quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Trindade


        Festa na paróquia da Trindade, e o bairro todo ali e estava e muito mais. Todos anônimos.

        Dezenas de brinquedos gigantes, mil barraquinhas de jogos comidas bebidas. O tumulto generalizado. A lua bola enorme, branca, anúncio, amarrada na jubatã.

        Andamos pelo meio da multidão nos esfregando, nos espremendo, nos perdendo, procurando olhar, reparar em figuras bizarras, espiar as tendinhas, os monstros de ferros e luzes e giros e rangidos e solavancos. 

        O céu piscava estrelas perfumadas de vinho quente.        O alto-falante tocava caipiras telenovelas axés recados convites. Havia crianças brincando, escorregando entre a multidão, se esquivando, se esgueirando, atropelando, correndo. Onde foram parar as laranjas que deram nome à festa?

        Juberi, poema de dois pequenos e tenros pomos de sonho, prendeu minha mão, levou minha mão, apoiou minha mão. Atados pelas mãos, compartilhados, divididos, somados, equilibrados, aliados, acorrentados, acolhidos, geminados, acolherados. Queria porque queria experimentar o kamikaze.

        Presos à roda-gigante, as gentes brincavam tagarelavam diziam mil coisas gritavam esperneavam desabafavam quicavam excitadas. Sorrisos e risos a noite toda.

        Em horas tais toda a música todo brinquedo cessavam e a igreja se enchia de fiéis o padre dava início a mais uma missa o candidato a vereador sentava na primeira fila o fabriqueiro passava a sacolinha.

        Do lado de fora, nas escadarias, na pracinha em frente, perto da rua, um senhor de careca reluzente eloquente extraterrestre vendia bilhetes da sorte “é só raspar”. Alagoanos de Ouro Branco ofereciam redes de dormir. Cunhantãs cunhãs curumins da tribo arara-do-aripuanã ofereciam tocos de arabutã disfarçados em cutia sagui quati jacaré-de-papo-amarelo onça-pintada gavião-carijó siriúva. Estudante de Lajes oferecia cartões de aniversário. Casais jogavam argolas de plástico coloridas nas garrafas que valiam 10, 50, 100 reais, comiam pinhão, batata-frita, cachorro-quente, pipoca, pé de moleque, rapadura, se beijavam muito.

        Abracei e fomos andando para lá e voltamos. Lentamente de asas dadas. Como comer algodão-doce e conversar as impressões das coisas vistas e ouvidas e cheiradas.

        Jaracatiás e acás e guarantãs gigantes preenchendo o pátio todo da igreja galhada comprida folhagem abundante verde demais. Fazia o leste.

        De repente parou tudo, paramos todos, tudo congelou travou eternizou ali mesmo. Comportados todos, mão direita no peito, posição de sentido, empertigados, posicionados, perfilados, impávidos cantamos o hino Nacional.

Se sobressaindo da multidão, num pedestal, o São Francisco fazia um gesto com a mão, uma espécie de bênção, ou de adeus, ou de saudação. Gesto sublime que praticamente enternecia. Gesto que se distribuía e se repartia igualmente pelas pessoas e pelos bichos.

        Um santo para cada coisa, um santo para cada desejo, um santo para cada dia, um santo para cada pessoa, um santo para cada casa, um santo para cada cidade, um santo para cada rio.

        A festa retomava seu tumulto sua confusão seu reboliço conforme. O som dos axés estalava na noite leste e estrelada. Um tanto de frio suficiente. Estava escrito nas estrelas.

        Onde foram parar as laranjas douradas e doces que deram cor e sentido e sabor a essa festa?

        A lua namorada, marca, presa aos galhos do jatobá-vermelho, balançava, não subia nem descia. Explodiam alguns foguetes. O tetéu se assustou, voou embora para longe dali do alto das grimpas do pinheiro-do-paraná.

Sentimos sede e fomos tomar garapa com bicada de abacaxi, sentimos fome e fomos comer pastel de queijo com muito sal feito na hora.

        Me vi feliz como um aprendiz, agradecido e aéreo, porque Juberi estava do meu lado e falou “querido”. Olhei para ela e seus gestos seu aconchego seu ronronar de pomba-rola, etc., o balanço dos seus cabelos, e tudo tudo me veio já em câmara lenta. Como um sonho esperado e matriculado e pacífico. Então, a sorte trouxe o seu sentido e seu almejado de sempre.

        Os cidadãos circulavam leves e contentes. Ombro a ombro, passos curtos, movimento apertado, congestionado, copo plástico na mão, em pares, em grupo, conversando, caminhando desencontrado. A festa era grande dentro da noite leste, e isso aí: aniversário da cocada.

        Inesperadamente caíram sobre todos nós, sobre nossas arejadas descobertas indefesas cabeças, choveram canivetes espadas machados foices facas pregos agulhas tudo em pontas que eram presentes dos deuses.

        Um moço vestido à anos setenta assustava crianças e gurias bonitas. Vinte e cinco graus centígrados, sete metros acima do nível do mar. Anunciavam baile no salão paroquial. O pipi no escuro junto ao muro lá nos fundos no limite entre a igreja e o pomar do vizinho. O fuminho fissurante da turma.

        Fogos explodiam no ar da noite. Cada fogo com três pancadas duras de tremer a terra e tapar os ouvidos. Todos alarmados alargavam os sorrisos e riam. Provocavam também aplausos vivas gritos latidos de cães.

        Olhos brilhantes de um verde vivo de Juberi. Moça afável amável delicada agradável bondosa.

        Subiam para o ar das estrelas os pequenos balões de Mônicas e Cebolinhas, abraçados em coração vermelho. Doce de sagu com creme musse de chocolate, gelatinas vermelha verde amarela azul, pudim de leite, arroz doce, sonho com recheio de doce de abóbora, brigadeiro. E as laranjas que dão nome à festa?

        Muito aguardado com anos e anos de atraso a família Real, o cortejo Imperial, Dom Pedro II e a imperatriz dona Teresa Cristina, as princesas Isabel e Leopoldina, toda a corte, os figurões, os nobres, os lacaios, o jogo de capoeira, a tribo dos pitaguaris vestidos de palha de ouricuri e toda a bateria da escola de samba.

        Muito bonito merecendo aplausos e risos e exclamações, a carruagem Real puxada por quatro cavalos brancos, a barba branca do Imperador, tudo tão Real, os ministros, os dragões, os brancos no centro, os negros segurando as sombrinhas e sobrecéus. A plateia se fazendo de povo.

        O Imperador olha para dentro do seu país continental e carrega seu país nos ombros. Segue com passos medidos para o beija-mão segue sorrindo um sorriso giz os olhos azuis de bonachão. Vestido de dourado e veludo e brilhantes e diamantes e ouros e pratas para um baile de carnaval.

        Meus olhos seguiram o cortejo, meus sonhos, meus desejos, meus prazeres, meus instantes favoritos. Meu pensamento leve como o abraço de Juberi.

        O rei Momo vinha até fora cumprimentar as crianças as gurias bonitas, e recebia aplausos, risos, alegrias, um botão de flor fotografias. Se curvava respeitoso respeitosamente sorrindo, elegantemente bem vestido com trajes majestosos pomposos, desenhava no ar com a mão e o lenço amarelo um arco todo chique e engraçado e salamaleque.

        A procissão passeava pelas ruas do bairro, o calçamento atapetado com figuras feitas em serragem pintada, as janelas das casas com toalhas bordadas, a multidão seguia conversando e se distraindo, as crianças corriam na frente, uns carregavam estandartes de santos, as gurias bonitas se fingiam para os guris e estes olhavam as bonitas gurias lindas se achando. Fogos novamente batiam a escuridão da noite como pancadas de bumbo.

        Um minuto fomos presenteados sobrevoados por luzes fosforescentes zumbidos que alguns entenderam quiseram confundir com espaçonaves discos voadores de Marte.

        Minha mão deslizou pelas costas quentes de Juberi e ela achou de me olhar e me dizer e me presentear “estou grávida!” E as estrelas do céu se confundiram com fogos de chuva de estrelinhas coloridas explodindo das galáxias.

        A festa toda em si no mundo dentro do nosso mundo nada mais que uma chama de isqueiro na noite sem fim do universo ao sul e que pagamos para ver piscar todas as noites. E das estrelas do céu até a Terra, quanto de espaço quanto de som quanto de rastro quanto de alto quanto de quilômetros-luz.

        O desfile voltava ao ponto de partida. Os carnavalescos batucavam sem tempo. Os fiéis entravam na igreja para rezar pelos donos do mundo, pelos pecados do mundo, pelas guerras do mundo, pelas secas do mundo, pelas enchentes do mundo, pelos mistérios do mundo, etc.

        A chama da festa era um transporte uma coisa um mistério um milagre. A lua batendo um bolão produto jogando presa no juazeiro. Chegamos à barraca dos quindins. 

        Nos beijamos pela enésima vez e Juberi sempre tinha uns olhos doces verdes delicados impossíveis transfigurados divinizados próximos.

        A festa da cocada, a festa da laranja, amanhecia. Lá do seu escanteio, e campo cósmico do infinito, o sol sempre de prótons, enorme como uma laranja-de-umbigo amarela, anunciava com estardalhaços de cores o dia atômico um céu azul moralizante passarinhos territoriais. Tanto quanto parecem ser coleirinhas e corruíras e tesoureiras e joões-de-barro e tico-ticos e curiós e canarinhos-da-terra e jurutis e pintassilgos acordavam espreguiçavam cantando com saúde.

        Pouco a pouco surgiam os montes, as outras coisas, os prédios, as ruas com fila de javaris, as nuvens altas, os ônibus, o mundo se recriando. E o mundo se recuperando de novo. Um dia nacional contemporâneo respeitável.

        Pronto, eu e mais e Juberi temos os três e o futuro.

        Mas o futuro sim.

       

domingo, 12 de agosto de 2012

Visita Ilustre



       Isso pode interessar a qualquer um. 

Não se entrará em detalhes pormenores miudezas, mas o balanço tenderá para o favorável e positivo e correto e possível.

       Era o ano de por volta de 1928, mês, dia e depois.

       O vazado ano de 28 era de muita contagem política. Também de politiqueiros e politiquices e mais nada. E o senhor GV queria ainda disputar o comando do BR. Era o que se dizia à boca pequena pelo PRR.

Nova Prata, recém-emancipada (24), convidava Getúlio Vargas (governador do Estado do Rio Grande do Sul) para que viesse fazer uma visitinha, conhecer o Prata, receber homenagens, inaugurar a praça (da Bandeira), inaugurar a casa da cultura, inaugurar o museu do imigrante, inaugurar a avenida central que levaria seu nome, etc. E o partido arrumou para que tudo acontecesse antes das próximas eleições.

       O Homem sempre ia aos lugares que o convidavam: quando oportuno, quando podia, quando queria, quando dava na telha, quando fosse o caso, quando fosse o acaso. E bom que um dia isso teria que suceder.

Não, não seria perda de tempo. Não há tempo a perder.

       No início daquela manhã de 19 de outubro, dois batedores à frente nas motos, a comitiva do governador saiu da capital e veio vindo. Era um dia aberto de tanta luz, a paisagem tremeluzente, e as pessoas gostaram e aplaudiram ver o governador passar. Uma luz intensa e uns muitos e múltiplos brilhos e raios nas pontas das folhas dos coqueiros-bacabas, sumarés-do-campo, angicos, guajaraís, taquaris, avencas-brancas, taiás, ipeúnas, amoreiras-da-silva, copiúvas da beira da estrada.

Um dia inteiro no forde-de-bigode, e manivela, um dia inteiro em comboio de fordecos - e quem tem mais de oitenta anos deve se recordar, lembrar, tirar o chapéu.

       O sol esticava o seu olhar amarelo sobre o dia que já ia consumido em poeira vermelha. Seria bem possível. Passaram buzinando embandeirados festejados seguidos em carreata por Bom Princípio, Feliz, Gramado, Itapuca, Portão, Nova Petrópolis, Alambari, Carlos Barbosa, Guaporé, Aricanduva, Paranhos. Nuvens de poeira vermelha para trás, para o alto, etc.

       Tudo bem até Alfredo Chaves? Um pouco mais de solavancos, poeira, cocuruto batendo no teto. E ali em Chaves as homenagens, tapinhas nas costas, povo curioso, cartazes do H no palito, inauguração de chafariz na praça, coral de crianças de colégio, um discurso no almoço, nunca viram homem igual. Uma chuvinha quieta e peneirada iniciando a tarde sem graça.

       O ilustríssimo era acostumado a fazer uma sesta e tal depois do almoço mas, devido às circunstâncias coisas da cronologia política, foi necessário pedalar em frente.

E arrancaram para os lados do Prata. A estrada era péssima, esburacada, mais estreita e sinuosa e perigosa até como igual hoje em dia. E de Chaves pra cá simplesmente simples trilha de carroças.

       - Bastantes buracos, tchê!

       Descendo os peraus das Antas foi que a coisa se apertou, se estreitou, se assombrou. Uma trilha de tropa de muares entre o paredão e o precipício era de assustar até mesmo o futuro dono do Brasil. Mas sua excelência aguentava firme, se mostrava otimista, olhava o vale lá em baixo, chuva leve, a curva da ferradura, os olhos borboleteando meio atônitos, bem agarrado no seu santo protetor que naquela altura já era bem forte.

       Que lhe passava pela cabeça?

E desceram na lenta, bem devagarzinho, podia faltar freios no fordeco, a trilha de chão batido e mais pedras soltas, estrada em zigue-zagues, desconforto, curvas de cotovelo, sobressaltos, de um lado a muralha e do outro o buraco, o despenhadeiro, o abismo.

Cruzaram o rio das Antas na lancha e na subida foi o motor do auto que começou a fumegar e pedir água. Apearam outras vezes, fizeram trechinhos a pé, chuvinha de molhar bobo, o ajudante segurando o guarda-chuva, voltaram a embarcar nos fordecos e que o Homem não pegasse uma constipação.

Já no alto do chapadão tudo bem até a cidade de Veranópolis. O tempo parecia se contentar com um derramamento de chuva miúda ou pouco mais que isso.

Em Vera os políticos locais, célula do partido, encheram a estrada e não queriam deixar sua excelência passar sem um dedo de prosa, sem um discurso, sem uma homenagem, sem inaugurar a rádio (Paranaí) e foram horas de negociações, aplausos, tapinhas nas costas, foguetório, batizados, carreata, cavalhada, missa campal, todas as pessoas na beira da estrada acenando com lenço, chapéu, guarda-chuva, sombrinha.

       Então, caiu um toró que Deus mandou, autorizou, sinalizou, comandou. As nuvens despencaram de vez e o mundo ficou pura chuva, pura demais, chuva da boa.

Aceleraram o passo para chegar ao Prata antes da noite. Se botaram com pressa pela estradinha, uma picada de mula, um trilho de carroça de burro, uma abertura para carroça de bois, isso sim.

E muita chuva que Deus não queria desligar, não queria nem saber. O barro tomou conta para sempre da estradinha e os calhambeques dançaram, derraparam, tontearam, ladearam, esforçaram, desequilibraram, sujaram, escorregaram, resvalaram que era num sabão.

Na divisa dos municípios de Vila Flores e de Nova Prata, uma multidão já aguardava a comitiva. Ventos ocasionais. Chuva diagonal.

Subida de um morro todos desceram do auto, menos sua excelência, e para empurrar o carro. O humor do Homem devia estar também muito... ótimo.

       Assim, vieram que vieram, andando meio de lado, derrapando, rabeando, sacudidos por rajadas de vento, atolando e desatolando, e ali na ponte do Retiro - que naquela envergadura dos anos era de madeira e estreita, só passava um carro de cada vez -, a muita chuva não dava para ver nada na frente e foi que foi, passaram, passaram um susto e tanto, passou um, passou dois, passaram todos os carros do comboio, da procissão.

       Chegaram no Prata já bem perto das seis e noite fechada pelo temporal e recebidos pelos comitês de boas-vindas, senhoras com sorrisos e corbelhas de flores de frutas de doces.

Sua excelência não quis nem mais saber de nada. Exausto mesmo. Mandou todo o mundo se acomodar pelo hotel ou fosse pra casa, principalmente. E a comitiva visitante se recolheu, se entrincheirou no hotel Central, ali por pertinho da rodoviária, um casarão de madeira coberto de zinco todo estalando com o vento e a chuva, etc. O governador já estava com incômodo nas cadeiras, cansado até os tubos, queria um banho, um rango qualquer e dormir, dormir.

       Muita chuva na noite, noite de ventos sacudindo o casarão, chuva guaiando, chuva estalando os caibros de guajuvira-branca, noite chuvosa cortada por relâmpagos e batida por trovões a pequena distância, contados. E em volta, sobre a cabeça, próximo, muito perto, bem pertinho.

       No outro dia, dia de manhã amanhecido, de manhã de céu limpo e lavado, claridade estalando entrando pelas janelas, em tudo lá fora algazarras de passarinhos tentando articular ou articulando, joões-de-barro, cambaxirras, tietingas, baitacas, tesoureiras, coleirinhas, beija-flores, sabiás-laranjeiras, tico-ticos.

       Dia lúcido, extenso, branco, vento azul-esverdeado, sol como sempre amarelo forte ouro. O sol exagerado, a cidade exagerada, tudo exagerado, rua por rua exageradas, sol e ruas exagerados e hiperbólicos.

O seu G. Vargas já aparecia na sala do café todo disposto e todo sorrisos e peito aberto e lenço de pescoço combinando, chapéu na mão, cinturão repleto de balas e fivela em forma de ferradura e coldre vazio.

Já acomodado, borboletas nos olhos, tomando café, roupa limpa, chapéu de feltro azulzinho no lado da xícara, rosto escanhoado, biscoito de polvilho, mel de abelha em bolacha maria, etc, relógio de pulso folhado a ouro, bem disposto acordado mesmo e a querer enfrentar o dia das homenagens e inaugurações e encontros e delegações e tais e quais.

       E dali todos se dirigiram a pé mesmo até a prefeitura, dois quarteirões acima, rua Borges de Medeiros recém de paralelepípedos novos, cidade rebrilhante, faixas de bem-vindo sobre a rua, casas enfeitadas com floreiras e toalhas bordadas coloridas nas janelas, bandinha da brigada acompanhando, crianças em uniforme de colégio agitando bandeirinhas, os mais tímidos agarrando no paletó, e os jacarandás-cabiúnas distribuindo maravilhas de flores roxas, ipês-mandiocas sensação de flores amarelas, gloriosas-dos-jardins pinicando o ar de aroma.

À medida que o bando de políticos andava, a multidão que madrugara ali na rua, no bar da rodoviária, ia junto e empurrando e seguindo, conversando baixo e rindo, acompanhando, povo curioso, povo cheio de sorrisos, povo curioso.

Sua excelência saudava as pessoas nas esquinas, tirava o chapéu da cabeça privilegiada, sacudia a mão, seu andar curto, mãos nos bolsos, melhor do que ninguém, mãos para trás nas costas, parava para olhar os jacarandás-cabiúnas, apertava a mão de um homem, fazia continência para um grupo de senhoras e senhores, afagava o cabelo de uma guriazinha, parava para ouvir, parava para rir, parava para olhar para trás a rua cheia de jacarandás-cabiúnas floridos em fila indiana, etc.

A escadaria da igreja repleta em arquibancada. Quanto os pratenses não ansiaram por aquele dia aquele momento aquele encontro! A mente até duvidava. NP enfrentando a História.

- Aí vem doutor Getúlio!

Os cidadãos estavam alegres, sorrisos abertos, estavam realmente alegres, sino soando festivo da igreja de São João Batista, alegria do sol aberto em dia branco limpo esvoaçante.

Mais multidão curiosa aguardava o seu G e séquito ali no largo da prefeitura, salva de palmas, gritos de entusiasmo, foguetes espocando no ar, buzinaços, bandeiras do país, bandeiras do Estado, bandeiras do município, festa, vivas, a escadaria do prédio da prefeitura repleta como em arquibancada, homenagens, a bandinha da brigada se posicionando para tocar o hino nacional, o hino estadual.

Era a primeira vez que os do Prata viam de perto um governador e ali estava o Homem em carne e osso e lenço no pescoço e sorriso-cartaz no rosto, enorme no seu tamanho baixinho, mãos nos bolsos, chapéu um pouco levado para a nuca.

Renque de coqueiros jerivás, andorinhas trissando pelo ar, alto-falante pedindo mais palmas e mais vivas e mais palmas e mais homenagens e mais aplausos.

Cupinchas camaradas correligionários subiram a escadaria externa e entraram no prédio municipal de arquitetura esquisita esquiva e sem estilo. Da porta ainda mesmo olharam o povaréu e se voltaram para sorrir e abanar, muito sorrisos todos, todos muito abanos.

Numa sala do segundo andar, em volta de uma mesa de acaiaba e cadeiras de espaldar alto também de acaiaba, os políticos locais e estaduais se sentaram e foram trocando elogios, conversas, tapinhas nas costas, sorrisos, murmúrios, sua excelência daqui pra lá, de lá pra cá, risos contidos, fumaça de crioulos, gargalhadas espetaculares, cachaça ao butiá, hum... hum...

       Decidiram que as inaugurações seguiriam na parte da tarde, comentaram a sucessão a Washington Luís, boatos contraditórios, Júlio Prestes era o homem da vez, promessas, palpites, alguma premonição, nomes, hipóteses, a matança que os ingleses praticavam na Índia, as patifarias dos franceses no norte da África, a rapinagem norte-americana na América-Central, a indecisão na Argentina.

       - E a situação na Argentina? 

O núcleo das atenções de todos, de todas - poucas mulheres, quatro ou cinco -, era sem dúvida o Homem, os elogios ao governador que todos os jornais diziam candidato à presidência do país - que ele negava com sorriso-cartaz - todos os olhares para o cacique, o chefe, o líder, o coronel, o caudilho, o pequeno grande homem, o predestinado, o assinalado com dedo de Deus. O homem que tinha um tesouro de caminho pela frente e a percorrer. E mais por todas as coisas que ainda iriam acontecer.

       Os gringos locais queriam mostrar a simpatia, a originalidade, a singularidade, a hospitalidade, a culinária típica da região serrana. E era pão caseiro, pão de trigo, pão de milho, bolo com cobertura de nata, mandolate, marmelada de uva de figo de abóbora, salame, morcilha, torresmo, queijo, vinho tinto, vinho branco, vinho doce. 

       Uma vez o governador quis saber mesmo o nome do produto irresistível, crocante e que desmanchava na boca:

       - Hum... torresmo, é?! Uma cosa buena, bem sequinha... no caprichismo.

       E o futuro presidente do país pegou outra porçãozinha de torresmo e mais um queijinho e um vinho, um gole de vinho doce porque não queria ficar tchuco.

       Os políticos locais eram descendentes variáveis principalmente do italianês, português, libanês, polonês, etc, tinha até dinamarquês, holandês, tinha inclusive serviçal negrês.

       Uma vez mais o Homem quis saber mais e entender melhor, curioso:

       - Mais bah! Usam muito sal nesse tal e qual torresminho, não é?!

       E G. V. pegou mais um punhadinho de torresmo, uma rodela de salame, um cubinho de queijo, um pequeno gole de vinho doce para lavar a goela.

       Todos os políticos do Prata queriam falar, se exibir, se mostrar para o Homem. E falar e falaram e tentaram falar coisas importantes, coisas engraçadas, coisas inteligentes, coisas exclusivas, políticas municipais e estaduais e nacionais e internacionais, coisas de cotas e valores e quantias, pedidos solicitações encomendas reivindicações.

       Mas mais positivamente...

       Uma vez mais o futuro dono deste país gigante quis elogiar as comidas e bebidas locais e foi dizendo, falando a todos os ouvidos e todos ouvindo e todos atentos e comovidos e felizes:

       - Esse torresmo, então, é muito bom e cuidadosamente prensado.

       E o convidado pegou um bocadinho de torresmo, uma lasquinha de queijo, um quadradinho de polenta frita, um golinho mal e mal de vinho tinto doce de colônia.

       Duas horas depois, depois dos elogios todos, de um e mais outro ter falado, todos tiveram tempo de se dirigir e falar a sua excelência, tapinhas nas costas, fotografia da corriola, fumar um palheiro e beber o cafezinho, repartir a tarde para as inaugurações, o Homem olhando para o cebolão que trazia preso por correntinha de ouro no colete, se levantaram para as despedidas, para os apertos de mão, os abraços de quebrar costelas, com os sorrisos de ombro para ombro.

       Descendo aquelas escadas do segundo andar da prefeitura, seu Getúlio na frente... foi por aí mesmo que lhe veio o primeiro golpe. O sinal foi um mal súbito fulminante de repente no fundo. Alguma coisa mais forte, e fazendo efeito e queimando e dando pontadas terríveis, magoou o todo-poderoso.

E o baixinho parou para olhar a decoração banal do interior do prédio de arquitetura sem lógica e sem cor e sem arte. Parou mesmo e ficou estático admirando, os olhos voando como borboletas, como borboletas castanhas. Conseguiu mostrar um sorriso brabo, um sorriso preocupado, um sorriso compenetrado, um sorriso firme, um sorriso retorcido, um sorriso de fera enjaulada, um sorriso de dentes cerrados. Não era aquele sorriso de cartaz de cinema, não era aquele sorriso bonachão, não era aquele sorriso de futuro pai dos pobres, mas era um sorriso mesmo assim. O governador até falou, magoado, desenxabido, entre dentes arreganhados:

       - Uta! que decoração... de pedras basálticas.

       Um pouco, dois minutos mais, pareceu que o governador já tinha aprovado a decoração, sua excelência suspirou, abriu a boca e suspirou, desabotoou o colete, enxugou o suor da testa com um lenço branco de risquinhos pretos e letras vermelhas GV no cantinho.

E o super-homem continuou a descer as escadas rumo à porta da prefeitura, para o ar livre e doce da cidade. A turba dos puxa-sacos toda ali atrás, indo no rasto, descendo falando alto como curicacas nos galhos dos pinheiros-do-paraná, disputando o lado a lado, disputando os ombros do prócer, todos muito felizes, todos se sentindo espertos, todos se sentindo perto do valoroso e grandioso, todos mais ou menos gente.

       No fim da escada, já no último degrau da escadaria interna, no último degrau para chegar à porta, o baixinho mais importante de todos os tempos quis espichar a perna... mas sentiu que seria perigoso, sentiu que seria um erro. Parou. Travou ali mesmo e no último degrau. Travou e se fechou em sete chaves. Os dentes muito firmes, os dentes rilhado, os dentes estalando, os dentes trincando, os dentes cortando um dobrado. Era tudo ou nada. E suava em bicas. Parecia pensar muito forte e estava mesmo com semblante preocupadíssimo, carregadíssimo. E todos em volta pararam e olharam para a sua pessoa respeitada e respeitável. Pois o Homem parou todos pararam.

       O sujeito mais importante que este país já fez esperava o que ninguém sabia, esperava o que não podia dizer, esperava alguma coisa como qualquer coisa que se espera. Mas todos sabiam que era alguma coisa importante porque se o Homem parava e esperava só podia ser por coisa séria e urgente. Era por ser urgente e porque era sério. E todos também esperaram.

E o governador ali parado no último degrau ou primeiro degrau e sem dizer nada e sem olhar ninguém e sem sorrir seu sorriso-cartaz de cinema, mão no corrimão, olhos soltos de borboletas tontas, as duas mãos firmes no corrimão. O Homem não queria dar mais um passo e ninguém ousava se mexer e sugerir mais um passo. Se o Homem parou era porque era para esperar.

       Getúlio ficou ali, assim estátua, segurando firme o corrimão com as ambas duas mãos, os olhos borboleteando, borboletas cinzentas, todo rígido, esperando, aguardando que a coisa se acalmasse, que a coisa esfriasse. E parece que deu certo e finalmente ele deu mais um passo e desceu o último primeiro degrau da escada. Talvez fosse a escada, talvez o ar pesado e viciado do interior da prefeitura, pensou consigo o homem mais predestinado.

E sua excelência já via a porta, se empolgou muito em chegar logo ao ar livre, seus olhos umedeceram de alegria, e todos atrás dele, e iam todos ao mesmo tempo ultrapassar a porta e ganhar o ar livre e limpo e doce da cidade, mas... faltando um único passinho de sua excelência para cruzar a porta e ganhar a alta escadaria externa para o largo...

E o Homem travou tudo de novo e todos que vinham atrás se travaram também para não atropelar os da frente, os da frente não queriam esbarrar no Homem e todos travaram firme no chão de ladrilhos sujos encardidos, e quase que o governador foi levado ao chão.

Por que o Homem parava assim tão bruscamente?, podiam se perguntar os outros tolos. Se o Homem parava todos tinham obrigação de parar, de saber esperar, e paravam. Se o Homem parou era pra parar e todos tinham que parar. O Homem decidia tudo e se decidira parar justamente ali era porque tinha de ser. O Homem sabia o que fazia, o Homem sabia o que era certo e errado. E pronto.

       Então, na porta da prefeitura, o governador Getúlio parou e desanimou por completo. Achou sinceramente que não podia dar mais um passo. Olhou lá fora o dia bom, o ar puro, a fileira de jerivás, as andorinhas voando baixo, o ar jovial da cidade, a festa do povo, mas outra escada em arquibancada descia até o largo e ela estava repleta de cidadãos com mistura de bandeirinhas do Rio Grande com bandeirinhas do Brasil com bandeirinhas do Prata.

Não, ele pensou, outra escada eu não vou conseguir, não vou conseguir descer. E dali até o hotel para o descanso do meio-dia são quilômetros e quilômetros de obstáculos, os apertos de mão, os abraços, os tapinhas nas costas, as crianças no colo, etc, as senhoras querendo um beijo, as prendas oferecendo um e outro presente, os humildes beijando a mão, os fanáticos gritando o viva Getúlio.

Pensava tudo isso o concentrado pobre homem. Por tudo isso, por tudo isso que não era pouco, ele se voltou para o político local mais próximo - na verdade um privilegiado e um invejado e um feliz e um histórico - e perguntou, murmurando no ouvido:

       - Nhe-nhe-nhém?!...
       E o futuro dono da pátria amada idolatrada salve salve, foi correndinho para a portinhola do quartinho indicado e conseguiu mesmo perder o chapéu prata de feltro no vupe! dos passos rápidos