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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 33





Esse Céu Azul Que Nunca Vi

            Parei ao meio-dia, no meio da rua André da Rocha, no meio da aula, no meio do dia, no meio do sol, no meio do mundo, no meio de tanta guria bonita, no meio do meu espírito ineficaz. Parei sentindo meu tum-tum!... bater risadas de deboche de trouxa de otário. Sério!
            Eu mesmo era igual às outras tantas umas árvores por aí, um cajueiro-do-campo.
            A rua, a encruzilhada, o dia, o zênite cheio de luz inefável. Nem me senti pequeno, nem me senti grande, nem mais ou menos. Mas me senti somente esquisito e melindrado.
            - Acha que D nem quer tomá conta de tu?
            Eu estava andando na calçada a jusante da rua Irajá Pirapitingui quando algo ou alguém me chamou a atenção:
            - Só espero que me ajude! Preciso comprar o palácio dos Paiaguás especialmente!
            Porque aí o trânsito recomeçou a fluir total.
            E vou mesmo simbora, vou agora, vou navegar pelo rio Paranaíba, ou o rio Vaza-Barris, e nem esperar mais nada - disse, então.
            Nem tem como e por quê, mas tem quando. Ah, se tem!
                                                                      ***
            Molhei as mãos. Olhei as linhas misteriosas. Que segredos se esconderam por ali e que nem valem a pena?, pensei. Olhei minhas mãos e daí? Olhei as tais linhas de trem, trilhas no campo, carreiros de ratões-do-banhado, tatuapés. Apreciei aqueles rios, rio Amola-Faca, rio Carreiro, rio Sabia... Olhei os atalhos feitos a facão sem cabo.
            Falava pra mim falei por mim uma ou duas frases curtas terrestres contundentes discutíveis, exemplo:
            - Partirei! Tenho que ir!
            Passando pela janela tive a visão da copa de uma grande estoraque-do-campo depois a nuvem com cara de navio antigo mais pra cima a lua e o céu todo azul luminoso. Mas nem sempre era ansim.
            Fazer como os katukina, ou seja, tomar kampo para nem ficar comendo pedra.         
                                                                       ***
            Nem levava uma sorte aventurosa interessante promissora. Nem levei, nem fui buscar. Por que nem era pra mim.
            No começo por aqui e ali, havia bem mais pinheiros-do-paraná bem mais árvores jatobás-de-casca-fina, facheiros-pretos, marias-gordas, utuapocas... menos cidades mais pássaros mais chuvas. À uma hora, milhões de quilômetros, pensei no mundo distante e desabitado do Neblina.
            Vou sair e ver o mundo, a particularidade do caminho, a distância do país. Vou andar andar andar... correr ruas, procurar o que nem sei encontrar. Procurar a minha importância, a minha cota de participação, a minha pouca sombra - o que eu pensava. O leito do meu rio.
            Esse céu azul que às vezes de repente se enche de ataúbas.
            Céu absoluto recortado em redondo longo concha eterno diante da terra. Ou seja, algo que nunca vi. Melhor, quase certo.
            Depois vinha retornando a moda de me bandear.
                                                                       ***
            Com permissão da ideia de D, o sol pulou cedo a lua pulou cedo e todos pularam pulou cedo a begônia-sempre-florida pularam cedo os aborígenes mati os camaiurá os caingangue... pulou cedo a iraúna-grande arengaram cedo os periquitos-de-asa-azul, barulharam os pica-paus-manchados...
Jaçanã, Jaçanãzinha, Jaça, Jacinha. Às vezes cantava, cantava baixinho, cantava que dava pra se ouvir, cantava alto que até ecoava. Seus olhos brilhavam, seu sorriso se estabelecia. E resmungava. Nem interrompia o canto, o tin-tin-tin!... Berrando e rindo e chorando e gorjeando. Ela era alegre, esperta, afogueada, carinhosa, desgovernada. Tinha susto de quase todos os animais e insetos. Tinha receio de todos os bichos, inclusive dos que falavam dividiam disputavam com ela a casa dela da família.
            E Jaçanãzinha se perguntava e perguntou a alguém pelaí:
            - E amanhã?
            Era uma pergunta essencial bem típica do dia a dia. Uma dúvida fundamental. Uma indagação absoluta. E arriscou mais:
            - E depois de amanhã, hein?!
            Jacinha rilhava os dentes, nem se arrependia, nem esbravejava, nem sabia onde botar os pés. Nem se arrependia de quê? Jacinha batia palmas, mas nem muito. Começava bater palmas depois dos outros e parava antes de todo mundo. Batia palmas no meio dos aplausos.
            Olhos eram os de Jaça, olhos febris, pessoais, vidrados, arregalados, interrogativos. Como uma adolescente descobrindo sexo dentro de si na noite de si no sossego de si.
Pois ela Jaçanã sorria seu sorriso incontinente.
            E chegou a Cabiúna. Cabiúna ou Cabi. E veio Cabiúna e perguntou, do fundo do precipício, do seu jeito:
            - E amanhã?
            Onde andava A. P.? A rua Itália estava perdida isolada sem. Onde ficou e nem voltou a Ana Paula?
            E surgiu Congonhal para perguntar. A pergunta básica e clássica e ensaiada e surda e física:
            - E amanhã?
            E apareceu a Berizal, Berê? Apareceu a prima Botumirim, a Botu. Aquela perguntou com os cabelos louros lá dela; essa última perguntou com os seus lábios grossos ali dela: perguntaram a mesma anedota matrimonial figadal mental:
            - E amanhã?
            Quem era Ana Paula?
                                                                       ***
            Dizia pra mim mesmo: quero partir-ir-ir... Dizia pra mim mesmo que queria partir. Que ia partir. Que estava partindo. Que estava de partida. Que era questão de dias, no máximo uns poucos meses, mais tardar março. Estava tentando me acostumar com a ideia. E de independência ou morte.
            Que dia teve aquele aquela que D apontou o dedo e mandou escolher os três desejos, em?!
            Ia para uma aventura no rio Purus, rio Embirá, rio Batalha, rio Cotovelo... Ia para um passeio no Atol das Rocas, lagoa de Barra Velha e outros pedaços. Será que deixarão entrar?, me perguntava. Ia ficar o dia todo correndo o país e programar uma visita no palácio Setentrião. Os dias de sol de chuva pelaí, Coronel Murta, Pombos, Chã Grande, Aracruz... O conhecimento a ciência dos lugares em particular, Embu-Guaçu, Bom Progresso, Itaguaí... Eram milhões.
            Depois vinha a vontade de dormir.
                                                                       ***
            A lua caminhando, o céu sem nuvem, sem estrelas, quase sem vento, a lua no alto sorrindo, o silêncio universal do azul no tempo e no espaço.
            Divisão que estava para regimento para batalhão estava para companhia estava pelotão. Então o camarada sai de casa bem cedo e vai para o quartel de soldado cabo sargento tenente capitão longe longe major até chegar um dia a general. Quem sabe!
            Pensei que poderia ter confiar meus olhos olhando. Delirei que buscavam meus olhos a qualquer preço. Depois me disseram que queriam comprar. Era só o que faltava! Os meus olhos de olhar sem ver.
            - Você nem acha que ontem hoje o sol se parece com a lua estrelas?
                                                                       ***
            No Brasil de então de antanho de quanto faz e tanto fez, quando o Brasil era Ilha de Santa Cruz e Terra de Santa Cruz, e sobre este tudo nada se sabia... e nada se descobriu... e por fazer...
            Era manhã comemorativa começando limpa de doer nos olhos. E bem de árvores bem de pássaros bem de ventos bem-te-vis-cabeça-de-estaca... Um calor que fazia enxugar com a mão de minuto a minuto corpo suado escorrendo pelo rosto passando as costas das mãos para tirar o excesso da testa. Com chuva no meio da tarde para festejar os insetos e as aves e o arco-íris. E no dia seguinte nem dava tréguas nem tinha nada nem igual na floresta no oceano.
            Então, pelos refolhos da história da capitania de São Vicente, na ilha de São Vicente, as mulheres acharam por bem valorizar e conservar um costume lá delas que veio de longe de antes com elas as mães as avós as bisavós. As mulheres sempre em menor número, embora. Especialistas em contornar problemas para melhor enfrentá-los ultrapassá-los.
            As idades das fêmeas do arraial na ilha de São Vicente variavam de fio a pavio e de cabo a rabo. E acreditavam que o pajé Manipuçá dos capinauá morador do morro do Aratu era muito bom no sentido de prevenir contra os males em geral, doenças, fomes, pragas, enigmas, invejas, guerras, invasões de corsários franceses holandeses ingleses. 
            Então, começos de novembro do ano de 1544, as mulheres, as moças e as meninas do arraial, que já eram velhas e cansadas, foram procurar o pajé dos majubim lá longe no tope do morro do Aratu. Os homens adultos estavam no mar pescando, na beira da praia fazendo canoa, no alto das pedras espiando o mar para ver cardume de tainha de manjuba de sardinha ou pirata holandês francês inglês. Os velhos da aldeola ficavam para cuidar dos meninos e dos jaguanés e outros bichos de estimação. Era novembro e as plantações de avati e batata-doce e amendoim e mandioca e abóbora estavam para ser estocadas colhidas e semeadas.
            Por isso mesmo que as baleias-francas nem tinham coragem de se aproximar.
            O mar e o céu faziam uma boa disputa para ver quem era mais cordial quem era mais arteiro. O vento a lua vinham inesperadamente acordá-los. E o mar explodia nas pedras. Nem dava para dizer se o céu era mais importante. Mas as águas do céu eram azuis e às vezes se misturavam com as verdes do mar.
            Como discutir o mundo sem o grande mar-oceano e a floresta intransponível, ambos sempre ali.
            Depois, era de tarde, já veio a água a chuva o aguaceiro de verão.
            As fêmeas de todas as idades, casadas e solteiras, as crianças e adolescentes, entraram na mata na fila indiana. Um mundo de mato inexplorado, grápias, gogós-de-guariba, ibirapitangas, ajuís, aroeiras-do-campo, matiambus, curiúvas, juquiris-guaçus, farinhas-secas, perobas-iquiras, samambaias, cipós, bromélias... Atitudes muito bonitas e desprendidas da parte das mulheres. Umas já eram mães, outras querendo namorar o quanto antes, ainda outras sonhando serem escolhidas, logicamente que todas de um cheiro comum juízo sonso e rumo incerto.
            - Todo mundo diz isso...
            - Disse, dizem o quê?
            O tal e qual céu azul somente dos pássaros em bando aos gritos guinchos alaridos. Uns passavam da ilha para o continente, outros do continente para as ilhas. Um mundo de marianinhas-da-cabeça-preta... escolhiam um forte e alto araçaí e faziam uma revolução um gritedo incrível e talvez até desnecessário.
            - Mas a lua nem é sua!
            - O céu é filho dileto de D.
            - Tem lá uma nuvem nova grande grossa e tentando nos alcançar.
            - E deve vir já empurrada pela música.
            - Se eu tivesse certeza...
E aves pássaros passarinhos de todo cantar timbrar, bem-te-vis-do-bico-largo, gralhas-azuis, pombas-rolas, inhambus, seriemas, tucanos-do-bico-verde, araras-azuis-grandes, curiós, sebinhos, ferreirinhos, quero-queros, jacus... Mulheres e crianças e adolescentes iam todas de olhos bem abertos no chão quase desconhecido, no alto das árvores, boca aberta, ouvidos alertas, abrindo picada com facão quatro listas.
- Nem esquecem do lugar, uma vez.
- Muito levada da breca... ah ah ah!...
- Com todo cuidado para nem comer espinhos, hum...
- Às suas ordens, madama!
- Já-já vai vir a chuva e da grossa!
- Como hoje como sempre como amanhã...
            Umas se mantinham alegres, outras mais preocupadas, outras ainda menos preocupadas. Umas pegando sol na cabeça outras com chapéu de palha de buriti trançada outras com o lenço a manta o xale dos tons segurando o cabelo amarrado debaixo do queixo. O caminho muito difícil pela mata fechada, subindo e descendo morros pedregosos, passando banhados, cruzando capoeira espinhosa, experimentando atalhos, os taiaçuapés, ora era um túnel feito de galhos ora um campo coberto de erva o capim-navalha. Um guincho aqui e outro mais ali de macacos-aranhas, porcos-do-mato, guaraxains, janauís... periquitos-de-encontros-amarelos passando por cima indo no sentido das ilhas do litoral. 
            - D fez um milagre.
            - Mas também seria uma coisa só D.
            Poucos acontecimentos mais importantes, olhos piscando no meio da folhagem escura, alguns acontecimentos sem relação de importância, besouros irisados, jararaca dormindo na moita de contra-erva. Trilhas difíceis sob um sol forte, dormindo no mato noites muito escuras, enxame de mosquitos perto dos alagados. Tinham uma vaga ideia do caminho pois o morro do Aratu se enxergava de longe. Timbre inconfundível da araponga. O sol que mudava de lugar, a lua que andava pra cá e pra lá, as estrelas que piscava sem parar, o vento que falava com as plantas, as árvores que andavam para trás.
            Numa altura que pararam por motivos de força maior. Uma senhora a Majuba estava pela hora. E foi ali mesmo questão de oportunidade. Esperaram três dias na beira de uma lapa. A mulher deu cria no meio do ninho de capim-rei a bebê chorou e mamou sem abrir os olhos, por enquanto. Aguardaram mais dois dias e voltaram para a caminhada.
            - Uma filha é outro problema. Seria bom um menino.
            - Santa, santa!
            - Nem vale a pena.
            Se distraíam olhando as flores, orquídeas raras, lianas, jerivás carregados de coquinhos, estalidos e ecos superpostos, taocas, passarinhos curiosos, macucos, perdizes, caburés-de-orelha, ajurujubas, pica-paus-do-pescoço-amarelo, urus, araquãs, borboletas, escaravelhos... Nos pedaços de campo família de guaçuetês, antas, capivaras, tamanduás-bandeiras, gambás, carumbés, tatus-canastras, preás...
            - Nem foi o que se pediu?
            - Se nem tiver filho homem vou adotar um casal de capitão-de-bigode, é. Mas tenho pouco tempo para pensar.
            - Pra nem pensar, tu quer dizê!
            - Sem noção!
            A jornada já durava umas semanas. Colhiam butiás araçás guabijus goiabas-do-mato... Uma senhora morreu picada por boicininga. Cinco crianças ficaram com febres intermitentes e duas desistiram de tudo. Aconteceram algumas discussões, brigas, mal entendidos, arrependimentos. A saudade ficava para trás ou para depois na volta. E nunca pensaram em voltar do meio do caminho. Pararam no riacho para comer peixe, pirapucu, bagre, traíra, jundiá, piava, charutinho, anujá... que tinha aos montes e dava para pegar com as mãos desarmadas. A crença nas beberagens do pajé dos maioruna era muito importante. Periquitos-reis sobrenadavam o firmamento rumo das ilhas do mar. Acima do sol a batata-de-teju.
            O tal céu azul que ninguém sabia onde ia parar. O mar sempre ali tal e qual o céu que ninguém nem sabia nem tinha ideia onde começava ou terminava e mesmo era um e outro.
            - O que vamos fazer hoje?
            - O que vai acontecer hoje?
            - Vamos andando.
            - Depois descobriremos umas esmeraldas.
            Um dia, pelo meio-dia, sol forte acima das copas das altas árvores, muito cansadas de chavascais, carrascais, catanduvas, itacurubais, itapevas, as mulheres e as crianças e as adolescentes chegaram ao pé do morro Aratu. Olharam o morro e fizeram o sinal da cruz. Sentaram e descansaram por três dias e noites. Só importunadas pelos pernilongos.
            Ficaram curando as feridas e olhando em redor para o mato o morro, olhavam para trás, olhavam o morro outras tantas vezes. Em volta o céu de sol terrível e azul ou de chuva o mar céu baixo e por tudo a tachã cantando, ta-him!... a graúna, grazinando!... o urutau, chirriando!... o catetinho, coinchando!... a jaçanã, tridulando!... a irerê, gritando ireré!... a cigarra, estridulando!... o peitica-de-chapéu-preto, assobiando!... bando de reis-dos-tuinins, flautando em confusão... a preguiça-de-máscara comendo folhas de embaúba... E tudo parecia parado comum anônimo e um mundo à espera.
            - Estamos na metade do caminho.
            - Depois da metade da sorte.
            - Depois e antes do fim dos tempos.
            Mais um pouco e umas horas de esforço e estavam no pico do alto do morro. Procuraram a gruta do pajé Manipuçá dos tapirapé. Clamaram reclamaram chamaram por ele:
            - Xamãaa!... - gritaram umas e outras, mãos segurando a voz em concha.
            A natureza se alarmou, um bando de macacos-barrigudos gritaram pelo alto das murtinhas, bico-grosso pegou a família e voaram longe... folhas da genciana-roxa se mexeram mais que o comum. O sol já estava querendo cair também naquele dia e em companhia de algumas nuvens de ouro. E as visitas assobiaram e chamaram e gritaram pelo pajé dos manitsauá. Estavam perto? Estavam quentes? O sacerdote estava em casa? Uma suindara piou nem souberam onde:
- Feiticeirooo!... - eram umas e outras berrando adoidado, pois nem podiam perder a viagem.
            De repente ouviram também um riso, uma gargalhada, um perder de fôlego de tanto rir... Se entreolharam meio alarmadas ilhadas no medo:
            - De onde vem esse riso debochado e de pouco caso? - se perguntaram as mulheres mais velhas e as mais novas também.
            Uma voz bem pertinho respondeu, rindo muito:
            - Ué, caraíba! Abaré Manipuçá assustô cunhantã, cunhã, ah eh eh eh!...
            As mulheres e moças e meninas olharam bem e descobriram o pajé dos iurimagua ali mesmo, muito rente, bem perto, rindo, falando e debicando e fazendo de pouco, disfarçado de ramo da árvore pente-de-macaco. Que ideia!
            - Como vai, seu curandeiro? - algumas perguntaram outras concordaram, ali mesmo embaraçadas enleadas misturadas todas juntas em grupo compacto solidário.
            O pajé dos mapuá e seus mascotes, sagui-caratinga, papagaio-moleiro, jabuti-aperema, todos carregados pendurados no índio velho, pularam fora da vegetação se apresentando saindo das sombras.
            - Ué, caraíba! Abaré Manipuçá, umu-ru-ru!... ah eh eh eh!...
Aí, as visitas convenceram o pajé dos torá a fazer um feitiço para que elas e todas as famílias delas, o arraial todo em geral e unido, tivessem muita segurança, muita sorte, muita fartura nas próximas colheitas e nos anos que viriam que pudessem combater e expulsar todos os flibusteiros franceses ingleses holandeses. E o adivinho pulou de lado, fez várias e variadas manobras e exercícios, brincou com pedras do chão por ali, enfeitado de penas de papagaio-do-mangue na cabeça, maracá na cintura, colar de dentes de onça-parda, porongo a tiracolo cheio de petrechos secretos, tatuagens nos braços e pernas, corpo pintado protegido de urucum, pitando cachimbo de taquara, bodoques enfiados nos lábios e bochechas e orelhas, vez ou outra percutindo o pequeno uapi escavado em tronco de embaúba com pele de suaçutinga, e o pajé dos jabuti pensou um pouco e riu demorado e concordou:
            - Ué, caraíba! Abaré Manipuçá fazê tudo tudo fetiço dexá tudo muto catu, ah eh eh eh!...
            O pajé dos tamoios foi buscar uns aparelhos e ferramentas lá na caverna dele onde ele passava as noites e os dias de chuva. Foi lá dentro com secreto pé ante pé cuidando se as comadres vinham atrás xeretar. Juru no ombro sagui em volta do pescoço jabota debaixo do braço. Demorou pouco para voltar. Demorou o suficiente. Voltou com cascas e raízes e folhas secas e frutinhas miúdas secas, sementes variadas, catingueira, macela, chá-de-bugre, pata-de-vaca, sabugueiro, barbatimão, fruta-de-macaco, espinheiro-bravo, unha-de-passarinho... e ele sabia de tudo que a mata oferecia e sua serventia e sua utilidade o que prestava e nem prestava.
            - Ué, caraíba! Abaré Manipuçá fazê mulé muto sorte catu, ah eh eh eh!...
            As fêmeas dos homens sentaram no chão, nas raízes das árvores próximas, nas pedras, as crianças deitaram na terra vermelha, as crianças cataram tucuruvis pra passar o tempo, as meninas brincaram de pega-pega esconde-esconde subiram em árvores próximas, macaíba, guaritá, jacareúba, guatambu... descansaram na grama macia na laje escorregadia. Tudo isso enquanto esperavam o feitiço muito bom do tal caraí.
            - Ué, caraíba! Abaré Manipuçá... te-te-retetêee!... ah eh eh eh!...
            O pajé dos guaianás acendeu o tatá com pedras entre as pedras, bebeu tarubá e cuspiu nas pedras e no cisco incendiando tudo. O mágico gritou coisas para o alto, olhou o céu, se contorceu, ergueu os braços para o sol a lua as estrelas, escolheu raízes e sementes, mastigou a maçaroca de ervas tóxicas, vomitou verde, assobiou, gritou, esperneou, rolou no chão como doente metal ou da barriga:
- Ué, caraíba! Abaré Manipuçá... quibibibiuuuu!... eô! eô!... ah-ãh! ah-ãh!...
E o encantador ainda resmungou entre dentes, todo possuído dos venenos e dos transes dos êxtases dos devaneios das visões perturbadoras:
            - Ué, caraíba! Abaré Manipuçá... ah-nhãmmmm!... Caapora!... Amanaci!... Ipupiara!... Boiúna!... Caruana!... Quaracy!... Jacy!... ah eh eh eh!...
            E lançou poeira para o alto urinou no fogo cuspiu e se ajoelhou. Sempre falando qualquer coisa esquisita e nada decifrável inteligível imitando animais da floresta numa linguagem nheengatu bem misturada:
            - Ué, caraíba! Abaré Manipuçá... tateretéeee!... biu-biu-biuuu!...       
            As visitas passaram aquelas longas e contadas horas até a noite e que veio estrelada, periquitos-vassouras retornando das ilhas verdes do litoral. Bem alto na mata mais alto ainda o craveiro-do-maranhão era o último a ver o pôr do sol. As mulheres dormiram na aba da caverna, outras debaixo das árvores, outras mais nem conseguiram dormir, ainda as que foram para os galhos da amburana, cambroé, araruva, juruté... arriscando cair lá de cima, etc., se recostando por aí em volta.
E foi surgindo devagarzinho o amanhecer com ensurdecedora matinada de tudo que havia de bicho na mata atlântica. O enorme araticum-do-campo segurava poderoso com as mãos o céu claro claro.
            - A gente nem pode esquecer de nada que pajé disser.
            - Nem vou esquecer de nada nada.
            - Cada qual leva uma coisa.
            Tudo estava ali e muito. O sol redescobrindo as cores do dia. O céu igual ao mar espelhado. O vento anunciando desde cedo a chuva no meio da tarde. Os pássaros e outros animais já sabendo de tudo de cor e salteado.   
O pajé dos cambiuá também sabia ler o mato ler o céu ler o voo das aves em geral. Rugas aradas na testa garatujas de preocupação tensão nervosa. Pois esse pajé dos tapaiúna ficou a noite toda em claro olhos bem abertos. E ainda ficou longo tempo pela noite adentro e afora preparando as puçangas, os chás, os comprimidos, as poções, os óleos, os emplastros e resmungando sozinho e rindo de vez em quando gritando para os fantasmas ancestrais espíritos do chão e do ar:
            - Ué, caraíba! Abaré Manipuçá... ih-teeeee!... iapuá!... iraí!... tubi!... mandassará!... ah eh eh eh!... 
            Umas oito horas do dia seguinte, do dia tal do mês de setembro do ano passante, talvez mais ou menos observando o sol, o pajé tupinambá chamou todo mundo para perto, o pajé dos iranxe chamou as mulheres em geral e lhes deu um comprimido, as mulheres engoliram com um gole de água, chamou as crianças meninas, deu um comprimido com mel de jati e elas comeram com prazer, chamou as moças cunhantãs e deu um chá com fundo doce de flor de feijão-de-guizos e elas todas beberam e pediram mais. Estavam todas, então, enfeitiçadas curadas para ganhar força, proteção, independência e sorte.
            - Ué, caraíba! Abaré Manipuçá fetiçô mulhé muto catu, nhe-nhe-nhém, ah eh eh eh!...
            As visitas se entreolharam se perguntando o que ele pajé dos uaicá estava dizendo, depois de tudo:
            - Que ele disse mesmo? Será que ele terminou o feitiço?
- A gente já pode voltar pra casa?
- Já estamos livres dos perigos do mal?
- Pede pra ele, pede pra ele!
            O decifrador recolheu suas coisas e riu e gesticulou e berrou e recomendou e preceituou em companhia junto durante com seus mascotes o papagaio a jabota o sagui uma família:
- Ué, caraíba! Abaré Manipuçá... ah eh eh eh!...
O pajé tupiniquim entrou na caverna, olhou para trás olhou para as comadres com olhar brabo carregado de poucos amigos... o sagui o papagaio a jabota todos com ele num punhado de olhos e caras, e o caraí fez sinal com a mão para que todas se mandassem daí. Que fossem para as casas de volta para a aldeia para os seus maridos e irmãos. As mulheres compreenderam os gestos nervosos e se prepararam para partir. Se entreolharam se entenderam se decidiram de uma para a outra e todas ao mesmo tempo falaram:
- Simbora, pessoal!
- É, já deu o que tinha de dar!
- Será que tem de ajoelhar?
As excursionistas desceram o morro com o estômago em brasa pegando fogo fogo. Os remédios estavam fazendo efeito avassalador. Poções mágicas fortes e ferozes e insuportáveis. A vegetação se apresentava toda amarelada tomada de amarelo puro, o sol já estava azul, o ar poluído de bichinhos muito estranhos pequeninos pontinhos pretos de agulha. O cheiro era diferente o ruído parecia de pedra ralando as coisas tinham uma quarta dimensão o mundo estava sendo revirado de cabeça pra baixo.
            Nem doze horas de caminhada as cunhantains gritaram e viraram guaracigás de muitas cores e bicos diferentes, voaram para as flores abundantes na região, bromélias, orquídeas, margaridões, cravinas-do-campo, jasmins-do-mato, pinhas-do-brejo... e sumiram se espalharam pela mata capilar múltipla abundante.
As cunhantãs, que iam na frente mais dispostas, faladeiras, passeadeiras, sempre correndo, viraram um bando de periquitas-de-testa-amarela e foram voando numa gritaria ensurdecedora exagerada para as matas virgens da costa do continente procurando árvores frutíferas altas árvores floríferas, sobraji, castanha-de-macaco, tapiá... mata atlântica trescalante endêmica do litoral brasileiro sempre pegando fogo nessa época do ano, arapiracas, cabos-de-machado, aguaís, sombras-de-vaca, indaiás-guaçus...
As cunhãs mais velhas maduras experientes acomodadas matronas mães de prole extensa viraram maracajás, jaguaretês, canguçus... esgaravataram o chão de folhas molhadas e mortas uivaram para a noite urraram de raiva arranharam afiaram as unhas no tronco das sapo-sapos, barbas-de-paca, paus-terras-mirins, umbuzeiros... e nem se entenderam mais. Cada uma pegou sua trouxa abraçou seus trens e se mandou se esconder sem deixar rastos num grotão qualquer e particular.
Vento solto ar azul terra hospitaleira mata como nunca se viu e oceano ainda ali, tudo bem como bom no princípio.
                                                                       ***
            Qualquer mudança, qualquer mudança será melhor que nada; será melhor, será melhor; qualquer mudança preencherá o oco da alma da palma; depois vou ver o que posso fazer pelo resto; eu acho - pensei.
            O céu tão azul que eu sempre nem nunca lembrava.
                                                                       ***
            Quem viu a Saquarema aqueles dias? Eu vi e ouvi. Nem queria ter visto.  Eu vi e ouvi a Pirapora de short branco. Um calção muito justo e apertado e cavado e branco. O short de Pirapora, meu! O short enfiado nas reentrâncias ou vales ou refolhos mais cobiçados esperados dos últimos tempos. As coxas poderosas elásticas do cinema nacional. Uns peitos apontando na blusinha querendo ganhar o mundo o futuro e os assobios em geral.
            Depois Iraxim se aproximou veio vindo como quem nem queria nada apareceu me falou me disse que viu de surpresa como numa história viu um gato sem asas. Eu perguntei se o bichano era rarefeito de matéria-prima. Ela continuou me dizendo que, nem consegui acreditar no que estava vendo e com esses meus próprios olhos castanhos. E fiquei parada paralisada estátua. E o gato ainda ficou ali um tempo bem na minha frente. E eu sem saber o que fazer, tonta tonta, me disse ela.
            Iraxim mais abriu os olhos o seu sorriso foi o começo do seu riso franco aumentando tanto e bom de se ver de se ouvir até rebentar cair em cascata numa explosão um oitizeiro florido amarelo de plena sublimidade e parabéns.
                                                                       ***
            Sim, porque, às vezes, tudo parecia que estava pela hora h. Parecia que nada do que tentava podia dar certo. Só podia dar errado. Dar errado... ou nem dar em nada, resultar inútil.
Porque tanta gente tenta e nada. A maioria nem tenta muito, essa a verdade. Só alguns conseguem porque D aponta o dedo.
Vou plantar capim-agreste qualquer capim serve e somente pra mim, eu que decidia.  
                                                                       ***
            A estrada (para a viagem, a minha viagem), sempre me aparecia limpa. A chegada muito esperada. Uma parada aqui outra ali, Ibiraçu, Pedra Mole, Lagarto, rio Apa, palácio Rio Branco...
            Então, eram a caminhada e a chegada. Faltava a partida. As ignições.
                                                                       ***
            Existiam tipos diversos, éramos diferentes naquela sala de aula, eu me admirava. Enigmática era aquele ideal que estava na minha cabeça e ia e vinha conforme a hora, o dia, a oportunidade, o acaso, o balanço do mar. E tínhamos gordos e morenos, tínhamos bonitas e psicóticas, tínhamos assanhadas e loiras, tínhamos e nem dispúnhamos, tínhamos ou nem tínhamos boas e tímidas. Nossa sala do terceiro B era um zoológico mais variado. E também um parque de diversões com palhaços, dançarinas, vendedores de algodão-doce, macacos amestrados, rodas gigantes, balão de encher, mão boba joão-ninguém e maria vai com as outras. Tínhamos os altos e baixos, nariz adunco, míopes, novos e usados. Tínhamos quem chamava a polícia para prender o marido e, no mesmo dia, o perdoava, o beijava na boca na frente de todo mundo. Tínhamos quem expulsava o amante que nem queria trabalhar e nem ajudava nas contas com o filho. Tínhamos uma menina chamada Aruana natural de Ji-Paraná e de olhar e olhos de gelo. Tínhamos uma capixaba que falava cobras e lagartos do irmão vadio que só a procurava para pedir emprestado ou filar um almoço. Tínhamos um cultivador de peixes, pirapetinga, abotoado, timburé, barbado, curimbatá... nos aconselhando para uma alimentação mais leve mais saudável, lá dos lados do bairro Caravággio, menos gordura carne branca o alimento do futuro e das pessoas chiques. Compartilhávamos com Flor-de-Maio sempre muito bem na moda que era amante do deputado estadual o Imburi Oiticoró e trabalhava somente mordomia no período da tarde lá no palácio Anchieta. Um dia o pessoal foi informado que um presidiário estudava na última carteira a dos fundos. Mas pra quê, meu! Olha só o perigo o incômodo a situação, cara! Um tipo louco que matara o pai a machadadas e do nada virou nosso colega de classe, nosso vizinho de carteira... qual que é?! Que palhaçada! Que ousadia! O doidão era bem quieto e nem se misturava. Nem falava com ninguém e só respondia quando perguntado e muito seco direto e reto. Mas peraí, né?! Nem se enturmou. Um certo dia interrompeu nem apareceu mais nem veio mais o que foi feito dele o que foi um alívio geral.
            Mas eu eu mesmo procurei tive de tirar uma boa nota dez em física.
                                                                       ***
            As coisas acontecem e pronto. As coisas todas acontecem. As coisas da história da gente, nem é?!
            É assim mesmo, pensava.
            Sonhei certa vez que o time ganhara de três a um. Final de jogo e o adversário já tinha sido eliminado liquidado. Três a um, e cada gol, meu!
            O jogo mesmo de verdade fora um a um, quase acertei. Mas o meu time, foi de vero, perdera ótimas e importantes chances de gol e de triunfar.
                                                                       ***
            Minhas dúvidas nem tinham finalidade alguma. Nem eram humanas. Eu nem criava nada. Eu só me enrolava de sonhos e visões e desejos e teimas e manhas. Nem eram pessoais. Nem eram passionais. Os principais amigos eram dois ou três, no máximo.
            Ela Enig mal e mal sabia de mim, eu sentia.
            Nesta minha terra, esta cidade, este lugar, onde vim parar por um acaso dos mandos de D, onde nasci, para onde voltei de reencarnação, nem há circo nem cinema nem trem nem avião. As pessoas se distraem com cerveja e namoros e futebol pela televisão. Nem olham para o céu, nem olham para o chão, nem para os gaviões-carijós, nem para o rio da Prata que tenha lá o volume que tiver. Elas se voltam se viram como corujas-buraqueiras todas para o mesmo lado a mega-sena acumulada.
            Mas naquele dia cedo eu achei mais ou menos isso, e só um pouco diferente. Menos as árvores, é claro.
            O sol colorindo o vento balançado sistematicamente os cachos cabelos cachados da guria anônima. Que todo mundo passar foi ver.
                                                                       ***
            E Enigmática gostava? Todos nós achávamos que ela gostava de todos ao mesmo tempo. Ou seja, cerveja. Na sala de aula ela sentava na primeira carteira. E a ideia fixa de que Enigmática era tudo, e tudo mesmo, tudo para nós e para mim, esta certeza me espantava. Esta incerteza nem me deixava um minuto de dúvida. Então, pra falar sério, normal nem era. Ou seja, ninguém.
Eu olhava minhas colegas de aula e olhava particularmente Enig. Eu procurava a cor dos olhos, a forma das bocas e de todas. Cuidava se os cabelos eram soltos ou ruivos. A maneira das beldades se acomodarem na cadeira. Os cotovelos na carteira ou os joelhos fora da saia, quando de saia ou vestido. Quem gritava na hora das provas, quem rezava baixinho, quem nem vinha para a sala de aula. Cabelos encaracolados e soltos, lisos, duros, grossos, assustados, bonitos, femininos. Eu fazia as contas e calculava. Tinha uma que mal aparecia e quando reaparecia já-já o namorado, ela vinha pro colégio apenas para esperar o namorado, vinha buscá-la.
            Enigmática um dia ela mesma. Outro dia música. Uma melodia desconhecida, mas ótima. Uma composição de levar de bandeja qualquer um para o sucesso.
                                                                       ***
            Era como se eu tivesse levado toda a história até ali sem me preparar para o pior ou para outra parte ou para outro passo ou para qualquer coisa. Eu tinha que mudar de ares. Mudar. Sair fora. Viajar. Procurar o que encontrar noutro lugar. Quem sabe com outras pessoas e outros ares e montanhas e rios e artes. Um adeus e outras deusas. Novos mares, novos conhecidos, novo ânimo, novo rumo ao acaso.
            Fui procurar a Beberibe. Fomos ao cinema. O filme era um grupo de soldados passando de vilarejo em vilarejo pegando ou requisitando cavalos e comidas e mulheres, enfrentando jagunços, montanhas, pântanos, caatingas e gândaras. Talvez fosse a Coluna Prestes, nem recordo direito. Levei a mina pra casa dela e a beijei na despedida. O portão de ferro entre a gente rangeu, sem graça, de cada um parcelado.
                                                                       ***
            Dia de garoa, chuvinha constante que mais molhava que caía. Um pé de pequizeiro com pequis amarelos atraiu mil passarinhos, carregado de frutas maduras saborosas e doces, atraiu mil aladinhos. Um milhão.
            E eu e você e todos nós, e os seres falantes em geral, o que viemos fazer aqui do outro lado do planeta? Viemos a este mundo para caminhar à toa. E plantar árvores. E virar de vez em quando árvore pássaro outros bichos.
            Se eu fosse prefeito desta cidade eu compraria terrenos baldios e plantaria árvores para colher passarinhos incidentais. As árvores nem fiam nem tecem mas nem incomodam.
                                                                       ***
            Final das aulas, oh!, fotos de língua de fora, guampas na cabeça, risos de mais x, sentados na escadaria do colégio NSAparecida. Troca de presentes, amigo secreto, amigo oculto, amigo revelado, uma barra de chocolate e um livro de autoajuda. Formatura, ensaios, mão na bunda da Jari, calça social eu nem tinha, sapato preto pedi emprestado, gravata nem ia usar já que nem havia colete.
            Logo depois tomamos uns espumantes no clube SECarandá. Cada qual dançou uma música pelo menos com cada qual. Oito tortas de sabores, entre elas as duas de chocolate nega maluca, nem duraram mais de doze minutos. Mais cerveja e arrasta-pé. Beijos roubados, beijos solicitados, beijos demorados, encomendados, implorados, caçados, beijos selecionados, carícias e agrados e selinhos. A Enigmática muito escondida quase sempre do lado dos pais debaixo das asas dos pais. Foi tudo muito mais ou menos bem. Nem aconteceu nada. A Guaruba chorou um pouco mais que o esperado e já era consolada de todo jeito e agrados e mimos.
            Vi a guria me preparei um milhão de vezes agilizei pensei durante dias apressei o passo corri quando era para ir devagar fui lento quando era para correr havia cadeiras e mesas e gentes na linha reta na minha frente e quando a alcancei no braço peguei puxei com força suado nervoso assustado... quer dizer, melhor... cheguei por baixo rasteirinho e a convidei baixinho como um ratinho...
                                                                       ***
            Quando que foi um sonho eu garanto. Puxei a campainha para descer do ônibus. O bicho o latão o lotação parou de supetão. Parou de repente e fazendo ferros ranger. Como eu estava no segundo andar, tive que ter cuidados para descer pela escada em espiral, nem tropeçar e coisa e tal, carregado de bagagem, as mãos ocupadas. Onde eu vira um ônibus de dois andares? Olhando para baixo parecia um poço de elevador e muito fundo, tão perigoso tão rigoroso. Resultado que eu vacilei e fui me cuidando muito e devagar, devagarzinho. O motorista, impaciente, impessoal, nem deixou que eu chegasse à porta. E partiu, arrancando firme e aos solavancos. Fui desembarcar somente lá na frente, na outra parada, praticamente no bairro vizinho, na rua Riachão do Dantas. Tive que refazer todo o caminho.
            Nem falei nada ninguém falou nada o ônibus continuou nem consegui entrar em casa eu acordei aí.
                                                                       ***
            Pois eu ia viajar no ano seguinte. Próximo ano. E para donde? Para fora. Para dentro da aventura, ao encontro do lugar escolhido. Mas para além de mim, da cidade de Cantagalo, Magé, Estrela, Três Passos... do país, etcétera e tal, isso sim senhor. E o mais tardar amanhã, ano que vinha vindo ali.
            A dúvida viciava e fazia mal. Desconfiava de mim, do mundo, dos etês de Varginha.
                                                                       ***
            E vieram as pragas sobre a cidade as que arrasaram tudo e todos. Primeiro uma tempestade de granizo que durou meia hora e destruiu todas as plantações de milho, soja, algodão, gado e destelhou casas e instituições públicas.
No outro dia todos comprando telhado novo e foram admirar a lavoura em petição de miséria. E era forte olhar as ruas com entulhos nas calçadas. Olhar as casas sem chapéu ou sombrinha. As hortas bombardeadas. A terra do fim de uma era. A terra com a extinção dos dinos e atacada por meteoritos frios.
            Dois dias depois chegou uma chuva mais forte e nem parou mais. Choveu o que D mandou e foi muito. Nem se podia sair lá fora. Tudo úmido. Tudo alagado. Tudo inundado. Um novo dilúvio, minha gente! Chuva e vento forte de rajada. E que pena olhar as ruas lavadas, abertas em rios de águas barrentas, canoeiros buscando ilhados, animais mortos rolando na correnteza, árvores aos pedaços. Olhar as casas murchas e aguadas e inundadas. As plantas amassadas e retorcidas. As plantinhas de folhas baixas e queimadas. Os cachorros molhados, gripados, acuados, perdidos como cegos no tiroteio.
            Mais uns dias e apareceram os primeiros doentes. Pessoas com febre corriam até o posto de saúde que ainda estava destelhado. E outros e mais outros. E virou uma endemia. E causou pânico. Os mosquitos da febre amarela. Os saqueadores noturnos. E o socorro que nem vinha que nem existia. E ninguém estava seguro. Uma amargura ver as ruas desertas de trânsito. Olhar as casas fechadas e escuras. As plantas perdendo as folhas. As gentes e animais e plantas morrendo de frio, batendo os dentes, encarquilhados, deixados abandonados em decúbito dorsal mãos agarradas ao peito com rosário entre os dedos. O exército acampado, prestando socorro, improvisando hospital no meio da praça em frente ao palácio Buriti.
            Mais dois dias e chegaram do céu os urubus-de-cabeça-amarela. Asas bem abertas. Veio um vieram dois chegaram vinte um e de um em um num fim de semana e já eram mil e duzentos carniceiros no mês. Foram milhões. Revoaram pelo alto do céu com as correntes quentes. Pousaram nas árvores mais altas que encontraram, sete-sangrias, boca-de-sapo, calumbi, bacuri... Pousaram nos muros e nas cumeeiras destruídas das casas das garagens. Pousaram no chão. Galinhas pretas e sem graça. Pousaram onde preferiram. Piaram também à vontade. Procuraram os mortos da peste, comeram tudo que apareceu, arrancaram pedaços e brigaram arrastando as entranhas. E foi mesmo muito abichornante olhar as ruas tomadas pelas aves de preto, passeando sem ninguém as molestar, pescoços pelados, bicos curvos, caras de famintos predadores da morte. As plantas magras carregadas de urubus-reis.
            E os urubus vieram para o almoço, para o jantar, para o café das quatro da tarde, para ficar. E os urubus vieram com amigos urubus. E os urubus vieram com família e parentes e aderentes e contraparentes. E tudo foi um bom manjar um bom restaurante ao ar livre campestre improvisado.
                                                                       ***
            Já era a terceira vez que me convidavam. E na terceira vez, então, eu fui. Eu, primo Mbéru, primo Imaruí. Total: caçar jacupemba. Alguém vira jacupemba na horta do seu Uruaçu e meus primos ficaram assanhados e me convidaram insistiram encheram os tubos. Na terceira vez eu fui, só de curioso.
            Nós tínhamos 15, 16, 16 anos e o Ibama nem tinha nascido efetivamente. Uma terça-feira à tarde, tipo 3h e 33min, partimos. Fomos a pé, de carro, de barco, de asa-delta, a cavalo...
            Eu e meus primos nunca que tínhamos visto um jacupemba uma jacupemba. Com cada qual com sua espingarda e chumbos de guerra. Fomos a pé de galochas que era por perto e o mato sujo e fechado. Sem guaipeca.
            Meu primo Imaruí disse e ficou falando:
            - Vou fazer um gol nessa casa aí... toffffffe!... goooool!... ahhhhh!...
            Ele chutou a bola imaginária na direção da casa - imaginando que a casa fosse uma goleira - e fez os ruídos e tais do chute, narrou o gol e comemorou, até pulou socando o ar, comentou, elogiou, deu entrevista. Ele era fanático de futebol e o time dele era muito fraco.
            Nunca que tínhamos visto um jacupema e seria ótimo. Nós nem tínhamos medo de jacupeba. Jacucaca era pouco. Só o bom mesmo o de acertá-lo.        
            Naquele tempo da caçada da jacupemba, nem tínhamos celular e nem como comprar futebol na tevê a cabo, até porque nem tínhamos tevê a cabo e nenhum telefone portátil. Mas, ali no meio do mato, tínhamos cachaça, uma garrafa para cada um e isso bem a tiracolo. Uma cachaça da boa engarrafada em São Leopoldo pelos freis franciscanos ou jesuítas, sempre confundo.
            Chegamos finalmente num lugar carregado de laranjas maduras e amarelas e apetitosas e pedindo. O primo Mbéru, mais magro e nervoso, trepou numa laranjeira com laranjas de umbigo. O meu primo Imaruí puxou o canivete. Uns joões-de-barro gritaram alarmados. Uns quero-queros voaram baixo e na nossa direção. Uns flamingos ave do Amapá.
            - Laranja com cachaça nem vai fazer mal?
            - Que esperança!
            - É que nem limãozinho!
            Descemos uma canhadinha e passamos por dentro de uma sanga. O tais e quais cipós-d’água atolados no alagado. Ouvimos curiosos os tartareios dos periquitos-verdes e o pio sempre afinado do sabiá-do-campo marcando território. Um casal de cajubins falando baixo e animadamente lá entre eles embaraçados nas moitas de macambira-de-pedra. Uma trilha já batida desviava do mato e seguia para o capoeirão, ex-roça de milho mandioca amendoim. Ouvimos gritos de macacos saitauás, muito raros por aí.
            Aliás, o vento dançava com as poucas árvores altas ali na capoeira. Um casal de tesoureiras, de olhos vigilantes sobre nós, pousados solenemente no último andar do guamerim velho barbado de barbas de velho.
            Então, ouvimos um pio no meio da capoeira, lá para aquele lado de lá, e já entendemos tudo:
            - É jacupemba!
            - É o jacupemba!
            - Uma jacupemba!
            E o assovio do jacupemba vinha chegando pelo meio da capoeira e parecia estalar galhinhos secos, pisar nas folhas secas, empurrar pedrinhas soltas, vibrar raminhos verdes de juá-listrado de erva-cidreira-do-mato. Os artilheiros nós aqui nos ajoelhamos ficamos nos joelhos rezando.
A tarde caía seu vermelho acaju e era ainda até bem clarinho. Aquilo era para esperar e esperamos. O mundo parecia redondo no horizonte. As nuvens passavam muito alto e ninguém dava um pio.
Sem maior aviso detrás de umas jarrinhas-de-franjas apareceu a crista de pena alta da testa do jacupemba, topete rudimentar, e atiramos nós três de trio ao mesmo tempo, te-te-treeeu!...
            - Que jacupemba que nada! - desabafamos nos entreolhamos, os 3 de olhos arregalados e as testas crispadas.
            O chapéu de penacho do jacupemba voara longe. Um grito de pessoa humana mais ou menos atingida de raspão na cabeça. E corremos socorrer o estrago no jacu-velho alvejado.


sábado, 14 de outubro de 2017

Contos de Santa Luzia (17)



            Ana Paula, um nome e tanto, o nome mais bonito de todos, foi um dia ao baile mais próximo de casa somente para encontrar por acaso por deuses por sorte Antônio Cacequi. E Antônio Cacequi procurava... uma montanha?, uma namorada uma noiva e logo logo casou com ela. Ana Paula gostou muito dos dentes naturais e brancos e bem cerrados do Antônio. Não tinham casa nem carro nem moto nem bicicleta nem ensino médio; mal tinham a eles mesmos com fome de bola. Antônio não tinha nem dois sapatos. Ana Paula não gostava de futebol. As coisas se completaram, mas não se fecharam. Tiveram um primeiro filhote: o Inço. Nessa época foram morar em Lagoa Vermelha: Coronel Xavier Chaves: Praia Grande: Nazareno... Sem querer nasceu a Aimara. Antônio Cacequi se identificava com o Internacional, e Ana Paula com as novelas das seis das sete das oito das nove das dez das onze, de todos os canais abertos e/ou fechados. Veio a filhota Tapaiúna, abençoada. Se mudaram para Cruz Alta: Sombrio: bairro Ponta da Areia em Niterói: avenida Marquês de Valença... justamente na fase recém-recém que nascia a Ivete.
            Ivete - D do céu quis assim - tinha uma distinção ótima de nascença: os olhinhos verdadeiramente e belamente verdinhos. Primeiro abriu o de cá, olhou um pouco, fechou o olhinho, e aí sim, abriu os dois ao mesmo tempo: os dois olhinhos lindinhos e verdezinhos como verdes são as folhinhas das plantas lavadinhas pelas chuvas do verão as violetas-do-mato. E o tempo correu sem que se pudesse vê-lo revê-lo, foi correndo sem que ninguém o impedisse. O tempo o rio mudando as estações de vez em vez e de quando em quando e de vez em quando. E Ivete se arrancou de casa aos quinze anos. Para quê? Mas pra quê! Ela achava que sabia, mas... - vai saber! Por quê? Como? Ela achava que queria ser monja budista e... - não queria? Carregou consigo umas roupinhas, um álbum de figurinhas de artistas de música e um caderno escolar com inúmeras frases feitas tiradas de livros e revistas e almanaques. Foi, claro, para Porto dos Casais: Rolim de Moura: serra de São José: pedir luz e graça diante da estátua de Santa Rica de Cássia em Santa Cruz do Sul... Queria arrumar um emprego; queria fazer faculdade de medicina ou biologia; queria um mundo novo; e queria outras coisas que ia lembrando pelo caminho. Graças a D, e aos pais, tinha olhos verdes (que no comércio local vai muito bem e útil e vantajoso como acertar sozinho na mega-sena). Primeira coisa conheceu a rua da Praia também dos Andradas; o Beira-Rio; o parque da Redenção; o bairro Moinhos de Vento. Achou bonito charmoso aconchegante o nome: Moinhos de Vento: Menino Deus: Cidade Alta: Teresópolis... No primeiro trampo trabalhou uma semana num supermercado oferecendo produtos novos para sanduíche, na verdade uma mortadela especial original marca vinda de Chapecó: Barroso: Atílio Vivacqua: Montenegro... Mas por ter os olhos verdes sempre verdes, tão verdes como a brisa do mar, foi descoberta por um gerente, o tal e qual que lhe fez um convite irrecusável, intransferível, perturbável. Ivete recusou o assédio e voltou para Cruz Alta: Prados: Rosário do Catete: praia de Ibicuí... cheia cheia de saudades. Seu Antônio Cacequi, o pai, lhe perguntou o que não queria nem saber. Por isso mesmo Ivete levou uma sumanta de levantar vergões no lombo e fazer bicho, e que deu medo até na vizinhança. E como eram lindos seus olhos verdes inundados! Mas então, mesmo com a mãe muito quieta, Ivete revoltou sozinha ao Portinho: Janaúba: Turvo: cercanias do parque do Ibirapuera: rua Manoel Botelho de Oliveira... Procurou outros empregos dos bons e dos melhores, outros assuntos e termos, e que nem precisavam tanta referência e/ou experiência. Arrumou um salário mínimo como garçonete numa churrascaria típica gaúcha a Poncho Verde: Lanceiros Negros: Bagé: Costela na Vala... Graças graças aos seus olhos verdes, bem que se diga!, verdinhos como folhas de palmeirinhas-de-petrópolis. No verão, logo no princípio do verão, perdeu o emprego. Estava grávida. Juntou os trapos com um sargento brigadiano, o Ivan Murucu. Graças sobretudo aos seus excelentes olhos verdes. As coisas pareciam certas e completas e acabadas mas... sempre é bom esperar mais uma surpresa. E nasceu a filhinha que, entre milhares de nomes, escolheram chamá-la de Mônica.
            Mônica cresceu rápido como um flash. Com dois meses já fazia dezesseis anos de ótimas primaveras. Nesse ínterim meio-tempo, Mô-ni-ca criou sem sombras de dúvida um grilo pernóstico no meio das ideias. Esse grilo-cantor: como achar um tesouro? E um tesouro dos bons e caros. E um tesouro eterno e dourado. O que é preciso para achar um tesouro fabuloso magnífico prepotente? Bem, não sabia da resposta. Nem do tesouro do mapa da caverna da ilha da enseada do atol. A partir dos dezessete caiu no mundo. Instintivamente começou uma viagem ao redor do globo viajando à Praga capital da Ucrânia onde conheceu um mágico desempregado ex-brasileiro chamado Mário Aipo-Falso. Viajaram pela Europa de trem de navio de bicicleta de trenó no alto inverno escandinavo. As coisas foram bem, mas não fecharam. Nasceu um filho que chamaram na hora de Ricardo - e estavam entre Richard e Ricard. Então, foram pensando em viver sempre mais e mais. Assim conseguiram chegar à Índia, por coincidência atrás de especialistas na profissão mágica de Mário. Mônica aprendeu também alguns truques desses de tirar coelho da cartola, puxar tiras de pano da boca, achar moedas na orelha, cartas na manga, flores no sovaco, ovos no coque do cabelo. Visitaram outros lugares turísticos e sagrados e místicos e sânscritos e históricos e milenares: todos até muito dignos e famosos e antigos: uns com estátua da Xiva seis braços pernas trançadas cabeça de elefanta, do Buda deitado de lado segurando a cabeça sorrindo orelhas de elefante. Passaram sede, fome, frio, cansaço, insônia, raiva e calor. Tiveram, porque quiseram, mais um filho, uma filha e lhe deram o nome de Mirta. Então, com muita paciência, Mônica suportou o desaparecimento, pofe!... no ar, do companheiro Mário Aipo-Falso o feiticeiro. Enquanto nosso país decidia entre presidencialismo e parlamentarismo... o prestidigitador se escafedia num passe de mágica. Mônica pensou sozinha: que fazer em caso de incêndio? Mônica, dois filhos para criar e conviver diariamente, restava abandonada na insegurança. A primeira coisa que pensou foi abrir um quiosque de artesanato na rua 12 de Outubro. A última coisa que pensou foi em suicídio do alto do viaduto Mula Preta em Dois Lajeados. Um dia, teve de concluir na hora e foi o que fez: se amigou com um monge paraibano (fugido das revoltas ou entreveros ou escaramuças do Ronco da Abelha, 1851-52) radicado no Nepal. Se comunicavam por gestos, mímicas, coaxos, fom-fons, olhares e narizes. Foram morar em Goa Velha, capital da Tailândia. Só o monge sergipano ex-radicado no Nepal sabia onde ficava essa tal de Goa. E este monge ensinou a ela Mônica outros truques mágicos, por exemplo: cuspir fogo sem beber a gasolina, engolir espadas sem machucar a própria garganta ou sem sofrer a ânsia de vômito, mastigar vidro sem cortar as gengivas, entortar barra de ferro com as mãos, puxar com os dentes um carro de oitenta cavalos. E se presentearam com mais uma filha: a Lehicha (com h aspirado). Mônica já sabia muitos truques feiticeiros, e sozinha, podia fazer grandes espetáculos ao ar livre nas ruas nas praças nas esquinas na escadaria do museu Casa de Padre Toledo em Tiradentes. Participou de um concurso de magia em Bucareste capital econômica e política e artística do Mianmar e tirou o terceiro lugar. O prêmio em dinheiro serviu para se despedir do amigado brâmane, e daquela parte do mundo, e comprar a passagem de retorno ao Brasil: Piauí: Coronel Sapucaia: Ermo: rua Barão de Cotegipe... Oito semanas depois, em férias na praia do Cassino, encontrou o Lídio Cangambá, ex-colega da época que ela mesma morava na vila de Nossa Senhora da Madre de Deus de Porto Alegre. Lídio, ele e tal, o tal e qual, vendia suco de limão no verão e café com leite no inverno, ali pela praia, no centro nervoso de Cassino: bairro Acroá: avenida Marquês de São Vicente... Resolveram juntar os cobertores de orelhas. Mônica, um dia, olhou a praia tomada de banhistas e cangas coloridas leves esvoaçantes; e, um dia, olhou a praia com seus olhos renovados por dentro, e sem óculos escuros; e ainda, um dia, olhou a praia desinteressadamente; certo, um dia, ela olhou a praia que fazia repetia sempre uma meia lua de areia branca; espiou, outro dia, quem te viu e quem te vê!, o dia bom da praia deserta sob o sol do dia inteiro. Olhou a praia chapada de sol, dias e dias, sabendo que do outro lado tinha a África. Os dois juntos, Mônica e Lídio - ninguém conseguiu impedi-los -, tiveram trigêmeos filhos: o Papa-Arroz-Preto, o Nepomuceno, e a Patrícia.
            Patrícia nasceu por último no dia 8 de outubro com defeito na perna esquerda. Todos ficaram com dó da menininha e também com vontade de rir da guriazinha pelas costas. É, as coisas nunca são completas! Por mais concentrados sempre escapa alguma coisa. E os próprios familiares queriam esquecê-la e riscá-la do mapa do caderninho e protegê-la do mundo longe das pessoas e perto dos bichos domésticos de estimação cachorro gato porco rato. A guria em pequena comia terra já muito bebezinha. E gritava até rebentar os tímpanos dos próximos. Desejavam, na família, que morresse assim não sofreria o que sabiam que iria sofrer - principalmente na escola. Uma coitadinha. Até pensaram, mas sem executar, em largá-la no mato, ou jogá-la na lagoa Feia, ou escondê-la num poço vazio, ou ainda enterrá-la viva, ou esquecê-la numa cestinha perto de uma casa de caridade fora da cidade, ou abandoná-la na canoinha à deriva no rio Juquiá. Olhando bem, se tivesse nascido um bichinho seria presa fácil dos predadores, atrasaria o bando, atrairia aves de rapina falcão-peregrino e seria descartada sem apelação. Se tivesse nascido entre canibais não se sabe o que aconteceria. Na família normal civilizada ocidental, já se disse, era vista e revista como um estorvo ou um sacrifício ou uma provação ou uma condenação. Quando a viram nascer já sabiam daquele preconceito dentro deles dentro do mundo e que deixavam transparecer. E como tudo isso de pior acontecia com ela, logicamente que Patrícia não pôde ter uma vida social normal, conviver, aprender e ter sonhos burgueses. Não sabia em que mundo poderia resolver o seu caso particular. Não sabia confiar. Não sabia esperar. Não se engajou em nenhum partido ideológico. Se arrastando por aí, pela casa, na rua ou na praia, e se escondendo a maior parte. As crianças, principalmente as crianças, não a perdoavam, não a suportavam, e não queriam vê-la mais gorda mais magra. Patrícia talvez já achava que a história tinha que lhe ser assim. Pagava pecados que só os outros cometeram e que D sabia muito bem. Castigada por D pelo que os outros fizeram ou omitiram. Pior mesmo foi não poder aguentar a própria impaciência. Gostou de um menino com brincos de pirata e sotaque do interior de São Paulo: Batatais: Porto União: praia da Armação... Mas o carinha lhe fugia apavorado. O menino já não dormia mais de luz apagada. E foi por essas e outras que Patrícia resolveu abandonar a escola e a vida social e a vida pública e a vida ao ar livre na rua General Goes Monteiro e a vida familiar e a vida urbana. Fez de tudo para se esconder, para ser esquecida. Crescia? Crescia torta e com uma ira profunda. Aprendeu a tocar violão sozinha, de ouvido. Descobriu ter uma voz muito afinada. Os vizinhos também. E um dom especial para a invenção musical. Mesmo assim, nenhuma alma leve e sensível era profundamente boa para olhar para ela e aceitá-la ou acariciá-la ou educá-la ou prestigiá-la. Aprendeu a tocar ainda melhor no escuro. Chegou a um tal e qual alto estágio de evolução autodidata que até sabia compor com arranjo sofisticado. Tão inteligente que até compunha suas próprias canções com letras de pura poesia. Tão melodiosa que o sabiá-laranjeira parava para ouvir e vinha conferir de perto. E ninguém lhe dava a menor pelota. Crescia. Crescia meio para um lado; mais para um lado, menos para outro. Cantava e tocava e compunha seu próprio repertório. Fazia composições para os carinhas, mas nunca teve um namorado. Foi para Porto Alegre: bairro Passo dAreia: rua Felipe de Oliveira: edifício Bento Teixeira e gravar um disco às próprias expensas. E começou a engordar desnecessariamente acintosamente compulsivamente. E só cabia em grandes vestidos rodados. Ficou inchada, irreconhecível, lenta, ruminante, pouco saltitante. Pesava já como uma aliá. E se locomovia em cadeira de 4 rodas. Contratou uma moça para auxiliá-la na hora do banho, na hora de colocar o calçado, na hora de entrar no táxi, na hora de ver alguma coisa que caiu no chão, na hora de levantar da cama. A contratada não suportou dez dias o mau humor da patroa. Patrícia gravou o ano seguinte outro cd e foi morar em Salvador: bairro do Morumbi: rua Marquês do Paraná esquina com avenida Barão de Ubá. Todos a suportavam; ninguém queria conduzi-la ao matadouro. Idealizou um plano artificial: contratou um garoto de programa de nome Gilson Tíbi. Este Gilson tinha tatuagem sim na altura da virilha (nome e sobrenome de ex-namorada), e era mesmo forte o bastante. Foi contratado por dois meses, talvez mais. Era paciente, insistente, agressivo quando solicitado e tinha um burrichó enorme. Tudo que Patrícia precisava urgentemente. Patrícia, então, viu as nuvens mudar de sentido e só podia ser no céu; uma cirurgia bariátrica e emagreceu sessenta e sete quilos e trezentas gramas num piscar de olhos. Na verdade à beira tranquila de uma praia do Espírito Santo chamada Itaúna. E tudo isso lhe inspirou outras músicas românticas, psicodélicas, sambas canções, axés, baiões. E, coisa preciosa, viu a barriga aumentar de novo mas de um jeito suspeito. Era tudo o que queria. Largou tudo para trás. Foi para Gramado: Dom Pedro: Porto Walter: Nova Monte Verde esperar a filha bendita abençoada. O sucesso era passageiro e ela queria mudar de rumo? A vida artística era uma fábula e ela queria manter os pés no chão? Jurava ter toda a paciência do mundo para que a filha saísse sem defeitos e sem neuroses. Então, olharia para ela, apalparia seu corpinho, beijaria, consultaria os médicos e lhe daria o nome de Vitória. E Vitória nasceu no dia 2 de julho efeméride da independência da Bahia meio do ano de 2019. As coisas se ajeitaram, mas nem tudo foi mamão com mel puro de abelhas tubibas. Vitória veio ao mundo num dia de eclipse solar e, que coisa!, que raramente acontece.
            Pouco tempo depois de nascer, o mês do calendário, Vitória foi morar com a família da mãe em Canoas: perto da estação Mathias Velho do trem: beira do rio dos Sinos: alameda Barão do Campo Belo. Como não tinha um pai presente achou que não precisava de homem por perto. Acostumou assim e não sabia se era melhor. Saber que teria que ter um homem para uma coisa tão simples assim... ela sabia, mas no fundo no fundo não achou importante naquela hora não achou que alguns centímetros fossem tão importantes naquele momento. Na escola, Vitória gostava de aprender H do B. E viu que a História era sempre sem mulheres, nunca com mulheres, sempre sem mulheres, mulheres na cama na cozinha, e olhe lá! Isto a deixava sem forças, sem ânimo, desconsolada, muda, confusa, desolada e frustrada. Cansou de perguntar o que queria saber. Por estes e outros grandes ou pequenos motivos, se apaixonou pela melhor amiga a Marta (por acaso bisneta do barão de Rio Bonito). As coisas estavam mesmo completas, mas havia outras coisas além daquelas coisas. A melhor amiga, Marta (um olhar de felina selvagem tipo jaguatirica), lhe deu muita corda no começo da relação. Vitória teve algumas recaídas com rapazes, mas nada de grave ou gravíssimo, nenhuma sequela ou consequência. Então, V de Vitória aconteceu, já mais crescida, já vacinada, que resolveu existir como uma planta ou folhagem. Queria ser um vegetal assim: parada, quieta, estática, silenciosa, imóvel, concentrada e fazer sombra quando pudesse tipo assim no caminho de uma praça da cidade praça Sargento Noraldino Rosa: praça Montevideu: praça Marquês de Abrantes; e dar flores, sim; dar frutos, não. Como? Agora uma coisa: que espécie de árvore poderia dar flores sem frutos? Uma árvore infrutuosa. Uma árvore incidental e útil que somente oferecesse sombra ao freguês? Uma árvore de mais de trinta metros e galhos esticados para os lados. Uma árvore que os passarinhos nativos adoram. Uma perobeira, quem sabe? Uma paineira, quem sabe? Uma ipê-amarelo, quem sabe? Por assim dizer podia viver toda a sorte de um destino de mais de cento e cinquenta anos (os últimos) num lugar apenas e qualquer e firme da terra firme. Tinha medo de virar madeira de lei e tábua e caibro e peça de decoração de interior de apartamento no alto do prédio. Pensando, pesando, arriscando tudo isso e mais um pouco, foi que decidiu de uma vez para sempre existir e morar no espaço de um museu público museu do Morro da Caixa d’Água Velha. Escolheu o lugar por ali perto de um espelho d’água, numa clareira, longe da rua, ao lado de um chafariz do século XIX chafariz São José em Tiradentes. Não contou para ninguém e foi morar nessa vila Capitão Manoel Dias de Oliveira: arraial Garcia Rodrigues Pais: aldeia Sete de Abril... Ali se enterrou até o pescoço e esperou crescer. Esperou que as raízes se prendessem muito fundo. O solo não era dos melhores, mas fazer o quê?! É, as coisas nunca são completas ou exclusivas ou definitivas. Talvez por isso viveria uns cento e trinta ou cento e quarenta anos menos que o previsto. Ou seja, pau que nasce torto não serve para espeto! E quando surgiram as raízes mais fortes, a esperança começou a se fortalecer obviamente e a fazer sentido profundo. Daí para frente, para baixo e para cima, o tempo seria importante, ou não. E pagou para ver. Passou as horas muito sem atividades e contando as próprias folhas. Passou os meses sem nada para fazer ou desfazer. Os anos tinham as estações, vá lá! Os ventos carpinteiros, vá lá! As chuvas eram boas. Naquele lugar que escolheu morar e ficar vegetando, nada nada lhe dava preocupações. Não acontecia absolutamente nada. Do outro lado da rua talvez pudesse enxergar e se conseguisse cheirar uma feira livre de artesanato, um estacionamento de táxis, um quiosque vendendo suco de cana e rapadura, uma loja de eletrodomésticos. Um ou outro detalhe a mais, como por exemplo, os cães acompanhados de madames e senhores aposentados que vinham mijar no seu pé. Os passarinhos que descansavam nos galhos, e eram três espécies as mais assíduas, almas-de-gato, tchintchorrintchos, tesoureiras, beija-flores-cinza. Pipocou-lhe flores amarelas de todos os tons. Um perfume novo na diocese capela do Senhor Bom Jesus da Pobreza em Tiradentes. A prefeitura que lhe vinha aparar os galhos e a grama em volta dos pés. É, e foi assim que Vitória se esqueceu no vegetar vegetar. De tão lento era tudo que nem se via crescer. Perdeu a noção do mundo e cochilou anos a fio. O tempo era muito sossegado, pacato, pataco, profundo, solar, vegetal, clorofila, fotossíntese. Vegetava como dormindo o tempo todo. Um domingo atrás do outro. Um novembro atrás de novembro. E como era uma planta nativa, não gostava muito do vento minuano. Numa primavera resolveu despertar: deixou o vento morno sacudi-la muito bem sacudida. De repente, então, lhe veio um desespero tremendo, horroroso, enorme de chato, incontrolável de mau: “Ah, se arrependimento matasse!” - pensou. É que Vitória queria ser eterna. Sonhou ali na hora vegetal, que queria ser árvore florida, muito bem!, mas ainda uma árvore que desse flores depois frutos e estes com sementes ou caroços. Estava na centésima vigésima sexta primavera e queria evoluir além de planta florindo amarelo. Aproveitou que um funcionário da prefeitura veio para cortar a grama e lhe pediu para ser enxertada: evoluir a raça. Claro que foi atendida. Assim chegaram muitos profissionais para fazer o transplante. Muita discussão politicamente correta, no início. Houve mesmo a seguir uma operação difícil com todos os riscos de infecções e sequelas. Médicos e psicólogas com toucas na cabeça e máscaras no focinho e luvas e água com sabão. A esperança a vontade o ânimo de Vitória a fizeram superar os meses as estações de convalescença. Conseguiu, e total: foi ótimo. Superou todos os problemas traumas e entrou na outra etapa outra fase, mais produtiva mais evoluída, da longa estada vegetativa. Daí para frente, para baixo e para cima, com as folhas se renovando a cada primavera a cada temporada. E com a certeza de sempre se expandir, se perpetuar, se espalhar pelo mundo, se eternizar, lançar flores no espaço, atrair polinizadores e frutificar. E se passaram mais oitenta anos? A capital já não era mais Brasília, nem mais a mesma; passara a ser Água Azul do Norte, de fato e de direito. E no ano que se sentiu suficientemente forte, V carregou. Pintou um mundo de flores amarelas. E a seguir vieram as frutinhas verdes, depois amarelas e doces - que perturbaram os pássaros curiós as tuiparas-de-asa-laranja os tico-ticos as corruíras... Que nome o dessas frutinhas? Como era nativa foi tomada pelos passarinhos. Um passarinho em especial pegou uma das suas frutinhas e foi descomer em certo lugar na cobertura de um prédio de apartamentos - tudo por acaso. Também por acaso a semente, que sobrou do guloso passarinho, caiu em terreno fértil fofo de jardim suspenso. Era tudo de bom. E surgiu uma perspectiva de vegetal interessante? Algo apontando. Já brotou. Medrando. Surpresa para a senhora aposentada, dona Iara parente por parte de mãe do barão do Javari, que cuidava da floreira na sacada. Bastou apontar as folhazinhas macias e verdinhas para receber o nome de... Aurélia.
            Aurélia, corpo e alma, cresceu no encalço do sol. Um dia, quando botou botões para o mundo, a sua mãe, senhora aposentada e tal, dona Iara neta por parte de pai do visconde da Vila Real da Praia Grande, cortou-lhe um dos ramos e pôs o tal e qual rebentinho num vaso com água e açúcar na mesa da sala de visitas. É sério?! Aurélia se dividiu, então, por umas horas ou mais. E o clima ali naquele ambiente ficou mais sadio, mais bonito, mais refrescante e perfumado. As visitas não faziam mais que a obrigação de elogiar muito. Elas chegavam perto olhavam com carinho botavam o nariz e diziam: “Que linda!” “Eu nunca tinha visto uma haste assim.” “E é pura elegância festiva.” “Ou será que ela me ouve me vê me percebe... Obrigada!” E o ramo de Aurélia, ali no vaso com água da torneira, carne da sua carne, muito se envaideceu, mas não disse nada. Muito se achando, até. Recebeu um nome próprio e uma vida particular e independente: Arnalda. Então, tá! Tanto que não queria mais sair da frente do espelho; tanto que não queria mais perder cabelos; tanto que adorou se sentir prestigiada; tanto e mais que pretendia jogar vôlei na praia da Pipa em Tibau do Sul; tanto que pretendia tirar uma temporada na reserva extrativista do Alto Tarauacá; tanto que pedia murmurantemente que a acariciassem nas folhas tenras. E assim começou e foi mais longe além. Muitos chegaram naquela casa para elogiá-la, cheirá-la, tocá-la, regá-la, pedi-la em casamento. Uma noite de chuva e raios e trovoadas e escuridão, tudo ocorreu. Tudo aconteceu como nas estrelas. Mas foi aí que a Aurélia resolveu estender seus braços e alcançar resgatar salvar o seu galho separado, agarrar a Arnalda. E elas se encontraram no meio do espaço no meio do caminho no alto do muro e se abraçaram muito forte como ex-irmãs siamesas. E as duas se sentiram realmente nas nuvens e sacudidas pelos ventos brabos do pampa. Mas Arnalda já era superficial por demais calculista, e no outro dia já contava tudo para as visitas da casa. Aurélia ouviu e se confundiu no começo por causa desse fiasco mas, depois... bola pra frente!, achou que já podia rir disso tudo e se desprendeu daquele ciúme ou encosto. E viriam outros temporais. E agora, vamos supor, Arnalda. Que conheceu outras namoradas, pretendentes diversos a escolher, a Suzana: o jacaré-de-papo-amarelo: o descendente dos cagoã fulano Buritirana e natural do parque serra do Divisor: a igreja Matriz de Santo Antônio em Tiradentes: o Cristo Redentor do Monte Corcovado em o bairro Santa Teresa: o mate refrescante tereré. Pois que passados dois anos e dois meses, Aurélia encontrou Arnalda e vice-versa na faculdade de geografia praça da alimentação. Se encontraram num dia ensolarado. E, para dizer a verdade, Arnalda já estava cheia ou vazia daquela sua vida de enfeite junto dos bibelôs. Aurélia e Arnalda começaram a conviver e a recordar os bons momentos, que foram poucos, mas intensos e certos. O país vivia uma crise sem precedentes no congresso com seus eternos e vitalícios políticos corruptos donos do poder, etc. Então, largaram tudo para trás e fugiram, no carro dela Aurélia, para bem longe... bem longe... lá para perto de Pelotas: talvez Cristal: Boqueirão do Leão: Pindoretama... Queriam esquecer ou deixar para depois e mais tarde quem sabe nunca o que não queriam agora ou de repente pra frente nem pensar mais. E acharam que podiam, e acharam que seria fácil, e acharam que era só recomeçar ou adotar um filho. Foi nessa época que Aurélia começou a esperar uma filha. Foi nessa época também que aquela uma ex da Arnalda as descobriu. Aí, foi uma correria para as duas se esconderem. O casal fugiu de Nova Prata a cavalo. Um cavalo baio de duas selas: duas asas: quatro patas. Arnalda nas rédeas e Aurélia, grávida ou gravidíssima, na garupa. A ex da Arnalda, que levava o nome de Capororoca-Verdadeira, perseguia num automóvel ou numa caminhonete rural hidramática. O par perfeito não tinha muita sorte já àquela altura. Tentaram umas trilhas por dentro de canhadas e brenhas e sangas, por cima de coxilhas e campos e chapadões, varando dias e noites, temporais e céus abertos. A ex seguia os rastos como cão perdigueiro como cão paqueiro como cão fila como cão fantasma. A ex tinha muita vontade de acabar com aquela palhaçada romântica e escorregadia e melodramática. E a tal Capororoca-Verdadeira correria atrás delas até o fim da vida para destruí-las. E a fuga do casal de pombinhas não tinha paz. A situação de Aurélia era para breve: a gravidez avançava para as rodadas finais. Uma manhã como outra qualquer. Uma manhã foram alcançadas num capoeirão perto de um monte de pedras em a cidade de Anta Gorda: São Pedro da Cipa: Itaituba: sesmaria de um barão de Iguape... A ex desembarcou do carro e metralhou as duas às 8h e 18min. Soprou a fumacinha branca tradicional que escapava do cano da arma. A ex, tal de Capororoca-Verdadeira, pegou o auto e retornou para casa, muito bem vingada, rádio do carro ligado na estação, pela orla valorizada da praia do José Menino. Mas, na cena do crime, se seguiu alguma coisa ainda mais surpreendente. Surreal. Nasceu espontaneamente uma criança. Aurélia, mesmo morta, detonada e perfurada, salvou a barriga e deu à luz. Era uma menina sem nome. É, as coisas nunca são completas mas... - parabéns! Bebezinha que já chorava louquinha para existir a qualquer preço, não importando como ou para quê. Era ninguém e queria ser assim mesmo: ninguém, com n minúsculo.
            Por sorte, por acaso, por destino, por hora, ali por perto passeava farejando uma Tamanduá-Bandeira. Esta estava ainda solícita de carícias e carente de alisamentos e solteira de namorados. Bastou ouvir aquele choro e foi lá ver o que era e o que não era. Foi puxada pelos instintos maternais ainda não experimentados não resolvidos. Achou tudo estranho, mas aquela droguinha que chorava estava evidentemente viva e devidamente pedindo mais cartas. A Tamanduá-Bandeira lambeu o pequeno ser e ele se acalmou, a bebezinha se acalmou e até parou de lamuriar. Mas também tinham que ter cuidado: os urubus estavam voando baixo e em círculos e ainda auxiliados pelas rajadas dos ventos quentes. Assim, a Tamanduá-Bandeira, instinto de mãe no dna dos ossos, dos nervos, do sangue, agarrou a menina sem nome e fugiu dali. Ficou tão encantada com aquele ser mole e pulsante e murmurante que decidiu ser mãe adotiva. E começou a amamentá-la, a lhe dar formigas na boca e cupins na boca e mel na boca. E haja tanta e tanta formiga tanto cupim tanto piolho tanto mel silvestre. Quando precisavam dormir se escondiam num buraco, quando precisavam procurar formigas a Tamanduá-Bandeira carregava a fedelha nas costas. E olha que no primeiro inverno a Poioquinha quase quase sucumbiu. Chorou muito, é verdade. Então, a mãe adotiva a deixava no buraco e ia buscar formigas ou cupins ou grilos-comuns. Poioquinha sobreviveu porque existem milagres e sortes e acasos e inexplicáveis. Depois, Poioquinha aprendeu a catar formigas e cupins e borboletas e caramujos e grilos-pretos e gafanhotos e escaravelhos por conta própria. Longe dos olhos da mãe adotiva, ela comia outros viventes semoventes maiores. Comia cogumelos, brotinhos de baririçó, pétalas de flores de pataquera, pitangas doces, goiabas-do-mato, talinhos de florzinhas azedinhas do meio do gramado. E até se equilibrava nas duas pernas. Um dia brigou com a mãe Tamanduá-Bandeira por causa de um ninho lindo de tanajuras. Foi uma briga feia e gulosa e separatista. A mãe adotiva lhe arranhou uma orelha. Daí, Poioquinha fugiu, fugiu, e com muitas dores no lugar do estrago e na alma. Odiou a mãe adotiva. De noite não sabia dormir sozinha, teve medo, não tinha buraco próprio para se esconder, então, foi procurar chorando a mãe Tamanduá-Bandeira. A mãe a deixou entrar na casinha-buraco com muitos conselhos e recomendações. Mas para Poioquinha o mundo já não era o mesmo, a vida já não era a de sempre, coisa e tal e qual, e assim por diante. Parecia mesmo que a coisa não estava correndo nos conformes. Então, Poioquinha procurou escapulir e estava muito escuro lá fora. Se encolheu num canto do buraco e esperou chorando pelo pior. Na manhã bem cedo, a Tamanduá-Bandeira saiu 5h e 05min para procurar formigas ou outros insetos quaisquer. Poioquinha fingiu que dormia e esperou. Quando se viu sozinha, então, saiu de casa definitivamente furtivamente e para sempre. Olhou para os lados, farejou o rasto da mãe adotiva, nem olhou para trás, e foi para o lado oposto. Estava decidida a procurar o seu destino, o seu lugar no mundo, embora sem saber se esses indivíduos existiam uma vez. Achava que já podia procurar comida por conta e nunca mais depender. Pegou um rumo ao acaso e, engatinhando como aprendera com a mãe adotiva, foi embora. Pelo caminho recolhia aqui e ali já ressequidos os cadáveres de formigas e outros bichinhos...
            ...nesse momento uma sombra de dúvida com preocupação uma nuvem grande pesada de areia transpareceu apareceu no meio ambiente no seu olhar...
...o capoeirão era enorme e requeimado. E o calor sempre mais intenso e feroz. Um sol encoberto e o deserto vermelho começando tudo do fim. Vinham ondas de poeira nociva tóxica mefítica. Não chovia há meses e meses. Chão muito quente minado de estrepes pedras tucuruvas. Não aconteciam mais lacraia, aranha, grilo-dos-canteiros, besouro, rastro de bicho algum. De repente faltou azar?
E Poioquinha estava longe da sua ex-loca. Olhou o oco carregado de nuvens de poeira vermelha, o calor de forno fornalha fogueira, cheiro de queimado, terra esturricada. De surpresa, Poioquinha ouviu uns batuques na lata. Para Poioquinha eram de suspeitos inimigos horripilantes. Só podiam ser de maus inimigos racionais. Tinha certeza que eram. Então, farejou o ar, exatamente como aprendera com a mãe adotiva, e teve certeza absoluta que estava em extremo sos. Procurou correr para o outro lado, e o mais rápido possível. Correu quase como gente. E já preocupada em encontrar um esconderijo. Corria tanto e tão desesperada que às vezes ficava correndo como um bípede normal. Era um bípede desajeitado. Os baticuns de lata os tum-tuns! do peito chegavam mais nítidos preocupantes. Poioquinha sentiu que o perigo batia a sua porta, entrava pelos ouvidos, contaminava até os ossos, aturdia o juízo. Por enquanto até esquecia do calor forte o mormaço o ambiente irrespirável. Viu um buraco e se enfiou urgentemente por ali. O buraco não era o buraco ideal, mas era um buraco oportuno. Não se lembrou, enquanto isso, que poderia estar ocupado, e ela invadindo casa alheia. Ou que o dono pudesse voltar e a coisa ficar pior que já estava. Tremia apavorada entocada no escuro. De repente faltou luz? Ficou ali, dentro do buraco, de olho muito aberto arregalado, farejando o buraco, orelhas altas, esperando pelo pior, cuidando a porta. E os batimentos de lata como do seu peito saltaram na boca se misturaram e vieram numa rapidez, tum! tum!... E bateram a sua porta! De onde estava sentiu o cheiro de inimigo e ouviu muito nítido a percussão do latedo. Estava perdida? Perdida e meia? Poioquinha estava rodeada de cinco ou seis aldeões aldeãs carrancudos falidos armados. Poioquinha estava para o próximo episódio.
Uma e outra espiral de poeira que subia descia e ia em frente e voltava conforme reinava o diachinho do saci. Terreno contaminado de minas terrestres extraviadas. Todo dia dias e dias de calor severo. Não chovia há vinte anos. Poeira preta encardida arrastada pelo vento empanturrava a boca dos boçais.
            Chegaram, então, a seguir, mais outros dois ou três aldeões, sempre calçando enormes e deformados chinelos de tiras de arame, sombras esticadas no chão calcinado, e que começaram a olhar a toca onde Poioquinha se enfiara. E que gritaram coisas, que andaram em volta da toca, que esfregaram as mãos, que bateram com os pés dando os tais e quais saltos acintosos.
Poioquinha estava apavorada, porém, esperava estar longe do alcance entalada no seu esconderijo. Ela, apesar, nem de longe pensava tudo que poderia temer. Poioquinha achava que o buraco a salvaria.
Então, os grandes bípedes aldeões cavaram em volta da boca do túnel e... foi o que deu de terror... Sem demora já sacaram Poioquinha de debaixo da terra... olharam com surpresa... aquilo era um crila humano com cara de poioquinha?! E uivaram, hei!... com os braços pro alto:
            - Uta! Que coisa, cambada! - disse e até rangeu os dentes sujos um dos aldeões, e que foi o bastante.
            Os aldeões passaram e repassaram as costas da mão nos beiços e numa fúria descontrolada ansiosa. A surpresa era dos caçadores, e da caça também. O côncavo avermelhado de nuvens de poeira já muito baixas e até rasteiras. O sol tapado desorientava mal e mal o dia. Tudo seco, seco, cinza, coberto pelo pó milenar e uns quebrados. O bafão que subia do chão tremia a paisagem dos 4 apocalipses.
            Poioquinha tinha vontade de arranhar e morder e espernear e fugir. Ao mesmo tempo tudo era muito furioso e, achou, muito perigoso e abichornante. De instante para instante tinha certeza que viraria petisco tira-gosto lanche sopa e o que desse.
            Ela de agora Poioquinha estava hiperestressada e coisas esquisitas aconteciam ao redor. Não, surpresas nem aconteciam? Poioquinha não acreditava em assombração porque não sabia que assombrações pudessem acontecer, uma vez. Já era tempo de horrores? O tempo o espaço as coisas tudo fora da matemática.
            A aldeia de Santa Luzia torrava ao alcance da mão do pé. Pixotes descalços e insuportáveis brigavam de se estapear socar perseguir chutar cheirar cola de sapateiro nos poucos degraus da capela. A pracinha pontilhada de espetos escuros ex-árvores caaxiós, ex-paineiras, ex-aricurirobas. O calor miserável.
Poioquinha foi colocada numa jaula para mais tarde, amanhã ou depois, atração turística. Os aldeões e as aldeãs, irados e desgrenhados e magros, se contorcendo de dores espumando sem poder resistir. A gula falava muito alto, mais alto, rilhava os dentes.
O saci, queimado no fogo, pulava endemoninhado no redemoinho da rua Única. A terra roncou por debaixo dos pés da vila e o tremor arruinou a maior parte das poucas pequenas choças cobertas de sapê e provocou desfez escorregar a poeira as pedras os paus dos morros ao derredor. O sismo teve uma amplitude de 9.2 graus (com base em 10) na escala de magnitude local. Depois 31 réplicas em menos de 30min., a menor de 6 graus.
Cinco horas depois, 15h e 51min., Poioquinha já estava com os minutos contados em franca regressiva. De repente faltou diálogo. E já os aldeões e as aldeãs decidiram moqueá-la direitinho. E no dia 9 de dezembro, aquele mesmo dia, as partes da Poioquinha foram numeradas e expostas e disputadas e distribuídas num bingo concorrido.