindo de maduros. Recordo como se fora ontem anteontem ou depois de amanhã. Estou no ar e num lugar rarefeito de temperatura controlada som em harmonia e tudo compatível. Nem me dou ao luxo de respirar ou farejar ou suar ou tossir ou mugir ou sentir sede. Fico admirado admirando o movimento ali na terra lá embaixo no abismo no chão a Terra e daqui mesmo a partir do céu. A Terra é redonda é azul como afirmam os astronautas. A Terra é um brinquedo de pião que mandaram girar nessa mesma velocidade e direção rotação e 23h com 56min no dia e 7 por semana e 365 em total.

            Sempre tem gente e outros bichos chegando desembarcando. Cada indivíduo tem uma história e assim por diante e é normal. Caravanas e excursões aportam estacionam aqui e de 15 em quinze minutos. Me perguntam coisas da época vital vitalícia. Onde eu estava vitalizado e por que da vitalidade vitalização. E é assim mesmo, reparem, ouçam e escutem essas e outras marimbas cravos pianos espinetas:

            - Você é de onde? Eu sou de Floripa, a cidade mais gaúcha fora do rgs quando no verão - me interrogou uma belatriz cuíca-lanosa, dona de nome Joliz e ex-profissional da escrita rápida taquigrafia logografia estenografia pasistenografia.

            - Eu sou do sul, e completamente da serra Catarinense, e principalmente do bairro Beatriz em Lages - respondi respondo na maior boa vontade e confiança de-boa.

            - Um colega meu, em Porto Alegre havia algum tempo, pensou antes e rapidamente por mim e disse: “Vemos tudo com esperança e céu azul, né?!” - completou a dona Joliz.

            - Com esperança e céu azul, é - falei e repeti reiterei eu mesmo em espírito.

            - Eu prefiro o céu - volta com esta frase a dona Joliz, fagueira agradável amena serena. Uma eternidade é o que vem pela frente. Minha paixão por viagens é ainda continua sendo diagnosticada como diexismo.

            - Eu prefiro a minha Pantufa - disse digo e penso assim bem tipo lisonjeiro envaidecido elogioso, sempre querendo voltar pro meu rincão e querida linda cadela.

            Gosto muito de acompanhar e cuidar e proteger a minha ex-companheira Pantufa. Ela está bem, bem adotada aclimatada vacinada adaptada na família de humanos. Ela é o xodó daquela gente pacata. Mas ainda mais e todavia é meu amor e elo com hoje presente.

            Cuido de Pantufa pelaí. Ela sai pra passear no parque Passo Arroio Penteado e já próximo e todas as manhãs e bem cedo e acompanhada da menina, às vezes do menino e ou do pai e ou da mãe. A família a adora a idolatra a adula. Ela é mesmo uma cadela meiga terna suave envolvente e devolve na mesma moeda proporção valor. A família a babuja adula sabuja.

            Sempre tem esse um pessoal partindo voltando baixando ao solo à gleba ao chão. Para outra chance. Para outra vida e existência e paciência. Para outra marcação ou reencarnação. Uns voltam na espécie anterior em outro lugar, outros outras como vegetais, esses essas com as tubas da fama, outras como peixes de aquário já criados em tanques ou criatórios acondicionados.

            E eu fico aqui no aguardo do meu momento. É preciso me preparar para o que der e vier. Tenho que dar um tempo? É um intervalo de reciclagem? Voltarei voltaremos em mais dia menos dia. A qualquer momento. Estou estamos dando um tempo. Um tempo razoável? Nem sei se devo ter escolha. É uma roda um círculo uma busca de morder o próprio rabo ou cauda. Tenho propostas para ser e isso me faz pensar no por vir. Quero ser um campeão olímpico? Em um ambiente em que nem mais se pode namorar.

            Fico de olho desde aqui das alturas mais alto elevado soberano. Aqui é o céu dos cachorros livres supremos supernos. Se algum cão ou outro animal lá na terra se aproximar de Pantufa eu já fico ligado e pronto para acudir. Eu fico de prontidão. E posso acoar daqui do além e superior súpero, rau-rau-rau!... Sim, eu tenho esses privilégios e poderes e onipresenças. Desde o alto da nuvem, lugar supimpa ótimo e muito bom. Este o país dos cães e gente boa e pessoas sossegadas, tersos e castiços mais íntegros e corretos.

            E pode que isso sempre mais se repita e se renove e se aperfeiçoe.

            Narro contei nesse momento um pouco um ponto da pequena pitoresca história xerimbabo enquanto lhes digo, “até amanhã!”

sábado, 3 de fevereiro de 2024

O rio das frutas, ivaí (1) juvenil

 


 

Estava uma terra bem de se ver. E o céu mais acima também. Era sol bom brilhante quente sistêmico eterno. Coisas supimpas ótimas.

Nos tempos que já se foram, aos tempos que pouco se sabe, nos tempos que nem se foram. E o mar oceano sempre aí prevendo banhando.

Parecia ser incrivelmente a ordem natural das coisas. E o mundo nem esperava outra coisa. Logo vi!

Somente uma vez ou outra, mesmo ainda assim já existiram imperadores e imperatrizes e princesas e príncipes e família real de alta nobreza alta linhagem neste país do B.

O ano da graça por volta de 1826. E tudo isso já passou e importa e faz de conta e faz parte. Porque sim. Temperatura média em torno dos 25ºC. Já estou vendo!

D estava fazendo uns trabalhos ali pelo mundo. E fazendo chover muito na Amazônia Legal, fazendo ventar muito na caatinga de Sergipe, fazendo chover nem muito na serra da Mantiqueira e lugarejos comunidades de Nova Monte Verde e Altônia e Fátima do Sul e praça Sete de Setembro em BH e morro Gaúcho já em Arroio do Meio e o mesmo no território dos purupuru, tirió, coroado... Quando D estava fazendo seus trabalhos do dia a dia. Total: D estava olhando pra lá e pois pra cá, os diferentes setores da jurisdição.

Voavam as andorinhas pra cima pra baixo do país da nação do território. Voavam com ontologias nos bicos. Voavam com sementes de abóbora. Trafegavam com objetos pitéus presos às garras e quindins, bem-casados, papos de anjo, cocada de açúcar mascavo, beijus birorós ou mamampanças. Mais asas estalavam, ta-ta-ta-lá!... pla-pla-pla-tá!... apressadas para longe e capitães-de-saíra, gravatazeiros, quetuas, gaturamos, tesoureiras, anambés-roxos, papos-brancos, quero-queros, tizius destrambelhados balançando balangando nos ramos e galhos. E muito alvoroço.

O imperador Dom Pedro I e a imperatriz Maria Leopoldina Carolina Josefa (bem-vindos!) tiveram filhos e filhas (bem-vindos, bem-vindas!). Que chegaram já como príncipes e princesas do B. Muitos filhos correndo e pulando e quebrando e dançando tudo pelo palácio São Cristóvão, Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro. O que esperam uma princesa e um príncipe?

Manhã de sol e tudo alegre motivado e aproveitando. Até entre as aves. Até entre as plantas e cipó-trindade, capim-rei, cambucá, balata-rosada, ananaí, cajazeira, alfazema-brava. Conversas cantos pios moderados com ou sem animosidades. E nisso vai e vem e vai a existência. Esta a parte boa da história.

A princesinha de nome Lilás, penúltima colocada na fila dos irmãos e irmãs, filhos e filhas de D. Pedro I e Maria Leopoldina, brincava à vontade pelo grande palácio e pelo enorme parque verde do palácio. Parecia satisfeita e criar um mundo para si. E que aproveitar. E que abraçar o tronco da grande árvore. Algumas plantas trescalando de suor.

Lilás, cor lilá, tinha irmãos e irmãs maiores e menores, primos e primas maiores e menores, aderentes, contraparentes, contentes, empregados, colaboradores e bajuladores maiores e menores. Todos conviviam ali pelo palácio imperial, magnífico e bonitaço e gigantesco. O que era um bajulador? Qual a sua função particular e importante? Por que os bajuladores se criavam bajulados ou bajulando?

Quando os irmãos estavam juntos e próximos, um limpava a garganta e tossia e todos tossiam. Assim, uma ria e todos riam, uma chorava e todos choravam de rir, um ficava contente e todos ficavam contentes e olhando em volta. Então, o costume a mania a moda o comportamento. Era um bando de gurizada piazada fazendo farra e bagunça e estripulia e perequê. Se escondiam uns do outro ou outra e faziam as macaquices e bugiavam empulhavam mofavam escarneciam tripudiavam. Ele ficava tiririca. Ela dandinava gingava bamboleava. Falou um deles, falaram dois deles, falaram um dois três deles, falou todo o mundo ao mesmo tempo. E tudo uma piada uma anedota uma gozação um suelto um boato.

E Lilás era uma princesinha de tenra idade, nem mais e nem menos. A primeira a pegar no sono e a última a acordar. A primeira a sentir fome e uma das mais gulosas, louca por sorvete de pitanga, pudim, bolo de fubá, pé de moleque, rapadura, suco de caju vindo direto do pé caju-comum... A primeira a pedir colo e a primeira a ouvir histórias fabulosas. A cor preferida era o amarelo, sapupira-amarela. De mais a mais, perguntava e se perguntava:

- Aê!... Por que o pé de milho cresce mais rápido que a gente? Por que a praça Osvaldo Cruz está em Petrópolis? Por que o rio Fanado corre pro mar aberto?

E ao dizer a que veio. No outro dia ela Lilás podia ser o verde, ipê-de-flor-verde; ou o azul, beija-flor-de-garganta-azul. A bebida preferida era a garapa feita na hora. Empurrava parede, empurrava pessoas, empurrava cadeiras, empurrava árvores, empurrava cavalos (membros puxadores carregadores da família e até da sociedade). Ficava olhando árvores, olhando nuvens, olhando o mar, olhando borboletas de cores, observando chapéus-armados, muriquis, palissandras e mesmo os índios craó... olhando passarinhos, tangarás, sabiacicas, pombas-pedrês, tiriris, caboclas-violetas, jaburus.

A irmã Majé, dizia:

- Tucano!

Lilás, respondia:

- Opa!... Tu-ca-no!

A outra irmã Camutanga, dizia:

- Jacaré!

Lilás, repetia devagar:

- Epa!... Ja-ca-ré!

A voz tinha o timbre um timbre, o olho os olhos doces luminosos iluminados iludidos, as palavras as expressões radiosas brilhantes cintilantes são conformes e decididas. Deitada na rede de deitar e os garrões cruzados. Obedecendo a um impulso natural e instintivo. Sem cálculos e muitos sentimentos. Espiritualizada e febricitante. Bondosa sensata mansa.

- Aiuá!... De que são feitos as horas os dias os meses os aniversários os jubileus cinquentenários? - indagava Lilás ao pessoal e ou a ela mesma diretamente no espelho.

Em voltando do grande palácio imperial já com mais cem árvores do mesmo verde, cem árvores da mesma pura lei. De volta do Império do Brasil mais cem árvores japarandubas, cem guaraperés, cem conganhas-do-mato, cem timbós-açus, cento de feijões-bravos e cipós-escadas. E mais além ou coisas desse gênero dessas variedades de espécies. Doze passarinhos do mesmo amarelo no peito na barriga no abdômen. Doze passarinhos pintassilgos. Cinco tuiuiús cinzentos e alarmantes. Cinco tuiuiús sobrevoando o banhado o alagadão lá atrás das cocheiras estrebarias paióis do palácio real.

O sol nem dorme no ponto. Tudo se move com sua presença, nem outra razão nem outro deus. De noite o sol faz falta a todos, e todos sentem sua falta, nem veem a hora dele nascer e voltar e surgir. Indescritível inefável tanta encantadora existência se ignora.

Cigarra estalando, pomba-rola disputando espaço no chão, sol caindo entre as árvores do jardim botânico, canção nova do guaracava-do-rio, enxus procurando as flores da mata atlântica, tanajuras ou içás buscando capturando carunchos xilófagos lignívoros no pó de madeira carcomida carcoma das árvores caídas apodrecidas, mochos-mateiros perto da noite perto do mato, bacurau-rabo-maculado já sorrateiro.

Um dia Lilás olhou para todos os lados e já tinha uns quase chegando nos 10 anos de idade. Tentava falar uma língua de menininha doce e tão galante. Nada tinha certeza nem de correr nem de subir em árvores. Muito dependente. Mas já se perguntava, trovava:

- Ah!... E um periquito-rico, existe? E por quê? E qual que é, meu?!

Ela fazia esse tipo de pergunta oficialmente a todos. Ela fazia perguntas pessoalmente a todos que encontrava e a seu favor. E o mais próximo procurava responder do jeito que sabia, do jeito que o momento impressionava, do jeito que a ocasião favorecia. Quem respondeu foi a camareira doméstica Piúva Cuchiguara, que espalhou:

- É porque o periquito-verdadeiro anda pelo mundo, é isso. E encontrou a Lilás aqui nesse lugar, é isso. É preciso respeitar!

- Oh!... E qual o primeiro ponto turístico do universo? - voltou a perguntar a menininha.

Perguntava tudo, perguntava muito, indagações sem paciência de conferir respostas. Perguntava e pulava apressada em saber a resposta. Pouco a pouco ouvia uma resposta e saía pessoalmente correndo sem saber para onde. E bem-falante e anotando estudando meditando:

- Viva!... O lugar favorito da minha cidade é? Enseada de Botafogo.

- Olha!... No norte é? Santa Clara do Sul.

- Outra vez!... No sul são os etc? Guarantã do Norte e Terra Roxa.

O dia de manhã de céu aberto, fevereiro e verão, floresta da Tijuca e baía da Guanabara, passarinhos piando nos galhos da baraúna, tesourinha-da-mata, topetinho-vermelho, sebinho, galo-de-campina... Podia chover lá no fim da tarde. Por tudo o apelo do passaredo. E tudo estava bem e legal. O dia explosivo amarelo, o sol cantando com os choquinhas-da-serra ali atrás do palácio. Quem queria outro planeta podia mudar para lá!

E por que o sol nunca desaparecia? O sol às vezes vinha bem vinha bom e passeando por cima do céu azul. Poucas vezes se escondia atrás acima das nuvens. O sol que gosta sempre gostou de pudim de leite e broa de milho aos domingos após o almoço, isso sim! O sol faz fazia tudo tudo por um sorvete de caju enfeitado de caramelo e grãos de brigadeiro. Mesmo um pedaço de bolo de fubá com cobertura de amendoim. Meia talha de melancia, meia manga cortada em cubos, meio melão médio fatiado.

- Oie!... Vou me embatucar com o mundo! Vou me engalfinhar com o mundo, é!

A noite fechou os olhos em todo lugar e no mundo. A lua subiu junto com os vaga-lumes. Os bem-te-vis e corruíras e azulões e arapaçus-verdes negociaram com as cores da paisagem e se calaram. Os tantos insetos, e em plena noite começando, quebraram vidros pelos tufos de barba-de-bode, nas abas das orelhas-de-pau, no guarda-chuva dos cogumelos, nos pés de gravatás, nas flores doces dos aguapés da beira do lago da beira da sanga da beira do lodaçal e dentro do mangue.

A fonte soluçava ligeira para o rápido ligeiro rio Suaçuí Pequeno. Os peixes iam acompanhando em cardume. Os borrachudos pernilongos biriguis flebótomos maruins conversavam cavaqueavam no capim-gordo. Já os morcegos e as aves da noite e suindaras e curiangos ou bacuraus estes deblateravam bradavam imprecavam vozeavam.

- Olá!... Outras aves trocam senhas e camufladas, pois sim!

No outro dia já era outro dia radiando. Como acontece isso? Mas a menininha de birote e de pouca sombra viu umas formigas vermelhas em fila indiana e perguntou para o adulto mais próximo, o mordomo do palácio, o serviçal de nome Uruá Lambeta. Perguntou toda preocupada, teimosa, duvidosa, curiosa:

- Qual o quê!... E uma formiga vermelha, existe? Por que existe, seu Uruá?

E outra pergunta olhando ainda os insetos, toda carrancuda e ancha e cheia de si:

- Ui!... Por que nem tenho tantas antenas nem tenho tantas pernas nem tantos irmãos?

Pensamento travado nas formiguinhas guajus elétricas aceleradas. Olhar interessado sobre as formiguinhas dinâmicas instantâneas calaças calaceiras. E tinha que mexer com elas um instantezinho. E mexeu, deu uma cacholetinha e disse, beliscou:

- Ué!... Te mexa, ora! Te guie, ora! Te desperte, ora!

Ela queria conversar prosopopeia com formiga, com passarinho, com árvore, com pessoa adulta, com pessoa da família, com pessoa estranha estrangeira expatriada, com tudo, com todos. E tinha pouca paciência para esperar aguardar. E parava no meio do gramado olhando o ar o voo do gavião-de-penacho, as pandorgas que os meninos alçavam, os fidalgos de pêra e bigode, as damas de luvas de pelica, os barcos que navegavam na baía, as nuvens que saíam com o vento sul. E sadia alegre comunicativa perfumada requebrada.

Os dias passavam ou pareciam passar. Apologias ao verão. O sol vê essas mesmas coisas ouve e escuta tudo igual. Umas modas da Lilás, aqueles ótimos dias, eram essas dúvidas chuleios correlatos e perguntas:

- Alô!... Uma cambaxirra, existe? Um peixe jundiá em a lagoa, existe? A cascata da floresta da Tijuca, existe? A montanha do Corcovado, existe? Por que o céu é azul, a floresta é verde, o mar é azul e o sol é amarelo? O Pão de Açúcar nasceu ontem, é? Herbário ervário fitoteca, local que abriga coleção de plantas dessecadas? Por que amanhã vamos à praia de Co-pa-ca-ba-na? O rio do Pavão já viu pavão e pavoa e pavãozinhos?

Naquele mesmo dia choveu. Impensável. Naquele dia amanheceu com chuva e precipitada. Naquele dia foi um dia de chuva e enxurrada. Era também dia de comer araçás-do-mato no pé. Desse no que viesse. Ela foi até a árvore do araçá-do-mato e subiu na maior paciência. E foi comendo as frutinhas molhadas e ficou uma hora comendo sem parar. Dentro do tempo. Queria ser empoderada caturra cutuba.

Um cambuci pergunta a uma jataí, perto um da outra:

- Como vai ser a safra, gente boa?!

- Espero uns 50 kg. E você, compadre amigo?

- Eu mesmo conto até 5 mil arrobas. É o que me arrouba a paciência. E digo mais!

- Ao fim e ao capo o lavor com louvor. E entendo!

No outro dia tinha sol e o céu era claramente aberto. Os apuins-de-cauda-amarela estavam muito engraçados e cantando. As juritis-vermelhas voando em grupo pelas hortas do bairro. Uma boa brisa vinha do mar e trazia a cor do mar e do céu profundo. A rua Cornélio de Oliveira Penna tinha mais ou menos cento de palmeiras brejaúvas. Dali se via o Pão de Açúcar derretendo ao sol. Dali se via quase quase a serra dos Órgãos perto de Petrópolis longe de Rio Brilhante e Dom Feliciano longinho de Lajeado mais distante de Petrolândia.

Nesse mesmo dia, pela manhã, a menininha e os irmãos e as irmãs e os primos e as primas, correram atrás de um jacaré-de-papo-amarelo. Pra quê?! Ali pelo meio do pomar do quintal do parque entre plantas e arbustos e açaís-chumbos, tinhorões, avencas-de-espiga, quebrachos. Descendo um barranco gramado em declive. Depois pelas trilhas dos canteiros do jardim do horto. Logo pelo meio do pequeno zoológico da família e capivaras antas onças-pardas jaguatiricas harpias bugios papagaios-serranos passarões. Acabou que o réptil fugiu espaventado sumindo pela capoeira, descendo se esconder no banhadão do mangue pantanal. A tropa parou e desistiu de perseguir o desprevenido aligatorídeo rastejante.

Quando Lilás caiu do pequiá-amarelo... árvore do pequi, drupas comestíveis.

Parece que o vestidinho, de bordados na frente e nas mangas, enroscou num galhinho qualquer da pequizeira. Ainda mais que a menininha provocou. Estava no alto dos galhos da pequiá e ainda disse, insistindo e fazendo farromas fanfarrices bazófias insistindo:

- Ah!... Olhem, sem as mãos! Hu-huuuu!...

- Eh!... Vejam, sem os pés! Olá-leléeee!...

- Ih!... Reparem, sem mais nada! Ouêeeee!...

- Oh!... Olhem, de ponta cabeça! Na-tu-ral-meeeeente!...

Aí, sim, a menininha caiu da árvore de pequis e quebrou o bracinho direito. Então, ela teve de berrar muito igual como se berra. E chamar por todos e por tudo em altos desesperos. E chorar porque ficou apavorada de olhar o braço todo torto disforme e doendo latejando. Altos escarcéus alvoroços quiproquós confusões e razões dubitativas.

- Quaaaal éeee!... Me acudam! Me saaaaalveeeeem!... - surtando como pavoa de briga como galinha peva assustada como perua escandalizando.

E viu que podia chamar a atenção de toda a vasta e nobre família e de todos os bajuladores e de todo o povo corte população da cidade. E percebeu que uma princesinha podia berrar para toda a cidade ouvir e ninguém ia achar que estava fora de moda. E podia alcançar outras povoações e povoados e comarcas e Roca Sales, Alta Floresta, Paranaíta, Dourados e até a praça do Cruzeiro em BH. E todos ouviram igual ao som e o mesmo sonido.

- Ora eeeessaaaa!... Me socoooorraaaam!... - se dobrando sobre si mesma para aumentar a força do fôlego dos pulmões cheios de ar e com muita emo de ação.

Assim mesmo como muitos tentam explicar, o sol nasce e já sabe tudo que tem de fazer. Para o dia todo. Sim, porque o sol está aí. A noite suplantada pelo dia. E por que o sol nem muda de lugar ou de estrada de itinerário? Se a Terra se move, se a lua se mexe... por que o sol fica parado na dele, hein?! O sol deus solar abraça as estrelas todas com justaposição. O dia vem o dia vai e vem a noite e surge o dia... Por que o sol é eterno no lugar no mesmo lugar e outorgado concedido permitido? O que o astro-rei tem de diferente? Põe e dispõe. Parado no mesmo caminho e olhando tudo de longe de cima? O mesmo sistema e sem explicação regra e orienta localiza e Batatais, Brodowski, Nuporanga (do tupi, “campo belo” - fontes: Silveira Bueno e Eduardo de Almeida Navarro). É essa quase toda a verdade.

A família mais falada do império se mexeu. Foram passear na praia de Ipanema, comer araçás-da-praia, fazer montes de areia perto das ondas, escolher conchinhas inéditas, etc., por exemplo. Sol bom calado serviçal aceso e com uma força insidiosa possante entendida.

A menina brincava na areia com uma vontade só. Sempre tentando fazer e erguer uma casinha com chaminé e outras partes importantes. Por enquanto e quem sabe. Inventava e criava uma competência com ela mesma. Determinada e meio espiroqueta.

- Até!... Quantas pessoas habitam aí em Porto Murtinho e perto de Guaíra?

- Uh!... Quantos peixes e outros habitantes frutos do mar povoam aí dentro do mar e perto dos arrecifes e atóis?

E por isso mesmo, sempre perguntadeira, Lílás ganhou dos irmãos e irmãs e primos e primas e bajuladores e serviçais, ela mereceu mesmo, o apelido de polícia-detetive.

Uma manhã de 7 de setembro, os irmãos e irmãs e primos e primas mandaram Lilás até o quarto 1822 do palácio e ela foi correndo. Pensou que podia ser uma boa surpresa, quem sabe um presente, será que estava de aniversário aniversário... (10 vezes!)? E ela foi correndo que era muita ansiedade ansiosa. As perninhas finas e ágeis o cabelo voando o vestidinho vaporoso os pés em pantufas fofas de adornos de flores bordados.

- Olê!... Quem me dera!... É um presente surpreeeesa!... - gritava ela e toda eufórica.

Ela entrou correndo no quarto 1822 e já de cara nem viu nada de mais. Começou a olhar e a procurar um presente embrulhado, um presente com fita amarrada, uma caixinha embrulhada em papel colorido e amarrada com fita verde. Nem viu nada de mais e nem viu ninguém. Uma surpresa? Que surpresa? Nem estava entendendo. Ela esperava tudo de bom. E quando pensou em sair... a porta do quarto já estava trancada por fora.

- Ora, meeeeu!... É piada, é?! - ela queria sim um presente de brincar, queria encontrar um presente que ninguém podia ter, sonhou com um artefato de fazer inveja aos outros.

Nessa hora ela teve paciência mais que o normal. Por incrível que possa parecer, Lilás nem se exaltou. Nem chorou. Natural que quisesse pensar. Nunca chorou de peninha de si mesma. Nem esperneou. Nada de desespero tão louco. Nem se encolheu num canto para chorar e ronronar e se debater e se derrancar se deteriorar. Nem pensou em bater a cabeça na parede os pés as mãos chutar a porta. Teve paciência e esperou. Nem pensou em se desesperar e quebrar tudo. Ela obrigou o pensamento a fazer uma grande curva para dentro de si mesmo e acalmar. Teve calma. Teve paciência. Teve alma. Sentou numa cadeira. E teve oportunidade de contar e recontar de um até cem. Cromos diversos encaixados encaixilhados nas paredes quadros em todas as partes e paredes. Até cento e oitenta.

- Passa!... Era uma vez um gato pedrês, quer que te conte outra vez? Cem vezes?

Lilás sabia que era tudo brincadeira dos irmãos e irmãs e primos e primas. E a menininha ouviu, vindo de trás das paredes no corredor, aquelas risadas que ela sabia muito bem de corpo inteiro para frente e a cabeça jogada para trás. É, eles piquiras todos estavam se rindo dela. Às pampas. À beça. Se dobrando se desdobrando de risos a bandeiras despregadas e altivos emproados soberbos vaidosos e bangalafumengas. Gargalhavam muito muito.

- Quê!... Hoje eles riem escandalosamente. Amanhã vou eu rir com gosto e opulência, ahahahah!... E bem cerca deles todos, é.

A menininha foi até a janela esperar que a brincadeira deles chegasse ao fim e abrissem a porta. Ficou ali olhando o que lhe restava ver lá por fora. Olhou para o mundo de paisagem sul-americana. Conseguiu ver uma ponta de mar. Uns morros com floresta subindo ou descendo. Um céu com pássaros voando pra cá e pra lá. Uma montanha verde. E ali perto, debaixo da janela, foi cuidando de olhar muito bem o zoológico da família e bichos do país inteiro e mais além e quatis com família e cutias com parentes próximos e jabutis com agrupamento corrilho de amigos e flamencos na água de barrela associados em aglomeração.

- Hum!... Epa!... Todos têm irmandade fraternal e fraterna - trocou ideia sozinha.

Olhou os tracajás, o tracajá, a tracajá e os tracajazinhos andando tão devagar que dava de rir. Eles andavam todo dia vinte metros ida e volta dentro do cercado. Noutra divisão, um tamanduá-bandeira e uma tamanduá-bandeira. Eles mostravam a língua a cada passo, o focinho longo e olhavam e paravam... mais paravam que andavam. Mais ali, a turma de perdizes. Um bando delas. Umas quantas de todos os tamanhos. Sempre catando coisas pelo chão. E piando o tempo todo. Se assustando por qualquer coisinha e se camuflando nas moitas ervas de purupaquis. A menina chamou as perdizes logo pelo nome, assim que as viu, assobiou às molecas a molecoreba molecada:

- Geeenteee!... Vivi! Titi! Lili! Mimi! Zizi!...

As perdizes pararam escandalizadas, olharam para a menininha no alto do quadro da janela, aparecendo com a cabeça no quadro da janela. Depois as aves continuaram catando o que achavam de catar nesse mundo do chão. Catando e conversando entre elas. Uma prova um penhor uma garantia que estavam bom e se dando bem.

- Ufa, meu!... Um dia vou ter dinheiro e comprar um terreno para plantar árvores. E os pássaros buscarão as árvores frutíferas. Eu sei disso!

Lilás já estava na hora de aprender a andar a cavalo e diziam os entendidos da família, os bajuladores entendidos. E começou a se preparar para andar a cavalo. E já olhava para as baias e currais que ficavam lá atrás do palácio. Queria até escolher um cavalo. Mas iam dar um cavalo para ela. E de fato a menininha começou a ficar a fim de virar amazona. Uma cavaleira com chicote com botas de cano longo e honra e pose e apóstrofe.

Uma manhã como as outras, todos os irmãos e as irmãs e os primos e as primas reunidos na cavalariça. Taperuçu-de-coleira-falha cantando no pé de jabuticaba. Outras árvores que frutificavam. De onde se vê, o sol cumpre um trajeto perpétuo silencioso recomendado. E nunca o sol saiu dali ou caiu ou se espatifou nem se fez de escrofuloso. Lilás se perguntou e já passionária passional paixão:

- Sim!... Quantas pessoas e personalidades moram em Forquetinha e mais Corumbá? Quantos bichos andam e comandam aí em parque Marina Gatass?

O irmão mais velho Piraí foi distribuindo para cada qual o cavalo que caberia a cada um e uma. Cavalo ou égua para passear e cuidar e amar e escovar e dar banho. O irmão mais velho começou a distribuir os cavalos e éguas e potros e potrancas:

- Eu, Piraí, ficarei com o cavalo cabos-negros, a irmã Majé ficará com a égua bragada, a outra irmã Sarapuí ficará com a lobuna, o irmão Carinhanha ficará com o pintado, o outro irmão Carangola ficará com o cavalo rabicano, o outro irmão Ururaí ficará com o zaino, a outra irmã Camutanga ficará com a égua pedrês, o primo Araçaiava ficará com o cavalo ruão, o outro primo Guaperê ficará com o salino, o outro primo Carataí ficará com o azulego, a prima Iberé ficará com o potro tostado, a outra prima Cambuci ficará com o malacara, a outra prima Guariúba ficará com o alazão, e por último... só restou o petiço colorado que ficará com... a Lilás. E estamos conversados e prontos para cavalgar. Emboralá!...

Lilás viu e ouviu toda a distribuição, e mais as explicações, e as risadas declaradas. Todos com cavalo puro-sangue e ela o petiço cavalinho quase um pônei. E nem falou nada, foi e abraçou o petiço. Cada um ia escolher um nome um apelido para seu cavalo ou égua. Ela chegou no petiço e ficou com ele conscientemente. O petiço Tico-Tico ficou com ela. O petiço era o mais baixinho e fraco dos cavalos, um tipinho miúdo. Tanto ela como o petiço ficaram em estado de calma e nada disseram. Se olharam como dois e dois total cinco. Ela deu o nome ou apelido e o chamou Tico-Tico.

- Bravo!... Agora e mais dias pra frente... eu sou Lilás e você Tico! Confere?!

- Hi-ooooi!... Você que é a famosa Lilá?!

Mas, assim, Lilás viu e ouviu o gargarejo dos irmãos e das irmãs e dos primos e das primas. Eles riram porque o petiço, o cavalo menor e de sangue vira-lata, ficara com ela. E a risada deles era impressionante e cristalina. Eles riram riam, sique! sique! sique!... aquelas risadas de corpo inteiro para a frente e só a cabeça tombada para trás. Eles todos, ultimamente, gostavam de gozar da cara dela. E Lilás era obrigada a fazer curva com os pensamentos com as ideias com os projetos.

E, por fim, Lilás viu e ouviu e nem disse nada. Ela estava calma como nem sei. Abraçada ao pescoço do petiço. O petiço também calmo e se deixando abraçar. O cavalinho olhando em estado de pose. Ali como dois amigos e colegas e camaradas e parceiros. Como dois e dois igual a quatro. Como dois e um par de personagens.

Lilás sonhava que fazia favor de despertar, tinha curiosidade que fazia favor de ir buscar, ouvia nomes que faziam favor de puxar. Sonhava em viajar? O mundo tinha de ser visto de perto. O mundo carecia ser conhecido por dentro. Lilás e ela mesma. Cara suave. Expressões de beatitude:

- Viva!... Sou a última palavra em viajar! - declarou para si mesma e em especial.

Pois o palácio imperial São Cristóvão era cercado de árvores de espécies e tipos diferentes, de vez. Uma pente-de-macaco cheia de pentes despencando painas pelo chão. Dava para perceber claramente três jerivás bem perto um do outro como irmãos ou amigos. As araras-azuis-grandes gostavam de visitá-los. Já o casal de beija-flores-estrela gostava de orquídeas, umas orquídeas azuis com riscos amarelos. As outras delicadas e raras orquídeas e bromélias protegidas por uma estufa nos fundos do monumental casarão.

- Apoiada!... A última palavra em todas as questões!

Zumbido de besouros, pios de jacutingas, urro de bugios-ruivos bugios-pretos bugios-labaredas guaribas carajás, grito de macaco-prego, canto de sabiá-laranja, gracejo de coruja-dos-campos, gorjeio de ferreirinho. Bandos de periquitos-verdadeiros saíam e entravam pelas ilhas da costa. Visita de araçari-preto, seja fêmea ou macho. Cuitelos sugando néctar.

Lá pelas 10h de um belo dia de quinta-feira, Lilás conheceu seu dia de montar a cavalo. E conheceu na prática o seu cavalo petiço colorado, apelido Tico-Tico e encurtado Tico.

Gostou toda vida bastante do seu cavalinho econômico. E já podia montar e passear na maior paciência. Nem muito longe, só por perto do palácio. Pegava carona nele com ajuda e era uma calma de andar que era muito boa. Ela apeava e iam os dois lado a lado como amigos olhando as coisas do parque, passeando até a feira livre na rua Evaristo da Veiga. No meio do parque tinha uma lagoinha sofisticada lagos rasos chafarizes repuxos. Tinha pena e queria ser amiga do Tico jamais dona ou cavaleira ou amazona.

- Avante, amigão!... Um dia desses vou ensinar você a falar a língua corrente, tá ouvindo? - ela disse olhando o cavalinho e este atento acendeu rodou ligou as altas orelhas.

- Hi-ooooi!... Fico no aguardo e já aguardando ansioso, princesinha!

Um laguinho com pintados, dourados, charutinhos, bagres, cascudos, traíras, peripetingas, curimatãs. Uma palmeira ariri fazendo modelo. Uns aguapés cheirosos onde provavelmente se escondiam sapos e jias. Uma sapopema com passarinhos cantando, empinando o bico, uns se arrepiando demais, todos eles olhando com sustos. E mais pássaros saindo e chegando, outros pipios, outros ruídos, outras árvores, angicos, camarás-do-mato, sananduvas, coiranas, muricis-pinimas muito aliados enleados aos cipós-azougues.

- Ta-mi-na!... Um dia certo dia e hora marcarei uma construção. Vamos ter uma baia somente para ti, meu amigo Tico!

- Hi-ooooi!... Promessa é dívida, mina!

O petiço Tico-Tico relinchava nem muito alto nem muito baixo. Os cavalos de raça relinchavam alto e corriam mais, pa-ta-pa-tá!... pa-ta-pa-tá!... Vozes altas possantes e cavernosas. E os cavalos baixavam a cabeça e gostavam imensamente de comer um capim-gordo e verde e às vezes florido. Uns relinchavam, outros nitriam, ainda outros rinchavam. Os maiores batiam os cascos no chão, pa-ta-pa-tá!... esgravatavam, apostavam corrida carreira de cancha reta ali mesmo na hípica real ou imperial. Os puros-sangues corriam na cancha de areia e ainda olhavam para trás, e relinchavam. As patas tamborilando o chão e, pa-ta-pa-tá!... dos quadrúpedes cavalgaduras.

- Queira D!... Onde e como nasceram os cavalos? Os cavalos selvagens.

Lilás viu chegar uma cantora na sala salão de visitas do palácio. Um distinto embrulho no alto da cabeça. Natural de Amaral Ferrador município de Alagoas. E todos os convidados olharam a cantora com bons olhos e sorrisos e palmas e vivas. A moça cantou e foi aplaudida pela plateia. Nem se compreendia o que ela cantava com fala de estilo voz empostada, mas era bom ouvir e todos aplaudiram. Parece muito bom ser cantora e aplaudida e vivada, pensou a menininha:

- Ah!... Oh!... Ih!... Um belo dia amanheço com uma bela voz, vai ver e ouvir!

A princesa menininha pensou que era ótimo ser cantora e ficar no meio do palco. E ter um belo cabelo alto, engomado, com pente de osso e chapeuzinho bem no topo. Quis tanto ser cantora! Um convidado de nome Acari Mupunga falou elogio para o bem da cantora:

- Ela canta como um sabiá-laranja, como uma saíra-dourada, um curutié!...

E a menininha olhou a reação da cantora. E a cantora sorriu e fez gestos de agradecimento, estendeu a mão enluvada para todos os cavalheiros e senhoras, curvou o corpo, ergueu a cabeça. A princesinha queria ser cantora também. E ficou paralisada de emoção e sonhos e fantasias.

- Psiu!... Porque cantar é tão importante.

Dia de manhã que se avivava. Preguiça pichorra mamparra e logo cedo. O formigueiro, como se fosse ou parecesse, do palácio imperial se truncava cedo de manhã e sem causa ponderável aparente. E isso aturdia o destino de alguns e outros nem tanto. Muitos ficavam com a cara molestada e outros poucos com a fisionomia contrafeita. Eram os serviços que o palácio esperava e nem podia aguardar muito tempo e na hora do desjejum.

- Vamos!... Eu quero que me sirvam um suco de laranja com pão e manteiga - pedia a menina princesinha Lilás, que possuía já atrativos convincentes e fidúcia presunção vaidade.

Já o bracinho de Lilás quase consertou bem satisfatório como um braço normal, como antes da queda, e ficou sempre meio que coçando nos dias de  chuva. Daí em diante ela teria de aprender a tomar mais cuidado com subir em árvores e outras alturas e pronto. E guardaria muito receio em subir em árvores escalar escadas cadeiras, caso tentasse novamente. E gostaria muito felizmente de aprender a tocar piano, flauta-doce, viola, violão, violino, muremuré, violoncelo... Tinha até de subir em alguma coisa uma banqueta para poder montar e apear do Tico-Tico. Mas cantar ela podia, nem podia?

Lilás foi ia e aí de repente se viu no espelho e parou. Como se fosse 1 achado. Como se cantasse num palco, se se tivesse adentrado num templo. E foi bom para ambos, ela e espelho. Os dois sorrindo. Imagem se movimentando lá dentro do mirador. Chegou mais perto e se destacou se viu nítida olhos bem abertos bem refratados. E face a face. O espelho feito um lugar de assistir e se assistir. Figura do presente.

- Olá!... Bom dia!... Como me sinto hoje em dia!

Os olhos que olham e reparam a cor bege dos olhos. A boca e os lábios mais ou menos vermelhos rosa carmim e grossos e em forma de arco. O rosto o queixo os zigomas o nariz os cabelos em véu sobre a cabeça as orelhas meio que encobertas. E é.

- Mamã-nhê!... Olhe por minhas tranças, uma vez!

Dito e feito. No começo Lilás nem podia fazer as coisas todas que queria, mas foi aprendendo algumas. Tinha um dia por vez e um após o outro. Faltavam a prática e o treinamento para fazer tudo que era solicitada a fazer. Foi melhorando um pouco por vez, mas só um pouco por vez, mas só um pouco. Demorou mais dois anos para aprender outras coisas e assim por diante, os distintos afazeres.

- Uai!... É difícil morar sozinha? Eu adotaria um cachorro além de um cavalinho.

Todos ficaram bem alertas com a menininha princesa, era a verdade. E uns até caçoavam dela quando errava ou se atrapalhava. Então, já se viu, ela ia ter problemas para resolver no tempo afora. Todos olhavam e riam dela pelas costas. Demorava muito para se vestir e principalmente em tomar banho. Nem conseguiria mais subir em árvores? Embora sua árvore favorita fosse a altíssima araçandiva. Abraçava o umbuzeiro e ficava imaginando a vida lá em cima andando nos ramos entre as folhas. Via algumas aves perambulando entre os galhos saltitantes e se imaginava como tururim, lavandeira-de-nossa-senhora, caminheiro, tiriba, tchintchorrintcho, cavacué.

- Ufa!... Que pena!... Ah, se isso acontecesse!

Lilás nem sabia o que dizer, pois também nem sabia o que pensar. Às vezes tinha de forçar pensamentos em curva. De repente nem pensamentos em curva adiantavam. Muitos a perdoavam e a entendiam e riam ainda mais. Outros até nem isso, nem ligavam a mínima. Outros achavam que a culpa era dela mesma. Outros achavam que a culpa fora da falta de paciência. Outros mais achavam que a culpa era do pai imperador e da mãe imperatriz ou do governo monarquista conservador.

- Você já conheceu já ouviu falar da ilha do Governador? - perguntava a prima Iberé.

- Ótimo!... Já sei onde fica e por quê - reinava a Lilás.

E a princesinha Lilá gostava de passear perto entorno do casarão, ver os pássaros brincando de pega-pega, esconde-esconde, se perseguindo, se penteando, cantando, ciscando na poeira, aprontando de galho em galho, bicando as gabirovas e assim as corruíras, torom-torons, bem-te-vis-de-copa, coroas-de-fogo, chupins, joões-de-barro, avinhados, sovis...

- Bicos calados!... Que biscas!... Se eu fosse pássaro ou passarinho ou ave estaria em andando voando em outro lugar. Talvez Serafina Correa, Ibiá, Pratinha, Pongaí, Uru.

Pitangueira, dona das pitangas, uma entre tantas no pitangal, cheiro de perfumosas pitangas, frutas vermelhas e doces, folhas brilhantes. Um casal de canarinhos-da-terra veio conversar coisas da sorte deles ali nos galhos da pitangueira. As nuvens corriam no céu. Uma nuvem tinha cara de caravela com velas cheias gordas pançudas bem estufadas.

- Qua-qua-quá!... Nem digo madeira nem rocha.

Daí, por todos os dias e horas. E eles todos, irmãos e irmãs e primos e primas chegaram correndo e todos rindo, jaqué! jaqué!... na praia Vermelha. Todos correndo e cada um para um lado. Um riscava a areia, uma procurava conchinha, um fazia monte de areia, uma deitava e rolava se empanando na areia, um nadava no mar, uma pulava de susto das ondas e marolas, uns e umas se jogavam água na cara, boiavam, mergulhavam, imitavam peixe. Pequenas tramoias trapaças maroscas logros entre parentes próximos. Aquelas estopadas chateações maçadas entre os do mesmo sangue azul. O sol parecia interminável universal. Tinha pescador que morava em a ilha de Paquetá.

- Xi!... Por D!... Vou mergulhar e sair na África!

Assim se passaram umas poucas duas horas. Um primo, o Carataí, teve a ideia que foi aceita por todos. Achou a ideia na cabeça, riu, ih-ih-ih!... gostou, comunicou aos outros e a ideia foi aceita. Todos acharam legal e riram muito, riram por antecipação, riram muito, e até gargalharam acintosamente, kjá-kjá-kjá!...

Alguns irmãos e primos foram buscar Lilás que brincava fazendo montes de areia. E Lilás já estava fazendo uma casinha com estradinha e chiqueirinho quando os tipos chegaram perto. A menina infinita infinita foi raptada, foi preada, foi presa. Foi erguida do chão com facilidade pelos mais velhos. Aplicavam-lhe pespegavam-lhe uma nova novidade. Lilás nem entendeu e até esperneou e meio que se revoltou e até argumentou em seu favor:

- Puxa!... Nem vou com essa ideia, gente meus parentes!

Mas nem teve jeito. Os meninos eram mais fortes, mais altos, em maior número e a levaram para um buraco na areia. Colocaram a menina dentro do buraco e foram enterrando. E riam muito e sem controle, laque-laque-laque!... Estavam agitados como macacos bravos falavam como latiam os cães e sorriam como mostravam seus dentes os jacarés. E riam com gosto e com vontade lá deles, racá-racá-racá!... Uns e outros herdeiros dos atavismos atávicos useiros e vezeiros raivosos infames e cheios de desatinos doidices e já estúrdios estúrdias.

- Francamente!... Nem participo desta piada sem graça, gente irmãos e primos! - tentava argumentar a indefesa menina princesinha inocente e batizada Lilás.

Enterraram a Lilás até o pescocinho. Só a cabeça de fora. Imediatamente todos os irmãos e irmãs e primos e primas foram embora e deixaram a guria ali totalmente abandonada. Correram embora e sempre rindo sem parar, reté! reté!... A desafortunada estava já atolada até o pescoço, sem poder se mexer, sem adiantar sem conseguir se revoltar. E automaticamente preocupada.

- Quê!... Isso já foi e está indo longe de mais!

E o bando todo se riu daquela maneira de sempre, kjá-kjá-kjá!... e até sabida decorada. Todos eles turrões turronas riram aquelas risadas de corpo inteiro para frente e só a cabeça jogada para trás, ahahahah!... Como fazem igual os patos-de-crista as marrecas-caneleiras os peruzinhos-do-campo os pássaros-pretos os anus-brancos, racá-racá-racá!...

Debaixo de um sol de 41°C e a menina nem estava nada confortável atolada na areia até o pescoço. Queria sair do enterro, mas nem conseguia. Com os braços presos era justamente muito mais difícil. Olhou em volta e nem viu mais ninguém. Uns insetos insistiam em pousar na sua testa, umas formigas chanchãs ou quenquéns insistiam em caminhar pela sua carinha, umas camoatins insistiam circundavam circunscreviam a área os limites em buscar qualquer coisa no seu nariz, umas abelhas mamangavas se interessaram pelas orelhas e com requintes de crueldade pertinácia perseverança tenacidade.

- Sa-ri-lho!... Que vou fazer aqui, hem?! Será que vou pras cucuias fracassar ir ao beleléu?! - gritou e suspirou sentido a menina.

Lilás favoreceu seu pensamento abrir uma curva. Ela esperou com calma. Ainda ouviu o riso dos irmãos e irmãs e primos e primas lá atrás da duna, re-te-tê!... O sol forte nos olhos, o desconforto por todo o corpo. Lilás nem se apavorou. A menininha nem chorou, nem pensou em vingança, nem teve ódio, nem gritou, nem condenou, nem sentiu pena de si mesma, nem desancou com veemência. Olhou e esperou olhando. Quase nem pensou em nada. Era até difícil olhar por causa do sol em cheio na cara nos olhos. Ela uma flor fanada murcha murchando sem viço. O sol pelo motivo qualquer de uma fogueira acesa.

- Xi!... Quem nasce em Ladário, é?, pergunta.

- Uai!... Quem é natural de Colinas, chamam?, indago.

- Bah!... Quem veio ao mundo em Nazária, qual seria o gentílico? - era o que a menina pensava perguntava lhe ocorria indagar ali na hora e presa atolada na areia.

O sol é importante necessário curioso. O sol nasce sempre na mesma hora e parte na mesma hora. Um homem e uma mulher, juntos, casal esposo e esposa se multiplicam em mais três ou quatro e cinco... os filhos os netos os bisnetos... E com os corações desdobrados sangue reproduzido almas diferentes que vêm conhecer e conhecem o mundo. As coisas cochilam e refletem o sol. Todas as coisas aí e sob castigante soalheira canícula.

Numa área atrás do palácio, fazia tempo, vivia um grande e esparramado cajueiro. Muito grande e galhudo e folhudo, quase um quarteirão e um enorme quadrilátero. Nesse cajueiro 5 cajus amarelos maduros saborosos atraentes cheirosos. Meio-dia chegou um bando de maracanãs-guaçus lá das ilhas do mar e apareceram 4 cajus. Pelas 14h e 20min soprou uma ventania almofadinha janota e surgiram 3 cajus. Fechou a noite estrelada onde brilharam 2 cajus. Pelas 23h pousou no galho do cajueiro um morcego astuto milongueiro manhoso e se destacou 1 um caju. Já aí pelas 23h e 35min pousou um caburé-de-orelha e notificou nada nada de caju. A lua, muito leve, escalou o céu e namorou os últimos cajus. Na manhã nova, sol esticando as asas pela paisagem, aurora de passarinhos em algazarra matinada, o cajueiro exibiu 5 cajus pingados de aroma e orvalho e bem maduros.

Foi lá uma outra tardezinha que Lilás ouviu seus irmãos e irmãs e primos e primas chamando por ela, gritando por ela, buscando por ela:

- Liá!... Vem aqui, minha fofa!

- Lilá!... Chega até aguá, refinada!

- Lila!... Corre pra cá, simpática!

- Li!... Japraqui, bonequinha!

E tanto chamaram que Lilás ficou curiosa e foi lá ver o que queriam dela. E chegou no pátio do palácio e todos eles estavam ali brincando e já parados estáticos de brincar esperando por ela. Ela chegou e todos já iam se rindo, ahahahah!... sem poder disfarçar. Uns já riam, sai-aí-aí!... sem parar antes mesmo dela ainda chegar. Outros riam tentando esconder o riso com a mão, vi-ve-viii!... Outros riram mais a partir de quando ela chegava. A irmã Majé, a mais velha e quase moça, foi quem tomou a frente e foi explicando para a Lilás, disse, explicando, como quem explica nos mínimos detalhes:

- Aliás!... Você entra nesse balaio que a gente tá brincando de carregar peso à toa.

A Lilás olhou o balaio de taquara, ficou pensando, nem entendeu direito, imaginou, nem imaginou direito e desconfiou mais ou menos. Lilás sabia e tinha conhecimento de outros carnavais que seus parentes eram de trapaças e só lhe aprontavam coisas dissaboridas desgostosas dissaborosas. Tanto que já foi se avisando e ressabiada:

- Olha lá!... Que que é essa história, meu?!

- Nem tem nada de quê, Lilá! Nós estamos brincando de carregar peso com o balaio e você foi convidada para ser carregada, só isso. Nem tem perigo algum. E até vai ser bom pra você. Você pode e você é capaz? Tá com medo de nada?

- Opa!... E para onde pra que lado vão me carregar? Daqui pra lá? Daqui pra cá?

- Sem sombras de dúvidas. Pelo pátio do palácio e ao redor. Pelo parque do palácio. Pelos jardins do palácio. Pelas trilhas do parque do palácio. Você sabe o que é badulaque? Você sabe o que é palanquim? Liteira? Maca? Cadeirinha?

- Nossa!... E por quê? Que que interessa? Que gosto tem?

- Ora, fulana Lilás! Para você nem suar cansar de caminhar, é isso!

- Inté!... Nós vamos colhendo frutas dos pés de fruteiras e colocando na cesta. Você pode ir comendo à vontade, meu! Aceita e pronto, Lilá!

E parece que conseguiram iludir e convencer a menina, porque ela concordou e entrou no balaio e se sentou dentro do cesto. Como uma privilegiada. Como uma premiada.

Assim, os irmãos e as irmãs e os primos e as primas riram muito, ge-ri-rêee!... Nem seguraram mais o riso e todos riram muito, sa-ri-rêee!... Pegaram e ergueram o balaio com a menina dentro e levaram tudo para o poço ali num ponto da chácara do palácio. Ataram uma corda na alça do balaio, balaio com a menininha dentro, e largaram no fundo do poço.

- Olá!... Eu quero ver para onde estou indo, gente! - a menina se sentido desconfortável e já arrependida e já desconfiando. Parece um túnel e descendo, será?!

Lilás ficou suspensa lá dentro do poço, quase no fundo, sem poder sair, no escuro, vendo o céu redondo lá em cima, pendurada como um pêndulo, como uma lanterna uma lâmpada no fio. E ouvindo todos os parentes rindo, sa-se-siii!... dela e de sua inocência. E eles riram com gosto de sobra, tijá-tijá-tijá!...

- Ora, gente!... Me tirem daqui que eu perdoo vocês todos, eu juro! Convém!

Lilás procurou fazer aquela curva na ideia. E ela ainda ouviu bem claramente aquelas risadas de corpo inteiro para a frente e só a cabeça atirada para trás, racá-racá-racá!... Ela fazia ginástica mental para pensar em curva. Riam como os lobos-guarás, dejá-dejá-dejá!...

- Ju-di-ca-tó-rio!... Uma hora pula um sapo na minha cabeça, amiguinhos!

Uma hora a mais de uma manhã de sol na capital do império do B, São Sebastião do Rio de Janeiro, terra dos fluminenses e cariocas. O tempo com a mesma promessa e disposição de ontem, que era quente e pacífico. Ararajubas de cor amarela gritando mais que o necessário. Caraúnas-de-cara-branca também piando alto e com vontade. Gavião-formiga dando uns giros mais acima, chiando para assustar, chi-ti-tiii!... Almas-de-gato grazinando em sete oito no alto da braúna. Gorjeios de tié-fogo. Depois umas brisas leves nas folhas das árvores tocando música fina e suave.

Nessa mesma manhã de sol, Lilás e os irmãos, as irmãs, os primos, as primas, com uns serviçais de confiança, foram pegar seus cavalos e passear mais longe, pelas trilhas pitorescas da floresta da Tijuca. Se fosse o caso poderiam até subir os morros. Talvez mais pra lá da rua Orelha da Sota, e já nas terras reserva dos baenã. Porque as coisas aí estão espalhadas.

Lilás e Tico-Tico vinham mais atrás. O petiço tinha realmente as pernas menos longas e mais curtas que os outros matungos. Uns até iam a galope, pa-ta-pa-tá!... pa-ta-pa-tá!... Uns parentes até apostavam corrida e gargalhavam, kjá-kjá-kjá!... Uns até gritavam, eia!... upa!... chou!... po-po-pô!... zás-trás!... es-co-pa!... a-ná-te-maaa!... ma-ni-que-ís-mo!...

Pitombeira-da-mata, flores brancas, ou quase por pouco brancas, alta de casca grossa, madeira dura, frutas agridoces. Pitiguari, pássaro de bico forte, canto forte, penas cinzentas nas costas, verdinhas com azul no peito, mais ou menos. Micos-leões-pretos no balanço dos galhos e muito apavorados com os intrusos os estranhos os invasores os alcaguetes. Árvore japaranduba fazendo sombra, esperneando sombra, estendendo sombra, contando sombra. Graxaim-do-mato mamífero canídeo espionando as novidades indesejadas calhordas ordinárias e se deprimindo já meio capiongo. As variações de claro e escuro se sucedendo.

- Uta, parentes contentes!... Vamos parar para tomar um banho de cascata? Acho bom e recomendo, gente boa! - um pedido discreto da Lilás ao grupo dileto familiar.

O sol a pino tine zune nas pedras do caminho. O mormaço o bafio morno a morrinha da hora quebram a vontade das coisas. O sol nem sai do seu comodismo o bafo poderoso igual de uma fornalha. Árvores pensativas quietas razoáveis.

Uma hora depois, nem tanto, Lilás e Tico-Tico se viram a sós no meio do silêncio. Tudo pareceu parado e escutando e escurecendo. Nem pássaros, nem árvores, nem cigarras, nem borboletas azuis, nem brisa da mais leve suave. E olharam em volta.

- Ta-la-ga-da!... A gente se perdeu ou foi perdido, Tico! Isso é honesto e responsável?

E Lilás (também de apelido Lia), filha de Pedro I e Maria Leopoldina, estava perdida na mata atlântica? Ela e petiço olhando em volta e nem reconhecendo nada? Quê?!

- Tique-taque!... Que fio da meada pegamos, Tico! Umas tantas trilhas e trilhos!...

Esticando os ouvidos e nem ouvindo absolutamente nada? Ela e petiço únicos sobreviventes no mundo possível? Para que lado fica o palácio o mar a praia a praça Jardim da Independência, a rua da Ganja, a avenida Pirera...

- Oi!... Ué!... E como chegar lá e se salvar? Tem ideia melhor, Tico?

- Hi-ooooi!... Preciso farejar e pensar um segundinho, guria!

Lilás olhou em volta de si, e nem viu nada de parentes, nem ouviu nada de nada de irmãos, irmãs, primos e primas. Somente ela e petiço. Nem ouviam uma única risada. A menininha quis gritar e ficou com vergonha. Quis voltar e voltar por sobre que caminho. Quis continuar e continuar para onde. Um nó nodal. Queria que tudo terminasse bem, mas só podia pensar em curva, em parábola, em dar com os burros n’água, em cafundó cafarnaum. E falou com o amigo respeitado e de todas as horas, este senhor de orelhas longas e móveis:

- Mo-co-tó!... Estamos perdidos e meio, Tico!

- Hi-ooooi!... E estou morto de fome e com licença! - relinchou o bicho quadrúpede, se dirigindo ali na beira do caminho para pegar um bocado de pasto verdinho.

E Tico-Tico foi até uma touceira verde e começou a almoçar ali mesmo um capim-flecha, uns brotinhos suculentos de aboboreira cambuquiras. A menina olhou para o chão e pulou, apeou. Ficou se segurando na rédea do petiço.

- Rua!... Que que estamos esperando aqui? Vou dar um passe mágico, hein!

O cavalo pastou o que tinha para pastar e arrotou. E olhou em volta à procura de água, de água corrente. Nem viu água, nem ouviu água, nem cheirou água e nem viu mais pasto verde saboroso saudável apetitoso. Foi até aí e foi dizendo em nitridos:

- Hi-ooooi!... Bem, e agora que a porca torce o rabo fica pepé e perde a suã!

- Ufa, ufa!... Olha pra gente, Tico!... Eu acho com certeza afirmativa que estamos abandonados e perdidos e pronto. E isso já vai durar muito tempo. É legal?

Lilás e Tico-Tico ficaram diante de quatro caminhos. Uma encruzilhada engraçada. Olharam sem saber se voltavam para sul, se continuavam ao norte, se iam pelo famoso leste, se saíam pelo famigerado oeste.

Escolheram pelo melhor caminho dos que se ofereciam. Eram uns quatro caminhos e escolheram um. O sol ainda estava amarelo e andando no trilho do dia a dia e das horas.

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