quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Quem Diria




            Sobre todos, embora, o tempo pode fazer tudo o que bem entender.
            Há quantos anos... se perde. Por este tempo, aquele tempo, tempo sempre prometendo voltar presente no dia seguinte.
            De hoje para amanhã feito ontem.
            O dia se esboçava o dia já estava alaranjado. Algazarras, borboletas supercoloridas, passarinhos imortais, timburis farfalhantes, ar rarefeito, gorjeios domingueiros, quadrantes invisíveis indiferentes dominantes.
            Mormaço e poeira elevada ou resignada e fumaça espichada alargada espalhada sobre tudo, o asfalto (de derreter cocos e fritar ovos), a cidade de Itaguaí, o bairro Pavuna, a praça Araréua - onde mora em pé de corpo inteiro sólido a estátua de Olavo Bilac -, o centro labirinto da cidade, a avenida Carlos Augusto Ferreira, duas parentes tatuas, horas minutos 9 com 9 ou 9 mais 9, do outro lado o supermercado Pixororé, etc.
            As tatuas em dupla, quase desassossegadas, hábitos diurnos e noturnos, confirmadas, aguardavam o melhor momento de atravessar para a calçada oposta em frente a avenida que tinha um trânsito alucinado alucinante pesado poluído metálico e todos os dias nos dois sentidos.
            Tá e Tua eram duas tatuas tatuaívas amigas primas parceiras sempre juntas e confidentes falavam o tempo todo dos namorados maridos ficantes idade e sucessão presidencial almargeal da beira do rio Trapicheiros jogos olímpicos carnaval de Parintins praia favorita teatro Guarany parque Barigui lojas do shopping oceanário de Santos e outros assuntos.
            Tatua Tá um olhar raposíssima perigosa revolucionária quase sempre e manifestou:
            - Eu tenho repulsa e pena.
            - Mas isso é meio contraditório, meio caminho andado! - diz a outra, Tua, um olhar gatíssima convicta graciosa.
            - Só eu sei. É assim que sinto. As duas coisas ao mesmo tempo e na contramão. Que que posso fazer?, não sei não sei.
            - Não vejo o jaborandi-do-mato crescer, embora sem dúvida que cresce aparece e floresce e frutifica.
            Arregalavam os olhos marrons para cima e para baixo na rua e nada do trânsito dar uma trégua uma linha um tempo uma folga uma vaza uma chance. As duas mamíferas e focadas e advogadas e planificadas e competitivas.
            - Eu só procuro e acho o que não tenho, e aquilo que tenho não procuro e nem quero mais - Tua, a identificada.
            - Então, falando sério!, vou entrar com moção na próxima assembleia, etc. - Tá, a identificada.
            Íncolas andorinhas em voos arabescos tarde de trissos piruetas cambalhotas. E plasplás de folhas de caaingás, frufrus de ramos de pixiricas, trestrês de palmas de indaiás-do-campo, ren-rens de leques de caranaís-do-mato...
            Restavam as duas ali junto ao meio-fio aguardando o melhor momento para atravessar, que era difícil se arriscar, que os carros não deixavam. Esperavam ali olhando chuleando os autos que não paravam de passar. Nuvens consertando restaurando fumaças. Era um tempo precioso, dava até uma inquietação. Prédios antigos tombados, prédios em construção, prédios altos torreões espigões arranha-céus.
            - Vamos até a faixa de pedestres, é uma!
            - E não qué?!
            O tempo fica curto para as medidas de última hora. O tempo que abre a porta, que porta, que janela? e prefere para onde se atirar.
            Os tatus sempre andam com objetivo claro em mente em olfato: procurar o comer e o beber. E as tatuas também não abrem mão desse preceito. Procurar o pão de cada dia manducar bebericar e voltar para a toca descansar esperar o outro dia de noite se cuidar se esconder dos inimigos. De preferência no meio do capim-andrequicé misturados às secas folhas verdoengas ao lado perto de uma lavoura.
            Os tatus não se agregam em coletivos, mas em pares ou duplas ou casais. As tatuas também. Vão e vêm dentro de uma área circulam já memorizada propícia delimitada organizada particular.
            Juntas parecidas fantasistas esmalte e unha quando iam para o mesmo lugar buscavam as mesmas coisas, etc. No meio de dezembro ou janeiro tudo estava seco demais. E faltavam quantos anos, uns cinco depois quatro logo três e assim por diante...
            - Eu adoro ouvir a chuva - disse a Tá.
            - Eu já adoro o silêncio - foi a Tua.
            - Estava pensando em pegar um trem para Mar de Espanha, é.
            - Embora Três Rios seja fascinante na primavera e ou no verão.
            Tá e Tua já tiveram vários filhotes com vários tatus, tatuaparas, tatuapebas, tatuaçus... Dos tatus elas só souberam na hora h. Dos filhotes se separaram por consequências da idade e da independência natural, etc. Cada tatu com seu cuidado sua toca e seu habitat ecossistema universo.
            Não é sempre mas que acontece. Apegado ao rio Santa Maria, Cacequi, houve por bem uma explosão demográfica de tatus e de tatuas, belas tatuas-mulitas, belas tatuas-canastras, lindas tatuas-bolas e assim por diante.
            As tatuas melhores amigonas olharam o cebola uma da outra conferindo. Estava marcado para as 23h em ponto e atrasou uns vinte e cinco minutos por motivo de um imprevisto força maior. Aliás, oito vezes naquela mesma semana. As duas tatuas foram impedidas de entrar na horta, de cearem na rocinha da dona Urucurana-Roxa, de experimentar as mandiocas e amendoins e carás-de-folha-miúda e inhames-cigarras e abóboras, e por causa de quê? do fila fero cão de guarda.
            O tempo todo quase passam despercebidos a preguiça-de-três-dedos, o porco-do-mato, a formiga-carregadeira o tiã-tiã-preto a brujajara os jovens vão mais ligeiro mas os velhos sabem o atalho o narceja-de-bico-torto, juruviara, ibijaú, maitaca, sagui-amarelo a araçuiava o grimpeiro...
            Passa muito perto a questão do tempo. E diz respeito a todos todas. Confirmado: e pasta capim-açu muito verde o azul do tempo.
            O rumo da mata, passando uma sanga, até Pitimbu. Cidade pitoresca recreativa rodeada de montanhas morros parque Serra da Concórdia cachoeiras gado córregos turismo jacarandás-do-pará varudos rochas em forma de bicho doméstico ou selvagem comarca região vento nordeste tribo caxinauá cedros-cheirosos ruas ladeiras pousadas ingazeiros almas-de-gato tangarás camacilras aromas flutuantes desprendidos das tibuquinas naturais cavernas e locas com inscrições pré-históricas.
            Nem digo nada, mas as duas estavam por aí. Fora e além da capoeira ficava um gramado uma grama verde tenra e com um cupinzeiro de dar água na boca aos tatus em geral e às tatuas duas em particular. Pequenas favas-de-besouro em a vernação. O céu lá em cima.
            A Tua e a Tá estavam olhando para o cupinzeiro e mostrando as línguas, os narizes no ar, as orelhas vibrando espreitando, os pelos eletrizados dos afobados focinhos, os cascos enrugados, as caudas insofridas, as orelhas vermelhas. Mas não se arriscavam em pleno dia no limpo assim sem mais nem menos por causa dos predadores terrestres e aéreos ou camuflados ou até mimetizados.
            Tua, e falou:
            - Eu prefiro um fuçador que me dê folgança quase o ano inteiro e cem por cento de segurança principalmente aí por setembro outubro.
            - Digo mais. Um fuçador com tempo suficiente para me farejar.
            Os tatus e as tatuas ficam no verão e se separam no inverno. Preferem a noite, mas saem a qualquer hora. Isso é quase certo. Isso depende, não custa nada. Sabem quando vai chover ou esfriar. Reconhecem quanto há quando não há de fruta madura.
            O tempo leva nos ombros o peso colecionado dos séculos e séculos. O tempo não se engana nem uma ou duas vezes. O tempo não arrisca e joga em casa. O tempo nem é uma coisa ou duas. O rio Belém tem exemplo muito a ver com o tempo. Também o largo da Segunda-Feira.
            Uma hora aquele dia as duas melhores companheiras e amigas e comadres foram beber na sanga mais próxima, manancial do rio Piratinim, comarca de Barra Mansa.
            - De parte a parte.
            - Perfeitamente que claro, só que não.
            Nuvens procurando fumaças fazendo mudança. Nuvens com cara de caravela. Nuvens esgarçadas antes do almoço acepipes petiscos aperitivos. Nuvens acachapantes. Nuvens mutantes. Nuvens mascaradas disfarçadas de carnaval.
            Chegaram no lajedo e olharam em volta, sempre temendo a aventura, as idiotices do contingente. As águas cantantes, um limo por sobre as pedras, umas árvores descansando na sombra respirando o ar puro, icacoré-catinga cipó-caboclo cedro-cheiroso caxicaém, uxicuruá, andirapuampé, fruta-de-papagaio, tamaquari, jarana...
            Tá, e identificada:
            - Será que tem tatu por perto? Não estou cheirando muito bem. E você?
            Tua, e identificada:
            - Pelo menos deveria ter toca de tatupoiú. Olha só o barranco de terra apetitosa e úmida e fofa...
            As duas atentas e mais nada assuntos suspensos, atentas. O tempo de duração das coisas. Foram molhar o focinho, as garras, espairecer as novas ideias.
            Nada mais nada, nada vezes nada, nada a fazer. Uma chuva repentina repentina e muito apreciada. Choveu bem e choveu solto e sem bagunça.
            E no meio de outubro ou novembro os dias estavam nesse pé ante pé, pé por pé, um a um, pata por pata, quadrúpedes encouraçadas.
            Uma cidade chamada Protásio Alves bonita harmônica sinfônica filarmônica serrana vegetal igual como outras tantas 10 mil habitantes igrejas velhas ruas calmas paisagem de arvoredo e o rio da Prata. Sobre a visita o roteiro bucólico, a vista da cidade de Protásio Alves, tem altos e algares casas e galpões ruas e travessões cavernas e capelas relvas e terras desfeitas, assim como lá pra baixo se olha daqui de cima.
            E num canteiro de margaridões quaisquer as duas conterrâneas camaradas companheiras parelhas. Em uma noite fechada no jardim da praça Piracema. Morcegos buscando frutas doces da fruta-de-tatu, grilos-dos-canteiros pulando falsos-orós, caburé-de-orelha e panema encolhido no galho do molongó, fio de água por entre pedras seixos e curvas e declives. De repente Tá foi cheirando o ar, erguida nas patinhas de trás, mugiu:
            - Tô reconhecendo sentindo o perfume de tatu!
            Tua, e repercutiu:
            - Sim, pois não, eu conheço e reconheço e já o cheirei antes sem dúvida!
            - Então, quem é?
            - O tatuetê Sumaré.
            E logo sem demora sem drama viram realmente o tatu-galinha nome de batismo Sumaré, e farejando pelo jardim à cata de cupins formigas taturanas raízes e outros. Todo ali num canteiro próximo e preocupado com cavoucar o de-comer. Sorte que Sumaré (tuxaua, tutunqué) não viu Tá nem Tua. Viu nem viu ou fingiu. Elas não acharam nem foram conferir.
            - Não quero nem acasalar, hoje - Tá, espaventada.
            - Claro e concordo. Não é dia nem hora, veja - Tua, empoderada.
            - E vamos sumir antes de mais nada.
            - E vamos dar o pira saindo pelo lado oposto.
            Há um tempo a esta parte. Época, época mesmo, quase pra lá de indeterminada, remota. Os longos e puxados tempos, sem esquecer de nada, sem abrir mão de nada, sem deixar nada para quem quer que seja, sem negociar nada para depois agora ou ainda mais tarde. E assim desfaz o rio, que o resto é presente.  
            Quando foi ninguém ficou sabendo nem as duas irmãs escreveram anotaram. Uma manhã de agosto ou setembro. Tinha sol o ano inteiro. Um jaú-torino caprichava correndo de um guaipeca maduro na rua Gonzaga Duque Estrada, perto duzentos metros dali. Centenas milhares de moças-brancas buscavam os polens em a riqueza das timboúvas.
            E Tua e Tá acharam de atravessar o arroio Retiro, a nado. O rio, impensável primeiro, o rio coleante sinuoso de largura provável e força indeterminada. Também intransigentemente líquido. Comadre maria-irré. Para cima oitocentos metros tinha a ponte mista. Mais para baixo uns quinhentos metros tinha o reservatório para as pessoas urbanas de Pérola.
            - Vamos nessa?!
            - Eu ainda não sei nadar e nem me decidi.
            Ficaram olhando o rio e pensando cada coisa cada uma por si. O rio precioso perene perfeito bonito e a calhar. O rio todo o arroio procurando a laguna o mar e gravidade zero.
            Tua, lembrou:
            - Do outro lado tem uma roça de mangaritos muito pomposos e esperando.
            - O negócio é convencer o rio, o rio caudaloso, vitorioso, apartoso.
            Na beira do rio tinha monte assim de plantas bastava olhar bolsa-de-pastor, maria-preta, sururucujá, mentrasto-do-grande pitaica-da-terra-firme ibiranhirá uxirana, camaçari, tatucaá... por dentro do arroio operavam jacaré-de-papo-amarelo, traíra, timburé, bagre, acará-bererê... por sobrevoando o córrego adejavam gavião-caboclo aviões comerciais jatinhos exclusivos.
            - Que que tem de ponta a ponta desse rio Retiro? - Tua, a identificada.
            - Ocê não lembra me faz puxar pela memória? - Tá, a identificada.
            - Isso é freguesia de Manhuaçu.
            - Isso sim é paróquia de Caratinga.
            Pensaram um pouco as duas primas colegas de aula. Almoçaram azedinhas amarelas agridoces derretendo na boca e lacrimejando. O mundo é tão exótico! Elas falando entre elas, mais cheirando que olhando, mais olhando que pensando:
            - Na ponta de cima do começo da fonte tem uma cidade de alma nova chamada Guaporema. Mas é ainda longinho.
            - Na ponta de baixo da foz tem a cidade de Guabiruba, mas é um eito e tanto.
            E começou a chover de mansinho e peneirado e murmúrio. A terra ficaria bem fofa para abrir um buraco de tatu. Umas galerias uns corredores de labirinto organizado.
            Ninguém vai deixar o tempo achando que tudo é verdade. Tem tempo que apela para a posteridade. Tem tempo que escolhe o dia de hoje. Tem cada tempo que D nos livre e guarde! E cada tempo a sua fala o seu rio.
            Os tatus e as tatuas sempre foram cascas quentes costas grossas. Isso desde o tempo que só existiam gliptodontes e mar e praias e rochas bastantes. Blindados encouraçadas prontas para a guerra. Então assim, o passado das eras... do museu do Ingá, em Cantagalo, opúsculos manifestos artigos discursos. Mas ninguém sabe certo ou mesmo melhor, dizem, desmentem.
            São muitas coisas todas acontecendo e surgindo e sumindo ao mesmo tempo. Quando as coisas vêm e vão, como vão e vêm as coisas. O tempo tem outro tempo nas costas. O importante está que cada ser ou ente se sinta bem e os tatus e as tatuas também. Uma carapaça convexa um escudo uma cobertura rija de placas móveis.
            - Gosto de comer chocolate mas faço muito barulho - Tua, a identificada.
            - Indispensável e essencial - Tá, a identificada.
            É dito não dito, e isso nem é nada. Uns acontecidos usados no mundo quando tudo começa uma vez mais e etc. O mundo envolvido em teia espiral nebulosa campo afora.
            As duas tatuas quase sempre passavam voando correndo. Após, a não ser esperar e aguardar as histórias. Os rios sempre ligeiros. Os clangores dos autos na rua Martins Pena. As nuvens fazendo fumaça a partir do poente. No meio de julho ou agosto tudo estava ventando. Os rios correntes e deitados pra frente. Até porque já eram umas seis e meia. Então, tá!
            Tua e Tá estavam aí. E de súbito o tatu Uxipuçu cruzou a pequena área do gramadinho capim-gordo. Muito voltado para si mesmo, se diga de passagem. Compenetrado filosófico e ensimesmado. Sério correto e objetivo como um e duas são três.
            - Ei, Tá! Olhe que é o Uxipuçu!
            - Será que ele não nos viu ou fugiu?
            Tatu Uxipuçu passando aí no seu passo de tatu-mulita condicionado desde a tenra idade. E bem no focinho das duas beldades. Ele nem aí pra elas. E tatuagem na pata direita dianteira. Foi embora continuou seu caminho de tatuapé rumo do morro e pela Estrada da Graciosa.
            - Aonde que será ele vai com essa pose?
            - Aonde ele vai que nem te ligo?
            - Aonde ele vai se apinchando pra nosso delírio?
            - Aonde que vai, e sim senhor! se dirigindo?
            Atentaram ir atrás. E trotaram. Seguindo o cheiro o traço e as pegadas. Em que pese alguns golpes de vento frio, a hora estava pacífica e calma e propícia. O tempo a propósito. Era interessante notar que floresciam as ganha-saias as comandaíbas os jerivás os tauaris...
            - Vamos segui-lo sem assustá-lo?
            - Você puxa o rabo dele de vez em quando?
            - Não é rabo, é cauda.
            - Qualquer coisa serve.
            Pelo tanto, por aí à frente, o tatu Uxipuçu parou e olhou para trás, para as duas, o focinho erguido e manhosamente sujo de terra vermelha, grunhiu:
            - Que que parece que já vão me seguindo há séculos?!
            - Aonde tu vais, tatu Uxipuçu? Primeira pergunta.
            - Vou comer coquinhos ali no morro. Alguma dúvida? Querem ir junto ao mesmo tempo me acompanhando?
            - Você é de Governador Mangabeira, suponho?
            - Já conheço, mas sou mesmo natural e tal e qual de Laje do Muriaé. Conhecem, meus brincos?!
            - O que que você faz lá, se diverte?
            - Sou barista tenho um bar e sirvo café expresso e decorado. Recomendo.
            Acharam as duas de ir e foram os três. Ele na frente achando o carreiro. Elas atrás e tirando onda. A Tua cochichando para a Tá sem Uxipuçu ouvir:
            - E se ele correr atrás de uma de nós?
            - Com certeza ele vai correr atrás de... duas de nós. E cedo ou tarde, daqui até lá, nesse ou naquele ponto, na ida ou na volta, durante ou depois, mais tarde ou mais cedo, após o almoço e de barriga cheia, etc.
            Subiram o morrinho e já avistaram e cheiraram o ar e sentiram o amarelo doce trescalante dos coquinhos do coqueiro-barrigudo. A palmeira sozinha no meio do gramado do potreiro do capim-membeca.
            Enquanto houver espaço... o tempo aparece. Dizem os entendidos. Ou será que é o contrário? Ou será em outro planeta. Quem sabe o discente da UFSC. Ou é a matinta perera. Ou é par ou ímpar.
            O tempo decorrido, o antigo, o antiquíssimo o antiquado o antiquário e o resto o por vir deixado ao silêncio silêncio.
            Como sói acontecer, os dias pulam de hora em hora e as noites inventam os corpanzis de estrelas astros meteoros satélites artificiais morcegos corujinhas-do-buraco grilos-pretos carapanãs vaga-lumes caamanhas...
            Duas tatuas caíram do ninho. O dia amanheceu exatamente às cinco e vinte e dois uma quinta-feira vinte de março mesmo ano. As tatuas já estavam aí pelo mato, entre folhas e ramos caídos e secos, cominhos-bravos, carurus-amargos, ananases-de-raposa... fuçando e cavoucando e vasculhando e ponto.
            - Uma vez me falaram que só existiam tatus e tatuas.
            - Assim que valia a pena, então.
            Tá pediu para a trinca-ferro-de-asa-verde. Tua perguntou para a dama-da-noite. Tá indagou do manaquim. Tua inquiriu da peroba-de-goiás. E interrogaram tudo e todos com dúvidas e curiosidades.
            - Os índios tuxá que mandam na área no pedaço?
            - É lógico verossímil que vão construir uma estrada de ferro até Vassouras e Resende e Barueri?
            Em vista disso, o chão úmido pegajoso estava já todo esburacado. Ficaram ali espionando de espias. Tá, a identificada:
            - Digo com o tatu Caaobi. Jantamos fora na sombra da lua nova. Juntamos as garras da frente, trocamos os sorrisos, nariz com nariz, fios dos lábios bem eletrizados, céu da boca com céu, noite estrelada inúmeras vezes, e rio Canoas passando perto, banco da praça Coronel Gomes Carneiro, blu-blu-blus!...
            - Agradecimentos de gratidão - Tua, a identificada.
            - E tudo simples, tudo muito discreto. Te digo!
            - Pouco bom para quem gosta de contar histórias e nem achar o final.
            Tinha sol amarelo e único e presente. Céu magro esbelto com poucas nuvens de papel branco ou novo. Por aquelas manhãs intropeçáveis e indefectíveis e inefáveis e indeléveis. E aquele tempo todo não durou sequer uma semana de maio.
            Parentes que se pareciam, voleibolistas que nem deixavam a bola cair a peteca, as primas, pelotiqueiras, as duas tatuas em volta do dia, etc. Uma queria conhecer Muritiba, outra Pati do Alferes. Outra queria pular de paraquedas, uma botar loja de fantasias para carnaval. Uma governar reger moderar, outra ilma. e exma. srª. prfª. drª.
            É um tempo e se D quiser. Os relógios mais cobiçados do mundo. Isto à vista dos preços interessantes por que são hoje em dia comprados vendidos, etc.
            Lá estavam as duas tatuas, um lugar do mundo, algum lugar no mundo, e alheias ao mundo, alheias ao todo do mundo, indiferentes ao imenso e resto do mundo. Assustadoramente indiferentes à bola. E corriam os dias, e ficavam as horas os dias as semanas os meses e as cascas de pinhão da pinha do pinheiro-do-paraná em Maringá. Mas isso só na teoria. Porque na prática.
            Tua abriu os olhos dificilmente. Tá olhou em volta numa outra dúvida.
            - Acho tenho certeza que nem vou mais crescer.
            - Estou comprometendo as mesmas coisas que todo mundo comete. As coisas os produtos comestíveis e os bichos, uma vez.
            Mesmo assim o lugar tinha latitude sul, longitude oeste, altitude de cem metros, área em quilômetros quadrados, subtropical, distante da capital estadual 416 km federal 1.330 km, habitações habitantes em torno e o ano da graça do Senhor de 2018. Que nem era final de conversa!
            No meio de dezembro os dias já se erguem brancos ou amarelos. Nuvens plantando fumaça. Dias rios estradas de torcicolo. Tatus tatuas tatu-peludo que anda na mata de galeria e de tocaia em tocaia de macega em macega de touceira em touceira. É para pegar ou largar.
            O que um tatu podia fazer. O que duas tatuas também podiam dizer:
            - Ah, claro! Nem precisa dizer duas vezes - Tua, a identificada.
            - Gostaria muito de saber escalar uma inhaíba, por ex - Tá, a identificada.
            Saíram da toca no barranco em meio de cravos-do-mato e seguiram logo logo para o pinheiral atrás de pinhões aquele inverno rigoroso de dia fechado e frio e prometendo sair o sol depois das dez, e olhe lá! Que situação, perobas-iquiras, caaxiós, elemis-do-brasil, coronilhas... e o rio Cavernoso fazendo o barulho comportado por dentro no meio ambiente do mato.
            No começo do café da manhã, as duas se depararam com a concorrência dos matizados crau-craus. E eles gritavam do alto dos galhos. Os pinhões já caíam roídos comidos abertos e reduzidos a restos migalhas cascas farelos, etc.
            Quando foi quando se viu, o tatu Crejé se materializou no supetão, depois de hora e meia comendo pinhão catando pinhão se fartando, e ainda por cima sem aviso resolveu correr atrás da Tá. Neste mesmo momento já acontecia naquela imensidão de araucárias e que todo mundo olhando. Tá correndo Crejé correndo e Tua correndo pega-pega. E cada um por si e D por todos. Inclusive a plateia a torcida das baitacas.
            Tá entrou por um lado do tronco caído podre esburacado de ex-vinhático-do-mato e saiu pelo outro. O tatu Crejé entrou pelo mesmo lado e não saiu pelo outro, ficou entalado, bem feito! As duas primas riram risos de tatuas e foram embora enquanto tinham tempo e podiam tomar dianteira. O tatu Crejé ficou chateado com aborrecimento de tatu até emagrecer uns três quatro dias e tomando fôlego e muito que pensar.
            Um tatu e uma tatua não falam não gritam não resmungam não mugem não duvidam não perguntam não bocejam, mas articulam a mesma linguagem. Os olhares os gestos os trejeitos os tiques os modos são todos animais e normais e comuns e certos e correspondentes. Se manifestam muito pouco e deles se ouve um somente sutilmente:
            - Quem?! Eu?!...
            Plano diário de trabalho e serviço noite adentro: encontrar comida, água limpa e comer até fartar fartar opiparamente. E já sabem onde. E já sabem cheirar a trilha. E mamíferos xenartros têm marcado uma árvore como meta e referência.
            Antes de tudo, ainda na porta da toca, antes da irmã Tua acordar definitivo, Tá olhou em volta e olhou tudo cheirou e pensou consigo:
            - Vai chover. Ainda bem. Perto das 18h.
            Tá olhou pensando consigo mais um pouco:
            - Na terra dos meus olhos... já vai chover. Ótimo.
            Depois, já as duas braços dados e inseparáveis, no muito alto e de repente e bem de repente, ouviram os trovões rebentando rolando reboando alarmando, uns longes que eram pertos, uns chicotes de aço queimado e estrondos acompanhados de terra tremente e sombras fantasmagóricas e corujas assustadas e rios encachoeirados e caçadores jaicó espreitando e vento ouriçado descabelando uxiranas, falsos-paratudos, mognos-brasileiros, caixetas...
            Ali, como em Manaus ou Goiânia ou Ibiapina ou Atalaia do Norte ou Itapura... o sol se escondeu e tudo ficou fechado e assombrado. A terra sedenta pedindo água da chuva. O globo se preparando para o melhor. Vários rios mananciais pedindo provisão, rio Forquilha rio Lava-Tudo, rio Pelotas rio Turvo...
            Uma chuva como de uma avalanche e para baixo, do alto para dentro da paisagem, e que deu paz certeza sossego vento veloz chuva caindo e correndo. As mais das vezes... céu cinzento cortina cordas cântaros tromba...
            A chuva desabou torrencialmente. Choveu a chuva tanto que os buracos dos tatus estavam sendo postos à prova, correndo riscos, e tanto pela entrada como pelas saídas de emergência.
            Pelaí, amarrado num galho seco da sapupira-da-várzea, um bacurau procurava esperar paciente quieto afetuoso compreensivo tiritante a tempestade extratropical amainar. Também gostava de chuva mas nem tanto.
            O tempo, este ou aquele, não leva nunca a nada. Nem desaforo pra casa. E o melhor é sair o mais tardar possível e sem saber o porquê. Nem prever nem antever nem pressentir, nem prescrever.
            Então, Tá e Tua admiraram a neblina da manhã, algumas árvores desaparecer, e se entreolharam e balançaram as compridas cabeças e foram andando, andejas, andadeiras, farejando de costume, andeiras, que andam.
            Vai lá que a Terra toda estava amanhecendo. Não foi isto um jabuti-machado? Dois tururus, um casal, subiram pelo céu com o trem de pouso as pernas balançando soltas. Pai soldadinho pintado de verde. O cardume dos pirajaguaras emergindo imergindo, etc. A arte da improvisação.
            Quando a manhã estava bem acelerada, os joões-de-barro batendo asas e gargalhadas, já as duas tatuas andavam faceiras pelo capoeirão. E sempre procurando imóveis para alugar terrenos para mear minifúndios para explorar. Gestos pausados e passos lentos de quatro a oito perninhas curtas. Olhavam para o chão e principalmente simplesmente farejando. Um solzinho saía de entre as nuvens pequenas e cinzentas muito mais mascaradas ou fantasiadas de barco a vela.
            Tempo que nem é passado é este. Tempo integral, ambiente integral, pão integral, arroz integral, frutos de fruta-de-tatu íntegros...
            Enquanto ainda acontece esta corrente de rio o tempo mantém o que der e permite o que vier.
            O tempo, sobre todos o tempo sobre tudo o tempo, sabe fazer o seu papel o seu show o seu showmício. Pois o tempo de água passa, o tempo de fogo passa, o tempo de preguiça-terrícola-gigante passou, o tempo de Sete Cidades passa, o tempo de sambaquis passou, o tempo do peixe-boi preocupa, o tempo de marolinho-do-campo floresce, o tempo de terramarear sempre renova se transforma.
            - Nem nada nem existia universo. Mas todos todas eram anfíbios sapos jias pererecas.
            - Com cauda ou sem rabo que diferença se faz?!
            Tá não conseguia conciliar o sono, Tua não conseguia dormir porque Tá não dormia e vice-versa. O dia claro lá fora da toca já ia alto pela metade e de muito sol e estrídulos de cigarras, apitos nasalados de curicacas, cantos de tempera-violas-de-asa-verde, assobios de sabiacicas, jabués, tesourinhas...      Restos de frase uma palavra ou outra um chilreio aqui ou além, quem não ariscava não petiscava.
            - Isso passa, passa tudo isto e muito mais - Tua, a identificada.
            - É, eu sei. Eu sei e às vezes me confundo - Tá, a identificada.
            A bola de fogo já passara pelo céu. Já estava do outro lado do mesmo planeta conhecido. Assim ficava a noite, lá era um dia antes.
            A noite já está instalada. A noite é para isso mesmo. Tatus e tatuas na roça de mandioca aipim macaxeira maniva e assim por diante.
            E a lua beleza nua, completamente, deslumbrantemente lua, linha perfeita de lápis preto... e pronta, se exibe no céu infinito.
            Que mais se dirá.
            Uma explosão vinda de onde amassa arma joga tudo para o ar. Quem aparecerá? Quem desaparece?
            O início da linha onde o presente para.