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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 33





Esse Céu Azul Que Nunca Vi

            Parei ao meio-dia, no meio da rua André da Rocha, no meio da aula, no meio do dia, no meio do sol, no meio do mundo, no meio de tanta guria bonita, no meio do meu espírito ineficaz. Parei sentindo meu tum-tum!... bater risadas de deboche de trouxa de otário. Sério!
            Eu mesmo era igual às outras tantas umas árvores por aí, um cajueiro-do-campo.
            A rua, a encruzilhada, o dia, o zênite cheio de luz inefável. Nem me senti pequeno, nem me senti grande, nem mais ou menos. Mas me senti somente esquisito e melindrado.
            - Acha que D nem quer tomá conta de tu?
            Eu estava andando na calçada a jusante da rua Irajá Pirapitingui quando algo ou alguém me chamou a atenção:
            - Só espero que me ajude! Preciso comprar o palácio dos Paiaguás especialmente!
            Porque aí o trânsito recomeçou a fluir total.
            E vou mesmo simbora, vou agora, vou navegar pelo rio Paranaíba, ou o rio Vaza-Barris, e nem esperar mais nada - disse, então.
            Nem tem como e por quê, mas tem quando. Ah, se tem!
                                                                      ***
            Molhei as mãos. Olhei as linhas misteriosas. Que segredos se esconderam por ali e que nem valem a pena?, pensei. Olhei minhas mãos e daí? Olhei as tais linhas de trem, trilhas no campo, carreiros de ratões-do-banhado, tatuapés. Apreciei aqueles rios, rio Amola-Faca, rio Carreiro, rio Sabia... Olhei os atalhos feitos a facão sem cabo.
            Falava pra mim falei por mim uma ou duas frases curtas terrestres contundentes discutíveis, exemplo:
            - Partirei! Tenho que ir!
            Passando pela janela tive a visão da copa de uma grande estoraque-do-campo depois a nuvem com cara de navio antigo mais pra cima a lua e o céu todo azul luminoso. Mas nem sempre era ansim.
            Fazer como os katukina, ou seja, tomar kampo para nem ficar comendo pedra.         
                                                                       ***
            Nem levava uma sorte aventurosa interessante promissora. Nem levei, nem fui buscar. Por que nem era pra mim.
            No começo por aqui e ali, havia bem mais pinheiros-do-paraná bem mais árvores jatobás-de-casca-fina, facheiros-pretos, marias-gordas, utuapocas... menos cidades mais pássaros mais chuvas. À uma hora, milhões de quilômetros, pensei no mundo distante e desabitado do Neblina.
            Vou sair e ver o mundo, a particularidade do caminho, a distância do país. Vou andar andar andar... correr ruas, procurar o que nem sei encontrar. Procurar a minha importância, a minha cota de participação, a minha pouca sombra - o que eu pensava. O leito do meu rio.
            Esse céu azul que às vezes de repente se enche de ataúbas.
            Céu absoluto recortado em redondo longo concha eterno diante da terra. Ou seja, algo que nunca vi. Melhor, quase certo.
            Depois vinha retornando a moda de me bandear.
                                                                       ***
            Com permissão da ideia de D, o sol pulou cedo a lua pulou cedo e todos pularam pulou cedo a begônia-sempre-florida pularam cedo os aborígenes mati os camaiurá os caingangue... pulou cedo a iraúna-grande arengaram cedo os periquitos-de-asa-azul, barulharam os pica-paus-manchados...
Jaçanã, Jaçanãzinha, Jaça, Jacinha. Às vezes cantava, cantava baixinho, cantava que dava pra se ouvir, cantava alto que até ecoava. Seus olhos brilhavam, seu sorriso se estabelecia. E resmungava. Nem interrompia o canto, o tin-tin-tin!... Berrando e rindo e chorando e gorjeando. Ela era alegre, esperta, afogueada, carinhosa, desgovernada. Tinha susto de quase todos os animais e insetos. Tinha receio de todos os bichos, inclusive dos que falavam dividiam disputavam com ela a casa dela da família.
            E Jaçanãzinha se perguntava e perguntou a alguém pelaí:
            - E amanhã?
            Era uma pergunta essencial bem típica do dia a dia. Uma dúvida fundamental. Uma indagação absoluta. E arriscou mais:
            - E depois de amanhã, hein?!
            Jacinha rilhava os dentes, nem se arrependia, nem esbravejava, nem sabia onde botar os pés. Nem se arrependia de quê? Jacinha batia palmas, mas nem muito. Começava bater palmas depois dos outros e parava antes de todo mundo. Batia palmas no meio dos aplausos.
            Olhos eram os de Jaça, olhos febris, pessoais, vidrados, arregalados, interrogativos. Como uma adolescente descobrindo sexo dentro de si na noite de si no sossego de si.
Pois ela Jaçanã sorria seu sorriso incontinente.
            E chegou a Cabiúna. Cabiúna ou Cabi. E veio Cabiúna e perguntou, do fundo do precipício, do seu jeito:
            - E amanhã?
            Onde andava A. P.? A rua Itália estava perdida isolada sem. Onde ficou e nem voltou a Ana Paula?
            E surgiu Congonhal para perguntar. A pergunta básica e clássica e ensaiada e surda e física:
            - E amanhã?
            E apareceu a Berizal, Berê? Apareceu a prima Botumirim, a Botu. Aquela perguntou com os cabelos louros lá dela; essa última perguntou com os seus lábios grossos ali dela: perguntaram a mesma anedota matrimonial figadal mental:
            - E amanhã?
            Quem era Ana Paula?
                                                                       ***
            Dizia pra mim mesmo: quero partir-ir-ir... Dizia pra mim mesmo que queria partir. Que ia partir. Que estava partindo. Que estava de partida. Que era questão de dias, no máximo uns poucos meses, mais tardar março. Estava tentando me acostumar com a ideia. E de independência ou morte.
            Que dia teve aquele aquela que D apontou o dedo e mandou escolher os três desejos, em?!
            Ia para uma aventura no rio Purus, rio Embirá, rio Batalha, rio Cotovelo... Ia para um passeio no Atol das Rocas, lagoa de Barra Velha e outros pedaços. Será que deixarão entrar?, me perguntava. Ia ficar o dia todo correndo o país e programar uma visita no palácio Setentrião. Os dias de sol de chuva pelaí, Coronel Murta, Pombos, Chã Grande, Aracruz... O conhecimento a ciência dos lugares em particular, Embu-Guaçu, Bom Progresso, Itaguaí... Eram milhões.
            Depois vinha a vontade de dormir.
                                                                       ***
            A lua caminhando, o céu sem nuvem, sem estrelas, quase sem vento, a lua no alto sorrindo, o silêncio universal do azul no tempo e no espaço.
            Divisão que estava para regimento para batalhão estava para companhia estava pelotão. Então o camarada sai de casa bem cedo e vai para o quartel de soldado cabo sargento tenente capitão longe longe major até chegar um dia a general. Quem sabe!
            Pensei que poderia ter confiar meus olhos olhando. Delirei que buscavam meus olhos a qualquer preço. Depois me disseram que queriam comprar. Era só o que faltava! Os meus olhos de olhar sem ver.
            - Você nem acha que ontem hoje o sol se parece com a lua estrelas?
                                                                       ***
            No Brasil de então de antanho de quanto faz e tanto fez, quando o Brasil era Ilha de Santa Cruz e Terra de Santa Cruz, e sobre este tudo nada se sabia... e nada se descobriu... e por fazer...
            Era manhã comemorativa começando limpa de doer nos olhos. E bem de árvores bem de pássaros bem de ventos bem-te-vis-cabeça-de-estaca... Um calor que fazia enxugar com a mão de minuto a minuto corpo suado escorrendo pelo rosto passando as costas das mãos para tirar o excesso da testa. Com chuva no meio da tarde para festejar os insetos e as aves e o arco-íris. E no dia seguinte nem dava tréguas nem tinha nada nem igual na floresta no oceano.
            Então, pelos refolhos da história da capitania de São Vicente, na ilha de São Vicente, as mulheres acharam por bem valorizar e conservar um costume lá delas que veio de longe de antes com elas as mães as avós as bisavós. As mulheres sempre em menor número, embora. Especialistas em contornar problemas para melhor enfrentá-los ultrapassá-los.
            As idades das fêmeas do arraial na ilha de São Vicente variavam de fio a pavio e de cabo a rabo. E acreditavam que o pajé Manipuçá dos capinauá morador do morro do Aratu era muito bom no sentido de prevenir contra os males em geral, doenças, fomes, pragas, enigmas, invejas, guerras, invasões de corsários franceses holandeses ingleses. 
            Então, começos de novembro do ano de 1544, as mulheres, as moças e as meninas do arraial, que já eram velhas e cansadas, foram procurar o pajé dos majubim lá longe no tope do morro do Aratu. Os homens adultos estavam no mar pescando, na beira da praia fazendo canoa, no alto das pedras espiando o mar para ver cardume de tainha de manjuba de sardinha ou pirata holandês francês inglês. Os velhos da aldeola ficavam para cuidar dos meninos e dos jaguanés e outros bichos de estimação. Era novembro e as plantações de avati e batata-doce e amendoim e mandioca e abóbora estavam para ser estocadas colhidas e semeadas.
            Por isso mesmo que as baleias-francas nem tinham coragem de se aproximar.
            O mar e o céu faziam uma boa disputa para ver quem era mais cordial quem era mais arteiro. O vento a lua vinham inesperadamente acordá-los. E o mar explodia nas pedras. Nem dava para dizer se o céu era mais importante. Mas as águas do céu eram azuis e às vezes se misturavam com as verdes do mar.
            Como discutir o mundo sem o grande mar-oceano e a floresta intransponível, ambos sempre ali.
            Depois, era de tarde, já veio a água a chuva o aguaceiro de verão.
            As fêmeas de todas as idades, casadas e solteiras, as crianças e adolescentes, entraram na mata na fila indiana. Um mundo de mato inexplorado, grápias, gogós-de-guariba, ibirapitangas, ajuís, aroeiras-do-campo, matiambus, curiúvas, juquiris-guaçus, farinhas-secas, perobas-iquiras, samambaias, cipós, bromélias... Atitudes muito bonitas e desprendidas da parte das mulheres. Umas já eram mães, outras querendo namorar o quanto antes, ainda outras sonhando serem escolhidas, logicamente que todas de um cheiro comum juízo sonso e rumo incerto.
            - Todo mundo diz isso...
            - Disse, dizem o quê?
            O tal e qual céu azul somente dos pássaros em bando aos gritos guinchos alaridos. Uns passavam da ilha para o continente, outros do continente para as ilhas. Um mundo de marianinhas-da-cabeça-preta... escolhiam um forte e alto araçaí e faziam uma revolução um gritedo incrível e talvez até desnecessário.
            - Mas a lua nem é sua!
            - O céu é filho dileto de D.
            - Tem lá uma nuvem nova grande grossa e tentando nos alcançar.
            - E deve vir já empurrada pela música.
            - Se eu tivesse certeza...
E aves pássaros passarinhos de todo cantar timbrar, bem-te-vis-do-bico-largo, gralhas-azuis, pombas-rolas, inhambus, seriemas, tucanos-do-bico-verde, araras-azuis-grandes, curiós, sebinhos, ferreirinhos, quero-queros, jacus... Mulheres e crianças e adolescentes iam todas de olhos bem abertos no chão quase desconhecido, no alto das árvores, boca aberta, ouvidos alertas, abrindo picada com facão quatro listas.
- Nem esquecem do lugar, uma vez.
- Muito levada da breca... ah ah ah!...
- Com todo cuidado para nem comer espinhos, hum...
- Às suas ordens, madama!
- Já-já vai vir a chuva e da grossa!
- Como hoje como sempre como amanhã...
            Umas se mantinham alegres, outras mais preocupadas, outras ainda menos preocupadas. Umas pegando sol na cabeça outras com chapéu de palha de buriti trançada outras com o lenço a manta o xale dos tons segurando o cabelo amarrado debaixo do queixo. O caminho muito difícil pela mata fechada, subindo e descendo morros pedregosos, passando banhados, cruzando capoeira espinhosa, experimentando atalhos, os taiaçuapés, ora era um túnel feito de galhos ora um campo coberto de erva o capim-navalha. Um guincho aqui e outro mais ali de macacos-aranhas, porcos-do-mato, guaraxains, janauís... periquitos-de-encontros-amarelos passando por cima indo no sentido das ilhas do litoral. 
            - D fez um milagre.
            - Mas também seria uma coisa só D.
            Poucos acontecimentos mais importantes, olhos piscando no meio da folhagem escura, alguns acontecimentos sem relação de importância, besouros irisados, jararaca dormindo na moita de contra-erva. Trilhas difíceis sob um sol forte, dormindo no mato noites muito escuras, enxame de mosquitos perto dos alagados. Tinham uma vaga ideia do caminho pois o morro do Aratu se enxergava de longe. Timbre inconfundível da araponga. O sol que mudava de lugar, a lua que andava pra cá e pra lá, as estrelas que piscava sem parar, o vento que falava com as plantas, as árvores que andavam para trás.
            Numa altura que pararam por motivos de força maior. Uma senhora a Majuba estava pela hora. E foi ali mesmo questão de oportunidade. Esperaram três dias na beira de uma lapa. A mulher deu cria no meio do ninho de capim-rei a bebê chorou e mamou sem abrir os olhos, por enquanto. Aguardaram mais dois dias e voltaram para a caminhada.
            - Uma filha é outro problema. Seria bom um menino.
            - Santa, santa!
            - Nem vale a pena.
            Se distraíam olhando as flores, orquídeas raras, lianas, jerivás carregados de coquinhos, estalidos e ecos superpostos, taocas, passarinhos curiosos, macucos, perdizes, caburés-de-orelha, ajurujubas, pica-paus-do-pescoço-amarelo, urus, araquãs, borboletas, escaravelhos... Nos pedaços de campo família de guaçuetês, antas, capivaras, tamanduás-bandeiras, gambás, carumbés, tatus-canastras, preás...
            - Nem foi o que se pediu?
            - Se nem tiver filho homem vou adotar um casal de capitão-de-bigode, é. Mas tenho pouco tempo para pensar.
            - Pra nem pensar, tu quer dizê!
            - Sem noção!
            A jornada já durava umas semanas. Colhiam butiás araçás guabijus goiabas-do-mato... Uma senhora morreu picada por boicininga. Cinco crianças ficaram com febres intermitentes e duas desistiram de tudo. Aconteceram algumas discussões, brigas, mal entendidos, arrependimentos. A saudade ficava para trás ou para depois na volta. E nunca pensaram em voltar do meio do caminho. Pararam no riacho para comer peixe, pirapucu, bagre, traíra, jundiá, piava, charutinho, anujá... que tinha aos montes e dava para pegar com as mãos desarmadas. A crença nas beberagens do pajé dos maioruna era muito importante. Periquitos-reis sobrenadavam o firmamento rumo das ilhas do mar. Acima do sol a batata-de-teju.
            O tal céu azul que ninguém sabia onde ia parar. O mar sempre ali tal e qual o céu que ninguém nem sabia nem tinha ideia onde começava ou terminava e mesmo era um e outro.
            - O que vamos fazer hoje?
            - O que vai acontecer hoje?
            - Vamos andando.
            - Depois descobriremos umas esmeraldas.
            Um dia, pelo meio-dia, sol forte acima das copas das altas árvores, muito cansadas de chavascais, carrascais, catanduvas, itacurubais, itapevas, as mulheres e as crianças e as adolescentes chegaram ao pé do morro Aratu. Olharam o morro e fizeram o sinal da cruz. Sentaram e descansaram por três dias e noites. Só importunadas pelos pernilongos.
            Ficaram curando as feridas e olhando em redor para o mato o morro, olhavam para trás, olhavam o morro outras tantas vezes. Em volta o céu de sol terrível e azul ou de chuva o mar céu baixo e por tudo a tachã cantando, ta-him!... a graúna, grazinando!... o urutau, chirriando!... o catetinho, coinchando!... a jaçanã, tridulando!... a irerê, gritando ireré!... a cigarra, estridulando!... o peitica-de-chapéu-preto, assobiando!... bando de reis-dos-tuinins, flautando em confusão... a preguiça-de-máscara comendo folhas de embaúba... E tudo parecia parado comum anônimo e um mundo à espera.
            - Estamos na metade do caminho.
            - Depois da metade da sorte.
            - Depois e antes do fim dos tempos.
            Mais um pouco e umas horas de esforço e estavam no pico do alto do morro. Procuraram a gruta do pajé Manipuçá dos tapirapé. Clamaram reclamaram chamaram por ele:
            - Xamãaa!... - gritaram umas e outras, mãos segurando a voz em concha.
            A natureza se alarmou, um bando de macacos-barrigudos gritaram pelo alto das murtinhas, bico-grosso pegou a família e voaram longe... folhas da genciana-roxa se mexeram mais que o comum. O sol já estava querendo cair também naquele dia e em companhia de algumas nuvens de ouro. E as visitas assobiaram e chamaram e gritaram pelo pajé dos manitsauá. Estavam perto? Estavam quentes? O sacerdote estava em casa? Uma suindara piou nem souberam onde:
- Feiticeirooo!... - eram umas e outras berrando adoidado, pois nem podiam perder a viagem.
            De repente ouviram também um riso, uma gargalhada, um perder de fôlego de tanto rir... Se entreolharam meio alarmadas ilhadas no medo:
            - De onde vem esse riso debochado e de pouco caso? - se perguntaram as mulheres mais velhas e as mais novas também.
            Uma voz bem pertinho respondeu, rindo muito:
            - Ué, caraíba! Abaré Manipuçá assustô cunhantã, cunhã, ah eh eh eh!...
            As mulheres e moças e meninas olharam bem e descobriram o pajé dos iurimagua ali mesmo, muito rente, bem perto, rindo, falando e debicando e fazendo de pouco, disfarçado de ramo da árvore pente-de-macaco. Que ideia!
            - Como vai, seu curandeiro? - algumas perguntaram outras concordaram, ali mesmo embaraçadas enleadas misturadas todas juntas em grupo compacto solidário.
            O pajé dos mapuá e seus mascotes, sagui-caratinga, papagaio-moleiro, jabuti-aperema, todos carregados pendurados no índio velho, pularam fora da vegetação se apresentando saindo das sombras.
            - Ué, caraíba! Abaré Manipuçá, umu-ru-ru!... ah eh eh eh!...
Aí, as visitas convenceram o pajé dos torá a fazer um feitiço para que elas e todas as famílias delas, o arraial todo em geral e unido, tivessem muita segurança, muita sorte, muita fartura nas próximas colheitas e nos anos que viriam que pudessem combater e expulsar todos os flibusteiros franceses ingleses holandeses. E o adivinho pulou de lado, fez várias e variadas manobras e exercícios, brincou com pedras do chão por ali, enfeitado de penas de papagaio-do-mangue na cabeça, maracá na cintura, colar de dentes de onça-parda, porongo a tiracolo cheio de petrechos secretos, tatuagens nos braços e pernas, corpo pintado protegido de urucum, pitando cachimbo de taquara, bodoques enfiados nos lábios e bochechas e orelhas, vez ou outra percutindo o pequeno uapi escavado em tronco de embaúba com pele de suaçutinga, e o pajé dos jabuti pensou um pouco e riu demorado e concordou:
            - Ué, caraíba! Abaré Manipuçá fazê tudo tudo fetiço dexá tudo muto catu, ah eh eh eh!...
            O pajé dos tamoios foi buscar uns aparelhos e ferramentas lá na caverna dele onde ele passava as noites e os dias de chuva. Foi lá dentro com secreto pé ante pé cuidando se as comadres vinham atrás xeretar. Juru no ombro sagui em volta do pescoço jabota debaixo do braço. Demorou pouco para voltar. Demorou o suficiente. Voltou com cascas e raízes e folhas secas e frutinhas miúdas secas, sementes variadas, catingueira, macela, chá-de-bugre, pata-de-vaca, sabugueiro, barbatimão, fruta-de-macaco, espinheiro-bravo, unha-de-passarinho... e ele sabia de tudo que a mata oferecia e sua serventia e sua utilidade o que prestava e nem prestava.
            - Ué, caraíba! Abaré Manipuçá fazê mulé muto sorte catu, ah eh eh eh!...
            As fêmeas dos homens sentaram no chão, nas raízes das árvores próximas, nas pedras, as crianças deitaram na terra vermelha, as crianças cataram tucuruvis pra passar o tempo, as meninas brincaram de pega-pega esconde-esconde subiram em árvores próximas, macaíba, guaritá, jacareúba, guatambu... descansaram na grama macia na laje escorregadia. Tudo isso enquanto esperavam o feitiço muito bom do tal caraí.
            - Ué, caraíba! Abaré Manipuçá... te-te-retetêee!... ah eh eh eh!...
            O pajé dos guaianás acendeu o tatá com pedras entre as pedras, bebeu tarubá e cuspiu nas pedras e no cisco incendiando tudo. O mágico gritou coisas para o alto, olhou o céu, se contorceu, ergueu os braços para o sol a lua as estrelas, escolheu raízes e sementes, mastigou a maçaroca de ervas tóxicas, vomitou verde, assobiou, gritou, esperneou, rolou no chão como doente metal ou da barriga:
- Ué, caraíba! Abaré Manipuçá... quibibibiuuuu!... eô! eô!... ah-ãh! ah-ãh!...
E o encantador ainda resmungou entre dentes, todo possuído dos venenos e dos transes dos êxtases dos devaneios das visões perturbadoras:
            - Ué, caraíba! Abaré Manipuçá... ah-nhãmmmm!... Caapora!... Amanaci!... Ipupiara!... Boiúna!... Caruana!... Quaracy!... Jacy!... ah eh eh eh!...
            E lançou poeira para o alto urinou no fogo cuspiu e se ajoelhou. Sempre falando qualquer coisa esquisita e nada decifrável inteligível imitando animais da floresta numa linguagem nheengatu bem misturada:
            - Ué, caraíba! Abaré Manipuçá... tateretéeee!... biu-biu-biuuu!...       
            As visitas passaram aquelas longas e contadas horas até a noite e que veio estrelada, periquitos-vassouras retornando das ilhas verdes do litoral. Bem alto na mata mais alto ainda o craveiro-do-maranhão era o último a ver o pôr do sol. As mulheres dormiram na aba da caverna, outras debaixo das árvores, outras mais nem conseguiram dormir, ainda as que foram para os galhos da amburana, cambroé, araruva, juruté... arriscando cair lá de cima, etc., se recostando por aí em volta.
E foi surgindo devagarzinho o amanhecer com ensurdecedora matinada de tudo que havia de bicho na mata atlântica. O enorme araticum-do-campo segurava poderoso com as mãos o céu claro claro.
            - A gente nem pode esquecer de nada que pajé disser.
            - Nem vou esquecer de nada nada.
            - Cada qual leva uma coisa.
            Tudo estava ali e muito. O sol redescobrindo as cores do dia. O céu igual ao mar espelhado. O vento anunciando desde cedo a chuva no meio da tarde. Os pássaros e outros animais já sabendo de tudo de cor e salteado.   
O pajé dos cambiuá também sabia ler o mato ler o céu ler o voo das aves em geral. Rugas aradas na testa garatujas de preocupação tensão nervosa. Pois esse pajé dos tapaiúna ficou a noite toda em claro olhos bem abertos. E ainda ficou longo tempo pela noite adentro e afora preparando as puçangas, os chás, os comprimidos, as poções, os óleos, os emplastros e resmungando sozinho e rindo de vez em quando gritando para os fantasmas ancestrais espíritos do chão e do ar:
            - Ué, caraíba! Abaré Manipuçá... ih-teeeee!... iapuá!... iraí!... tubi!... mandassará!... ah eh eh eh!... 
            Umas oito horas do dia seguinte, do dia tal do mês de setembro do ano passante, talvez mais ou menos observando o sol, o pajé tupinambá chamou todo mundo para perto, o pajé dos iranxe chamou as mulheres em geral e lhes deu um comprimido, as mulheres engoliram com um gole de água, chamou as crianças meninas, deu um comprimido com mel de jati e elas comeram com prazer, chamou as moças cunhantãs e deu um chá com fundo doce de flor de feijão-de-guizos e elas todas beberam e pediram mais. Estavam todas, então, enfeitiçadas curadas para ganhar força, proteção, independência e sorte.
            - Ué, caraíba! Abaré Manipuçá fetiçô mulhé muto catu, nhe-nhe-nhém, ah eh eh eh!...
            As visitas se entreolharam se perguntando o que ele pajé dos uaicá estava dizendo, depois de tudo:
            - Que ele disse mesmo? Será que ele terminou o feitiço?
- A gente já pode voltar pra casa?
- Já estamos livres dos perigos do mal?
- Pede pra ele, pede pra ele!
            O decifrador recolheu suas coisas e riu e gesticulou e berrou e recomendou e preceituou em companhia junto durante com seus mascotes o papagaio a jabota o sagui uma família:
- Ué, caraíba! Abaré Manipuçá... ah eh eh eh!...
O pajé tupiniquim entrou na caverna, olhou para trás olhou para as comadres com olhar brabo carregado de poucos amigos... o sagui o papagaio a jabota todos com ele num punhado de olhos e caras, e o caraí fez sinal com a mão para que todas se mandassem daí. Que fossem para as casas de volta para a aldeia para os seus maridos e irmãos. As mulheres compreenderam os gestos nervosos e se prepararam para partir. Se entreolharam se entenderam se decidiram de uma para a outra e todas ao mesmo tempo falaram:
- Simbora, pessoal!
- É, já deu o que tinha de dar!
- Será que tem de ajoelhar?
As excursionistas desceram o morro com o estômago em brasa pegando fogo fogo. Os remédios estavam fazendo efeito avassalador. Poções mágicas fortes e ferozes e insuportáveis. A vegetação se apresentava toda amarelada tomada de amarelo puro, o sol já estava azul, o ar poluído de bichinhos muito estranhos pequeninos pontinhos pretos de agulha. O cheiro era diferente o ruído parecia de pedra ralando as coisas tinham uma quarta dimensão o mundo estava sendo revirado de cabeça pra baixo.
            Nem doze horas de caminhada as cunhantains gritaram e viraram guaracigás de muitas cores e bicos diferentes, voaram para as flores abundantes na região, bromélias, orquídeas, margaridões, cravinas-do-campo, jasmins-do-mato, pinhas-do-brejo... e sumiram se espalharam pela mata capilar múltipla abundante.
As cunhantãs, que iam na frente mais dispostas, faladeiras, passeadeiras, sempre correndo, viraram um bando de periquitas-de-testa-amarela e foram voando numa gritaria ensurdecedora exagerada para as matas virgens da costa do continente procurando árvores frutíferas altas árvores floríferas, sobraji, castanha-de-macaco, tapiá... mata atlântica trescalante endêmica do litoral brasileiro sempre pegando fogo nessa época do ano, arapiracas, cabos-de-machado, aguaís, sombras-de-vaca, indaiás-guaçus...
As cunhãs mais velhas maduras experientes acomodadas matronas mães de prole extensa viraram maracajás, jaguaretês, canguçus... esgaravataram o chão de folhas molhadas e mortas uivaram para a noite urraram de raiva arranharam afiaram as unhas no tronco das sapo-sapos, barbas-de-paca, paus-terras-mirins, umbuzeiros... e nem se entenderam mais. Cada uma pegou sua trouxa abraçou seus trens e se mandou se esconder sem deixar rastos num grotão qualquer e particular.
Vento solto ar azul terra hospitaleira mata como nunca se viu e oceano ainda ali, tudo bem como bom no princípio.
                                                                       ***
            Qualquer mudança, qualquer mudança será melhor que nada; será melhor, será melhor; qualquer mudança preencherá o oco da alma da palma; depois vou ver o que posso fazer pelo resto; eu acho - pensei.
            O céu tão azul que eu sempre nem nunca lembrava.
                                                                       ***
            Quem viu a Saquarema aqueles dias? Eu vi e ouvi. Nem queria ter visto.  Eu vi e ouvi a Pirapora de short branco. Um calção muito justo e apertado e cavado e branco. O short de Pirapora, meu! O short enfiado nas reentrâncias ou vales ou refolhos mais cobiçados esperados dos últimos tempos. As coxas poderosas elásticas do cinema nacional. Uns peitos apontando na blusinha querendo ganhar o mundo o futuro e os assobios em geral.
            Depois Iraxim se aproximou veio vindo como quem nem queria nada apareceu me falou me disse que viu de surpresa como numa história viu um gato sem asas. Eu perguntei se o bichano era rarefeito de matéria-prima. Ela continuou me dizendo que, nem consegui acreditar no que estava vendo e com esses meus próprios olhos castanhos. E fiquei parada paralisada estátua. E o gato ainda ficou ali um tempo bem na minha frente. E eu sem saber o que fazer, tonta tonta, me disse ela.
            Iraxim mais abriu os olhos o seu sorriso foi o começo do seu riso franco aumentando tanto e bom de se ver de se ouvir até rebentar cair em cascata numa explosão um oitizeiro florido amarelo de plena sublimidade e parabéns.
                                                                       ***
            Sim, porque, às vezes, tudo parecia que estava pela hora h. Parecia que nada do que tentava podia dar certo. Só podia dar errado. Dar errado... ou nem dar em nada, resultar inútil.
Porque tanta gente tenta e nada. A maioria nem tenta muito, essa a verdade. Só alguns conseguem porque D aponta o dedo.
Vou plantar capim-agreste qualquer capim serve e somente pra mim, eu que decidia.  
                                                                       ***
            A estrada (para a viagem, a minha viagem), sempre me aparecia limpa. A chegada muito esperada. Uma parada aqui outra ali, Ibiraçu, Pedra Mole, Lagarto, rio Apa, palácio Rio Branco...
            Então, eram a caminhada e a chegada. Faltava a partida. As ignições.
                                                                       ***
            Existiam tipos diversos, éramos diferentes naquela sala de aula, eu me admirava. Enigmática era aquele ideal que estava na minha cabeça e ia e vinha conforme a hora, o dia, a oportunidade, o acaso, o balanço do mar. E tínhamos gordos e morenos, tínhamos bonitas e psicóticas, tínhamos assanhadas e loiras, tínhamos e nem dispúnhamos, tínhamos ou nem tínhamos boas e tímidas. Nossa sala do terceiro B era um zoológico mais variado. E também um parque de diversões com palhaços, dançarinas, vendedores de algodão-doce, macacos amestrados, rodas gigantes, balão de encher, mão boba joão-ninguém e maria vai com as outras. Tínhamos os altos e baixos, nariz adunco, míopes, novos e usados. Tínhamos quem chamava a polícia para prender o marido e, no mesmo dia, o perdoava, o beijava na boca na frente de todo mundo. Tínhamos quem expulsava o amante que nem queria trabalhar e nem ajudava nas contas com o filho. Tínhamos uma menina chamada Aruana natural de Ji-Paraná e de olhar e olhos de gelo. Tínhamos uma capixaba que falava cobras e lagartos do irmão vadio que só a procurava para pedir emprestado ou filar um almoço. Tínhamos um cultivador de peixes, pirapetinga, abotoado, timburé, barbado, curimbatá... nos aconselhando para uma alimentação mais leve mais saudável, lá dos lados do bairro Caravággio, menos gordura carne branca o alimento do futuro e das pessoas chiques. Compartilhávamos com Flor-de-Maio sempre muito bem na moda que era amante do deputado estadual o Imburi Oiticoró e trabalhava somente mordomia no período da tarde lá no palácio Anchieta. Um dia o pessoal foi informado que um presidiário estudava na última carteira a dos fundos. Mas pra quê, meu! Olha só o perigo o incômodo a situação, cara! Um tipo louco que matara o pai a machadadas e do nada virou nosso colega de classe, nosso vizinho de carteira... qual que é?! Que palhaçada! Que ousadia! O doidão era bem quieto e nem se misturava. Nem falava com ninguém e só respondia quando perguntado e muito seco direto e reto. Mas peraí, né?! Nem se enturmou. Um certo dia interrompeu nem apareceu mais nem veio mais o que foi feito dele o que foi um alívio geral.
            Mas eu eu mesmo procurei tive de tirar uma boa nota dez em física.
                                                                       ***
            As coisas acontecem e pronto. As coisas todas acontecem. As coisas da história da gente, nem é?!
            É assim mesmo, pensava.
            Sonhei certa vez que o time ganhara de três a um. Final de jogo e o adversário já tinha sido eliminado liquidado. Três a um, e cada gol, meu!
            O jogo mesmo de verdade fora um a um, quase acertei. Mas o meu time, foi de vero, perdera ótimas e importantes chances de gol e de triunfar.
                                                                       ***
            Minhas dúvidas nem tinham finalidade alguma. Nem eram humanas. Eu nem criava nada. Eu só me enrolava de sonhos e visões e desejos e teimas e manhas. Nem eram pessoais. Nem eram passionais. Os principais amigos eram dois ou três, no máximo.
            Ela Enig mal e mal sabia de mim, eu sentia.
            Nesta minha terra, esta cidade, este lugar, onde vim parar por um acaso dos mandos de D, onde nasci, para onde voltei de reencarnação, nem há circo nem cinema nem trem nem avião. As pessoas se distraem com cerveja e namoros e futebol pela televisão. Nem olham para o céu, nem olham para o chão, nem para os gaviões-carijós, nem para o rio da Prata que tenha lá o volume que tiver. Elas se voltam se viram como corujas-buraqueiras todas para o mesmo lado a mega-sena acumulada.
            Mas naquele dia cedo eu achei mais ou menos isso, e só um pouco diferente. Menos as árvores, é claro.
            O sol colorindo o vento balançado sistematicamente os cachos cabelos cachados da guria anônima. Que todo mundo passar foi ver.
                                                                       ***
            E Enigmática gostava? Todos nós achávamos que ela gostava de todos ao mesmo tempo. Ou seja, cerveja. Na sala de aula ela sentava na primeira carteira. E a ideia fixa de que Enigmática era tudo, e tudo mesmo, tudo para nós e para mim, esta certeza me espantava. Esta incerteza nem me deixava um minuto de dúvida. Então, pra falar sério, normal nem era. Ou seja, ninguém.
Eu olhava minhas colegas de aula e olhava particularmente Enig. Eu procurava a cor dos olhos, a forma das bocas e de todas. Cuidava se os cabelos eram soltos ou ruivos. A maneira das beldades se acomodarem na cadeira. Os cotovelos na carteira ou os joelhos fora da saia, quando de saia ou vestido. Quem gritava na hora das provas, quem rezava baixinho, quem nem vinha para a sala de aula. Cabelos encaracolados e soltos, lisos, duros, grossos, assustados, bonitos, femininos. Eu fazia as contas e calculava. Tinha uma que mal aparecia e quando reaparecia já-já o namorado, ela vinha pro colégio apenas para esperar o namorado, vinha buscá-la.
            Enigmática um dia ela mesma. Outro dia música. Uma melodia desconhecida, mas ótima. Uma composição de levar de bandeja qualquer um para o sucesso.
                                                                       ***
            Era como se eu tivesse levado toda a história até ali sem me preparar para o pior ou para outra parte ou para outro passo ou para qualquer coisa. Eu tinha que mudar de ares. Mudar. Sair fora. Viajar. Procurar o que encontrar noutro lugar. Quem sabe com outras pessoas e outros ares e montanhas e rios e artes. Um adeus e outras deusas. Novos mares, novos conhecidos, novo ânimo, novo rumo ao acaso.
            Fui procurar a Beberibe. Fomos ao cinema. O filme era um grupo de soldados passando de vilarejo em vilarejo pegando ou requisitando cavalos e comidas e mulheres, enfrentando jagunços, montanhas, pântanos, caatingas e gândaras. Talvez fosse a Coluna Prestes, nem recordo direito. Levei a mina pra casa dela e a beijei na despedida. O portão de ferro entre a gente rangeu, sem graça, de cada um parcelado.
                                                                       ***
            Dia de garoa, chuvinha constante que mais molhava que caía. Um pé de pequizeiro com pequis amarelos atraiu mil passarinhos, carregado de frutas maduras saborosas e doces, atraiu mil aladinhos. Um milhão.
            E eu e você e todos nós, e os seres falantes em geral, o que viemos fazer aqui do outro lado do planeta? Viemos a este mundo para caminhar à toa. E plantar árvores. E virar de vez em quando árvore pássaro outros bichos.
            Se eu fosse prefeito desta cidade eu compraria terrenos baldios e plantaria árvores para colher passarinhos incidentais. As árvores nem fiam nem tecem mas nem incomodam.
                                                                       ***
            Final das aulas, oh!, fotos de língua de fora, guampas na cabeça, risos de mais x, sentados na escadaria do colégio NSAparecida. Troca de presentes, amigo secreto, amigo oculto, amigo revelado, uma barra de chocolate e um livro de autoajuda. Formatura, ensaios, mão na bunda da Jari, calça social eu nem tinha, sapato preto pedi emprestado, gravata nem ia usar já que nem havia colete.
            Logo depois tomamos uns espumantes no clube SECarandá. Cada qual dançou uma música pelo menos com cada qual. Oito tortas de sabores, entre elas as duas de chocolate nega maluca, nem duraram mais de doze minutos. Mais cerveja e arrasta-pé. Beijos roubados, beijos solicitados, beijos demorados, encomendados, implorados, caçados, beijos selecionados, carícias e agrados e selinhos. A Enigmática muito escondida quase sempre do lado dos pais debaixo das asas dos pais. Foi tudo muito mais ou menos bem. Nem aconteceu nada. A Guaruba chorou um pouco mais que o esperado e já era consolada de todo jeito e agrados e mimos.
            Vi a guria me preparei um milhão de vezes agilizei pensei durante dias apressei o passo corri quando era para ir devagar fui lento quando era para correr havia cadeiras e mesas e gentes na linha reta na minha frente e quando a alcancei no braço peguei puxei com força suado nervoso assustado... quer dizer, melhor... cheguei por baixo rasteirinho e a convidei baixinho como um ratinho...
                                                                       ***
            Quando que foi um sonho eu garanto. Puxei a campainha para descer do ônibus. O bicho o latão o lotação parou de supetão. Parou de repente e fazendo ferros ranger. Como eu estava no segundo andar, tive que ter cuidados para descer pela escada em espiral, nem tropeçar e coisa e tal, carregado de bagagem, as mãos ocupadas. Onde eu vira um ônibus de dois andares? Olhando para baixo parecia um poço de elevador e muito fundo, tão perigoso tão rigoroso. Resultado que eu vacilei e fui me cuidando muito e devagar, devagarzinho. O motorista, impaciente, impessoal, nem deixou que eu chegasse à porta. E partiu, arrancando firme e aos solavancos. Fui desembarcar somente lá na frente, na outra parada, praticamente no bairro vizinho, na rua Riachão do Dantas. Tive que refazer todo o caminho.
            Nem falei nada ninguém falou nada o ônibus continuou nem consegui entrar em casa eu acordei aí.
                                                                       ***
            Pois eu ia viajar no ano seguinte. Próximo ano. E para donde? Para fora. Para dentro da aventura, ao encontro do lugar escolhido. Mas para além de mim, da cidade de Cantagalo, Magé, Estrela, Três Passos... do país, etcétera e tal, isso sim senhor. E o mais tardar amanhã, ano que vinha vindo ali.
            A dúvida viciava e fazia mal. Desconfiava de mim, do mundo, dos etês de Varginha.
                                                                       ***
            E vieram as pragas sobre a cidade as que arrasaram tudo e todos. Primeiro uma tempestade de granizo que durou meia hora e destruiu todas as plantações de milho, soja, algodão, gado e destelhou casas e instituições públicas.
No outro dia todos comprando telhado novo e foram admirar a lavoura em petição de miséria. E era forte olhar as ruas com entulhos nas calçadas. Olhar as casas sem chapéu ou sombrinha. As hortas bombardeadas. A terra do fim de uma era. A terra com a extinção dos dinos e atacada por meteoritos frios.
            Dois dias depois chegou uma chuva mais forte e nem parou mais. Choveu o que D mandou e foi muito. Nem se podia sair lá fora. Tudo úmido. Tudo alagado. Tudo inundado. Um novo dilúvio, minha gente! Chuva e vento forte de rajada. E que pena olhar as ruas lavadas, abertas em rios de águas barrentas, canoeiros buscando ilhados, animais mortos rolando na correnteza, árvores aos pedaços. Olhar as casas murchas e aguadas e inundadas. As plantas amassadas e retorcidas. As plantinhas de folhas baixas e queimadas. Os cachorros molhados, gripados, acuados, perdidos como cegos no tiroteio.
            Mais uns dias e apareceram os primeiros doentes. Pessoas com febre corriam até o posto de saúde que ainda estava destelhado. E outros e mais outros. E virou uma endemia. E causou pânico. Os mosquitos da febre amarela. Os saqueadores noturnos. E o socorro que nem vinha que nem existia. E ninguém estava seguro. Uma amargura ver as ruas desertas de trânsito. Olhar as casas fechadas e escuras. As plantas perdendo as folhas. As gentes e animais e plantas morrendo de frio, batendo os dentes, encarquilhados, deixados abandonados em decúbito dorsal mãos agarradas ao peito com rosário entre os dedos. O exército acampado, prestando socorro, improvisando hospital no meio da praça em frente ao palácio Buriti.
            Mais dois dias e chegaram do céu os urubus-de-cabeça-amarela. Asas bem abertas. Veio um vieram dois chegaram vinte um e de um em um num fim de semana e já eram mil e duzentos carniceiros no mês. Foram milhões. Revoaram pelo alto do céu com as correntes quentes. Pousaram nas árvores mais altas que encontraram, sete-sangrias, boca-de-sapo, calumbi, bacuri... Pousaram nos muros e nas cumeeiras destruídas das casas das garagens. Pousaram no chão. Galinhas pretas e sem graça. Pousaram onde preferiram. Piaram também à vontade. Procuraram os mortos da peste, comeram tudo que apareceu, arrancaram pedaços e brigaram arrastando as entranhas. E foi mesmo muito abichornante olhar as ruas tomadas pelas aves de preto, passeando sem ninguém as molestar, pescoços pelados, bicos curvos, caras de famintos predadores da morte. As plantas magras carregadas de urubus-reis.
            E os urubus vieram para o almoço, para o jantar, para o café das quatro da tarde, para ficar. E os urubus vieram com amigos urubus. E os urubus vieram com família e parentes e aderentes e contraparentes. E tudo foi um bom manjar um bom restaurante ao ar livre campestre improvisado.
                                                                       ***
            Já era a terceira vez que me convidavam. E na terceira vez, então, eu fui. Eu, primo Mbéru, primo Imaruí. Total: caçar jacupemba. Alguém vira jacupemba na horta do seu Uruaçu e meus primos ficaram assanhados e me convidaram insistiram encheram os tubos. Na terceira vez eu fui, só de curioso.
            Nós tínhamos 15, 16, 16 anos e o Ibama nem tinha nascido efetivamente. Uma terça-feira à tarde, tipo 3h e 33min, partimos. Fomos a pé, de carro, de barco, de asa-delta, a cavalo...
            Eu e meus primos nunca que tínhamos visto um jacupemba uma jacupemba. Com cada qual com sua espingarda e chumbos de guerra. Fomos a pé de galochas que era por perto e o mato sujo e fechado. Sem guaipeca.
            Meu primo Imaruí disse e ficou falando:
            - Vou fazer um gol nessa casa aí... toffffffe!... goooool!... ahhhhh!...
            Ele chutou a bola imaginária na direção da casa - imaginando que a casa fosse uma goleira - e fez os ruídos e tais do chute, narrou o gol e comemorou, até pulou socando o ar, comentou, elogiou, deu entrevista. Ele era fanático de futebol e o time dele era muito fraco.
            Nunca que tínhamos visto um jacupema e seria ótimo. Nós nem tínhamos medo de jacupeba. Jacucaca era pouco. Só o bom mesmo o de acertá-lo.        
            Naquele tempo da caçada da jacupemba, nem tínhamos celular e nem como comprar futebol na tevê a cabo, até porque nem tínhamos tevê a cabo e nenhum telefone portátil. Mas, ali no meio do mato, tínhamos cachaça, uma garrafa para cada um e isso bem a tiracolo. Uma cachaça da boa engarrafada em São Leopoldo pelos freis franciscanos ou jesuítas, sempre confundo.
            Chegamos finalmente num lugar carregado de laranjas maduras e amarelas e apetitosas e pedindo. O primo Mbéru, mais magro e nervoso, trepou numa laranjeira com laranjas de umbigo. O meu primo Imaruí puxou o canivete. Uns joões-de-barro gritaram alarmados. Uns quero-queros voaram baixo e na nossa direção. Uns flamingos ave do Amapá.
            - Laranja com cachaça nem vai fazer mal?
            - Que esperança!
            - É que nem limãozinho!
            Descemos uma canhadinha e passamos por dentro de uma sanga. O tais e quais cipós-d’água atolados no alagado. Ouvimos curiosos os tartareios dos periquitos-verdes e o pio sempre afinado do sabiá-do-campo marcando território. Um casal de cajubins falando baixo e animadamente lá entre eles embaraçados nas moitas de macambira-de-pedra. Uma trilha já batida desviava do mato e seguia para o capoeirão, ex-roça de milho mandioca amendoim. Ouvimos gritos de macacos saitauás, muito raros por aí.
            Aliás, o vento dançava com as poucas árvores altas ali na capoeira. Um casal de tesoureiras, de olhos vigilantes sobre nós, pousados solenemente no último andar do guamerim velho barbado de barbas de velho.
            Então, ouvimos um pio no meio da capoeira, lá para aquele lado de lá, e já entendemos tudo:
            - É jacupemba!
            - É o jacupemba!
            - Uma jacupemba!
            E o assovio do jacupemba vinha chegando pelo meio da capoeira e parecia estalar galhinhos secos, pisar nas folhas secas, empurrar pedrinhas soltas, vibrar raminhos verdes de juá-listrado de erva-cidreira-do-mato. Os artilheiros nós aqui nos ajoelhamos ficamos nos joelhos rezando.
A tarde caía seu vermelho acaju e era ainda até bem clarinho. Aquilo era para esperar e esperamos. O mundo parecia redondo no horizonte. As nuvens passavam muito alto e ninguém dava um pio.
Sem maior aviso detrás de umas jarrinhas-de-franjas apareceu a crista de pena alta da testa do jacupemba, topete rudimentar, e atiramos nós três de trio ao mesmo tempo, te-te-treeeu!...
            - Que jacupemba que nada! - desabafamos nos entreolhamos, os 3 de olhos arregalados e as testas crispadas.
            O chapéu de penacho do jacupemba voara longe. Um grito de pessoa humana mais ou menos atingida de raspão na cabeça. E corremos socorrer o estrago no jacu-velho alvejado.


sábado, 1 de dezembro de 2012

Meri Elen na Paisagem


       

       Eu sou o rio passo por aqui toda hora todo ano e corro as estações, embora, até o oceano pororoca contra o mar. E eu e você e nós e é ver Meri Elen na paisagem. 

       Meri, Meri Elen estava de arigó na fábrica de amendoim Abaruna, distrito de Botocudos, cidade de Vargem Alegre, Paraná. Nove horas diariamente completadas como uma mariposa voejando em torno de uma máquina ensacadora amparando limpando agilizando vigiando lubrificando aprontando trocando. Ela ficava ali como chegara como estava como todo dia e mais nada apenas nadando no molho sem fim nem começo do seu passivo interior enigmático, infiltrada de sonolência.

       O sorriso analógico.

       Como sempre, Meri ousava com seus olhos verdes e cabelos negros presos em rabo de cavalo cor bronze da pele pernas longas com às vezes um diadema para segurar a franja irrequieta. O corpo desempenado planejado as mãos nos bolsos as mãos nos quadris os braços cruzados os seios voando na frente olímpicos. Naturalmente com as unhas entupidas de poeira de semente e de gordura e de óleo. Se vestia como homem maquiagem pesada olhos riscados com sombras fortes e escuras dando nítida impressão de guria carismática olhar 3x4 e da mulher fatal. Com calos nas mãos nos pés sapatão o tempo todo em pé e cansada e faminta.

       O sorriso infraestrutura.

       Eu sou o rio e sempre e honesto já disse. Corro por todos, por mim, por você, por nós, por Meri Elen. Eu não tenho memória e tenho todas as outras coisas. Antes durante e depois é comigo. Você caminha por si mesmo. Porque ambos estamos no mesmo lugar e andamos.

       Mas impossível, olhando bem e tirando o encardido da pele, as horas de cansaço, a pele picada de borrachudos e de moscas e de carunchos e de formigas, se via que Meri poderia ser bonita e muito linda e uma beldade.

       De uma página do diário oficial de M. E.:

       "Sou quase sempre assim. Chego em casa e aumento o som. É pouco. Sou movida a rock pauleira, pedreira, pedradas, pedras do neolítico, chuva de granizo. Solto os cabelos e ando pela casa fazendo as coisas ordinárias. Não tenho guitarra vou de rock mesmo, pego a vassoura e power power. Na frente do espelho da sala eu executo e sacudo a cabeleira pro meu público virtual delirar. É rouco. Comprei esta pulseira e me agradeço, obrigada. Nem rock nacional nem rock latino nem rock português, o meu rock é power, é muito pesado, é muito metais, é muito suicídio. É louco."

       Os homens olhavam para ela e não acreditavam e não desligavam e não queriam mais viver e se desesperavam em pânico, batiam na cabeça com a mão fechada viravam a cabeça como fazem as corujas-buraqueiras batiam com a cabeça na parede mais próxima surtavam de ciúmes; de tão linda e distante e perigosa e deslumbrante: ela parecida.

       A minha sorte de viver como rio. Passo por dentro daquela hidroelétrica e faço acender algumas cidades aí. O meu leito é de areia e pedrinhas redondas. Passo agora e é bom demais. Eu me rolo porque o mundo é quadrado. Conto as cidades nos dedos e você é uma delas. Anoto os lugares do país e você é um deles. O vento batendo na copa das árvores com os ventos, etc.     

       Meri não terminou o ensino médio. Gostava de História e Geografia e meninos de cabelo curto e olhos azuis ou verdes. Mas ouvia bandas o dia todo no celular. Sempre aqueles rocks nervosos impulsivos furiosos famigerados. Então, ela ficava também possuída e abria a camisa e se agarrava e pulava da cadeira do sofá do degrau da escada. E tinha o diário que escrevia de vez em quando à noite ou nos fins de semana, quando apertava as saudades de quê, saudades de uma sorte que continha que perigava que transitava que permeabilizava:

       "Amanhã é natal e logo depois o ano novo, vem o verão e o carnaval. As manas me enlouquecem com seus gritinhos parecendo uivos de cachorrinhos abandonados. Casa de pobre quarto de pobre beliches de pobre e minhas irmãzinhas não ligam para os pufes... que largam no ar. Por que não nasci uma jabuticaba, por que não uma jabuticabeira? Por favor, meu, eu queria ser menino com nome de índio de pássaro Tapiranga!"

       Quando eu vou eu vou sem acidentes e sem incidentes e sem novidades porque eu sou o rio. Eu mesmo me cuido e me navego e me levo. Tenho os verbos do tempo na palma da mão. Viajo de canoa viagem divertida corro entre matos descanso num remanso olho uma restinga canto na chuva gargarejo na sombra entre pedras basálticas. Já conhece o Itaimbezinho? As capivaras correm para mim e me abraçar. Ariranhas mergulham riem e se penduram nos barrancos. Homens e mulheres se refrescam passeando de pés descalços e espantando garças-de-cabeça-preta. Eu sou um rio e meu rio é longo e inverso. Os curumins e cunhãs da tribo macu-camã brincam de mania de pular do trampolim dos galhos da cabiúna-do-campo. Os macacos bugios comem frutas dos galhos das árvores e deixam cair para a festa dos maparás. Um chirriar de irerês. Bando de papagaios-de-peito-roxo almoçam a minha direita e dormem a minha esquerda. 

       Um dia o gerente da fábrica chegou exatamente quando do intervalo para o almoço. Um seu Pita Jaguané de óculos muito escuros, sem bigode, barriga proeminente, roupa limpa, gravata de grife e limpíssima camisa polo azul com o bolsinho de outra cor cheia do celular. De repente este só queria ver os olhos dela, da impressionante Meri, olhos de felina, olhos de mistério num poço. E Elen tão linda tão linda que dava um nervoso de rir e de não sair de perto e de vício e de hipnotizar e de viajar e de imaginar tudo de bom.

       O sorriso gázeo.

       Meri comia chupava uma bergamota diante da televisão na sala de recreio. Tinha dentes ótimos. Toda suada, roupas do uniforme manchadas de graxa, a touca para segurar o cabelo, comia com a mão trêmula pelo esforço do serviço. Ela sozinha pensava uma palavra: Positivo.

       (Nuvens pianíssimas tocavam flautas ou eram oboés,

       Aeronaves redondas zumbiam luziam mirabolantes de Marte,

       Oito casais na sombra da canjerana discutiam o tintim! do caroço da camuá,

       Uma japira beijando a boca no espelho retrovisor.) 

       Sou um rio acostumado ao meu destino ao meu gosto ao meu comando ao meu instinto ao meu sorriso. As arraias-de-fogo farejam o fundo do meu aquário. Acompanho um matagal onde umas araucárias predominantes se agigantam se elevam como taças, assim, extraterrestres e imperiais e impessoais. Revoluteio por entre o resfolegar da sempre-lustrosa, o mexerico da gameleira, o sobe e desce da taiuiá-de-cipó. Conforme ouço o chiliar do chupa-mel, ali assobio da lavadeira-de-cabeça-branca, chirriar do japu-verde, arrulhar da pomba-galega, andar da anhuma, tatalar verde do coqueiro-guariroba, gargalhada do anambé-branco-de-bochecha-parda. Sou como o irmão rio Bagagem, assim-assim mais ou menos gueguê-guê.

       Lá vem a lua, lá vem! Noite de lua trepando. O satélite contornando o quarto da terra. Entre antes e depois as estrelas comem pipocas ou amendoins ou bombons recheados de cupuaçu. Já ficava tarde e saíram dormir no meu veio de rio.

       E o gerente com a garganta seca, o espírito em polvorosa, a carne em frêmitos de febre, esperou a guria de dezessete anos completar dezoito e levá-la até em casa. Ele tinha os dias contados como todo mundo, e Meri tinha os dias contados também. O jeito dela sorrir, então, o sorriso mais bonito da fábrica, o formato do rosto, os olhos, principalmente, a harmonia parecida.

       O sorriso parabólico. 

       Meri Elen foi no carro conversível, um vermelho ou bordô com tudo elétrico, os longos cabelos jogados fora para o alto para trás esvoaçantes e sensacionais e engraçados, e se sentiu mole. Um dia como sempre foram bonitos os cabelos de Meri! Meri morava tinha a sorte com a mãe e três irmãs menores, total estrela de cinco pontas.

       O sorriso perolado.

       Pita ligou o rádio nas últimas músicas de sempre a estrada a paisagem o vento as malícias virentes cento e vinte por hora mais ou menos. Ele olhava para ela Meri intermitentemente e sorria e falava muito em outras coisas. Pita prometeu ajudar a família e remediar o mundo todo e cumpriu a promessa.

       É isso. Meri carecia de aventuras, de invenções, de escolhas, de oportunidades, de opções. Meri Elen sorriso de Meri Elen. Meri era ela mesma e tinha a sua própria sorte com esse mundo. Meri tinha uma sorte e queria rever essa sorte numa ou noutra reencarnação, se possível, se necessário.

       Sei mesmo alguns lugares de cor, por passagem, já faz tempo, por desaguar naquelas paragens, Uruaçu, Jataí, Pouso Alto, Santa Rita, Serra Dourada, Santa Leopoldina, Gameleira de Goiás, eu sou rio enquanto líquido ambulante, em Morro Grande na época dos tropeiros parou uma mula e não conseguiu mais andar travou das quatro rodas foram ver e ela empacara por carregar um santo Antônio e todos se ajoelharam e fizeram uma capela para o protetor que mais tarde virou santo padroeiro do lugar da comarca.

       Elen aceitou o gerente como amante porque sua mãe lhe fez ver e aconselhou e recomendou e apoiou e orientou. E de fato ao longo do tempo Meri não se arrependeria muito. Calculando todas as coisas em prós e contras. A mãe deu seu último pitaco e depois calou, falando mais precisamente em confidência de mulher para mulher e pelo menos uma vez na história:

       - Olá! Meri Elen, ele vai querer cabelo barba e bigode e você pensa bem porque no fundo o lugar é todo somente teu. O homem todos eles é um bicho formigão não pode ver buraco que depois pra ti não tem volta, compreende?

       A primeira vez de Pita com Meri saiu todo arranhado. A primeira vez de Meri Elen com Pita oitenta e oito quilos e lábios secos e vontade de tomar chá de gravatá-das-rãs.

       O sorriso abruptamente.

       Sendo eu rio em Estado do Pará, regressei hoje mesmo de lá para cá em viagem de 2 a 8 dias. Ali do meu canal vi o mato encorpado e compacto e elevado. Deixei uma ilha de Tinharé e um lago Dumbá, para trás. Estou à vontade e escolhi o meu ritmo. O tal de tropeiro-da-serra canta porque procura uma família. Canguçu ronca para marcar território.

       Pita num dia de sol na piscina do hotel em Olinda, Sergipe, dizendo com boca de suco de abacaxi e a sorte barganhada:

       - Meri! Você é um anjo que desce e sobe e desce do céu, da terra, nasce das águas, etc.

       - Se você me gosta tanto, então, me tatue!

       O sorriso preciso.

       A família gostou muito dos negócios que iam remediando. Estridulavam birros no alto do jatobá junto à cerca. Chegaram cestas de alimentos, luz elétrica, geladeira ecologicamente, roupas de cama mesa e banho, tevês de plasma, computadores portáteis. Estrilavam avoantes na sarobá depois além da cerca. Muito passarinho quicando pendente de hastes de capim-da-colônia, capim-marmelada, cunabi, campainha-branca, anchieta, batatinha-do-campo de cá e de lá da tal cerca de arame farpado. Todo mundo da casa passou a comer iogurte beber refrigerante tomar banho quente diariamente mandar recado pelo feicebuque. Meri mudou mudou a família mudaram e viraram gente de outro estatuto. 

       O sorriso ecumênico.

       A missão de Meri era ser linda. Positivo. Demais a mais frequentar uma faculdade para ter o que fazer e o que pensar e onde ir. De carro, claro. Pintar o cabelo embora não precisasse. Por causa da vaidade. Disputar o concurso de miss cidade. Um exemplo.

       Era manhã emergente e eu descia em cachoeira cascata catarata degrau. Meio de longe avisto a serra do Lambari me acompanhando um bom pedaço, mato de landis arubatãs sarãs jaguaranas louros-tamancões, o irmão rio Corrente pela ala esquerda. 

       Do distrito de Botocudos ela foi montar apartamento na cidade mais ou menos grande da região e sozinha Muquém de São Francisco com 300 e tantos mil habitantes para perto de 400. Por ali morava muita gente e agora ela também. Edifício Araé oitavo andar pela avenida Araripe Júnior um vaso de jasmim-do-mato no corredor para o elevador e vice-versa.

       Uma vez Meri Elen escreveu no diário de bordo o que aconteceu num passeio com Pita, se falaram a dois dedos um do beiço do outro, trocando hálitos de doce de pequi:

       " - Tá vendo aquela bandeira ali atrás daquele prédio antigo e alto e neoclássico?

          - Tá, tô!

          - É a nossa bandeira nacional brasileira meu povo, positivo?

          - Por quê? É dia de sete de setembro?

       Me lembro porque era um dia como hoje de sol quente forte e agora rebrilhando na vidraça da sala fazendo um calor as cores todas do arco-íris... depois eu explico melhor."   

       O sorriso incidental.

       A lua terminou encontrando um enxame de nuvens, as nuvens entupiram estrelas, apagaram as luzes a tevê no quarto de dormir, o sol desceu pela parede, o mar escapava e retornava no oceano, o Pita (ele, sim) despertou perto da Meri (ela, não) dos cabelos acajus e baratinados.    

       Elen acabou se interessando e querendo mais ir ao cabeleireiro e passar toda a tarde lá. Tudo bem. E curtindo seus vestidos novos, acessórios, sapatos, meias com figurinhas e amigas para telefonar. Uma vez por  mês acompanhava o namorado em passeios pela capital do Estado uma vez por ano na capital do país e quem sabe quem sabe no fim do ano uma justa escapada na capital do mundo. O que custa o melhor hotel da Avenida Paulista em São Paulo São Paulo.

       E Meri foi perdendo aquela mania de pobre por favor desculpa obrigada as suas ordens bom dia sorria você está sendo filmado como vai se Deus quiser e ele há de querer.

       O sorriso experimental.

       Esses dias eu voltava do mar, e meio aéreo, vaporoso, nublado, subindo baixo a encosta abrupta da serra do Mar, entrando mais no continente já na serra do Pilão, quase em nuvens carregadas de chuva, me precipitando ali por volta da região de Apiaí e enchendo o rio Manuel Alves, rio Tubarão, rio das Mortes, rio Piraí, outros, de cima a baixo, etc., é que eu venho embora e porque sempre retorno vou em rios e volto em nuvens.

       Foi que recomeçou os estudos ou mais ou menos. Não deixava de telefonar para casa mas raramente ia lá. Os fins de semana ainda eram do ex-gerente agora namorado ou amante, as baladas e os jantares e as viagens e os vídeos pornôs.

       M. tinha o sorriso perolado. O quê? Como umas pérolas. Ah, é?! O sorriso Meri. Igual de umas opalas. Como assim? Da cor dessa pedra, a opala. Pura sorte Meri Elen. Um sorriso aperolado.

       Tomo uma medida de sol aqui mesmo nessa itapeba enfeitada de musgos liquens artrópodes. É bom. Árvores faladeiras mexeriqueiras resmungonas, cabelos ao vento, uma cor e uns tons apegados à sorte de verde, mapixi carajuru gameleira-de-purga fruta-de-lobo lixeira flor-de-maio suma ginjeira-da-terra uvá capim-gengibre.

       Meri ainda não lambia a axila do namorado. Talvez daqui um mês, um ano, talvez nunca embora. Os seios sublevados. Os seios do tamanho da mão, embora, maiores que a boca do freguês.

       Ela parou diante do espelho grande do quarto e desnuda e fez um solo de guitarra o som tremendo a casa toda o prédio todo, etc. Tocava a guitarra com tesão, como se fosse tocar uma com os dedos mais dedos... se fosse homem pegaria na mão do cabo... embora, fez um esforço danado, se atirou no chão, rolou, quicou pelo chão, rolou mais e gozou. 

       O sorriso fisiológico.

       De onde se avista o mar, posso dizer, eu passo passando pela serra de Paranapiacaba, etc. Eu sou feito de água pura, você sabe eu sei todos nós sabemos. Sapipocas pirararas arurás tubaranas nasceram crescem sorteiam e povoam o meu país. Bonito apelido esse de Paranapiacaba, hein?!

       Ela queria experimentar pular de paraquedas, pular de parapente, pular de asa-delta, mergulhar fundo em Abrolhos e na enseada lá da ilha Fernando de Noronha. Precisava como ninguém de autoafirmação confiança coragem poder de iniciativa se sentir solta independente desimpedida liberada desinterditada desobrigada viajar sozinha e dar um passo a frente.

       O sorriso locupletado.

       O diário abre as aspas e os anzóis e Meri fala pelo que escreveu se confidenciando:

       "Saí do banho e não me sequei pois fiquei debaixo do chuveiro duas horas. Já fui me deitar na varanda debaixo de um sol quente do tamanho de uma lua aquarela. Para falar a verdade eu queria ter sardas pelo corpo pela pele e cabelos vermelhos e pelos vermelhos e cabelos trançados. Eu até queria ser um menino pra mim mesmo com o nome indígena de pássaro ou ave Acanati-de-Bico-Verde. Agora lembrei, agora. Vou tatuar na perna direita essa uma rara e lendária ave pessoa superior mais imortal de quinhentos anos vermelha carrega um elefante põe ovo no alto da palmeira do Egito assim como o sol no seu ir e vir."

       (O tempo sempre tem escamas de itapema,

        A ponte sobre o rio de itamaracás suspensas,

        Alma que os dedos no vento das nuvens,

        Já os translúcidos azuis em raios de sol.)

       Na altura de Miracatu há muito jacaré-de-papo-amarelo, ainda bem, nas proximidades de Bujaru a reserva dos índios xambioá, ainda bem, na ilha Caviana profusão de maguaris mucuras ariranhas agriões-do-pará taguás, do parque dos Aparados da Serra o rio Urussanga e o rio Mãe Luzia desde ali me acompanham, em boa hora.

       Um céu maior e sem igual de azul plácido domingo. Por que o céu por que o azul ninguém sabe ninguém viu. Apesar do dia passageiro, o resto estava como Deus sempre quer. Tudo presença de Deus e perguntas.

       Meri E. a voz um pouco rouca, rouca de um certo modo gostoso natural dela e ótimo de se ouvir, os olhos, ou melhor, as pálpebras um tanto cerradas ou baixas ou semicerradas naturalmente que dão um charme um fascínio e um estilo de quem tem alergia ao sol ou muita claridade nos olhos, bandida, por exemplo, etc.

       A estonteante Meri fundou várias lojinhas em shoppings da cidade. Uma loja de bijuterias caras. Uma loja de comidas para cães e gatos e pássaros exóticos e peixinhos ornamentais da Amazônia legal com autorização do Ibama. Uma loja de roupas íntimas de rendas de bilros importadas do Rio Grande do Norte. Uma loja de roupas de verão com chimarrão sempre quente na térmica e biscoitos de polvilho na bandeja.

       O sorriso comercial.

       Meri sempre gostaria de se chamar um pássaro ou árvore na língua da tribo manitsauá, por exemplo. Ela foi ali e pegou a uva pegou o araticum-cortiça pegou a banana escolheu a maçã e mordeu com casca e tudo. Andou pelo quarto pela sala até perto da janela, só de bermuda, de tope. Se chamar pássaro Uracaçu e ter um pedacinho a mais de chocolate. Todos os dias pareciam domingo. Um dia ela vai e acorda com vontade de ler um livro e lê duas páginas e vai e liga a tevê e troca de canal centenas de vezes e vai e entra no feicebuque e vai e se debruça na janela da rua para ver o trânsito fluir.

       "Hoje é meu dia. Estou comendo essa maçã e escrevendo isso nesse diário. O resto estão todos bem. Você acha que é, você acha que sou? Há pouco vi um cara de olhos azuis muito perfeitos. Escrevo com as duas mãos enquanto seguro a maçã nos dentes. Ele me olhou de passagem não falou nada mas como se dissesse que queria muito me... morder. De repente senti essa vontade enorme inadiável de andar de bicicleta, mas eu preciso comprar uma bicicleta. Embora o Pita tenha olhos de outra cor, e daí, nada a ver."

       Um sorriso de um branco mais que precioso, transfigurado, brilho assim prateado, quando Meri ri tudo num raio de duzentos e setenta metros quadrados se ilumina, gota de água puríssima, aperolado, opala de cor preciosa e preferível.

       Choveu parte da noite e eu me enchi mais um pouco nas cabeceiras nos mananciais. No dia seguinte vi o sol às cinco e vinte e dois e a lua às seis e doze. Percorri um dia claro e tais e quais. Rolo dentro de uma caixa de areia e pedras, etc. O que eu destino o que eu oriento o que eu digo o que eu levo é muito por experiência própria. Chego e me distraio com a baía de Iguape. Essas paragens são ótimas e todas povoadas de socós, tuiuiús, garças-brancas, saracuras, colheireiros, biguás. A barra verde do rio Vermelho. Hoje, hoje mesmo, eu contemplei as aves aquáticas nos seus voos pesados o alvoroço que fazem na manhã e no fim da tarde e no almoço, no almoço, e me perguntei:

       Meri querida abriu uma loja de aviamentos lãs linhas novelos agulhas, Meri Elen Aviamentos. Não vingou pois o ponto era distante do centro. Alugou uma peça no centro da cidade e abriu uma loja de roupas masculinas calças bermudas camisas de botão gravatas meias cuecas sapatos cintos. Não durou muito pois a concorrência já estava instalada a bem mais tempo. Inaugurou uma loja de produtos de colégio cadernos lápis canetas borrachas lapiseiras pastas colas mochilas enfeites de aniversário o nome em inglês To Look e durou só um verão. É que o preço bom já vinha demarcado endereçado desde da 25 de Março.

       "Mas eu prefiro lamber ou ser lambida? Eu sei que ainda vou pensar sobre isso. Nada mais a declarar por hoje, tchau! Me falta alguma coisa então acho que vou tomar um comprimido para dormir. Estou sozinha e sem saco para a internet. Amanhã eu vou acordar às dez e depois não sei ainda se vou à praça de alimentação. Eu só queria me desligar de tudo só até amanhã ali pelas dez e meia. Antes que me esqueça, eu estou com vontade de levar uns tapas na bunda. De leve leve. A cidade lá embaixo noturna parece um fundo de mar e afogada. O mais importante que não sei de quem, se do Pita ou de alguém que estou pensando, de quem."

       Unhas pintadas em arabescos em mandalas, um dedo de outra cor ou outro desenho, com pedrinhas que faíscam conforme a luz e se perdem conforme o uso, unhas um pouco longas e tamanho feminino. Sair sem um motivo sem um lugar definido para bater o carro na saída do posto de gasolina.

       Com a loja de bichos de estimação, ela adotou um cachorro de nome Quenquém. Depois de dois meses um gato com apelido de Saputá. Mais tarde um pássaro da fauna internacional que chamou de Charão. Até chegar num peixe decorativo que ficou nomeado de Boró.

       O sorriso papagaio.

       O Quenquém era legal e divertido pois quase não parava de pôr a língua e sacudir a cauda. O Saputá fazia companhia para assistir televisão e trocava de canais e aumentava o volume na conta própria. Charão cantava imitando os pios que vinham de fora ou o gorjeio que vinha do rádio. O Boró nadava e mandava beijinhos e chupos e estalidos de beijinhos e de chupos de debaixo da água submerso mergulhado.

       Boró acordava cedo e despertava com a luz e vinha na superfície sempre que via Meri Elen por perto. O Charão cantava e arremedava sempre que queria comer ou brincar ou sair da gaiola. Pois Saputá acordava para comer e assistir o programa preferido. Quenquém acompanhava a dona pela casa seguia ela até no banheiro uivando o rock de garagem pela calçada até a padaria sentado no carona andando junto ao meio-fio cheirando as plantas da rua não perdendo a dona de vista sociável com outros da sua espécie.

       "Eu sou toda sensações, mas o que é isso de sensações? Depois da chuva eu e Quenquém demos a volta na praça dos Acroá. Enquanto Quenquém, eu fiquei lendo abri o livro na página oitenta e dois fiquei tentando me concentrar na leitura poucos diálogos da Alice Para Sempre. Os japiins-do-mato tricotavam no alto da bracatinga. As plantas gotejavam pingos moles. Paramos na padaria para comprar pão de queijo e melancia plastificada."

       O sorriso melífluo.

       O peixinho Boró tinha todo o aquário para si dois palmos quadrados e água todo dia renovada com enfeites no fundo pedrinhas arca caravela e umas algas que faziam as vezes de moitas. O gato Saputá tinha a caixa de areia no canto da área. O pássaro Charão a bandeja da gaiola ou o parapeito da janela ou a prateleira com enfeites esquisitos lembranças da Bahia de Vitória de Pelotas do Internacional. O cão Quenquém saía acompanhado toda manhã ali pelas onze e meia para a rua perto de uma árvore no jardim do meio da avenida na praça debaixo do guarda-chuva sobre a manchete do correio diário, conforme.

       Quando eu olho para mim mesmo eu me reconheço eu reconheço o céu o sol a cidade a montanha e todo mundo. Eu gosto de barcos de praias de peixes de aves aquáticas. Não sei se eu mereço, mas tenho o tamanho de tudo. Agora mesmo eu faço a curva e almoço na aba sul da montanha Dedo de Deus.

       O pássaro tinha olhos de Boró, o Quenquém tinha olhos de gato, o peixe tinha olhos de Charão, o Saputá tinha olhos de cachorro. Meri Elen tinha olhos e sorriso e focinho de dona de cachorro gato pássaro peixinho.

       O sorriso de Meri parava o tempo parava o ar parava o trânsito parava o país. Como um raio como os raios de luzes naturais sobre a prata ou sobre as preciosas pedras opalas. O sorriso de Meri jogava os longos cabelos para trás e ria. Tique-taques para sustentar as pontas dos cabelos e não pendularem diariamente diante dos olhos. Os homens reparavam distendiam convencionavam nela o que as outras não tinham nas outras faltavam. Quando ouvia barulho o seu sorriso era rocha rock pedras cantando.

       Um dia o aquário ficou tranquilo como água de tanque. Um certo dia o pássaro deixou saudade numa pena verde metálico abandonada no chão da sala de estar. O gato não compareceu ao pires de leite morno na pia da cozinha. O Quenquém saiu com a Meri pela coleira em horário de sempre e foram passear ao longo da rua arborizada Valentim Magalhães ida pela esquerda volta pela direita.

       "Fui no feice e mandei ver os recados aos quatro cantos e para tais e quais. Mas eu gostaria de viver em Manaus, pelo menos uma temporada da minha sorte. Mas eu gostaria de morar para sempre em Brasília, pelo menos uns meses. Mas eu tenho pena de mim que não saio daqui desta cidade nem com reza braba. Do meio dos meus ex-bichinhos de estimação, somente o Boró gostava de rock. O aquário se tremia todo Boró pegava onda a água se oxigenava. No fundo no fundo eu ainda queria ser índio gueguê e chamar Tiê-Preto. Certo, Chapéu?!"       

       Os oito anos já haviam se passado que Meri convivia com o amante e sem maiores pesos ou medidas ou sobressaltos. Cada um sabia o que o outro pensava, cada um sabia o que o outro sentia. E nessa altura o destino quis que Pita se fizesse separar da sua esposa e ficasse livre como um cachorro abandonado numa ilha anônima.

       O sorriso risonho.

       Sendo assim, Meri Elen Jacumaíba mais Pita Jaguané, casaram. Decidiram morar com a família dela, no interior, no distrito de Botocudos. E o distrito a essa altura depois de oito nove anos já tinha virado cidade dois mil e meio de habitantes com outro nome Paiaguá e o mesmo endereço a mesma latitude.

       (O gosto de pegar tudo com a mão,

        Esperando o sol secar igual cavalo na chuva,

        O melhor abacaxi vem do Nordeste,

        Nuvens fritando bolinhos de chuva.)

       As ruas estavam sempre calmas parecendo sempre no domingo de manhã em a nova cidade Paiaguá no bairro Curugu. Os joões-de-barro habitavam com suas gargalhadas assim mais ou menos. As casas de janelas escancaradas, flores em latas velhas de tinta, cães nervosos atrás de cerquinhas de ripas de madeira apontadas e pintadas de branco ou de azul. Carros tomando banho na frente da garagem ou no meio-fio e aproveitando o gosto contrafeito do vizinho para detonar uma certa música que acesa a todo volume. Um mundo com qualidade de vida, bem-te-vi na porta, gambá escondido no teto da garagem, cumaru-amarelo perfumando no pátio, cardume de taviriris conquistando os canteiros de orquídeas e de bromélias, sem dúvida sem demora sem pressa.

       "Estou sem cabeça para escrever ler na internet falar no celular. Sim, eu sei. Assisti um filme e fiquei impressionada, íntima, estonteada, recortada. Estou sem cabeça para pensar, então, eu penso em nada. Estou sem cabeça para dirigir, senão eu ia a algum lugar da cidade fazer alguma coisa que não sei, etc. A história se passava no interior do Espírito Santo, a cidade de Corumbá de Goiás, e narrava que dizia que o casal se separou e cada um foi para seu lado e existir a dita própria de cada um em separado e lá pelo segundo mês ela descobriu que estava grávida não disse nada pra ele nunca mais não disse nada pra ninguém nunca jamais e não se falaram nunca mais e ele nunca ficou sabendo de nada jamé."

       Era aquela noite grande de lua enorme fazendo luar doce e claro como o dia, praticamente. Cheguei a Guaratuba. As pessoas me olham e me curtem. São olhos de todo tipo. Onde no passado era um imenso carrascal hoje é Guaratuba e como cresceu e cresce. Provavelmente amanhã ou depois posso e devo embarcar numa chuva, amanhã.

       O céu achatado. Uns anzóis como aspas no diário de Meri:

       "Acordei, tomei banho, tomei café, fui com o Quenquém ao mercado comprar bolachinhas maria suco de açaí, vi uma porção de rolinhas-caldo-de-feijão espalhadas pelo chão da praça Mandaçaia, preparei o almoço, almoçamos com Pita, fiz chicote do cabelo, fui ao cinema assistir uma comédia, e dessa vez, jantamos com Pita e estou escrevendo este diário e pouco antes ansiosamente de dar que já me está paralisando o cérebro, praticamente."

       O sorriso sublime.

       Aqui me desvio para a esquerda para passar bem rente por esse lugar feliz e raro e conhecer de perto as grutas tão decantadas. O parque estatual Cunhambebe, o lago serra da Mesa. Repetidos sem conta e perdidos pios de urutau. Vou devagar e levando no bojo jurupocas, mandis-chorões, bagres, dourados, piratingas, joaninhas, acarás-disco, piraís.

       O rock invade os miolos e galvaniza todo o corpo num nervoso numa tensão num tesão de carne ossos ganidos cabelos pra baixo e pra trás. Ela esquece tudo e só fica pirada nuns desejos e pensamentos elevados e violentos e velozes, perturba tudo e fica cheia de sorrisos e satisfeita. Falou para o diário, depois, já meio mais calma e pacificada:

       "Eu amo rock! Demais! Tudo! Caramba! É um êxtase uma raiva um power tipo assim de animal na jaula, ira! Meu combustível, minha vitamina, muita adrenalina. As vozes dos caras, vozes muito cavernosas, letras satânicas, linguagens malditas, vozes muito cavas, muito cavas, vozes medonhas, muito central, muito ancestral, muito catedral, ok, cara!" 

       Já noutra manhã, de manhã, ainda, todo o mundo queria mesmo pegar o sol com a mão e ele escorregou para o céu. O novo céu brincando de avião a jato, andorinhas, peixe-frito, alma-de-tapuio, picaçu, japu, marianinha. As árvores crescendo com o vento, espinho-de-maricá, boicaá, bucha-dos-paulistas, assa-peixe, caabopoxi, cará-barbado.

       O sorriso ímpeto. 

       De outra página virada do diário aberto de Meri Elen:

       "Você me parece com cara de quê. E escreve e olha o que escreve e fica escrevendo o que pensa. Eu não te reconheço. Não sei de nada.

       E onde penso que vou, de onde penso que volto?   

       Sou a mesma de ontem. Quero ser a mesma de ontem. Não sou a mesma de ontem e de amanhã.

       Olho esse texto. Tá olhando?

       Olho o horizonte por trás daquele morro do Realengo. Tô olhando.

       O horizonte é um rio. Um rio é horizonte.

       É o que quero ver.

       Pois eu vou me dizer e te digo:"

       O dealbar do dia, jurupensém saltando no meu meio de rio, aves palradoras e gritadoras, teiú pacífico deitado no galho do curuiri. E farfalhando folhas caindo do guajará-branco, do cajueiro-bravo, do nó-de-porco, da beldroega-grande, do gulandim. A favor de quantos, de quem especialmente, a favor do mundo, a favor de um por vez e todos de uma vez. Passa voando a sombra do gavião-tesoura e chiando, pieeeé!... Eu bebo tudo, bebo as pedras, bebo a cidade de Giruá, bebo a minha sombra, o meu rio, bebo a minha maneira de ser. 

       Um ano, outro, mais outros, mais ainda.

       Depois da chuva. As estrelas brilham, os olhos brilham, as folhas verdes, anos-luz brilham, os insetos, as águas brilham depois da chuva.

       O sorriso obsoleto.

       Corro à rédea solta. De um lado terras dos pitaguari, do outro lado país dos pancaru. Passo no meio, desliso macio, sou bem fundo, largo e profundo. O que hoje em dia é pouco, no passado distante passei em meio às guerras lá entre esses. Sou bem tratado.

       Todos embarcam no mesmo rio, e eu cuido disso, e eu cuido, e cuido disso tudo. Conservo minha forma no verão, no inverno. De noite eu ando mais com vagar, sou bem dotado e ouço os grilos, os sapos-ferreiros, o bando de canelas-ruivas, os curiangus.

       Elen amanheceu. Não demorou muito, mais nada, pretenderam um filho. Meri muito mais que Pita. Fizeram de tudo e etc.

       O sorriso futuro.

       "Eu devo emagrecer vinte quilos, quinze quilos, cinco quilos, quatro quilos e assim por diante. Pita já emagreceu dez quilos e pretende mais dez ou quinze. Muito suco de melancia, que eu adoro. Tenho amigos no feice desde o Amapá até a Islândia a Austrália o Cabo Verde, etc."

       As minhas águas rolam, assim como os anos, e eu me levo junto. Sou da cor da terra como a cidade de Santa Rita do Araguaia e Anicuns e Itanhandu. Desliso pelas pedras corredeiras esfrego os olhos e corro. Devo descer mais um degrau desvio pela esquerda e procuro o poente do sol. Sinto vontade de chorar mas desisto.

       Dobro com essa curva para a direita e arredondo a cidade de Couto de Magalhães, terra bastante natural de tapanhoacanga, o morro Pedra Selada, irmão Jauru nos alcança, irmão Tibagi nos acompanha. Corro para o poente, aruanás rezam comigo, a noite é calma e fria, a ponto de. A lua, é meia-noite, cai dentro do meu álveo. Não sei mais o que vejo.

       Meri de barriga alta e grossas pernas pesadas rosto inchado os bicos pontudos os cabelos flutuantes. Se sentou na cadeira de balanço olhando o interior de si a barriga de si o mundo o planeta o Senhor dos mares e das estrelas dentro de si para si. Muitos talvezes e ses. Juntou os três dedos da mão esquerda nos beiços e ficou olhando fixada o olhar parado vazio pensativa em nada no infinito.

       "Deus?! E como se joga esse jogo e fica tudo bem? Me passa um recado. Eu rezo, é ousadia, e Você me passa um enigma. Queria começar de novo. E no princípio tudo era bom. Não acredito em Você, mas agora eu vou rezar, dá licença!"

       O sorriso altíssimo.

       Eu sou o sistema do rio e o céu continua côncavo distante imenso lendário. No mesmo ambiente de ingás-de-flor-amarela, mucujês, pacovas-catingas, favas-de-bolota, os alados cabatatus, araquãs, papagaios-da-serra, papa-capins que ficam disputando em andares diferentes o mesmo dia que inicia com a manhã. Sou a invenção dos números primos.

       Agora também sou o mesmo e sou outros ao mesmo tempo. Passo bem, passo ao largo de Boa Vista da Aparecida, são os dias 12, às 23h e 35min, quase os dias 13 de outubro, como se dizia. Grilos pendurados das estrelas e de cabeça pra baixo tocam dedilham se esforçam a gaita de fole. A cidadezinha tentando dormir como num espelho. Sou calmo paciente e venho da eternidade. 

       Meri e Pita tiveram o menino que puseram o nome de Tarumã, Tarumã Jacumaíba Jaguané. E passeavam com o filho no carrinho pelas calçadas com vitrines e na praça Pindamonhangaba. Dias de noitinha domingos feriados. Passeavam com elezinho no carrinho azul e branco pela rua de paralelepípedos trepidantes da rua Fagundes Varela. E era só eles dormirem que elezinho acordava.

       Noite de duas horas e trinta e sete minutos  quinta-feira do dia nove de novembro a lua no céu com as estrelas em escorpião brilhavam como nunca, Tarumã nasceu vestiu roupas casuais de toda cor foi lá fora correu atrás das coisas foi uma época que experimentou toda sorte de marca de cerveja casou com uma tal de Juriti da tribo dos guajá e foram morar em Volta Grande, não lia jornais não comia alface não suportou faculdade de direito nunca usou chapéu não visitou Aracaju fez a faculdade paga e tardia de administração beijou as duas filhas até os dezessete anos os oito netos à medida que surgiam passou porção de férias na praia Quatro Ilhas, veio a aposentadoria e a viuvez e oito viagens oito anos seguidos até Belém sempre para ver o Círio de Nazaré trocou o quarto carro colecionou um quadro com imagem da ponte Rio-Niterói a troco de decorar a sala de estar, fugiu do hospital para comer uma pizza de chocolate com queijo morreu ladeado por uma estrela e uma cruz às três e oito da tarde de sexta-feira vinte e um de outubro na cidade de Monte Alegre de Goiás capital do doce de murici plena de muricizeiros.

       Eu vinha vindo do interior de Rondônia, passo por campos de gado branco aqui e ali um chupim no cupim marruá escarvando vestígios de cerrado requeimado país dos janduí papagaios-moleiros fazendo buracos nos itaimbés suçuaparas corrupião-preto coçando a asa direitinho, deito na sombra, lia de olhos fechados a brisa com cheiro de brasa viva, me acomodei, me ajeitei desse lado que eu prefiro, almoço as pedras do leito, cochilei, cochilo.

       (Dormir pescar bater cabeça se é que se dorme uns cochilos intermitentes cochilos e mais cochilos nervosos um atrás dos outros;

        A chuva por trás da chuva, chuva por dentro da chuva, chuva antes e depois da chuva;

        Cores cítricas resolvidas cuidam como nunca de assobiar gorjear cantar para o amanhecer;

        A avenida Macurape com árvores postes cachorros automóveis, a praça Urupê deserta de árvores postes cachorros automóveis;

        A última mulher era boa morena adulta calça jeans apertadíssima piercing no nariz e com uma senhora sacola a tiracolo;

        Bateu três vezes a cabeça com a cabeça na lua;

        Então, uma alma não morre e volta sempre quando quiser e para rever e servir aos amigos redivivos.)

        Eu sempre fui rio e quando morri rezei muito para reencarnar em rio e consegui. Não é difícil ser rio, e eu gosto. Rio tranquilo por entre pedras por baixo das sombras das árvores, etc. Se passou essa história em Itapetim. O meu caso é sempre ser rio rumo do mar. Ser rio é difícil contentar a todo mundo. Vejo uritutu, teatro Santa Isabel, cardume de caranás, boi barroso, cardume de guaximbés. Para encher isso tudo no mundo, etc. Eu arrastando o sol daqui pra lá e de lá pra cá. É uma, né?!    

       "Quando eu era menina eu queria ser menino, agora sou arremesso. Mas na próxima encarnação eu quero ser borboleta com duas asas apenas duas semanas de vida e uma uma só chegada me chegará. Vou pendurar roupas na área para secar. Quando sobra tempo não tenho o que fazer, quando falta tempo tudo por fazer. Comprei ganhei todos os azuis possíveis para o pimpolho vestir daqui até o inverno o verão de 2020. Comprei um colar de ouro para enfeitar a esposa do meu marido." 

       O sorriso universal.

       Boa parte de mim mesmo já dormia o sono das águas paradas ou muito calmas, aí pelas 2h e pouco, quando descaiu uma chuva avassaladora e não pude mais dormir de ponta a ponta. As piraíbas muito bastantes gostaram imenso. Sem demora fico grosso vermelho e transbordante. Me precipitei por lá na altura de Timbé do Sul. Carrego no papo empapuçado o rolo compressor da enxurrada com terra e seixos e galharias de erosão em avalanche. Chovia todo dia. As pontas das montanhas e morros descem para me pegar com mais força e volume.

       A primeira palavra de Tarumã? A primeira letra de Tarumã? A primeira pergunta de Tarumã? O primeiro T de Tarumã? Quem adivinhou, quem soube, quem entendeu, quem viu primeiro.

       Apesar de sempre querer ser homem, Meri está cada vez mais mulher; apesar querer sempre partir para algum novo endereço, volta para o primeiro ninho; apesar de querer sempre ser independente, vive cada vez mais enfiada nos seus. A pele pegou um pouco mais de sol, mas os olhos e o sorriso não mudaram nada nem nunca.

       "Mas Taru já é um menininho afoito que empurra cadeira se joga para a luz da janela e chama quando tem fome e dorme em qualquer lugar e acorda sempre às três e vinte e oito. E ele me cheira e me olha e me sabe e me faz bem, um bem enorme. Não tenho palavras, só olho. É preciso entender para melhorar. É preciso que aconteça para se aprender. É preciso selecionar para sentir saudades."

       O sorriso ocidental.

       M. Elen sim gosta aí sim de cabelos longos e power power como o próprio coração power. Como se explicar que o rock dá um tesão enorme. E ela se joga e se abraça e o que vier na cabeça e power vira roqueiro fica numa pilha e se agiganta como defunto da tumba vira bicho de dente de sabre paisagem na era da pedra lascada homem das cavernas túnel mal-assombrado das eras antes e depois de Deus na terra, etc. Não é para entender, é para se ouvir, é rock, é power. O corpo tinindo com vontade de gritar e grita e ri e escabela. O som power é o som que ela sempre power power quis e tem vontade de power. Ela para de agitar e atende o feice, porra! é alguém.

       Naquele dia tão antigo de outrora que faz muito do tempo, oi então, eu viajava escoteiro, Deus por testemunha, Deus servido, ia pelo trilho escolhido, pelo valo sem fundo das terras dos guaná, noite e dia, chuva ou sol, pé por pé, pombas-de-bando em revoada ao longe, céu com terra, vou porque vou. E o futuro todo dos pés à cabeça todo ele de todos de todos nós depende de mim exclusivamente de mim, de mim. O meu braço esquerdo de mim estava caindo com força de irmão rio Paraibuna. Escuto os guachos cantando na mata ciliar. Passo raspando por Crixás.  

       No primeiro aniversário de Tarumã, elezinho aprendendo a segurar balão de ar da cor azul branca amarela vermelha, Meri contando pras comadres nos dedos da mão a trajetória dela com elezinho, o seu Pita envolvido debaixo da escada sugando o pescoço da irmã mais nova de Meri e talvez mais bonita que a própria Meri Elen dos bons tempos de Meri Elen lindíssima, etc. Foi depois de cantar os parabéns, Taru chorar oito vezes, acabar o guaraná e alguns convidados já terem ido embora, etc.

       O sorriso visível.

       Eu corria entre praias do Piauí, entre matos de buiuçus, tapiricas, canelas-capitão-mor, marias-pretas, e cidades altas e baixas, Aruanã, São Gonçalo do Amarante, Treviso, Ulianópolis, me junto com os irmãos rio do Peixe, rio Paraopeba, rio Meia-Ponte e é o que te digo. De quando em quando cai uma chuvinha que muito me acomoda e muito me apessoa.

       Quem contou isso tudo para a Meri foi a própria irmã caçula bendita Jarina conhecida na família como Já ou Ina, que disse tudo como foi e aconteceu e explicou direitinho, às vezes tentando olhar a irmã mais velha nos olhos e difícil, confessando por conta e risco, não sabendo onde pôr as mãos, descarrilando:

       - Tipo começou quando eu nem sei tipo quando vocês vieram para cá pra Paiaguá tipo de volta para nossa casa tipo um olhar dele me derreteu tipo um beijo forçado dele me derreteu tipo ele me emprestou trezentos reais a fundo perdido tipo houve outros beijos na boca tipo beijos no pescoço tipo eu prometi não abrir o bico tipo ele prometeu me ajudar e ajudou a comprar passagem aérea para BH tipo um dia eu descobri marcas de dedos nas coxas tipo eu descobri que não resisto a beijos no pescoço tipo ele me presenteou com um celular tipo não sei por que tudo isso comigo com ele com nós tipo fico alucinada com beijo no pescoço tipo ele soube explorar isso tipo mais beijos escondidos tipo lambida no pescoço tipo fiquei doida tipo não me segurava mais tipo o que ele queria eu dava tipo o que eu quero ele me presenteia tipo isso está rolando a três meses tipo é isso tipo não sei se mereço seu perdão tipo me perdoa tipo você nunca vai me perdoar tipo deixa eu chorar em paz tipo ninguém merece tipo eu errei mil vezes tipo se é para chorar então eu paro tipo...

       E a Já cansou de se confessar, e enquanto falava a voz ganhava um eco ridículo que dava até para rir se quisessem, e Já sentiu uma falta de fôlego, uma ânsia de acabar com tudo, e Jarina sentiu sede.

       Meri até teve muita calma nessa hora: cumprimentos e muito bem! Depois imediatamente, passou a mão nos cabelos assim. Foi que ouviu tudo que pôde com calma e segurança e olhar na parede. Sentiu algo flutuar, a ideia. E virou as costas se retorceu e se foi para a cozinha preparar o de-mamar do Tarumã. Ouviu algo estilhaçar, o rumo. Sentiu algo ranger e bufar, o prumo. 

       "Um pouco de risco é bom um pouco de dúvida um pouco de perigo um pouco de crise vai me fazer bem. Eu fiquei perto da parede com o dedo na parede e me perdi pensando em nada, acabrunhada, indiferente, o ombro na parede, muito não sentindo, e o tudo vazio, o frio, as lágrimas começando na garganta e com muita dó de  mim. Eu sei que sou um rio e meu filho é outro rio e os rios saem dos rios o rio saiu de mim. O que importa, importa muito, importa tudo. E nada disso aparece."

       O sorriso metafísico.

       As perguntas que se faz nessa hora e tudo mais:

       - Oi! Quando essas coisas explodem na nossa cara com a nossa cara como juntar todos os caquinhos? Como almoçar? Como dormir?

       Meri se sentiu muito imatura. Ademais tudo parecia mesmo praticamente novo. Se sentiu também como se tivesse que recomeçar do zero. E tudo chato, tudo polêmico. A tal da esperança.

       Me lembrei que já era domingo de carnaval, que já estava em o lago Arari, que já estava muito perto do macaréu, a chuva em boa parte de mim foi torrencial a noite toda, o dia seguinte todo e me espraiei. Positivo. As tabujajás piavam em meio aos sarandis. Pois não.

       O sorriso substrato.

       Meri olhou para dentro de si e tudo mais, olhou para si, olhou para Tarumã dormindo na caminha, olhou a noite quase no fim, olhou as casas se revelando ao dia, olhou sem olhar, olhou a rua Cuité, olhou e deu voltas e mais voltas. Pensou alto mais de uma vez:

       - Oi! O que fazer ou não fazer, fazer ou desfazer, fazer e acontecer?

       O sorriso aquífero.

       Depois do choque, a Meri Elen foi pensar uma saída para a falcatrua. Obrigação dela. Custava pensar nessa questão e o pensamento sorteava um moinho de opções. E houve dúvida como pintar uma flor. E houve dúvida como imitar a postura do bacurau. E houve dúvida como inaugurar um labirinto. E houve dúvida como achar um tesouro.

       O sorriso simplificado.

       Sou a novidade, o antigo, o que há de vir, etc. E vou dizer com todas as águas. Aqui eu coloco esta cidade de Diamante do Sul, ali a ponte estaiada, ali a serra da Canastra, os periquitos-reis na copa da jabuticabeira-branca, ali a Meri Elen me olhando sem me ver.

       Meri esperou três meses para se decidir e aprovou essas resoluções. Cortou fora o e jogou para além da janela aos cachorros. Meri encheu a cara de Pita no jantar foram fazer pela madruga afora e seria aquele o milésimo gol da milésima vez e ele dormindo anestesiado ela pegou a tesoura segurou na ponta e zape correu à janela aberta e jogou para o pátio onde os cachorros começaram a disputar com alvoroço lavou as mãos que o maior acabou engolindo o menor.

       O sorriso peixe.

       Elen foi no banco raspou a conta conjunta e convidou o melhor amigo do monte do marido para um passeio de fim de semana em Gramado e Canela e Nova Petrópolis e São Marcos. Quando voltou três dias depois Pita perguntou onde você se meteu sua maluca eu fui e passei um ótimo fim de semana com Juá seu melhor amigo nus em pelo nos hotéis paradisíacos com cama redonda paredes espelhadas cinema a bordo cascata artificial camareira e garção no toque de campainha e espumantes gelados para refrescar o banho na banheira de hidromassagem e com que dinheiro com o nosso dinheiro meu e seu por que não gostou achou pouco e olhe que ainda posso fazer melhor e mais longe e mais demorado e fila indiana com mais de um de dois dos seus ótimos amigos alguma mais pergunta alguma dúvida.

       O sorriso paisagem.

       Saiu de casa, ela e Tarumã, e foram viver numa cidade distante que até hoje não se sabe qual é mas que tem de tudo um pouco e se vive bem conforme tem praças tem teleférico tem shoppings tem praia na frente zoológico plantado dentro de um mato de árvores que cantam pássaros do dia a dia e até homens tico-tico dispostos ricos viajados em boa forma a escolher.

       O sorriso aventura.

       Não obstante. Pegou deu uns tapas na irmã sem noção jogou uns pratos e panelas e talheres na cabeça do Pita cara de pau disse as verdades aguardou uma semana levou uma semana e depois não se falou mais disso e a vida continuou por ali mesmo voltaram às mansas e assim e tudo mais e tudo muito corriqueiro e pacato e remendado. Até porque as pessoas são livres e devem ser livres para sempre e independentes e respeitadas nas suas liberdades esse negócio de casar e ficar preso em anéis e em casal é coisa inventada de passado antigo remoto ou coisa de araras-vermelhas-grandes.

       O sorriso estrela.

       Desliso por entre tardezinha laranja e matos verdes, vou deixando praias brancas ilhas verdes lagos engraçados, ouvindo o gargarejo das capororocas, e sempre por terras pretas ou vermelhas ou tabatingas. Tempo seco de poucas chuvas, frio, tempo chuvoso e quente, indo de menos cinco a mais de quarenta graus. Quase tudo dormia quando passávamos por Passa Vinte e cruzamos por baixo da ponte e sigo adiante.

       Assim, eu afirmo, eu mereço você merece nós merecemos Meri Elen merece, e que é que é sempre que se olha para uma ponte suspensa no ar embalado da tardezinha embalado na paisagem tardezinha.