...naquele lugar em separado extraordinário
desgarrado extraviado...
Outra outra como outras tardes vermelhas
e abafadas e cozidas. Sol fechado e as horas de calor terrível, no duro. O
mundo de pedregulho e terra em suspensão.
E tudo uma grande pasmaceira em a vila Santa Luzia. Meses
sem chuva. Sol mais vermelho que a terra vermelha. Dias e dias em que os aldeões
e as aldeãs e as aldeãzinhas por demais cansados e desinteressados e
desanimados. Aldeãs e aldeões já muito agastados desconsolados desidratados. Aldeões
e aldeãs e aldeõezinhos insatisfeitos e preguiçosos e falando sozinhos.
O mundo ali todo exposto ao deserto indecente
indigente inclemente. Estava bem ruim, péssimo, mas muito pior. O alto
enfarruscado de vermelho. As ex-árvores paineiras aricurirobas já pra lá de tontas,
raquíticas, subnutridas, esqueléticas, secas e cheias de apelidos
depreciativos. Gravetos e folhas secas espalhados pelo chão da pracinha. Pedras
assadas, requentadas, tirando faíscas do sol. O pernetinha no meio da rua Única,
no meio do pó do redemoinho, no meio do ar terroso irrespirável. E este
cagadinho se ria, ih ih ih!... este merdinha seca se ria, ih ih ih!... este
fedelho se ria, ih ih ih!...
A pracinha esburacada, de árvores petrificadas
e espetadas em lanças pretas contra o céu ex-paineiras ex-aimontabus, era o
lugar escolhido e predileto de reunião dos arteiros dos traquinas. Isso durante
o dia encardido ou à boca da noite poeirenta.
E nessa aldeia ou capela de Santa Luzia, aspecto de vila
ou arraial, tapera, tempo perdido do perdido e meio, espaço desértico, se
encontrava e se entocava um piá mirrado e sequinho e miúdo e precavido, chamado
Zé, o Zezinho, de outros apelidos, Micuim ou Mico.
Chegou uma certa hora da tarde 03:15 que dona Maitá a
mãe do Z nem teve saída senão gritar para a vila inteira ouvir:
- Zeziii-nho!... Vá até a casa da D. Mucura e peça pra
emprestar um aquele velho e esfiapado chapéu de palha de abas largas!
Zezinho acordou assustado que nem viu. Zezio, muito
prontamente, muito importante, muito lambuzado de poeira vermelha, já saiu do
seu esconderijo debaixo do casebre. E eclodiu enrolado nesse algo parecido com
panos de faxina camisetinha e calção sujos rasgados.
A mãe dele ainda gritou mais:
- Volte rapidinho, pois preciso do cha-chapéu agora
mesmo!
O Zeo, pés descalços, dedos dos pés abertos
acostumados de andar sem calçados, joelhos roídos, pele grossa de encardidos,
já saiu afobado deitando o cabelo engomado de poeira. Cuspia como costume de
cuspir. Sempre olhando desconfiadíssimo mil vezes por segundo em todas as
direções possíveis.
No caminho de ida, cruzou pela área da pracinha onde
os outros moleques lidavam e gritavam e xingavam e brigavam à vontade. Nem
podia se dar ao desplante de parar. Então, talvez por isso mesmo, os pivetes o provocaram:
- Mico! Aonde você vai?!
- Já volto! Vou ali e já volto!
De volta da carreira que fez até a casa da D. Mucura,
o moleque ouviu novamente o convite dos pixotes:
- Mico! Vem atentar de chutar bunda! Vem! Falta um!
Falta você!
Inho nem podia parar para atender. Era um menino
prestativo, fiel, metódico, sistemático, tímido, chato, tonto, teimoso,
embirrento, desconfiado. Mas preferia muito chutar bunda dos outros, como se
fosse bola. Ficava só na fantasia e na ilusão de pensar. O mais difícil era o
de arrumar um boboca qualquer. Chutar a traseira ou outra parte do freguês era
muito excitante porque arriscado.
Meses e meses e continuava a crise da falta de chuvas.
Faltava a chuva. Faltando chuva faltavam sapos, libélulas, grilos, besouros,
moscas e faltavam escaravelhos. Nem havia nada em lugar algum. Faltavam gafanhotos,
faltavam aranhas, caracóis, lagartos, cobras, lacraias, mosquitos, aimirins,
faltavam escorpiões. Aconteciam sobras de incêndios no capoeirão, consequentemente
faltavam todas as plantinhas e quaisquer plantinhas. Nada de verde nada que se
movesse; tudo recamado da poeira sempre em movimentos pelo ar.
Zé ou Bicho-Colorado era um guri de
nada. Zio ou Micuim era um piá que pensava perguntas as absolutas as absurdas. Perguntas
que pensava eram do tipo: As estrelas falam entre si? As pedras têm coração? As
estrelas são de ouro ou de prata ou de diamante? As pedras dormem de dia ou de
noite? Em que país moram as maiores e melhores estrelas? E Zezinho continuava
ainda perguntando a si mesmo: Como foi isso? E depois, que aconteceu?
Nem se sabe quando terminara, quando
deixara de funcionar, mas de um tempo pro outro, antes do tempo, todos
repararam que Zezinho nem conseguiu mais crescer e se desenvolver. Ele tinha treze,
e seu corpinho resistia na altura e massa dos sete. Não, não era filho de
anões. Nem neto bisneto trineto tetraneto de pigmeus. Nem parente de caxinguelês.
E nem subiria mais que aquilo ali que já subira. Era bem pouco. E isso sempre fora
o motivo dos traquinas colocarem o apelido de Mico. Por isso mesmo, nessa dura
certeza, ele, Zezinho, tivera um forte e decisivo e urgente pensamento de
morrer. Mil maneiras de morrer e sumir e desaparecer. Um seco seco pensamento
de se ver do avesso de se ver pelas costas. Um pronto desgosto vazio de chegar
e pedir socorro e xingar e gritar palavrões.
Até que uma hora, naquele dia, uma
sexta-feira de manhã quente como forno doentia como fornalha acesa, o padrasto
foi e gritou para o pátio ou na direção do terreiro:
- Zeeé-zinho! Vai pro pai lá na ex-marcenaria do seu Guajá
e traz de lá a velha e quebrada cadeira de balanço! É pra já!
Z-Z acordou assustado e meio cego entupido
de ciscos num olho. Zo, muito ajuizado e zeloso e engajado e cabisbaixo e
resmunguento e craquento, já já saiu do seu esconderijo no buraco debaixo da
tábua podre e se apresentou. Cabelos sujos desalinhados cabeça marcada de
caroços e calombos e cicatrizes. O ambiente desde antes revolvido misturado
remexido nos carvões e nas fuligens.
- Zezinho! Pede pro seu Guajá pendurar na confiança!
Vai num pé!...
O Zi ou Micuim-Amarelo, solas dos pés comidas
pelo chão requentado, manquitolando, cigarro de palha de milho na boca torta, disparou
para a ex-marcenaria. Juntando pedras que carregava nas mãos conforme preferia
umas e não outras.
No caminho de ida, cuspindo quando tinha saliva, ele cruzou
a pracinha onde os moleques cheiravam cola e brigavam e discutiam e se corriam
atrás com pontapés e pedras e paus. Queria participar, queria ser mais um nas
molecagens, mas estava com urgência, com tempo escasso, com tempo gasto, com
tempo previsto, com tempo contado. Os bagunceiros queriam detê-lo, e berraram:
- Ei, Mico! Não vem se misturar com nóis?!
- Agora estou com pressa! De repente eu já fui!
Na volta da ex-marcenaria, o convite foi renovado,
revoltado:
- Mico! Vem, vamos atacar de incendiar os bobos e os
otários! É luta das grandes à beça!
- Infelizmente tô sem poder!
Nesse vaivém Zezinho tinha dúvidas se devia ou não se
perder. Sentia muito não poder ficar com seus parceiros incendiários, arteiros,
desaforentos, briguentos, espalha-brasas. Incendiar um garotinho bobo qualquer
era muito esperto, era a moda e a onda do momento. Primeiro arrumavam um tanto
de palha seca, depois atraíam um pivetinho doido e distraído, enchiam o
pirralho de palha, igual um espantalho, tocavam fogo. Dali pra frente era se
preparar para tirar sarro e muito vendo o pirralhinho riscar a pracinha como um
cometa. Às vezes o molequinho mesmo fazia o acaso de correr para o capoeirão
seco. A capoeira pegava fogo fogo. A aldeia corria apagar. Um inferno, todos na
rua em pleno sol causticante, e um acontecimento.
E o menino Zés ainda se duvidava: Por
que o sol nem para? Por que a lua se quebra toda? Por que as estrelas piscam somente
à noite? Por que nem chove quando já todo o mundo espera pela chuva? Por que o
mundo teima teima com ondas de poeira vermelha? Por que o tempo de espera nem
passa?
Mico ou Timicuí preferia, sempre preferiu,
um dia começou a preferir muito o de se entocar no buraco escuro debaixo do
casebre. E já se acostumava, e já nem precisava de mais nada. Nem queria ver
ninguém nem fazer outra coisa. Ficava no buraco escuro, entocado, sozinho,
quieto, cochilando, como um rato comum como um gambá como um morcego. E se
enfiava ali no buraco o dia todo, sempre e tal, como quem nem queria mais nada.
Se enfiava no buraco e relaxava e dormia e sonhava qualquer coisa agitada
nervosa repetitiva. Se recobria de terra quando sentia frio quando estava com
febre.
Depois de parar de crescer, e perder as meninas da
idade, Z ficara muito muito mais tímido e desconfiado e arredio e vingativo.
Perdera a atitude. Perdera a vez. Perdera a hora. Perdera tudo. Caminhava sem
vontade ou fingia que andava. E começou a fumar e fumava vinte cigarros de
palha por dia, quarenta por dia, os beiços os pulmões ardentes queimados de
tanto chupar fogo e engolir fumaça.
Na roda dos arteiros na pracinha, por exemplo, Mico nem
ousava atentar as gurias, contar uma bobagem qualquer, se levantar se destacar durante
as arruaças e palhaçadas e macacadas, gritar alto no meio do bando, correr mais
que outro, sentar ao lado de uma guria, propor uma aventura, fazer um gol. No
meio da galera nem se ouvia sua voz, nem se ouvia sua tosse, nem se ouvia seu pigarrear
escarninho. Ficava num canto só observando, encurralado, prendendo a respiração,
encolhido, retorcido, torcendo para nem ser visto, torcendo para nem ser ouvido,
para nem ser acusado nem ser atucanado. Era um horror se os marmanjos olhassem
para ele, um deus-nos-acuda se pedissem para que fizesse tal coisa, uma dor de
barriga se apontassem o dedo sujo e acusador.
- Zeiii-nho! Vá pra mim até a capoeira e me traga de
lá duas pedras para fazer sopa! Nem vá me fazer esperar!
Zoinho acordou assustado, as orelhas enferrujadas de
terra seca. Então, Zezi ou Timicuim, muito rápido e atento e neurastênico, saiu
da sua toca e se prontificou a atender o pedido e fazer o carreto. Ficava
alojado no buraco um dois três dias, às vezes atacado por acessos de febre. Claro,
seu Pacari era gente vizinho e coisa e tal. O seu Pacari ainda recomendou:
- Zezinho! Faz esse frete pra mim! Vá até ao ex-roçado
atrás do morrinho de areia e me colha duas pedras que já deixei de propósito!
São até muito levinhas! Na volta lhe devolvo as bolinhas de gude!
Zezé disparou para a ex-rocinha do seu Pacari. Se
coçando pelo corpo todo arranhando as pernas se estapeando nos braços. Z-Nho
era um menino atencioso e solícito e nervoso e esperto e desconfiado e
embirrento. Gostava de cuspir quando tinha o quê. Na ida e na volta, cruzou com
os meninos vira-latas se combatendo na pracinha sob as carcaças das
ex-paineiras ex-guriris. Ainda na ida era feito o convite:
- Mico! Vem se fazer de carrinho de mão!
- Nem posso! Tô trabalhando pro seu Pacari!
Na volta, vergado ao peso das pedras gêmeas, ouviu o
pedido sendo reiterado e revisto e refeito. Até a Marilva, de repente, pintara
por lá e ela mesma fez um convite renovado e provocativo:
- Mico! Ei, seu Miquinho! Nem vem não?!
- Não vou poder, Marilva! Tenho que entregar estas pedras,
Marilva! Fica pra ontem ou depois de amanhã, Marilva!
Zeio defendia muito as estripulias de carrinho de mão
e comer terra e soprar pó vermelho na cara dos pexotes. Era muito arriscado e pagava
a pena. Se a Marilva participava então era de matar. E até queria muito ver se
a Marilva tinha mesmo força para levá-lo como carrinho de mão. Até se podia
dizer que Zezinho sentia coisas por Marilva. Era assim. E continuaria sendo
assim.
Zé esperava tudo de Marilva. Assim como uma vez de Junara.
Assim como uma vez de Curica. Assim como outrora de Umutina. Assim como de
Suzana. Assim como de Juruvoca. Até ali ainda sentia formigamento,
principalmente quando chegava perto de Ana Paula. Nem poucas outras vezes, Mico
ainda nem conseguia dormir porque a Juriti queria escalar sua garganta e sair pela
boca. Eram noites que o Zinho tossia muito. Zezi pensava que a caixa do peito dele
mesmo já estava toda esburacada como um labirinto de pedras, como um abandonado
cupinzeiro e ou desfigurado em crateras como a lua cheia. E Zé esperara por Tataíra,
Mico quisera rolar mais a Inajá, Zezinho dormira fantasiando com Bocaiúva. Também
daí pra frente outras pra mais.
Mico pensava, se perguntava, depois se
perguntou: Onde nasce a lua quebrada e cai a lua cheia? Quem puxa a lua de
volta pra casa? Quem solta a lua para o céu noturno empoeirado? Que tipo de
bicho vive na lua? Pra que que serve uma lua só? A lua quer ser um disco ou um
prato? Quantos dinossauros por dia vão parar na lua?
Zeinho nem preferia ter de fazer necessidades em
lugares determinados e próprios para esses fins. Ele tinha receio dos outros. Ele
mesmo escolhia o lugar e muitas vezes ao acaso. Temia ser seguido e vigiado. Quando
precisava fazer, e fazia talvez lá uma ou duas vezes por semana, ele se afastava
de tudo e de todos da tropa e corria para o lado oposto. Por quê? Pois os
moleques ficavam sempre olhando o burrinho de um e de outro para comparar. Aí,
saíam contando, ridicularizando, azarando e falando alto, desmedindo, espalhando
nos ouvidos até das meninas. Zezinho levava nisso a pior. E sentia muito ódio disso
tudo. Se sentia mal, muito mal, orelhas quentes, dormência nos braços nas mãos,
ânsia de vômito. Sempre guardava escondido dentro do calção ou na garra da mão
alguma pedra de estoque de precaução por via das dúvidas.
- Zeeziiinhooo! Vá até dona Lili me buscar uma picareta!
É pra ontem!
Micuim acordou assustado, as unhas compridas e sujas e
azedas. Z tinha dever urgente de atender sua avó Clô. Então, muito ligado e
condicionado e lépido e liso e rasteiro, saiu do esconderijo do fundo da toca
meio escura e se apresentou. Era mesmo uma figura magérrima uma sombra
avermelhada, apareceu.
- Zezinho! Diga à dona Lili que eu quero emprestado a
picareta! Mas é pra agora mesmo, viu?!
Zinho-Zinho já voava a jato, e já cruzava a pracinha onde
apareciam gritando e correndo e se perseguindo os piores e menores trocistas da
vila. Zé ia cuspindo porque precisava de cuspir onde fosse quando fosse. A
molecada gritou atrás:
- Mico! Vem escravizar meninas otárias!
- Agora não, gente! Tô indo numa missão importante!
Missão mesmo pra lá de principal e capital!
Ao retornar, e com a picareta no ombro, torto
carregado de peso de um lado, Zé ouviu a réplica do convite. Recusar era tão e
mais difícil:
- Mico! Vem ou não vem?! Já aprisionamos a Léo, seu
bocó! Vem de uma vez, seu jacu de taipa!
- Ah, gente! Dão licença! Digam que não! - respondeu
Zezio.
Zinhozim preferia mesmo muito ficar e escravizar a otária
da Léo. Era uma das versões mais fortes da vila quando o de escravizar alguém.
Uma palhaçada muito praticada e típica do lugar. Os molecotes seguravam o pé da
menina com uma corda e não deixavam ela fazer mais nada que pensasse fazer. Era
com gurias era com guris, mas incrível mesmo com gurias. E quando ela nem queria
fazer nada, os moleques a obrigavam a fazer alguma coisa qualquer. E assim esse
puxa-puxa durava até enjoar. Até que a molecadinha se cansasse. Às vezes a
menina torturada num dia era mantida presa e atada até o outro dia e também no terceiro
dia. Às vezes a menina ou menino até nem tinha permissão de fazer xixi e se mijava
todo na bermuda. Nada mais do que isso.
E o piá Z ainda se questionava sobre
tudo e nada: Onde fica o começo do mundo? Onde está o fim do mundo? Quem
detonou o tempo? Quem fez o mundo e sumiu? Por que o planeta tem esse barulho
ensurdecedor? Por que o mundo tem uma pedrona em cima? Aonde o mundo pensa
chegar, uma vez?
... um como que pouco pras oito e
também conhecido como dez pras oito ou sete e cinquenta...
Zé preferiria muito principalmente três coisas: Uma
viagem até a lua cheia em noite sem nuvens de pó vermelho; uma fuga qualquer
nos braços da Mari; uma força de erguer do chão dois meninos grandes, um para cada
sovaco; um dia inteiro sozinhos no capoeirão atrás das pedras e com Mari.
- Zéee-nho! Vem aqui bem perto que quero lhe falar a
sério! Quero um carreto seu! - chamou o tio Coripó.
O Zi acordou assustado, corpo todo marcado contundido
de tanto se debater em delírios e pesadelos. E mais o quê, amarelo e
esquelético e fino e rápido, boca seca, ainda zonzo dos sonhos delirantes, cabelo
vermelho do pó da terra, pele e ossos, e leve e ligeiro como um risco. Então,
saiu da sua toca fria, muito sim senhor, aos pulos, pronto a servir. Cuspindo
com mania com hábito crônico. E já levando sempre na ideia que estava ali para
atender e prestar serviço e atenção igual um cachorro.
- Zezinho! Faz de muito rapidíssimo e rasteiro! Faz um
negócio pra mim! Vá até a tapera da estrebaria do seu Tarumaí e me traga de lá
uma ferradura velha e carcomida! Volte logo logo! Que é pra dar sorte!
Com muita mania de alerta e prontidão, e nariz
escorrendo empoeirado, lá foi o Zézio. Afinal, era o tio Coripó quem pedia. O
dia estava tapado de poeira natural da região. E Zezi atravessou a pracinha com
o objetivo claro e já planejado, e o alvo já na alça de mira da menina dos
olhos, o rumo já definido. Os moleques, todos muito tolos, molengas, já levantando
poeira em tumulto, permanentemente no bababi no rolo no conflito, vinham com
pedidos, gritando, vociferando. E veio o pedido-convite dos descamisados:
- Mico! Vem aqui, seu culepe! Vem fazer estripulia!
- Nem nem posso neste exato momento! Tenho uma
incumbência por fazer! Tenho uma obrigação a executar!
De repente Zezé, cara de maracujá seco e enferrujado, já
voltava afobado, resfolegando, língua solta na boca torta. Os garotos, assim
rolando na poeira, soltavam os zurros, os uivos, os pios, os bufos, os coaxos, os
grasnados e os relinchos. E insistiam convidando:
- Mico! Não me diga que nem quer aprontar aqui com
nóis?! Vem de uma vez!
- Meu tio me espera com impaciência! Ele está com
vontade de pregar ferradura no alto da porta! Meu tio Coripó é muito imprevisível
e irascível e supersticioso!
Zi sentiu muito
não poder parar ali horas e horas rolando na poeira vermelha rastejar no pó da
terra. Os mais espertos e heróicos subiam nos galhos secos das ex-árvores paineiras
ou saguarajis da pracinha e pulavam. Voavam de braços abertos e perninhas duras
e... pooo-fe!... aterrissavam no solo vermelho e duro. Era coisa para moleque
muito corajoso e destemido e suicida. O Guató era o que pulava de mais alto. E
muitas vezes durante uma partida. Todos queriam ser como o moleque Guató. E
todo o mundo piava assobiava e se coçava alérgico porque era muito impressionante
esses eventos perigosos e violentos.
Na caixinha confusa escura e desimportante
dos seus treze anos, Zeinho se preparava para ser sempre o Mico. O engodo de todo
o sempre dum Micuim. Dormia no buraco e sonhava como um gato, como um cachorro,
como um jabuti, como um lagarto, como um urutau. Então, cobria a entrada da
toca com retalho de laje, com pedaço de tábua, com pneu furado, com sobra de
latão. Ficava ali esperando. Mas aquele tempo nem passava. Um tempo nem de
espera mas de mor-do-mi-a.
...pois caso passassem ou ficassem para
trás eram passados vinte anos ou o dobro sessenta e cinco anos em um total de
dezoito anos...
Um domingo desprevenido, o tempo
apocalíptico, o sol de rachar por dentro das ondas de poeira vermelha, remoinhos
de sacis, o vento uns cento e vinte por hora, abalou a vilinha desequilibrou
mais ainda o povoadinho. Nem chovia há duzentos anos. Os casebres soltaram
poeira do telhado de sapê. Sacis rindo, ih ih ih!... no dia mormacento. Não, o
mundo nem passava ali. Nem na ida nem na volta e em estação nenhuma. Pois nessa
hora seu Jacurutu, o ex-farmacêutico, gritou esquentado lá da janela
destrambelhada:
- Zéee-nhooo! Vai pra mim até o grotão
buscar vê se acha um osso de ex-formiga tanajura para fazer refeição no almoço
do meio-dia!
Zezinho acordou assustado, a boca os dentes encardidos
de terra. Seu Jacurutu era vizinho da direita. Zizizi escutou o pedido e já se
arrancou. Zinho era ligeiro quando queria, era lento quando queria, era teimoso
quando nem queria. Cochilou desmaiado ali no buraco por um tempo que nem se
sabia. Sem demora e já saiu correndo no trote pronto para correr, tirando
tatuzinho do nariz, cuspindo pro alto pro chão na palma das mãos, se mandando como
um robozinho muito domesticado e mirrado e torto e encardido.