Esse Céu Azul Que
Nunca Vi
Parei
ao meio-dia, no meio da rua André da Rocha, no meio da aula, no meio do dia, no
meio do sol, no meio do mundo, no meio de tanta guria bonita, no meio do meu espírito
ineficaz. Parei sentindo meu tum-tum!... bater risadas de deboche de trouxa de
otário. Sério!
Eu
mesmo era igual às outras tantas umas árvores por aí, um cajueiro-do-campo.
A
rua, a encruzilhada, o dia, o zênite cheio de luz inefável. Nem me senti
pequeno, nem me senti grande, nem mais ou menos. Mas me senti somente esquisito
e melindrado.
-
Acha que D nem quer tomá conta de tu?
Eu
estava andando na calçada a jusante da rua Irajá Pirapitingui quando algo ou
alguém me chamou a atenção:
-
Só espero que me ajude! Preciso comprar o palácio dos Paiaguás especialmente!
Porque
aí o trânsito recomeçou a fluir total.
E
vou mesmo simbora, vou agora, vou navegar pelo rio Paranaíba, ou o rio
Vaza-Barris, e nem esperar mais nada - disse, então.
Nem
tem como e por quê, mas tem quando. Ah, se tem!
***
Molhei
as mãos. Olhei as linhas misteriosas. Que segredos se esconderam por ali e que
nem valem a pena?, pensei. Olhei minhas mãos e daí? Olhei as tais linhas de
trem, trilhas no campo, carreiros de ratões-do-banhado, tatuapés. Apreciei aqueles
rios, rio Amola-Faca, rio Carreiro, rio Sabia... Olhei os atalhos feitos a
facão sem cabo.
Falava
pra mim falei por mim uma ou duas frases curtas terrestres contundentes
discutíveis, exemplo:
-
Partirei! Tenho que ir!
Passando
pela janela tive a visão da copa de uma grande estoraque-do-campo depois a
nuvem com cara de navio antigo mais pra cima a lua e o céu todo azul luminoso.
Mas nem sempre era ansim.
Fazer
como os katukina, ou seja, tomar kampo para nem ficar comendo pedra.
***
Nem
levava uma sorte aventurosa interessante promissora. Nem levei, nem fui buscar.
Por que nem era pra mim.
No
começo por aqui e ali, havia bem mais pinheiros-do-paraná bem mais árvores
jatobás-de-casca-fina, facheiros-pretos, marias-gordas, utuapocas... menos
cidades mais pássaros mais chuvas. À uma hora, milhões de quilômetros, pensei
no mundo distante e desabitado do Neblina.
Vou
sair e ver o mundo, a particularidade do caminho, a distância do país. Vou
andar andar andar... correr ruas, procurar o que nem sei encontrar. Procurar a
minha importância, a minha cota de participação, a minha pouca sombra - o que
eu pensava. O leito do meu rio.
Esse
céu azul que às vezes de repente se enche de ataúbas.
Céu
absoluto recortado em redondo longo concha eterno diante da terra. Ou seja,
algo que nunca vi. Melhor, quase certo.
Depois
vinha retornando a moda de me bandear.
***
Com
permissão da ideia de D, o sol pulou cedo a lua pulou cedo e todos pularam
pulou cedo a begônia-sempre-florida pularam cedo os aborígenes mati os camaiurá
os caingangue... pulou cedo a iraúna-grande arengaram cedo os
periquitos-de-asa-azul, barulharam os pica-paus-manchados...
Jaçanã,
Jaçanãzinha, Jaça, Jacinha. Às vezes cantava, cantava baixinho, cantava que
dava pra se ouvir, cantava alto que até ecoava. Seus olhos brilhavam, seu
sorriso se estabelecia. E resmungava. Nem interrompia o canto, o tin-tin-tin!...
Berrando e rindo e chorando e gorjeando. Ela era alegre, esperta, afogueada,
carinhosa, desgovernada. Tinha susto de quase todos os animais e insetos. Tinha
receio de todos os bichos, inclusive dos que falavam dividiam disputavam com
ela a casa dela da família.
E
Jaçanãzinha se perguntava e perguntou a alguém pelaí:
-
E amanhã?
Era
uma pergunta essencial bem típica do dia a dia. Uma dúvida fundamental. Uma
indagação absoluta. E arriscou mais:
-
E depois de amanhã, hein?!
Jacinha
rilhava os dentes, nem se arrependia, nem esbravejava, nem sabia onde botar os
pés. Nem se arrependia de quê? Jacinha batia palmas, mas nem muito. Começava
bater palmas depois dos outros e parava antes de todo mundo. Batia palmas no
meio dos aplausos.
Olhos
eram os de Jaça, olhos febris, pessoais, vidrados, arregalados, interrogativos.
Como uma adolescente descobrindo sexo dentro de si na noite de si no sossego de
si.
Pois ela
Jaçanã sorria seu sorriso incontinente.
E
chegou a Cabiúna. Cabiúna ou Cabi. E veio Cabiúna e perguntou, do fundo do precipício,
do seu jeito:
-
E amanhã?
Onde
andava A. P.? A rua Itália estava perdida isolada sem. Onde ficou e nem voltou a
Ana Paula?
E
surgiu Congonhal para perguntar. A pergunta básica e clássica e ensaiada e
surda e física:
-
E amanhã?
E
apareceu a Berizal, Berê? Apareceu a prima Botumirim, a Botu. Aquela perguntou
com os cabelos louros lá dela; essa última perguntou com os seus lábios grossos
ali dela: perguntaram a mesma anedota matrimonial figadal mental:
-
E amanhã?
Quem
era Ana Paula?
***
Dizia
pra mim mesmo: quero partir-ir-ir... Dizia pra mim mesmo que queria partir. Que
ia partir. Que estava partindo. Que estava de partida. Que era questão de dias,
no máximo uns poucos meses, mais tardar março. Estava tentando me acostumar com
a ideia. E de independência ou morte.
Que
dia teve aquele aquela que D apontou o dedo e mandou escolher os três desejos,
em?!
Ia
para uma aventura no rio Purus, rio Embirá, rio Batalha, rio Cotovelo... Ia
para um passeio no Atol das Rocas, lagoa de Barra Velha e outros pedaços. Será
que deixarão entrar?, me perguntava. Ia ficar o dia todo correndo o país e
programar uma visita no palácio Setentrião. Os dias de sol de chuva pelaí,
Coronel Murta, Pombos, Chã Grande, Aracruz... O conhecimento a ciência dos
lugares em particular, Embu-Guaçu, Bom Progresso, Itaguaí... Eram milhões.
Depois
vinha a vontade de dormir.
***
A
lua caminhando, o céu sem nuvem, sem estrelas, quase sem vento, a lua no alto
sorrindo, o silêncio universal do azul no tempo e no espaço.
Divisão
que estava para regimento para batalhão estava para companhia estava pelotão. Então
o camarada sai de casa bem cedo e vai para o quartel de soldado cabo sargento
tenente capitão longe longe major até chegar um dia a general. Quem sabe!
Pensei
que poderia ter confiar meus olhos olhando. Delirei que buscavam meus olhos a
qualquer preço. Depois me disseram que queriam comprar. Era só o que faltava!
Os meus olhos de olhar sem ver.
-
Você nem acha que ontem hoje o sol se parece com a lua estrelas?
***
No
Brasil de então de antanho de quanto faz e tanto fez, quando o Brasil era Ilha
de Santa Cruz e Terra de Santa Cruz, e sobre este tudo nada se sabia... e nada
se descobriu... e por fazer...
Era
manhã comemorativa começando limpa de doer nos olhos. E bem de árvores bem de
pássaros bem de ventos bem-te-vis-cabeça-de-estaca... Um calor que fazia
enxugar com a mão de minuto a minuto corpo suado escorrendo pelo rosto passando
as costas das mãos para tirar o excesso da testa. Com chuva no meio da tarde
para festejar os insetos e as aves e o arco-íris. E no dia seguinte nem dava
tréguas nem tinha nada nem igual na floresta no oceano.
Então,
pelos refolhos da história da capitania de São Vicente, na ilha de São Vicente,
as mulheres acharam por bem valorizar e conservar um costume lá delas que veio
de longe de antes com elas as mães as avós as bisavós. As mulheres sempre em menor
número, embora. Especialistas em contornar problemas para melhor enfrentá-los ultrapassá-los.
As
idades das fêmeas do arraial na ilha de São Vicente variavam de fio a pavio e
de cabo a rabo. E acreditavam que o pajé Manipuçá dos capinauá morador do morro
do Aratu era muito bom no sentido de prevenir contra os males em geral,
doenças, fomes, pragas, enigmas, invejas, guerras, invasões de corsários
franceses holandeses ingleses.
Então,
começos de novembro do ano de 1544, as mulheres, as moças e as meninas do
arraial, que já eram velhas e cansadas, foram procurar o pajé dos majubim lá
longe no tope do morro do Aratu. Os homens adultos estavam no mar pescando, na
beira da praia fazendo canoa, no alto das pedras espiando o mar para ver
cardume de tainha de manjuba de sardinha ou pirata holandês francês inglês. Os
velhos da aldeola ficavam para cuidar dos meninos e dos jaguanés e outros
bichos de estimação. Era novembro e as plantações de avati e batata-doce e
amendoim e mandioca e abóbora estavam para ser estocadas colhidas e semeadas.
Por
isso mesmo que as baleias-francas nem tinham coragem de se aproximar.
O
mar e o céu faziam uma boa disputa para ver quem era mais cordial quem era mais
arteiro. O vento a lua vinham inesperadamente acordá-los. E o mar explodia nas
pedras. Nem dava para dizer se o céu era mais importante. Mas as águas do céu
eram azuis e às vezes se misturavam com as verdes do mar.
Como
discutir o mundo sem o grande mar-oceano e a floresta intransponível, ambos sempre
ali.
Depois,
era de tarde, já veio a água a chuva o aguaceiro de verão.
As
fêmeas de todas as idades, casadas e solteiras, as crianças e adolescentes,
entraram na mata na fila indiana. Um mundo de mato inexplorado, grápias, gogós-de-guariba,
ibirapitangas, ajuís, aroeiras-do-campo, matiambus, curiúvas, juquiris-guaçus,
farinhas-secas, perobas-iquiras, samambaias, cipós, bromélias... Atitudes muito
bonitas e desprendidas da parte das mulheres. Umas já eram mães, outras
querendo namorar o quanto antes, ainda outras sonhando serem escolhidas, logicamente
que todas de um cheiro comum juízo sonso e rumo incerto.
-
Todo mundo diz isso...
-
Disse, dizem o quê?
O
tal e qual céu azul somente dos pássaros em bando aos gritos guinchos alaridos.
Uns passavam da ilha para o continente, outros do continente para as ilhas. Um
mundo de marianinhas-da-cabeça-preta... escolhiam um forte e alto araçaí e
faziam uma revolução um gritedo incrível e talvez até desnecessário.
-
Mas a lua nem é sua!
-
O céu é filho dileto de D.
-
Tem lá uma nuvem nova grande grossa e tentando nos alcançar.
-
E deve vir já empurrada pela música.
-
Se eu tivesse certeza...
E aves
pássaros passarinhos de todo cantar timbrar, bem-te-vis-do-bico-largo,
gralhas-azuis, pombas-rolas, inhambus, seriemas, tucanos-do-bico-verde,
araras-azuis-grandes, curiós, sebinhos, ferreirinhos, quero-queros, jacus... Mulheres
e crianças e adolescentes iam todas de olhos bem abertos no chão quase
desconhecido, no alto das árvores, boca aberta, ouvidos alertas, abrindo picada
com facão quatro listas.
- Nem esquecem
do lugar, uma vez.
- Muito levada
da breca... ah ah ah!...
- Com todo
cuidado para nem comer espinhos, hum...
- Às suas
ordens, madama!
- Já-já vai
vir a chuva e da grossa!
- Como hoje
como sempre como amanhã...
Umas
se mantinham alegres, outras mais preocupadas, outras ainda menos preocupadas. Umas
pegando sol na cabeça outras com chapéu de palha de buriti trançada outras com o
lenço a manta o xale dos tons segurando o cabelo amarrado debaixo do queixo. O
caminho muito difícil pela mata fechada, subindo e descendo morros pedregosos,
passando banhados, cruzando capoeira espinhosa, experimentando atalhos, os
taiaçuapés, ora era um túnel feito de galhos ora um campo coberto de erva o capim-navalha.
Um guincho aqui e outro mais ali de macacos-aranhas, porcos-do-mato, guaraxains,
janauís... periquitos-de-encontros-amarelos passando por cima indo no sentido
das ilhas do litoral.
-
D fez um milagre.
-
Mas também seria uma coisa só D.
Poucos
acontecimentos mais importantes, olhos piscando no meio da folhagem escura, alguns
acontecimentos sem relação de importância, besouros irisados, jararaca dormindo
na moita de contra-erva. Trilhas difíceis sob um sol forte, dormindo no mato
noites muito escuras, enxame de mosquitos perto dos alagados. Tinham uma vaga
ideia do caminho pois o morro do Aratu se enxergava de longe. Timbre
inconfundível da araponga. O sol que mudava de lugar, a lua que andava pra cá e
pra lá, as estrelas que piscava sem parar, o vento que falava com as plantas,
as árvores que andavam para trás.
Numa
altura que pararam por motivos de força maior. Uma senhora a Majuba estava pela
hora. E foi ali mesmo questão de oportunidade. Esperaram três dias na beira de
uma lapa. A mulher deu cria no meio do ninho de capim-rei a bebê chorou e mamou
sem abrir os olhos, por enquanto. Aguardaram mais dois dias e voltaram para a
caminhada.
-
Uma filha é outro problema. Seria bom um menino.
-
Santa, santa!
-
Nem vale a pena.
Se
distraíam olhando as flores, orquídeas raras, lianas, jerivás carregados de
coquinhos, estalidos e ecos superpostos, taocas, passarinhos curiosos, macucos,
perdizes, caburés-de-orelha, ajurujubas, pica-paus-do-pescoço-amarelo, urus,
araquãs, borboletas, escaravelhos... Nos pedaços de campo família de guaçuetês,
antas, capivaras, tamanduás-bandeiras, gambás, carumbés, tatus-canastras, preás...
-
Nem foi o que se pediu?
-
Se nem tiver filho homem vou adotar um casal de capitão-de-bigode, é. Mas tenho
pouco tempo para pensar.
-
Pra nem pensar, tu quer dizê!
-
Sem noção!
A
jornada já durava umas semanas. Colhiam butiás araçás guabijus goiabas-do-mato...
Uma senhora morreu picada por boicininga. Cinco crianças ficaram com febres
intermitentes e duas desistiram de tudo. Aconteceram algumas discussões,
brigas, mal entendidos, arrependimentos. A saudade ficava para trás ou para
depois na volta. E nunca pensaram em voltar do meio do caminho. Pararam no
riacho para comer peixe, pirapucu, bagre, traíra, jundiá, piava, charutinho,
anujá... que tinha aos montes e dava para pegar com as mãos desarmadas. A crença
nas beberagens do pajé dos maioruna era muito importante. Periquitos-reis sobrenadavam
o firmamento rumo das ilhas do mar. Acima do sol a batata-de-teju.
O
tal céu azul que ninguém sabia onde ia parar. O mar sempre ali tal e qual o céu
que ninguém nem sabia nem tinha ideia onde começava ou terminava e mesmo era um
e outro.
-
O que vamos fazer hoje?
-
O que vai acontecer hoje?
-
Vamos andando.
-
Depois descobriremos umas esmeraldas.
Um
dia, pelo meio-dia, sol forte acima das copas das altas árvores, muito cansadas
de chavascais, carrascais, catanduvas, itacurubais, itapevas, as mulheres e as
crianças e as adolescentes chegaram ao pé do morro Aratu. Olharam o morro e
fizeram o sinal da cruz. Sentaram e descansaram por três dias e noites. Só
importunadas pelos pernilongos.
Ficaram
curando as feridas e olhando em redor para o mato o morro, olhavam para trás,
olhavam o morro outras tantas vezes. Em volta o céu de sol terrível e azul ou
de chuva o mar céu baixo e por tudo a tachã cantando, ta-him!... a graúna,
grazinando!... o urutau, chirriando!... o catetinho, coinchando!... a jaçanã,
tridulando!... a irerê, gritando ireré!... a cigarra, estridulando!... o peitica-de-chapéu-preto,
assobiando!... bando de reis-dos-tuinins, flautando em confusão... a
preguiça-de-máscara comendo folhas de embaúba... E tudo parecia parado comum
anônimo e um mundo à espera.
-
Estamos na metade do caminho.
-
Depois da metade da sorte.
-
Depois e antes do fim dos tempos.
Mais
um pouco e umas horas de esforço e estavam no pico do alto do morro. Procuraram
a gruta do pajé Manipuçá dos tapirapé. Clamaram reclamaram chamaram por ele:
-
Xamãaa!... - gritaram umas e outras, mãos segurando a voz em concha.
A
natureza se alarmou, um bando de macacos-barrigudos gritaram pelo alto das
murtinhas, bico-grosso pegou a família e voaram longe... folhas da
genciana-roxa se mexeram mais que o comum. O sol já estava querendo cair também
naquele dia e em companhia de algumas nuvens de ouro. E as visitas assobiaram e
chamaram e gritaram pelo pajé dos manitsauá. Estavam perto? Estavam quentes? O
sacerdote estava em casa? Uma suindara piou nem souberam onde:
-
Feiticeirooo!... - eram umas e outras berrando adoidado, pois nem podiam perder
a viagem.
De
repente ouviram também um riso, uma gargalhada, um perder de fôlego de tanto
rir... Se entreolharam meio alarmadas ilhadas no medo:
-
De onde vem esse riso debochado e de pouco caso? - se perguntaram as mulheres
mais velhas e as mais novas também.
Uma
voz bem pertinho respondeu, rindo muito:
-
Ué, caraíba! Abaré Manipuçá assustô cunhantã, cunhã, ah eh eh eh!...
As
mulheres e moças e meninas olharam bem e descobriram o pajé dos iurimagua ali
mesmo, muito rente, bem perto, rindo, falando e debicando e fazendo de pouco,
disfarçado de ramo da árvore pente-de-macaco. Que ideia!
-
Como vai, seu curandeiro? - algumas perguntaram outras concordaram, ali mesmo
embaraçadas enleadas misturadas todas juntas em grupo compacto solidário.
O
pajé dos mapuá e seus mascotes, sagui-caratinga, papagaio-moleiro,
jabuti-aperema, todos carregados pendurados no índio velho, pularam fora da
vegetação se apresentando saindo das sombras.
-
Ué, caraíba! Abaré Manipuçá, umu-ru-ru!... ah eh eh eh!...
Aí, as visitas
convenceram o pajé dos torá a fazer um feitiço para que elas e todas as famílias
delas, o arraial todo em geral e unido, tivessem muita segurança, muita sorte,
muita fartura nas próximas colheitas e nos anos que viriam que pudessem
combater e expulsar todos os flibusteiros franceses ingleses holandeses. E o adivinho
pulou de lado, fez várias e variadas manobras e exercícios, brincou com pedras
do chão por ali, enfeitado de penas de papagaio-do-mangue na cabeça, maracá na
cintura, colar de dentes de onça-parda, porongo a tiracolo cheio de petrechos
secretos, tatuagens nos braços e pernas, corpo pintado protegido de urucum,
pitando cachimbo de taquara, bodoques enfiados nos lábios e bochechas e
orelhas, vez ou outra percutindo o pequeno uapi escavado em tronco de embaúba
com pele de suaçutinga, e o pajé dos jabuti pensou um pouco e riu demorado e
concordou:
-
Ué, caraíba! Abaré Manipuçá fazê tudo tudo fetiço dexá tudo muto catu, ah eh eh
eh!...
O
pajé dos tamoios foi buscar uns aparelhos e ferramentas lá na caverna dele onde
ele passava as noites e os dias de chuva. Foi lá dentro com secreto pé ante pé
cuidando se as comadres vinham atrás xeretar. Juru no ombro sagui em volta do
pescoço jabota debaixo do braço. Demorou pouco para voltar. Demorou o
suficiente. Voltou com cascas e raízes e folhas secas e frutinhas miúdas secas,
sementes variadas, catingueira, macela, chá-de-bugre, pata-de-vaca, sabugueiro,
barbatimão, fruta-de-macaco, espinheiro-bravo, unha-de-passarinho... e ele
sabia de tudo que a mata oferecia e sua serventia e sua utilidade o que
prestava e nem prestava.
-
Ué, caraíba! Abaré Manipuçá fazê mulé muto sorte catu, ah eh eh eh!...
As
fêmeas dos homens sentaram no chão, nas raízes das árvores próximas, nas
pedras, as crianças deitaram na terra vermelha, as crianças cataram tucuruvis
pra passar o tempo, as meninas brincaram de pega-pega esconde-esconde subiram
em árvores próximas, macaíba, guaritá, jacareúba, guatambu... descansaram na
grama macia na laje escorregadia. Tudo isso enquanto esperavam o feitiço muito
bom do tal caraí.
-
Ué, caraíba! Abaré Manipuçá... te-te-retetêee!... ah eh eh eh!...
O
pajé dos guaianás acendeu o tatá com pedras entre as pedras, bebeu tarubá e
cuspiu nas pedras e no cisco incendiando tudo. O mágico gritou coisas para o
alto, olhou o céu, se contorceu, ergueu os braços para o sol a lua as estrelas,
escolheu raízes e sementes, mastigou a maçaroca de ervas tóxicas, vomitou
verde, assobiou, gritou, esperneou, rolou no chão como doente metal ou da
barriga:
- Ué, caraíba!
Abaré Manipuçá... quibibibiuuuu!... eô! eô!... ah-ãh! ah-ãh!...
E o encantador
ainda resmungou entre dentes, todo possuído dos venenos e dos transes dos
êxtases dos devaneios das visões perturbadoras:
-
Ué, caraíba! Abaré Manipuçá... ah-nhãmmmm!... Caapora!... Amanaci!... Ipupiara!...
Boiúna!... Caruana!... Quaracy!... Jacy!... ah eh eh eh!...
E
lançou poeira para o alto urinou no fogo cuspiu e se ajoelhou. Sempre falando
qualquer coisa esquisita e nada decifrável inteligível imitando animais da
floresta numa linguagem nheengatu bem misturada:
-
Ué, caraíba! Abaré Manipuçá... tateretéeee!... biu-biu-biuuu!...
As
visitas passaram aquelas longas e contadas horas até a noite e que veio
estrelada, periquitos-vassouras retornando das ilhas verdes do litoral. Bem
alto na mata mais alto ainda o craveiro-do-maranhão era o último a ver o pôr do
sol. As mulheres dormiram na aba da caverna, outras debaixo das árvores, outras
mais nem conseguiram dormir, ainda as que foram para os galhos da amburana,
cambroé, araruva, juruté... arriscando cair lá de cima, etc., se recostando por
aí em volta.
E foi surgindo
devagarzinho o amanhecer com ensurdecedora matinada de tudo que havia de bicho
na mata atlântica. O enorme araticum-do-campo segurava poderoso com as mãos o
céu claro claro.
-
A gente nem pode esquecer de nada que pajé disser.
-
Nem vou esquecer de nada nada.
-
Cada qual leva uma coisa.
Tudo
estava ali e muito. O sol redescobrindo as cores do dia. O céu igual ao mar
espelhado. O vento anunciando desde cedo a chuva no meio da tarde. Os pássaros
e outros animais já sabendo de tudo de cor e salteado.
O pajé dos
cambiuá também sabia ler o mato ler o céu ler o voo das aves em geral. Rugas
aradas na testa garatujas de preocupação tensão nervosa. Pois esse pajé dos
tapaiúna ficou a noite toda em claro olhos bem abertos. E ainda ficou longo
tempo pela noite adentro e afora preparando as puçangas, os chás, os
comprimidos, as poções, os óleos, os emplastros e resmungando sozinho e rindo
de vez em quando gritando para os fantasmas ancestrais espíritos do chão e do
ar:
-
Ué, caraíba! Abaré Manipuçá... ih-teeeee!... iapuá!... iraí!... tubi!...
mandassará!... ah eh eh eh!...
Umas
oito horas do dia seguinte, do dia tal do mês de setembro do ano passante,
talvez mais ou menos observando o sol, o pajé tupinambá chamou todo mundo para
perto, o pajé dos iranxe chamou as mulheres em geral e lhes deu um comprimido,
as mulheres engoliram com um gole de água, chamou as crianças meninas, deu um
comprimido com mel de jati e elas comeram com prazer, chamou as moças cunhantãs
e deu um chá com fundo doce de flor de feijão-de-guizos e elas todas beberam e
pediram mais. Estavam todas, então, enfeitiçadas curadas para ganhar força,
proteção, independência e sorte.
-
Ué, caraíba! Abaré Manipuçá fetiçô mulhé muto catu, nhe-nhe-nhém, ah eh eh
eh!...
As
visitas se entreolharam se perguntando o que ele pajé dos uaicá estava dizendo,
depois de tudo:
-
Que ele disse mesmo? Será que ele terminou o feitiço?
- A gente já
pode voltar pra casa?
- Já estamos
livres dos perigos do mal?
- Pede pra ele,
pede pra ele!
O
decifrador recolheu suas coisas e riu e gesticulou e berrou e recomendou e preceituou
em companhia junto durante com seus mascotes o papagaio a jabota o sagui uma
família:
- Ué, caraíba!
Abaré Manipuçá... ah eh eh eh!...
O pajé tupiniquim
entrou na caverna, olhou para trás olhou para as comadres com olhar brabo
carregado de poucos amigos... o sagui o papagaio a jabota todos com ele num
punhado de olhos e caras, e o caraí fez sinal com a mão para que todas se
mandassem daí. Que fossem para as casas de volta para a aldeia para os seus maridos
e irmãos. As mulheres compreenderam os gestos nervosos e se prepararam para partir.
Se entreolharam se entenderam se decidiram de uma para a outra e todas ao mesmo
tempo falaram:
- Simbora,
pessoal!
- É, já deu o
que tinha de dar!
- Será que tem
de ajoelhar?
As excursionistas
desceram o morro com o estômago em brasa pegando fogo fogo. Os remédios estavam
fazendo efeito avassalador. Poções mágicas fortes e ferozes e insuportáveis. A
vegetação se apresentava toda amarelada tomada de amarelo puro, o sol já estava
azul, o ar poluído de bichinhos muito estranhos pequeninos pontinhos pretos de
agulha. O cheiro era diferente o ruído parecia de pedra ralando as coisas
tinham uma quarta dimensão o mundo estava sendo revirado de cabeça pra baixo.
Nem
doze horas de caminhada as cunhantains gritaram e viraram guaracigás de muitas
cores e bicos diferentes, voaram para as flores abundantes na região,
bromélias, orquídeas, margaridões, cravinas-do-campo, jasmins-do-mato,
pinhas-do-brejo... e sumiram se espalharam pela mata capilar múltipla abundante.
As cunhantãs,
que iam na frente mais dispostas, faladeiras, passeadeiras, sempre correndo,
viraram um bando de periquitas-de-testa-amarela e foram voando numa gritaria
ensurdecedora exagerada para as matas virgens da costa do continente procurando
árvores frutíferas altas árvores floríferas, sobraji, castanha-de-macaco,
tapiá... mata atlântica trescalante endêmica do litoral brasileiro sempre
pegando fogo nessa época do ano, arapiracas, cabos-de-machado, aguaís, sombras-de-vaca,
indaiás-guaçus...
As cunhãs mais
velhas maduras experientes acomodadas matronas mães de prole extensa viraram maracajás,
jaguaretês, canguçus... esgaravataram o chão de folhas molhadas e mortas
uivaram para a noite urraram de raiva arranharam afiaram as unhas no tronco das
sapo-sapos, barbas-de-paca, paus-terras-mirins, umbuzeiros... e nem se
entenderam mais. Cada uma pegou sua trouxa abraçou seus trens e se mandou se
esconder sem deixar rastos num grotão qualquer e particular.
Vento solto ar
azul terra hospitaleira mata como nunca se viu e oceano ainda ali, tudo bem
como bom no princípio.
***
Qualquer
mudança, qualquer mudança será melhor que nada; será melhor, será melhor; qualquer
mudança preencherá o oco da alma da palma; depois vou ver o que posso fazer
pelo resto; eu acho - pensei.
O
céu tão azul que eu sempre nem nunca lembrava.
***
Quem
viu a Saquarema aqueles dias? Eu vi e ouvi. Nem queria ter visto. Eu vi e ouvi a Pirapora de short branco. Um
calção muito justo e apertado e cavado e branco. O short de Pirapora, meu! O
short enfiado nas reentrâncias ou vales ou refolhos mais cobiçados esperados
dos últimos tempos. As coxas poderosas elásticas do cinema nacional. Uns peitos
apontando na blusinha querendo ganhar o mundo o futuro e os assobios em geral.
Depois
Iraxim se aproximou veio vindo como quem nem queria nada apareceu me falou me
disse que viu de surpresa como numa história viu um gato sem asas. Eu perguntei
se o bichano era rarefeito de matéria-prima. Ela continuou me dizendo que, nem
consegui acreditar no que estava vendo e com esses meus próprios olhos
castanhos. E fiquei parada paralisada estátua. E o gato ainda ficou ali um
tempo bem na minha frente. E eu sem saber o que fazer, tonta tonta, me disse
ela.
Iraxim
mais abriu os olhos o seu sorriso foi o começo do seu riso franco aumentando
tanto e bom de se ver de se ouvir até rebentar cair em cascata numa explosão um
oitizeiro florido amarelo de plena sublimidade e parabéns.
***
Sim,
porque, às vezes, tudo parecia que estava pela hora h. Parecia que nada do que
tentava podia dar certo. Só podia dar errado. Dar errado... ou nem dar em nada,
resultar inútil.
Porque tanta
gente tenta e nada. A maioria nem tenta muito, essa a verdade. Só alguns
conseguem porque D aponta o dedo.
Vou plantar
capim-agreste qualquer capim serve e somente pra mim, eu que decidia.
***
A
estrada (para a viagem, a minha viagem), sempre me aparecia limpa. A chegada
muito esperada. Uma parada aqui outra ali, Ibiraçu, Pedra Mole, Lagarto, rio
Apa, palácio Rio Branco...
Então,
eram a caminhada e a chegada. Faltava a partida. As ignições.
***
Existiam
tipos diversos, éramos diferentes naquela sala de aula, eu me admirava.
Enigmática era aquele ideal que estava na minha cabeça e ia e vinha conforme a
hora, o dia, a oportunidade, o acaso, o balanço do mar. E tínhamos gordos e
morenos, tínhamos bonitas e psicóticas, tínhamos assanhadas e loiras, tínhamos
e nem dispúnhamos, tínhamos ou nem tínhamos boas e tímidas. Nossa sala do
terceiro B era um zoológico mais variado. E também um parque de diversões com
palhaços, dançarinas, vendedores de algodão-doce, macacos amestrados, rodas
gigantes, balão de encher, mão boba joão-ninguém e maria vai com as outras. Tínhamos
os altos e baixos, nariz adunco, míopes, novos e usados. Tínhamos quem chamava
a polícia para prender o marido e, no mesmo dia, o perdoava, o beijava na boca
na frente de todo mundo. Tínhamos quem expulsava o amante que nem queria
trabalhar e nem ajudava nas contas com o filho. Tínhamos uma menina chamada
Aruana natural de Ji-Paraná e de olhar e olhos de gelo. Tínhamos uma capixaba
que falava cobras e lagartos do irmão vadio que só a procurava para pedir
emprestado ou filar um almoço. Tínhamos um cultivador de peixes, pirapetinga, abotoado,
timburé, barbado, curimbatá... nos aconselhando para uma alimentação mais leve
mais saudável, lá dos lados do bairro Caravággio, menos gordura carne branca o
alimento do futuro e das pessoas chiques. Compartilhávamos com Flor-de-Maio
sempre muito bem na moda que era amante do deputado estadual o Imburi Oiticoró e
trabalhava somente mordomia no período da tarde lá no palácio Anchieta. Um dia o
pessoal foi informado que um presidiário estudava na última carteira a dos
fundos. Mas pra quê, meu! Olha só o perigo o incômodo a situação, cara! Um tipo
louco que matara o pai a machadadas e do nada virou nosso colega de classe, nosso
vizinho de carteira... qual que é?! Que palhaçada! Que ousadia! O doidão era
bem quieto e nem se misturava. Nem falava com ninguém e só respondia quando
perguntado e muito seco direto e reto. Mas peraí, né?! Nem se enturmou. Um certo
dia interrompeu nem apareceu mais nem veio mais o que foi feito dele o que foi
um alívio geral.
Mas
eu eu mesmo procurei tive de tirar uma boa nota dez em física.
***
As
coisas acontecem e pronto. As coisas todas acontecem. As coisas da história da
gente, nem é?!
É
assim mesmo, pensava.
Sonhei
certa vez que o time ganhara de três a um. Final de jogo e o adversário já
tinha sido eliminado liquidado. Três a um, e cada gol, meu!
O
jogo mesmo de verdade fora um a um, quase acertei. Mas o meu time, foi de vero,
perdera ótimas e importantes chances de gol e de triunfar.
***
Minhas
dúvidas nem tinham finalidade alguma. Nem eram humanas. Eu nem criava nada. Eu
só me enrolava de sonhos e visões e desejos e teimas e manhas. Nem eram
pessoais. Nem eram passionais. Os principais amigos eram dois ou três, no máximo.
Ela
Enig mal e mal sabia de mim, eu sentia.
Nesta
minha terra, esta cidade, este lugar, onde vim parar por um acaso dos mandos de
D, onde nasci, para onde voltei de reencarnação, nem há circo nem cinema nem
trem nem avião. As pessoas se distraem com cerveja e namoros e futebol pela
televisão. Nem olham para o céu, nem olham para o chão, nem para os gaviões-carijós,
nem para o rio da Prata que tenha lá o volume que tiver. Elas se voltam se
viram como corujas-buraqueiras todas para o mesmo lado a mega-sena acumulada.
Mas
naquele dia cedo eu achei mais ou menos isso, e só um pouco diferente. Menos as
árvores, é claro.
O
sol colorindo o vento balançado sistematicamente os cachos cabelos cachados da
guria anônima. Que todo mundo passar foi ver.
***
E
Enigmática gostava? Todos nós achávamos que ela gostava de todos ao mesmo tempo.
Ou seja, cerveja. Na sala de aula ela sentava na primeira carteira. E a ideia
fixa de que Enigmática era tudo, e tudo mesmo, tudo para nós e para mim, esta
certeza me espantava. Esta incerteza nem me deixava um minuto de dúvida. Então,
pra falar sério, normal nem era. Ou seja, ninguém.
Eu olhava
minhas colegas de aula e olhava particularmente Enig. Eu procurava a cor dos
olhos, a forma das bocas e de todas. Cuidava se os cabelos eram soltos ou
ruivos. A maneira das beldades se acomodarem na cadeira. Os cotovelos na
carteira ou os joelhos fora da saia, quando de saia ou vestido. Quem gritava na
hora das provas, quem rezava baixinho, quem nem vinha para a sala de aula.
Cabelos encaracolados e soltos, lisos, duros, grossos, assustados, bonitos, femininos.
Eu fazia as contas e calculava. Tinha uma que mal aparecia e quando reaparecia
já-já o namorado, ela vinha pro colégio apenas para esperar o namorado, vinha
buscá-la.
Enigmática
um dia ela mesma. Outro dia música. Uma melodia desconhecida, mas ótima. Uma composição
de levar de bandeja qualquer um para o sucesso.
***
Era
como se eu tivesse levado toda a história até ali sem me preparar para o pior
ou para outra parte ou para outro passo ou para qualquer coisa. Eu tinha que
mudar de ares. Mudar. Sair fora. Viajar. Procurar o que encontrar noutro lugar.
Quem sabe com outras pessoas e outros ares e montanhas e rios e artes. Um adeus
e outras deusas. Novos mares, novos conhecidos, novo ânimo, novo rumo ao acaso.
Fui
procurar a Beberibe. Fomos ao cinema. O filme era um grupo de soldados passando
de vilarejo em vilarejo pegando ou requisitando cavalos e comidas e mulheres,
enfrentando jagunços, montanhas, pântanos, caatingas e gândaras. Talvez fosse a
Coluna Prestes, nem recordo direito. Levei a mina pra casa dela e a beijei na
despedida. O portão de ferro entre a gente rangeu, sem graça, de cada um
parcelado.
***
Dia
de garoa, chuvinha constante que mais molhava que caía. Um pé de pequizeiro com
pequis amarelos atraiu mil passarinhos, carregado de frutas maduras saborosas e
doces, atraiu mil aladinhos. Um milhão.
E
eu e você e todos nós, e os seres falantes em geral, o que viemos fazer aqui do
outro lado do planeta? Viemos a este mundo para caminhar à toa. E plantar
árvores. E virar de vez em quando árvore pássaro outros bichos.
Se
eu fosse prefeito desta cidade eu compraria terrenos baldios e plantaria
árvores para colher passarinhos incidentais. As árvores nem fiam nem tecem mas
nem incomodam.
***
Final
das aulas, oh!, fotos de língua de fora, guampas na cabeça, risos de mais x,
sentados na escadaria do colégio NSAparecida. Troca de presentes, amigo
secreto, amigo oculto, amigo revelado, uma barra de chocolate e um livro de
autoajuda. Formatura, ensaios, mão na bunda da Jari, calça social eu nem tinha,
sapato preto pedi emprestado, gravata nem ia usar já que nem havia colete.
Logo
depois tomamos uns espumantes no clube SECarandá. Cada qual dançou uma música pelo
menos com cada qual. Oito tortas de sabores, entre elas as duas de chocolate
nega maluca, nem duraram mais de doze minutos. Mais cerveja e arrasta-pé.
Beijos roubados, beijos solicitados, beijos demorados, encomendados, implorados,
caçados, beijos selecionados, carícias e agrados e selinhos. A Enigmática muito
escondida quase sempre do lado dos pais debaixo das asas dos pais. Foi tudo
muito mais ou menos bem. Nem aconteceu nada. A Guaruba chorou um pouco mais que
o esperado e já era consolada de todo jeito e agrados e mimos.
Vi
a guria me preparei um milhão de vezes agilizei pensei durante dias apressei o
passo corri quando era para ir devagar fui lento quando era para correr havia
cadeiras e mesas e gentes na linha reta na minha frente e quando a alcancei no
braço peguei puxei com força suado nervoso assustado... quer dizer, melhor...
cheguei por baixo rasteirinho e a convidei baixinho como um ratinho...
***
Quando
que foi um sonho eu garanto. Puxei a campainha para descer do ônibus. O bicho o
latão o lotação parou de supetão. Parou de repente e fazendo ferros ranger.
Como eu estava no segundo andar, tive que ter cuidados para descer pela escada
em espiral, nem tropeçar e coisa e tal, carregado de bagagem, as mãos ocupadas.
Onde eu vira um ônibus de dois andares? Olhando para baixo parecia um poço de
elevador e muito fundo, tão perigoso tão rigoroso. Resultado que eu vacilei e
fui me cuidando muito e devagar, devagarzinho. O motorista, impaciente,
impessoal, nem deixou que eu chegasse à porta. E partiu, arrancando firme e aos
solavancos. Fui desembarcar somente lá na frente, na outra parada, praticamente
no bairro vizinho, na rua Riachão do Dantas. Tive que refazer todo o caminho.
Nem
falei nada ninguém falou nada o ônibus continuou nem consegui entrar em casa eu
acordei aí.
***
Pois
eu ia viajar no ano seguinte. Próximo ano. E para donde? Para fora. Para dentro
da aventura, ao encontro do lugar escolhido. Mas para além de mim, da cidade de
Cantagalo, Magé, Estrela, Três Passos... do país, etcétera e tal, isso sim
senhor. E o mais tardar amanhã, ano que vinha vindo ali.
A
dúvida viciava e fazia mal. Desconfiava de mim, do mundo, dos etês de Varginha.
***
E
vieram as pragas sobre a cidade as que arrasaram tudo e todos. Primeiro uma
tempestade de granizo que durou meia hora e destruiu todas as plantações de
milho, soja, algodão, gado e destelhou casas e instituições públicas.
No outro dia
todos comprando telhado novo e foram admirar a lavoura em petição de miséria. E
era forte olhar as ruas com entulhos nas calçadas. Olhar as casas sem chapéu ou
sombrinha. As hortas bombardeadas. A terra do fim de uma era. A terra com a
extinção dos dinos e atacada por meteoritos frios.
Dois
dias depois chegou uma chuva mais forte e nem parou mais. Choveu o que D mandou
e foi muito. Nem se podia sair lá fora. Tudo úmido. Tudo alagado. Tudo
inundado. Um novo dilúvio, minha gente! Chuva e vento forte de rajada. E que pena
olhar as ruas lavadas, abertas em rios de águas barrentas, canoeiros buscando
ilhados, animais mortos rolando na correnteza, árvores aos pedaços. Olhar as
casas murchas e aguadas e inundadas. As plantas amassadas e retorcidas. As
plantinhas de folhas baixas e queimadas. Os cachorros molhados, gripados,
acuados, perdidos como cegos no tiroteio.
Mais
uns dias e apareceram os primeiros doentes. Pessoas com febre corriam até o
posto de saúde que ainda estava destelhado. E outros e mais outros. E virou uma
endemia. E causou pânico. Os mosquitos da febre amarela. Os saqueadores
noturnos. E o socorro que nem vinha que nem existia. E ninguém estava seguro.
Uma amargura ver as ruas desertas de trânsito. Olhar as casas fechadas e
escuras. As plantas perdendo as folhas. As gentes e animais e plantas morrendo
de frio, batendo os dentes, encarquilhados, deixados abandonados em decúbito
dorsal mãos agarradas ao peito com rosário entre os dedos. O exército acampado,
prestando socorro, improvisando hospital no meio da praça em frente ao palácio
Buriti.
Mais
dois dias e chegaram do céu os urubus-de-cabeça-amarela. Asas bem abertas. Veio
um vieram dois chegaram vinte um e de um em um num fim de semana e já eram mil
e duzentos carniceiros no mês. Foram milhões. Revoaram pelo alto do céu com as
correntes quentes. Pousaram nas árvores mais altas que encontraram,
sete-sangrias, boca-de-sapo, calumbi, bacuri... Pousaram nos muros e nas
cumeeiras destruídas das casas das garagens. Pousaram no chão. Galinhas pretas
e sem graça. Pousaram onde preferiram. Piaram também à vontade. Procuraram os
mortos da peste, comeram tudo que apareceu, arrancaram pedaços e brigaram
arrastando as entranhas. E foi mesmo muito abichornante olhar as ruas tomadas
pelas aves de preto, passeando sem ninguém as molestar, pescoços pelados, bicos
curvos, caras de famintos predadores da morte. As plantas magras carregadas de
urubus-reis.
E
os urubus vieram para o almoço, para o jantar, para o café das quatro da tarde,
para ficar. E os urubus vieram com amigos urubus. E os urubus vieram com
família e parentes e aderentes e contraparentes. E tudo foi um bom manjar um
bom restaurante ao ar livre campestre improvisado.
***
Já
era a terceira vez que me convidavam. E na terceira vez, então, eu fui. Eu,
primo Mbéru, primo Imaruí. Total: caçar jacupemba. Alguém vira jacupemba na
horta do seu Uruaçu e meus primos ficaram assanhados e me convidaram insistiram
encheram os tubos. Na terceira vez eu fui, só de curioso.
Nós
tínhamos 15, 16, 16 anos e o Ibama nem tinha nascido efetivamente. Uma
terça-feira à tarde, tipo 3h e 33min, partimos. Fomos a pé, de carro, de barco,
de asa-delta, a cavalo...
Eu
e meus primos nunca que tínhamos visto um jacupemba uma jacupemba. Com cada
qual com sua espingarda e chumbos de guerra. Fomos a pé de galochas que era por
perto e o mato sujo e fechado. Sem guaipeca.
Meu
primo Imaruí disse e ficou falando:
-
Vou fazer um gol nessa casa aí... toffffffe!... goooool!... ahhhhh!...
Ele
chutou a bola imaginária na direção da casa - imaginando que a casa fosse uma
goleira - e fez os ruídos e tais do chute, narrou o gol e comemorou, até pulou
socando o ar, comentou, elogiou, deu entrevista. Ele era fanático de futebol e
o time dele era muito fraco.
Nunca
que tínhamos visto um jacupema e seria ótimo. Nós nem tínhamos medo de
jacupeba. Jacucaca era pouco. Só o bom mesmo o de acertá-lo.
Naquele
tempo da caçada da jacupemba, nem tínhamos celular e nem como comprar futebol
na tevê a cabo, até porque nem tínhamos tevê a cabo e nenhum telefone portátil.
Mas, ali no meio do mato, tínhamos cachaça, uma garrafa para cada um e isso bem
a tiracolo. Uma cachaça da boa engarrafada em São Leopoldo pelos freis
franciscanos ou jesuítas, sempre confundo.
Chegamos
finalmente num lugar carregado de laranjas maduras e amarelas e apetitosas e
pedindo. O primo Mbéru, mais magro e nervoso, trepou numa laranjeira com
laranjas de umbigo. O meu primo Imaruí puxou o canivete. Uns joões-de-barro
gritaram alarmados. Uns quero-queros voaram baixo e na nossa direção. Uns
flamingos ave do Amapá.
-
Laranja com cachaça nem vai fazer mal?
-
Que esperança!
-
É que nem limãozinho!
Descemos
uma canhadinha e passamos por dentro de uma sanga. O tais e quais cipós-d’água
atolados no alagado. Ouvimos curiosos os tartareios dos periquitos-verdes e o
pio sempre afinado do sabiá-do-campo marcando território. Um casal de cajubins
falando baixo e animadamente lá entre eles embaraçados nas moitas de
macambira-de-pedra. Uma trilha já batida desviava do mato e seguia para o
capoeirão, ex-roça de milho mandioca amendoim. Ouvimos gritos de macacos
saitauás, muito raros por aí.
Aliás,
o vento dançava com as poucas árvores altas ali na capoeira. Um casal de
tesoureiras, de olhos vigilantes sobre nós, pousados solenemente no último
andar do guamerim velho barbado de barbas de velho.
Então,
ouvimos um pio no meio da capoeira, lá para aquele lado de lá, e já entendemos
tudo:
-
É jacupemba!
-
É o jacupemba!
-
Uma jacupemba!
E
o assovio do jacupemba vinha chegando pelo meio da capoeira e parecia estalar
galhinhos secos, pisar nas folhas secas, empurrar pedrinhas soltas, vibrar raminhos
verdes de juá-listrado de erva-cidreira-do-mato. Os artilheiros nós aqui nos
ajoelhamos ficamos nos joelhos rezando.
A tarde caía
seu vermelho acaju e era ainda até bem clarinho. Aquilo era para esperar e
esperamos. O mundo parecia redondo no horizonte. As nuvens passavam muito alto
e ninguém dava um pio.
Sem maior aviso
detrás de umas jarrinhas-de-franjas apareceu a crista de pena alta da testa do
jacupemba, topete rudimentar, e atiramos nós três de trio ao mesmo tempo, te-te-treeeu!...
-
Que jacupemba que nada! - desabafamos nos entreolhamos, os 3 de olhos
arregalados e as testas crispadas.
O
chapéu de penacho do jacupemba voara longe. Um grito de pessoa humana mais ou
menos atingida de raspão na cabeça. E corremos socorrer o estrago no jacu-velho
alvejado.