Então, 11h e 14min, Lilás e Tico-Tico chegaram à
aldeia dos autóctones arauá. Os cascos do cavalinho percutindo no terreno
endurecido, to-po-to-pó!... e até erguendo uma nuvenzinha de pó. O pátio de
terra vermelha e grama com as ocas todas em volta circular cercando abraçando
girando rodeando uma do lado da outra. Umas oito nove dez vinte até quarenta
ocas feitas de palha com duas abas para as águas da chuva desaguar. E os
chegantes foram entrando no terreiro amplo pátio ocara.
Alguns índios e algumas índias vieram recebê-los,
alguns cães domésticos, outros xerimbabos que estavam ali no momento.
Prontamente e principalmente curumins e cunhantains se aproximaram vieram ver
chegaram perto para tocar na menina tocar no petiço. Já conheciam menina lilás
e cavalo? E os silvícolas já foram cumprimentando os visitantes turistas
viajantes excursionistas peregrinos:
- Oi, tapuitinga! Oi, tapiraguaçu!...
Uma vez todos precisaram falar nheengatu aqui no B.
Todos queriam falar nheengatu: índios e brancos e negros e caboclos. Assim,
todos falavam nheengatu. Depois, ninguém mais achou importante falar nheengatu
e ninguém mais falou nheengatu. Mas a língua geral nheengatu já existiu, isso
sim! Teve sua época.
- Vamos falar português brasileiro, uma vez - era a
ordem do cacique mandachuva Paxaú, natural do local autóctone sujeito ponderado
tranquilo e também arredio.
Nem demorou muito, a menininha princesa foi
convidada a tomar banho no rio, rio Pelotas, rio Moxotó, rio Una, rio Taquari,
rio Sapucaí... e tantos rios ali, enquanto o cavalo foi deixado pastar à
vontade e tomar banho quando quisesse. Águas navegáveis mais tranquilas do
mundo. O rio como um sujeito líquido e movimentado.
- O rio que passa aqui passa em outras localidades
pequenas e grandes, hem! - decretava a mãe dos arauá, dona Jureba, caráter
adamantino.
Nesse brinquedo de nadar no rio e tão interessante, Lilás
se lembrou logo, antes de entrar na água, que nem sabia nadar. Nadar borboleta
cachorrinho e outros bichos. E com um receio a coisa seria mais difícil ou até dificílima.
Ela já foi dizendo, bastou ver a água toda do rio da Onça e passando ali junto
de si:
- Pla-ti-tu-de!... Eu nem sei nadar em rio e já tentei
no mar. O mar é salgado azul e verde e o rio é doce e transparente. Tem um
pouco de rio e muito oceano, é.
Os curumins e as cunhantains acharam graça ela nem
saber nadar nem um pouco e riram muito, ri-ró-ri!... e muitos já se atiravam na
água para mostrar que sabiam nadar e estavam se divertindo e era superfácil era
até pueril. A princesinha ficou admirada e ficou com expectativa de
experimentar. Mas já botava o pé na água corrente para sentir o arrepio de frio
frescor elementar.
- Ba-nal!... Olhem!... Que saudade do mar de
Co-pa-ca-ba-na!... - suspirou e disse a Lilás, famosa folclórica anunciada.
Somente lá pelas 15h e 11min que a menina conseguiu
nadar um pouco. Nadou de braçada. E ela gostou de nadar pra cima pra baixo. Boiando
olhando o céu. Um dia tinha que aprender e era muito importante. E ela nadava
com as pernas esticadas batendo os pés em velocidade e os braços em arco um
após o outro e trabalhando muito e sem parar todo o corpo em meio giro
equilibrado. Como fazem os peixes tucunarés anujás piraíbas acarás-discos
pintados bagrinhos-roncadores e entre outros.
De noite, umas 20h mais 20min, todos e a maioria,
todos sentados ao redor da fogueira ou fogo de chão. Os velhos mascavam folhas
de pitangueira, as velhas índias também. Os guerreiros afiavam pontas de pedra
para fazer ponta de flecha. As cunhantãs faziam cafuné nos cabelos das cunhantains.
Os curumins e as cunhantains olhavam o fogo esperando o sono. Todos ou quase
todos tinham lá seus xerimbabos. Se ouviam os pios baixos sons da murucututu
ali-ali no galho do jacarandá-pitanga. A curuminzada fazia os mascotes dormir à
força de agrados e carinhos e carícias e cantos de ninar. Os bichos
domesticados da tribo, alguns periquitos-ricos, uns jandaias-amarelas, uns
tracajás, um quero-quero, um sagui-caratinga, um macaco-aranha, umas cutias, um
casal de tiés (o macho era vermelho e a fêmea parda) e entre tantos ainda.
- Es-ca-be-lo!... Lá no palácio nem tínhamos
cachorros, mas tínhamos cavalos - contava a menina Lilás aos seus novos amiguinhos
amiguinhas. Me sinto segura.
O sol a lua, olhos grandes esbugalhados, já
namoraram entre eles mesmos? Já foram de ficar e sair assim para um baile uma
festa um aniversário? Já casaram e tiveram filhos(as)? Cremos que sim. É, sim,
pode ser. O possível nem é diferente do legal.
Mais uns instantes e o moacara Itanicê pegou e
fingiu tossir para chamar a atenção dos curumins e das cunhantains e dos dois
visitantes. Ele ia contar uma história que tinha vivido e aprendido e sabido.
Então, ele logo foi narrando o seguinte, pestanejando. E externou, já traduzido
para o português brasileiro habitual de nossos dias comuns e atuais. E começou,
seu jeito declaratório calmo paciente brincalhão jovial e um início apenas dele
mesmo com mania balda de falar pronunciando bem articulando as sílabas:
- Sauval, sauval!... Aí, uma vez, oi!, Itanicê
decidiu nem mais esperar o resto da sorte pelo aparecimento do fogo. Ou
invenção do fogo? Itanicê precisava de fogo e todos na aldeia arauá precisavam
de fogo. Onde estava o fogo? Quem tinha o fogo? Quem vendia fogo? Fogo de
queimar e arder. E Itanicê já sabia pouco onde procurar o tatá. Itanicê, assim,
já queria sair procurar o sol, agarrar o sol o patrão para roubar tatá o fogo.
E quem precisa procura. Procura por todo canto. Se procura o necessário.
Itanicê, o narrador proseador fabulista dele mesmo,
tinha o sotaque de índio tupi-guarani dos arauá. Olhando seus ouvintes, que
todos estavam de olhos bem abertos e curiosos, continuou contando a lenda do
fogo ou da procura do fogo. Elemento fogo aceso pra fazer comida quente e ver
no escuro e afastar os maus espíritos noturnos:
- Penca, penca!... Aí, um dia Itanicê pensou
procurar o fogo o bom tatá. Tatá vivia em lugar distante, vivia escondido e muito
tímido e tão recluso que nem se sabia nada de tatá. Se sabia pouco de tatá.
Quase nada de tatá. Tatá e pessoas estavam separados por gerações. E também por
milênios e séculos. E ainda por reencarnações.
“Alcateia, alcateia!... E aldeia arauá precisava de
tatá para tudo, para esquentar na noite, para assar farinha e fazer beiju, para
fazer roça coivara, para moquear a caça e outras coisas que tatá era importante
e exclusivo e necessário. E então, o arauá Itanicê resolveu procurar fogo tatá
para favorecer a sorte da aldeia da tribo da comunidade. Tudo gira em torno do
fogo, uma vez! Tudo é superenergia pletórico exuberante.
“Panapaná, panapaná!... Tinha muita farinha de
mandioca na aldeia e precisava assar para fazer muito beiju para muitos índios
comerem. Então, Itanicê pensou que nem tinha fogo e precisava arrumar tatá nem
que fosse pra já pra ontem logo logo.
“Cainçalha, cainçalha!... E tatá vivia onde?,
primeira pergunta. Itanicê nem sabia, mas queria procurar e se preparou para
procurar. Onde procurar? Itanicê nem sabia, mas ia tentar. E Itanicê foi atrás
do rastro do fogo. E Itanicê sabia mais ou menos o que era tatá. E Itanicê ia
arriscar uma aventura para prender e dominar tatá. Tatá e chuva nem se dão
muito bem, ainda hoje atualmente. Arauá precisa de fogo e água, duas coisas.
“Raizame, raizame!... Aí, Itanicê foi
até os índios e índias mais velhas da tribo e disse e gesticulou e falou, foi eloquente:
“Temos que comprar tatá. Temos que procurar tatá. Temos que caçar tatá. Itanicê
vai procurar fogo e trazer tatá para a aldeia arauá e vai ser uma ótima
novidade uma grande escolha e vamos fazer festa. Todo mundo vai gostar de
Itanicê porque Itanicê trará muito bom tatá. Tatá é progresso. Tatá é o
elemento que já nos falta e muito”. Tudo isso Itanicê falou para a aldeia em
geral.
“Manada, manada!... Aí, todos concordaram com
Itanicê e apoiaram a iniciativa de Itanicê. Itanicê lembra. Todos gostaram da
ideia e bateram nas costas de Itanicê. Todos acharam muito boa ideia procurar
tatá e trazer fogo para a aldeia e bateram no ombro de Itanicê. E todos que
falaram, outros moacaras, o caraí, os abarés, o morubixaba, todos os índios e
as índias deram gritos de felicidade, “avante!” “upa!” “vamos!”, pela busca
urgente de tatá. E todos falaram com Itanicê e deram conselhos, dicas, conselhos,
ditados, conselhos, máximas:
- Brocardo!... A estrada corta a terra bem no
centro, no meio do mundo. Do lado direito da estrada, nasce o sol comandante sempre.
Do lado esquerdo da estrada, desce o sol sempre - conselho do morubixaba
Pararaca.
- Aforismo!... O sol tem tatá aos montes. Então,
alcance o sol representante e pegue o tatá. Então, amarre tatá. Então, corra
atrás do sol e pegue tatá - conselho do abaré Ibabiraba.
- Provérbio!... Sol paizão cheio de tatá. Sol nasce
no leste. Sol se põe no oeste. Corre atrás do sol que sol tem tatá aos zilhões.
Dá um baita pulo que você pega alcançar o fogo vermelho pelos cabelos
avermelhados - conselho da índia Moema.
- Apotegma!... A comissão técnica do sol vez ou
outra faz umas almofadas pro astro-rei. E exageram e escondem o sol entre
nuvens fugazes instantâneas impalpáveis passageiras soberbas estofadas -
explicava a índia Pararé, expressão facial fácil.
Foi assim que todos os que queriam dar conselhos
aconselharam, naquela data. Eram os mais importantes da aldeia e Itanicê
lembrava muito bem o caso. E recomeçou a contar ali e agora o que todos
esperavam ouvir de sua própria boca e paladar:
- Bando, bando!... Aí, Itanicê foi dormir e deitou
na esteira pensando diversas coisas até pensar direitinho uma coisa só: achar o
tatá. Os conselhos dos grandes da aldeia ainda giravam na mente de Itanicê. E
Itanicê foi dormir cedo para sonhar bastante e acordar cedo e ir atrás muito de
tatá. Itanicê sabia que ia ser aventura procurar tatá.
“Enxame, enxame!... Aí, Itanicê deitou na itamaca
feita de santa-fé trançada e dormiu toda noite sem sonhar nada e acordou bem cedo
para procurar o sol. O sol que é a fonte do fogo. A aldeia estava com esperança
que Itanicê trouxesse logo o tatá. E família clã de Itanicê já estava com
saudade de Itanicê. Muitos guerreiros queriam acompanhar Itanicê, mas Itanicê
esclareceu, teimou, resolveu, falou e foi ouvido: “Aí, tomara que sim, é melhor
Itanicê ir sozinho senão tatá se espanta e foge e se esquiva, nem é?!” Foi o
que Itanicê disse e concluiu.
“Colmeia, colmeia!... Aí, Itanicê logo pensou bem a
primeira coisa que precisava pensar. Como começar a caçada ao tatá? Itanicê
pensou... imaginou... contou até dez... E pensou perseguir o sol, no bom
sentido. Para pegar o tatá, Itanicê tinha que alcançar o sol. Onde vivia o sol
e pai do pai? Que altura tinha o poderoso sol e príncipe do fogo? O caminho era
uma rede e labirinto ou locais distantes e Agronômica ou Pirangi ou Taiaçu ou
Campinas ou pela beira do rio Jacaré-Pepira. Uma coisa de cada vez, isso sim!
“Junta, junta!... Aí, Itanicê, bem cedo de manhã
manhazinha, comeu pouca comida para nem cansar logo e bebeu pouca água para nem
cansar logo. A viagem atrás de tatá seria longa ou nada, ninguém sabia, Itanicê
nem tinha ideia. Era melhor estar prevenido para longa e bem longa viagem de
procura procura. Tupã sabia melhor? Tatá bem podia estar do outro lado do
mundo. Sol solar tinha tatá mas podia nem querer dividir. Tatá bem podia estar
onde o céu cai atrás dos morros. Sol estrela maior tinha tatá mas podia querer
fazer sofrer seu alto poder de ojeriza e dedicar coisas perigosas como malacafento,
pinoia, pacuera, emulsão, empalamado, perempto, safardana, pulha, canalha e
demais ofensas e perrengues. Tatá bem podia ser inalcançável e esnobe. Tatá
tinha sim alguma coisa ligada com o sol cacique dos caciques dos caciques.
“Flora, flora!... Aí, Itanicê decidiu ir atrás de
tatá custasse o que custasse. Isso mesmo e assim mesmo. E Itanicê foi para o
lado do sol. Se o sol esquentava, então, o sol sabia quem era tatá. Sol
legítimo e tatá especial. Talvez tatá fosse o próprio filho do sol. Acordamos
cedo, sendo assim, Itanicê despertou aos primeiros raios do sol.
“Vara, vara!... Aí, sim que Itanicê esperou o sol
apontar sobre o morro do lado leste. E Itanicê foi no rumo do sol para
conquistar tatá. Itanicê entendeu que só o sol poderia ter fogo para a tribo
arauá inteira assar tanta farinha de mandioca e outras coisas que eram para
assar e moquear e cozinhar e fritar. Muito bom por sinal, etc., e fui afinal.
“Renque, renque!... Aí, Itanicê pegou os apetrechos
todos que precisava ou que achava que iam ser úteis. Pegou arco e flechas, as
flechas enchendo o carcás a tiracolo, o machado itaiçá, o tacape, o porongo à
bandoleira para a água de beber. Itanicê, sabiamente, logo percebeu que era
muito peso para carregar. Onde Itanicê estava? Resposta na ponta da língua: no
mundo! E Itanicê ainda mais disse para si mesmo, e baixinho murmurando como
água de riacho: Itanicê deixa em casa metade dessa tralha toda senão vai pesar
muito e a caminhada é longa e Itanicê vai cansar muito e logo logo. O que é uma
boa ideia, parente! O que foi, sim senhor e senhora, que eu fiz fazendo.
“Açaizal, açaizal!... Aí, Itanicê deixou em casa
muita coisa que nem podia carregar isso que havia muito que caminhar e andar a
pé. Deixou itaiçá, que era uma pedra pesada, deixou tacape que era um galho
pesado, deixou esteira de folha de tucum trançada que ocupava muito espaço
debaixo do braço, deixou cocar feito das penas dos diferentes e diversos
pássaros e que chamava muita a atenção por onde andava. E reduziu muito o viático
que eram as provisões de viagem.
“Revoada, revoada!... Aí, Itanicê foi com arco e
poucas flechas no carcás. Itanicê foi com porongo para ter água no meio do
mato. E já estava mais do que bom. Tatá era bicho escondido nem se sabia onde,
mas nem devia ser muito demorado nem esquisito raro insólito. Tatá bem podia
ser líquido ou sólido ou vapor que dava no mesmo. Tatá podia ser carregado nas
costas no ombro na cabeça ou no embornal. Podia muito bem também ser recatado
incipiente inicial principiante iniciante. Tanto fazia hoje como amanhã. Com o
cofre a burra a arca cheia de dinheiro ou nem. Tatá dita regras.
“Leva, leva!... Aí, Itanicê passou um rio que
chamava Anhembi. Mesmo o Itanicê nem tinha ubá e por isso atravessou Anhembi a
nado, braçada após braçada. Enquanto nadava devagar para nem cansar, Itanicê
viu a família do bagre e perguntou: “Por acaso sabem onde fica a morada de tatá
o fogo? Fogo tatá que assa a comida, fogo tatá que incendeia mato seco, fogo
que é oponente infenso contrário oposto na chuva? Então, Itanicê aventureiro se
viu rodeado de bagres de altos bigodes e nadadeiras em forma de pá. O bagre
maior, o pai de todos os bagres, falou por todos, borbulhou, tragou a água com
gosto e borbulhou arrostou afrontou encarou.
- Glo-glo-guê!... Eu só conheço o tatá do sol
amarelo. Mas eu nunca vi tatá de perto e de longe muito pouco e mais ou menos.
Ouvi falar ouvi falar, isso sim! Me disseram, foi o vizinho cascudo, e ele
ouviu borbulhar que tatá reside para os lados do leste. O leste é o ponto de
partida do sol no seu trajeto de um dia. E o leste é lá para os lados do pico
Anhangava, que fica na serra da Baitaca, que fica pros lados do Paraná, que tem
divisa com o mar. É o que sei é o que me noticiaram, moacara Itanicê. Vai com Tupã,
Itanicê! Nem seja indiferente!
- Cacho, cacho!... Aí, Itanicê saiu do rio e foi definitivamente
para o leste. Pois era para aqueles lados para aquelas bandas que nascia o sol,
sol que tinha muito tatá incrustado na pele. E tudo dava muito trabalho. Mais
um pouco e viu que já eram horas e parou para fazer uma boquinha um lanche. Foi
catar ali no mato uns araticuns-do-mato e pitangas e mel de abelha fulana
irapuã. Paisagens amigáveis. Lugares ao redor de 200 mil km² de beleza eterna e
lugares reais de nomes reais e Agrolândia, Jaú, Sumaré, Vista Alegre do Alto,
Bebedouro, Taiuva, Casca, Ituporanga... e entre os mais.
“Algodoal, algodoal!... Aí, depois de satisfazer os
bofes e tirar um cochilo de meia hora, Itanicê continuou a caminhada, tuque!
tuque!... E andou andou mais um pouco e encontrou com a família do saí-açu-azul
descansando ali na sapopema entre os galhos na sombra. Itanicê perguntou para o
chefe da família saí-açu-azul, indagou: “Saí-açu-azul já viu onde mora ou por
onde anda o tatá? Dizem que tem quatro pés e tanto pode rastejar como trotar
como voar como nadar, né?!” O passarinho respondeu a Itanicê, erguendo as asas
e abrindo bem o pico, piando, gorjeando, falando na língua dos assobios
harmônicos musicais.
- Piripi-piiiiuuuu!... Eu nunca cheguei perto e mesmo
de longe tenho receio. Já ouvi falar que tatá é rasteiro e rápido é onipresente.
Que tatá nem é flor que se cheire. E um dia vi tatá pegando fogo no capim do
campo e nem esperei para ver de perto. De longe eu olhei com susto e mal e mal.
Vi tatá subindo um jerivá enorme de alto. Tatá fazia fumaça e esquentava os
olhos da cara, e foi última vez que mal e mal vi tatá. Acho tatá indomável, é.
Acho tatá admirável, é. Acho tatá um gênio e tanto, é.
- Caterva, caterva!... Aí, Itanicê continuou a prosa
e a interrogação: “Tatá é filho do sol? E nem se dá com a chuva? E nem convive
com o vento? E é filho único?”
- Piripi-piiiiuuuu!... Nem sei se tatá é filho do
sol capataz ou adversário subsidiário da chuva ou desconhecido do vento. Mas
podem ser parentes ou contraparentes ou compadres, respectivamente. Podem ser
adversários. Sei, posso dizer que sei, que sol tem muito tatá. Eu mesmo,
saí-açu-azul, nem tenho intimidades com o sol o fogo o tatá.
- Constelação, constelação!... Aí, Itanicê olhou o
ponto onde o jerivá mais alto andava morando e foi procurar o coqueiro. Itanicê
nem tinha medo de subir em palmeira e eu já subi em coqueiros e palmeiras das
mais altas que há. Mas chegando no jerivá, Itanicê descobriu que o sol nem o
tatá já nem andavam mais ali. Tatá podia ser veloz. Tatá podia ser uma estrela
um planeta um cometa uma pedra incandescente. Tatá já podia ter deixado para
trás as cinzas e o livor a lividez a palidez.
“Abacaxizal, abacaxizal!... Aí, Itanicê foi andando
mais umas horas até chegar noutro rio, rio Mampituba. Muito prazer! E perguntou
ao rio (que já naquela altura da própria sorte tinha oitenta pontes ao longo do
seu trajeto percurso de 1200 km): “Me fale do sol e seus esquemas de fogo e
tatá, faz favor! E por que está indo em vez de estar voltando, seu rio? É
alguma coisa ainda de ginástica? É alguma coisa porém de física ou terapia? Pra
mim, você devia ir e voltar.”
- Chuá-chuá!... Eu sigo a gravidade que já é muita.
E depois respondo que eu tenho muitos braços e afluentes que me servem. Nasço
na fonte e desço a montanha pois que pra baixo todo santo ajuda, amém! Quanto
ao fogo e labaredas e faíscas e fagulhas do sol, nem tenho dados mais ou menos
concretos. Por isso eu declino, então.
- Feixe, feixe!... Logo nesse ponto aí, Itanicê se
atirou no rio e foi nadando com calma para nem se cansar e que a jornada seria
longa, quem sabe! E certa altura do nadar encontrou a família da raia-pintada.
Estes tais e quais que vinham passando sobrevoando o fundo lodoso do rio. E
Itanicê aproveitou e perguntou: “Dona arraia, você sabe que lado mora ou
trabalha ou faz o lazer um tal e qual tatá?” A arraia, mãe das arraias, deu a
volta e encarou Itanicê de frente e de perto, para depois responder, para daí
expor, para daí contestar.
- Plaque-plaque!... Eu desconheço o paradeiro certo
do tatá. E também, bem verdade da minha parte, nem tenho sonho nenhum de chegar
perto de tatá. Uma vez ou outra ouço falar, mas bem por alto e à distância.
Ontem me sopraram no ouvido que tatá foi emprestar fogo pros lados do oeste. O
oeste é o ponto de chegada do sol. O sol bisavô tem tatá pra vender. E o oeste
fica no rumo do pico do Cristal, para Minas Gerais e São Paulo, na serra do
Caparaó. Boa sorte, moacara Itanicê. Eu se fosse você... né!
- Ror, ror!... Aí, eu Itanicê fui mais longe na
dúvida e continuei inquirindo a famosa espaventosa raia-pintada: “Mas por que o
sol precisa de tanto tatá? Porém por que o sol tem tanto tatá pra vender e
distribuir e trocar e financiar? Tatá é ouro do sol?”
- Plaque-plaque!... O sol tem uns cabelos vermelhos
que pegam fogo, é isso. Então, daí precisa muito de tatá para manter a juba o
topete as crinas acesas e vermelhas. Eu acho que fogo e sol é a mesma pessoa, é.
Já te digo isso mesmo, eu arraia de água doce.
- Cáfila, cáfila!... Aí, Itanicê nadou mais um tanto
e saiu do rio Mampituba e foi andando para o oeste. Oeste onde deita o sol, sol
cheio de tatá para negociar. Quando Itanicê viu já era tarde, de tardezinha e
parou para dormir. Tatá bem podia ser muito feroz e esticar tudo como linha fio
de retrós. Tatá será tinha crinas de labareda? Itanicê pensou em dormir onde
houvesse um bom lugar para dormir. Primeiro Itanicê procurou a caverna furna para
se abrigar da noite. E depois pedi licença para fulana itaoca formiga-correição
um favor: “Dona itaoca, eu posso pousar aqui na sua lapa por uma noite e umas
horas noturnas?” E as formigas me deixaram em paz e eu procurei deitar e me
acomodar. E Itanicê se estendeu na esteira ou colchão improvisado com capim
seco e dormiu. Assim mesmo no escuro e no frio e na quietude e na calma. Seria melhor
dormir na rede de dormir? Quando se está longe de casa é difícil se adaptar.
“Atilho, atilho!... Aí, no dia seguinte bem cedo,
Itanicê viu o sol no leste e foi para o rumo de lá. Andou quilômetros e
atravessou muitos rios, chegou em alguns atracadouros e rio Acaraú, rio Ibicuí,
rio Aguapeí, rio Mucuri, rio Pajeú e outros rios tais e tais que tinham nomes e
sobrenomes endereços pontes passarelas. Quando chegou no pico Anhangava... o
sol já tinha partido para outro canto e levado tatá com ele. E Itanicê estava
muito cansado e decepcionado e pachorrento e preguiçoso. Provavelmente! Assim o
Itanicê se sentou no chão de folhas secas e olhou em volta. Estava quase sem
fôlego. E ainda necessitou discutir com 50 araras-azuis-e-amarelas. Itanicê
gritou para o bando todo ouvir e se inteirar: “Alguém foi que viu o fogo tatá
passar aqui? Vocês o conhecem? Ele é sociável? Ele é autossustentável?” E porém
todas as araras responderam de uma vez só e foi uma gritaria de doer os ouvidos
e os nervos, grasnaram, palraram, comunicaram em altos brados estridentes. Para
entender melhor pedi ajuda da mãe das araras e ela espevitada assanhada animada
me gritou seu grito característico junto com bater de asas no peito, assim como
segue:
- Griu-griu-griu.... tatlá-tatlá!... O fogo fogaréu
foi para o meio-dia, na altura dos açaizeiros e babaçus e pupunheiras e airis!
Me disseram que com certa ou quanta animosidade rancor aversão. Um baile
agitado lá em Palmas, no Tocantins, nem qué?!
- Grei, grei!... Aí, Itanicê se ergueu e foi rumo do
meio-dia e ver conferir se encontrava os altos jerivás coqueiros-catulés
patis-doces oricuris para subir por eles e conquistar um pouco de fogo. O sol vivia
no meio-dia cheio de fogo e de tatá.
“Bananal, bananal!... Aí, Itanicê chegou numa região
de banhados e pântanos e atoleiros e veredas e ipueiras e altos coqueiros. Foi
logo subindo nos buritis espigados. Bem no alto encontrou um bando de
araras-azuis-grandes. Elas faziam uma gritaria que difícil entender quem era
quem, “quá-quê-qui!...” E Itanicê foi perguntando de uma vez só e também em
altos gritos, “eia!...” “sus!...” e bem mais altos gritos que os gritos das
araras, e todos berrando, berrou, eu berrei: “Posso alcançar o sol e os tatás
aqui deste buriti?! E um é pai e outros são os mesmos parentes? A raça parece a
mesma, no entanto!” Então, todas as araras pegaram e responderam de uma vez,
que ninguém delas queria deixar de falar e rezingar, e falaram gritando para
Itanicê, como uma voz geral em coro e uníssono que fez tremer a árvore:
- Quá-quê-qui!... O tatá do sol foi para o oeste que
já vai longe, moacara Itanicê!
- Araçazal, araçazal!... Aí, Itanicê desceu
rapidinho do buriti, sem perder tempo, e mesmo sem pressa, rumou para oeste no
rumo do sol, atrás sempre do tatá que o sol tinha muito tatá e podia emprestar
tatá. O sol que arrastava tatá e fogo aonde ia, como se tatá e fogo fossem
parentes próximos do sol solar estrela maior da supergaláxia. Com pressa e sem
correr, que correr cansa muito e desnecessariamente.
“Chusma, chusma!... E Itanicê caminhou mais
“Arboreto, arboreto!... Aí, Itanicê, perto das 18h,
chegou no pé do pico do Cristal. Já conhecia o lugar de outras histórias. Foi
subindo o morro e lá em cima ainda chegou praticamente no escuro escurecendo
lusco-fusco. Chegou no alto e viu e ouviu um bando de araras-vermelhas-grandes
e estas mesmas gralhando, “qui-quê-quá!...” Me sentei no tronco da licurana
caída. Itanicê indagou para o bando de aves tagarelas esparoladas maledicentes
fofoqueiras estuantes agitadas: “Como converso com o sol padrinho que tem um
tatá forte para me vender? Me vender ou me doar ou me regalar ou me presentear.
Ele vende ele troca ele negocia ele empresta? É de lei? É constitucional? E
vanguardista? É biltre ou vil?” Então, as araras riram e gritaram ainda mais
alto e com mais vontade, “qui-quê-quá!...” e todas de uma só vez e mesma voz
como um coral ensaiado. Depois falaram e chilrearam todas ao mesmo tempo em
uníssono bagunçado bagunçando minha mente e meus sentidos:
- Qui-quê-quá!... O sol patriarcal com o tatá bem
aceso fogaréu foi dormir e só amanhã de manhã muito cedo e olhe lá! Quer dormir
perto da fogueira? Então, esquece!
- Tertúlia, tertúlia!... Aí, Itanicê nem teve outro
jeito e se conformou. Foi procurar por ali mesmo um lugar para deitar e dormir
e esperar. Procurou o melhor lugar para dormir e achou que podia dormir mesmo
nos galhos da ingá. Aliás, uma árvore muito legal! Bem no alto que assim
evitava onça-pintada rondando o acampamento. E fui logo solicitando da fulana
ingá: “Fulana ingá, posso dormir nos seus galhos enormes e protetores e
camaradas e de lei?” Assim mesmo o acontecido e Itanicê subiu nos braços da
ingá e se acomodou se recostou. Caçou comeu uns gafanhotos-do-campo, bebeu água
do porongo. Depois arrotou, ooorque!... e se escorou nas folhas tenras e nas
ramas verdes e dormiu até de manhã e justamente com sonhos leves e etéreos.
“Cordoalha, cordame!... Aí, Itanicê acordou disposto
a procurar toda vida o tatá. Até que conseguisse tatá. Tatá era fogo! Até que
alcançasse tatá e seja onde for e a que preço for e quanto tempo for que
levasse procurando. E Itanicê olhou o céu da manhã e viu que o sol estava para
lá e correu, tuque! tuque!... justamente para o lado de lá no rastro do
astro-rei. E Itanicê pensou forte, enquanto caminhava com vontade pela campina
pelo campo aberto, assustando aves e papagaios-do-peito-roxo, xenxéns,
acanatis, anambés-açus, tesoureiras, tchintchorrintchos... e o pensamento
resmungando para dentro: “Ainda bem que nem chove. É bom que nem chove. Assim,
Itanicê pode ir até o fim do mundo atrás da perseguição de tatá. E o sol vive
aceso eterno brilhante já dominado por uma inspiração superiormente. E o sol
deve de ser uma coisa e o fogo outra coisa, simboralá!” Itanicê, assim como eu,
já pensávamos a mesma coisa.
“Prole, prole!... Aí, Itanicê só tinha essa ideia na
cabeça: procurar tatá, achar tatá, pegar tatá, comprar tatá, flechar tatá,
administrar tatá ou fogo. Sim, era isso que Itanicê devia fazer até o fim dos
seus dias, se necessário. Itanicê viveria para catar tatá e com sacrifício. E
Itanicê, por enquanto, ainda nem entendia se era somente o sol que tinha fogo
para vender. Mas devia ser. Mas tudo indicava que sim. E tatá bem podia ser
perigoso e explosivo e surreal e fantasma e tóxico e encafifado acanhado
envergonhado.
“Atlas, atlas!... Aí, Itanicê se deparou uma certa
hora do dia com um bando de aratingas-de-testa-azul e voando no céu
azul-clarinho. Então, Itanicê subiu o morro Anhangava e procurou o sol para ver
se conseguia tatá. Assim, Itanicê já conhecia o lugar de outras anedotas e
emendas e anexos. E Itanicê encontrou uma tribo de índios, os arara-caro. Sinceramente,
Itanicê falou com o cacique deles e perguntou antes de mais nada, interrogando,
falando a língua nheengatu já traduzida para a do homem branco: “Por acaso
cacique Inhaíba sabe do paradeiro de tatá bem forte? Fogo vermelho vermelhão e
em chamas, hein?! Tatá é possível por aqui por estas bandas e glebas? Onde e
por quê? Me explique! Me oriente! Vocês têm fogo e tatá pra assar comida? Pago
bem pela boa ajuda, cacique Inhaíba.” Então, o velho morubixaba, que tinha uma
cobra coral enrolada no pescoço como bicho de estimação, olhou o tempo olhou o
céu olhou o mundo lá de suas ideias e sentiu o clima sentiu o vento e disse
para Itanicê, me falou me comunicou me pontuou:
- Tu-rum-bam-ba!... Sol tem tatá e sobras sobras. E
sol onça-pintada anda lá pelo meio-dia, tempos-quentes. Nesse ponto deve tá
trepado na palmeira indaiá e bem na copa. Corre rapidinho que senão do
contrário nem vai ver sol nem mesmo tatá e fogo. É legal! É da hora, meu! É
obra-prima! É aquecimento general!
- Arrozal, arrozal!... Aí, Itanicê partiu a correr
pelo meio do cerrado atrás do sol. Eu Itanicê nem queria enlouquecer por causa
do sol do tatá do fogo e outros bichos parecidos. No caminho deu fome e Itanicê
parou para comer araticuns e saúvas e coquinhos ouricuris. Mais tarde se mexeu,
tuque! tuque!... e chegou no pé da indaiá. Subiu até o topo da palmeira e lá
encontrou uma tribo de índios arara-chauanauá. Indagou deles as mesmas coisas,
perguntando num brasileiro com sotaque goiano: “Tatá nem está aqui, com vocês,
silvícolas arara-chauanauá? Tatá nem apareceu com o sol do meio-dia e com as
12h? Tatá nem é febre e dor de cabeça, é? Tatá é espírito? Tatá o fogo pode ser
filhote de jaguatirica? Tatá conta a lenda, hem?!” Então, o pajé da tribo
deixou um instante de comer coquinhos e, corpo pintado pra festa na tribo, e respondeu:
- Mo-ri-ge-ra-do!... Tatá esteve aqui, mas agora foi
para aquele lado.
- Récua, récua!... Aí, e foi fácil, o pajé de nome
Ivatingui me apontou o lado de cá, bem no rumo do pico do Cristal. E era longe
só de olhar. Itanicê olhou, achou longe e se conformou. Pulou da palmeira, caiu
rolando e saiu caminhando, tuque! tuque!... Era o nosso mundo velho, então! E a
região era imensa e regional. E ninguém conhecia tatá aí na gleba. E Itanicê
cansou os pés e descansou um pouco debaixo da ararandéua. Comeu uns
gafanhotos-juremas, jabuticabas, gabirovas, guabijus, pitangas, azedinhas... Eu
mesmo já havia caminhado um montão como se fosse um perdido caminheiro
andarilho. E Itanicê ouviu um tropel de catetos, catetos rezingando, e Itanicê
olhou para o lado e lá vinha a bagunça. O caipora de nome Intemperança, que era
o cateto chefe, passou bem perto e dentro no meio do bando clientela conclave
corja. Muitos deles machos e fêmeas grunhindo cuinchando. Então, o Itanicê se
alertou todo e pensou, resmungando sozinho e bem baixinho: “Será que caipora
Intemperança está brincando com Itanicê? Será que caipora Intemperança está
espantando o sol para Itanicê nem pegar tatá? Será que Itanicê deve sempre
passar frio, é? Será que Itanicê nem pode chegar a um acordo com Intemperança e
sua vara de catetos? Será que é o pé da cobra?” E Itanicê nem achou uma saída.
“Pente, pente!... Aí, Itanicê se ergueu e continuou
sua sina atrás do fogo. E foi indo pela trilha. Itanicê já estava tonto de ir
daqui pra lá e de lá pra cá. Caminhou a tarde toda, tuque! tuque!... e os pés
já doíam muito. Itanicê eu mesmo já tinha desenhado uma teia de aranha no chão
do cerrado. Itanicê ouviu o saimiri guinchar, a garça-branca piar, o
caburé-do-sol chirriar, bando de almas-de-gato estridular, tico-tico-de-bico-amarelo
falar alto. Estradinha estreita de chão batido e lado a lado os arbustos da
clúsia (estas plantas muito conhecidas na região e fanáticas pelo solo local). Alguns
indivíduos dos batuíras-de-esporão estavam almoçando no araçá-do-mato. Itanicê
passou rápido, tuque! tuque!... mas cumprimentou a ave mais próxima, de
passagem, com pressa: “Como vai, batuíra! Hoje é um belo dia para procurar o
quente do sol do fogo do verão, é.”
- Tri-li-lóooo!... Assim e assim, seu bem-aventurado
Itanicê. E o que mais Tupã quer criar e põe e dispõe. Falando em sol, Tupã seja
louvado e de dia e de noite!
- Ronda, ronda!... Aí, Itanicê chegou ao topo do
pico do Cristal e viu que estava para anoitecer. Já conhecia o lugar de outras
circunstâncias. Encontrou uma tribo de índios os arara-do-aripuanã. Então foi
pedindo notícias, indagando novidades informações: “Quem pode me dizer alguma
coisa de qualquer tatá? Quantos tatás estão aí em algum lugar do mundo? Quem
sabe o segredo dos tatás e seus derivados? O fogo tatá é de família rica ou
remediada? Ouvi dizer que é filho legítimo do sol solar o sistemático. Vocês
possuem tatá pra negociar e me vender, nossos irmãos em Tupã?” Assim, uma índia
velha de nome Urupema, fazendo peneira de palha com muito carinho e cuidado e
atenção, levantou os olhos, olhou Itanicê bem com calma e disse, o cabelo
pintado de urucum e jenipapo, me falou no idioma deles original que eu traduzi
na hora:
- Cor-rup-te-la!... Tatá é muito esperto e útil. Mas
tatá tem seu jeito de ir e vir. Agora mesmo tatá estava aqui com o sol
imperador. São irmãos e do mesmo sangue vermelho. Recém tatá desistiu daqui e
se foi na companhia do sol. Tatá vai e volta com o sol. Tatá leva e trás. Tatá
segue o pai dele, o sol. Tatá e fogo têm um trato pra agradar a todo mundo e
seguir as orientações do rei-sol. Tatá só amanhã de manhã, e olhe lá!
- Cacaual, cacoal!... Aí, Itanicê aproveitou que
estava noite e que estava torto de sono e foi procurar um chão normal para
dormir. Itanicê nem tinha oca para dormir. Amontoou improvisou uma porção de
folhas secas do ibirapepê e deitou. Foi mastigando araçás-do-mato para espantar
a fome. Comeu também um gafanhoto-de-coqueiro. Itanicê sentiu que queria ser
marupiara, mas era panema. De noite a terra esfriava longe do sol. De noite a
terra dormia e somente as estrelas olhavam. De noite apenas a lua regava o
firmamento com seu véu de luar.
“Brasil, brasil!... Aí, Itanicê ainda olhou as
estrelas e os planetas, a lua e as estrelas. Tudo o mais mágico deslumbrante
feérico. Foi que pensou mais um pouco e nem falou nada, só pensou nadando em
pensamentos: “Foi por que que Itanicê veio sozinho procurar tatá?” Itanicê se
perguntou só pensando e dormiu quase de pronto. Oi!...
“Aboboral, aboboral!... Aí, Itanicê já vai parando
de narrar a história do tatá. Eu sou Itanicê e vou descansar. Itanicê está
perigando ficar com a língua muito solta. Até amanhã. E nossos intervalos
comerciais, por favor!”
Lilás e a curuminzada já fechavam a boca e batiam as
pálpebras, finalmente e por fim, com a parada da narrativa. Então, o índio antigo
Itanicê parou de falar por aquela noite. Parou de contar a história do fogo
tatá parte integrante do poderoso sol. Chefe índio estava mesmo talvez com a
garganta cansada, seca, pegando fogo de tanto falar. A mente sufocada de tanto
lembrar. E precisava dar um tempo. E sim.
E o restante da história, a procura do fogo por
Itanicê, ficou para a noite seguinte, e que todos iam aguardar. História aos
pedaços e partes e capítulos e parcelas e serial.
Assim como acontece seguido e frequentemente, a madrugada foi transitando no intervalo da noite. Os astros rodando no espaço. As estrelas cadentes mudando de lugar. As astrologias e astronomias. Corpos celestes de diferentes tamanhos e já imantados magnetizados atraídos pra cá pra lá. O tempo contando em anos-luz. E D de Senhor.
E a noite madura madurou e amanheceu na sequência de
um novo dia que voltou. Nem demorou muito, nem demorou nada. O dia a seguir já
estava todo festejado e estrelas e pirilampos e lua se transfigurando virando
fantasma. O cosmo estava novo ou lavado ou varrido de tudo que se pintou bordou
alinhavou durante a noite. Amanheceu.
Muito cedo é o mundo das aves despertando com animo
novo renovado e cantando a plenos pulmões. Marcando território, falando alto,
voando de ponto a ponto. Procurando coisas por fazer. Buscando comida se
alimentando de frutas e verduras.
Era o dia claro sem nuvens no céu e as árvores
maravilhadas com o calor do verão. Árvores frondosas já fascinadas com o brilho
intenso do sol. Sacudindo as folhas as flores os ramos ao vento que vinha
sempre do noroeste e fedegosos-do-mato, bochechas-de-velho, olhos-de-boi,
cedros-brancos ou cedroranas.
Os silvícolas arauá acordaram com os pássaros
fazendo algazarra nas árvores no erval na restinga no faxinal no campinho.
Enquanto o dia amanhecia e os bichos aconteciam, a tribo inteira acordou e foi
tomar banho no rio. Fila indiana.
Lilás e petiço Tico-Tico foram atrás foram na
conversa foram fazer o que tinham de fazer naquela hora. A menina saiu da oca
muito cansada de sono sonolenta. Se dirigiu junto com outras cunhantãs e
cunhantains para a praia do rio corrente.
- Digo!... Eu já sei nadar e mais ou menos - comentava
Lilás com a amiga cunhantaim Bibi. Dou as braçadas e bato os pés. Mergulho
assim-assim.
- Bibi, eu mesma já sei e faz tempo. Desde muitos
dias. Eu nado como peixe curimataú. Eu nado todos os dias de manhã à noite. Eu
nado quando eu quero.
- Digo!... Isso é sen-sa-ci-o-nal! Sinto que é muito
legal!
- Bibi, eu gosto de me atirar de cima da árvore
uvatinga. É bem alto e dá gosto. Sempre faço isso em cada manhã. Tem hora que
vou também na cascata.
- Digo!... Você anda de canoa e rema pra cima pra
baixo do rio? Já foi pescar de canoa? Eu mesma nunca fui, e me faz falta.
Gostaria imenso.
- Bibi, eu vou com meu pai e meus irmãos e meus tios
e minhas tias pescar rio acima. Quase na nascente, que é onde tem peixe graúdo.
A gente espera desovar e depois de três meses vai lá e pesca de cardume.
- Digo!... É sempre confortável ter um rio perto de
casa e no quintal de casa.
- Bibi, eu nasci na montanha mas gosto de morar
perto do rio.
Lilás e Bibi andaram mergulhando e catando pedras no
fundo raso do rio. E subiram em árvore canela-sassafrás. As almas-de-gato
cruzaram o espaço e nem se soube o que pensavam fazer para onde estavam indo.
Outras aves já se sabia o dia? Cada tal e qual a seu modo. O vento tocava
algumas nuvens brancas e pequenas e esgarçadas.
A menina a cunhantaim viram outras formas de vida
vivendo aí. Admiraram a grande quantidade de aves e voos rápidos ligeiros e
marrecapéuas, águia-cinzenta, anapurus, batuíras-de-peito-tijolo,
bem-te-vis-de-cartola, bicos-de-prata, pintassilgos. Mergulharam e olharam lá
no fundo e reconheceram uns peixinhos açodados acelerados apurados e
acarás-salemas, bagres-surubins, dourados, lambaris. As árvores coloridas
verdes e dando frutas da estação e angelim-coco, café-do-brasil,
jasmim-do-mato, cuipuna, dormideira. E outros animais endêmicos da região e
saguis-leãozinhos, papa-ventos, ratos-espinhos, taraguirapevas, aís-pixunas,
arlequins-pequenos.
O sol num dia inteiro e diligente ativo aplicado
zeloso cuidadoso. O astro demiúrgico demiurgo milagroso se comportando como
sol. Que o sol, egoísta egocentrista egotista, se baseia em tempos e tempos que
vão e voltam aquém e além dos tempos passados presente futuros. Por si só o sol
é muito grande e destampatório destemperado falta de comedimento. Por isso se
diz: “Isso é o sol!” Sempre acima de tudo e dentro girando na vasta galáxia. O
sol respeita o sistema solar e o diário. Da mesma forma que isso nem altera o
tempo o espaço e a natureza imanência interioridade de D. O sol megaestrela e
preciso enxuto correto sóbrio. Uma ou duas boas partes da Via Láctea é sua
total responsabilidade. A enorme experiência do velho sol vale tudo e vale
muito e vale profundo. Seu discurso diário ditirâmbico elogioso bajulatório.
O dia olhando a jornada se perdendo em horas. As
marrecas-caneleiras pescando na beira no remanso do rio. Os araticuns-do-sertão
dando seus frutos amarelos. Colibris ou beija-flores-de-peito-azul caçando
néctar nas flores de abacates-do-mato. Do ponto de vista da preguiça-de-coleira,
suspensa pendurada agarrada no alto do galho da cajá-manga, era como se a tarde
caindo em tardezinha fosse se aproximando da noite e no céu surgissem as
primeiras estrelas e outros tantos pontos de luz. Algo alto inacessível.
Pronto, que Itanicê recomeçou a contar a história de
como foi atrás de caçar e pescar e capturar e adquirir o fogo ou o tatá. Que o
sol é o pai de todos, isso é. E o fogo e todos os seus componentes descendentes
fosforescentes faiscantes rebrilhantes chamejantes.
A cunhantã Puiú, que se habilitava muito bem com o
toré instrumento musical feito de taquara, perguntou e lembrou o atucanado maioral
muruxaua curaca Itanicê:
- Pro-pó-si-to!... Itanicê vai contar a continuação
da história do tatá ou fogo filho do sol? Conta aí, vai senhor cacique Itanicê!
Estamos aguardando.
Independentemente disso e daquilo, e de toda forma
ou fôrma, fato é que todos da aldeia estavam esperando a continuação da
história. Do ponto que parou, e parou por quê?! Que as solicitações eram
múltiplas multiplicadas multidão mutirão.
Assim, Itanicê olhou as estrelas da noite, olhou a
fogueira bem perto dos seus pés, olhou pensando, lembrou e continuou de onde
tinha parado, narrou, foi que foi:
- Espinheiral, espinheiral!... Aí, Itanicê acordou
muito cedo e foi e desceu o morro do Cristal para ver se fazia hora de alcançar
tatá no sol da manhã. E o sol da manhã já apontava lá. E Itanicê saiu com novo
ânimo e com toda a esperança do mundo. Itanicê desceu pelo meio dos campos,
pegou a velha trilha, tuque! tuque!... e continuou, e foi correndo alcançar. A
pressa era de Itanicê e eu estava animado quase quase correndo.
“Cafezal, cafezal!... Aí, assim e dizendo, Itanicê
passou serras e morros, cordilheira, rochedos, peraus, despenhadeiros. Grandes
lugares cheios de montanhas e altos morros e serras. Umas serras azuis. Outras
serras menos distantes. Muita subida em aclive e muita descida em declive. Muitos
lugares com nome próprio nomeados e Pederneiras, Itamaraju, Monte Mor, Prado,
Ivoti (“flor”, em tupi-guarani), Concórdia, Riolândia... Muitas montanhas sem
nome e por nomear. Caminhos picadas para derrapar e se estabacar e se
estatelar. Muitas cascatas cachoeiras por chamar e declarar. E desfiladeiros,
vales verdes, passos, boqueirões...
“Abelhal, abelhal!... Aí, Itanicê se deparou com um
rio, o rio Tietê. E Itanicê parou para beber água e conversar com o rio Tietê.
O rio tinha grandes e pequenos peixes e era tudo uma transparência de céu limpo.
Peixes como o tambicu, traíra, grumatã, mandi, piracanjuba, timburé, dourado,
muçum (espécie de enguia). Coisa de admirar. E umas aves como a jaçanã, o
colhereiro, a anhuma, o guará, a saracura-do-banhado. Itanicê nem esqueceu de
perguntar ao rio Tietê e o interrogou, liquidamente: “Seu Tietê, eu Itanicê procuro
o sol avô do fogo para negociar um pouco de tatá. Você o conhece de perto ou de
longe? Você que corre de leste para oeste e do mar para a serra, já topou com
ele? Me adiante.” Então, o rio Tietê (tupi, “água verdadeira”) andava liso
naquele lugar e descia naquela direção de costume e habitual. O rio respostou,
e desde a fonte descendo até a foz, concertou, me dirigiu as palavras que eu
ouvi, explicou:
- Chuá-chuá!... Nem é só o sol harpia que quer
vender e negociar tatá. Quer saber mesmo?! Existem outras pedras na montanha
mais alta que também têm muito tatá dormindo. Fogo extraído direto da pedra. O
sol é muito rápido e alto e etc... Procure tatá nas pedras do caminho e subindo
a montanha mais alta mais alta. Coisa mais comum e ao alcance, entendeu?! E
cuidado com tatá que ele é perigoso para iniciantes.
- Miríade, miríade!... Aí, assim mesmo, que Itanicê
ouviu escutou e entendeu 100%. O rio Tietê fez uma curva para a direita e
continuou falando e se exibindo e se exercitando nos músculos de longa
distância e sempre no caminho do interior, dizendo correndo praticando
corredeiras e cascatas e cataratas precipitadas estrondosas.
- Chuá-chuá!... Mas eu sou mais importante que o
tatá do sol ou o tatá das pedras, etc... E daqui até o sol? São 800.000 km. É
só eu querer qualquer coisa e quando eu mesmo quero então faço e aconteço. Eu
ganho do sol ganho da montanha ganho do céu ganho do vento, etc... Conhece
minhas corredeiras e ligeiros e sumidouros e poços e cavernas? Nem conhece, seu
cacique Itanicê? Pois já o mundo inteiro vai tarde pra conhecer e muito, quer
saber! Eu conheço São Paulo, Bariri, Macatuba, Santana de Parnaíba, Sales,
Barra Bonita. Entre o verão e o inverno eu subo mais, em volume.
- Boiama, boizama!... Aí, Itanicê deu um mergulho
para se lavar e se refrescar e se despertar. Bebeu mais água limpa e continuou
o seu caminho pelo mato que era hora de alcançar o sol no topo do pico
Anhangava. Já eu conhecia esta montanha e de outros causos e dizeres e falares.
Trabalho era trabalho. Profissão era profissão. Ofício era ofício. Obrigação
mais obrigação. Que a montanha sempre esperava Itanicê.
“Batalhão, batalhão!... Aí, Itanicê chegou mesmo ao
morro da serra da Baitaca e nem viu mais o sol nem tatá algum pra semente. Que
desilusão, meu! Já conhecia o lugar de outras temporadas e trocas de
confidências. Reconheceu uma árvore, a árvore araratucupi. E Itanicê,
bisbilhoteiro, bisbilhotou espionou espiou, articulou articulou: “Onde se viu
sol majestade com tatá? Pode me informar? Pode me notificar, dona planta araratucupi?,
e fazendo grande favor!” A árvore balançou os galhos, cantou alto com a
interpretação das folhas todas, olhou Itanicê lá do alto do seu porte e foi
devolvendo, agitando, me dizendo oralmente e sem papas na língua brasileira
paulista caipira.
- Planta-da-sorte, cidrão, verbena-cidrada!... Já se
mandou faz horas e está deve estar, como se diz, longe pacas. O fogo, acredite
seu pajé Itanicê, é um deus alado e sem paradas fixas sem habitat sem morada. Acredito
que já vai pra lá do rio Ave Maria, entende?! Creio que já namora a lua
prateada noiva lendária.
- Cambuizal, cambuizal!... Aí, Itanicê nem parou
para contar até dez e esperar mais e se mandou atrás do sol, bateu, voltou.
Desceu o morro e saiu no descampado campo afora. Foi a trote, tuque! tuque!...
No meio do caminho viu uma araramboia e se afastou de lado. A cobra saiu do
esconderijo do valhacouto do abrigo espichou a cabeça e perguntou, silvou
roncou, enrolou desenrolou, interferiu na boa vida feliz e vida pacífica e vida
peregrina agradável louvável de Itanicê.
- Aleive, aleivosia!... Alguma coisa o deixa
apressado, índio arauá? Nem se esqueça de falar e olhar por onde anda,
morubixaba Itanicê! A vida é perigosa por si só! Muita muamba calúnia injúria
infâmia! Eu sei disso tudo e pífio, niilismo, pasmaceira, apatia.
- Girândola, girândola!... Aí, Itanicê
reparou melhor na araramboia e se afastou o suficiente para nem ser agredido e
perguntou, investigativo: “Tem visto algum tatá pelas quebradas, minha santa?!
Dizem que o fogo é muito importante! E até me cansa o talão do tanto que estou
andando. Eu mesmo preciso do fogo para comer mingau quente. Eu preciso do fogo
nas noites de frio e vento e chuvarada. Nem pouca gente procura o tatá pra ter
conforto em casa na oca na aldeia.” Então, assim mesmo, a cobra a serpente se
revirou no mesmo lugar, se acomodou numa espiral pronta para dar o bote, e
disse, sibilando herética herege heresias, língua de fora com hálito de cachaça
sinhaninha sianinha e procurando informar divulgar o que jurava entender e já
dizendo.
- Aleive, aleivosia!... Nem é aquele que anda junto
com o pai-sol lá pelo meio-dia no alto do coqueiro-catulé, hein?! Estou certa?!
Um sujeito patético vermelhão?! Alguém que gosta de capim bem seco estalando de
seco?! Eu sei e até ofereço recompensa se você o capturar. Pode pegar e levar
para bem longe de mim, tá ligado?!
- Bagagem, bagagem!... Aí, Itanicê concordou e achou
que sim e até pôde dizer que talvez sim e claro como a água de poço e si que
sim. E Itanicê se despediu e foi na mira do coqueiro-catulé que se via de muito
longe na paisagem. No caminho deu fome e Itanicê parou para comer um bocado de
mel. Pediu primeiro licença, murmurou: “Abelha fulana tataíra, posso comer um
punhado do teu mel? É somente pra mudar um pouquinho na dieta o cardápio e
melhorar meu digestivo de Itanicê.” Então, as abelhas bota-fogos vieram todas enxame
conhecer o índio Itanicê e eu mesmo de bem perto cara a cara. Rodearam e
queriam entrar pelos meus ouvidos, pelos furos do nariz, pela boca, gostaram de
se admirar no reflexo cristal espelhos dos olhos do índio Itanicê. Eram muitas
milhares conferência aos montes incontáveis e um enxame propriamente dito. E
Itanicê ficou calmo o suficiente para perguntar, com voz que as abelhas
entendem entendiam: “E se eu pudesse provar do vosso mel, donas abelhas e
zangões, hein?!, pergunto.” Mais uma vez eu esperei um nada e os zumbidos eram
muito confusos. Uma das mais chegadas foi que falou em nome da colmeia e
resumindo o pensamento de todas, zumbiu zumbizou ziziou zoou.
- Zun-zun-zum!... Um punhado por uma pergunta. Dois
punhados por duas perguntas certas e convenientes. Três punhados outra pergunta
cabível. Mais que cinco punhados de mel nem podemos negociar que a colheita
está muito escassa. Tá ligado, compadre Itanicê?! É o que temos pra hoje.
- Bracatingal, bracatingal!... Aí, Itanicê pensou
que teria de fazer obrigatoriamente quatro (4) perguntas difíceis às abelhas
abelhudas reunidas no auditório. E Itanicê estava cansado de correr como bobo
atrás de tatá. Itanicê fez a primeira pergunta: “Vocês vão bem, tudo bem na
colmeia?”, e tomou seu primeiro punhado de mel. E Itanicê fez a segunda
pergunta: “Vocês têm muitos inimigos hoje em dia, vocês querem precisam da
minha ajuda pra qualquer coisa?”, e eu mesmo tomei meu segundo punhado de mel.
E Itanicê fez a terceira pergunta: “Vocês abelhas conhecem o sol, já viram o
sol mais amarelo?”, e tomei meu terceiro punhado de mel que estava por sinal muito
bom muito doce muito natural. E eu e Itanicê fui e fiz a quarta pergunta dentro
do combinado previamente: “Vocês da colmeia sabem me informar com segurança
sobre como adquirir o fogo ou o tatá?”, e tomei meu quarto e último bocado de
mel. Tive certeza que foram perguntas muito interessantes e possíveis de boas
respostas por parte dos insetos abelhas. E vamos aguardar, pensei. E as
perguntas foram feitas e fiquei no aguardo das respostas. Tinham vontade de
falar e responder. Uma abelha soldado se destacou e se apresentou com as
respostas, assim mesmo como zuniu chiou rechiou.
- Zun-zun-zum!... Sim, vamos bem e tudo corre legal
e assim-assim. Nem temos muitos inimigos, mais muito são os camaleões lagartos
diurnos arborícolas iguanas sinimbus tijibus cuviaras que de vez em vez nos
atacam. Conhecemos o sol de vista e já o vemos meio que distante no alto do
céu. Como adquirir o fogo ou o tatá é coisa muito fácil, basta um incêndio no
capim-rei no capim-marmelada capim-rabo-de-boi campim-da-colônia e se verá de
montão e avassaladoramente. E assim esperamos ter satisfeito a todas as suas
perguntas, seu cacique chefe compadre arauá Itanicê. Que passe bem!
- Batatal, batatal!... Aí, Itanicê agradeceu as
dicas as respostas o precioso e nutritivo mel e se mandou. Até que doía o
calcanhar de tanto andar. O tempo corria na frente, vamos dizer. E Itanicê já
estava perto do coqueiro-catulé. Até que doía as costas de tanto caminhar. E mesmo
assim correu apressado e afobado, subiu no coqueiro e lá em cima chegando bem
na copa nem viu mais o sol nem mesmo um restinho de tatá. Foi encontrar mesmo
no alto do tipo catulé-babão catoleense com um pé de tatapirica. E Itanicê já
foi perguntando, sempre a mesma coisa, sempre com a mesma ideia, focado: “Tatá
nem estava aqui agorinha mesmo, fulana tatapirica, sicrana fruta-de-pombo?”
Então, a árvore se mexeu e se remexeu em folhas e em galhos folhudos e
farfalhar, fluflu! fluflu!... de uma forma e de outra maneira, e respirou
suspirou pelas folhas e discorreu falou mesmo, e disse coisas verídicas e
imaginárias ou simuladas e reais.
- Frufru-frufru!... Uma coisa eu te digo, visitante
Itanicê. O sol capitão e seu filho labareda tatá estiveram aqui e ficaram dois
minutos sobre minha copa sobre minha cabeça sobre minha testa. Tomaram dois
minutos de fôlego e se voltaram para oeste e se foram rumo da serra Caparaó.
Rumo das localidades conhecidas como Bariri e Mineiros do Tietê e Abadiânia e
Magé (tupi, “campo pequeno”) no bairro-distrito de Inhomirim ou Raiz da Serra,
tá correto?! É melhor levar um mapa, tá certo?! É melhor levar muito dinheiro
ou tudo que possa ser convertido em grana, ações títulos cheques cartões.
- Burizal, burizal!... Aí, Itanicê pulou do pé de
tatapirica e pulou do coqueiro-catulé e se mandou, tuque! tuque!... pelo
caminho indicado apontado. Sentia que a esperança estava para ser alcançada? Já
sentia os pés quentes de caminhar no chão escaldado, isso sim. E Itanicê avistou
de longe um lugar guarapiranga. Era bonito mas eu nem tinha tempo de sobra para
olhar melhor e desfrutar usufruto. Itanicê encontrou uns maracujás e foi
comendo pelo caminho, nhoque! nhoque!... Parei cinco minutos na sombra da
piaçaba e já-já prossegui continuei. O mundo vinha cheio de leis e regras e
normas e costumes e hábitos e manias. Quem passa pelo mundo tem que andar na
linha. Quem conhece o mundo sabe o que é despautério disparate desconchavo.
Quem reconhece o nosso mundo já se inteirou que o negócio é desculpável venial
perdoável. Quem adquire uma sorte de viver conviver neste mundo já entendeu e
ouviu dizer pelo menos uma vez de butiroso grumoso granuloso. E tempo que
segue.
“Casaria, casario!... Aí, Itanicê avistou o morro do
Cristal e ficou contente e caminhou mais à vontade. Já conhecia o local de
pernoitar e acampar. Mas estava quase anoitecendo. Correu como pôde. Chegou lá
no topo todo esbaforido o fôlego se perdendo o ar nos pulmões já nas últimas. E
Itanicê pensou encontrar o sol e comprar tatá, mas só viu uma árvore de nome
tataíba. “Que dia atribulado, gente!”, suspirei. Nem fiquei muito satisfeito e
inquiri por inquirir e indaguei por indagar e perguntei por perguntar e
solicitei por solicitar: “Fulana tataíba já reconheceu já viu tatá? Viu se tatá
deixou rastro aqui? Já sabe o que quero dizer? Tem fogo pra dar e vender?
Quanto custa? Tenho dinheiro-em-penca dinheiro-papel dinheiro trocado dinheiro
de São Pedro e sou dinheirudo dinheiroso dinheirento.” Então a árvore estava
bocejando para iniciar o seu próprio dormir noturno. A árvore já tinha as
folhas murchas e os galhos encolhidos para dormir e pernoitar. A árvore já
estava agarrada ao chão numa perna só, pronta para dormir bocejando forte, “ofe-ofe-oooofeeee!...”
Por isso mesmo ela acordou espantada, abriu bem os galhos, baixou as folhas até
o chão e respondeu a Itanicê, aproveitou um vento e balançou os galhos mais
folhudos, refolhou e disse numa onomatopeia traduzível no apreciado da cartilha.
- Fri-fri-que!... O sol no céu de brigadeiro sempre
chega aqui aí pelas seis e vinte da tarde. Outro sim! Agora mesmo já são sete e
dez da noite. Como sei? Você chegou atrasado atrasado, moacara Itanicê. A culpa
é sua, nem minha nem nada a ver!
- Ramalhete, ramalhete!... Aí, Itanicê pegou e foi
achar um lugar para passar a noite. Estava maduro de cansaço e nem queria
pensar mais nada de tão cansado. No outro dia tentaria de novo mais uma vez
mais outras vezes e uma vez mais. Sempre e até o fim dos tempos. Itanicê pediu
licença para as raízes da tataíba: “Posso descansar aos seus pés, fulana
tataíba?” E a beltrana planta, bem plantada na planície, falou e concordou.
- Fri-fri-que!... Evidente que sim. E fique à
vontade. E fique acomodado.
- Pomar, pomar!... Aí, Itanicê se deitou e nem
demorou um minuto para começar a roncar, rou-rou-ráaaa!... Nem sentiu tempo de
sonhar. Estava muito cansado. Nem sentiu falta de orações. E as preocupações
Itanicê deixou todas para o dia seguinte. Nem sentiu a matemática de contar
estrelas. Que o sono veio de pronto acolhedor e de esquecimento. Nem sentiu o
tempo ambivalente inverter a noite em dia novo.
“Samambaial, samambaial!... Aí, Itanicê acordou todo
bonachão na manhã de novidade dia renovado mês novo ano novo. Manhã revoada e
nova e esclarecida. E toda manhã era outro dia e bola pra frente. Como se
comportaria o dia? A sorte marupiara era a mesma e a história continuava.
Itanicê já saiu cantando e que de boa onda. Amanhecer, aurora, alvorada,
matinada. A caçada nem terminava até Itanicê capturar o tatá. Tatá bem podia estar
disfarçado de árvore arbusto planta, bandeira-do-campo, caperiçoba-branca,
margaridão, araçanduba, cipó-de-gato, cambará-de-lixa. Fogo bem podia ser bicho
camuflado e surucuá-de-barriga-vermelha, tucano-boi, saco-de-pó ou
chapéu-armado, rasga-mortalha-grande. O sol chefão podia ser um grande disco de
ouro cheio de raios espalhados radiantes. O sol e seus parentes mais próximos
fogo e tatá podiam ser gente muito tranquila confiante e membros da eutimia. O
sol podia ser um deus divino temido oriundo de um planeta distante, mas seus
afilhados labaredas chamas eram pessoas comuns e tradicionais.
“Plêiade, plêiade!... Aí, Itanicê seguia o sol para
onde ele ia no seu carro dourado. Eu mesmo acompanhava o máximo que podia sempre
no rasto do sol ou no rasto do cacique-tatá rolando em o alto do céu azul. Sol
que parecia sempre devorar o espaço, o tempo, a paisagem, a região do
Centro-Oeste. Um céu azul-claro bem cheio de luz solar. Chuva, nem pensar.
Chuva de noite durante que era bom pra dormir.
“Feijoal, feijoal!... Aí, Itanicê foi até a serra da
Baitaca. Subiu o morro do pico Anhangava. Já conhecia o sítio de ter feito
outros estudos e pesquisas. Nem viu sol nem tatá. Falou com ararajuba. A ave
disse outra coisa e Itanicê voltou. Itanicê chegou na altura do meio-dia e
subiu no tucum, no alto do tucum tinha a árvore tarumaí, na árvore tarumaí
tinha o ninho de taocas que habitavam nos galhos da tarumaí. Itanicê solicitou
da taoca vigilante amiga compatriota: “Somos amigos, fulana taoca Ajará? Somos.
Então, me conte desse poderoso e importante tatá e por que ele é fugitivo e nem
consigo caçá-lo pescá-lo colhê-lo recolhê-lo iludi-lo aprisioná-lo.” Outro sim,
a Ajará formiguinha comedeira de frutas se esforçou para responder em voz muito
alta e disse, chiou, antenas batendo no ar, compenetrada, chiou os chiados
minimalistas mínimos.
- Se-zeeiim, se-zeeiim!... Tatá também gosta de
pedra e mora nas pedras do pedregulho. No monumento de rocha vulcânica. Vá onde
tem muita pedra ou pedregulho. Escolhe qualquer pedra do pedregulho da pedreira
e pede para a pedra soltar tatá. Pedra e fogo tem tudo a ver. A pedra boa de
fogo liberta tatá. Nem é somente o sol que tem tatá de montão e pra vender. E
pronto. Vai de uma vez! Até a vista! E boa sorte! E nem se esqueça das amigas
conterrâneas!
- Gravatazal, gravatazal!... Aí, eu o mesmo e
batizado Itanicê fiquei em dívida em dúvida e meio que perdido na conversa.
Itanicê estava com sono? E Itanicê perguntou em tom amistoso: “Dona Ajará, onde
fica essa pedra que mora com pedras e que carrega de vez em quando com o bom e
útil tatá? São pedras grandes ou médias ou pequenas? São pedras de lascar? O
nome tem um local, o local tem um nome? É uma montanha de pedras ou uma pedra
do tamanho de uma montanha? Ela vive só ou acompanhada?” E, assim como estou
narrando, Itanicê perguntou e ouviu a resposta do inseto formiguinha.
- Se-zeeiim, se-zeeiim!... Nem sei, nunca vi, tem
bicho que fala, tem gente que já viu e pegou. Eu nem sei de nada. Me contaram.
Me desculpe, então. É contigo. As conversas que chegam até nós formigas taocas
são um tanto ou quanto ambíguas e indefinidas e vagas e obscuras, podem ter
diferentes sentidos. Eu nem ponho minhas antenas portáteis no fogo! E fogo
filho legítimo do sol nem é elemento honesto probo honrado leal, minha opinião!
Já chega ligando fonógrafo e de cafajeste e velhaco.
- Matagal, matagal!... Aí, Itanicê ficou na mesma e
coçando a testa das interrogações. Ou já era uma ideia e nem podia desperdiçar?
Itanicê tinha se animado com a ideia da pedra com tatá. E Itanicê se desanimou
outra vez porque nem sabia onde era o lugar das pedras boas de fogo. Que lugar
abriga tanta pedra necessária? Tatá bem podia ser pedra. Então tatá era amigo
das pedras, hein?! Tatá era tiete e fã das rochas?
“Guaranazal, guaranazal!... Aí, Itanicê foi embora e
voltou sempre pelo mesmo caminho. Sempre, tuque! tuque!... no rasto do sol
senhor dos senhores. Por que tanto trabalho por nada? Sempre com a ideia em
tatá. Mas agora com a esperança de achar tatá nas pedras boas de fogo. Em volta
de si uns ambientes muito legais de se olhar e admirar panorama. Os calos bolhas
feitos de andar e nas solas dos pés. Eu estava com vontade de desistir? Talvez
estava mesmo querendo tirar umas férias na praia de Co-pa-ca-ba-na! Itanicê já
queria se aposentar? Ita, hipocorístico de Itanicê, queria férias.
“Banca, banca!... Aí, Itanicê chegou do outro lado,
do lado de cá. E subiu a serra do Caparaó, subiu mais o morro do Cristal. Já
era de tarde e o céu estava escurecendo. Já conhecia a localidade de outros
filmes e documentários. Itanicê sentou no chão e ficou sem saber de nada. Porém
o tempo concordava comigo. Itanicê escorou a cabeça pesada no tronco da palmeira-barriguda.
Solicitou à fulana abelha-caga-fogo um punhado de mel. Depois comeu ainda uns
guabijus, araçás-do-campo, umas azedinhas madurinhas e amarelinhas derretendo
suculentas na boca... Olhou o céu e viu o grasnar de porção de urubus-reis. E
viu o caipora viajando se transladando pegando carona de chefe dos urubus-reis.
O mundo se movimentando na noite famigerada e cheia de entreveros e comborça
amásia mancebia concubinato. Nem só de solidariedade e felicidade e honestidade
vivia as partes do mundo que me cabem que me tocam e dizem respeito. Itanicê
matutou com o dedo indicador apontando apoiando a testa pensativa: “Nem deve
ser caipora que está espantando minha caça, será?! Nem deve ser caipora que
está mandando tatá fugir para sempre, será?! Eu apenas desconfio, pode ser!
Tate!, que o fogo tatá deve estar voando aí e Itanicê nem percebeu nem percebe.”
Pensei mesmo.
“Nuvem, nuvem!... Aí, amanheceu e Itanicê foi até lá
procurar atrás do sol. Chegou o meio-dia e Itanicê subiu na palmeira-pupunha no
rasto do sol. Pela tarde Itanicê já estava no morro de cá rente do sol
governador chefe-político oficial-maior tabelião notário notarial. De lá pra cá
o tempo todo voou em círculos rápidos. Isso já eram dias e dias, semana e
semanas, mês e meses... Itanicê falou forte com ele mesmo, roncando de bravo,
pensando alto, autoritário, plenipotenciário: “Itanicê foi até a montanha mais
alta de lá, e voltou, e subiu no mais alto coqueiro do meio-dia, e desceu, e
retornou para a montanha mais alta do lado de cá, e dormiu, e ainda Itanicê
corre pra frente e pra trás, faz e desfaz as trilhas do campo e da mata, ora
vai pelo caminho taiaçuapé, ora pelo caminho Tatuapé e já parece até uma teia
de aranha feita de rastos. Conclusão: Itanicê está sendo muito anta, isso sim!
Itanicê já está sendo muito otário, isso sim!” Foi o que eu disse pra mim e com
os olhos em mim mesmo e como se olhasse um espelho meu.
“Piquete, piquete!... Aí, Itanicê começou a pensar
que o sol nem era fixo ou cartaz de propaganda. E tatá acompanhava o sol como
um dependente. E sol era tatá, e tatá era sol. E o tempo mudava o sol e o tatá
de lugar, era isso! Itanicê resmungou com ele mesmo sim outra vez e quantas
fosse necessário: “Nem é tatá que foge, nem é sol que é tímido. O tempo das
coisas é que arrastam sol e tatá para outro lugar. Sempre onde Itanicê nem quer
nem pode. Sempre ao contrário de Itanicê. E Itanicê nunca consegue chegar na
hora de surpreender o sol. E Itanicê nem pode mesmo alcançar o sol marechal e
seu filho tatá. E que são os dois tipos mais importantes do mundo nesse momento.
Quem tem sol ou fogo e tatá está realizado, é isso! O sol nem precisa de
Itanicê.
“Pacoval, pacoval!... Aí, Itanicê esperou amanhecer,
e foi que amanheceu. E Itanicê pensou lentamente e em silêncio, pensamento
girando na ideia: “Se Itanicê nem pode alcançar o tatá do sol, então, Itanicê
precisa encontrar as pedras boas de fogo, só isso. Muito simples e ao alcance dos
pés das mãos e de todos.” Assim, Itanicê, tuque! tuque!... encontrou no caminho
de idas e vindas a tribo dos ararau. E Itanicê nem perdeu tempo, foi direto na
pergunta principal: “Procuro umas pedras boas de fogo, conhecem? Já muito
caminhei e andei e etc., vocês têm notícia do rastro do tatá?” Os índios se
entreolharam, se perguntaram, um empurrou o outro, riram timidamente, e o
cacique Bicuíba me respondeu no idioma deles e que eu mesmo traduzi diretamente
assim:
- Quina-do-rio-de-janeiro!... Já ouvi falar e o
perdemos de vista. E é lá pros lados do lugar dos tatuís. Conhece? Temos muito
peixe pra assar. E o lugar é bom lugar legal lugar ótimo lugar monótono trivial
lugar-comum. Você deve ter melhor sorte.
- Pedregal, pedregal!... Aí, Itanicê disse que nem
conhecia, mas ia caminhar tuque! tuque!... até encontrar e conhecer o lugar aprazível
dos tatuís, ou o rio dos tatus, a água dos tatus. E Itanicê seguiu o destino.
Tatá bem podia ser centopeia. Itanicê podia muito bem estar sendo enganado
pelos ararau. O sol devia estar passando por problemas sérios de finanças economias
econômicos de dinheiro de capital.
“Turma, turma!... Aí, Itanicê encontrou, bem mais
adiante, a tribo dos índios anajá. Esses índios nômades pararam quando viram o
cansado de longo cansaço o cansado Itanicê. E eu mais Itanicê parei quando vi reconheci
os cansados estropiados anajá. Itanicê solicitou um aparte um minuto de prosa e
disse: “Conhecem e já ouviram falar ou viram um lugar de pedras boas de fogo,
um pedregulho, uma itapeva? Quem sabe! Me avisaram que é lugar de catar fogo,
será?” Então, os índios anajá se entreolharam, as índias olharam o chão, as
crianças curumins se aproximaram para tocar Itanicê, e o cacique de nome
Guarabu (com um sauim-una no ombro como mascote) foi que soprou, botoques na
boca e tatuagens nos braços, foi que transmitiu e emendou.
- Pombas-de-santa-cruz!... Uma vez nós já tínhamos
visto as pedras boas de fogo. Faz uma porção de sóis e luas e datas. Nem sabemos
mais onde estão. Tenha paciência. Um dia de sol forte e o índio arauá Itanicê
chega lá. Os caminhos são muitos e distantes, mas a sorte é uma só! O sol é um
fenômeno útil e necessário. O sol pai dos fogos e tatás é de coração imenso. O
sol parece querer iluminar tudo e mais um pouco que pode e a um só tempo. As relações
com o mundo vão longe e continuam continuarão. Assim, todos precisam do fogo e
nós também, né?!
- Palmital, palmital!... Aí, Itanicê seguiu seu
caminho e seu destino e os anajá foram por outro caminho e também seguiram seu
caminho e seu rumo lá deles. Os anajá podiam já ter enganado o Itanicê muito
simplesmente muito depressa. Mas eu nem tinha nada a perder e confiei. Será que
os anajá tinham pedras de tatá pra oferecer? Assim, Itanicê nem sabia se
procurava primeiro o sol ou primeiro as pedras boas de fogo. Qualquer um estava
bom. E Itanicê sentiu fome e parou para comer qualquer coisa boa de comer tipo
araticuns-pitaiás maduros comestíveis saborosos e ao alcance da mão. Frutas
silvestres ao alcance de todos. Viu de longe os pouco mais de mil
periquitos-tuins fazendo gostosa e ruidosa refeição no milharal. O vento
soprava do sul. Itanicê ainda chegou meio apressado no ninho das abelhas
fulanas jataís-pretas e esmolou, pediu arrego, solicitou: “Posso tirar um
punhado do teu mel, abelha fulana iraí?” A abelha jati-preta de nome Mombuca se
dignou atender Itanicê e responder devidamente, zumbindo chiando zinindo zoando
e pousada, aterrissada.
- Zun-zun-zum!... Você é nosso convidado a se
abastecer do nosso armazém de mel, cacique Itanicê. E é uma honra, e é um privilégio,
e é magnífico. Trocamos 4 punhados de mel por uma boa rede de dormir. É pegar
ou largar. É uma troca ou permuta ou escambo justo, nem é? Temos esta oferta
bem acessível. Convém?
- Mucajal, mucajal!... Aí, Itanicê pegou e já
alcançou a rede de dormir. Eu mesmo fiquei sem rede de dormir mas era urgente
comer e se alimentar. Assim, Itanicê se serviu de 4 punhados de mel, um de cada
vez e aos pouquinhos, mel nutritivo e saboroso das abelhas fulanas jataís-mosquitos.
Itanicê se lambuzou de precioso mel. E sentou na sombra de um alto pé de
curiúva. Sombra boa e oportuna e aconchegante. Comeu as jabuticabas, comeu os
pinhões, comeu umas azedinhas amarelas agridoces de fazer muitas lágrimas
descerem sem querer pelos cantos dos olhos. Ficou calculando o vasto e redondo
panorama até o amplo belo horizonte. Reparou no céu e pensou: “O céu é tão
grande que fica assombroso.” E Itanicê reparou no chão junto aos seus pés. Viu
ali mesmo as formigas mija-fogo conversando falando trocando ideias, carregando
tudo, nunca parando para nada. O mundo era uma confusão de viventes. As abelhas
trabalham muito as formigas trabalham o dia todo as plantas nem param de
crescer as aves voam e aterrissam. E muitas espécies juntas e ao mesmo tempo por
tudo. E Itanicê se assustou com o mundo. De perto, o mundo é mesmo assustador
nefasto funesto fúnebre nocivo.
“Cancioneiro, cancioneiro!... Aí, Itanicê já estava
saciado e prosseguiu sua jornada interminável e embaraçada e cansativa. Na
sombra de uma jaracatiá, Itanicê encontrou os nômades índios juma. Itanicê teve
que perguntar teve de indagar, custasse o que custasse: “Uma ideia para Itanicê
encontrar pedras ótimas de fogo, hein?! Conhecem? Já que estou aqui, nem custa
nada encontrar o que procuro. Vocês têm fogo aí?” Então, a grande maioria dos
juma se levantou das raízes da jaracatiá e chegaram para me observar como a um forasteiro.
E eles se entreolharam, cochicharam, as crianças vieram perto para pegar nos
braços de Itanicê. O feiticeiro pajé Beberibe falou, carrancudo, rosto desenhado
com riscos ou motivos típicos tribais, me disse me confidenciou.
- Trinca-ferro-de-asa-verde!... Beberibe já caçou
fogo nas pedras boas de tatá. É verdade. Ficam no rumo daquele lado... Tem
muita congonha-brava, por lá. Tem bando de araraúnas, por lá. Tem rio
Jacarandá, por lá. Tem outra tribo acumé, por lá. Tem cemitério com jazigos de
feitios variados e os dizeres “descanse em paz” ou “descanso eterno”, por lá.
Tem plantação de acaporas, por lá. Vai lá que você acha, compadre Ita!
- Palmeiral, palmeiral!... Aí, Itanicê já saiu
correndo no rumo que pajé juma chamado Beberibe apontou. Itanicê nem queria
mais perder tempo de nada. E Itanicê correu, corria, tuque! tuque!... cheio de
alegria e o corpo e o espírito cheio de euforia. Itanicê parecia uma criança
curumim de tanta alegria correndo. Muitas araras-azul-claro moravam por lá.
Grupo de coaracimimbis habitavam por lá. Grupo de sauiás se entocavam por lá.
Muitos ingás-cabeludos cresciam por lá. E tudo isso existia ali e era verídico
veríssimo veraz verossímel. Itanicê estava perto de realizar o sonho.
“Manival, manival!... Aí, Itanicê correu toda vida e
muito mais. Foi correndo, tuque! tuque!... o mundo todo até chegar cansado e
exaurido num lugar com pedregulho, uma itacuruba. Parecia o país das pedras,
uma vez. Um mundo concreto e material de primeira. E era tudo pedra, um
pedregulho, uma nação de pedras, o planeta das pedras boas de fogo. E era o dia
certo a hora certa. E Itanicê bateu palmas pra si mesmo, aplausos, tam! tam!
tam!...
“Lodaçal, lodaçal!... Aí, Itanicê atirou pedra na
pedra e saiu lasca faísca de fogo. E Itanicê viu que as pedras eram pedras de
tatá chama fagulha faísca labareda de tatá. Pedra itá que dava fogo anicê. E Itanicê
viu o fogo pela primeira vez ao vivo e de perto. Itanicê se sentiu recompensado
de tanto esforço. O fogo veio da pedra boa de fogo pela primeira vez e Itanicê
viu fogo pela primeira vez. E Itanicê botou fogo no montinho de arbusto seco. Era
uma descoberta e tanto. Fazia sol de deus divino e as pedras ótimas de fogo
estavam já muito muito quentes e preparadas. Descobrir as pedras de tatá foi
uma aventura e tanto. O esforço valera a pena.
“Pitangal, pitangal!... Aí, Itanicê foi pensando
como fazer para nem correr perigo de incêndio. O fogo empolgou no capim seco e
Itanicê se queimou e pulou e viu que tatá era fogo estalando no capim-canudinho.
E Itanicê aplaudiu de alegria, pulou de alegria, bateu nas costas de Itanicê de
alegria, toque! toque!... Itanicê parecia curumim brincando com fogo e já muito
muito feliz. Eu mesmo me senti um herói.
“Jabuticabal, jabuticabal!... Aí, Itanicê carregou
muitas pedras no carcás e nas mãos até em casa na aldeia dos arauá. Pechinchando
pechinchando conseguiu comprar algumas amostras. Itanicê trocou suas flechas e
arco por pedras de tatá. E Itanicê carregou muitas pedras boas de fogo porque o
lugar das pedras boas de fogo morava longe da tribo arauá. Tinha que
aproveitar. Tinha de voltar com as mãos cheias. Tinha que merecer o respeito da
tribo da aldeia da comunidade dos arauá.
“Cajueiral, cajueiral!... Aí, Itanicê veio embora e
já em linha reta sabendo por onde passar e por que caminhava. E dito e feito e
com outras palavras, enquanto o sol fazia uma casa uma olaria uma ponte uma
praça. O guia autorizado, de quando em quando, o vento soprava um pouco e mais
outras coisas e conveniente conveniências. Tudo dito e confirmado. Tudo trocado
ou comprado à vista. Quase nem dormiu. Quase pouco viu as matas os capões
povoados de maracujás-mirins, quebra-pedras, cabeludas, sabugueiros. Quase nem
fez paradas. Quase que nem ouviu o canto harmônico das saíras-sapucaias,
marrecapebas, anus-da-serra, udus-de-coroa-azul. Praticamente passei eu a vau a
pé no raso o rio Almada. Itanicê passou correndo, tuque! tuque!... por fora
pela periferia sem paradas por Curitiba, cidade de Nossa Senhora da Luz dos
Pinhais. Quase me isolei do tempo, de tão ansioso de chegar em casa.
“Mandiocal, mandiocal!... Aí, Itanicê chegou e
mostrou à tribo arauá as pedras boas de fogo tatá. E tatá estava conquistado,
encontrado, adquirido, comprado, caçado e muito bem recolhido. Os arauás podiam
se sentir desenvolvidos. Os arauás podem se sentir protegidos dia e noite.
Itanicê trouxe fogo original diretamente da fonte e sem intermediários. E
Itanicê só tem a agradecer por tudo por tudo e obrigado!”
Assim foi quê, e o índio Itanicê, já de história
contada acabada terminada finalizada, podia ficar sentado apreciando a noite
estrelada e comendo seu beiju quentinho feito na hora na brasa no brasil
multidão de tatá. Nem só Itanicê como toda a sua grande tribo arauá. E foi
assim contada por Itanicê a história do tatá que Itanicê caçou capturou e
trouxe pra casa na aldeia. Uma das tantas aventuras do cacique arauá Itanicê.
No fim da narrativa do índio Itanicê, o céu
estrelado, bem estrelado, noite alta, Itanicê ficou olhando as fogueiras do céu
alto. E estrelas cadentes foragidas da galáxia. A lua iluminando ora com
cabelos velhos, ora com cabelos prateados, ora com cabelos antigos, ora com
cabelos brancos. Os pirilampos, cheios de sono e preguiça e lanternas verdes, esbarrando
nas touceiras de capins-dos-pampas nas trepadeiras angelicós nas
congonhas-do-sertão nos aipos-falsos nas betônicas-bravas nas pitaicas em as
mucunãs-do-mato em os tuiués-tipis.
E todos da aldeia arauá foram dormir na esteira ou
na rede de dormir. De tanto sono nem ouviram o guincho do ibijaú. E depois de
tanto ouvir histórias de tatá, sonharam com fogo e acordaram molhados.
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