Seus lábios finos esfarelados um dia
seriam quentes ardentes molhados sensuais:
- Idade um dois três quatro...
Vivi era uma menina filha única órfã de
pai e de mãe. E ocupava aquela altura já os seus doze anos. Bermuda brocada,
colar de contas, pendentes de aro. Não passaria dos doze. Menina escassa, seca
por fora, coberta de pó vermelho, vazia por dentro.
Geralmente bordando no quarto sentada
perto da janela aberta cortina descerrada. Bordando lenços lençóis ou olhando a
pracinha deserta com a rua solitária e poeirenta.
Calor sufocante, terra aquecida, chão
esturricado, solo estéril. O cheiro de tudo respirava o pó vermelho na
abandonada vila Santa Luzia.
Não tinha revistinha não tinha rádio e
não sabia cantar trautear. Cabelos vermelhos cortados curtos, sardentinha,
lábios rachados, seios incipientes, pestanas compridas, despreparada, maquiagem
vermelha. Nem alta nem baixa para a idade. Sorriso amarelo e de vez em quando.
Manhã a Vivi atravessou a rua Única; o
céu completamente pegado de nuvens vermelhas, revoltas; a luz fosca, a luz
tonta sem brilho opaca embaçada do sol; um saci rodou no meio da poeira solta.
A menina descalça, a rua descalça. A
guria foi quase sem pensar, jogando uma perna na frente da outra - como as
menininhas fazem quando estão de coração oco. Cruzou a rua poeirenta e
pedregosa, única rua da vila, poeira batendo na cara, poeira fina com gosto de
incêndio. Chegou à pracinha seca queimada esquecida e parou, de repente.
Uma quietude esquisita. Nuvens de poeira
navegantes encobrindo tudo. Parecia a parada a estação do fim dos tempos. Não
existiam passarinhos para ouvir e para ver e para contar, corruíras,
pintassilgos, irapurás, tudo desaparecido. Era mesmo o fim do mundo. Não se via
verde algum, carandá, maniçoba, pataquera, capitiú, bacuri. Vento e calor em
companhia da poeira.
Vivi ficou ali tanto tempo curtindo o
mormaço. Calada e tão mudinha e acocorada como coisa da paisagem seca, como
pedregulho confundido na paisagem árida, como toco cariado de angico.
Cavava um buraquinho com o dedo. Cavava
um buraquinho com pedaço de palito. Trocava umas pedrinhas de lugar. Curtida de
mormaço. Com a ponta do dedão do pé riscava figuras vazias no chão fofo
poeirento.
A garotinha se ergueu de mansinho e
retornou para casa. Foi pegar a velha bicicleta, magrela cheia de enfeites
mirabolantes indiscretos, tiras de pano e de plástico em cores variadas, buzina
de plástico em forma de corneta sanfonada, catavento de plástico com as
pazinhas amarelas, antenas vibrantes de plástico azul com bola na ponta, etc.
Andou pedalando pela rua de terra batida. Queria dar banho, mas não tinha água,
mas não tinha açude, mas não tinha rio, mas não tinha chuva. Não chovia há dez
doze anos. Apreciava muito pedalar morro abaixo e sem freios. Descia o morrinho
e lá embaixo dava cavalinho de pau espirando a poeira. E assim por diante.
Não chovia há dezenas de anos. As árvores
paradas da pracinha, plantas esqueléticas, estátuas, empedradas, galhos como
espetos pretos apontando o céu avermelhado. Os aldeões e as aldeãs e as
aldeãzinhas não comiam e não bebiam. O tempo que não acabava mais. O ar
esfarinhado pesado denso sufocante.
E seus braços abraços afetos aconchegos
carinhos diariamente:
- Idade cinco seis sete...
Debruçada no parapeito da janela, de
cotovelos na janela, fazendo todo o tempo do mundo. O sol por trás por dentro
das nuvens pesadas de pó. Cadê horizontes morros montanhas serras. A pracinha
doida para se esconder do calor, e não podia. A capela em favor e louvor e
glória à santa Luzia. O mundo tantos e tantos meses sem uma gota de chuva,
árido, abrasador, sufocante.
Gostava de subir nas ex-árvores para
olhar longe que longe. As árvores secas duras retorcidas e os passarinhos as
lendas não sobreviventes, iraúnas-grandes, coleirinhas-do-brejo, tesoureiras,
marias-é-dia, tizius, grimpeiros, pituãs.
A mocinha era uma vidinha mansa e quieta
e desbotada e solta. Foi só ela só que reparou no remoinho que vinha só pela
única rua da aldeia. Começara um remoinho no meio da rua Única. Era
vermelhinho, baixinho, risonhinho, ah ah ih ih ih!... O remoinho vinha rasteiro
e de cabeça baixa, farejando, parando e olhando para trás, olhando em volta,
quicando, revoando, se arrastando, rodando, caminhando, interpretando, nariz de
vermelho pó, não poupando nem as pedras anônimas.
O diachinho chegou e reparou no
quintalzinho da casa de Vivi. Abriu o portãozinho num empurrão, não deu bola,
pulou, foi até bem perto de uma ex-pata-de-vaca. Não se incomodou mais e
deitou, sossegou. Aí mesmo o remoinho deitou com o queixo sobre as mãos, a
cauda sossegada, os olhos fechados ou quase fechados, as orelhas abanando
tentando espantar o calor. Talvez sonhando um sonho limpo e comprido.
Olhos cheios de serragem, a garotinha
Vivi estava pendurada na janela. Meio-dia ou doze horas. Não pensava quase
nada. Então, Vivi ficou olhando, olhando assim, olhando o quê. Calor forte e
poeira vermelha subindo com o vento sul.
Foi ver o quintal de perto. Andava quase
sempre apartada, solita no más, sem ninguém para conversar. Saltou no quintal
todo seco e deserto, andou na poeira, se esgueirou por aí, se enroscou num toco
de jacarandatã. A menina atirou uma pedrinha para o ar. Ver se a pedrinha
voltava parar na sua mão.
Então, a menina pegou e atravessou o dia cheio
de cinza a rua vermelha para chegar à capela a poeira no rosto. Decidiu já
estava correndo quase lá. As árvores da praça todas amortecidas, mordidas,
arruinadas, loucas de calor. A menina gostava de correr mais que as próprias
pernas. Não usava nada na boca para se proteger do pó vermelho. A cabeça
vermelha de cabelos muito vermelhos como o fogo que queimava a terra, como as
nuvens de pó, como a terra toda estorricada.
Por tudo ali, nem as formigas
sobreviveram.
A menina se olhou do queixo para baixo.
Estava de vestidinho até os joelhos, chinelas de dedo de borracha. O pó da rua
já lhe tomando das canelas para baixo. Um mormaço de consumir as pedras. Capela
coberta de telhas-vãs enferrujadas.
Vivi, no tempo, já estava na casinha dos
doze. Não passaria dos doze uma dúzia. Já sabia a diferença entre o sonhar e o
esperar.
Tarde quente, abafada, vento norte. As
árvores da praça nem podiam se mover nem falar nem respirar. O menino Piracaia
lhe prometera, coçando as pernas, torcendo os bracinhos, rilhando os dentes:
- Vou chegar lá na sua casa hoje, talvez amanhã ou
mais tarde, e te pedir em namoro. Tá entendido? Captou?
Vivi, toda tremendo em calafrios, toda
desequilibrada na postura, talvez com susto e mau humor e timidez:
- Vai, Piracaia! Quero só ver se você vai!
Agora, nessa hora, Vivi estava preocupada. Esperava
com o coração disparado o coração na mão. Olhava ali da janela; não saía dali
da janela. O coração disparado atiçado chutado. Gostava de olhar o tempo passar
em vão. O coração aflito cheio de espinhos. O coração tum! tum!.. na mão.
Queria que o Piracaia aparecesse e não queria que o Piracaia aparecesse.
De repente, então, pelas três, Vivi viu o
guri passando na bicicleta de espelhinho no guidão. Piracaia e a bicicleta e a
sombra poeirenta dos dois. Vivi se escondeu nas dobras da cortina que ela mesma
bordara. O coração batia como uma pedra na lata e repetitivo e acelerado e
ensurdecedor.
Mais tarde, três e meia, ele Piracaia
menino voltou. Inventou de arrumar a bicicleta logo ali em frente. A sombra se
sentara bem do lado direito. A cunhã, coração disparado, atrás da cortina,
espiando detrás da cortina bordada que ela mesma havia bordado. O menino
olhando para o casebre, calculando o portão. De certo não se sabe, mas podia
mesmo estar calculando e se perguntando se teria ou não coragem. Arrumou a
bicicleta, a sombra suja de vermelho nos calcanhares, e foram. Foram
lentamente, ele e a bíci e a sombra grossa, a sombra acompanhando no mesmo
passo, olhando para trás, cabelos amarrotados, cuidando para os lados,
demoradamente. O menino mais preocupado que a bicicleta e a sombra.
Lá vinham eles outra vez, Piracaia e a
bíci e a sombra. Passaram para lá, para o leste, olhando a choça a palhoça.
Vivi os espreitava atrás da empoeirada cortina bordada de ramos verdes e flores
amarelas.
Na volta o menino veio bem embalado, a
bíci sem freios, a sombra de língua de fora, nuvem de pó esperta seguindo o
rasto. Vivi de coração agitado assustado perseguido ameaçado. E quando Piracaia
olhou a janela, parece que tirando a mão direita do guidão para fazer um gesto
de beijo atirado, a bicicleta se desgovernou e pegou também uma pedrinha solta
derrapou. Então, foi um só tombo e tanto, tuque!... e tudo pelo ar, a poeira
subindo de repelão pegajosa descabelada eriçada. A sombra desajeitada
desenxabida se derretendo no pó vermelho.
De pronto rapidamente o menino tentou se erguer para
dizer que não doera mas, ai!..., percebeu que quebrara o braço. Deixou a pose
de lado, não se importou com o vexame na frente da namorada ou ex-futura, e
gritou berrou uivou como gritou, aaaaai!...
Vivi filmava tudo da janela o coração afligido e
explodido e detonado, atrás da cortina que ela mesma bordara com fios dourados.
E olhava sem poder fazer nadinha.
O menino foi embora, todo curvado e horrorizado e
melado de lágrimas e de suor. A sombra mancando, curvada, lenta, machucada,
pesada, seguiu o menino Piracaia. A bicicleta deitada deixada na poeira voltou
a sonhar.
Não chovia há meses e meses. Os aldeões e
as aldeãs não jogavam baralho e não jogavam nada, não plantavam e não colhiam,
ficavam dormindo como se todo dia fosse domingo, esperando mais nada mais
tarde. O fogo do sol queimara tudo, calcinara tudo e um pouco mais do mundo
todo.
Seus olhos bem abertos semicerrados
fechados para longe para perto para dentro de si:
- Idade oito nove...
A Vivi reparou da janela. Viu os dois
garotos jogando com uma bola cega de borracha. Um passatempo esportivo
pedestre. A bola escapulia para a rua; eles iam atrás. Chão de terra
esturricada áspera grosseira. Poeira solta no ar suspensa flutuante. E chutavam
a pelota cega um contra o outro; um na perseguição do outro; um empurrando o
outro; um driblando o outro; um canelando o outro; ambos atiçados xingando e
chutando e erguendo poeira.
Por ela, Vivi, ela estaria lá com os dois
perseguindo a bola com aquela bola cega no meio da rua poeirenta. Jogaria de
goleira, rasparia os joelhos, ralaria os cotovelos, esfolaria as mãos. Depois,
mais tarde, e quem sabe, poderiam jogar de caçador. O jogo que Vivi mais
gostava era brincadeira de caçador. Mas o destino dela não deixava que ela
jogasse tanto quanto queria de caçador. Gostava de ser caçada no jogo do
caçador. Era uma brincadeira que dava gosto gritar de prazer e rir muito alto e
sentir cócegas de tanto se divertir.
A menina sardenta encardida de poeira
vermelha cabelos ao vento do nordeste olhos curtidos de sono bermuda drapejada.
Seus olhos não eram verdes, mas poderiam ser verdes, eram verdes. Calor
sufocante, terra queimada, poeira batendo.
Não se descobriu ainda, não se sabe ainda
por que as meninas leves gostam tanto tanto de olhar da janela. Vivi era assim
mesmo. Ela gostava de espreitar da janela do quarto. E olhava principalmente a
rua desolada, abandonada, deserta, única. O horizonte consumido apagado.
A Vivi entrou na capela. Levou um choque,
perturbando o olhar na penumbra. Mais um pouco e seus olhos se acostumaram.
Gostava de visitar a santa Luzia. De se sentar e olhar com calma a santa Luzia.
Havia anjos bordados. Anjinhos pintados na parede, ou em quadrinhos nas
paredes, uns em estátua do lado da santa. A guria parava, como parou, olhos bem
arregalados sujos de poeira, olhava com calma, como olhou. Gostava de pensar
que um dia voltaria na forma de anjo. Gostava de pensar que voltaria como anjo
sobrevoando um lago um mato verde uma chuva entre os besouros colibris
isabelinhas mariagombes as lendas flores de angélica-de-rama, etc.
Vivi sempre admirou, como admirava, os
anjinhos e suas praças e suas fontes e arredores. Todos de boa saúde, passando
bem, loirinhos, translúcidos, cabelos loirinhos cacheados, sempre rindo. Todos
rindo no banho do chafariz. A multidão deles rindo dava a sensação de ouvi-los
em gargalhadas como joões-de-barro, ah ah eh eh eh!... Eram felizes em céu de
esmeralda, sangas, morros, campos aveludados de capim-grama, dormideiras,
azedinhas-grandes, zunidos de tujubas, assobios de saurás-fogos. Eram anjinhos
que gostavam de brincar de caçador de nadar no espelho de água de descer das
nuvens brancas deslisando pelo arco-da-chuva e assim por diante.
Reparava bem muito bem nos anjinhos e
suas asas e seus olhos azuis e sua cor de papel novo. Eles a achavam engraçada,
riam para fora, e riam para ela. Ela ria para fora e para eles. O fantástico
mesmo era que tinham asas nas costas e nos pés. Todos vinham do céu já com a
bundinha enrolada num lençol sempre azul. Não eram pessoas, não eram meninos
vendendo papelotes ou trouxinhas, não eram meninos se embebedando, não eram
meninos cheirando cola, não eram meninos de atiradeira no pescoço, não eram
deste mundo. Eram como nuvens brancas entre raios de ouro luz colorida.
Pegou fogo o capoeirão seco. Combustão
espontânea, talvez. Aumentando muito o sufoco. O mundo se encheu de fuligem,
faíscas, fumaça escura, intoxicação, uma panela de pressão, um forno. Não se
via um palmo. Respiração com tosse tosse, lágrimas, irritação. Os aldeães e as
aldeãs e os aldeãezinhos sentiram mesmo o que era o beco sem saída. O sol já
passava por trás das nuvens de pó vermelho e da fumaceira. Como restos sobras
pelo ar de um vulcão em constante roncar.
Elazinha foi até a praça dar uma volta um
rolê. E abraçou os troncos carbonizados de umas ex-árvores que já foram lendas,
paineiras, caroás, coxas-de-frango, olhos-do-diabo, etc. Saiu se despedindo de
cada uma e de uma por uma. Diante do desengonçado portãozinho de ripinhas já em
casa parou para ver se vinha alguém. Ficou olhando para tudo que era lado. Não
acontecia nada. Veio sempre uma sombra de nuvens de pó.
Por tudo aí, nem as baratas sobreviveram
nem existiam mais.
Quase sempre, principalmente pelas manhãs
revoltadas de nuvens de poeira, Vivi abria a janela e olhava a aldeia toda
falida, se debruçava no parapeito da janela, olhava a rua Única toda pedregosa.
Aí pensava, quase que poderia pensar: por que não. Dito e perfeito. Vivi saía
pedalando a magricela pela rua. Quase sempre era isso. Apreciava de sair
andando levantando poeira cavacos. Não se importava com mais nada, ou se
interessava com qualquer coisinha. A boca cheia de terra, o nariz vermelho, a
pele muito queimada e requeimada de sol.
Se sentou na escadinha que dava para o
quintal abandonado. As mãos no queixo, os cotovelos nos joelhos, a ponta dos
cabelos empoeirados atrás das orelhas. Nem ela sabia o que esperar da sorte
ali, assim. Que nada que dúvida. Vivi era uma menina calma, mansa, quieta,
mirrada, silenciosa, de doze anos. Ergueu a barra do vestidinho florido que ela
mesma bordou, apartou a calcinha com estampas de bichinhos que bordara, e
conferiu a babaquinha. Nem bem sabia o nome. Achou tudo assim como sempre fora.
Era isso aí. Tinha que ser. Não havia outro jeito. Fazer o quê.
Talvez quando crescesse, pensava, como
pensou, talvez um dia, crescida, já moça, chegasse a ser santa rodeada de
anjinhos como santa Luzia. E todos os anjos estariam rindo um riso feliz.
Gostava de pensar e saber que os anjos existem. Que os lugares com anjos
existem, rios, enseadas, restingas, iraís, alamedas, hortas, trombas de água,
bem-te-vis-do-gado, guaripés, flores-de-babado, paxiubamirins, etc.
Abriu a janela para acompanhar a lua
empanada de poeira. Uma vida inteira que não chovia. A lua esparramando
entupindo de prata o ar de poeira vermelha. Acompanhou a lua que fugia na
escada rolante. A lua era um caco, um prato, um disco. Tudo meio nublado da
poeira que subia do chão tocada pelo vento sudoeste.
Suas mãos reencontraram macias a
brincadeira das partes por tudo por partes o calor o fogo as labaredas:
- Idade dez onze doze.
Era um verão centenário sem folga de
muita fadiga. Um calorão de rachar as pedras. Os aldeões e as aldeãs dormiam de
dia e descansavam à noite. Não chovia no lugar desde há bem pelo menos uns mil
quinhentos toco ouricuri.
Vivi ergueu os braços, estalou, bocejou,
arreganhou a boca como não sei, os dentes trincando grãos de terra. Estava
acordando distraída esticando o lençol, que ela mesma bordara. Sete horas, um
domingo. Fazer como.
O céu vermelho, não tinha um verde, não
havia um inseto voando, nada de pássaro cantando, nada na manhã de barulhar de
passaredo, nada que despertasse o dia para o domingo de manhã. E nem as
formigas, pois aí não havia nem formigas nem cupins nem micuins. Só o vento
leste poeirento se mexia ou tocava a massa vermelha sem rumo certo.
Haveria sempre alguma coisa nas nuvens
vermelhas. O céu nascia do deserto. A cor do céu a mesma da terra, etc.
A menina apareceu com mania de plantar
bananeira. Então, toda vez em casa, ali no pátio seco, virava rolava
estrelinha, dava gambotas, rodopiava, imitava lebre saracura jaguatirica
sauimpiranga. Gostava de acrobacias equilibrismos malabarismos. Se tivesse uma
cartola preta alta de mágico saberia fazer mágicas e apresentar ao público as
novidades do mundo oculto.
Bordara no short uma borboleta impossível
de achar por aí. A borboleta azul-ferrete virou bater de asas e voou. A
borboleta pirou. A borboleta pintou. A borboleta virou passarinho e escapou. O
passarinho pirou. O passarinho amanheceu. O passarinho viajão viajou toda vida
para longe procurando água e um ramo verde para descansar.
Toda menina de doze para na frente do
espelho. E não cansa de se olhar no espelho do quarto, espelho de corpo
inteiro, espelho de todos os ângulos. Os cabelos da cor do fogo da terra do ar
da falta de ar.
Uma manhã foi de bicicleta até a pracinha
e os meninos a cercaram. Um menino pegou a bicicleta e pedalou. Os outros piás,
enquanto esperavam vez, a seguraram pelos braços puxaram o cabelo beijaram o
rosto sujo de pó.
E ela viu o mundo todo alaranjado. E viu
o mundo todo amarelado. Também um mundo quadrado. E viu o mundo todo recortado
picado mordiscado perfurado.
Um olhar de quem já viu tudo na sorte e
não vira nada. Olhos fitos apagados duros hipnotizados amargos. Olhos
escorregados de lágrimas na poeira.
Vivi não sabia não compreendia não sabia
explicar.
Junto da tarde de céu avermelhado, ela
foi até o capoeirão ressequido. Chegou ali e ficou de bobeira. Ela e a bicicleta sem guarda-lamas sem bagageiro. Foi
pedalando para ali, contornou uns pedregulhos com feitio de bicho conhecido.
Foi para lá, contornou uns troncos secos há muito secos tocos de pindobeira, de
muriri, de mirindiba, etc.
Foi pedalando e deixando atrás o rasto e
a poeira levantada. Parou para ver o rasto e a poeira baixando. Voltou no
próprio rasto ou inaugurou outro rasto.
E pedalou de volta seguindo o rasto da
bicicleta. Continuou pedalando pelo capoeirão queimado quando derrapou caiu
urucubaca bateu a cabeça na pedra, tuque!...
A coisa que percebeu foi um silêncio. A
dor que ensurdeceu e cegou e rachou a cabeça.
Caíram com tudo Vivi e bicicleta no meio
do pó vermelho e a menina bateu a cabeça na pedra de ponta, tuque!...
Uma parede alta, um muro alto e grosso e
comprido.
Aparentava uns oito nove anos, meiguice,
afeto, carinho, ternura, bracinhos sem muque.
A última coisa que sentiu foi se ver carregada
por uma sombra gigante.
Faça alguma coisa, menina.
A menina Vivi não fazia nada não fez mais
nada.
A boca apertou em muxoxo os dedos das
mãos em garras os braços em abraços os cabelos apertaram em traça, com fita de
pano azul dando o nó na ponta. Mas não mais não conseguiu nem se mexer.
Surgiu um saci a jato, um redemoinho
trouxe poeira ciscos e entupiu os olhos.
Começou a brincar de caçador com ninguém.
Já saiu brincando de caçador com um invisível.
Jogava de caçador com a cor lilás verde
violeta. Jogava de caçador com os anjos azuizinhos no campinho junto do lago,
lambaris, tucunarés, tracajás, iaras, pois estava chovendo, sobrevoo de
beija-flor-de-garganta-azul, risos de bem-te-vi-de-três-riscas, etc.