Isso pode interessar a qualquer um.
Não se entrará em detalhes pormenores miudezas, mas o
balanço tenderá para o favorável e positivo e correto e possível.
Era o ano de por volta de 1928, mês, dia
e depois.
O vazado ano de 28 era de muita contagem
política. Também de politiqueiros e politiquices e mais nada. E o senhor GV
queria ainda disputar o comando do BR. Era o que se dizia à boca pequena pelo
PRR.
Nova Prata, recém-emancipada (24), convidava Getúlio
Vargas (governador do Estado do Rio Grande do Sul) para que viesse fazer uma
visitinha, conhecer o Prata, receber homenagens, inaugurar a praça (da
Bandeira), inaugurar a casa da cultura, inaugurar o museu do imigrante,
inaugurar a avenida central que levaria seu nome, etc. E o partido arrumou para
que tudo acontecesse antes das próximas eleições.
O Homem sempre ia aos lugares que o
convidavam: quando oportuno, quando podia, quando queria, quando dava na telha,
quando fosse o caso, quando fosse o acaso. E bom que um dia isso teria que suceder.
Não, não seria perda de tempo. Não há tempo a perder.
No início daquela manhã de 19 de outubro,
dois batedores à frente nas motos, a comitiva do governador saiu da capital e
veio vindo. Era um dia aberto de tanta luz, a paisagem tremeluzente, e as
pessoas gostaram e aplaudiram ver o governador passar. Uma luz intensa e uns
muitos e múltiplos brilhos e raios nas pontas das folhas dos coqueiros-bacabas,
sumarés-do-campo, angicos, guajaraís, taquaris, avencas-brancas, taiás,
ipeúnas, amoreiras-da-silva, copiúvas da beira da estrada.
Um dia inteiro no forde-de-bigode, e manivela, um dia inteiro em
comboio de fordecos - e quem tem mais de oitenta anos deve se recordar,
lembrar, tirar o chapéu.
O sol esticava o seu olhar amarelo sobre
o dia que já ia consumido em poeira vermelha. Seria bem possível. Passaram
buzinando embandeirados festejados seguidos em carreata por Bom Princípio,
Feliz, Gramado, Itapuca, Portão, Nova Petrópolis, Alambari, Carlos Barbosa,
Guaporé, Aricanduva, Paranhos. Nuvens de poeira vermelha para trás, para o
alto, etc.
Tudo bem até Alfredo Chaves? Um pouco
mais de solavancos, poeira, cocuruto batendo no teto. E ali em Chaves as
homenagens, tapinhas nas costas, povo curioso, cartazes do H no palito,
inauguração de chafariz na praça, coral de crianças de colégio, um discurso no
almoço, nunca viram homem igual. Uma chuvinha quieta e peneirada iniciando a
tarde sem graça.
O ilustríssimo era acostumado a fazer uma
sesta e tal depois do almoço mas, devido às circunstâncias coisas da cronologia
política, foi necessário pedalar em frente.
E arrancaram para os lados do Prata. A estrada era
péssima, esburacada, mais estreita e sinuosa e perigosa até como igual hoje em
dia. E de Chaves pra cá simplesmente simples trilha de carroças.
- Bastantes buracos, tchê!
Descendo os peraus das Antas foi que a
coisa se apertou, se estreitou, se assombrou. Uma trilha de tropa de muares entre
o paredão e o precipício era de assustar até mesmo o futuro dono do Brasil. Mas
sua excelência aguentava firme, se mostrava otimista, olhava o vale lá em
baixo, chuva leve, a curva da ferradura, os olhos borboleteando meio atônitos,
bem agarrado no seu santo protetor que naquela altura já era bem forte.
Que lhe passava pela cabeça?
E desceram na lenta, bem devagarzinho, podia faltar
freios no fordeco, a trilha de chão batido e mais pedras soltas, estrada em
zigue-zagues, desconforto, curvas de cotovelo, sobressaltos, de um lado a
muralha e do outro o buraco, o despenhadeiro, o abismo.
Cruzaram o rio das Antas na lancha e na subida foi o
motor do auto que começou a fumegar e pedir água. Apearam outras vezes, fizeram
trechinhos a pé, chuvinha de molhar bobo, o ajudante segurando o guarda-chuva,
voltaram a embarcar nos fordecos e que o Homem não pegasse uma constipação.
Já no alto do chapadão tudo bem até a cidade de
Veranópolis. O tempo parecia se contentar com um derramamento de chuva miúda ou
pouco mais que isso.
Em Vera os políticos locais, célula do partido,
encheram a estrada e não queriam deixar sua excelência passar sem um dedo de
prosa, sem um discurso, sem uma homenagem, sem inaugurar a rádio (Paranaí) e
foram horas de negociações, aplausos, tapinhas nas costas, foguetório,
batizados, carreata, cavalhada, missa campal, todas as pessoas na beira da
estrada acenando com lenço, chapéu, guarda-chuva, sombrinha.
Então, caiu um toró que Deus mandou,
autorizou, sinalizou, comandou. As nuvens despencaram de vez e o mundo ficou
pura chuva, pura demais, chuva da boa.
Aceleraram o passo para chegar ao Prata antes da
noite. Se botaram com pressa pela estradinha, uma picada de mula, um trilho de
carroça de burro, uma abertura para carroça de bois, isso sim.
E muita chuva que Deus não queria desligar, não queria
nem saber. O barro tomou conta para sempre da estradinha e os calhambeques dançaram,
derraparam, tontearam, ladearam, esforçaram, desequilibraram, sujaram,
escorregaram, resvalaram que era num sabão.
Na divisa dos municípios de Vila Flores e de Nova
Prata, uma multidão já aguardava a comitiva. Ventos ocasionais. Chuva diagonal.
Subida de um morro todos desceram do auto, menos sua
excelência, e para empurrar o carro. O humor do Homem devia estar também
muito... ótimo.
Assim, vieram que vieram, andando meio de
lado, derrapando, rabeando, sacudidos por rajadas de vento, atolando e
desatolando, e ali na ponte do Retiro - que naquela envergadura dos anos era de
madeira e estreita, só passava um carro de cada vez -, a muita chuva não dava
para ver nada na frente e foi que foi, passaram, passaram um susto e tanto,
passou um, passou dois, passaram todos os carros do comboio, da procissão.
Chegaram no Prata já bem perto das seis e
noite fechada pelo temporal e recebidos pelos comitês de boas-vindas, senhoras
com sorrisos e corbelhas de flores de frutas de doces.
Sua excelência não quis nem mais saber de nada.
Exausto mesmo. Mandou todo o mundo se acomodar pelo hotel ou fosse pra casa,
principalmente. E a comitiva visitante se recolheu, se entrincheirou no hotel
Central, ali por pertinho da rodoviária, um casarão de madeira coberto de zinco
todo estalando com o vento e a chuva, etc. O governador já estava com incômodo
nas cadeiras, cansado até os tubos, queria um banho, um rango qualquer e
dormir, dormir.
Muita chuva na noite, noite de ventos
sacudindo o casarão, chuva guaiando, chuva estalando os caibros de
guajuvira-branca, noite chuvosa cortada por relâmpagos e batida por trovões a
pequena distância, contados. E em volta, sobre a cabeça, próximo, muito perto,
bem pertinho.
No outro dia, dia de manhã amanhecido, de
manhã de céu limpo e lavado, claridade estalando entrando pelas janelas, em
tudo lá fora algazarras de passarinhos tentando articular ou articulando,
joões-de-barro, cambaxirras, tietingas, baitacas, tesoureiras, coleirinhas,
beija-flores, sabiás-laranjeiras, tico-ticos.
Dia lúcido, extenso, branco, vento
azul-esverdeado, sol como sempre amarelo forte ouro. O sol exagerado, a cidade
exagerada, tudo exagerado, rua por rua exageradas, sol e ruas exagerados e
hiperbólicos.
O seu G. Vargas já aparecia na sala do café todo
disposto e todo sorrisos e peito aberto e lenço de pescoço combinando, chapéu
na mão, cinturão repleto de balas e fivela em forma de ferradura e coldre
vazio.
Já acomodado, borboletas nos olhos, tomando café,
roupa limpa, chapéu de feltro azulzinho no lado da xícara, rosto escanhoado,
biscoito de polvilho, mel de abelha em bolacha maria, etc, relógio de pulso
folhado a ouro, bem disposto acordado mesmo e a querer enfrentar o dia das
homenagens e inaugurações e encontros e delegações e tais e quais.
E dali todos se dirigiram a pé mesmo até
a prefeitura, dois quarteirões acima, rua Borges de Medeiros recém de
paralelepípedos novos, cidade rebrilhante, faixas de bem-vindo sobre a rua,
casas enfeitadas com floreiras e toalhas bordadas coloridas nas janelas,
bandinha da brigada acompanhando, crianças em uniforme de colégio agitando
bandeirinhas, os mais tímidos agarrando no paletó, e os jacarandás-cabiúnas
distribuindo maravilhas de flores roxas, ipês-mandiocas sensação de flores
amarelas, gloriosas-dos-jardins pinicando o ar de aroma.
À medida que o bando de políticos andava, a multidão
que madrugara ali na rua, no bar da rodoviária, ia junto e empurrando e
seguindo, conversando baixo e rindo, acompanhando, povo curioso, povo cheio de
sorrisos, povo curioso.
Sua excelência saudava as pessoas nas esquinas, tirava
o chapéu da cabeça privilegiada, sacudia a mão, seu andar curto, mãos nos
bolsos, melhor do que ninguém, mãos para trás nas costas, parava para olhar os
jacarandás-cabiúnas, apertava a mão de um homem, fazia continência para um
grupo de senhoras e senhores, afagava o cabelo de uma guriazinha, parava para
ouvir, parava para rir, parava para olhar para trás a rua cheia de
jacarandás-cabiúnas floridos em fila indiana, etc.
A escadaria da igreja repleta em arquibancada. Quanto
os pratenses não ansiaram por aquele dia aquele momento aquele encontro! A
mente até duvidava. NP enfrentando a História.
- Aí vem doutor Getúlio!
Os cidadãos estavam alegres, sorrisos abertos, estavam
realmente alegres, sino soando festivo da igreja de São João Batista, alegria
do sol aberto em dia branco limpo esvoaçante.
Mais multidão curiosa aguardava o seu G e séquito ali
no largo da prefeitura, salva de palmas, gritos de entusiasmo, foguetes
espocando no ar, buzinaços, bandeiras do país, bandeiras do Estado, bandeiras
do município, festa, vivas, a escadaria do prédio da prefeitura repleta como em
arquibancada, homenagens, a bandinha da brigada se posicionando para tocar o
hino nacional, o hino estadual.
Era a primeira vez que os do Prata viam de perto um
governador e ali estava o Homem em carne e osso e lenço no pescoço e
sorriso-cartaz no rosto, enorme no seu tamanho baixinho, mãos nos bolsos,
chapéu um pouco levado para a nuca.
Renque de coqueiros jerivás, andorinhas trissando pelo
ar, alto-falante pedindo mais palmas e mais vivas e mais palmas e mais
homenagens e mais aplausos.
Cupinchas camaradas correligionários subiram a
escadaria externa e entraram no prédio municipal de arquitetura esquisita
esquiva e sem estilo. Da porta ainda mesmo olharam o povaréu e se voltaram para
sorrir e abanar, muito sorrisos todos, todos muito abanos.
Numa sala do segundo andar, em volta de uma mesa de
acaiaba e cadeiras de espaldar alto também de acaiaba, os políticos locais e
estaduais se sentaram e foram trocando elogios, conversas, tapinhas nas costas,
sorrisos, murmúrios, sua excelência daqui pra lá, de lá pra cá, risos contidos,
fumaça de crioulos, gargalhadas espetaculares, cachaça ao butiá, hum... hum...
Decidiram que as inaugurações seguiriam
na parte da tarde, comentaram a sucessão a Washington Luís, boatos
contraditórios, Júlio Prestes era o homem da vez, promessas, palpites, alguma
premonição, nomes, hipóteses, a matança que os ingleses praticavam na Índia, as
patifarias dos franceses no norte da África, a rapinagem norte-americana na América-Central,
a indecisão na Argentina.
- E a situação na Argentina?
O núcleo das atenções de todos, de todas - poucas
mulheres, quatro ou cinco -, era sem dúvida o Homem, os elogios ao governador
que todos os jornais diziam candidato à presidência do país - que ele negava
com sorriso-cartaz - todos os olhares para o cacique, o chefe, o líder, o
coronel, o caudilho, o pequeno grande homem, o predestinado, o assinalado com
dedo de Deus. O homem que tinha um tesouro de caminho pela frente e a
percorrer. E mais por todas as coisas que ainda iriam acontecer.
Os gringos locais queriam mostrar a
simpatia, a originalidade, a singularidade, a hospitalidade, a culinária típica
da região serrana. E era pão caseiro, pão de trigo, pão de milho, bolo com
cobertura de nata, mandolate, marmelada de uva de figo de abóbora, salame,
morcilha, torresmo, queijo, vinho tinto, vinho branco, vinho doce.
Uma vez o governador quis saber mesmo o
nome do produto irresistível, crocante e que desmanchava na boca:
- Hum... torresmo, é?! Uma cosa buena,
bem sequinha... no caprichismo.
E o futuro presidente do país pegou outra
porçãozinha de torresmo e mais um queijinho e um vinho, um gole de vinho doce
porque não queria ficar tchuco.
Os políticos locais eram descendentes
variáveis principalmente do italianês, português, libanês, polonês, etc, tinha
até dinamarquês, holandês, tinha inclusive serviçal negrês.
Uma vez mais o Homem quis saber mais e
entender melhor, curioso:
- Mais bah! Usam muito sal nesse tal e
qual torresminho, não é?!
E G. V. pegou mais um punhadinho de
torresmo, uma rodela de salame, um cubinho de queijo, um pequeno gole de vinho
doce para lavar a goela.
Todos os políticos do Prata queriam
falar, se exibir, se mostrar para o Homem. E falar e falaram e tentaram falar
coisas importantes, coisas engraçadas, coisas inteligentes, coisas exclusivas,
políticas municipais e estaduais e nacionais e internacionais, coisas de cotas
e valores e quantias, pedidos solicitações encomendas reivindicações.
Mas mais positivamente...
Uma vez mais o futuro dono deste país
gigante quis elogiar as comidas e bebidas locais e foi dizendo, falando a todos
os ouvidos e todos ouvindo e todos atentos e comovidos e felizes:
- Esse torresmo, então, é muito bom e
cuidadosamente prensado.
E o convidado pegou um bocadinho de
torresmo, uma lasquinha de queijo, um quadradinho de polenta frita, um golinho
mal e mal de vinho tinto doce de colônia.
Duas horas depois, depois dos elogios
todos, de um e mais outro ter falado, todos tiveram tempo de se dirigir e falar
a sua excelência, tapinhas nas costas, fotografia da corriola, fumar um
palheiro e beber o cafezinho, repartir a tarde para as inaugurações, o Homem
olhando para o cebolão que trazia preso por correntinha de ouro no colete, se
levantaram para as despedidas, para os apertos de mão, os abraços de quebrar
costelas, com os sorrisos de ombro para ombro.
Descendo aquelas escadas do segundo andar
da prefeitura, seu Getúlio na frente... foi por aí mesmo que lhe veio o
primeiro golpe. O sinal foi um mal súbito fulminante de repente no fundo.
Alguma coisa mais forte, e fazendo efeito e queimando e dando pontadas
terríveis, magoou o todo-poderoso.
E o baixinho parou para olhar a decoração banal do
interior do prédio de arquitetura sem lógica e sem cor e sem arte. Parou mesmo
e ficou estático admirando, os olhos voando como borboletas, como borboletas
castanhas. Conseguiu mostrar um sorriso brabo, um sorriso preocupado, um
sorriso compenetrado, um sorriso firme, um sorriso retorcido, um sorriso de
fera enjaulada, um sorriso de dentes cerrados. Não era aquele sorriso de cartaz
de cinema, não era aquele sorriso bonachão, não era aquele sorriso de futuro
pai dos pobres, mas era um sorriso mesmo assim. O governador até falou,
magoado, desenxabido, entre dentes arreganhados:
- Uta! que decoração... de pedras
basálticas.
Um pouco, dois minutos mais, pareceu que
o governador já tinha aprovado a decoração, sua excelência suspirou, abriu a
boca e suspirou, desabotoou o colete, enxugou o suor da testa com um lenço
branco de risquinhos pretos e letras vermelhas GV no cantinho.
E o super-homem continuou a descer as escadas rumo à
porta da prefeitura, para o ar livre e doce da cidade. A turba dos puxa-sacos
toda ali atrás, indo no rasto, descendo falando alto como curicacas nos galhos
dos pinheiros-do-paraná, disputando o lado a lado, disputando os ombros do
prócer, todos muito felizes, todos se sentindo espertos, todos se sentindo
perto do valoroso e grandioso, todos mais ou menos gente.
No fim da escada, já no último degrau da
escadaria interna, no último degrau para chegar à porta, o baixinho mais
importante de todos os tempos quis espichar a perna... mas sentiu que seria
perigoso, sentiu que seria um erro. Parou. Travou ali mesmo e no último degrau.
Travou e se fechou em sete chaves. Os dentes muito firmes, os dentes rilhado,
os dentes estalando, os dentes trincando, os dentes cortando um dobrado. Era
tudo ou nada. E suava em bicas. Parecia pensar muito forte e estava mesmo com
semblante preocupadíssimo, carregadíssimo. E todos em volta pararam e olharam
para a sua pessoa respeitada e respeitável. Pois o Homem parou todos pararam.
O sujeito mais importante que este país
já fez esperava o que ninguém sabia, esperava o que não podia dizer, esperava
alguma coisa como qualquer coisa que se espera. Mas todos sabiam que era alguma
coisa importante porque se o Homem parava e esperava só podia ser por coisa
séria e urgente. Era por ser urgente e porque era sério. E todos também
esperaram.
E o governador ali parado no último degrau ou primeiro
degrau e sem dizer nada e sem olhar ninguém e sem sorrir seu sorriso-cartaz de
cinema, mão no corrimão, olhos soltos de borboletas tontas, as duas mãos firmes
no corrimão. O Homem não queria dar mais um passo e ninguém ousava se mexer e
sugerir mais um passo. Se o Homem parou era porque era para esperar.
Getúlio ficou ali, assim estátua,
segurando firme o corrimão com as ambas duas mãos, os olhos borboleteando,
borboletas cinzentas, todo rígido, esperando, aguardando que a coisa se
acalmasse, que a coisa esfriasse. E parece que deu certo e finalmente ele deu
mais um passo e desceu o último primeiro degrau da escada. Talvez fosse a
escada, talvez o ar pesado e viciado do interior da prefeitura, pensou consigo
o homem mais predestinado.
E sua excelência já via a porta, se empolgou muito em
chegar logo ao ar livre, seus olhos umedeceram de alegria, e todos atrás dele,
e iam todos ao mesmo tempo ultrapassar a porta e ganhar o ar livre e limpo e
doce da cidade, mas... faltando um único passinho de sua excelência para cruzar
a porta e ganhar a alta escadaria externa para o largo...
E o Homem travou tudo de novo e todos que vinham atrás
se travaram também para não atropelar os da frente, os da frente não queriam
esbarrar no Homem e todos travaram firme no chão de ladrilhos sujos encardidos,
e quase que o governador foi levado ao chão.
Por que o Homem parava assim tão bruscamente?, podiam
se perguntar os outros tolos. Se o Homem parava todos tinham obrigação de
parar, de saber esperar, e paravam. Se o Homem parou era pra parar e todos
tinham que parar. O Homem decidia tudo e se decidira parar justamente ali era
porque tinha de ser. O Homem sabia o que fazia, o Homem sabia o que era certo e
errado. E pronto.
Então, na porta da prefeitura, o
governador Getúlio parou e desanimou por completo. Achou sinceramente que não
podia dar mais um passo. Olhou lá fora o dia bom, o ar puro, a fileira de
jerivás, as andorinhas voando baixo, o ar jovial da cidade, a festa do povo,
mas outra escada em arquibancada descia até o largo e ela estava repleta de
cidadãos com mistura de bandeirinhas do Rio Grande com bandeirinhas do Brasil
com bandeirinhas do Prata.
Não, ele pensou, outra escada eu não vou conseguir,
não vou conseguir descer. E dali até o hotel para o descanso do meio-dia são
quilômetros e quilômetros de obstáculos, os apertos de mão, os abraços, os
tapinhas nas costas, as crianças no colo, etc, as senhoras querendo um beijo,
as prendas oferecendo um e outro presente, os humildes beijando a mão, os
fanáticos gritando o viva Getúlio.
Pensava tudo isso o concentrado pobre homem. Por tudo
isso, por tudo isso que não era pouco, ele se voltou para o político local mais
próximo - na verdade um privilegiado e um invejado e um feliz e um histórico -
e perguntou, murmurando no ouvido:
- Nhe-nhe-nhém?!...
E o futuro
dono da pátria amada idolatrada salve salve, foi correndinho para a portinhola
do quartinho indicado e conseguiu mesmo perder o chapéu prata de feltro no
vupe! dos passos rápidos
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