domingo, 11 de dezembro de 2016

Contos de Santa Luzia (3)

                                              


         ...naquele lugar em separado extraordinário desgarrado extraviado...
         Outra outra como outras tardes vermelhas e abafadas e cozidas. Sol fechado e as horas de calor terrível, no duro. O mundo de pedregulho e terra em suspensão.
E tudo uma grande pasmaceira em a vila Santa Luzia. Meses sem chuva. Sol mais vermelho que a terra vermelha. Dias e dias em que os aldeões e as aldeãs e as aldeãzinhas por demais cansados e desinteressados e desanimados. Aldeãs e aldeões já muito agastados desconsolados desidratados. Aldeões e aldeãs e aldeõezinhos insatisfeitos e preguiçosos e falando sozinhos.
O mundo ali todo exposto ao deserto indecente indigente inclemente. Estava bem ruim, péssimo, mas muito pior. O alto enfarruscado de vermelho. As ex-árvores paineiras aricurirobas já pra lá de tontas, raquíticas, subnutridas, esqueléticas, secas e cheias de apelidos depreciativos. Gravetos e folhas secas espalhados pelo chão da pracinha. Pedras assadas, requentadas, tirando faíscas do sol. O pernetinha no meio da rua Única, no meio do pó do redemoinho, no meio do ar terroso irrespirável. E este cagadinho se ria, ih ih ih!... este merdinha seca se ria, ih ih ih!... este fedelho se ria, ih ih ih!...
         A pracinha esburacada, de árvores petrificadas e espetadas em lanças pretas contra o céu ex-paineiras ex-aimontabus, era o lugar escolhido e predileto de reunião dos arteiros dos traquinas. Isso durante o dia encardido ou à boca da noite poeirenta.
E nessa aldeia ou capela de Santa Luzia, aspecto de vila ou arraial, tapera, tempo perdido do perdido e meio, espaço desértico, se encontrava e se entocava um piá mirrado e sequinho e miúdo e precavido, chamado Zé, o Zezinho, de outros apelidos, Micuim ou Mico.
Chegou uma certa hora da tarde 03:15 que dona Maitá a mãe do Z nem teve saída senão gritar para a vila inteira ouvir:
- Zeziii-nho!... Vá até a casa da D. Mucura e peça pra emprestar um aquele velho e esfiapado chapéu de palha de abas largas!
Zezinho acordou assustado que nem viu. Zezio, muito prontamente, muito importante, muito lambuzado de poeira vermelha, já saiu do seu esconderijo debaixo do casebre. E eclodiu enrolado nesse algo parecido com panos de faxina camisetinha e calção sujos rasgados.
A mãe dele ainda gritou mais:
- Volte rapidinho, pois preciso do cha-chapéu agora mesmo!
O Zeo, pés descalços, dedos dos pés abertos acostumados de andar sem calçados, joelhos roídos, pele grossa de encardidos, já saiu afobado deitando o cabelo engomado de poeira. Cuspia como costume de cuspir. Sempre olhando desconfiadíssimo mil vezes por segundo em todas as direções possíveis.
No caminho de ida, cruzou pela área da pracinha onde os outros moleques lidavam e gritavam e xingavam e brigavam à vontade. Nem podia se dar ao desplante de parar. Então, talvez por isso mesmo, os pivetes o provocaram:
- Mico! Aonde você vai?!
- Já volto! Vou ali e já volto!
De volta da carreira que fez até a casa da D. Mucura, o moleque ouviu novamente o convite dos pixotes:
- Mico! Vem atentar de chutar bunda! Vem! Falta um! Falta você!
Inho nem podia parar para atender. Era um menino prestativo, fiel, metódico, sistemático, tímido, chato, tonto, teimoso, embirrento, desconfiado. Mas preferia muito chutar bunda dos outros, como se fosse bola. Ficava só na fantasia e na ilusão de pensar. O mais difícil era o de arrumar um boboca qualquer. Chutar a traseira ou outra parte do freguês era muito excitante porque arriscado.
Meses e meses e continuava a crise da falta de chuvas. Faltava a chuva. Faltando chuva faltavam sapos, libélulas, grilos, besouros, moscas e faltavam escaravelhos. Nem havia nada em lugar algum. Faltavam gafanhotos, faltavam aranhas, caracóis, lagartos, cobras, lacraias, mosquitos, aimirins, faltavam escorpiões. Aconteciam sobras de incêndios no capoeirão, consequentemente faltavam todas as plantinhas e quaisquer plantinhas. Nada de verde nada que se movesse; tudo recamado da poeira sempre em movimentos pelo ar.
         Zé ou Bicho-Colorado era um guri de nada. Zio ou Micuim era um piá que pensava perguntas as absolutas as absurdas. Perguntas que pensava eram do tipo: As estrelas falam entre si? As pedras têm coração? As estrelas são de ouro ou de prata ou de diamante? As pedras dormem de dia ou de noite? Em que país moram as maiores e melhores estrelas? E Zezinho continuava ainda perguntando a si mesmo: Como foi isso? E depois, que aconteceu?
         Nem se sabe quando terminara, quando deixara de funcionar, mas de um tempo pro outro, antes do tempo, todos repararam que Zezinho nem conseguiu mais crescer e se desenvolver. Ele tinha treze, e seu corpinho resistia na altura e massa dos sete. Não, não era filho de anões. Nem neto bisneto trineto tetraneto de pigmeus. Nem parente de caxinguelês. E nem subiria mais que aquilo ali que já subira. Era bem pouco. E isso sempre fora o motivo dos traquinas colocarem o apelido de Mico. Por isso mesmo, nessa dura certeza, ele, Zezinho, tivera um forte e decisivo e urgente pensamento de morrer. Mil maneiras de morrer e sumir e desaparecer. Um seco seco pensamento de se ver do avesso de se ver pelas costas. Um pronto desgosto vazio de chegar e pedir socorro e xingar e gritar palavrões.
         Até que uma hora, naquele dia, uma sexta-feira de manhã quente como forno doentia como fornalha acesa, o padrasto foi e gritou para o pátio ou na direção do terreiro:
- Zeeé-zinho! Vai pro pai lá na ex-marcenaria do seu Guajá e traz de lá a velha e quebrada cadeira de balanço! É pra já!
         Z-Z acordou assustado e meio cego entupido de ciscos num olho. Zo, muito ajuizado e zeloso e engajado e cabisbaixo e resmunguento e craquento, já já saiu do seu esconderijo no buraco debaixo da tábua podre e se apresentou. Cabelos sujos desalinhados cabeça marcada de caroços e calombos e cicatrizes. O ambiente desde antes revolvido misturado remexido nos carvões e nas fuligens.
- Zezinho! Pede pro seu Guajá pendurar na confiança! Vai num pé!...
         O Zi ou Micuim-Amarelo, solas dos pés comidas pelo chão requentado, manquitolando, cigarro de palha de milho na boca torta, disparou para a ex-marcenaria. Juntando pedras que carregava nas mãos conforme preferia umas e não outras.
No caminho de ida, cuspindo quando tinha saliva, ele cruzou a pracinha onde os moleques cheiravam cola e brigavam e discutiam e se corriam atrás com pontapés e pedras e paus. Queria participar, queria ser mais um nas molecagens, mas estava com urgência, com tempo escasso, com tempo gasto, com tempo previsto, com tempo contado. Os bagunceiros queriam detê-lo, e berraram:
- Ei, Mico! Não vem se misturar com nóis?!
- Agora estou com pressa! De repente eu já fui!
Na volta da ex-marcenaria, o convite foi renovado, revoltado:
- Mico! Vem, vamos atacar de incendiar os bobos e os otários! É luta das grandes à beça!
- Infelizmente tô sem poder!
Nesse vaivém Zezinho tinha dúvidas se devia ou não se perder. Sentia muito não poder ficar com seus parceiros incendiários, arteiros, desaforentos, briguentos, espalha-brasas. Incendiar um garotinho bobo qualquer era muito esperto, era a moda e a onda do momento. Primeiro arrumavam um tanto de palha seca, depois atraíam um pivetinho doido e distraído, enchiam o pirralho de palha, igual um espantalho, tocavam fogo. Dali pra frente era se preparar para tirar sarro e muito vendo o pirralhinho riscar a pracinha como um cometa. Às vezes o molequinho mesmo fazia o acaso de correr para o capoeirão seco. A capoeira pegava fogo fogo. A aldeia corria apagar. Um inferno, todos na rua em pleno sol causticante, e um acontecimento.
         E o menino Zés ainda se duvidava: Por que o sol nem para? Por que a lua se quebra toda? Por que as estrelas piscam somente à noite? Por que nem chove quando já todo o mundo espera pela chuva? Por que o mundo teima teima com ondas de poeira vermelha? Por que o tempo de espera nem passa?
         Mico ou Timicuí preferia, sempre preferiu, um dia começou a preferir muito o de se entocar no buraco escuro debaixo do casebre. E já se acostumava, e já nem precisava de mais nada. Nem queria ver ninguém nem fazer outra coisa. Ficava no buraco escuro, entocado, sozinho, quieto, cochilando, como um rato comum como um gambá como um morcego. E se enfiava ali no buraco o dia todo, sempre e tal, como quem nem queria mais nada. Se enfiava no buraco e relaxava e dormia e sonhava qualquer coisa agitada nervosa repetitiva. Se recobria de terra quando sentia frio quando estava com febre.
Depois de parar de crescer, e perder as meninas da idade, Z ficara muito muito mais tímido e desconfiado e arredio e vingativo. Perdera a atitude. Perdera a vez. Perdera a hora. Perdera tudo. Caminhava sem vontade ou fingia que andava. E começou a fumar e fumava vinte cigarros de palha por dia, quarenta por dia, os beiços os pulmões ardentes queimados de tanto chupar fogo e engolir fumaça.
Na roda dos arteiros na pracinha, por exemplo, Mico nem ousava atentar as gurias, contar uma bobagem qualquer, se levantar se destacar durante as arruaças e palhaçadas e macacadas, gritar alto no meio do bando, correr mais que outro, sentar ao lado de uma guria, propor uma aventura, fazer um gol. No meio da galera nem se ouvia sua voz, nem se ouvia sua tosse, nem se ouvia seu pigarrear escarninho. Ficava num canto só observando, encurralado, prendendo a respiração, encolhido, retorcido, torcendo para nem ser visto, torcendo para nem ser ouvido, para nem ser acusado nem ser atucanado. Era um horror se os marmanjos olhassem para ele, um deus-nos-acuda se pedissem para que fizesse tal coisa, uma dor de barriga se apontassem o dedo sujo e acusador.
- Zeiii-nho! Vá pra mim até a capoeira e me traga de lá duas pedras para fazer sopa! Nem vá me fazer esperar!
Zoinho acordou assustado, as orelhas enferrujadas de terra seca. Então, Zezi ou Timicuim, muito rápido e atento e neurastênico, saiu da sua toca e se prontificou a atender o pedido e fazer o carreto. Ficava alojado no buraco um dois três dias, às vezes atacado por acessos de febre. Claro, seu Pacari era gente vizinho e coisa e tal. O seu Pacari ainda recomendou:
- Zezinho! Faz esse frete pra mim! Vá até ao ex-roçado atrás do morrinho de areia e me colha duas pedras que já deixei de propósito! São até muito levinhas! Na volta lhe devolvo as bolinhas de gude!
Zezé disparou para a ex-rocinha do seu Pacari. Se coçando pelo corpo todo arranhando as pernas se estapeando nos braços. Z-Nho era um menino atencioso e solícito e nervoso e esperto e desconfiado e embirrento. Gostava de cuspir quando tinha o quê. Na ida e na volta, cruzou com os meninos vira-latas se combatendo na pracinha sob as carcaças das ex-paineiras ex-guriris. Ainda na ida era feito o convite:
- Mico! Vem se fazer de carrinho de mão!  
- Nem posso! Tô trabalhando pro seu Pacari!
Na volta, vergado ao peso das pedras gêmeas, ouviu o pedido sendo reiterado e revisto e refeito. Até a Marilva, de repente, pintara por lá e ela mesma fez um convite renovado e provocativo:
- Mico! Ei, seu Miquinho! Nem vem não?!
- Não vou poder, Marilva! Tenho que entregar estas pedras, Marilva! Fica pra ontem ou depois de amanhã, Marilva!
Zeio defendia muito as estripulias de carrinho de mão e comer terra e soprar pó vermelho na cara dos pexotes. Era muito arriscado e pagava a pena. Se a Marilva participava então era de matar. E até queria muito ver se a Marilva tinha mesmo força para levá-lo como carrinho de mão. Até se podia dizer que Zezinho sentia coisas por Marilva. Era assim. E continuaria sendo assim.
Zé esperava tudo de Marilva. Assim como uma vez de Junara. Assim como uma vez de Curica. Assim como outrora de Umutina. Assim como de Suzana. Assim como de Juruvoca. Até ali ainda sentia formigamento, principalmente quando chegava perto de Ana Paula. Nem poucas outras vezes, Mico ainda nem conseguia dormir porque a Juriti queria escalar sua garganta e sair pela boca. Eram noites que o Zinho tossia muito. Zezi pensava que a caixa do peito dele mesmo já estava toda esburacada como um labirinto de pedras, como um abandonado cupinzeiro e ou desfigurado em crateras como a lua cheia. E Zé esperara por Tataíra, Mico quisera rolar mais a Inajá, Zezinho dormira fantasiando com Bocaiúva. Também daí pra frente outras pra mais.
         Mico pensava, se perguntava, depois se perguntou: Onde nasce a lua quebrada e cai a lua cheia? Quem puxa a lua de volta pra casa? Quem solta a lua para o céu noturno empoeirado? Que tipo de bicho vive na lua? Pra que que serve uma lua só? A lua quer ser um disco ou um prato? Quantos dinossauros por dia vão parar na lua?
Zeinho nem preferia ter de fazer necessidades em lugares determinados e próprios para esses fins. Ele tinha receio dos outros. Ele mesmo escolhia o lugar e muitas vezes ao acaso. Temia ser seguido e vigiado. Quando precisava fazer, e fazia talvez lá uma ou duas vezes por semana, ele se afastava de tudo e de todos da tropa e corria para o lado oposto. Por quê? Pois os moleques ficavam sempre olhando o burrinho de um e de outro para comparar. Aí, saíam contando, ridicularizando, azarando e falando alto, desmedindo, espalhando nos ouvidos até das meninas. Zezinho levava nisso a pior. E sentia muito ódio disso tudo. Se sentia mal, muito mal, orelhas quentes, dormência nos braços nas mãos, ânsia de vômito. Sempre guardava escondido dentro do calção ou na garra da mão alguma pedra de estoque de precaução por via das dúvidas.
- Zeeziiinhooo! Vá até dona Lili me buscar uma picareta! É pra ontem!
Micuim acordou assustado, as unhas compridas e sujas e azedas. Z tinha dever urgente de atender sua avó Clô. Então, muito ligado e condicionado e lépido e liso e rasteiro, saiu do esconderijo do fundo da toca meio escura e se apresentou. Era mesmo uma figura magérrima uma sombra avermelhada, apareceu.
- Zezinho! Diga à dona Lili que eu quero emprestado a picareta! Mas é pra agora mesmo, viu?!
Zinho-Zinho já voava a jato, e já cruzava a pracinha onde apareciam gritando e correndo e se perseguindo os piores e menores trocistas da vila. Zé ia cuspindo porque precisava de cuspir onde fosse quando fosse. A molecada gritou atrás:
- Mico! Vem escravizar meninas otárias!
- Agora não, gente! Tô indo numa missão importante! Missão mesmo pra lá de principal e capital!
Ao retornar, e com a picareta no ombro, torto carregado de peso de um lado, Zé ouviu a réplica do convite. Recusar era tão e mais difícil:
- Mico! Vem ou não vem?! Já aprisionamos a Léo, seu bocó! Vem de uma vez, seu jacu de taipa!
- Ah, gente! Dão licença! Digam que não! - respondeu Zezio.
Zinhozim preferia mesmo muito ficar e escravizar a otária da Léo. Era uma das versões mais fortes da vila quando o de escravizar alguém. Uma palhaçada muito praticada e típica do lugar. Os molecotes seguravam o pé da menina com uma corda e não deixavam ela fazer mais nada que pensasse fazer. Era com gurias era com guris, mas incrível mesmo com gurias. E quando ela nem queria fazer nada, os moleques a obrigavam a fazer alguma coisa qualquer. E assim esse puxa-puxa durava até enjoar. Até que a molecadinha se cansasse. Às vezes a menina torturada num dia era mantida presa e atada até o outro dia e também no terceiro dia. Às vezes a menina ou menino até nem tinha permissão de fazer xixi e se mijava todo na bermuda. Nada mais do que isso.
         E o piá Z ainda se questionava sobre tudo e nada: Onde fica o começo do mundo? Onde está o fim do mundo? Quem detonou o tempo? Quem fez o mundo e sumiu? Por que o planeta tem esse barulho ensurdecedor? Por que o mundo tem uma pedrona em cima? Aonde o mundo pensa chegar, uma vez?
         ... um como que pouco pras oito e também conhecido como dez pras oito ou sete e cinquenta...
Zé preferiria muito principalmente três coisas: Uma viagem até a lua cheia em noite sem nuvens de pó vermelho; uma fuga qualquer nos braços da Mari; uma força de erguer do chão dois meninos grandes, um para cada sovaco; um dia inteiro sozinhos no capoeirão atrás das pedras e com Mari.
- Zéee-nho! Vem aqui bem perto que quero lhe falar a sério! Quero um carreto seu! - chamou o tio Coripó.
O Zi acordou assustado, corpo todo marcado contundido de tanto se debater em delírios e pesadelos. E mais o quê, amarelo e esquelético e fino e rápido, boca seca, ainda zonzo dos sonhos delirantes, cabelo vermelho do pó da terra, pele e ossos, e leve e ligeiro como um risco. Então, saiu da sua toca fria, muito sim senhor, aos pulos, pronto a servir. Cuspindo com mania com hábito crônico. E já levando sempre na ideia que estava ali para atender e prestar serviço e atenção igual um cachorro.
- Zezinho! Faz de muito rapidíssimo e rasteiro! Faz um negócio pra mim! Vá até a tapera da estrebaria do seu Tarumaí e me traga de lá uma ferradura velha e carcomida! Volte logo logo! Que é pra dar sorte!
Com muita mania de alerta e prontidão, e nariz escorrendo empoeirado, lá foi o Zézio. Afinal, era o tio Coripó quem pedia. O dia estava tapado de poeira natural da região. E Zezi atravessou a pracinha com o objetivo claro e já planejado, e o alvo já na alça de mira da menina dos olhos, o rumo já definido. Os moleques, todos muito tolos, molengas, já levantando poeira em tumulto, permanentemente no bababi no rolo no conflito, vinham com pedidos, gritando, vociferando. E veio o pedido-convite dos descamisados:
- Mico! Vem aqui, seu culepe! Vem fazer estripulia!
- Nem nem posso neste exato momento! Tenho uma incumbência por fazer! Tenho uma obrigação a executar!
De repente Zezé, cara de maracujá seco e enferrujado, já voltava afobado, resfolegando, língua solta na boca torta. Os garotos, assim rolando na poeira, soltavam os zurros, os uivos, os pios, os bufos, os coaxos, os grasnados e os relinchos. E insistiam convidando:
- Mico! Não me diga que nem quer aprontar aqui com nóis?! Vem de uma vez!
- Meu tio me espera com impaciência! Ele está com vontade de pregar ferradura no alto da porta! Meu tio Coripó é muito imprevisível e irascível e supersticioso!
 Zi sentiu muito não poder parar ali horas e horas rolando na poeira vermelha rastejar no pó da terra. Os mais espertos e heróicos subiam nos galhos secos das ex-árvores paineiras ou saguarajis da pracinha e pulavam. Voavam de braços abertos e perninhas duras e... pooo-fe!... aterrissavam no solo vermelho e duro. Era coisa para moleque muito corajoso e destemido e suicida. O Guató era o que pulava de mais alto. E muitas vezes durante uma partida. Todos queriam ser como o moleque Guató. E todo o mundo piava assobiava e se coçava alérgico porque era muito impressionante esses eventos perigosos e violentos.
         Na caixinha confusa escura e desimportante dos seus treze anos, Zeinho se preparava para ser sempre o Mico. O engodo de todo o sempre dum Micuim. Dormia no buraco e sonhava como um gato, como um cachorro, como um jabuti, como um lagarto, como um urutau. Então, cobria a entrada da toca com retalho de laje, com pedaço de tábua, com pneu furado, com sobra de latão. Ficava ali esperando. Mas aquele tempo nem passava. Um tempo nem de espera mas de mor-do-mi-a.
         ...pois caso passassem ou ficassem para trás eram passados vinte anos ou o dobro sessenta e cinco anos em um total de dezoito anos...
         Um domingo desprevenido, o tempo apocalíptico, o sol de rachar por dentro das ondas de poeira vermelha, remoinhos de sacis, o vento uns cento e vinte por hora, abalou a vilinha desequilibrou mais ainda o povoadinho. Nem chovia há duzentos anos. Os casebres soltaram poeira do telhado de sapê. Sacis rindo, ih ih ih!... no dia mormacento. Não, o mundo nem passava ali. Nem na ida nem na volta e em estação nenhuma. Pois nessa hora seu Jacurutu, o ex-farmacêutico, gritou esquentado lá da janela destrambelhada:
         - Zéee-nhooo! Vai pra mim até o grotão buscar vê se acha um osso de ex-formiga tanajura para fazer refeição no almoço do meio-dia!   
Zezinho acordou assustado, a boca os dentes encardidos de terra. Seu Jacurutu era vizinho da direita. Zizizi escutou o pedido e já se arrancou. Zinho era ligeiro quando queria, era lento quando queria, era teimoso quando nem queria. Cochilou desmaiado ali no buraco por um tempo que nem se sabia. Sem demora e já saiu correndo no trote pronto para correr, tirando tatuzinho do nariz, cuspindo pro alto pro chão na palma das mãos, se mandando como um robozinho muito domesticado e mirrado e torto e encardido.