sábado, 30 de maio de 2020

Outra Vez no Carnaval (juvenil)




Parte 1
                                                          
            Para quando Lilás acordar levantar do berço pular da cama rolar da rede botar o pé no chão em pleno dia, a primeira impressão que vale muito, o dia já tem que estar aceso ligado e pronto ar aberto pra fora. Para quando o sol apontar nas horas 5 e 35 da matina, despertar de passarinhos incidentais e tucãos e caraúnas e tiés-pretos e aturiás e estrelinhas-do-pará..., o dia tem que estar já amanhecendo e crepitando e recebendo automaticamente o “bom dia!” e tralalá!...
Tudo isso é ótimo se D quiser, quando quiser. De mais a mais D tem que querer. D existe ou nem existe, então? Ah, aí que quero ver!
            E a verdade? A verdade verdadeira. Que a verdade seja dita a todo povo a toda gente a toda parte a todo instante.
            Uma vez, uns anos atrás, aquela vez em fevereiro começos de março... Nem tinha vento enchente inflação desemprego copa do mundo olimpíadas e nada de coronavírus. Logo cedo a matinada: passarinhos espertos rápidos caaingás verdes avenida Miguel de Frias e Vasconcelos bicicleta escola história geografia recreio merenda jogo no ginásio da associação poliesportiva Mari-Mari... Uma manhã lépida tarde limpa de verão estabanado fazer o quê. Nem é exagero e algum.
            - Estão construindo uma ponte estaiada enorme sobre o rio Juma! E vamos ver! - se sabe que foi a menina Lilás, muito querida eloquente.
            Correndo na esteira na bicicleta ergométrica, o mundo acordou e acordou naquele exato momento naquele preciso instante precioso momento e com um olho aberto de sol amarelo. E ela sempre gostou de férias e festas e viagens. O mundo azul de olho amarelo aberto no céu translúcido parecido. Um mistério sofisticado que nem dá para imaginar idolatrar paginar. Como nem pensar em túnel Morro do Boi, parque Serra do Curral, rio Acre, Santa Margarida do Sul, Senador Guiomard, Eirunepé... e mais opções de lazer e entretenimento por este B grande bonito e nosso, né?! Só vendo e convivendo.
            Quando Lilás tinha dez anos e tão galante. Essa história passou o tempo pra trás. Do faz tempo, mais ou menos. Foi lá para trás antigamente uma vez. Quando Lilás levava dez verões e bem de férias. Quando a menina ainda se encontrava imortal. Quando a Lilás desfrutava num tempo e num espaço que nem cultivava o cronológico digital ou analógico. Tempos passados passatempo de ver ouvir andar e rir. Quando se escrevia farmácia com ph, assim: pharmácia. A guria ficou assim muito enamorada encantada. Foi mesmo foram os tais e quais aqueles tempos - e que ainda hoje tem espinho...
            - Quando eu crescer quero ser uma empoderada voleibolista do vôlei, tão ligadas?!
            Lilás finalmente acordou recordou abriu os lindos olhos janelas. Acordou e começou a sentir o justo meio ambiente. Começou a rever os sonhos, se possível. A interpretar os sons que vinham de fora de fora. Reviu um dois três sonhos sonhados submersos no sono, e quantos tempos brincara ali junto com a turma: um barco batendo na janela e pedindo vento norte amazônico e rio Surumu e capital hemisfério norte Boa Vista; um trem mergulhando pelo fundo do mar, pilotado por um cavalo-marinho, puxando uma longa fila de vagões repletos de telespectadores; uma senhora, vestida de baiana típica, oferecendo acarajé numa feira livre em pleno Pelourinho, praça Castro Alves, farol da Barra, passarela Joaquim Macedo; um voo de asa-delta suave lento filmado cartão-postal da paisagem tropical baía de Guaratuba, rio Potinga contornando bem pelo morro Itapiroca, mata atlântica nos sete e meio por cento preservada flora e fauna, a praia Brava na ilha de Santa Catarina; e o soberano mar do oceano ondas fáceis comuns barulhentas estouradas todas iguais do Atlântico pão nosso de cada dia e redes pra deitar relaxar redário atado debaixo das palmeiras locais tucumãís-uaçus 10 reais à hora.
            A menina deu corda na magra fina vontade de levantar da cama, ora!... Levantou como um trapo mareada e sempre aventurando. Abriu a persiana e abriu a vidraça corrida e abriu o sol e abriu o céu e abriu as ruas da cidade e abriu mais uns quebrados de paisagem. Olhou dali mesmo o céu e viu tudo parecer tranquilo e pacato ou quase parado devagar parando domingo, tudo junto incluído. A manhã iniciativa iniciava pela pequena manhãzinha desnatada, recém-nascida, sonolenta e pouco mais. Alados aqui e mais ali riscando de asas invisíveis e ciciares invisíveis, corruíra-de-casa, tinguaçus-de-cabeça-cinza, pincha-cisco, curicacas-pardas... o sem peso do espaço aéreo transparente rarefeito. Uma multidão de insetos em volta dos capões das árvores doces verdes amarelas vermelhas, todos pintando o setecentos e setenta e sete, formigas-vespas voejando, polinizando, ziziando!... trilando!... caminhando, descaindo, sumindo nas correntes quentes e altas ou como acharam melhor.
            - A tal de crisálida é uma fase dos insetos, positivo correto. E depois voa com asas de borboletinha-do-mato ou borboleta-listrada ou borboleta-da-restinga..., exatamente.
            Assim ela mesma, Lilás cunhantaim, abriu os braços em cruz e se esticou e se esticou e subiu na ponta dos pés e bocejou. Empurrou o cotovelo para que a mão chegasse a coçar o centro das costas. Garotinha de quatro costados e indiferente. A menina até deu uns pulinhos de ginástica aeróbica. Nem qué?! Ficou tão contente com tudo isso, nossa!
            - Nem tenho cachorro gato peixe tracajá de estimação. Porém nem é urgente...
            Há dias e dias que se ouviam os tambores e os tamborins e os berimbaus, os surdos e os agogôs. Já se ouviu o reco-reco? Já se viu teco-teco? Já se pesquisou os tico-ticos? Ouviam-se também, camuflados ou escondidos ou separados ou reformados, o chocalho e o canário-da-terra e o saíra-de-asas-verdes, as motos para entregas rápidas, o bate-estaca da construção no pavilhão do festival gastronômico de Sanclerlândia. O tambor rufava, a cuíca uivava, a borboleta-azul irisada metálica sobrevoava silenciosa as flores do pé de piquiá.
            Vem que vem da linha faixa tela do horizonte aurora que chamam chamam esperam de manhã cedo. Um sol controlado por quem e que toma importância importante caminho de passos viagem o verão na praia Mole. Já faz horas e minutos e parece aparece que nem vai nem volta o tempo que será como o de sempre matinal.
            Lilás mais o trio, Rê, Pérola e Esmeralda, total quadrado da hipotenusa, quatro borboletas-folhas cada qual na sua flor, combinaram baile no clube Laranjinha e ali perto. No horário de um sábado à tarde sessão matinê grito de carnaval, “chiquita bacana... lá da Martinica... se veste com uma casca de banana nanica!...” As meninas se equilibravam nas idades: de nove a dez anos; se equilibravam na altura: a altura de um cabo de vassoura; se equilibravam na tagarelice e no verbete e na verborreia: olhando e comentando tudo que as cercava. Falando sério ou nem tanto. Vai aonde, camarada?!
            - Te digo, antes que me perguntes - esta Lilás que gostaria de tirar férias de vez no rio Cebolano e Arapoti e Cunha Porã e Ibirajuba e Pontal do Paraná...
- Vocês são boas para guardar segredo secreto? - Rê queria fazer férias sinceramente preparada fisicamente pela única ferrovia do Trigo já em Muçum e Iraceminha e Doutor Ricardo e Piraí do Sul...
- Vocês sabem o que é o alvitre? - Pérola queria muito ir daqui para uma aventura caminhada ao morro Pelado e Vespasiano Corrêa e Riqueza e Conceição das Alagoas e Campo do Brito...
- Amanhã vou sair de caipira ou caipirinha ou camponesa - Esmeralda queria era mesmo sondar a elevada íngreme majestosa brilhante temperamental cachoeira da Pedra Furada e Campina Grande do Sul e Itaporanga d’Ajuda e Planura e Santa Rosa...
            O carnaval tem fome tem sede tem coisa brilho fantasia tribo gauchada e se esconde atrás de uma estrela, atrás de todas as estrelas e planetas e constelações e universos. O carnaval se esconde atrás do zodíaco das nebulosas do céu e do mar e da terra. Carnaval amanhã é outro dia, depois passa, passará pássaro sabiá que sabia assobiá, “lata d’água na cabeça... lá vai Maria... lavai Maria!...” Apenas só isso mesmo, gente! Show de bola!
               Estavam presentes as quatro meninas descendo a rua dona Princesa Isabel a regente. Outros bichos faziam o mesmo e pensavam já o mesmo: carnaval no clube Laranjinha. À tarde e a fauna peculiar em trânsito sistemática numerosa, guaipeca, neurônio, colunas dorsais, estatelada, utc-3, afro-luso-brasileiro, para-sol, raia... E eram vizinhas visitas amigos amigas conhecidos parecidos parentes aderentes marcianos colegas, camaradas irmãs. O dia estava bom como um doce com guaraná gelado. Idades em crescimento ou nem, turmas, grupos, juntas, pares, duplas, trios, quartetos, bandos, colorados, acompanhados, disfarçados, anônimos, sertanejos, conjuntos de pagode de samba maracatu carimbó.
            Já as meninas também ainda desciam a rua dona Princesa Isabel. Vinham eufóricas e emparelhadas e risonhas. Lilás de quê? Pirata de minissaia sol marciano estampado, cor vermelha. Rê de quê? Pirata de bermuda de florzinhas margaridas e loirinhas. Esmeralda de quê? Pirata de calção de surfista paisagem da praia de Torres. Pérola de quê? Pirata de calça de pescador com motivos da Festribal de Juruti coqueiros verdes de cocos maduros. Adereços alegorias acessórios miçangas lantejoulas e enfeites adornos penduricalhos munhequeiras...
            - De verdade... eu queria me fantasiar de tubarão-lixa, sabe! Porém o bicho é fortemente fatal. Muito cafona. Além de opções variadas estranhas tipo, silhueta, microfibra, armarinho, artesã, bilha, lápis-borracha, palavra-ônibus...
            - Um poraquê saindo aí e dando choques elétricos peixe-elétrico, bizzzz!... é.
            - Praticamente um inseto, estridulando!... mosquito da dengue e enxame. Nem tem?!
            - Mil vezes um alucinante ácaro aumentado em tamanho etc antenas braços pernas e transtornos multiplicados. Quem diria!
            Entraram partiram as melhores amigas num pátio largo e muito povoado àquela hora. Nem é preciso falar da bagunça que estava. Cheio de gente e bichos fantasiados os mais estranhos possíveis, peixe-boi, tuiuiús, jacaré-de-papo-amarelo, bororós, caburé-de-cupim, maricauas latinos peregrinos condes viscondesas curumbas jogadore de futebol... a maioria em família em grupo em bando em alcateia em cáfila... Uma escada de 30 degraus conduzia subia a uma entrada de portão grande de madeira e ao salão da folia propriamente dito, “hoje eu acordei com saudade de você... beijei aquela foto que você me ofertou... sentei naquele banco da pracinha só porquê!...”  E se conversava muito e com as mãos com os pés com as gargalhadas aos gritos aos saltos uivando empurrando... uma algazarra uma zombaria que todo mundo participava... bom relativo quase ótimo legal internacional legal sensacional... “ai, ei, a bruxa vem aí... e nem vem sozinha... vem na base do saci!...”
            Uns dez ou doze meninos, dragões da independência ou pica-paus-carijós, olharam se interessaram pelas quatro e de uma vez. Todos os meninos que podiam olhar, olharam, miraram. E riram, e riscaram uma espécie de sorriso, de riso, ou até gargalharam. As meninas nem aí nem te ligo, etc., “sai fora, meu!”, “nem tô nem aí, carinha!...” Um céu sossegado e maneiro e côncavo mais 2 ou 3 barcos a vela velejando...
            Em tudo e por tudo o pessoal gritava com vontade, caminhava, comprava pipoca, comprava algodão-doce, comprava guaraná de latinha no copinho de papel. Quem passava de carro buzinava lançava música no ar queria comprar queria trocar queria vender. E muitos bichos e tipos e coisas e objetos à solta, formigas curupés gigantes invadindo o baile e comendo amendoim torrado pelas beiradas, monges e monjas de Buda enrolados em toalhas de banho com desenhos de palmeiras buritis, moços e moças vestibulandos com cara de paisagem, pescadores caiçaras politicamente corretos de Maripá e Angra dos Reis e Touros e praia de Lagoa do Sal, índios remanescentes dos aimorés vendendo arcos e flechas temperadas com veneno urare... A rua Sete de Setembro já estava solta de bichos de penas e de couros carapaças e de cascos e de escamas e de marcas e motivos e formas e etiquetas modelos engraçados, “haverá sempre um fio, de pavio... haverá sempre um pio, de navio!...” E festa apreciada sim e nem sofisticada e exageradamente por muitos.
            - Por que recordo emboralá! na hora h de um sonho que estava viajando? Agora procuro na imaginação... e junto da tribo povo tapirapé...
            - Se eu lembro de um sonho que lembro de tudo e onde estava? Agora descubro imaginar ao som dos curuquis... e junto da guerreira nação mundurucu...
            - Como imagino esse sonho que subia o rio Cristalino num dia de sol e choveu e voltou o sol o pôr do sol como já tive? Agora busco reencontrar... a gaiola a barcaça capitaneando junto aos botos-cinzas...
            - Quando abro os olhos e de repente materializo e realizo e o que resta de real e verdadeiro? Agora encontro o sonho natural... nas terras e matas e rios junto aos capaxó...  
            As meninas amigas necessárias já estavam pelo pátio do tal clube Laranjinha e envolvidas misturadas. Lilás cruzou os braços. Desembarcaram de um táxi duas odaliscas cheias de purpurina e brilhantina e com véus verdes, azuis, vermelhos, brancos, pretos, lilases, verdoengos. Também apareceram muitos índios tupi-guarani de diversas etnias vestidos solenemente com penas e armas ecológicas modernas tacapes celulares miçangas jenipapos enfeites de madeira botoques tarugos nas orelhas e nos lábios chocalhos nas pernas riscos de cores na pele, faraós de muitos dourados e ouros e favos com mel das abelhas-de-cupim das abelhas tataíras... Quando muito vinham em caravana de outros rincões, Porto Walter, Manoel Urbano, Acrelândia, nação nauá, tribo nuquini... E povo muitos tantos seres entes máquinas músicas tropicais e foguetório, tummm-chiiii!... com chuva de estrelinhas brilhantes multicoloridas estalantes gritantes ferventes...
            A Pérola se arrependeu de quê? Ela mesma descontou, e numa hora dessas:
            - Pois ué! Eu queria me arrepender de vir de pirata, é. Adorei uma fantasia aí de odalisca e muitos véus, entendem?! Muito oriental.
            - Incrível se arrepender tarde demais no meio do auê, filhinha! - disse a Rê.
            - Queria ser uma iara de lagoa no meio do mato e de braço dado com um índio de cocar. Isto eu queria mesmo. Muito amazônico! - relatou novamente a Pérola.
            Pois então, patrão. O mundo nem para de acontecer acontecendo. E Lilás queria ser uma piloto de avião comercial como quem? Ela olhou, viu... pensou e decidiu ser pilota comandante chefe de avião internacional: podia? Pensou em ser uma cantora da moda mpbu: podia! Pensou em ser uma empoderada jogadora de vôlei e oposto: podia? Ponderou morar em Toledo e quase todos os dias ir pra escola de bíci: podia! Analisou demoradamente adotar comprar um cachorro (ser elemento indeterminado) com nome escolhido Tapuia: podia. Sentiu vontade de nadar nadar no rio Muru correr descalça visitar o museu Casa dos Povos da Floresta: podia!
            Passou um grupinho de índios charrua que falavam “refrigerante” no sotaque minuano. Ninguém entendeu. E passou, seguiam e voltavam, cheques e gurus e xamãs que falavam “refrigerante” em árabe e em hindu em tememinó. Somente eles e entre eles se entendiam. Ninguém mais entendeu, uffffe!...
            O Laranjinha este clube grande e moderno e reconhecido, estava enfeitado e pronto e lotado e trepidante e engalanado. Maioria gente baixinha, novinha, inexperiente, caçula, acompanhado de babá. Uma multidão por aí já curtindo paradas de carnaval, uns pessoal escorados e outros pessoal sentados de qualquer jeito gentem ou como achavam melhor. Sorvetes de chocolate picolés de pequi, caju, jabuticaba, sete-capote... Sobre tudo uns cordões com bandeirinhas de papel de seda, balõezinhos estufados em cores de azul, verde, vermelho, etc., e som de tambores, tamborins, apitos, meninas e meninos fora do comum fora da curva de outro planeta, de outro hemisfério, de outro polo... Brincantes pulando rindo zombando beijando rindo sacudindo abraçando agarrando... Salão agitado de bichos agitados e esquisitos e exóticos, guapuruvu, jacaretinga, batata-do-rio, parauaçu, aramatá... sem falar os naturais da terra locais, estapafúrdio, ocre, 100°C, empetecada, coloidal, dna... quando nem em casais inseparáveis, fivelas, caixotes, autopeças, átomos, interfones...
            - Poderia pegar a sua mão com muita afeição, guria?! Você nem é de e mora em Santa Juliana? Tenho quase totalmente certeza, hein?! Que eu notei!
            O jeito era pular como pipoca. E dançar como na taba na tribo no bloco. E já subia um pó com cheiro de poeira perfumada. Ninguém reparava na bagunça e cada vez parecia ficar mais divertido. Ninguém deixou de vibrar e sacudir na chuva de confetes e serpentinas. Estavam todos aí para virar a tampa do caldeirão, pular a tarde toda, e o resto. E por quê? “Tomara que chova... 3 dias sem parar... tomara que chova... três dias sem parar!...”, “daqui nem saio... daqui ninguém me tira... daqui nem saio!...”
            Voavam serpentinas tiras tripas desenroladas, aterrissavam papéis picados, pousavam confetes de cada cor, caíam confetes das altas nuvens, corriam rios e rios de sorrisos, apareciam os tipos, pigmento, pré-requisito, bem-sucedida, lisa-de-água-doce, elite, maquiagem, superego... surgiam fantasmas de muitos feitios e idades... “cidade... maravilhosa... cheia... de encantos mil... cidade, maravilhosa, cheia, de encantos mil!...”, uma tartaruga patriota bebendo refri no copo de papel puxando o líquido essssfrrrriiii!... pelo canudinho também de papel, “bandeira branca, amoooor... nem posso maaaais... pela saudade que me invaaaade... eu peço paaaaz!...” e outros bichos, e outros nem tanto animais, joias de ouro e prata, rubis falsos, brincos falsos, coroas falsas de rainhas princesas baronesas legítimas e bonitas e tão galantes.
            O mundo todo girava na roda em volta do salão de baile. Uma grande roda bola bagunçando e rodopiando para lá. Um barco balançando nas ondas nas altas ondas tempestades para cá. Pipocas esquentando, encontrões, abrações, puxões, empurrões, “foi o 22 de abril... foi o 22 de abril... que Cabral descobriu o Brasiiiil!...”, um grande redemoinho que nem afundava, nem naufragava, apenas tonteava e desequilibrava e subia, subia e descia descia... “oh, você aí... me dá um dinheiro aí... me dá um dinheiro aí!...”, bichos como os porquinhos ou porquinhas-do-mato, tartarugas-da-amazônia, onças-pardas pintadas pretas... “Alá lá ô oh oh oh!... mas que calô, oh oh oh!... estava atravessando o deserto do Saara... quando o sol... queimou a minha cara!...” multidão para pegar o refri, multidão para ir até ali, multidão para falar com ocê... “agarra, agarra, agarra carrapicho... nem sossega... sossega sossega o meu benzinho!...”, os brincantes tripulantes de nave à deriva se seguravam pela cintura, pelas mãos, pelos braços, pelos cabelos... pegavam o desfile, “ooooooh!... abre alas que eu quero passar!... eu sou da lira... nem posso negar!...”
            Seguiam num trenzinho maria fumaça, com apito e chaminé e lengalenga! lengalenga!... que virou trem, e virou minhocão e rima e ritmo e logo já era um trenzãozão um cordão uma alegria um treme-treme... E o trem andou por lugares divertidos e sempre em ondas gingando balançando de lado a lado, o comboio subiu serras, Ouro Verde do Oeste, João Câmara, Delfinópolis, praia Ponta das Pedras... desceu morros e apitou na curva sobre a ponte. A locomotiva ergueu braços, cruzou túnel, apontou o céu do teto todo excelentemente decorado, gritou sem parar e nem parou mais. Muitos bichos se penduraram nas janelas dos vagões do comboio em glu-glu zigue-zague tique-taque... E outros animais bípedes, e outros etc ou extraterrestres e coisas e objetos, grandalhões, humanidade, fanáticos, aviús, curuquerê-do-capim...
            A Rê, muito depois, noutro lugar, outro esporte, mais um capítulo, foi dizendo para as melhores necessárias amigas:
            - Sabe o cordão, gente?!
            - Sim, o trenzinho o bloco...
            - Pois é. Quando vi, quando percebi, um carinha então pousou a mão lá dele no meu ombro nos meus ombros.
            - E você?
            - Eu nem olhei, é claro. Fiz esforço para nem olhar. Que tipo!
            - Nem olhou? E como foi o resto? Passou?
            - Quer dizer, quase nem olhei. Somente fui mesmo olhar agora e, assim mesmo, de canto de olho, de relance.
            - E ele insistiu? E ele era bonito? E ele queria dizer o quê?
            - Era um índio coroado da nação caingangue, né, guria!
            Os ponteiros das horas varriam escovavam lixavam o piso o chão do relógio carregavam pra dedéu sem que se pudesse ver o tempo dançar. A caravana passou e os cães nem deram conta de tanto que ladrar ladrando. Mas, por outro lado, se a bailarina é bela é bonita, a caravana que espere espere.
            - O tempo sempre late, au-au-au!... quando vê nuvens passageiras passando, é.
            - Tu achas que tenho cara de abóbora-do-mato?
            - O tempo sempre chia quando vê nuvens pesadas se aproximando carregadas, em!
            - Você sabe quem foram Peri e Ceci?
            Um índio charrua de penas e miçangas raptou Pérola para o fundo da floresta florestal? E a mata era no fim do mundo ou no canto do palácio de festival numa festa do Sairé em Alter do Chão. E as matas muito verdes de folhagens tenras copadas frondosas. No mato muitos rios se fazendo passar por estradas ruas e praças. Muitas árvores gigantes se fazendo de pessoas importantes, capitarizeiro, avenca-paulista, muirajuba, paricarana... e falando coisas ótimas de se ouvir e rir. Além disso, uma chuva logo ameaçou desabar com tudo e águas por todos os lados banhados ratões-do-banhado saracuras-três-potes taãs marrecas-cricris... E desabou, veio do alto, toda de uma vez, caiu, enxurrada catadupa. E caiu uma boa chuvarada com enchente. Uma bomba-d’água com cordas lençóis cortinas chuveiros. E aí, era de dia de tarde de noite e tempestade de confetes?
            A chuva lavava a maquilagem no rosto da menina Lilás. As três companheiras amigas restantes ensopadas aguardaram nem sei o quê esperaram ensopadas encharcadas que um milagre caísse do céu do céu. Molhadas dos pés à cabeça bebendo água da chuva língua pra fora. Molhadas as três muito bem molhadas tiritantes até os ossos.
            Esmeralda levantou uma dúvida normal e corriqueira e urgente:
            - Vamos atrás de Pérola, tá claro, né?!
            - Será o quê, galera? - questionou a Rê. Será que foi acompanhada? E se sim, com quem quando por quê?
            - E se for uma trama-cilada? Telefone que é a mesma coisa, vai, gente! - disse Lilás.
            A chuva ocasional caía e as pessoas passeavam tranquilamente debaixo da chuva. Talvez o aguaceiro nem fosse parar antes das 22 horas. Nem fosse parar por hoje, uma vez. Nem o carnaval, claro, que nem parava com a chuva com a seca com a fome com a sede com a política com a temporada; até mesmo os foliões se motivavam bem melhor e mais além. E a chuva era uma coisa prática definida e as pessoas outras coisas particulares que sabiam fazer. Assim como tem bicho que gosta de chuva e outros nem.
Lilás desejou ser um barco a vela: podia? Ou uma ave de penas impermeáveis: podia? Ainda desejou ser uma virtual mensagem de otimismo qualquer viralizando pelaí, etc: podia? Ela sempre pensou que o paraíso era em ilha da magia Florianópolis: podia? Viu na tevê a praia do Cururu: podia? Ela ainda procurou negociar um cão (ser elemento fonte) de nome Golpe: podia?
Pela avenida João Pessoa acontecia um desfile de personagens como o boi Barroso, a chinesa de chapéu de cone distribuindo flores amarelas e vermelhas, o faquir de turbante vermelho e calção xadrez vermelho e preto, o soldado com roupas camufladas e armado de metralhadora multiuso, a budista santa de cabeça raspada enrolada numa cortina amarela ou dourada, um jogador da seleção com camisa da seleção número 10, um gaúcho largado de celular no ouvido pilchado no estilo...
            Um certo tempo depois a chuva nem havia desistido. Pelo contrário os riachinhos começaram a aparecer de todos os lados de todos os morros de todos os barrancos e subindo sempre sem parar. Vinham rios de fora do subsolo do alto de todos os cantos. Praticamente alagou tudo virou um banhado um pântano e mais pra lá... um estuário um santuário um mostruário um supermercado.
Pérola foi vista de relance saindo em direção à floresta mais próxima. Pegando o caminho do Peabiru. Então, as três detetives amigas da amiga Pérola resolveram, por puro acaso, por puro faz de conta, seguir aquelas pegadas marcas e sinais.
            Rê apontou o dedo apontador indicador na areia fina da praia marinha da Galheta:
            - Olhem! Vêem? Estão vendo? São pegadas dos dois, uma vez, apesar da chuva insistente duradoura.
            - Estão indo pela praia e à beira-mar litoral e costa - falou a Lilás.
            - Debaixo da chuva e sob a chuva, também - completou o panorama a nossa intrépida urgente corajosa a Esmeralda.
            O trio de três parou num quiosque para comprar pé de moleque, quindim, cocada branca cocada preta rapadura cartucho de amendoim torrado suco de abacaxi cupuaçu pupunha. Logo continuaram andando e num trote cadenciado e maneiro. Uns ônibus e alguns carros de passeio passavam passeando por elas buzinando dando sinais de pisca-pisca interpretando os trios elétricos. Um mundo uma fauna uma flora de gente ou bichos ou coisas e gritos desfilando pela cidade aprontando. O carnaval nem estava caminhando, estava correndo. A trinca passou por uma capela de santo ou santa de anjos e anjas de oferendas devotos ofertas ex-votos. Árvores frondosas ramos gorjeando, inharés, tembetarus, chapéus-de-frade, paxiubamirins... e possivelmente de alados aladas gorjeando, cardeal, sebinhos, surucuá, juriti-carregadeira, irerês, sairuçu, periquitões-maracanãs... as músicas da onda da moda dos gritos de carnaval, “olha pra mim... meu amor!, olha pra mim... minha flor... e me abraça, por favor! por favor!...”, “a canoa virou... deixa virar... por causa da menina... que nem soube remar!...” O som de orquídeas bromélias tomando banho de chuva duchas de águas chuva peneirada, u-lá-lá! u-lá-lá!... As pessoas ensopadas ainda brincando pelas ruas ladeiras molhadas escorregadias. O carnaval nem estava por ontem, estava por hoje e amanhã. A chuva veio para brincar, fazendo o favor de cair sobre tudo e precipitada. A dança festa da chuva promovida pelos pajés pajelanças. A chuva molhada e bonita que caía de pé e corria deitada. Índios botocudo e aborígenes sapará dançando em roda cantando ruidosos urrando, uuuh!, uuuh!... pra continuar a chover pra parar de chover. Para navegar toda a chuva do céu do rio dos rios numa única só vez, e chuá!...
            Na altura das pedras à beira-mar, onde o mar também vinha atacar as pedras, ali mesmo, as meninas pequeno bondinho perderam os rastos dos namorados enamorados. Namorados ou fugitivos, ah ah ah!... É, sim, fugitivos! E o mar tudo azul, ou verde, destino azul ou verde com evoluções e coreografias. Mar irracional com planos e projetos desde o começo do mundo na terra. Um mundo de oceano e parar para ver...
            - Olhem o mar, gente boa! Tudo de bom e útil e engraçado e eficaz, gente boa!
            A Esmeralda, sempre mais preocupada com a irmã que fugia que fugira, abriu o bico e exclamou reclamou confirmou:
            - Olhem, gente! O que que a gente faz ou nem faz, hein?! O celular mesmo cai na caixa de recados e ninguém atende! Então?!... Assim?!...
            - Perdemos o rasto os cheiros os tons os sons - sublinhou a Rê.
            - Eles estão assim pertinhos aí de mãos dadas passeando de mãos dadas e abraçadinhos juntinhos, é - interpretou a Lilás.
            A poucos metros da praia de Jurerê bonita e linda, quase no meio de um capãozinho verde e legal, apareceu uma aldeia com duas três ocas e taba e ocara. Na tabuleta se lia, apontando no sentido que ia para lá e mais além no rumo:
            “Sejam bem-vindos.
            Aldeia da nação minuano.
Dez reais o ingresso
- estudante paga meia entrada.”
            As meninas se entreolharam e coçaram os bolsos. A Lilás meio que sugeriu:
            - É uma, né, gente?! Emboralá! Convenhamos!
            - Por que nem? - disse a Rê. E já estamos aqui!
            - Tudo bem, vai! - concordou Esmeralda. Nem tem tu, vai tu mesmo!
            Então, de repente, as três... contando até três... um dois e três, entraram na taba dos índios minuano da grande família guarani. E foram entrando e indo ao encontro da aldeia. As palhoças e os índios e as índias lá esperavam, quase quase nus ou nos trajes típicos da região da época do ano mantendo a tradição. Faltava pouco para se apresentarem aos turistas e curiosos gringos nordestinos sulistas visitantes de lugares distantes ótimos do país, Resplendor, Apicum-Açu, Pancas, Marechal Thaumaturgo, Parazinho... E as visitas encontraram os índios esperando a cerimônia de apresentação. Com fotografias autografadas ao estilo. Com fotos de celular e caras e caretas e trejeitos. Cestas de taquara, tangas de pano decorado com motivos florestais diversos, cocares com penas artificiais estilizadas de gaviões-carijós ou araras-vermelhas-grandes ou araras-azuis-grandes, colares e chocalhos feitos de tipos de sementes secas ou pedrinhas redondas, potes de barro pintados de vermelho e amarelo com desenhos riscos muito diferentes... Sete ou oito guaipequinhas chegadores e atiçados. Uma turma de papagaios-maracanãs domesticados autorizados anelados pelo Ibama.
            A terra nem parecia girar constantemente e ao redor de si. E depois de girar um tanto aparecia o sol com raios de radiação gama beta alfa ultravioleta etc atravessando o espaço. E a lua amiga comprometida com a terra. E a terra esperança do sol depois a lua cheia luar, uau!...
            As meninas cansaram e procuraram sentar por aí em algum cepo ou banquinho de madeira beri sempre à disposição. A chuva nem parava para almoçar. As visitantes, as piratas de folia, sentaram no chão mesmo debaixo de uma aba de palhoça. O mais naturalmente possível e comendo lanchinho de biscoito recheado com chocolate. E apareceu um índio que podia ser o cacique ou o piaga ou o Ubirajara. E é bom dizer que chovia assim... uma barbaridade. E apareceram umas índias cunhãs cheias de sono e tédio recém-casadas no civil e religioso. Falavam um português pensado e sem conjunções de apoio. As meninas esperando algum milagre, a apresentação, a dança da chuva, a festa da colheita do milho da colheita da mandioca do torrar da farinha... O índio, tipo chefe morubixaba, olhou o relógio digital preocupado com o quê. Penosas e rabicós andavam ciscando e focinhando o terreiro da taba. Um cachorrinho molhado veio latir para as visitas e pedir arrego. Outra coisa importante: havia um papagaio-real ao vivo de verdade e falante andando com calma e pra lá e pra cá num poleiro no meio da sala às vezes resmungando outras vezes apenas curiosando ainda comendo grãos de amendoim balançando o corpo e a cabeça para nem e para sim uma aliança na canela com data de dois anos atrás - ano das olimpíadas no Rio de Janeiro, “o Rio continua lindo... janeiro fevereiro e março... alô alô gente boa do Realengo... aquele abraaaaço!...”
E mais que o papagaio-real e curioso, viviam ali outros papagaios curiosos e falastrões arengões palrões parlapatões. Muitos papagaios e suas amigas muitos periquitos e suas consortes que se podia dizer ser ali o país das araras. Muitos papagaios e papagaias empoleirados em poleiros repletos e vários de variados tons de aves falantes eloquentes. E araras, periquitos, louros, baitacas, maracanãs, humaitás, papagaios-verdadeiros, papagaios-caboclos, e todos em abundância assembleia algazarra.
            O índio gerente presidente da associação falou no português pensado e que ele achou melhor se explicar:
            - Menina qué passeá igara arquipélago Maiaú?
            - Que é igara, cacique? - questionou Esmeralda.
            - Eu jamé ser cacique. Eu guia turístico - disse o moço da agência.
            As meninas, e logo as três de uma vez, olharam a chuva que caía cair caindo do mais alto precipício. Os trocentos papagaios falavam confusão, mas falavam uma língua enrolada lá no idioma deles, “chirriar! chilrar!...” E chuva já caía que dava gosto sabor e tempero. As meninas até que gostariam de falar com os papagaios e lhes oferecer pipocas petiscos manjares. Será que os papagaios sabiam falar português comum e urbano? O guia índio mais uma vez insistiu com razoável suave sotaque carioca da gema:
            - Arrã?! Hã-hum! Menina qué passeá Santa Rita do Itueto?
            A aldeia ficava no meio de um mato matinho perto de um morro, perto de um riachinho. No riachinho talvez que almoçasse e jantasse uma cachoeira. Um lugar legal e tanto pra passar um fim de semana. Debaixo da chuva os passarinhos vermelhos viravam já verdes ou lunares rebrilhantes luzidios luzentes. Depois os mesmos pássaros, lunares ou verdes ou vermelhos, caíam no chão para se tornarem serpentes ou lagartos lagartixas. E já mais um minuto a mais e surgiam como peixes alados igual borboletas ou passarinhos. Tudo acontecia ia e voltava, e passava bem e passava de novo.
            Lilás balançou as pernas, fez física exercícios malhou, imitou um atleta de corrida. O rekakê prosseguiu:
            - Arrã?! Hã-hum! Menina qué arco e flechas? Qué comê mio verde ou tapioca? Qué esperá chuva tudo todo caí? Vai visitá Nova Santa Rosa?
            Os olhos firmes da flibusteira Lilás faziam cócegas e também queriam olhar. A Lilás pegou e espiou. Era a Lilás, volta e meia, muito e extremamente meiga e doce e açucarada como um sorvete de cobertura. Os papagaios da aldeia nem sabiam falar brasileiro, e resmungavam um pouco brincalhões um pouco zangados um pouco de tudo um pouco carnavalescos. Esmeralda lembrou de perguntar, quebrando o jejum:
            - O senhor morubixaba viu uma menina chamada Pérola? Quer dizer, ela é do nosso tamanho, tem presença, linda, fala muito quando quer, etc., um tipo assim... Estava a passeio com um índio fantasiado da tribo pareci ou parauá ou pojixá. É importante pois é minha irmã e mana de sangue.  
            O guia turístico indígena nem pensou duas vezes, e comunicou na língua do português-brasileiro pensado e ideal pra turista ver e ouvir:
            - Arrã?! Hã-hum! Quem disse qui aqui é tribo pareci ou parauá ou crenaque? É tua parente? É tua melhó amiga?
            - É, sim senhor. Sou parente próxima. É a maninha. Onde ela se meteu? O senhor a viu por acá e ali e acolá?
            - Arrã?! Hã-hum! Olha... - suspirou o guia.
            A chuva cantava sobre a terra toda, sobre tudo e mais. A chuva pretendia se dirigir ao estrangeiro se voltar pra fora? Uma chuva de exportação? E a água da chuva corria para os melhores lugares, lagos, rios, poças, barragens, pem do parcel de Manoel Luís... Um milagre. Um fenômeno. Uma chuva enorme e doce e perfumada de terra molhada e folha verde folhas tenras. Uma chuva que parecia morar por aí mesmo. As árvores gostavam e respiravam melhor. As árvores que mais adoravam chuva, uma vez: angico, camboatá, açacuzeiro, maria-mole, salso-chorão, catajé, arapari... As aves adoravam corriam voavam e se divertiam mais. Aves que mais bebiam chuva, uma vez: quero-quero, tesoureira, tico-tico, biguá, araquã, uru, sanhaço-frade, guiraponga... Os insetos tinham o voo atrapalhado ou interferido impedido imperfeito interceptado. As formigas-da-chuva, por ora pois e ora tíbi e ora veja!, nem se arriscavam a sair de casa sem capa de chuva ou guarda-chuva e ficavam na porta só olhando o tempo... Extraterrestres com discos voadores também nem falar na chuva tempo fechado.
            A Rê pensou duas ou três coisinhas soltas desfiadas. E depois pegou uma e indagou:
            - O senhor nem gosta de carnaval? Por que nem vai brincar? É legal.
            - Arrã?! Hã-hum! Eu trabalhar muito muito preocupar, fia. Onde si viu?! - falou e disse o índio, preocupado em nem ser muito urbano no falar e no trajar.
            A Esmeralda ofereceu duas notinhas de dinheiro ao índio chefe Içabitu, dizendo ao mesmo tempo, sem querer ofender pela gorjeta:
            - Aqui para o senhor, um agrado e um consolo pelo favor. E também me dizer para que lado foi a mana Pérola. Que vale ouro, tá legal?!
            - Arrã?! Hã-hum! Entrô montanha alta - respondeu o índio tape, ao mesmo tempo que esticava um sorriso satisfeito.
            - Entrou na montanha? Como assim? Por um túnel, uma caverna, uma gruta? Duvido! - duvidou a Esmeralda. A mana tem muito receio dos morcegos e dos percevejos e das mariposas e das lacraias e das aranhas e das lagartas...
            Lilás aproveitou o tempo para olhar a paisagem e diversificar sua curiosidade, os papagaios empoleirados que nem sabiam falar o alagoano ou nem entendiam falar o goiano, e ainda olhou a aldeia, as palhoças cobertas de palha, os habitantes com apliques no cabelo, o mato, a montanha arborizada, o lago do pesque e pague, a chuva torrencial, o riachinho córrego igarapé. Tudo razoável. E coçou o pé direito com o pé esquerdo numa ânsia de sair andando pedalando a bíci. Sonhou em ser uma harpia voando e piando entre as nuvens escuras do dia chuvoso: podia? Sonhou ainda ser uma nuvem de cabelos ruivos longos relampejantes: podia? Sonhou em ser uma gruta cheia de ouro emparedado profunda: podia? Sonhou em ser uma espécie de mata ou florestinha morando ali mesmo na doçura verde da fronteira entre a floresta de araucárias e a cidade de cimento: podia?
            O guia indígena Caacambuí aventurou, dirigindo-se à menina Esmeralda:
            - Arrã?! Hã-hum! Menina qué trabalhá aldeia tribo turismo? Qué casá co-mi-go?
            É claro que o cacique índio guia turístico indígena aborígene só podia estar de brincadeirinha. E se rindo por dentro. Ora, vamos e venhamos, né?! Claro, assim rindo.
            O índio dos carijó voltou a falar:
            - Arrã?! Hã-hum! Menina qué passeá ilha dos Lençóis, Cururupu? Qué ensiná papagaio falá língua urbana e e-mail? Qué pintá corpo guerra festa fogueira? Qué dançá chamá chuvê? Qué comê formiga-de-novato assada cozida sapecada temperada?
            Cinco horas a aldeia fechou e terminou o expediente, nem um minuto a mais. Os papagaios fazendo o maior auê! nos poleiros e balanços e casinhas de dormitório. As meninas voltaram pelo mesmo caminho. A chuva caía verticalmente em cachoeiras, em toalhas, em cascatas, em baldes, em cataratas, em vasilhames. E por tudo, pelas mil ruas paralelepipóides, ainda o povo brincalhão brincava brincando brincadeiras artísticas engraçadas. Então, o carnaval ainda nem apagara o fervor. Carnaval, em primeiro lugar de alegria, carnaval de cores vivas, carnaval de bichos, advogado, autoestima, bla-bla-blá, bufunfa, fotógrafo, poia, cafeteria, empolgada, vassoura, “varre varre vassourinha... varre varre a bandalheira!...” carnaval de tamborins e cuícas e reco-recos e cotecás, carnaval de bagunças no bom sentido da palavra, “parabéns, para-béns, pa-ra-béns... você conseguiu... parabéns... você merece... meus parabéns!...” E Pérola sumira para sempre ou, até logo! Ou será que foi apenas uma decisão comum, um acordo, um encontro, um passeio, um arranjo completamente inocente adolescente?
            Voltaram, as três estrelas solteiras descomprometidas desinibidas, costeando o mar, pela praia, pela orla. O mar, amestrado como animal felino ou mamífero de circo, ia e vinha, meio brabo e sempre igual, lambendo e recolhendo a língua na areia. O mar é agitado, estava agitado, sempre agitado, em ondas assim, com um ânimo ou nervosismo que acontecia lá com ele no fundo desde longe. E diziam o que queriam:
- Chove, chove de chuá!...
- Dizem também que o mar está subindo e se elevando...
- Dois terços da população mundial se recolhe se encolhe no mar-oceano...
Povo distribuído pelas ruas e artérias praças preferindo as avenidas de mão dupla. Chovia por quê? Mas chovia mesmo e com aprovação de D. Chovia no nariz da menina Lilás. O clube Laranjinha entupido de foliões. Gente e povo e pessoas saindo pelo ladrão. A banda embalando uns axés, uns samba-bois, uns samba-enredos, umas marchinhas das antigamente bem especiais gostosas conhecidíssimas, “a bem da verdade, alô!... hoje é quarta-feira, alô!... afinal das contas, alô!... mais do que isso, a isso tudo, alô!... apenas as cinzas, alô! alô!...” Rei Momo, rainha, princesas, simpatias, soldados dragões da independência, “se você fosse sincera, oh oh oh... Aurora... veja só que bom que era, oh oh oh... Aurora!...” E a Pérola? As três parceiras gritaram assim e ao mesmo tempo, sintonizadas focadas:
            - Pérola!!!
            Então viram a Pérola, lá estava ela ali estava ela a Pérola celular no ouvido. Toda ela em pessoa. Inteirinha e saltitante, igualzinha como sempre foi. Em carne, ossos e fantasia de pirata e desacompanhada. As três chegaram na avalancha com cataratas, com cascatas, com catadupas avalanche de perguntas, um climão:
            - De onde tu vens, menina? Onde tu foste, guria? Perdemos um tempão atrás de tu! Onde estavas por essas horas, gente? Repare que nem quer ficar na nossa irmandade e companhia, gente, meu!
            A Pérola, uma mão na cintura, aceitando o golinho de refri, suspirosa, suspirando, se rindo, balançando a cabeça, foi falando, quando lhe deram vez e oportunidade:
            - Estava... estava atrás de vocês, ora!
            - Quê?! Como?! Quando?!
            - Eu estava, es-ta-va! procurando por ocês... suas pupunhas!
            - Nem brinca?! Jura! Conta como foi! E o namorado?
            - Que namorado!? Amiga de quem? A guarda nacional?! Estão sonhando delirando com febre alta viajando, surtaram, bateram a cabeça?
            As três de cá se entreolharam, e a de lá ficou intrigada e surpresa, ou, espertinha, fingindo ficar surpresa. Vai saber, chapa! O fato era que havia um enigma, um mistério, um plano secreto, um bastidor ou um mal-entendido.
             Depois a Pérola repetiu o prato com entrada fria e sem sobremesa:
            - Que namorado é esse que vocês me deram? Onde está que nem vi! Façam uma mágica, e por favor!
            - Ora, Pérola!, o carinha lá, o tal índio charrua ou minuano ou coroado que te raptou! Nós todas vimos e fomos no encalço tentar resgatá-la, tá ligada?!
            - Me raptaram? Me levaram? Me abduziram? - Pérola abriu bem os olhos para mostrar que estava surpresa. Um índio tupinambá ou tupiniquim me roubou, é?
            - E nem foi? Nem duvide da nossa cara, meu! - questionou outra vez a Esmeralda.
            - Claro... que nem! Meu amigo Marquinhos, fantasiado de índio caingangue, apenas me acompanhou até o bar para um guaraná gelado. Só isso, conselheiras! Esquecem a lenda, pessoal! Descem das nuvens, sujeitas!
            - Mas a gente viu e mais que isso...
            - Aliás - e Pérola cravou as mãos na cintura para mostrar que estava um pouco chateada ou fingindo se aborrecer -, eu que fiquei perdida e sozinha pelo salão à procura de ocês. E agora vejo que ocês saíram simplesmente por aí e nem me convidaram. Então, tá, né! Podiam ter telefonado. Assim que são amigas, hein?! Umas sacerdotisas, isso sim!
            - Nada a vê!!! - as três responderam de uma vez, para encerar o assunto.
            A folia continuava solta pelo salão do clube Laranjinha e pela cidade toda, amém! Havia flores e cores de todas as cores e flores e assuntos e temas e contrarregras. As ruas do mundo estavam naquele ritmo de pagode e samba, samba-canção, Tarauacá, Mâncio Lima, Bicas, Lábrea, pátria dos iauanauá... E seria assim por uns quatro ou cinco dias uma semana quinze dias, no mínimo. Os tambores e surdos e atabaques e tamborins nem descansavam. Tempo de carnaval sempre será o melhor tempo para renascer, e com certeza.

Outra Vez no Carnaval (juvenil)




Parte 2

            As gurias, agora todas juntas outra vez, foram para o meio do formigueiro para o meio do fuzuê, auê!, teteretê!... E os brincantes tiravam o pó do chão, erguiam os braços para o céu, gritavam de pura alegria euforia, inventavam na hora... E eram índios com cocares, colar de conchas, tacapes de isopor e veio o trenzinho, o cordão, o trem, o trenzão, o comboio... eia!, uai!, coisa boa de se brincar, meu.
            Depois, muito lá pra frente do depois após, a Rê comentou e contou:
            - Oi, gente! Oi, patota! Nem sei como, nem sei exatamente, nem sei por quê, até agora nem entendi, nem vi nada, só sei que me pisaram direitinho no calcanhar e quase quase perdi o tênis...
            - Mas assim... foi no meio do tumulto e do furdunço? - se preocupou, ou quase se preocupou, a Esmeralda.
            - Mas isso é quase normal numa folia bagunça dessas, né?! - chegou a Lilás.
            - Segura na mãe de D, oh, cara! E ri por última que é melhor! - sugeriu a Pérola.
            Então, a Rê olhou para os lados, olhou para cima, etc, e, se vendo centro das atenções das amigas, disse tudo como realmente e verdadeiramente tinha acontecido e foi, enfim, uma história a mais:
            - É o seguinte, galera-era-era!... e três vezes com eco. Um carinha, por sinal de cabeça enroladinha num turbante de árabe muçulmano ou persa ou indiano, me segurou pela cintura assim, olham... - a Rê mostrou como tinha sido segura pela cintura suavemente. Foi isso durante o trenzinho, entendem?! E o cordão foi seguindo e nem queria parar. A gente e todo o mundo se segurando um no outro. Como deve ser, né, gente! Todo o mundo com as mãos na cintura da pessoa da frente, ou no ombro da pessoa da frente, empurrando apoiando escorando. E de repente, sem mais aquela... o que eu vejo, o que eu prevejo? O carinha esse que falei me segurando pela cintura. Aí, sem mais para melhorar, o carinha... vai que nem me pisa no calcanhar! Nem sei se foi por querer ou por descuido lá dele ou por menos ainda. Aí, o carinha me pisa no calcanhar, eu perco o tênis, eu perco o meu tênis... e ele fica admirado e eu fico confusa. É, fiquei confusa e sem palavras complementares. E ele, o carinha, ficou me olhando admirado e confuso e sem palavras admiráveis.
            - E aí?, continue... - Lilás segurava os dois cotovelos ao mesmo tempo.
            A Rê continuou com sua história muito peculiar e interessante sugestiva, reagiu:
            - Sim. E aí tive que parar tudo, né! Ou melhor, tive que sair do trem ainda em movimento. Pular do vagão com o trem andando, loque! loque!... e vejam só que dificuldade. E assim catar o meu pé de sapato em meio a um formigueiro e tanto de pernas e pés, ufa! Se passaram uns dias... e um tempo precioso.
            - E teve mais algum registro? - perguntou a Lilás.
            - Houve sim. E aí, enquanto eu procurava o meu calçado, e eu procurava de gatinhas, nem havia outro jeito, sabe como me sacaneavam? Me chutavam bem na minha bunda, ora! E eu de gatinhas atrás do pé perdido, que nem parava no lugar, e levando chutes e pontapés, é. Queimei no meu temperamento. Queimei nas ideias, meu!
            - E então... mais além do depois... - foi a Esmeralda.
            - Sim, e aí. Bem, aí eu levei muito chute e empurrões. Fazer o quê. E só depois de meia hora ou duas horas que consegui pôr a mão no meu bendito pé de tênis. Cara!, foi dificultoso. Muito difícil e desgastante e... a-ven-tu-ro-so. Entenderam ou eu repito?
            Lilás sentiu comichão de falar e esclarecer uma opinião. Lilás parou ao lado da pista. Rê encerrou de contar a história e parou ao lado de Lilás. Esmeralda estacionou ao lado de Rê, que já estava ao lado de Lilás... E quede a Pérola?
            - Ei! E a Pérola? - lembrou a Esmeralda. Nem estava aqui e agora mesmo?
            - Será que se perdeu no formigueiro outra vez e assim-assim? - questionou Lilás.
            - Pode ter nos abandonado novamente e de supetão - disse a Rê. É uma, em!
            E foi isso mesmo, obrigado obrigada! Talvez tenha sido isso mesmo, vamos ver. A Pérola fora raptada por um cheque do deserto do planalto do pampa do tepui. Ainda nem havia sido feito nenhum contato pelo sequestrador, mas tudo indicava que assim acontecera. Algumas testemunhas por aí disseram que fora um cheque vestido de garimpeiro que levara a menininha Pérola. Talvez tenham fugido num auto conversível ou num cavalo árabe puro-sangue equídeo furta-moça, quem sabe num avião muito moderno e com detalhes em ouro e prata e pérolas e pedras preciosas. Quem sabe produto da nossa imaginação, pois é. O mundo está cheio de questões sem solução. O mundo gira e a flecha voa e o mar respira fundo.
            E foi por aí, foi assim, então, que o trio de três novamente se viu enrolado em um mais um enigma misterioso secreto sem precedentes. E as três figurinhas foram pelo salão procurando a Pérola perdida ou sumida ou fugida ou rolada para debaixo da mesa ou mal-entendida ou deletada.
            - Quedê a Pérola, gente boa? - perguntou preocupadíssima a Esmeralda.
            - Nem foi ao banheiro? Olha! - lembrou muito bem a Lilás.
            - Será outra vez a mesma preocupação, gatinhas?! - apitou a Rê.
            As meninas falaram e saíram por aí a procurar e procurar. Telefonaram e nada: caixa mudo sem sinal! Primeiro molharam os pés na água salgada do mar-oceano. Mar que desliza escorrega como sabão e nem sossega nunca todo o sempre. Quem inventou o mar? Depois se encaminharam para o lado de lá, costeando o mar, caminhando pela praia da Joaquina, chuvinha na cara. Areia fofa e tal, sambaquis. Vai ver tivessem sorte passariam por Acre uf do B, 2% de todo o país em área.
            Por toda a parte um povo passeando em clima de folia e alegria e bagunça. Povo gostando de gritar e de brincar e de carnavalizar. Era bom. Era mais que bom. Uns presidiários de chupeta de bebê, umas aeromoças comissárias de bordo e de asas na cabeça, umas gurias em trajes de frutas, abacaxi, cacau, caju, pitanga... silvícolas botocudo bebendo guaraná de canudinho, magra, gorda, ex-gorda, magérrima, gorducha, superprofissional... os bichos do bumba meu boi, cavalo-marinho caipora cobra ou serpente diabo vermelho ema pica-pau mula sem cabeça... família do faquir enrolada em toalhas de banho com desenhos da praia de Co-pa-ca-ba-na, acrobata, gororoba, fósforo, caçarola, terapeuta, camarão, 20 minutos, falastrona... Por falar em banho... parou de chover, a bomba-d’água acalmara passara. Parou mesmo. Nada mais de relâmpagos trovões troões ribombões, mirabolantes. E já estavam aparecendo distantes lá no alto da tampa do céu umas estrelas guias brilhantes, pouco falantes, diamantes, precipitantes, cadentes.
            Era de dia, de tarde, de noite? Lilás queria ser um desenho de dinossauro no livro da escola: podia? E Lilás sonhou ser um sagui na floresta da serra de Pacaraíma: podia? E Lilás continuou. E coçou o canto do cotovelo e prosseguiu reorganizou. Recebeu um convite turístico para passear na aldeia da nação dos iranxe: podia? Umas árvores apresentando as sapopemas morando por aí e canjerana, açoita-cavalo, araticum-do-alagadiço, içaranduba, ipê-mamono...
            A Esmeralda, certa altura do passeio do campeonato, apontando um lugar na praia:
            - Olhem só, gente! Eu vi primeiro!
            - É mesmo!... - considerou Lilás.
            - São... talvez... - dizia a Rê.
            - Claro! São as pegadas de um cavalo veloz e rápido. Talvez um alazão, um pingo baio, um corcel, um cabos-negros - falava a Esmeralda, um pouco agitada.
            - As pegadas parecem recentes e novatas porém velozes. Lembram mesmo equino cavalo e cavaleiro em fuga carregando alguém na garupa na carona - respondeu a Lilás.
            - Centauro furta-passo fugindo com a moça do baile - completou a Rê. Ou será apenas a nossa grande ima, em?
            E as três, mais certas e empolgadas, compreenderam que eram rastos pegadas de cavalo em fuga carregando na sela a raptada, no caso a Pérola - preciosa. Assim, deviam e foram seguindo os cascos do cavalo quadrúpede para chegar cedo ao lugar do esconderijo o mocozal. E dito e feito. As três foram farejando, vamos dizer assim, a pista, as marcas, as sinalizações, as setas, as indicações. O rumo seguia para os lados do hipódromo da Gávea e localidade de Guarará cujo município se localiza na mesorregião da zona da mata e dista por rodovia 147 km da capital dos roraimenses Porto Velho. E a hípica estaria aberta em dias de carnaval? Pequena dúvida ou probleminha de fácil simples solução resolução.
            As três Marias de terramarear, vamos dizer assim, seguiram as pegadas deixadas na areia da praia. Areia branca de muitos milhões de anos atrás, etc. E era bom e agradável caminhar seguindo as pegadas investigar farejar espionar bisbilhotar. Alguma coisa dava para ver e seguir, o resto era o bastante. Insetos cricrilavam, vaga-lumes tritrilavam, sapinhos bliblitavam... Blocos de foliões de muitas origens e etnias, jogadores juvenis de futebol, homens e mulheres acompanhando suas crianças seres das cavernas chinesinhos ou coreanos ou acreanos ou capitalinos sacis de duas pernas e iaras vestidas como se fossem flores iaras vestidas como se fossem libélulas iaras vestidas como se fossem abelhas ou colibris, prêmio em dinheiro, bijuterias finas, olhos de peixe, nutricionista, garrafa de dois litros, mato-grossense, pé de pato... e desfilavam pela paisagem.
E o mar-oceano chegava ali perto, vinha rolando, sacolejando chacoalhando vaivém, balançando e continuando a lamber a praia a beira-mar o litoral. O mar sem paciência? O mar de sempre de agora. E era mar chegando e partindo, chegando e voltando, pra cá e pra lá, que vem e que vai, que abre a porta e fecha a porta. As ondas e o mar nem se deixam jamais. O mar que respira e nem morre jamais, muito obrigado!
            Logo pronto as três gurias pararam na frente de uma baiana típica com seu tabuleiro de quitutes e quitandas e docinhos e petiscos e tira-gostos. Lilás preferiu um acarajé, Rê escolheu um vatapá, Esmeralda pegou um xinxim. Provaram uma da outra para ver ouvir e sentir qual o melhor sabor e gosto e... bom apetite!
            A baiana típica de traje típico saia rodada volumosa balão natural de Conselheiro Pena aproveitou e fez umas perguntinhas para a Lilás, menina tão galante:
            - E esta cor lilás é somente pro carnaval, mina? É tão somente para a folia, é?
            - Nem, senhora do tabuleiro. É para sempre. Sempre foi assim e assim será. Veio junto de fábrica quando nasci apareci surgi e iniciei no mundo.
            - Ficou mesmo naturalmente carnavalesca e principalmente espetacular.
            - Nem que sim nem que nem.
            - Hum... gosta de quindim, gosta de balas sortidas feitas de cupuaçu?
            Agora, por ali, iam mastigando e olhando o que mastigavam e degustavam e engoliam com profundo respeito. Especialmente delicioso uma delícia. Dava água na boca só olhando. Pouco ou nada falavam. E nem pensavam em nada além do bom bocado que cada qual consumia. Quem falou em eterna juventude? Continuando a caminhada automaticamente pé ante pé. Sob um céu de raras e distantes estrelas feitas, quem viu?, em diamantes puros. Um boi e uma vaca abraçados casados marido e mulher mugiam, muuuu!... colocavam os prós e contras. Mais índios pintados de urucum e jenipapo. Os artistas da moda as modelos da moda os jogadores da nova onda, crustáceos, queijos, tagarelas, tambor-de-pagamento, cantarolas, coco-da-baía, escroques, secretária-geral, capitães, benfeitor, canetas, gentílicos... e mais uma série de diferentes fantasiados fantasiadas. Os besouros escaravelhos mede-palmos gafanhotos taquara-seca lesmas caramujos... um exército de brincantes rufavam estrilavam a sorte toda lá deles.
            - Para que que Pérola faz essas e outras aventuras, hein?! - quis entender a Rê. E que delícia de... a-ca-ra-jé... Acho que... tenho certeza que ela nem quer a gente por perto, é. Enfim, ela está se tornando tão independente de nós e pronto.
            Chegaram calmamente a um lugar da praia onde um ipuca pequenino rio Uailã, absolutamente calmo e vindo do mato, entrava no mar no mar. Aí, o mar recebia sem nada sem olhar o riachinho orgulhoso. Ou era o riachinho que buscava se esconder no mar de todos nós? Era um caso para estudo e pesquisa. O riachinho chegava, toda sorte lá dele fez isso, chegava e era recebido de dia de noite. Riachinho original, tímido, quieto, magro, límpido, informal e muito raso. Por outro lado o mar era imenso e ondeado e verde às vezes azul. E o mar fica estranho quando a gente o olha de fora. Na verdade o riozinho queria falar, nem podia; queria gritar, nem podia; queria rir, nem podia; queria se desdobrar num rio Trombetas ou rio Moa ou rio Envira, nem podia; queria respirar a floresta perto do monte Roraima, podia, mas pouco a pouco.
            A Lilás teve uma esperança imorredoura (imorredoura?):
            - Olhem, gurias, minhas melhores! Minha percepção extra-sensorial me pertence e me diz: de repente as pegadas do cavalo raptor sobem pelo leito do riachinho para disfarçar. É, deve ser, né?! Nem se vê direito, mas pode ser, né?! Já li isso em livro e é uma charada. As pegadas fingem ir pra lá mas porém voltam e vêm pra cá, entendem?!
            O riozinho descia todo junto e animado e elas resolveram subir, e subir pelo meio do córrego e como que molhando os pezinhos com tênis e tudo. Por quê? Porque os fugitivos tinham aproveitado o rio calmo raso comportado para despistar e sumir no mundo, é isso. E quem nem sabe? E quem nem viu?
            Era tão agradável caminhar e molhar os pés na água falante! Ah, era tão bom afundar os pés calçados na terra fofa e úmida! Era engraçado tropeçar nas pedras soltas rolantes seixos do ribeiro! E os peixinhos tímidos sortudos e lisos corriam se esconder e mais uma vez, lambaris, jundiás, traíras, charutinhos, cascudos... biguás, jaçanãs, acanatis, corujas-pretas, ratões-do-banhado, preás, cotias, formiga-sozinha... aguapés, gravatás, campainhas-brancas, taboas, poejos... e tudo integrado num ecoturismo bioma meio ambiente da flora e fauna tropical da mata atlântica endêmica.
            Passaram por ajuntamento de arvorezinhas baixinhas e tortinhas verdinhas, sauces, butiás, guaçatumas, tarumãs, sarandis, goiabeiras-do-mato... Umas aves enormes talvez ali pernalongando, garças-brancas-pequenas, garças-brancas-grandes, garças-cinzas, garças-de-cabeça-preta... Subiam exercitavam e continuavam, as três amigas preferidas, pelo leito do riachinho córrego. Alguns rios regatos que elas três lembraram, assim-assim e etc., clima equatorial, rio Taquari, Caí, Jacuí, Gravataí, Tramandaí... Esse mesmo fiozinho de água cruzava agora um potreiro bem cuidado nas pastagens com desenhos construções estruturas de inúmeros geoglifos feitos no solo com idade avançada de mais de 2 mil anos. O pasto era liso e verde e bem preparado, trevos de três folhas, trevos de quatro folhas, trevos de cinco folhas, macegas, carquejas, flechilhas, espinilhos, chuveirinho, cravo-do-campo... E muito mais insetos alados e terrestres priprilando... Cigarras rechinando, sissibilando, estridulando... galos-da-serra dançando gargarejando... A Esmeralda anunciou para o distinto público, exigindo:
            - Vamos até aquele galpão ver qual que é? Tudo cercado de arames telas e taipa.
            - É uma fazenda de cavalos como um haras portentoso - opinião de Rê.
            - Uma propriedade de rico ricaço milionário. Praticamente um parque uma hípica de anúncio. Vai aonde, meu! - falou a Lilás.
            Deixaram então aquele riozinho falador que fazia com gostinho o seu caminho tortinho serpentino até o mar o oceano. E foram para os lados do haras Garanhão Tordilho. E começaram a ver muito cavalo bom de raça. Cavalos livres, soltos, desencilhados, sem donos, sem patroas e no mais relinchando pelo descampado campo afora, iiiiéeeeque!... nas mangueiras com tábuas pintadas de branco, éeeque-que!... Cavalos de pelos diferentes, quem sabe de raças diferentes, e portes diferentes, e andares diferentes, e trotes diferentes, e relinchos diferenciados, iqué-iquéeee!... Cavalos de idades diferentes dietas diferentes suplementos alimentares diversos. Cavalos e éguas e potrinhos e pôneis. Cavalos ao ar livre. Cavalos nas baias apartamentos ranchos. Cavalos alados de duas asas de quatro asas. Cavalos bons cavalos ótimos cavalos es-pe-ta-cu-laaa-res, raros pangarés idem petiços.
            Foram em frente, para dentro da fazenda cabanha. Nenhum cachorro? Claro que havia cachorros. E eram uns tantos. Chegaram todos de uma vez e avisados. Vieram surgindo correndo e afobados e quase mordendo bufando uivando. E rodearam as meninas. Falaram todos ao mesmo tempo, latiram, acuaram, ladriram, ganiram, uivaram, auliram, vomitaram verde de tanta ira e raiva. Era o que eles, e malandros astutos ardilosos, faziam por aí na propriedade. Daí até as meninas se explicarem... foi um custo dos mais altos longos... e além, etc.
            Depois de duas semanas apareceu o dono ou o proprietário ou capataz do haras, e o chefe ou patrão ou dono dos cachorros: era um cavalo dos mais altos e nobres e fortes e bonitos. Era um baita dum cavalão de corrida, porém aposentado. Um cavalo árabe, talvez. Um manga-larga, quem sabe. E este senhor cavalo total mandou os cães dormir na palha. E os cães nem foram, nem obedeceram, nem se deram conta. Mas tudo ficou por isso mesmo e as meninas e o cavalão quadrúpede puderam conversar em tupi-guarani. O cavalão, automaticamente com as quatro patas no chão, to-toque! to-toque!... a cauda espantando mosquitos revolucionários e ou incidentais, relinchou, dentes inteiros prateados e honestos:
            - Inxalá! Bem, então para que servem três visitas de três meninas tribonitas e lindas e belas e elegantes fantasiadas de piratinhas aqui no meu haras, uma vez? Por um acaso vocês nem são de Barra do Turvo, hein?! Me parece se parecem, pelo menos.
            - Estamos nos rastos e no encalço de um cavalo raptor sequestrador. Ele, o tal cavalo sujeito caloteiro, driblou minha irmã Pérola - disse a Esmeralda.
            Houve um momento de pausa de silêncio de pensamento reticente... E apareceu, voando lá do interior do rancho, um papagaio-do-mangue ou uma papagaia-da-serra. Por que um papagaio num haras, gente?! Nem se sabe, mas ele estava ali. Estava ali um papagaio em pleno haras. E daí?! É melhor concordar com a presença do papagaio ou papagaia. O papagaio voou até ali e pousou na cabeça do cavalão, entre as orelhas altas do cavalão. Outro papagaio na história nesta história nem tem nada de mais, nem é?
            O grande cavalo mais-que-perfeito achou melhor explicar a situação e explicou a situação de um modo muito simplificado:
            - Inxalá! É um papagaio da casa caseiro. Um mascote predileto doméstico. Um amigo da família domesticado. O mascote do plantel. Devidamente liberado pelo Ibama, vejam a aliança na canela da direita.
            Mais uma pausa leve e pequena, assim-assim, e o cavalo grande nitrou o seguinte:
            - Inxalá! Pois é. Nem vi nada de estranho aqui pelo haras pela hípica e arredores vizinhanças bairros adjacentes. Um rapto? Um cavalo roubou sua irmã, é? Será? Este raptor veio direto pro meu haras, hein?! Ocês têm certeza mesmo e podem provar na justiça civil dos humanos?
            - Veio com certeza, achamos. E nós três o seguimos direitinho. Foi até muito fácil. Parece que entrou no seu rancho ou aqui por perto adjacências. Desconfiamos com certeza, na verdade - disse a Esmeralda. Parece que foi a poucos momentos instantes atrás.
            - Inxalá! Então, vocês apenas desconfiam?! Já chamaram a polícia? A PF? Tem que ser um cavalo ou pode ser uma potranca? Quem sabe uma anta uma paca um tapir?
            - Temos quase certeza. Mas nem temos certeza certeza cem por cento mesmo - falou a Lilás. Sabemos que tem quatro pernas e anda ligeiro e carregando carona, tá certo?
            - O raptor, com toda a esperteza, se misturou aos outros cavalos equinos e garanhões. É o mais lógico, né, gente?! - completou a Esmeralda.
            O cavalo enorme alazão foi com as três mocinhas por aí, explicando e mostrando a propriedade benfeitorias casas quintais telheiros pátios áreas abertas e fechadas. Foi mostrando por fora e por dentro, madeira, pedra, cimento, argamassa, tijolo à vista, ladrilhos, madeirame, departamentos, escritórios, almoxarifados. O papagaio nem bola, na dele, viajando na cabeça do chefe do mandachuva. Um papagaio que nem falava? Que nem resmungava? Nem, o papagaio resmungava coisas sem palavras certas sem teorias corretas sem frases feitas. Resmungava baixinho e, quando bem desejava, olhava com olhos de peixe assustado muito abertos esbugalhados. Às vezes coçava o ouvido, virava de costas, olhava o sol ou a lua, um olho no chão e outro no céu, esticava o dedo emplumado para sentir o vento. Papagaio morador natural ex-residente do cerrado no parque estadual do Jalapão, em Mateiros.
            E o cavalo cavalar, capitão do haras e tal, ia apontando o pasto, explicando, mostrando os galpões, as baias, as estrebarias, a sala de jogos, o campo de polo, apresentando os cavalos recém-chegados recém-adquiridos recém-admitidos que viviam ali, dando nome explicando nomeando e tal e qual. Existiam cavalos por acá antes de Pedro Álvares Cabral descobrir o B? Os tipos e aparências dos cavalos, éguas, cavalo matungo, cavalo changueiro, cavalo pombo, cavalo candongueiro, picaço, pingo, pintado, azulego, petiço... E as gurias viram muitos cavalos de raça, puros-sangues, potrancas de crinas longas enoveladas. Uns até se exibiam, correndo muito, a galope, no trote, no passo, interpretando música de orquestra. Outros aproveitavam e tomavam banho de piscina olímpica. Uns mais relaxados dormiam nas cocheiras sobre o capim o pasto seco. Eram muitos os cavalos e éguas. Cavalo bragado, cavalo baio, colorado, lobuno, tobiano, salino, pinhão... Mais alguns ali na sauna pegando um vapor e relaxando trovando cantando relinchando batendo um papo, pegando luar, pegando sol, bebendo um suco de abacaxi com cenoura, comendo um picolé de açaí-pequi-caju. País dos cavalos, nação cavalar. Tinha uma cancha reta para treinar os mais destacados exemplares atletas de alto rendimento atléticos competidores profissionais celebridades.
            O cavalão alazão de alta linhagem olhou as meninas com seus olhos equinos grandes redondos, sacudiu a cauda no ar em risco de chicote, e perguntou relinchando na língua a mais pura brasileira mineira:
            - Inxalá! Está reconhecendo o raptor entre esta minha tchurma? Hein, podem falar sem dó nem piedade! Se o raptor estiver aqui entre meus belos cavalos e potrancas, eu mesmo o expulsarei. E o entregarei à brigada à justiça militar ao veterinário.
             - Pois é - falou a Esmeralda. Nem estamos reconhecendo o malandro. E nenhum dos seus cavalos parece ser um raptor um bandido um tipo desleal. São todos de boa fisionomia de ótimo pelo de excelente família e procedência. Fica pra próxima, então.
            - Inxalá! É, mas eu nem sinto muito. Até que gostaria de ajudar vocês e tal e qual - falou o cavalão alazão com pedigree, chefe e poderoso senhor do haras Garanhão Tordilho.
            Olha só! Muitos cavalos soltos e preocupados com a forma física saíam a passear trotar. Uns praticavam judô outros polo aquático outros futebol de botão ginástica aeróbica bicicleta ergométrica. É mesmo, procuravam fazer exercícios malhar, correr, correr em volta dos piquetes, correr na pista de corrida, pista de grama, pista de areia, pista de obstáculos com cronômetro. Uns até disparavam numa velocidade bárbara, erguendo nuvens de poeira, nuvens de serragem, nuvens de vapor, nuvens de aplausos, espetáaaaculo!... Todos bonitos e luzidios pelos brilhantes ao sol. Faziam o tradicional po-co-tó, po-co-tó!... Vários pelos, cavalo pedrês, cavalo tobiano, cavalo salino, ruano, zaino, cabos-negros. Talvez aquele marrom, liso, brilhante, todo marrom queimado, fosse o campeão dos campeões no campeonato mundial. Talvez aquele de pelo cinza-azulado fosse o pai dos pais, ou avô dos pais. Aquela égua solerte com manchas brancas e pretas fosse a mãe do pai dos pais.
            - Inxalá! Querem montar um instantinho nos meus famosos camaradas parceiros de cavalgada cavalaria? - perguntou gentilmente o cavalão, herança genética milenar. Uma vez nem existiam cavalos superestrelas por estes pastos tão vastos e perfumados e verde-amarelos, “a terra mais garrida”.
            As meninas se entreolharam e... como?! Queriam e nem tinham tanta coragem assim. Ou estavam sem jeito, tímidas. Nem sabiam e nunca tinham andado a cavalo. Mas parecia excitante, parecia possível, parecia tão perto, parecia convidativo, parecia em geral, parecia como na novela de televisão. E ao alcance de um, upa!...
            - Sim, sim eu quero!... - disse a entusiasmada Lilás.
            - Só se for agora! - falou a entusiasmada Rê.
            - Pra já, meu! Uai! - foi a vez da entusiasmada Esmeralda.
            E passou um minuto e já as três estavam passeando a cavalo montadas sobre sela no lombo de cavalo ou potranca já escolhida. Pareciam mesmo ter muita sorte e realizar um sonho um desejo uma missão. Cada menina no seu cavalo: Lilás no zaino pinhão, Rê no pingo, Esmeralda no gateado. Já queriam dar nome aos matungos, etc. O cavalão alazão forte e remoçado de cor clara, gerente do haras Garanhão Tordilho, as acompanhava pacientemente pelas trilhas e caminhos da boa e grande e bela propriedade: diante deles as matas de várzea também conhecidas como as florestas do tipo campinarana. As libélulas e pirilampos acompanhavam o trotar do grupo com sibilos e pisca-piscas. O papagaio pingado no meio da cabeça do cavalão chefe, também e tão bem. Uma vez se ouviu um palrar, uma arenga vinda do bico aberto do papagaio. No geral e quase sempre o papagaio nem dizia nada e resmungava mais para si mesmo. Ria de vez em vez. Ria acomodado, ria quase solito no más. Ria e chilrava e rezava religiosíssimo receoso dos predadores.
Muitos minutos e talvez algumas horas se passaram se foram, clima tropical-úmido, rio Tacutu, estação ecológica de Maracá, sítio arqueológico da Pedra Pintada... Era de dia, de tarde, de noite? Quando se gosta do tempo passatempo ele o tempo faz que nem passa nem vai nem fica nem ainda nem talvez. E outra exclamação estratégica:
- E essa nem eu, meu!
            Voltaram do longo e redondo passeio ainda encantadas com a facilidade de montar um cavalo equino. Nem estavam acostumadas. O cavalão multinacional quis ter uma certeza e conferir, indagou:
            - Inxalá! Então? Adoraram? Amaram? Querem voltar amanhã? São questões importantes que podemos responder resolver agora mesmo, tão de acordo?
            - É, sim, eu achei muito fácil mesmo. Adorei... eh eh eh! - respondeu, se rindo, a Esmeralda. Depois o meu cavalo é um tipo físico es-pe-ta-cu-lar!
            - Os cavalos centauros são humanos e pessoas como a gente. Claro que são!
            A tchurma de meninas então assim adoraram da mesma forma e tal e qual. E o que mais? Nem cabia mais nada? Mais o quê? O cavalão quadrúpede quis oferecer um refrigerante, um suco, uma salada verde, um chá doce, um chá de capim-cidreira para acalmar, um cafezinho fumegante, um chocolate em barras... O telefone tocou, tocou... mas o equino nem atendeu, tocou!... As meninas acharam que estavam passando da hora... E então as gurias se despediram e prosearam:
            - Bem!... Já uma vez que nem descobrimos os fugitivos e paradeiro... e precisávamos saber que forma que modo e em que sítio foram parar... Quer dizer, vamos indo... e nos retirando - falou uma delas e por todas.
            As meninas voltaram pelo caminho que haviam percorrido na ida. A serra do Ibitiraquire com suas trilhas de montanhas escaladas desescaladas monte Ciririca pico Paraná bico do Tucum elevado Taipabuçu morro Jurapê... Sem muito o que fazer inventar o rio Uraricoera e sob a ponte dos Mucuxi o rio arquiteta descidas corredeiras estardalhaços remansos atividades pacus surubins pirararas aruanás... ilha de Santa Maria do Boiaçu praia do Pesqueiro lago Amanã... E se viraram vinham vieram embora.
Retornaram ao centro da folia. O povo muito agitado, agitada a cidade, as ruas buliçosas, o clube Laranjinha um fervo. O pula-pula para todos os lados. Muito bicho solto, gambá, pandemia, câmara, extraterrestre, tubarão, peixe-espada, boto-cinzento, cabeça-de-ouro, cabeça-dura-focinho-de-rato, celebridade, político da hora, papangu com máscara de madeira ou lata ou plástico reciclado, bonecos gigantes famosos, paramilitar, editor-chefe, termômetro, holograma... Pois o carnaval tem essa de folia e de ver as pessoas perder a memória o tempo o espaço. E ainda, muita coisa pra distrair. Muita coisa pra ver e desfrutar e destacar, efetivamente.
            Voltaram mesmo diretamente as três ao baile bailão, ou centro do problema do caso da questão, ou melhor, ao centro do cardume, do enxame, do formigueiro. E havia muita formiga e muito formigão, muito ratão e muita ratona ou ratazana, muito besouro e muita besoura, muito gavião e muita gaviona. Muita abelha e muito zangão. Muita jabota e jaboti. Muita capivara e capincho. Muito rei e muita rainha desfilando ou imperador e imperatriz. Muito príncipe com moto barulhenta e muita princesa com asas transparentes de libélula.
            - Você gostaria de conhecer o futuro mais próximo ou mais distante? 
            - Foi bom aparecer o rei Momo e sua corte nobres nobreza barões baronesas pompa e coroas e cetro e tronos e cortejo séquito desfiles duque duquesa aparatos tapete vermelho, tá certo?!
            - Você gostaria de terminar uma partida de vôlei ou de futebol?
            Lilás torceu distorceu o pescoço e olhou para os lados e tal. As três caipirinhas sentiam falta da Pérola, nem adianta. A banda tocando coisas antigas e imperdíveis como, “oh, abre alas que eu quero passar... oh, abre alas que eu quero passar... sou da lira, lá lá lá!...”, “acorda Maria Bonita, áaaa!... levanta vai fazê o café, éeee!... o dia já vem raiando, meu bem, eeeem!... e a poliça já está de pé, éeee!...”, “nem cruze a fronteira... nem permita que chova, va-va-vá!... nem descanse na cadeira... nem receie da altura, ra-ra-rá!...” “a camélia caiu do galho... deu dois suspiros, hum! hum!... depois morreu, tum-tum!...”
E o rebanho ou falange ou bando se movimentava unido em bloco em conluio conforme a música, se sacudia, pulava como macacada, chacoalhava, macacada na hora do recreio, gingava, macacada na hora do lanche, pipocando, macacada quando o dia amanhece, saracoteando, macacada às cinco horas da tarde, macaqueava, macacada reunida para lanche no alto da árvore agitando a mata a floresta. É bem isso ou mais ou menos isso mesmo, e com barulho. E do meio da massa apareceu a margarida, ou seja, a Pérola brilhante, celular no pé do ouvido, falando, atenta, uma mão gesticulando, toda ouvidos no aparelho cor-de-burro-quando-foge. Esmeralda viu, nem acreditou, riu e gritou:
            - Ah ah ah!... Pérola!! Até que enfim! E até que hoje mesmo!
            A exclamação foi para trepidar ainda mais a folia aumentar o ruído. Foi um berro! Tudo bem. E Pérola ouviu e veio perto das amigas preferidas. Umas 16:48, e andando... Foi um jorro de perguntas que as três detetives pesquisadoras fizeram caíram sobre a amiga desaparecida ou perdida ou distraída ou esquecida:
            - Onde você se escondeu, guria? Onde você andou, gente? Foi raptada de fato por um cavaleiro ou um cavalo ou um centauro, menina? Desceu ou subiu ou velejou o rio Ajarani? Sumiu sem deixar avisos, é, moleca? Se perdeu se desorientou em plena pana do Viruá? Nem telefonou nem deixou telefone ligado, hein? E com você está tudo bem?
            Vamos resumir. O carnaval a folia nem parou por causa de pouca coisa. A cidade inteirinha estava agitada e continuaria inteirinha agitando. O mundo balançava conforme a música, conforme o som dos atabaques, conforme batia o tambor, tum-que-tibum!... Cansava uma banda, entrava outra banda, cansava um conjunto, entrava mais outro conjunto e a música nem parava e por que parar. E as melhores de todas as canções dos tantos carnavais eram mesmo as marchinhas do tempo da época do tempo que nem volta mais do tempo que desapareceu do tempo da década do tempo do onça... Aí, então, aparecia a corda o cordão e todos pegavam carona ziguezagueando pelo salão lotado engarrafado. Um trem enorme que se movimentava como uma a serpente como uma a minhoca como uma a corda e ambulantes, como um o rio e fervoroso Água Boa do Univini. E os brincantes riam e cantavam e gingavam. Os brincantes riam como rio pequeno nas pedras rolantes. Outros bagunçavam empurravam mas tudo numa brincadeira que fazia parte que interessava. Ainda os que riam como folhas ao vento, riam engraçado, riam contentes, riam felizes, riam totalmente, riam elasticamente. Eles riam cheios de si e elas riam cheias de si porque todos riam e aos milhares. E na perseguição da Rê sempre ficou insistindo um piá meio encantado demais. Então, era alegria transbordando de pessoa a pessoa por todas as pessoas no salão. E a festa também exorbitando de foto em foto o filme. E a banda acabando com as energias do povo fazendo o povo sair do chão erguer do chão, obrigando o povo a ferver no frevo olindense a pular no axé baiano a trotar no maracatu paraibano.
            Mais tarde a Rê comentou com as elétricas amiguinhas de farra e folia e fanfarra e fanfarrada e fanfarronada:
            - Olhem, gente! Havia naquele cordão, e procurando se exibir quanto mais, um piá que vivia puxando os meus lindos cabelos. Ai que ira, meu! Detesto que puxem meus longos cabelos cachados, tá dito e redito?!
            - E você nem gritou bem alto para todo o mundo ouvir? - perguntou a Lilás. E do teu direito. E que se faça justiça.
            - Você nem olhou para a cara dele, assim com cara séria, e lhe pediu: Faz favor?! - quis saber a Esmeralda.
            - Nem mandou nem ordenou nem bufou que ele pulasse fora? - foi a vez da Pérola.
            Então, a Rê respondeu a todas essas dúvidas das amigas com só uma resposta. Esta resposta homeopática:
            - Bem... Aí eu peguei na mão dele, olhei seus lindos olhos esverdeados rebrilhantes e disse: obrigada e obrigada!
            Quer dizer: gente, deixemos pra lá, né?!
            A inesgotável energia da multidão nem esgotava nem descansava nem ia para o intervalo. Muito pula-pula, macacada, correria, poeira levantando, pulando gente vestida de bicho igual pulam as pipocas. As fantasias de selva de peixe de ave de animal terrestre de animal aquático. E muito engraçado, muito do que rir, rolando de rir e gargalhar. As asas bem abertas sobrevoando o salão planando flutuando como o sol como a lua numa calma e delícia de voo. Mascarados diversos, bandidos disfarçados de covid-19, índios e índias tupinambá, crescidinhos de chupeta, pescadores com exemplar de tubarão debaixo do braço, meninas de coração abundante, mais bichos do mato, e bebês gigantões de fralda, cacarecos, arqueólogos, marmanjões, 20 calorias, ginastas, proteínas... “tomara que chova, três dias sem parar... tomara que chova... três dias sem parar-rar-rar!...”; “Ala lá ô oh oh oh!... mas que calôooo... estava atravessando o deserto do Saara, ara! ara!... quando o sol bateu na minha cara, ara! ara!...” “noventa milhões em ação... ro-ro-ru!... pra frente Brasil, do meu coração... ro-ro-ru!...”, dançantes dançando à beça animados e um bocado fantasiados nos variados uniformes, papelão, previsão do tempo, horóscopo, 24 horas, bem-bom, lavanderia, parâmetro... “está chegando a hora... o dia já vem raiando, meu bem... e eu tenho que ir embora, ra! ra!...”
             A Esmeralda olhou para os lados, todos os lados, os quatro cantos do mundo e parou na fita frisou congelou. Mas parou por quê? Parou para ver melhor o quê? Na verdade Esmeralda parou procurando a irmã Pérola. Cadê a Pérola?, ela mesma se perguntou. E depois em voz alta:
            - Quede minha querida irmãzinha preciosa necessária, gente?!
            As três novamente ali reunidas alinhadas e sem a quarta componente sem a quarta ocupante, de novo e novamente. Onde Pérola? Olharam repetidas vezes para cá e para lá, etc., e nada de nada. Era mentira? Procuraram nos bolsos das fantasias de sinhazinhas e nada. Procuraram no banheiro, e quem a viu? Mas o que se passou com essa menina teimosa de sumir? Telefonaram e uma vez mais... caixa mudo fora de área... Era uma piada? Que mistério nervoso, cidadã cidadão!
            - Eu nem vi nada, mas eu estava deveras distraída - disse Lilás.
            - Ela estava aqui e aqui mesmo recém-recém - zumbiu a Rê. Faz pouco tempo.
            - Pois sumiu de novo e novamente e outra vez consecutivamente pela terceira vez - falou a Esmeralda. Já nem me importa mais, quer saber. Tipo assim... que bobeira, meu!
            É, vai-se saber! Quem sabe no banheiro. Nem, no banheiro já foram e verificaram e nem estava lá. Ou seria, coisa mais difícil: fora raptada, abduzida, convencida? Podia ser? Mas isso seria muito perigoso e arriscado e radical para uma menina. E outra vez? Vamos ver. E uma indagação para cada uma das restantes sobressalentes:
            - Alguém já viu ou ouviu o Plebiscito?
            - Quem é o Sumário?
            - Nem foi que encantou o Transunto?
            As meninas, a tríade a trinca a tríplice a trindade, foram investigar por aí, por lá, para cá, foram campear até debaixo das abas dos sombreiros dos fantasiados de mexicano de pescador de garimpeiro de colono. Nessa hora Lilás sonhou que queria ser uma atleta olímpica medalhista em Rio-16: podia? E Lilás também sonhou ser uma árvore de muita sombra, e da espécie tipo ratânia ou ratainha, plantada em boa forma na praça XV de Novembro em frente ao complexo do mercado público Ver-o-Peso em “bem Belém!”: podia? Imaginou criou a expectativa de viajar conhecer o parque Anauá e os índios aruaque: podia? Aprovou cruzar na balsa a baía da Babitonga desde o lado de Itapoá até o parque Acaraí em plena ilha de São Francisco do Sul: podia? Encontrar sim encontrou por acaso na rua Barão de Batovi a um cão pequeno fofo (ser elemento aleatório) e adotou e batizou de Canhoto: podia.
            - Olhem lá, olhem lá e olhem lá, gente amiga!! - gritou três vezes empolgada e quase desesperada a Esmeralda.
            - Que foi que tu viu, guria do céu?!! - perguntaram as outras duas em conjunto.
            - A Pérola! É ela mesma, tô vendo daqui, ora! - respondeu a Esmeralda. E toda toucada de folhas disfarçada de folhagem verde e muito dependente de caramanchão, hum!... Está indo possivelmente em direção da praia de Pipa, tá certo?!
            E as três amigas correram para o lado que a Esmeralda havia apontado, que estava apontando e que dizia ter visto, e estar vendo, porque lá estaria estava a Pérola. Chegando lá... que é de a Pérola, meu? Quede a joia da coroa? Quedê a cereja do bolo? Será que migrou para São Gabriel ou Dilermando de Aguiar? Foi visitar uma loja de conveniência justamente na Esplanada dos Ministérios e o Eixo Monumental em pleno Plano Piloto?
            Assim concluíram as três, de uma só voz, em coro e coral, e quê:
            - A Pérola necessária, no final das contas e do colar de contas, foi raptada outra vez! E outra vez sequestrada! Quem sabe dizer o rumo certo?
            - Hum!... Subindo descendo o rio Alalaú, o monte Caburaí, a Vila Nova do Sul?
            - Ora! Indo passando por Sacramento, Goiabeira, praia da Ponta do Madeiro?
            Levada copiada derretida transladada? Bem, isso é fácil dizer, mas muito difícil de escutar e aceitar e provar. A Pérola raptada? Outra vez? Nem, nem tem graça nenhuma. Nem me diga! E outra coisa, isso já estava ficando repetitivo. E raptada por quem, pode-se saber? Ah, sim, talvez um brincante vindo do capitalismo selvagem ou comunismo autoritário. Talvez um boto-cinza um preá uma arraia-cocal do fundo do rio Solimões, do rio Xeruini, da lagoa do Carcará... Talvez por um gavião-carijó, um teque-teque, uma sanã-ocelada, um gato-maracajá, uma mãe-da-taoca... Quem sabe por um fantasma feito de calor e sem sombra morador de uma caverna profunda rente ao balneário praia das Conchas. Quem sabe um alienígena vestido de abóbora numa espaçonave feita de 2 pratos fechados.
            A Esmeralda, sempre a mais preocupada, pois eram irmãs, claro óbvio, tirou da ideia esta iniciativa privada particular autofabricada:
            - Já sei, gente! Felizmente minha irmã foi raptada por um marujo marinheiro dos mares de fora e de dentro. Tenho certeza ou quase. Tenho também que ir logo logo investigar e socorrer. Eles podem estar em o rio Javari como em Boca do Acre como em Rochedo de Minas, ou seja...
            - Nem seria da tripulação de um transatlântico de 8 (oito) andares? - sugeriu a Rê.
            - De um contrabandista sacoleiro ou aventureiro ou turista do litoral da costa sul-rio-grandense, quem sabe? - falou a Lilás. Frequentador pescador do majestoso rio Pirataima?
            A cidade se divertia muito megalópoles na boa em boa onda e muito bem acompanhada, obrigado(a). As ruas uma multidão de foliões, blocos, bandas, figurinhas, figuraças, figurões... O povo coalhava as artérias centrais travestido de bichos raros, selvagens ou domésticos, helicóptero, púlpito, creme condicionador, barata, baratinhas, barato, “baratas baratas... passeiam pelo céu da boca... baratas baratas... saracoteiam pelo engalanado salão!...” Sempre se divertindo no ritmo boi-bumbá ciranda toada marabaixo roraimeira... e gestos cômicos superlativos. E as três gurias, as três estrelas ma-ra-vi-lho-sas, corriam “salvar a Pátria?” salvar a Pérola das garras caprichosas do marujo norte-rio-grandense, que era o raptor?, que poderia ser o raptor, que fora confundido com raptor, que nem existia raptor e raptada coisa nenhuma. Era todo um desfile enredo desfilar de escola de samba premiando originalidade e desenvoltura.
            Foram seguindo os rastos pela areia da praia Ponta das Canas, Anicuns... O mar curtindo uma de ir e vir incessantemente, mexido. As meninas seguiam dois rastos: do corsário flibusteiro e da Pérola rara preciosa. Por ali, por aqui, taqui, peraí... e olha lá, olha acolá... o mundo é grande, aldeia dos hixcariana, o mundo é largo, tribo dos mura, o mundo alaranjado, o planeta meio sol e meio lua.
            Na altura do quilômetro mil e oito (1008 km) as meninas pararam num quiosque para reabastecimento, 17h e 20min. Lilás e suco de caju e bolo de chocolate em camadas de chocolate no estilo brigadeiro. Rê e suco de abacaxi e pastel de queijo com brócolis, queijo de búfala com etiqueta de origem em Soure. Esmeralda e chá-mate gelado e tapioca uma e duas com quindim de sobremesa. Nem chovia e nem fazia sol, na dúvida: uma noite morna preparada para chover mais tarde com relâmpagos mais os trovões. Era de dia, de tarde, de noite? Pessoal na rua na calçada na sacada sempre festivo abanando dando tchauzinho rindo festando aí em Pauini mesma coisa em Garuva. O rio Cauamé deslizava líquido fluvial prevenido de insurgências e ressurgências subterrâneos cavernas estalactites estalagmites grutas cortinas babados torta bolo véu de noiva imagens de santo(a) lago azulado sonoro acústico conta-gotas durante pinga-gotas milhares de anos. Vem me dizer!
            Seguiram na perseguição (vamos dizer assim) dos rastos do raptor e da raptada. Comiam e bebiam mais que falavam. Era bom e pimba! nos doces e salgados e agridoces. Nem falavam quase nada, comiam andando pisoteando palmilhando. As três nem falavam, dando prioridade ao mastigar, nhã-nhã-nhã!... Quase esqueciam de seguir as pegadas sinais riscos traços... Comiam bebiam e seguiam resmungando, hum!... típico de quem abocanha um quitute petisco bom-bocado, enche a boca e gosta do sabor. E elas nem repararam, nem se deram conta, mas passaram por um formigueiro um baita formigueiro que vinha a ser um país de formigas um império de formigas formidáveis formais formigas-cortadeiras.
            O mar ali pertinho estava solto à vontade calmo salvo dos naufrágios líquido como toda vida salgado por completo azul ou verde empinado corcoveando. O mar era tudo no mundo e estava salvo da eternidade. O mar sem nenhum limite horizonte com o céu. O mar etc e tal qual. E as três fantasminhas sianinhas recolhendo as pistas as marcas dos fugitivos.
            Esmeralda pegou algo do chão, quiçá descartável, e debateu palpitou:
            - Hum!... Será uma pena da asa do gavião-azul ou da cauda da arara ou do peito do pato ou das costas do marreco? Sim, parece e tem de ser masculino. Uma pena do chapéu do marinheiro paranaense? É, acho que sim e talvez provável.
            E Esmeralda ficou intrigada, pensando, conferindo, reolhando... Guardou a pena no bolso da fantasia. E Lilás falou, já coçando o belo queixo do rostinho lindo e juvenil:
            - Mas para onde vão e se bandeiam esses dois alados fugidos? Ou nautas enfeitados de bandeiras? Ou caminhantes das escalaminhadas escaladas mais radicais?
            Esta era uma dúvida geral e que naquela altura nem tinha ainda resposta convincente verdadeiramente. Nem havia resposta alguma. A verdade verdadeira anda sozinha sem companhia desabitada separada dos seus? Esmeralda, outra joia pedra preciosa, sempre ainda também se interrogou:
            - Será que vão pegar, se já nem pegaram, um iate e se mandar por esses mares essas baías e enseadas e rios e furos? Quem sabe fugir num avião a jato até o meio do mato em pana da serra da Mocidade? Ou num hidroavião a jato para pousar numa lagoa num lago numa represa? Morar numa ilha muito pequena e nem querer mais nada com a cidade o urbano a civilização a pátria a nação, hein, confere?!
            - A nossa Pérola branca negra uniforme quer atenção detalhes e novidades, amigas!
            - Que quem escolheu a Pérola? Em que sítio ela quer chegar entrar e ficar?
            Caminhando e perseguindo o faro, os poucos indícios e tal, por volta de uma ou duas horas de buscas sem resultados práticos, as três detetives chegaram ao cais do porto da cidade maravilhosa, cidade manhosa, cidade saborosa, cidade montanhosa e conhecida no mundo inteiro pelos seus cartões de visita, “cidadeee... maravilhosaaa... cheiaaa... de encantos milll... cidadeee!... maravilhosaaa... coração do meu Brasilll!...” E olharam em volta para reconhecimento, admirando o lugar, a noite, a tarde que ia caindo em tardezinha, o pôr do sol o ocaso... E olharam também procurando o casalzinho de fugitivos ou namoradinhos. Viram um navio estrangeiro e suspeito ancorado no trapiche no cais no píer. Correram para lá quase com certeza que Pérola, linda cara e rara, estaria no tombadilho no cesto da gávea e distante isolada separada da folia.
            - Garanto pra mim pra vocês que minha irmã está no timão desse navio e querendo aprender a velejar. Vamos lá! - falou a Esmeralda. Se ela nem tem explicação para nos deixar a ver navios... bem, aí eu vou falar umas verdades que ela vai ter de ouvir. Fui clara?! Concordam comigo?!
            - O barco a vela parece um museu ambulante da época do império, é.
            - Na verdade um lojão com venda de produtos artigos usados antigos artesanato lembrancinhas camisetas com frase escritas assim do tipo “eu estive aqui!” “amo esta cidade” “nem se esqueça de mim” e mais, etc.
            As três se precipitaram para bordo da embarcação. Subiram por uma escadinha difícil desequilibrada estreita de corda. Um navio pirata, sem dúvida. Havia uma bandeira de bloco qualquer lá no alto do último mastro e tremulando tremulando conforme o vento de nordeste para sudoeste. Estava na cara, então, que o navio era um legítimo supertransatlântico internacional de estrangeiros loucos por carnaval na veia.
            A trinca terceira subiu a bordo, assim, de supetão, sem pedir “por favor!”, sem pedir licença, sem se anunciar, sem se desculpar, sem tocar campainha ou sineta, sem bater umas palmas, plaque! plaque!... sem gritar “ô de casa!” E foram sem receio sem convite sem aviso sem recomendação sem cerimônia. E pararam no convés para olhar melhor a coisa como um todo os 360 graus. Nem, nem era um navio museu, nem navio encalhado, nem navio da marinha brasileira, nem embarcação de cabotagem. Era uma caravela, uma nau, um galeão ancorado, todo equipado, pronto para zarpar para a República Dominicana, para a Colômbia, para o Vietnã na Ásia. Um barco a motor, talvez; um barco a vela, com certeza. E realmente.
            - Todo navio ou barco tem nome próprio, sabia sabiam?!
            - E que nome tem este? Vamos ver!
            - Eu acho que leio “Caimbé”.
            - Mas é nome de índio indígena, me parece e se nem me engano, em?!
            - Eu colocaria um nome marinho um nome de princesa um nome de rei ou rainha e me faz o favor, né, meu!
            - O que vale é a certeza intuição criatividade do pai ou mãe da criança, tá certo?!
            Apareceu um senhor idoso em trajes de marujo de marinheiro, quase um vovô, ou até mesmo como um papai noel de loja igual daqueles sentados no shopping. Era um navegante flibusteiro bucaneiro cabra da peia gaúcho largado. Tinha um radinho de pilha no ouvido e ouvia narrado no rádio o carnaval de rua de Ouro Preto e os blocos de sujos e os cordões de puxa-sacos as cirandas os jongos as gafieiras os forrós...
            O marujo zelador do barco estava para uma boa conversa, brincalhão, bonachão, etc. Então, ele mesmo capitão-de-longo-curso foi pedindo conversa diz que diz que papeando:
            - Oh oh oh!... que que há, minhas queridas carnavalescas! Fantasiadas decoradas desenhadas com tipos caprichados artísticos de peixe de animal da floresta, etc! Tão ansiosas para ver o barco o museu da marinha, é? Tão procurando por mais alguém, é? Tão procurando passar a noite trancadas no porão da nave, é? Tão procurando um bom restaurante com pizza e guaraná natural da Amazônia, é? Vão viajar para Santarém e ver presencialmente fisicamente pessoalmente o encontro das águas claras do rio Tapajós e barrentas do rio Amazonas a praça do Mirante o museu Dica Frazão?
            - O senhor é, oh oh oh!... papai noel da loja de brinquedos, em? - perguntou a Rê.
            O marujo riu a bom rir, “oh oh oh!...” e gostava de rir gargalhar cascatear, pelo jeito. Parecia um avô comum e de acordo com o protocolo, papudo, falador:
- Xô-mico! - falou o homem velho. Ninguém mais pode ter barba branca sem ser confundido com época de natal, é. Com a vossa licença, gente!
O marinheiro avô, morador e proprietário do barco Caimbé, ensaiou dizer, colocou:
            - Oh oh oh!... Vieram aqui para me convidar para o baile no clube, é?!
            - Para ser sincera... - respondia a Esmeralda, que começou a falar e travou.
            - Chomico! - disse o senhor de barbas claras e muito bem aparadas. Nem me digam que querem comprar o meu navio estilo pirata dos mares e oceanos e arredores, é?!
            Lilás coçou a palma da mão direita. Queria ser um peixe fora da água: podia? E Lilás também pensava em conseguir um dia ser, quem sabe?!, uma andorinha-do-mar: podia? Queria ser uma árvore gigante verde enorme cheia de folhas como o umbu e sombra bem na beira da casa: podia? Uma ótima falcão-de-coleira e sobrevoar a região das montanhas monte Caratuva em pleno ar brincar com as nuvens sobrepostas e assim por diante: podia? Andar de bíci nas ruas paisagem de São Luís dos Montes Belos: podia?
Duas horas depois a Esmeralda prosseguiu explicando melhor e falando com calma:
            - Bem, senhor habitante pescador da ilha de Vitória capital do ES. A gente tá atrás da minha irmã a Pérola e que sumiu ou se evaporou ou está de brincadeira de esconde-esconde, sabe! Pode ser que tenha fugido de comum acordo ou foi raptada, nem temos toda a certeza. Ela veste uma camiseta com estampa de coqueiral ponto turístico da Maripá de Minas. Então, saímos lá da folia do bem e do bom e procurando pistas e rastos dos dois amiguinhos coleguinhas. Rastreamos pela rua pela avenida pela praça Benedito Calixto pela praia e chegamos até aqui no seu navio, e achamos que eles estão aqui por perto, tá ligado?! É isso. Tenho dito. Pronto, falei.
            - Oh oh oh!... - e riu o homem da barba branca esvoaçante. Que novidade é esta?! Será que virei um fora da lei e procurado? Será que sou um sequestrador de menininhas incautas e inocentes? Será que meu navio é esconderijo de malfeitores e enamorados que namoram escondido dos adultos? Será o que mesmo?, oh oh oh!... Será mais alguma coisa que eu esqueci de pensar? Façam o meu favor, gentem!
            E o vovô, sem deixar de coçar sua famosa barba, e rir de vez em quando, “oh oh oh!...” e até mesmo para tirar as dúvidas das meninas de uma vez por todas, as convidou para vasculharem o navio todinho e por completo de alto a baixo de ponta a ponta em todos os cômodos camarotes sala de máquinas cabine de comando...
            - Oh oh oh!... podem entrar e passar um pente fino no navio, estejam à vontade, fazem de conta que estão em casa, etc., e olhem por tudo, podem bisbilhotar, nem tenho nada a esconder, etc. e tal. Aproveitem e tirem uns selfies autorretratos no acaso de documentar a investigação, tá legal, tá certo?, oh oh oh!... - e ri sozinho e de si mesmo e da turma, porque é faceiro cheio de faceirice.
            E as meninas obedeceram, ou escolheram aceitar o oferecimento. Andaram pelo navio bizoiando tudo. Olhando da proa à popa, escalando cordas e velames, no convés e no porão, sotavento e barlavento, de baixo de cada pipa ou tonel, atrás de cada porta de camarote, no alto da gávea e... “terra à vista!” E nada dos dois sumidos foliões aparecerem. Nada do raptor e da raptada. Nem rasto, nem cheiro, nem vestígio, nem um fio de cabelo, nem um ou dois confetes serpentinas papel picotado...
            O papai vovô navegante da costa do litoral do B, grande conhecedor do mar e da navegação em alto mar, tenente-do-mar, concluiu a entrevista com estas palavras:
            - Oh oh oh!... Então? E o resultado, galerinha?! Nadica de nada? Eu nem disse? Estão satisfeitas agora, senhoritas mocinhas moçoilas? Posso ajudá-las em mais alguma coisa, é? Um chá, um chimarrão, um caldo de cana, um suco de pequi? Umas bolachinhas de mel com café, uma mesa farta de bolos tortas biscoitos de chocolate, uma talha de melancia com polpa estalante bem vermelhinha, que tal?! Quando eu era adolescente como vocês eu gostava eu mesmo de subir em árvores... e nem pensava em navegar velejar...
            As três princesinhas se entreolharam desarmadas. Quase vexadas, quase sem graça. E Esmeralda falou por todas, se adiantou:
            - É, pois é. Foi mal, seu vovô. Desculpa e nem nos leve a mal.
            - Mas aceitamos as fatias de melancia!
            - O suco de abacaxi com bolo de fubá!
            O marinheiro marujo embarcado, viajante dos quatro cantos do mundo oceânico, deu a risada tradicional, e penúltima, oh oh oh!... As meninas perfeitas amigas animadas amizades também riram, ah ah ah!... São mesmo as melhores amigas e querem e procuram ficar sempre juntas e uma perto da outra. Como no fim de uma história onde todos se abraçam e daí em diante se estabelecem os melhores desejos de boas festas. Um programa que se desenrola com sorvetes bolas de sorvete combinadas tipo café-abacaxi-açaí...
            Voltaram caminhando pela areia da praia fazendo o caminho de volta passo a passo pegadas na areia branca e fofa caminho inverso. Vinham como três estrelas-do-mar passeando na praia e soltas abraçadas de mãos dadas amigáveis. Era de dia, de tarde, de noite? Santos do céu e da terra, e deuses deusas entidades do mar da montanha da floresta. Quase nem conversavam, conversavam quase nada, nem conversavam praticamente nada. Acontece uma hora em que o silêncio fala mais alto e parece melhor. As horas passam por tudo por todos, pelo meio do sol e da lua, e estão sendo contadas em algum lugar do calendário do zodíaco.
O povo coletivo em multidão sempre na rua fazendo a folia de Momo e convidados séquito. O mar ali perto todo salgado chacoalhante. A cidade toda de brincadeira de alegria de música fantasia alegoria gritaria euforia. Parecia um zoológico com palhaço, onça-pintada, marujo da marinha, astronautas, soldados da guarda da selva, subgerentes, cápsulas, noroestes, remasterizados, apetrechos, música regional, adestrado... Era um outro mundo paralelo ao primitivo, falésia penhasco rochedo despenhadeiro... Era um outro ambiente igual ao do verão e clima quente muito úmido e as temperaturas médias mensais variando aí entre 25°C e 28°C. Era uma outra temporada como igual o frevo de Olinda e Vertentes e Toritama e Frei Miguelinho e Ipixuna... Eram muitas histórias de farra e bagunça e folia. Erra quem acerta, acerta quem erra. Vai quem quer. Era o que havia. Aproveita quem nem perde a hora. Um tamanduá-bandeira aceita sempre morar perto de cupinzama, uma ema ensina os seus filhotes a comer tudo que encontram, monociclo tem uma roda e biciclo bicicleta tem duas e triciclo tem três e quadriciclo tem quatro... E ainda tem mais uma pancada de coisas... espaços culturais galerias museus bibliotecas cinemas...   
            Quando as trinta e três espertinhas se aproximaram do clube Laranjinha, ali perto da portaria... qual a surpresa? Hein?! O que as três detetives viram, assim meio de longe, celular na orelha direita, e que as animou toda vida toda sorte? Viram a fabulosa e procurada... dona excelentíssima... Pérola!!! Era ela sim e muito cara preciosa fabulosa colar de cinco voltas no pescoço. Andava de um lado para outro em frente à portaria rodeada de fãs... Agia ela como se estivesse esperando alguém procurando nem sei onde pelo fone e falante ambulante. Toda impaciente e sozinha e preocupada e agitada. Era ela mesma, a Pérola cara rica prestigiosa, ali esperando nem se sabia ainda quem por quem. Esperando há mais de mil anos. Aguardando o por vir e o porvir.
            E as três quando viram a Pérola berraram chamando, correram para o encontro, se descabelando desgrenhando, correndo para o abraço, gritando ovacionando:
            - Pérola!!! Oh, Pérola!! Aqui, ei!... Péee-rooo-laaa!...
            Pronto. E mais. Quando a trinca apontou na escada do clube Laranjinha, e finalmente se viram, a Pérola se tornou estátua. Ela a Pérola e pérola pescada no fundo do mar mais verde do mundo e bela e linda rostinho delineado, congelou sem palavras.
            Aí o que fazer? As três correram para a Pérola e as quatro se juntaram num abraço de quatro meninas tão galantes e oito braços. Então, virou novamente a tchurma das melhores amigas inseparáveis necessárias. E as quatro juntinhas assim mesmo se achando a melhor coisa conjunto deste mundo dos quatro cantos. Se achando a oitava maravilha do mundo carnavalesco e de todos os tempos de todos os comentários. Nem só do mundo carnavalesco. Nem só do mundo amazônico. Nem só do mundo da ficção. Nem só das famílias linguísticas pano e aruak e arawá.
            Pérola, preciosa brilhante mito lenda lendária, abriu os ouvidos para ouvir muitas perguntas das outras três melhores amigas:
            - Mas onde ocê ficou e se meteu, menina? Que que você faz que some pra sempre, guria? Você nem foi sequestrada, garota? Você é osso, menina!
            A Pérola tentou se justificar, gestos de mãos rostinho fino, colocou:
            - Quem, gente, eu? Euzinha? Hum!...
            As três que perguntavam queriam saber. Rodearam a Pérola, um colar de pérolas de três voltas, e voltaram à carga de perguntas interrogativas:
            - Você nem foi pular carnaval com o índio da tribo terena?
            - Você nem foi brincar carnaval com o índio da tribo cinta-larga?
            - Você nem foi se divertir com o índio da tribo kayapó?
            E as três amigas continuaram a perguntar, e perguntar é muito bom, muito bom perguntar como quem quer saber e ficar por dentro. As três perguntando para a quarta que devia responder muito logo e de pronto. E as três puxando a outra coleguinha para formar um quarteto quadrado retângulo inseparável necessário. E as dúvidas eram muitas, uma de cada vez ou atropeladamente ao mesmo tempo, uma de cada cor uma de cada espécie uma de cada tipo uma de cada série:
            - Você nem saiu com um cavalo zaino, hein, Pérola? Lá pra estação ferroviária Pedro Nolasco em Cariacica?
            - Ou foi passear com cavalo douradilho e árabe puro-sangue? Lá para longe subindo escalando dificilmente a serra da Contamana?
            - Foi curtir uma banda num cavalo tipo manga-larga marchador? Lá pro norte nordeste mirante Mangabeiras e Camboriú e Canelinha e Tijucas?
            E as três pontas da mesma estrela estavam desse lado e a Pérola do outro lado. As três de cá empurravam, vamos dizer assim, a Pérola contra a parede contra o muro contra a cerca. A Pérola nem respondia ou nem tinha vez de responder ou ainda nem sabia responder, enquanto que as outras três continuavam a solicitar a querer juntar as peças:
            - Você mesma, amiga Pérola de todas nós, foi se esconder mais de quê? Dos blocos foliões carnavalescos Balacubau e Bolocobó?
            - Nem nos diga contradiga, amiga Pérola de todas nossas, que você foi para um espaço escolhido? Dos olhos bons suaves olhos leves descansados deitados dos cardume peixes de mangue os camuris?
            - Nem nos conta anedota, irmãzinha Pérola de toda gente, a história de que você foi protagonista e apartada de quem? Do prédio dos índios edifício Acaiaca com vistas enormes largas por toda Beagá BH?
            Pois sim (risos). Pois até (risos). Pois fim (risos). E agora o mais importante. O mais principalmente na história são as viagens para os lugares escolhidos dos pontos turísticos.
            - Alguém aqui joga futebol de areia?
            - O ano recém e nem com também terminou e vamos sair de férias e viagens para Belém, meu bem?
            - Com apenas água potável mineral e chocolate em barra na mochila?
            - A lua o sol rolante esfera bola boliche bólido globo laranja redondo anelado destinados em os círculos concêntricos que nos rodeiam?
            Em questão de minutos uma hora e meia ou duas horas e meia (risos), uma semana se passou. O rei Momo e a rainha e as princesas simpático simpáticas abanando agradecendo sorrindo solenemente, “oh, jardineira... por que está tão triste?... mas o que foi que aconteceu?... foi a camélia que caiu do galho... deu dois suspiros, oi! oi!...”, a Juju já sabe ler... a Juju já sabe escrever... a Juju já sabe desenhar!...” E isso se passou já faz muitos meses anos séculos (risos), foi trasantontem trasanteontem.