domingo, 16 de dezembro de 2012

Borboletas de Açúcar

Nos meus caprichos, nos meus princípios nos meus caprichos o meu palácio é o mais bonito do mundo, possuo dinheiro para fazer o que quero e desejo muito mulheres de todos os povos, e há uma negra saída agorinha do avião com Angola preta como um azul de chuva entardecer e que tem uma língua desse tamanho e muito vibrátil e áspera e certeira e úmida, ah se tem!

Quando a boa-vistense embelezou maravilhou abrilhantou o meu quarto todo folhado a ouro e a prata e a sedas esvoaçantes e a rendas de bilros da Lagoa da Conceição, janelas abertas escancaradas para o pátio das goiabeiras-do-mato em flor, gorjeios de borboletinha, olhos nos olhos e isso é muito bom e se vive uma vez, despenteei os seus longos e seus morenos cabelos lisos que iam e vinham até a cintura de um corpo duro relevo tenro assado de sol, o jogo do pião rodava sete bilhões de loterias lá fora e em toda parte inclusive as nossas, segurei-a pelos ombros quase na minha altura, lambi os olhos o queixo o nariz, beijei os frutos de pequi e fiquei de bobeira admirando admirando babando etc a minha língua vibrando como linguinha de cobra e água na boca, no meio da descida tinha um rio e uma cascata com redemoinho, com a língua e os dentes fui fazendo favores carinhos alisamentos graças cócegas banzeiros no rio, ela caiu no chão e toda suada desgrenhada arrepiada inacreditável, começava uma tarde de beiju no forno junto do horizonte entre as árvores e o céu de andorinhas, não sobrou mais nada de nós durante mais de três horas de peleja e resmungos e rumores e variáveis, e o que é mais bonito é uma árvore como o exemplo da poaia-do-campo.

Não me preocupo com conquistas desgastantes avassaladoras que levam tempo paciência nem com angústias de coração aflito dúvidas de escolha correr atrás dessa ou daquela trama ou intriga mandar flores e-mails ficar nas expectativas etc fazer cobranças pensar para criar calo na testa, pois quando quero e desejo alguma a mais pro meu harém vou e compro adquiro e mando trazer não vou até ela é ela que vem ao meu palácio compro a guria a família o namorado o esposo mando trazer pro meu lugar e crio e engordo se for o caso e depois eu experimento durante um tempo vê se serve até onde serve contrato assinado respeitado por ambas as partes e muito bem pago conforme as leis do comércio da oferta e da procura. E é isso mesmo.

Minha alma é boa. Então, visito minha alma pacífica boníssima conformada cordata apaziguada.

Tenho loura que acorda sempre após o almoço, ali pelas 14 horas, que não gosta de sol, branquíssima, despojada, poucas peças de roupa sempre em tons de verde. Já te digo. Essa não sai pra fora do quarto sem que antes chegue a noite, a lua, as estrelas, os morcegos, os lobisomens, os vaga-lumes, os discos voadores, o saci, as estrelas cheias de cricris. E até faz poesia livre, quando quer. Tem um defeito que eu aprecio adoro venero, gosta de gastar o meu dinheiro. Sai para compras e volta carregada de sapatos que nunca irá usar, não vou atrás dela não mando segui-la, e ela sempre me agrada com um presentinho inusitado e por ela mesma e com criatividade.

A minha propriedade não é nenhum castelo europeu medieval com ponte móvel mosteiro no alto de um penhasco inacessível fortaleza colonial inexpugnável ilha no meio do oceano rodeada de arrecifes aldeia com caiçara e buracos encobertos porta-aviões atômico e ou coisas desse tipo. É um palácio protegido como tantas casas suntuosas desse país e de outros países. Só entra quem eu quero e saí quem está insatisfeito, que não sou de segurar ninguém ou cultivar dissabores ou pensar no que mal passou.

Vocês acreditam que posso fazer isso?

Essa outra japonesa já acostumou bárbara e não vai mudar daqui pra frente, perigosa, letal, assassina. Se esconde pelos cômodos, jardins e telhados, armando encrencas, espionando, botando fogo nos colchões, veneno na comida das concorrentes, camuflando alçapões, escondendo arapucas, disfarçando laços. Seu apelido ou cognome é Bandida. Aprendeu todas essas manhas solertes apanhando muito e sendo muito humilhada e bastante perseguida pela sua ex-companheira. Comigo não precisa de nada disso, mas já se acostumou e parece que gosta, aprendeu e acabou adotando. Anda sempre armada com uma pistola chinesa de repetição com silenciador cabo de osso de dinossauro do Piauí.

Ainda de uma certa vez...

A sul-mato-grossense me disse que nasceu em Santa Isabel depois foi com a família para Sete Quedas onde morou oito nove anos e daí ela sozinha e por necessidade de aventuras se foi para Tacuru e comprou um avião monomotor para pulverizar a lavoura de soja ficar mais ou menos bem de cobres até 2009 quando caiu com o avião e tudo e mais nada e foi morar em Feliz Natal de onde resolveu atender o meu chamado. Muito mais ensimesmada... E suas ofertas são de primeira grandeza e grandes, comparados, pujantes, abundantes. Fica olhando a paisagem que vê das minhas janelas e sacadas e terraços. Cruza os braços no seu jeito de ser e olha olha. Vai num pátio encosta num tronco de árvore e chupa o dedo positivo. Seu perfil me lembra aquela música antiga e clássica do famoso compositor paraibano Cândido Portinari "os sentimentos sublimados, engrandecidos/ os sintomas do amor quais são/ paixão admiração respeito". Sempre ela com um riso fácil e uma risada cristalina de cachoeira. Peguei-a esses dias querendo beijar a rio-branquense à força. Não fiz nada na hora nem depois ou mais tarde, fiquei olhando de longe de esguelha de como não querendo nada, segundos após me aproximei, fiquei curtindo a maravilha, me enterneci, me aproveitando da visão doce visão e até gostei. Essa sul-mato-grossense tem o seu prazo de permanência e eu busquei aprender com ela e aprendi. Lá isso é.

Certa vez semana passada comprei a peso de ouro uma negra de sorriso fácil brilhante como marfim e alta pra mais de com mais de dois metros e vinte. É ainda muito tímida e esquiva e indiferente, mesmo não a conquistei, prefere andar na companhia do quarteto de norueguesas.

Que é que tu faria nesse caso?

Aquela que se vê ali de longos cabelos lisos e negros, esta gosta de nadar nua na piscina. Se adonou de um dos meus filas que a acompanha como uma sombra. Ninguém chega perto, nem eu, se ela não quiser. Se preciso for vira peixe e nada como ninguém e só batendo os pés ficando cinco minutos debaixo da água. Tem olhos de peixe cor esmeralda escamas de peixe nadadeiras de peixe asas transparentes de isabelinha e cabelos de iara do rio das Garças.

As gêmeas, junto com a mãe delas, costumam passear nuas pelo meu palácio. E de noite quando vêm pra cama comigo exigem que eu apague a luz. Pelo cheiro é que tenho de me virar e revirar e acertar ou não com as três com cada qual e tal. Nasceram e se criaram em Balneário Gaivota.

São tantas que nem lhes dou nome. Procuro-as na hora que mais me importo me alerto me amo me careço. Perco a conta dos dias e das noites, dos meses, dos anos. Vou pelos quartos ou corredores ou salas à cata de uma figura que me arrasta me empolga na hora, e eu escolho recolho e pronto já vem junto a fantasia. Leio o mapa da pele com os olhos e os dedos e o olfato e depois me entrego à degustação. Umas são de mel, outras de açúcar, as seguintes de sumo de pitanga.

Subo na alma no alto do marfinzeiro para notar minha alma. E ela tão leve levezinha altamente leve com leveza pureza enleio poesia surrealista, e o dia, o cheiro das folhas, descubro formigas curupés, muito ouvindo minha alma ouço calmamente, e aconteceram coisas esse ano o mês passado ontem o ano que vem. Minha bela alma arejada, limpidez absoluta, alma branca como das gralhas-azuis e vice-versa. Me lembrei de alguma coisa.

Eu, particularmente, deixo encompridar o cabelo encurto armo o topete e às vezes raspo zero. Mas as minhas meninas não, todas elas sem exceção, eu as quero de muitos cabelos pelos penugens. Mulher tem que ter muito cabelo é lei e eu não abro mão. Não é tara depravação luxúria perdição. Mulher feminina tem que ter todo cabelo do mundo, é regra, é mais divertido, é mais fácil, e ponto. Até porque aqui no meu palácio quero faço o que quero e quem manda soy yo.

Tenho uma rondonense que estou tratando a pão de ló. Ela tem sangue de índia mápanai. Esta eu apresento mais mais tarde uma outra hora porque vale a pena um pouco de suspense e mistério e enigma.

Um axioma que carrego no bolso todo o sempre comigo e junto de mim e muito próximo aqui:

- O céu é duro!

Não sei porque o mundo o país gosta muito tanto das mulheres gaúchas. Elas viram misses com facilidade todo santo ano nesse país, etc. São belas, são; são altas, são; são tipo europeias, são; são louras, são; são fortes, são; são inacessíveis, são; são inteligentes, são; são sãs, são; são torcedoras da dupla grenal, são, mas nada disso importa é fundamental é exclusivo sem um roteiro uma escrita uma descrição um texto um argumento um enredo bom de se fazer lazer, tá entendendo?!

Hoje é segunda-feira e é o dia da semana que tiro para passear no meu lago particular que fica na parte sul da minha propriedade. Mandei plantar umas árvores e plantas do meu agrado, tamboril, limão-do-mato, cocão, paricá-preto, amarelão, taioba, sarandi-vermelho, curiúva, canjerana-do-brejo, tarumã que na beira da água deixa cair flores e frutinhas para os lambaris micholas pacus charutinhos bagres. Ultimamente eu sempre convido a paranaense para me acompanhar. Damos umas pedaladas na superfície do espelho de água e depois sempre resolvemos caminhar em torno. Ela é fácil e sempre dá um jeito de achar e botar uma flor de mirindiba-doce por exemplo atrás da orelha. E a gente vai de mãos dadas conversando sobre tudo se distraindo com o meio ambiente o dia inaugurando uma nova porta pintando as duas ou três janelas aderindo à recém-inaugurada trilha das flores do campo anônimas e rodeando o lago exercitando geralmente duas horas depois estamos de volta. Hoje mesmo ficamos contando os ninhos dos passarinhos na beira do caminho e tinha uma porção fazendo casa tratando já de preparar a vidinha lá deles de casal e de família muito engraçados os papa-formigas, as gralhas-picaças, os pica-paus-do-campo, os curixos, os miguins. O sol arrastando o dia, o lago perdido no tempo. Rimos tanto eu e a balsa-novense que tive de ampará-la nos meus braços. E nos beijamos e procuramos um ninho de papuãs bem fofo para fazer um pega meio cheio de micuins. As chanchãs vieram nos achar. O guarundi-azul nos espiar. Ficamos felizes de uma felicidade superlativa absoluta sintética.

Sobre o quê, sobre quem, sobre como. Não posso ficar na indecisão.

Às dezoito e vinte e dois, uma sexta-feira de março de dois mil e treze, falsa magra, entramos no quarto somente eu e a recifense. As cadeiras cheias de frevo. Os olhos cheios de pontes Beberibe Capiberibe Pina Tejipió Jiquiá. Embora nos atiramos na cama como viemos ao mundo. E comecei a torturá-la. Tão linda e tenra que me dava tonturas superexcitantes. Pernas bronzeadas e torneadas no exercício da dança das praias. Conversando sobre o melhor bolo de chocolate sobre um filme da moda sobre outras coisas, etc., eu acariciava os cabelos longos macios meio ondulados, depois os morrinhos gêmeos com penugem de sete-capotes, eu fui beijando mas muito muito sutilmente, lambidas na sola dos pés que ela ria se revirando toda, ela parecia uma escultura do tipo esculpida pelo grande escultor catarinense de estátuas em mármore Oscar Niemeyer, fui sugando cada dedinho do pé, cada dedinhos das mãos, escorregando a língua e soprando a espinha dorsal como soprando um rio abissal, lambendo a espinha com todos os ossinhos e espinhos e soprando, uns beliscões na bunda, uns beijinhos de muito leves nos joelhos, desenhando com o dedo na barriga as várias figuras geométricas, fazendo de morder os bicos pontudos cor de caju, estapeando a quentinha, chupando a orelha, penteando-a com os dedos, reparando muito devagar as penugens da coxa ou que desciam do umbigo, lambendo a ponta do nariz, me encostando, me aninhando no ombro, repousando minha cabeça nos bonitos, resmungando como um bichinho faminto, conversando sobre outro filme famoso da hora, sugando a jugular, olhando-a nos olhos, mostrando a língua vibrátil, lambendo todo o corpo escolhendo partes aleatoriamente, até finalmente cair de boca e ouvir um uivo de alucinada de alucinada em êxtase de alucinada no cio de fera alucinada de carnaval alucinado das ruas estreitas alucinantes de Olinda.

É alma noite na minha cama olho a minha alma. Com calma me enrodilho no lençol penso e estou com minha alma descendo um rio. E essa era a melhor solução. Sonho com minha alma cândida perfumada bela. Experimento degusto e bebo minha alma e reconheço e tem gosto de mel de abelha jataí muito colhido no mato tirado do oco do guajará-branco alto antigo excelente manhã de sol.

A imprensa olha meu palácio lá de fora e fica falando o que nunca viu nem vai conhecer por dentro. Mesmo assim eles dizem coisas a meu respeito sobre as meninas tirando conclusões absurdas apressadas e sem pé nem cabeça. Dizem que meu palácio é uma lenda, que é faraônico, que é fantástico, que é a oitava maravilha do mundo. Eu não concordo nem discordo, não ligo e ignoro. Deixo os tanhaçus falarem grunhirem relinchar papaguearem latirem. Não aceito provocação. Não dou ousadia. Se queixam que contrato dezenas de seguranças, mantenho cães ferozes, muros altos, arame farpado, cacos de vidro, barreira de copados cajueiros-bravos. Tentam todos os meios e recursos para me entrevistar para me invadir para me provocar mas eu não dou retorno. Inventam helicópteros, túneis, espionagens, armadilhas e todas as outras artimanhas. Eu não ligo me protejo e não dou sinal de nada.

Todo mundo teve ou terá ou tem uma namorada baiana. É da lei de Deus e fascina. Eu sou especialista. Tenho baiana dos quatro quadrantes. Tenho até baiana do Recôncavo Baiano ou Baía de Todos-os-Santos de peito pequeno tenro abocanhável. Tenho pra ver baiana que não gosta de axé ou carnaval. Tem baiana de todas as cores e que não gosta de miçangas nunca comeu acarajé não foi na igreja de Nosso Senhor do Bonfim.

Estávamos passeando pelo campo, sempre nos limites da minha propriedade, caminhando e conversando eu e a tocantinense, bombeando a paisagem gentil útil fascinante agradável, quando uma lebre saiu afoita de dentro das gencianas-roxas capitães-do-mato guaiacãs e cipós-de-imbé da beira do caminho e disparou na nossa frente. A tocantins riu muito do estilo do bicho, orelhas altas, saltitante, e riu mais do que já ria antes e vinha rindo, se alegrou e me alegrou ainda mais. E a inhuma grazinou, o joão-congo, o jaó, a pipira-preta, o matim-pescador-da-mata, a cambaxirra. O dia era dono de todas as cores e que bonito. Os gorjeios e pipios faziam pregação no meio dos verdes. Foi o tempo suficiente para a realização de todos esses prodígios.

Na sala de jogos uma vez mais. Eu estava com a russa e era nosso primeiro contato desde que chegara direta de Cumbica poucas horas antes. Ela entrou na sala e eu a abracei. Trocamos perfumes. Tentamos nos comunicar. Eu não entendia uma palavra de russo e ela não entendia português, nem existia outra língua intermediária. Aí, a solução era arriscar a mímica, o brilho do olhar, a sinceridade do sorriso, a suavidade do carinho, o tom de voz. Trocamos salivas. Fomos para o jogo de bilhar e eu resolvi esquentar as partidas. Fiz ver a ela que cada partida perdida se sacaria uma peça de roupa, por brincadeira. E era verão e estávamos muito à vontade, sós, música ambiente lembrando a floresta tropical com assobios de mutum-do-sudeste. Assim, em pouco tempo eu perdi todas as poucas roupas. Daí pra frente comecei a ganhar e ela começou a se livrar dos pequenos e poucos panos. Surpreendentemente começou a aparecer com as tatuagens e piercings. E terminou o jogo porque não havia mais roupas a tirar. E fomos para o banho de chuveiro. Fui medindo os palmos das suas costas, das suas pernas, dos seus cabelos amarelos. Ela tinha acidentes geográficos importantes internacionais. Nos beijamos profundamente e com ansiedade e durante uns minutos sem tomar fôlego. Nos arrastamos para o corredor. Ela tinha muitas tatuagens e eu fui lambendo todas uma por uma e com requintes de crueldade. A lua no tornozelo, o sol estilizado no fim da espinha dorsal, os olhos gregos contra mau-olhado na barriguinha, o nome de alguém em russo na coxa direita, o nome de Deus em cirílico na outra coxa, etc. Trocamos suores. Praticamente levei duas horas e meia percorrendo todos os pontos tatuados. E eu já aproveitei que estava de joelhos para erguê-la nos braços até os ombros, tipo assim como uma cangalha só que ao contrário e comecei a fuçá-la. Ela não tinha onde se agarrar escapar amparar e se prendeu com dedos e unhas nos meus cabelos com força com tensão com tesão com raiva até, às vezes rindo histérica, às vezes uivando como loba das estepes geladas, arrancando meus cabelos cacheados bem cachados. De supetão ela esguichou na minha cara e foi... imaginem, acabamos nos largando no chão e rindo sem parar e mais rindo e cada vez mais soluçando e rindo.

E, faça-me o favor, me lembrei de um axioma que dia desses li na internet e escrevi na parede do meu quarto número doze:

- Precisa roupa adequada para dormir!

Cada um de nós calcula e tenta e joga o jogo que puder jogar. Existem regras que podem ser respeitadas melhoradas ordenadas e devem ser acompanhadas. O seguinte pra frente é destino rio estrada.

Eu tenho um axioma que borbulha e no cérebro ferve de vez em quando, e que me serve, e que descarrego, falando com minha palma:

- Faça escolhas sensatas nesse verão.

Todas as minhas amantes que chegam ao palácio são mulheres que ficam anônimas. O máximo que sei que vêm de um lugar tipo Venezuela, Panamá, Criciúma, Vista Alegre do Prata, Santarém, Goiânia, Coruripe, Águas Lindas de Goiás, tribo caripuna-do-amapá, Abre Campo, Iuiú, aldeia dos guató, reserva dos aramuru, paisagem dos galibi-maruorno. Cada uma ao entrar nos meus domínios recebe um apelido tipo gaúcha potiguar baiana capixaba marajoara paraense maceioense são-luisense caripuna guaicuru javaé. O contrato varia muito, dois meses, três dias, um ano, vinte anos, um feriadão, oito horas, e tudo porque é conforme. A relação o dia a dia o confronto a intimidade vai ditando o compromisso o prazer o encanto a felicidade. A grande maioria é jovem ou até trinta e cinco. E tenho mulheres casadas e tenho solteiras convictas. São mães de família, biraias profissionais, universitárias estudiosas. Eu ofereço um bom dinheiro e risco zero. Todas chegam aqui mais cedo mais tarde. Não quero amor só quero desperdício de fluidos.

Lutei muito com o pensamento e abusei com esse axioma novato e nutritivo e temperamental:

- Quando se sabe o que se quer, assim mesmo, então se é feliz.

As mais ansiosas são as donas de casa com filhos pequenos. Ficam telefonando aflitas o dia todo e choram de saudades dos filhos. Se consolam com a gorda mesada que vão ter. Já as universitárias são mais bem resolvidas e dormem horas e horas depois do esfrega. Têm mesmo as que gostam de ler e leem grossos volumes tipo As Minas de Prata do famoso escritor alagoano José Mauro de Vasconcelos. Têm as que se vestem de monge xintô-zen-budista, fecham os olhos e não pensam em nada; e quando acordam parece que não querem sexo só pensam em ioga e arroz integral e água mineral sem gás e erva-cidreira-do-mato. Têm as outras que comem banana ou maçã ou butiá e bebem suco de abacaxi ou açaí ou cupuaçu o dia todo. Tenho uma que gosta muito de abraçar e deitar e dormir na sombra do tronco da uaimiuru do pátio sudoeste.

Estou de alma de volta visito visitando a alma minha bonita alma. Agora no escuro o planeta Marte é visível está a lua natural me deito na grama-paulista me levanto caminho pela trilha do jardim de verão me levito ao luar da plácida lua rua via láctea o Cruzeiro do Sul quase de cabeça pra baixo Marte Júpiter Saturno Vênus, e a alma com elegância capricho e idade de elefante coloco a mão no peito a alma macia confortável confortada limpa e que me agrada. Penso dessa maneira. É bom. A noite vai passando com cosmo e tudo. A alma bela o dia bonito a tarde a noite linda. A lua encanta um filhote de coruja-preta. Suavizo e aliso os rins. Procuro não fazer ruídos para assustar os grilos, ouvir mais que pensar. A alma é o presente atual hoje minha alma desse palácio que vos fala.

Pois eu gosto disso, e trabalho essa carne feminina vinte e quatro horas sem parar, adoro essa comida macia viva tenra perfumada apetitosa e tanto na horizontal como na vertical. Eu não tenho outro pensamento. Nem outro passatempo. Nem outro emprego. Nem outro desejo. Nem gosto de pintar cantar estudar modelar colecionar calcinhas.

Estou aqui muito bem e preciso do mundo lá de fora por causa dos rabos de saia das curvas das estradas de Santos. Não viajo pra nada. As mulheres que eu preciso eu mando buscar e elas vêm até mim. Meus cachorrinhos de estimação chegam para fazer festa nas minhas pernas lamber as minhas canelas. Tenho olheiras espalhadas pelos quatro campos do planeta e elas me escolhem as melhores beldades negociam não pechincham compram o passe e me mandam. Não, não precisa ser virgem. Se for o caso e precisa perder peso ou ganhar peso, tenho professora para condicioná-la. Não quero de menor pois não preciso me envolver com a justiça e a polícia aqui nunca entrou e não vai entrar. O que é mais bonito no mundo é um peixe pirarara, por exemplo.

Por quanto tempo estou lutando com esse axioma, por tanto tempo:

- Todo pensamento se volta para si mesmo.

Ontem fui conhecer uma dependência do meu palácio que ainda não sabia que existia. O meu tempo é caro e raro e presidencial, é isso. Mas estive lá, me falaram do lugar, me recomendaram, e achei e vi tudo muito bonito. É uma casa de vidro uma estufa gigante para preservar a vida das orquídeas e das bromélias e dos cogumelos orelhas-de-pau da mata atlântica. Tudo organizado bonito fechado bem tratado aclimatado. Minhas jardineiras cuidam de tudo e gostam do que fazem. Quem me acompanhou dessa vez foi a marroquina. Fomos de mãos dadas e ela muito saliente muito saltitante muito alegrinha muito cabelo trançado em longa trança negra ela. Foi um gritinho dela que despertou uma borboleta-rubi. Foi um oh! dela que me apresentou as abelhas borás. Passamos lá a tarde. Aí pelas dezoito horas voltamos e eu tive de carregá-la nas costas pois a fofinha estava mortinha de sono e cansaço e preguiça e manhas e ponta de trança arrastando na areia branca do chão.

Não exagero e só faço o que me manda o destino, que me manda.

Eu sei, eu sei. Mais dia, menos dia, outros vinte dias, dia a dia, o dia.

Ainda estou com o lábio inchado, dolorido, em brasa viva, aiaiai! Tamém aquela maluca da potiguara me mordeu ontem durante. Ela se empulgara e não mediu consequências. Não pediu desculpas. Mas pode deixar que a passei no capricho. E dei-lhe uma senhora tortura de língua para cima e para baixo. Então eu lhe dei umas mordiscadinhas na bunda. E ela em vez de pedir para parar ria e gritava para eu continuar. Cansei de lamber seu suor e me esborrachei no leito. Quando acordei ali pelas depois de duas horas, ela comia fatia de melancia acocorada sobre a cama o sumo escorrendo da boca as sementes cuspidas no lençol o sumo escorrendo no seu peito livre ronronando de gosto suspirando de sabor.

Ande com isso, minha alma! Estou contente, vê se me aparece. Eu sei disso. Pretendo.

Eu estava há horas negociando infiltrações com uma negra Haitiana, quando ouvimos uma zoada enorme muito alta muito espalhafatosa, corri fui ver na janela, era um bando pluvial e muito, pois era verão. A negra correu atrás veio ver pulando de alegrinha dando pulinhos com palminhas e gritinhos indo e voltando da sacada ao quarto.

Houve só uma época que me deu a primazia de só gostar de ruivas e sardentas, vê se pode! Fora uma época que me dá saudades, e que já passou. E era de manhã, de tarde, de noite principalmente, eu só queria as ruivas sardentas e de pelos trançados. Pra cima e pra baixo, pra dentro e pra fora, etc. Assim como veio essa mania, também se foi. Eu gostava muito das tranças dos cabelos ruivos e mexer com o ânimo delas puxando os cabelos.

Quando chega guria nova - nova que eu digo no sentido de pela primeira vez comigo no palácio -, eu faço questão de dar pessoalmente o primeiro banho. Quero ter ideia do troféu e se me empolgo começo ali mesmo e naquele momento. Preciso acariciar o monumento para criar o calo psicológico. E o palácio se movimenta inteiro interessado para aquela. Abro o guia turístico. Os pontos turísticos, as imagens com explicações, sons, vídeos. Cada coisa. As ilhas fluviais, cidades, matas ciliares, lagoas, ruas, praças, ilhas atlânticas, cascatas, florestas urbanas, avenidas com fila indiana de imburanas-vaqueiras.

Essa uma paulista de Fortuna de Minas tem os olhos de jabuticaba da chuva. E parecida bonita como uma cunhantã uarequena, doce meiga como chá de folhas de laranjeira bebido na colherinha, lembra aquela personagem das selvas fluminenses das histórias antigas de Raul Pompeia, lembra florzinha de indaiá-rasteiro, lembra frutinha de angelim-pintado, lembra o voo sutil da curiantã, lembra a florzinha da gameleira-branca, lembra a folha verde tenra do landi, lembra a voz meiga meiga de uma uaraperu anunciando a tardinha. Dei-lhe uma joia de quilates pois me surpreendeu com originalidades ousadias delícias comprometimentos quintessências. Ela toca as coisas com a ponta dos olhos. Come pouco e separando os alimentos, devagar e cada vez um alimento. Ela não toca com a ponta dos dedos.

Aqui comigo no meu reino claro elas todas têm a sua liberdade individualidade preservada as vantagens. Faço com essas amantes um contrato como um contrato de patrão e empregado. Agora, como todo lugar desses de fábricas empresas agências, quem manda soy yo.

Aquelas que fingem pedido de socorro ou carinho ou gemidos ou uivos, etc, eu descobrindo desconfiando dispenso e mando embora por justa causa. No mínimo quero empenho e atuação de excelente atriz. Menos que isso é muito pouco. Se meu cabelo não arrepiar...

Tenho um axioma pendendo da minha espádua direita, que quer aparecer, me permite:

- Sobre a mesa de marmelo-do-mato, um copo de água mineral sem gás meio vazio meio cheio.

Para o lado leste do prédio do palácio, sempre nos meus domínios, fica um pedacinho de campo e mato e tem até um riachinho que sabe cantar entre as pedras. Eu não cultivo gado de nenhuma espécie. Vou lá uma vez ou outra para olhar as árvores os pássaros sentir o vento o sol pensar as nuvens com chapéu de verão. As árvores e os pássaros são meus preferidos. Sempre passeio por lá e em boa companhia. As irmãs de Brasília gostam também do local e me seguem sem eu chamar. O céu de flor de biribá-verdadeiro o verão de frutas de araçá-do-mato as borboletas de mel comentando o sal da terra preta.

Olha, cada um cada um, eu sou desse jeito. Levo a minha sorte assim e sou feliz redondamente. A minha ideia dessa tarde é apreciar uma salada de pernambucas. Mas a tarde sempre leva a noite e a madrugada acorda a manhã.

Me falavam que a minha prima andava dando de cinto na mulher lá dela. Eu sou independente, não gosto de visitas e nem visito ninguém. Não trato com parentes aderentes contentes descontentes. Elas não vêm aqui e eu não saio pra nada e de jeito nenhum. Pois bem. A polícia já tinha sido acionada umas duas vezes contra a cara, se não me enganaram. E a famigerada da minha prima continuava batendo na despreparada. Então, mandei chamar a desditosa despreparada ao palácio. Dei um banho nela, codinome Caxambu, fomos dormir, ela não queria, eu esperei, conversamos, ela estava meio em choque, muito tímida, muito ressabiada, muito cheia de não-me-toques, muito cachorrinha com medo de água, a quentinha muito friorenta e fui ronronando, alisando, e contei todos os ossinhos das mãos e dos pés, revirei o mundo dos assuntos. Até que dormiu no meu colo. Na manhã ela sorriu pra mim e disse que queria tudo e estava carente curiosa e até faminta sedenta necessitada deste jeito desde muito e com raiva muita de fazer tudo agora e muito a quentinha preparada. Pois ficou por aqui ficou por aqui e vive aqui há um tempo virou minha cozinheira uma das melhores e cozinha como ninguém aqueles quitutes mineiros que ela conhece já da infância de mãe para filha. Como toda mineira de lei ela é boa e cozinha como panela velha.

A minha alma é alma melíflua. Antecipa os julgamentos os acontecimentos e se veste conforme, imperturbável. Minha alma tem o meu rio. É alma azul e branca, tem outras cores, prefere os tons de verde, branca e azul com listas horizontais e número às costas, como água cristalina, as tonalidades de azul da montanha da lua na minha alma. A alma esta está acorrentada aos pensamentos e vem descendo remando no meio do rio na correnteza sem assustar os colhereiros os tapicurus-de-cara-pelada, os jundiás os piratantãs.

Aprecio as brincadeiras meio infantis. A colombiana estava no corredor, nua em pelo, distraída com o celular dela, etc, quando eu cheguei por trás na surpresa e a agarrei. Apoiei o meu queixo no ombro dela e a segurei firme pelos bonitos. Ela tremeu assustada e tremeu excitada, ambas as coisas. Tremeu na base, como se diz. E que corpo dessa colombiana, minha santa santíssima! Um corpo rijo, sem uma polegada a mais de gordura, uma escultura, vinte e um anos de pura madeira de lei, tipo assim como uma pintura do famoso pintor rondonense Carlos Gomes, como uma índia natural de Joaquim Manuel de Macedo, como no romance O Garimpeiro.

A grossa e comprida e complexa e flexível e pontuda e bipartida língua da imprensa não me deixa de provocar, acicatar, cutucar. Eu vou andando e não dou trela não tou nem aí. Esses maníacos dizem escrevem que eu... (eu não os leio, as meninas me falam) que no meu palácio há porão enorme com quartos secretos portas falsas paredes móveis armários com fundos de portinholas para corredores ou túneis de fuga que existe um verdadeiro labirinto como o do Minotauro ali por baixo dos meus domínios. E eu só tenho que rir e pensar n outras coisas.

Há pouco tempo, uns meses somente, tive a companhia de uma turca dos seus dois metros e vinte. Não cabia na cama e a gente só fazia rolar no chão, atapetado com os melhores tapetes do país dela. Os seios da beldade eram maiores que meus cotovelos. Mostrava os dentes abria bem a boca completa e daí vinha de longe do fundo o riso depois a bela gargalhada.

Quase sempre me aparece uma foto ou um vídeo lá para o lado de fora e feito nos limites do meu palácio. Aí a imprensa cai em cima. Eu rio mais ainda. Querem fofocar sobre minha sorte? Tem gosto pra tudo. Nem quero saber direito e rio muito desses coitados. Estou com a esperança em dia, estou bem, estou no meu país, sigo as leis do mercado, o traço do mostruário da minha conduta com a polícia é diagonal e para quem não tem preconceito eu digo: estou na minha me divirto e não devo nada a ninguém. Rio com prazer. O que é mais bonito é um alado chincoã-pequeno.

A maioria das mulheres que contrato pouco ou nada se apaixonam por mim. Sabe aquela balela de amor? Pois eu não espero e não compro de ninguém. Se isso existe e alguém quer perder tempo com isso, cada um cada um. Eu sou do tipo que gosta de carne. Como carne de manhã até a madrugada do dia seguinte. E carne tem que ter o tempero da ocasião do diferente do novo do tenro do colorido do estrangeiro da química. E é só.

Eu sou rio, embora, o destino segue eterno. O tempo volta mesmo, assim como o rio o destino o verão o sonho o vento o tempo.

Agora dão licença pois tenho uma novidade pra mim para mim. Vem aí uma cunhantã aracadaini de um metro e oitenta e dentes ótimos. A primeira coisa são os dentes. A terceira coisa são os olhos. Eu mandei contratá-la semana passada e estou ansiosa, olha só como meus seios arfam, olha só como já escorre pelas pernas, olha só como meus olhos brilham, olha só como meus cabelos esvoaçam, olha só como meus dentes brilham, olha só como minha boca se enche de água, e não preciso dizer mais nada, precisa, fui!

sábado, 1 de dezembro de 2012

Meri Elen na Paisagem


       

       Eu sou o rio passo por aqui toda hora todo ano e corro as estações, embora, até o oceano pororoca contra o mar. E eu e você e nós e é ver Meri Elen na paisagem. 

       Meri, Meri Elen estava de arigó na fábrica de amendoim Abaruna, distrito de Botocudos, cidade de Vargem Alegre, Paraná. Nove horas diariamente completadas como uma mariposa voejando em torno de uma máquina ensacadora amparando limpando agilizando vigiando lubrificando aprontando trocando. Ela ficava ali como chegara como estava como todo dia e mais nada apenas nadando no molho sem fim nem começo do seu passivo interior enigmático, infiltrada de sonolência.

       O sorriso analógico.

       Como sempre, Meri ousava com seus olhos verdes e cabelos negros presos em rabo de cavalo cor bronze da pele pernas longas com às vezes um diadema para segurar a franja irrequieta. O corpo desempenado planejado as mãos nos bolsos as mãos nos quadris os braços cruzados os seios voando na frente olímpicos. Naturalmente com as unhas entupidas de poeira de semente e de gordura e de óleo. Se vestia como homem maquiagem pesada olhos riscados com sombras fortes e escuras dando nítida impressão de guria carismática olhar 3x4 e da mulher fatal. Com calos nas mãos nos pés sapatão o tempo todo em pé e cansada e faminta.

       O sorriso infraestrutura.

       Eu sou o rio e sempre e honesto já disse. Corro por todos, por mim, por você, por nós, por Meri Elen. Eu não tenho memória e tenho todas as outras coisas. Antes durante e depois é comigo. Você caminha por si mesmo. Porque ambos estamos no mesmo lugar e andamos.

       Mas impossível, olhando bem e tirando o encardido da pele, as horas de cansaço, a pele picada de borrachudos e de moscas e de carunchos e de formigas, se via que Meri poderia ser bonita e muito linda e uma beldade.

       De uma página do diário oficial de M. E.:

       "Sou quase sempre assim. Chego em casa e aumento o som. É pouco. Sou movida a rock pauleira, pedreira, pedradas, pedras do neolítico, chuva de granizo. Solto os cabelos e ando pela casa fazendo as coisas ordinárias. Não tenho guitarra vou de rock mesmo, pego a vassoura e power power. Na frente do espelho da sala eu executo e sacudo a cabeleira pro meu público virtual delirar. É rouco. Comprei esta pulseira e me agradeço, obrigada. Nem rock nacional nem rock latino nem rock português, o meu rock é power, é muito pesado, é muito metais, é muito suicídio. É louco."

       Os homens olhavam para ela e não acreditavam e não desligavam e não queriam mais viver e se desesperavam em pânico, batiam na cabeça com a mão fechada viravam a cabeça como fazem as corujas-buraqueiras batiam com a cabeça na parede mais próxima surtavam de ciúmes; de tão linda e distante e perigosa e deslumbrante: ela parecida.

       A minha sorte de viver como rio. Passo por dentro daquela hidroelétrica e faço acender algumas cidades aí. O meu leito é de areia e pedrinhas redondas. Passo agora e é bom demais. Eu me rolo porque o mundo é quadrado. Conto as cidades nos dedos e você é uma delas. Anoto os lugares do país e você é um deles. O vento batendo na copa das árvores com os ventos, etc.     

       Meri não terminou o ensino médio. Gostava de História e Geografia e meninos de cabelo curto e olhos azuis ou verdes. Mas ouvia bandas o dia todo no celular. Sempre aqueles rocks nervosos impulsivos furiosos famigerados. Então, ela ficava também possuída e abria a camisa e se agarrava e pulava da cadeira do sofá do degrau da escada. E tinha o diário que escrevia de vez em quando à noite ou nos fins de semana, quando apertava as saudades de quê, saudades de uma sorte que continha que perigava que transitava que permeabilizava:

       "Amanhã é natal e logo depois o ano novo, vem o verão e o carnaval. As manas me enlouquecem com seus gritinhos parecendo uivos de cachorrinhos abandonados. Casa de pobre quarto de pobre beliches de pobre e minhas irmãzinhas não ligam para os pufes... que largam no ar. Por que não nasci uma jabuticaba, por que não uma jabuticabeira? Por favor, meu, eu queria ser menino com nome de índio de pássaro Tapiranga!"

       Quando eu vou eu vou sem acidentes e sem incidentes e sem novidades porque eu sou o rio. Eu mesmo me cuido e me navego e me levo. Tenho os verbos do tempo na palma da mão. Viajo de canoa viagem divertida corro entre matos descanso num remanso olho uma restinga canto na chuva gargarejo na sombra entre pedras basálticas. Já conhece o Itaimbezinho? As capivaras correm para mim e me abraçar. Ariranhas mergulham riem e se penduram nos barrancos. Homens e mulheres se refrescam passeando de pés descalços e espantando garças-de-cabeça-preta. Eu sou um rio e meu rio é longo e inverso. Os curumins e cunhãs da tribo macu-camã brincam de mania de pular do trampolim dos galhos da cabiúna-do-campo. Os macacos bugios comem frutas dos galhos das árvores e deixam cair para a festa dos maparás. Um chirriar de irerês. Bando de papagaios-de-peito-roxo almoçam a minha direita e dormem a minha esquerda. 

       Um dia o gerente da fábrica chegou exatamente quando do intervalo para o almoço. Um seu Pita Jaguané de óculos muito escuros, sem bigode, barriga proeminente, roupa limpa, gravata de grife e limpíssima camisa polo azul com o bolsinho de outra cor cheia do celular. De repente este só queria ver os olhos dela, da impressionante Meri, olhos de felina, olhos de mistério num poço. E Elen tão linda tão linda que dava um nervoso de rir e de não sair de perto e de vício e de hipnotizar e de viajar e de imaginar tudo de bom.

       O sorriso gázeo.

       Meri comia chupava uma bergamota diante da televisão na sala de recreio. Tinha dentes ótimos. Toda suada, roupas do uniforme manchadas de graxa, a touca para segurar o cabelo, comia com a mão trêmula pelo esforço do serviço. Ela sozinha pensava uma palavra: Positivo.

       (Nuvens pianíssimas tocavam flautas ou eram oboés,

       Aeronaves redondas zumbiam luziam mirabolantes de Marte,

       Oito casais na sombra da canjerana discutiam o tintim! do caroço da camuá,

       Uma japira beijando a boca no espelho retrovisor.) 

       Sou um rio acostumado ao meu destino ao meu gosto ao meu comando ao meu instinto ao meu sorriso. As arraias-de-fogo farejam o fundo do meu aquário. Acompanho um matagal onde umas araucárias predominantes se agigantam se elevam como taças, assim, extraterrestres e imperiais e impessoais. Revoluteio por entre o resfolegar da sempre-lustrosa, o mexerico da gameleira, o sobe e desce da taiuiá-de-cipó. Conforme ouço o chiliar do chupa-mel, ali assobio da lavadeira-de-cabeça-branca, chirriar do japu-verde, arrulhar da pomba-galega, andar da anhuma, tatalar verde do coqueiro-guariroba, gargalhada do anambé-branco-de-bochecha-parda. Sou como o irmão rio Bagagem, assim-assim mais ou menos gueguê-guê.

       Lá vem a lua, lá vem! Noite de lua trepando. O satélite contornando o quarto da terra. Entre antes e depois as estrelas comem pipocas ou amendoins ou bombons recheados de cupuaçu. Já ficava tarde e saíram dormir no meu veio de rio.

       E o gerente com a garganta seca, o espírito em polvorosa, a carne em frêmitos de febre, esperou a guria de dezessete anos completar dezoito e levá-la até em casa. Ele tinha os dias contados como todo mundo, e Meri tinha os dias contados também. O jeito dela sorrir, então, o sorriso mais bonito da fábrica, o formato do rosto, os olhos, principalmente, a harmonia parecida.

       O sorriso parabólico. 

       Meri Elen foi no carro conversível, um vermelho ou bordô com tudo elétrico, os longos cabelos jogados fora para o alto para trás esvoaçantes e sensacionais e engraçados, e se sentiu mole. Um dia como sempre foram bonitos os cabelos de Meri! Meri morava tinha a sorte com a mãe e três irmãs menores, total estrela de cinco pontas.

       O sorriso perolado.

       Pita ligou o rádio nas últimas músicas de sempre a estrada a paisagem o vento as malícias virentes cento e vinte por hora mais ou menos. Ele olhava para ela Meri intermitentemente e sorria e falava muito em outras coisas. Pita prometeu ajudar a família e remediar o mundo todo e cumpriu a promessa.

       É isso. Meri carecia de aventuras, de invenções, de escolhas, de oportunidades, de opções. Meri Elen sorriso de Meri Elen. Meri era ela mesma e tinha a sua própria sorte com esse mundo. Meri tinha uma sorte e queria rever essa sorte numa ou noutra reencarnação, se possível, se necessário.

       Sei mesmo alguns lugares de cor, por passagem, já faz tempo, por desaguar naquelas paragens, Uruaçu, Jataí, Pouso Alto, Santa Rita, Serra Dourada, Santa Leopoldina, Gameleira de Goiás, eu sou rio enquanto líquido ambulante, em Morro Grande na época dos tropeiros parou uma mula e não conseguiu mais andar travou das quatro rodas foram ver e ela empacara por carregar um santo Antônio e todos se ajoelharam e fizeram uma capela para o protetor que mais tarde virou santo padroeiro do lugar da comarca.

       Elen aceitou o gerente como amante porque sua mãe lhe fez ver e aconselhou e recomendou e apoiou e orientou. E de fato ao longo do tempo Meri não se arrependeria muito. Calculando todas as coisas em prós e contras. A mãe deu seu último pitaco e depois calou, falando mais precisamente em confidência de mulher para mulher e pelo menos uma vez na história:

       - Olá! Meri Elen, ele vai querer cabelo barba e bigode e você pensa bem porque no fundo o lugar é todo somente teu. O homem todos eles é um bicho formigão não pode ver buraco que depois pra ti não tem volta, compreende?

       A primeira vez de Pita com Meri saiu todo arranhado. A primeira vez de Meri Elen com Pita oitenta e oito quilos e lábios secos e vontade de tomar chá de gravatá-das-rãs.

       O sorriso abruptamente.

       Sendo eu rio em Estado do Pará, regressei hoje mesmo de lá para cá em viagem de 2 a 8 dias. Ali do meu canal vi o mato encorpado e compacto e elevado. Deixei uma ilha de Tinharé e um lago Dumbá, para trás. Estou à vontade e escolhi o meu ritmo. O tal de tropeiro-da-serra canta porque procura uma família. Canguçu ronca para marcar território.

       Pita num dia de sol na piscina do hotel em Olinda, Sergipe, dizendo com boca de suco de abacaxi e a sorte barganhada:

       - Meri! Você é um anjo que desce e sobe e desce do céu, da terra, nasce das águas, etc.

       - Se você me gosta tanto, então, me tatue!

       O sorriso preciso.

       A família gostou muito dos negócios que iam remediando. Estridulavam birros no alto do jatobá junto à cerca. Chegaram cestas de alimentos, luz elétrica, geladeira ecologicamente, roupas de cama mesa e banho, tevês de plasma, computadores portáteis. Estrilavam avoantes na sarobá depois além da cerca. Muito passarinho quicando pendente de hastes de capim-da-colônia, capim-marmelada, cunabi, campainha-branca, anchieta, batatinha-do-campo de cá e de lá da tal cerca de arame farpado. Todo mundo da casa passou a comer iogurte beber refrigerante tomar banho quente diariamente mandar recado pelo feicebuque. Meri mudou mudou a família mudaram e viraram gente de outro estatuto. 

       O sorriso ecumênico.

       A missão de Meri era ser linda. Positivo. Demais a mais frequentar uma faculdade para ter o que fazer e o que pensar e onde ir. De carro, claro. Pintar o cabelo embora não precisasse. Por causa da vaidade. Disputar o concurso de miss cidade. Um exemplo.

       Era manhã emergente e eu descia em cachoeira cascata catarata degrau. Meio de longe avisto a serra do Lambari me acompanhando um bom pedaço, mato de landis arubatãs sarãs jaguaranas louros-tamancões, o irmão rio Corrente pela ala esquerda. 

       Do distrito de Botocudos ela foi montar apartamento na cidade mais ou menos grande da região e sozinha Muquém de São Francisco com 300 e tantos mil habitantes para perto de 400. Por ali morava muita gente e agora ela também. Edifício Araé oitavo andar pela avenida Araripe Júnior um vaso de jasmim-do-mato no corredor para o elevador e vice-versa.

       Uma vez Meri Elen escreveu no diário de bordo o que aconteceu num passeio com Pita, se falaram a dois dedos um do beiço do outro, trocando hálitos de doce de pequi:

       " - Tá vendo aquela bandeira ali atrás daquele prédio antigo e alto e neoclássico?

          - Tá, tô!

          - É a nossa bandeira nacional brasileira meu povo, positivo?

          - Por quê? É dia de sete de setembro?

       Me lembro porque era um dia como hoje de sol quente forte e agora rebrilhando na vidraça da sala fazendo um calor as cores todas do arco-íris... depois eu explico melhor."   

       O sorriso incidental.

       A lua terminou encontrando um enxame de nuvens, as nuvens entupiram estrelas, apagaram as luzes a tevê no quarto de dormir, o sol desceu pela parede, o mar escapava e retornava no oceano, o Pita (ele, sim) despertou perto da Meri (ela, não) dos cabelos acajus e baratinados.    

       Elen acabou se interessando e querendo mais ir ao cabeleireiro e passar toda a tarde lá. Tudo bem. E curtindo seus vestidos novos, acessórios, sapatos, meias com figurinhas e amigas para telefonar. Uma vez por  mês acompanhava o namorado em passeios pela capital do Estado uma vez por ano na capital do país e quem sabe quem sabe no fim do ano uma justa escapada na capital do mundo. O que custa o melhor hotel da Avenida Paulista em São Paulo São Paulo.

       E Meri foi perdendo aquela mania de pobre por favor desculpa obrigada as suas ordens bom dia sorria você está sendo filmado como vai se Deus quiser e ele há de querer.

       O sorriso experimental.

       Esses dias eu voltava do mar, e meio aéreo, vaporoso, nublado, subindo baixo a encosta abrupta da serra do Mar, entrando mais no continente já na serra do Pilão, quase em nuvens carregadas de chuva, me precipitando ali por volta da região de Apiaí e enchendo o rio Manuel Alves, rio Tubarão, rio das Mortes, rio Piraí, outros, de cima a baixo, etc., é que eu venho embora e porque sempre retorno vou em rios e volto em nuvens.

       Foi que recomeçou os estudos ou mais ou menos. Não deixava de telefonar para casa mas raramente ia lá. Os fins de semana ainda eram do ex-gerente agora namorado ou amante, as baladas e os jantares e as viagens e os vídeos pornôs.

       M. tinha o sorriso perolado. O quê? Como umas pérolas. Ah, é?! O sorriso Meri. Igual de umas opalas. Como assim? Da cor dessa pedra, a opala. Pura sorte Meri Elen. Um sorriso aperolado.

       Tomo uma medida de sol aqui mesmo nessa itapeba enfeitada de musgos liquens artrópodes. É bom. Árvores faladeiras mexeriqueiras resmungonas, cabelos ao vento, uma cor e uns tons apegados à sorte de verde, mapixi carajuru gameleira-de-purga fruta-de-lobo lixeira flor-de-maio suma ginjeira-da-terra uvá capim-gengibre.

       Meri ainda não lambia a axila do namorado. Talvez daqui um mês, um ano, talvez nunca embora. Os seios sublevados. Os seios do tamanho da mão, embora, maiores que a boca do freguês.

       Ela parou diante do espelho grande do quarto e desnuda e fez um solo de guitarra o som tremendo a casa toda o prédio todo, etc. Tocava a guitarra com tesão, como se fosse tocar uma com os dedos mais dedos... se fosse homem pegaria na mão do cabo... embora, fez um esforço danado, se atirou no chão, rolou, quicou pelo chão, rolou mais e gozou. 

       O sorriso fisiológico.

       De onde se avista o mar, posso dizer, eu passo passando pela serra de Paranapiacaba, etc. Eu sou feito de água pura, você sabe eu sei todos nós sabemos. Sapipocas pirararas arurás tubaranas nasceram crescem sorteiam e povoam o meu país. Bonito apelido esse de Paranapiacaba, hein?!

       Ela queria experimentar pular de paraquedas, pular de parapente, pular de asa-delta, mergulhar fundo em Abrolhos e na enseada lá da ilha Fernando de Noronha. Precisava como ninguém de autoafirmação confiança coragem poder de iniciativa se sentir solta independente desimpedida liberada desinterditada desobrigada viajar sozinha e dar um passo a frente.

       O sorriso locupletado.

       O diário abre as aspas e os anzóis e Meri fala pelo que escreveu se confidenciando:

       "Saí do banho e não me sequei pois fiquei debaixo do chuveiro duas horas. Já fui me deitar na varanda debaixo de um sol quente do tamanho de uma lua aquarela. Para falar a verdade eu queria ter sardas pelo corpo pela pele e cabelos vermelhos e pelos vermelhos e cabelos trançados. Eu até queria ser um menino pra mim mesmo com o nome indígena de pássaro ou ave Acanati-de-Bico-Verde. Agora lembrei, agora. Vou tatuar na perna direita essa uma rara e lendária ave pessoa superior mais imortal de quinhentos anos vermelha carrega um elefante põe ovo no alto da palmeira do Egito assim como o sol no seu ir e vir."

       (O tempo sempre tem escamas de itapema,

        A ponte sobre o rio de itamaracás suspensas,

        Alma que os dedos no vento das nuvens,

        Já os translúcidos azuis em raios de sol.)

       Na altura de Miracatu há muito jacaré-de-papo-amarelo, ainda bem, nas proximidades de Bujaru a reserva dos índios xambioá, ainda bem, na ilha Caviana profusão de maguaris mucuras ariranhas agriões-do-pará taguás, do parque dos Aparados da Serra o rio Urussanga e o rio Mãe Luzia desde ali me acompanham, em boa hora.

       Um céu maior e sem igual de azul plácido domingo. Por que o céu por que o azul ninguém sabe ninguém viu. Apesar do dia passageiro, o resto estava como Deus sempre quer. Tudo presença de Deus e perguntas.

       Meri E. a voz um pouco rouca, rouca de um certo modo gostoso natural dela e ótimo de se ouvir, os olhos, ou melhor, as pálpebras um tanto cerradas ou baixas ou semicerradas naturalmente que dão um charme um fascínio e um estilo de quem tem alergia ao sol ou muita claridade nos olhos, bandida, por exemplo, etc.

       A estonteante Meri fundou várias lojinhas em shoppings da cidade. Uma loja de bijuterias caras. Uma loja de comidas para cães e gatos e pássaros exóticos e peixinhos ornamentais da Amazônia legal com autorização do Ibama. Uma loja de roupas íntimas de rendas de bilros importadas do Rio Grande do Norte. Uma loja de roupas de verão com chimarrão sempre quente na térmica e biscoitos de polvilho na bandeja.

       O sorriso comercial.

       Meri sempre gostaria de se chamar um pássaro ou árvore na língua da tribo manitsauá, por exemplo. Ela foi ali e pegou a uva pegou o araticum-cortiça pegou a banana escolheu a maçã e mordeu com casca e tudo. Andou pelo quarto pela sala até perto da janela, só de bermuda, de tope. Se chamar pássaro Uracaçu e ter um pedacinho a mais de chocolate. Todos os dias pareciam domingo. Um dia ela vai e acorda com vontade de ler um livro e lê duas páginas e vai e liga a tevê e troca de canal centenas de vezes e vai e entra no feicebuque e vai e se debruça na janela da rua para ver o trânsito fluir.

       "Hoje é meu dia. Estou comendo essa maçã e escrevendo isso nesse diário. O resto estão todos bem. Você acha que é, você acha que sou? Há pouco vi um cara de olhos azuis muito perfeitos. Escrevo com as duas mãos enquanto seguro a maçã nos dentes. Ele me olhou de passagem não falou nada mas como se dissesse que queria muito me... morder. De repente senti essa vontade enorme inadiável de andar de bicicleta, mas eu preciso comprar uma bicicleta. Embora o Pita tenha olhos de outra cor, e daí, nada a ver."

       Um sorriso de um branco mais que precioso, transfigurado, brilho assim prateado, quando Meri ri tudo num raio de duzentos e setenta metros quadrados se ilumina, gota de água puríssima, aperolado, opala de cor preciosa e preferível.

       Choveu parte da noite e eu me enchi mais um pouco nas cabeceiras nos mananciais. No dia seguinte vi o sol às cinco e vinte e dois e a lua às seis e doze. Percorri um dia claro e tais e quais. Rolo dentro de uma caixa de areia e pedras, etc. O que eu destino o que eu oriento o que eu digo o que eu levo é muito por experiência própria. Chego e me distraio com a baía de Iguape. Essas paragens são ótimas e todas povoadas de socós, tuiuiús, garças-brancas, saracuras, colheireiros, biguás. A barra verde do rio Vermelho. Hoje, hoje mesmo, eu contemplei as aves aquáticas nos seus voos pesados o alvoroço que fazem na manhã e no fim da tarde e no almoço, no almoço, e me perguntei:

       Meri querida abriu uma loja de aviamentos lãs linhas novelos agulhas, Meri Elen Aviamentos. Não vingou pois o ponto era distante do centro. Alugou uma peça no centro da cidade e abriu uma loja de roupas masculinas calças bermudas camisas de botão gravatas meias cuecas sapatos cintos. Não durou muito pois a concorrência já estava instalada a bem mais tempo. Inaugurou uma loja de produtos de colégio cadernos lápis canetas borrachas lapiseiras pastas colas mochilas enfeites de aniversário o nome em inglês To Look e durou só um verão. É que o preço bom já vinha demarcado endereçado desde da 25 de Março.

       "Mas eu prefiro lamber ou ser lambida? Eu sei que ainda vou pensar sobre isso. Nada mais a declarar por hoje, tchau! Me falta alguma coisa então acho que vou tomar um comprimido para dormir. Estou sozinha e sem saco para a internet. Amanhã eu vou acordar às dez e depois não sei ainda se vou à praça de alimentação. Eu só queria me desligar de tudo só até amanhã ali pelas dez e meia. Antes que me esqueça, eu estou com vontade de levar uns tapas na bunda. De leve leve. A cidade lá embaixo noturna parece um fundo de mar e afogada. O mais importante que não sei de quem, se do Pita ou de alguém que estou pensando, de quem."

       Unhas pintadas em arabescos em mandalas, um dedo de outra cor ou outro desenho, com pedrinhas que faíscam conforme a luz e se perdem conforme o uso, unhas um pouco longas e tamanho feminino. Sair sem um motivo sem um lugar definido para bater o carro na saída do posto de gasolina.

       Com a loja de bichos de estimação, ela adotou um cachorro de nome Quenquém. Depois de dois meses um gato com apelido de Saputá. Mais tarde um pássaro da fauna internacional que chamou de Charão. Até chegar num peixe decorativo que ficou nomeado de Boró.

       O sorriso papagaio.

       O Quenquém era legal e divertido pois quase não parava de pôr a língua e sacudir a cauda. O Saputá fazia companhia para assistir televisão e trocava de canais e aumentava o volume na conta própria. Charão cantava imitando os pios que vinham de fora ou o gorjeio que vinha do rádio. O Boró nadava e mandava beijinhos e chupos e estalidos de beijinhos e de chupos de debaixo da água submerso mergulhado.

       Boró acordava cedo e despertava com a luz e vinha na superfície sempre que via Meri Elen por perto. O Charão cantava e arremedava sempre que queria comer ou brincar ou sair da gaiola. Pois Saputá acordava para comer e assistir o programa preferido. Quenquém acompanhava a dona pela casa seguia ela até no banheiro uivando o rock de garagem pela calçada até a padaria sentado no carona andando junto ao meio-fio cheirando as plantas da rua não perdendo a dona de vista sociável com outros da sua espécie.

       "Eu sou toda sensações, mas o que é isso de sensações? Depois da chuva eu e Quenquém demos a volta na praça dos Acroá. Enquanto Quenquém, eu fiquei lendo abri o livro na página oitenta e dois fiquei tentando me concentrar na leitura poucos diálogos da Alice Para Sempre. Os japiins-do-mato tricotavam no alto da bracatinga. As plantas gotejavam pingos moles. Paramos na padaria para comprar pão de queijo e melancia plastificada."

       O sorriso melífluo.

       O peixinho Boró tinha todo o aquário para si dois palmos quadrados e água todo dia renovada com enfeites no fundo pedrinhas arca caravela e umas algas que faziam as vezes de moitas. O gato Saputá tinha a caixa de areia no canto da área. O pássaro Charão a bandeja da gaiola ou o parapeito da janela ou a prateleira com enfeites esquisitos lembranças da Bahia de Vitória de Pelotas do Internacional. O cão Quenquém saía acompanhado toda manhã ali pelas onze e meia para a rua perto de uma árvore no jardim do meio da avenida na praça debaixo do guarda-chuva sobre a manchete do correio diário, conforme.

       Quando eu olho para mim mesmo eu me reconheço eu reconheço o céu o sol a cidade a montanha e todo mundo. Eu gosto de barcos de praias de peixes de aves aquáticas. Não sei se eu mereço, mas tenho o tamanho de tudo. Agora mesmo eu faço a curva e almoço na aba sul da montanha Dedo de Deus.

       O pássaro tinha olhos de Boró, o Quenquém tinha olhos de gato, o peixe tinha olhos de Charão, o Saputá tinha olhos de cachorro. Meri Elen tinha olhos e sorriso e focinho de dona de cachorro gato pássaro peixinho.

       O sorriso de Meri parava o tempo parava o ar parava o trânsito parava o país. Como um raio como os raios de luzes naturais sobre a prata ou sobre as preciosas pedras opalas. O sorriso de Meri jogava os longos cabelos para trás e ria. Tique-taques para sustentar as pontas dos cabelos e não pendularem diariamente diante dos olhos. Os homens reparavam distendiam convencionavam nela o que as outras não tinham nas outras faltavam. Quando ouvia barulho o seu sorriso era rocha rock pedras cantando.

       Um dia o aquário ficou tranquilo como água de tanque. Um certo dia o pássaro deixou saudade numa pena verde metálico abandonada no chão da sala de estar. O gato não compareceu ao pires de leite morno na pia da cozinha. O Quenquém saiu com a Meri pela coleira em horário de sempre e foram passear ao longo da rua arborizada Valentim Magalhães ida pela esquerda volta pela direita.

       "Fui no feice e mandei ver os recados aos quatro cantos e para tais e quais. Mas eu gostaria de viver em Manaus, pelo menos uma temporada da minha sorte. Mas eu gostaria de morar para sempre em Brasília, pelo menos uns meses. Mas eu tenho pena de mim que não saio daqui desta cidade nem com reza braba. Do meio dos meus ex-bichinhos de estimação, somente o Boró gostava de rock. O aquário se tremia todo Boró pegava onda a água se oxigenava. No fundo no fundo eu ainda queria ser índio gueguê e chamar Tiê-Preto. Certo, Chapéu?!"       

       Os oito anos já haviam se passado que Meri convivia com o amante e sem maiores pesos ou medidas ou sobressaltos. Cada um sabia o que o outro pensava, cada um sabia o que o outro sentia. E nessa altura o destino quis que Pita se fizesse separar da sua esposa e ficasse livre como um cachorro abandonado numa ilha anônima.

       O sorriso risonho.

       Sendo assim, Meri Elen Jacumaíba mais Pita Jaguané, casaram. Decidiram morar com a família dela, no interior, no distrito de Botocudos. E o distrito a essa altura depois de oito nove anos já tinha virado cidade dois mil e meio de habitantes com outro nome Paiaguá e o mesmo endereço a mesma latitude.

       (O gosto de pegar tudo com a mão,

        Esperando o sol secar igual cavalo na chuva,

        O melhor abacaxi vem do Nordeste,

        Nuvens fritando bolinhos de chuva.)

       As ruas estavam sempre calmas parecendo sempre no domingo de manhã em a nova cidade Paiaguá no bairro Curugu. Os joões-de-barro habitavam com suas gargalhadas assim mais ou menos. As casas de janelas escancaradas, flores em latas velhas de tinta, cães nervosos atrás de cerquinhas de ripas de madeira apontadas e pintadas de branco ou de azul. Carros tomando banho na frente da garagem ou no meio-fio e aproveitando o gosto contrafeito do vizinho para detonar uma certa música que acesa a todo volume. Um mundo com qualidade de vida, bem-te-vi na porta, gambá escondido no teto da garagem, cumaru-amarelo perfumando no pátio, cardume de taviriris conquistando os canteiros de orquídeas e de bromélias, sem dúvida sem demora sem pressa.

       "Estou sem cabeça para escrever ler na internet falar no celular. Sim, eu sei. Assisti um filme e fiquei impressionada, íntima, estonteada, recortada. Estou sem cabeça para pensar, então, eu penso em nada. Estou sem cabeça para dirigir, senão eu ia a algum lugar da cidade fazer alguma coisa que não sei, etc. A história se passava no interior do Espírito Santo, a cidade de Corumbá de Goiás, e narrava que dizia que o casal se separou e cada um foi para seu lado e existir a dita própria de cada um em separado e lá pelo segundo mês ela descobriu que estava grávida não disse nada pra ele nunca mais não disse nada pra ninguém nunca jamais e não se falaram nunca mais e ele nunca ficou sabendo de nada jamé."

       Era aquela noite grande de lua enorme fazendo luar doce e claro como o dia, praticamente. Cheguei a Guaratuba. As pessoas me olham e me curtem. São olhos de todo tipo. Onde no passado era um imenso carrascal hoje é Guaratuba e como cresceu e cresce. Provavelmente amanhã ou depois posso e devo embarcar numa chuva, amanhã.

       O céu achatado. Uns anzóis como aspas no diário de Meri:

       "Acordei, tomei banho, tomei café, fui com o Quenquém ao mercado comprar bolachinhas maria suco de açaí, vi uma porção de rolinhas-caldo-de-feijão espalhadas pelo chão da praça Mandaçaia, preparei o almoço, almoçamos com Pita, fiz chicote do cabelo, fui ao cinema assistir uma comédia, e dessa vez, jantamos com Pita e estou escrevendo este diário e pouco antes ansiosamente de dar que já me está paralisando o cérebro, praticamente."

       O sorriso sublime.

       Aqui me desvio para a esquerda para passar bem rente por esse lugar feliz e raro e conhecer de perto as grutas tão decantadas. O parque estatual Cunhambebe, o lago serra da Mesa. Repetidos sem conta e perdidos pios de urutau. Vou devagar e levando no bojo jurupocas, mandis-chorões, bagres, dourados, piratingas, joaninhas, acarás-disco, piraís.

       O rock invade os miolos e galvaniza todo o corpo num nervoso numa tensão num tesão de carne ossos ganidos cabelos pra baixo e pra trás. Ela esquece tudo e só fica pirada nuns desejos e pensamentos elevados e violentos e velozes, perturba tudo e fica cheia de sorrisos e satisfeita. Falou para o diário, depois, já meio mais calma e pacificada:

       "Eu amo rock! Demais! Tudo! Caramba! É um êxtase uma raiva um power tipo assim de animal na jaula, ira! Meu combustível, minha vitamina, muita adrenalina. As vozes dos caras, vozes muito cavernosas, letras satânicas, linguagens malditas, vozes muito cavas, muito cavas, vozes medonhas, muito central, muito ancestral, muito catedral, ok, cara!" 

       Já noutra manhã, de manhã, ainda, todo o mundo queria mesmo pegar o sol com a mão e ele escorregou para o céu. O novo céu brincando de avião a jato, andorinhas, peixe-frito, alma-de-tapuio, picaçu, japu, marianinha. As árvores crescendo com o vento, espinho-de-maricá, boicaá, bucha-dos-paulistas, assa-peixe, caabopoxi, cará-barbado.

       O sorriso ímpeto. 

       De outra página virada do diário aberto de Meri Elen:

       "Você me parece com cara de quê. E escreve e olha o que escreve e fica escrevendo o que pensa. Eu não te reconheço. Não sei de nada.

       E onde penso que vou, de onde penso que volto?   

       Sou a mesma de ontem. Quero ser a mesma de ontem. Não sou a mesma de ontem e de amanhã.

       Olho esse texto. Tá olhando?

       Olho o horizonte por trás daquele morro do Realengo. Tô olhando.

       O horizonte é um rio. Um rio é horizonte.

       É o que quero ver.

       Pois eu vou me dizer e te digo:"

       O dealbar do dia, jurupensém saltando no meu meio de rio, aves palradoras e gritadoras, teiú pacífico deitado no galho do curuiri. E farfalhando folhas caindo do guajará-branco, do cajueiro-bravo, do nó-de-porco, da beldroega-grande, do gulandim. A favor de quantos, de quem especialmente, a favor do mundo, a favor de um por vez e todos de uma vez. Passa voando a sombra do gavião-tesoura e chiando, pieeeé!... Eu bebo tudo, bebo as pedras, bebo a cidade de Giruá, bebo a minha sombra, o meu rio, bebo a minha maneira de ser. 

       Um ano, outro, mais outros, mais ainda.

       Depois da chuva. As estrelas brilham, os olhos brilham, as folhas verdes, anos-luz brilham, os insetos, as águas brilham depois da chuva.

       O sorriso obsoleto.

       Corro à rédea solta. De um lado terras dos pitaguari, do outro lado país dos pancaru. Passo no meio, desliso macio, sou bem fundo, largo e profundo. O que hoje em dia é pouco, no passado distante passei em meio às guerras lá entre esses. Sou bem tratado.

       Todos embarcam no mesmo rio, e eu cuido disso, e eu cuido, e cuido disso tudo. Conservo minha forma no verão, no inverno. De noite eu ando mais com vagar, sou bem dotado e ouço os grilos, os sapos-ferreiros, o bando de canelas-ruivas, os curiangus.

       Elen amanheceu. Não demorou muito, mais nada, pretenderam um filho. Meri muito mais que Pita. Fizeram de tudo e etc.

       O sorriso futuro.

       "Eu devo emagrecer vinte quilos, quinze quilos, cinco quilos, quatro quilos e assim por diante. Pita já emagreceu dez quilos e pretende mais dez ou quinze. Muito suco de melancia, que eu adoro. Tenho amigos no feice desde o Amapá até a Islândia a Austrália o Cabo Verde, etc."

       As minhas águas rolam, assim como os anos, e eu me levo junto. Sou da cor da terra como a cidade de Santa Rita do Araguaia e Anicuns e Itanhandu. Desliso pelas pedras corredeiras esfrego os olhos e corro. Devo descer mais um degrau desvio pela esquerda e procuro o poente do sol. Sinto vontade de chorar mas desisto.

       Dobro com essa curva para a direita e arredondo a cidade de Couto de Magalhães, terra bastante natural de tapanhoacanga, o morro Pedra Selada, irmão Jauru nos alcança, irmão Tibagi nos acompanha. Corro para o poente, aruanás rezam comigo, a noite é calma e fria, a ponto de. A lua, é meia-noite, cai dentro do meu álveo. Não sei mais o que vejo.

       Meri de barriga alta e grossas pernas pesadas rosto inchado os bicos pontudos os cabelos flutuantes. Se sentou na cadeira de balanço olhando o interior de si a barriga de si o mundo o planeta o Senhor dos mares e das estrelas dentro de si para si. Muitos talvezes e ses. Juntou os três dedos da mão esquerda nos beiços e ficou olhando fixada o olhar parado vazio pensativa em nada no infinito.

       "Deus?! E como se joga esse jogo e fica tudo bem? Me passa um recado. Eu rezo, é ousadia, e Você me passa um enigma. Queria começar de novo. E no princípio tudo era bom. Não acredito em Você, mas agora eu vou rezar, dá licença!"

       O sorriso altíssimo.

       Eu sou o sistema do rio e o céu continua côncavo distante imenso lendário. No mesmo ambiente de ingás-de-flor-amarela, mucujês, pacovas-catingas, favas-de-bolota, os alados cabatatus, araquãs, papagaios-da-serra, papa-capins que ficam disputando em andares diferentes o mesmo dia que inicia com a manhã. Sou a invenção dos números primos.

       Agora também sou o mesmo e sou outros ao mesmo tempo. Passo bem, passo ao largo de Boa Vista da Aparecida, são os dias 12, às 23h e 35min, quase os dias 13 de outubro, como se dizia. Grilos pendurados das estrelas e de cabeça pra baixo tocam dedilham se esforçam a gaita de fole. A cidadezinha tentando dormir como num espelho. Sou calmo paciente e venho da eternidade. 

       Meri e Pita tiveram o menino que puseram o nome de Tarumã, Tarumã Jacumaíba Jaguané. E passeavam com o filho no carrinho pelas calçadas com vitrines e na praça Pindamonhangaba. Dias de noitinha domingos feriados. Passeavam com elezinho no carrinho azul e branco pela rua de paralelepípedos trepidantes da rua Fagundes Varela. E era só eles dormirem que elezinho acordava.

       Noite de duas horas e trinta e sete minutos  quinta-feira do dia nove de novembro a lua no céu com as estrelas em escorpião brilhavam como nunca, Tarumã nasceu vestiu roupas casuais de toda cor foi lá fora correu atrás das coisas foi uma época que experimentou toda sorte de marca de cerveja casou com uma tal de Juriti da tribo dos guajá e foram morar em Volta Grande, não lia jornais não comia alface não suportou faculdade de direito nunca usou chapéu não visitou Aracaju fez a faculdade paga e tardia de administração beijou as duas filhas até os dezessete anos os oito netos à medida que surgiam passou porção de férias na praia Quatro Ilhas, veio a aposentadoria e a viuvez e oito viagens oito anos seguidos até Belém sempre para ver o Círio de Nazaré trocou o quarto carro colecionou um quadro com imagem da ponte Rio-Niterói a troco de decorar a sala de estar, fugiu do hospital para comer uma pizza de chocolate com queijo morreu ladeado por uma estrela e uma cruz às três e oito da tarde de sexta-feira vinte e um de outubro na cidade de Monte Alegre de Goiás capital do doce de murici plena de muricizeiros.

       Eu vinha vindo do interior de Rondônia, passo por campos de gado branco aqui e ali um chupim no cupim marruá escarvando vestígios de cerrado requeimado país dos janduí papagaios-moleiros fazendo buracos nos itaimbés suçuaparas corrupião-preto coçando a asa direitinho, deito na sombra, lia de olhos fechados a brisa com cheiro de brasa viva, me acomodei, me ajeitei desse lado que eu prefiro, almoço as pedras do leito, cochilei, cochilo.

       (Dormir pescar bater cabeça se é que se dorme uns cochilos intermitentes cochilos e mais cochilos nervosos um atrás dos outros;

        A chuva por trás da chuva, chuva por dentro da chuva, chuva antes e depois da chuva;

        Cores cítricas resolvidas cuidam como nunca de assobiar gorjear cantar para o amanhecer;

        A avenida Macurape com árvores postes cachorros automóveis, a praça Urupê deserta de árvores postes cachorros automóveis;

        A última mulher era boa morena adulta calça jeans apertadíssima piercing no nariz e com uma senhora sacola a tiracolo;

        Bateu três vezes a cabeça com a cabeça na lua;

        Então, uma alma não morre e volta sempre quando quiser e para rever e servir aos amigos redivivos.)

        Eu sempre fui rio e quando morri rezei muito para reencarnar em rio e consegui. Não é difícil ser rio, e eu gosto. Rio tranquilo por entre pedras por baixo das sombras das árvores, etc. Se passou essa história em Itapetim. O meu caso é sempre ser rio rumo do mar. Ser rio é difícil contentar a todo mundo. Vejo uritutu, teatro Santa Isabel, cardume de caranás, boi barroso, cardume de guaximbés. Para encher isso tudo no mundo, etc. Eu arrastando o sol daqui pra lá e de lá pra cá. É uma, né?!    

       "Quando eu era menina eu queria ser menino, agora sou arremesso. Mas na próxima encarnação eu quero ser borboleta com duas asas apenas duas semanas de vida e uma uma só chegada me chegará. Vou pendurar roupas na área para secar. Quando sobra tempo não tenho o que fazer, quando falta tempo tudo por fazer. Comprei ganhei todos os azuis possíveis para o pimpolho vestir daqui até o inverno o verão de 2020. Comprei um colar de ouro para enfeitar a esposa do meu marido." 

       O sorriso universal.

       Boa parte de mim mesmo já dormia o sono das águas paradas ou muito calmas, aí pelas 2h e pouco, quando descaiu uma chuva avassaladora e não pude mais dormir de ponta a ponta. As piraíbas muito bastantes gostaram imenso. Sem demora fico grosso vermelho e transbordante. Me precipitei por lá na altura de Timbé do Sul. Carrego no papo empapuçado o rolo compressor da enxurrada com terra e seixos e galharias de erosão em avalanche. Chovia todo dia. As pontas das montanhas e morros descem para me pegar com mais força e volume.

       A primeira palavra de Tarumã? A primeira letra de Tarumã? A primeira pergunta de Tarumã? O primeiro T de Tarumã? Quem adivinhou, quem soube, quem entendeu, quem viu primeiro.

       Apesar de sempre querer ser homem, Meri está cada vez mais mulher; apesar querer sempre partir para algum novo endereço, volta para o primeiro ninho; apesar de querer sempre ser independente, vive cada vez mais enfiada nos seus. A pele pegou um pouco mais de sol, mas os olhos e o sorriso não mudaram nada nem nunca.

       "Mas Taru já é um menininho afoito que empurra cadeira se joga para a luz da janela e chama quando tem fome e dorme em qualquer lugar e acorda sempre às três e vinte e oito. E ele me cheira e me olha e me sabe e me faz bem, um bem enorme. Não tenho palavras, só olho. É preciso entender para melhorar. É preciso que aconteça para se aprender. É preciso selecionar para sentir saudades."

       O sorriso ocidental.

       M. Elen sim gosta aí sim de cabelos longos e power power como o próprio coração power. Como se explicar que o rock dá um tesão enorme. E ela se joga e se abraça e o que vier na cabeça e power vira roqueiro fica numa pilha e se agiganta como defunto da tumba vira bicho de dente de sabre paisagem na era da pedra lascada homem das cavernas túnel mal-assombrado das eras antes e depois de Deus na terra, etc. Não é para entender, é para se ouvir, é rock, é power. O corpo tinindo com vontade de gritar e grita e ri e escabela. O som power é o som que ela sempre power power quis e tem vontade de power. Ela para de agitar e atende o feice, porra! é alguém.

       Naquele dia tão antigo de outrora que faz muito do tempo, oi então, eu viajava escoteiro, Deus por testemunha, Deus servido, ia pelo trilho escolhido, pelo valo sem fundo das terras dos guaná, noite e dia, chuva ou sol, pé por pé, pombas-de-bando em revoada ao longe, céu com terra, vou porque vou. E o futuro todo dos pés à cabeça todo ele de todos de todos nós depende de mim exclusivamente de mim, de mim. O meu braço esquerdo de mim estava caindo com força de irmão rio Paraibuna. Escuto os guachos cantando na mata ciliar. Passo raspando por Crixás.  

       No primeiro aniversário de Tarumã, elezinho aprendendo a segurar balão de ar da cor azul branca amarela vermelha, Meri contando pras comadres nos dedos da mão a trajetória dela com elezinho, o seu Pita envolvido debaixo da escada sugando o pescoço da irmã mais nova de Meri e talvez mais bonita que a própria Meri Elen dos bons tempos de Meri Elen lindíssima, etc. Foi depois de cantar os parabéns, Taru chorar oito vezes, acabar o guaraná e alguns convidados já terem ido embora, etc.

       O sorriso visível.

       Eu corria entre praias do Piauí, entre matos de buiuçus, tapiricas, canelas-capitão-mor, marias-pretas, e cidades altas e baixas, Aruanã, São Gonçalo do Amarante, Treviso, Ulianópolis, me junto com os irmãos rio do Peixe, rio Paraopeba, rio Meia-Ponte e é o que te digo. De quando em quando cai uma chuvinha que muito me acomoda e muito me apessoa.

       Quem contou isso tudo para a Meri foi a própria irmã caçula bendita Jarina conhecida na família como Já ou Ina, que disse tudo como foi e aconteceu e explicou direitinho, às vezes tentando olhar a irmã mais velha nos olhos e difícil, confessando por conta e risco, não sabendo onde pôr as mãos, descarrilando:

       - Tipo começou quando eu nem sei tipo quando vocês vieram para cá pra Paiaguá tipo de volta para nossa casa tipo um olhar dele me derreteu tipo um beijo forçado dele me derreteu tipo ele me emprestou trezentos reais a fundo perdido tipo houve outros beijos na boca tipo beijos no pescoço tipo eu prometi não abrir o bico tipo ele prometeu me ajudar e ajudou a comprar passagem aérea para BH tipo um dia eu descobri marcas de dedos nas coxas tipo eu descobri que não resisto a beijos no pescoço tipo ele me presenteou com um celular tipo não sei por que tudo isso comigo com ele com nós tipo fico alucinada com beijo no pescoço tipo ele soube explorar isso tipo mais beijos escondidos tipo lambida no pescoço tipo fiquei doida tipo não me segurava mais tipo o que ele queria eu dava tipo o que eu quero ele me presenteia tipo isso está rolando a três meses tipo é isso tipo não sei se mereço seu perdão tipo me perdoa tipo você nunca vai me perdoar tipo deixa eu chorar em paz tipo ninguém merece tipo eu errei mil vezes tipo se é para chorar então eu paro tipo...

       E a Já cansou de se confessar, e enquanto falava a voz ganhava um eco ridículo que dava até para rir se quisessem, e Já sentiu uma falta de fôlego, uma ânsia de acabar com tudo, e Jarina sentiu sede.

       Meri até teve muita calma nessa hora: cumprimentos e muito bem! Depois imediatamente, passou a mão nos cabelos assim. Foi que ouviu tudo que pôde com calma e segurança e olhar na parede. Sentiu algo flutuar, a ideia. E virou as costas se retorceu e se foi para a cozinha preparar o de-mamar do Tarumã. Ouviu algo estilhaçar, o rumo. Sentiu algo ranger e bufar, o prumo. 

       "Um pouco de risco é bom um pouco de dúvida um pouco de perigo um pouco de crise vai me fazer bem. Eu fiquei perto da parede com o dedo na parede e me perdi pensando em nada, acabrunhada, indiferente, o ombro na parede, muito não sentindo, e o tudo vazio, o frio, as lágrimas começando na garganta e com muita dó de  mim. Eu sei que sou um rio e meu filho é outro rio e os rios saem dos rios o rio saiu de mim. O que importa, importa muito, importa tudo. E nada disso aparece."

       O sorriso metafísico.

       As perguntas que se faz nessa hora e tudo mais:

       - Oi! Quando essas coisas explodem na nossa cara com a nossa cara como juntar todos os caquinhos? Como almoçar? Como dormir?

       Meri se sentiu muito imatura. Ademais tudo parecia mesmo praticamente novo. Se sentiu também como se tivesse que recomeçar do zero. E tudo chato, tudo polêmico. A tal da esperança.

       Me lembrei que já era domingo de carnaval, que já estava em o lago Arari, que já estava muito perto do macaréu, a chuva em boa parte de mim foi torrencial a noite toda, o dia seguinte todo e me espraiei. Positivo. As tabujajás piavam em meio aos sarandis. Pois não.

       O sorriso substrato.

       Meri olhou para dentro de si e tudo mais, olhou para si, olhou para Tarumã dormindo na caminha, olhou a noite quase no fim, olhou as casas se revelando ao dia, olhou sem olhar, olhou a rua Cuité, olhou e deu voltas e mais voltas. Pensou alto mais de uma vez:

       - Oi! O que fazer ou não fazer, fazer ou desfazer, fazer e acontecer?

       O sorriso aquífero.

       Depois do choque, a Meri Elen foi pensar uma saída para a falcatrua. Obrigação dela. Custava pensar nessa questão e o pensamento sorteava um moinho de opções. E houve dúvida como pintar uma flor. E houve dúvida como imitar a postura do bacurau. E houve dúvida como inaugurar um labirinto. E houve dúvida como achar um tesouro.

       O sorriso simplificado.

       Sou a novidade, o antigo, o que há de vir, etc. E vou dizer com todas as águas. Aqui eu coloco esta cidade de Diamante do Sul, ali a ponte estaiada, ali a serra da Canastra, os periquitos-reis na copa da jabuticabeira-branca, ali a Meri Elen me olhando sem me ver.

       Meri esperou três meses para se decidir e aprovou essas resoluções. Cortou fora o e jogou para além da janela aos cachorros. Meri encheu a cara de Pita no jantar foram fazer pela madruga afora e seria aquele o milésimo gol da milésima vez e ele dormindo anestesiado ela pegou a tesoura segurou na ponta e zape correu à janela aberta e jogou para o pátio onde os cachorros começaram a disputar com alvoroço lavou as mãos que o maior acabou engolindo o menor.

       O sorriso peixe.

       Elen foi no banco raspou a conta conjunta e convidou o melhor amigo do monte do marido para um passeio de fim de semana em Gramado e Canela e Nova Petrópolis e São Marcos. Quando voltou três dias depois Pita perguntou onde você se meteu sua maluca eu fui e passei um ótimo fim de semana com Juá seu melhor amigo nus em pelo nos hotéis paradisíacos com cama redonda paredes espelhadas cinema a bordo cascata artificial camareira e garção no toque de campainha e espumantes gelados para refrescar o banho na banheira de hidromassagem e com que dinheiro com o nosso dinheiro meu e seu por que não gostou achou pouco e olhe que ainda posso fazer melhor e mais longe e mais demorado e fila indiana com mais de um de dois dos seus ótimos amigos alguma mais pergunta alguma dúvida.

       O sorriso paisagem.

       Saiu de casa, ela e Tarumã, e foram viver numa cidade distante que até hoje não se sabe qual é mas que tem de tudo um pouco e se vive bem conforme tem praças tem teleférico tem shoppings tem praia na frente zoológico plantado dentro de um mato de árvores que cantam pássaros do dia a dia e até homens tico-tico dispostos ricos viajados em boa forma a escolher.

       O sorriso aventura.

       Não obstante. Pegou deu uns tapas na irmã sem noção jogou uns pratos e panelas e talheres na cabeça do Pita cara de pau disse as verdades aguardou uma semana levou uma semana e depois não se falou mais disso e a vida continuou por ali mesmo voltaram às mansas e assim e tudo mais e tudo muito corriqueiro e pacato e remendado. Até porque as pessoas são livres e devem ser livres para sempre e independentes e respeitadas nas suas liberdades esse negócio de casar e ficar preso em anéis e em casal é coisa inventada de passado antigo remoto ou coisa de araras-vermelhas-grandes.

       O sorriso estrela.

       Desliso por entre tardezinha laranja e matos verdes, vou deixando praias brancas ilhas verdes lagos engraçados, ouvindo o gargarejo das capororocas, e sempre por terras pretas ou vermelhas ou tabatingas. Tempo seco de poucas chuvas, frio, tempo chuvoso e quente, indo de menos cinco a mais de quarenta graus. Quase tudo dormia quando passávamos por Passa Vinte e cruzamos por baixo da ponte e sigo adiante.

       Assim, eu afirmo, eu mereço você merece nós merecemos Meri Elen merece, e que é que é sempre que se olha para uma ponte suspensa no ar embalado da tardezinha embalado na paisagem tardezinha.