quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Voo Livre (juvenil)

 

 

 


 

            Possível impossível, bem, a menina Lilás foi até lá em a Pedra Bonita vestiu a asa-delta e pulou do palco do trampolim da plataforma diante da montanha no espaço espaço sucursal do céu do céu. E se fosse possível impossível nem precisaria, uma vez!

            Asas abertas e bem grandes e bem demais mesmo totais.

            - Ih-uuu!... Sou um pássaro um avião uma nave espacial um meteorito e quem mais!... - se empolgou ela consigo mesma e com a própria façanha.

            E foi exatamente como aprendeu. Saiu correndo pela plataforma em rampa pulou no ar espaçoso do éter e caiu voando em pleno aéreo sem bater as grandes asas. Planando. A asa-delta brinquedo que ganhou da tia Siriúba, agora no décimo aniversário. Lá embaixo a praia minúscula milimétrica filigrana miligrama de São Conrado.

            A ideia inicial era chegar ir longe até o parque do Caparaó. E passou por Ametista do Sul, acima dos 2 mil metros. Fazendo rasto de sombra lá no chão bem sobrevoando Faxinalzinho. Cruzando os céus de Dom Pedrito e numa velocidade de 100 por hora. Hora local umas 10 horas e mais ou menos lá vão os cascalhos.

            - Ah-uuu!... Valeu?! Cinco motivos para voaaaaar!...

            Este o voo de braços abertos sobre a imensidão da paisagem. Sol de dia e de noite, areia branca sem nuvem, mar azul do Atlântico, praia do Sossego. A floresta da Tijuca rio Sergipe aldeia dos uirina.

            Voou nadando como os urubus os gaviões-das-taperas os andorinhões-de-coleira os araçaris... Voo silencioso de asa-delta e tudo mais. Usou as correntes de ar quente, etc., e várias vezes. Navegando em grandes círculos cada vez mais abertos mais longe mais largos mais ocos vazios... Pessoal do chão olhava pra cima e admirava a coragem da guria.

            - Tá vendo aquelas manchinhas lá embaixo? Já te digo!

            Lilás falando consigo mesma, o tal solilóquio, voz alta e sonora:

            - São manchinhas e migalhas e formigas e outras ninharias. Assim mesmo pelo estilo.

            Mais uma pausa e de novo com ela mesma, e na intimidade, particularidade:

            - Pois é a praça Nossa Senhora da Paz. E a ilha Redonda. E a rua Tiapira. E a cidade de Coronel Freitas. Quer mais?! Tchau e até logo!

            Outra pausa e mais uma coisa a dizer, falando os pensamentos, voando com o vento:

            - Oh-uuu!... As pessoas parecem ciscos, os rios parecem fios de barbante largados no solo, as cidades parecem pequenos povoados, as fazendas talhões de roça e lavoura.

            Deslizando manobrando dialogando sozinha apartada em pleno céu, e cheio dos panoramas à vista. São Miguel das Missões pertence a Santo Ângelo e veio nascida do sítio arqueológico de São Miguel Arcanjo, e os miguelinos ao patrimônio histórico e cultural da humanidade e mais ainda representados no dinheiro na nota de 5.000 cruzeiros reais, sendo que isso tudo desde o século XVII.

            Um V atlético aéreo alado e como se vê no meio do vento no meio do sol no meio do ar puro azul veloz voraz. Voo livre necessário complementar e sem nuvem. Emparelhando apostando corrida com casais de araras-azuis araras-vermelhas araras-roxas araras-verdes araras-amarelas.

E passou boiando acima de lagoas e matos e capitais, Ipiaú, Jaguaribe, Cananeia, Comendador Gomes. E chegou ao rio Jacu perto de Domingos Martins. E do céu cristalino pouso aterrissagem espetacular.

            - Uma parada para um abastecimento um lanchezinho! - se justificou com ela mesma.

            Lilás armou para a aterrissagem na montanha. Escolheu o alvo, uma pequena clareirinha do tamanho de uma quadra de futsal no alto da Pedra Azul. Também identificada pelos turistas como Pedra Amarela ou Pedra do Lagarto.

            Foi fácil foi difícil, e pousou sem maiores na perpendicular. Se fosse difícil nem seria fácil! Como fazem as aves pernaltas esticando as pernas e abrindo muito bem as asas.

            - Nem é bem assim!... Veja onde estou!...

            A menina Lilás ficou sabendo que no alto da montanha Azul, pousavam, e pousam, além de asas-deltas e parapentes, pousam os tais e quais discos voadores. É por aí que entram, um dos sítios ou portais, os alienígenas no nosso planeta. Sentiu tanta curiosidade, tanta comichão nos rins no fígado no nariz no pescoço, que resolveu ir até lá para ver qual que era. E efetivamente veio e voou e aterrissou, sensacionalmente.

            - A verdura sem par destas matas! As frutinhas da estação!

            E foi assim. Foi verificar. Saiu de casa logo pela manhã, pegou a asa-delta debaixo do braço, andou dois quarteirões pela rua Barão de Ipanema, uns poucos 10 anos e muito linda. E atravessou pelo alto 3 mil metros as geografias, matas, oceano, planaltos, planícies, continente e serras. De óculos escuros chegou logo ali à tardinha, no inverno. Pousou como se viu, como acreditamos. Pouso seguro perfeito de ave acostumada como um falcão-de-peito-vermelho, e dos grandes.

            - Vamos ver o que temos acá - falou sozinha com muito desembaraço sem timidez sem nada de vergonha na cara, uma atriz ensaiando com o espelho.

            Tudo tão deslumbrante que foi só o tempo de desvestir a asa gigante e ficar de olho em tudo. Olhão arregalado e fixo, e atônita, catatônica, tônica. Apreciando a altitude da Pedra Azul. Apreciando a paisagem de perder de vista de perder o fôlego e que proporcionava encantamento deslumbramento apaixonamento. Sem receio da altura. Sem dúvida nenhuma em olhar pra baixo. Sem vertigem.

Na compostura das 17h se deparou Lilás com o senhor da terceira idade conhecido Arari Mondé. Muito quieto e morando aí mesmo. Este tinha quase nada de barba e cabelo, alguma coisa grisalha atrás das orelhas, chapéu de palha trançada feita de fibras da palmeira pupunheira. Estava sentado sobre uma pedra em posição de quem espera espera... e o olhar longe de quem nunca ou raramente alcança. A garotinha se aproximou mais do velhinho bisavô e perguntou:

            - Ei, seu sábio pajé! É assim desse modo que se chega ao lugar dos discos voadores, astronaves, os tais óvnis, e tripulados por alienígenas e etês e extraterrestres e divinos e deusas deuses? Uns tais e quais que chegaram ontem ou anteontem de Marte?

            Arari Mondé, por acaso batendo o queixo e pingando pelo nariz por causa da friagem do frio da altitude, nada lhe respondeu nem emitiu pio algum. Continuou sentado, meditabundo, distante, apatetado e olhando qualquer coisa ou lugar lá longe no belo horizonte. Parecia estátua durinha desumanizada. Parecia uma copaíba-marimari vegetando. Igual um jomirim plantado. Uma manjerona-do-campo enraizada. A menina insistiu, falou um pouco mais alto:

            - Seu índio da montanha! Você tá bem? Poderia me dizer se estou no discoporto certo?

            Uma longa e interminável pausa de dois minutos dois instantes. Era sobre tarde tardezinha. A menina voltou à carga, pausando as sílabas palavras termos sons letras:

- Ei!... Aqui é da Terra. Será que chove? Hein?!

            Nem adiantou. O passado antigo, Arari Mondé, nem se mexeu, nem piscou, nem sorriu, nem tugiu e nem mugiu. Era parado presente como um vegetal tipo canela-sassafrás ou angelim-araroba ou ipê-pardo-vacariano. Ou seja, continuou firme na mesma posição como se nada fosse com ele. Na mesma mirada sempre olhando para aquele horizonte perdido e largo e profundo. Foi nesse instante que surgiu, ou já estava encostada ali aqui, a ruana mula sem cabeça.

            A assombração se encontrava a poucos metros, e pastava... o quê?! Sim, pastava a grama-das-boticas rala e seca e os talinhos das ervas-da-vida e as hastes das quinas-de-cipó e os brotinhos de erva-santa... levantava o toco do pescoço pro céu frio que vinha escurecendo, dava uma choradinha... o quê?! Sim, se lamentava e voltava a pastar os raminhos de malvas-do-campo e as florzinhas de maniçobas-do-piauí e as frutinhas do murici-pinima... A menina chegou mais e falou à criatura esquisita ente sobrenatural:

            - Oi, coisa estranha. Vi você pastar, ouvi você lamentar... será que estou endoidecendo? O que me diz a sua graça? É de hoje em dia e esqueceu a cabeça, meu?!

            A murzela mula sem cabeça nem se virou para a guria, nem se perturbou, nem se dignou, nem nada que a fizesse mudar de comportamento. Apenas continuou a engolir as folhas tenras do feijãozinho-bravo e da baunilha-do-pará e do maracujá-de-cobra, vez e outra se lamuriando pro céu que já quase anoitecia penumbrava. Agora o espaço aéreo um tanto encoberto por nuvens baixas cinzentas úmidas frias pesadas, e fazendo o tipo de tempo que promove promete chuva chuvarada.

            Lilás se voltou novamente pro senhor Arari, que continuava na dele, absorto, absorvido, embevecido, enlevado, indiferente e o encarou nos olhos, bem dentro dos olhos, nas meninas dos olhos, e que eram azuis, tudo azul, talvez devido ao fato de ficar observando o azul do céu, o azul da Pedra Azul, e lhe perguntou indagou:

            - Puxa, seu autóctone! Me desculpa a urgência da pergunta. É que apareceu uma aparição que pasta e uiva! Que rumina e se lamenta mesmo sem pescoço, tá entendendo?! Afinal, que lugar é esse, cara? Que personagens, hein, tio?

            Pausa. A menina ficou mais preocupada e sozinha na imensidão. O mundo dava lugar ao tempo. Se a gente pensar no tempo... A guriazinha sempre preocupada:

            - Mas o que que é, gente?! Ninguém fala neste território montanhoso passando ao frio de altitude?

            A menina chegou mesmo a tocar no ombro do seu Arari, pessoa de idade. Nem, definitivamente o pajé estava em outra. Paciência. E por falar em paciência, resolveu se sentar também sobre uma pedra e meditar, relaxar. Procurou a postura de iogue, esticou aprumou o torso, cruzou as pernas e sentou em cima, descansou as mãos livres sobre os joelhos e olhou... olhou direto, reto, longe no horizonte. A terapia. A meditação buscando o centro... O centro de quê? O centro de quem e de si mesma?

            Agora Lilás ficou sossegada estática fixa olhando o infinito muito compenetrada, olhos baixos. Ficou olhando lá longe e observando daquele jeito espichado. Como fazem nos conventos os ociosos religiosos monges monjas. Meditando filosofia e versos sagrados.

Escolheu ao acaso o rato-espinhoso que ia passeando lá junto de umas rochas, no meio de uns gravatás e cipós-escadas. Fixou os olhos no bichinho e o seguiu, para cá e para lá, subindo e descendo, se enfiando entre as pedras e as capebas-do-norte, ou correndo ágil, enfim, todas as suas cabriolas e artimanhas e artifícios e artes propriamente ditas. Eta!, bichinho ativo. E tinha família aqui ali em que parte do perau? E criatura de D.

E o rato-espinhoso parecia sozinho, procurando o de-comer, trabalho esse que nem era fácil. Porém persistente. E tinha uns olhinhos opacos de quem lacrimeja e nem tem lenço para assoar o nariz. Um pai de família uma mãe zelosa? E o frio o vento gelado da altitude lhe arrepiavam o pelo. Era arrepiado, descascado, inquieto, exilado, mais ou menos preocupado. Suas patinhas pisavam descalças as pedras e os espinhos de ananás-de-agulha. Uma das patinhas cortada talvez ferida por um espinho ou um graveto. Tinha no geral o pelo uma cor de poeira. Os bigodes de poucos e duros fios finos. Sua fala, “crite! crite!...” ou “chipe! chipe!...” era sempre manhosa e dava para distinguir. A cor dos olhinhos, atormentados pela insônia, levavam um azul pobre. O cheiro era pesado de quem nem tomava banho há dias há meses. E precisava encontrar um jantar já perto do anoitecer. Ou seria um ser um animalzinho noturno notívago.

            Quando escureceu, e o céu azul ficou pontilhado de janelas estreladas, fogueiras de São João, olhinhos de meninos maus piscando na boca da noite, e quase nem se percebia os passeios do rato-espinhoso - e somente se via pouco e pouco sua sombra, seu vulto fininho - veio o gavião-real, surgido inesperadamente de onde?, uma enorme e predadora harpia, e que o levou embora grampeado pelas garras arqueadas potentes.

Lilás acompanhou surpreendida toda a ação da ave de rapina. Esta voou até o alto no topo da montanha Azul e rodeada com cerração densa, e numa reentrância de rocha, o pouso no ninho de galhinhos e folhas secas. Ali a harpia repartiu a comida em duas partes, uma com o filhote que piava aflito, “clii! clii!...” e outra para ela, “crou! crou!...” Então, a menina desconcentrou, saiu do transe, virou a chave o foco e ligou novamente na tomada.

            Se erguendo de onde estava, a menina Lilás procurou saber do antigo Arari Mondé. Ele andava aí e lá e aqui procurando palha, gravetos e paus para a fogueira. A menina desabafou, afastou, declarou:

            - Sabe! Bem que estou tentando conversar com sua pessoa presente. É, tô magoada! Tá ouvindo? Tá escutando, nosso amigo? Talvez nem goste de crianças, ou de visitas, ou de estrangeiros, ou de viajantes de asa-delta. É isso?

            Uma pausa longitudinal de dois minutos dois momentos dois tempos:

            - Tá, tá certo! Nem tá mais aqui quem falou nem foi ouvida escutada.

            O ancião Arari, mais uma volta e mais uma vez outra ocasião, nem deu ouvidos. Fazia um montinho com a palha, os gravetos e os paus secos de pequiá. Depois riscou uma pedra com outra, até saltar uma faísca. A fumaça e a luz subiram para o alto, para o espaço; fizeram nuvens, e estrelas cintilantes cadentes. Aproveitando o calor, o autóctone (índio) preparou uma sapecada de raízes de inhames-cigarras.

            Enquanto aguardavam a comida, uma espécie de batata típica da região, o velho Mondé olhava as estrelas, as nuvens, a lua por entre as nuvens, e assobiava para as altas montanhas que nem eram poucas. O sítio ficou macabro assombrado com rochas, vales e canhadas penando no escuro. O escurão fechado firme e o rebrilho das chamas da fogueira nas pedras e rochas.

Quando a boia ficou no ponto, seu Arari Mondé tirou as tuberosas das brasas. Colocou uma à disposição da menina. Lilás foi comer a merenda, estava quente, “ui! ui!...” foi descascando devagar, devagarzinho, pegando aos bocadinhos, mastigando com receio, soprando, “ufe! ufe!...” engolindo a custo.

            Feito a banal e comum refeição, Lilás sentiu o peso morto do sono invadindo seu cérebro congestionando seu corpo inteiro amortecendo os nervos. Veio chegando numa onda impossível de conter. Anestesiou tudo. Um instante de esquecimento. E uma olhada para dentro de si. Como se passou?

            O velhinho pajé se recostou debaixo do tal poperi que era uma espécie de barraca rústica e improvisada. Deitou no comprido e aquietou e dormiu sem um “boa noite!” sequer e como se fosse tal e qual uma pedra da rocha basáltica.

            De repente, olhando o fogo, olhos apertados e miúdos de sono, as chamas cabeludas de vermelho, Lilás viu apareceu a tordilha mula sem cabeça e que se aproximava do calor esfregando os cascos; veio também o boto-cinza, furo no cocuruto, viola atravessada no peito e cantando uma canção gingando um maxixe que lamentava o frio os rios as distâncias; e de dentro das labaredas num pulo mágico salto acrobático, e redemoinhou rodopiou no ar rolou desenrolou, e se ajeitou bem perto, o saci-pererê. Algumas entidades e entes, em?

            D Nosso Senhor sempre lá na sua azul sala de escritório e despachos reencarnando algumas almas ou espíritos. Ele que manda gente pessoas aqui pra terra, e é mesmo. Quando D encarna a alma no material temporal mortal pegajoso, o conjunto todo vira um ser vivente (eu você ele ela). Este corpo prontamente voa para T de Terra e para o B de Brasil com os lugarejos, Descalvado, Porto Ferreira, Luís Antônio, Analândia... O ente encarnado, então, desce pro mundo e nasce se parecendo com índio e índia paiaguá, catauixi, juma, itatim... ou bicho como a seriema o camaleão o sagui-imperador o tamanduá-mirim... ou planta do quiabinho-do-campo do mangue-de-água-doce do jasmim-pipoca da seringueira-itaúba...

            Sabiá-ferreiro surgindo com o sol bem-te-vi-barulhento a manhã azul profundo beija-flor-safira no ar quase parado umas garrinchas-choronas as montanhas encasacadas de nevoeiro branquinho a saíra-militar pulando gorjeando nos galhos refolhudos da árvore bicuíba o casal de canários-do-mato o bando de pintassilgos... a boa e velha algazarra de toda manhãzinha de sempre festiva nova novidades. Enxame de abelhas aramá e borás-cavalos e vorás-bois procurando flores deliciosas apetitosas suculentas doces. Nuvens correndo no céu e cheias bombadas estufadas e nos intervalos de tempo aéreo.

A menina acordou bocejou esticou os braços abraçou o mundo inteiro. E pulando de pedra em pedra escorregando pelo barranco subindo em árvore juazinho-amarelo. Diagnosticou, e disse:

            - Ontem e hoje vai ser bom igual de amanhã!... Dentro do dia a dia, é!

E já o seu Arari estava de pé fazendo exercícios matinais. Pareciam golpes de dança, umas gingadas suaves, lentas, leves, soltas. Sincronismo com a natureza das aves, dos ventos, das pedras, da montanha, das plantas anhangapiris, jambuaçus, carás-silvestres... Eram movimentos de braços e mãos, de pernas, de sombras. Acompanhando o balanço dos galhos e caules na altitude da montanha. Imitava, ou queria imitar, um bicho qualquer, ou vários deles ao mesmo tempo o sariguê o guariba a tapiti o barrigudo-pardo a cotiara... A mente concentrada, os olhos vivos. Um passo para cá, outro para o lado e as mãos em concha, ou fechadas, ou ainda abertas, livres, desenhando estranhos caracteres no ar figuras invisíveis imaginadas imaginosas aleatórias.

            Lilás foi se juntar a ele. Como já entendia que o pajé nem falava, então assim, nem o cumprimentou. Cada qual na sua. Preparando o corpo e o psicológico pro dia. Foi um ensinamento, um aprendizado sem parecer que fosse. Só pelo exemplo.

            Depois dos exercícios suados, Arari Mondé seguiu uma trilha até chegar num fio de água. Beberam a água azul que descia da montanha Azul. Colheram e comeram frutos silvestres e mangaba, araçá, pitanga, azedinha, mendubim, mel de uruçu... A menina declarou, abriu o coração, para a montanha hiperpedra remota alta distanciada:

            - Linda montanha da Pedra Azul, teto do mundo, maravilhosa... A sua verdade é o silêncio, o frio, o alto, alguma nebulosidade ao amanhecer. Tão perto de D. Agora sei que pareço um inseto formiga quenquém-mineira-de-duas-cores. Meus olhos nem lhe alcançam, meu coração te abraça e se sente abraçado. Adorei!

            O Arari Mondé pegou do seu marraque e rumou para oeste, serra de Itatiaia. A separação foi inevitável e definitiva. Lilás nunca mais o veria. E sem nunca, “psiu!...” ouvir palavra de sua boca voz da sua fala.

            Um pequeno cupim entrando em casa sua própria habitação uns deles entrando em casa no cupinzeiro muitos e mais de mil entrando agora mesmo em casa, ou seria um mega ultra superlativo superlotado condomínio. O cupinzeiro no meio do matinho rasteiro de jalapas-vermelhas parecia uma pirâmide uma ilha um império uma megalópole supertumultuada. Quanta gente! Qual o coletivo de cupim? Seria enxame ou hoste ou legião ou chusma ou colmeia ou cardume ou cupinzama?

            A menina vestiu as barbatanas longas de cor verde a asa-delta. Asas duronas e grandes e maiores ainda. Foi até a rampa do precipício e tomou decisão e tomou impulso e tomou vento na cara. Correndo na descida vertiginosa radical irracional praticamente vertical, uma aventura perigosa:

            - Ih-uuu!...

            Se lançou no espaço azul como um pássaro conhecido. Igual gavião-pombo-grande. Pulou da Pedra Azul para o D dará. Era real especial e atiçava todos os nervos mexia com a adrenalina. A legítima andorinha-do-campo. Mas também ainda mais uma menina fora do seu elemento natural, etc., e assim por diante.

            Mata atlântica rio de Contas reserva dos índios assurini-do-tocantins... Dez motivos para visitar Itapagipe... Uns cinco motivos para gostar de Uruana de Minas... Velocidade voo controlado sobrenadando arroio Ponche Verde e a localidade de Camaquã e Cotiporã...

            - Uh-uuu!... Pois aquele aparelho lá ao norte é o forte... forte como nunca de Santa Cruz de Itamaracá! - gritava a menina para si mesma e cheia de uma empolgação e cheia de muitas razões.

            Contava uma pausa. Logo pegava a empolgar como nunca, voando, nadando no céu:

- Oh-uuu!... E depois a cidade de... de Piatã! Aquele ziguezague ali embaixo é o rio... o rio dos Sinos! - e mal podia se coçar segurando as asas grandonas brilhantes ao sol bem abertas no dia específico.

O sol encestado em si mesmo, braços longos cruzados no sistema Solar. E por que nem chovia hoje, todavia? Logo assim naturalmente há uma diferença entre os humanos nós e o sol ele, podemos dizer. O sol é divino é deus mas nem é humano, uma vez!

Pronto. A menina foi voando a nado para cá e para lá no céu limpo como sonham voar as pessoas e como fazem naturalmente os alados bicos-chatos-de-orelha-preta. Uns 2 mil metros de altitude. Era verão. Pintada no espaço magnífico magnético. As ondas de ar quente esticando os cabelos elásticos. E passou por lugares e mais a Pedra das Flores e esta toda vestida revestida florida de bromélias orquídeas samambaias anilaçus... E na tarde sobre o parque Ararigboia, ela guria toda acompanhada de aves cantoras interpretes lado a lado com as paralelas e emparelhados os jaós tovacas marrecas-caneleiras pararis...

- Eh-uuu!... Nunca tinha pensado nisso. Verdade que sim!

Dia claro como em janeiro e um sol que gira o mundo no eixo e de maneira organizada.

           

A Excursão (juvenil)

 


 

 

Primeira Parte

 

            A escola o colégio é o primeiro lugar que todos inventam para reunir e correr, gritar, cair, levantar, jogar, desenhar, juntar, rir, nem parar de rir, gargalhar, ahahahah!...

Pois a menina Lilás, 10 mil-réis em primaveras, aproveitou a passagem das aulas de História do B pelo palácio (localizado no paço Imperial de São Cristóvão na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro - na época de Pedro Príncipe Regente) e caiu no tempo no espaço viajou.

Chegou ao paço real bem cedo pela manhã, andorinhões-de-coleira chabós circulando no aéreo, araçazal curtindo a paisagem, subiu as escadarias do casarão e foi barrada na porta por um dragão uniformizado armado de espada na cintura e espingarda nas mãos ao ombro.

            - Alto lá! Alto ali! Alto aqui! Quem é você, quem pensa que é, que quer afinal?

            - Me desculpe chegar assim mas... queria dar um lero-lero com o príncipe Pedro. Ele tá aí ou acolá?

            - O príncipe Pedro Regente nem poderá lhe atender - retrucou o responsável e perfiladíssimo dragão da guarda.

            - Que que há, meu! O príncipe tá com a agenda lotada, é isso?

            - Pode-se dizer que sim. E tenha um bom dia!

            - “Pode-se dizer que sim”, nem é resposta, ouviu?!

            - Terá que marcar hora, dona menininha!

            - Pois marco pra agora, tá limpo?!

            - Agora já é tarde e nem será possível... Digo que a porta é serventia da casa!

            Neste instante algumas pessoas vinham descendo os degraus da escada do palácio, e conversando, sendo que uma delas era o príncipe Pedro. Chegaram perto onde Lilás se encontrava e pararam. Intrigado com aquela menina estranha, menina lilás, Pedro Príncipe Regente (título nobiliário, que pertence à nobreza brasileira) perguntou ao soldado dragão:

            - Alferes Juquiá! Quem é essa rapariga (os portugueses chamam assim às moças e senhoritas) e o que faz aqui?

            - Estou tentando descobrir, seu Pedro Regente. Ela só faz insistir em lhe falar.

            - Fale, rapariguinha - autorizou o nobre PPR.

            A menina parou na frente do príncipe Pedro, olhou para cima, sorriu, desenrolou o currículo a biografia o carretel a língua e trovou:

            - Me chamo Lilás e gostaria de sair aí com o senhor, fazer aventuras pelo Brasil. Eu sei que o senhor vai viajar e então pensei em lhe acompanhar. Posso? Gostaria muito. Obrigada!

            - A excursão a expedição a exploração é muito perigosa, cansativa, longa... - dizia o príncipe. Acho que nem é aconselhável para uma miudinha. Sinceramente...

            - Mas eu prometo nem atrapalhar, viu, seu príncipe! Sabe, eu acho o senhor o maior barato, sempre quis lhe conhecer, leio tudo sobre sua distinta nobreza e pessoa...

            - Nem costumo levar mulheres em campanhas de aventuras, e uma menina ficaria extremamente problemático. E nem vejo necessidade...

            - Ah, deixa, vai! - insistiu Lilás. Eu gosto tanto do senhor, sempre achei o senhor muito do lindo. Gostaria de lhe acompanhar... Quero muito conhecer o país todo...

            - Está bem, está bem, miudinha. Você venceu. Você cuidará do meu cão, o Xuri. Assim terá uma função.

            - Valeu! Valeu mesmo! Obrigada pela chance. Deixa dar um beijo no rosto e nas faces, tepe!... São três pra casar, tepe! tepe! tepe!...

            Chegando ao pátio do formidável palácio, Pedro Príncipe Regente vistoriou pessoalmente os participantes da caravana. Cumprimentou todos os dragões da guarda, pediu para que verificassem as armas, a munição, os cavalos, a tropa de burros cargueiros, os mantimentos, tralhas, trecos e tarecos, etc., várias coisas e detalhes. Lilás por sua vez procurou fazer amizade com seu novo companheiro, o jaguara Xuri - descendente legítimo de cachorro-do-mato-vinagre.

Depois de se despedirem dos familiares e “boa sorte!” e “boa-fé!” e “boa-vai-ela!” e “fiquem com D!”, a comitiva partiu partiu. Emendando ruas, rua Sete Lagoas, cada qual montado no seu cavalo ou muar, rua Duarte Coelho, sempre tentando ir pela sombra das iricuranas e capebas-cheirosas, rodeando a praça Apolinário Rebelo, pelas ladeiras, rua Marquês de Monte Alegre, quase saindo da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, cemitério São João Batista e campas lajes sepulcrais túmulos sepulturas, costeando o recôncavo da Guanabara, rua Barão de Teresópolis, rua Saint Roman, cruzando a pequena ponte de pedra do rio Tapira, estrada de Saquarema rumo do sertão, vila travessão Lagoa Bela em Flores da Cunha e várias outras atrações turísticas deixadas desperdiçadas pelo caminho... A caravana recebia do povo os cumprimentos vivas aplausos bimbalhar de sinos espocar de foguetes recomendações de felicidades “voltem em breve!” e “até a vista!” “vamos sentir saudades!”

            - O senhor é bem recomendado pelo povo, príncipe Pedro. Isso é sério.

            - Apesar de ser português, eu amo esta terra e tenho muita afeição por esta gente. Espero nunca deixar de corresponder a este carinho.

            - Pois é. O reconhecimento do povo é a melhor coisa que se pode ter.

            - Agora você, rapariguinha Lilás, nem me decepcione, hein?! Quero que se comporte. Vamos passar por muitas e boas. A excursão será demorada, sol, chuva, cansaço, fome, poeira, estradão, dor de cabeça, dor nos pés, dor na coluna vertebral... Terá que aguentar o repuxe. Quase nada!

            - Prometo, seu príncipe. Estou preparada e preparadíssima!

            - Você mora no Rio de Janeiro?

            - Nada. Sou do Rio Grande do Sul, conhece?

            - Ainda nem, mas pretendo. Me aguardem.

            - Sabe, tô realizando um sonho. Me tornei sua fã desde o primeiro dia que ouvi falar do senhor, que li e reli sobre sua pessoa. O senhor tá na História do B com H maiúsculo.

            - Obrigado pelo carinho. Outra coisa. Quero que cuide bem do Xuri. Ele é um ótimo companheiro, de muita utilidade, de muita fidelidade. Ás vezes um pouco mais da conta de chalaceador, festeiro, malandro, mas sempre uma boa alma. E já me salvou várias vezes de perigos, bote de urutu-estrela, ataque de onça-parda, mordida de caimão, emboscada de assaltantes criminosos, tocaia de arruaceiros, súcias de malfeitores...

            - Pode ficar tranquilo, tchê! Nós já estamos amigos. Ele Xuri me cheirou, lambeu minha mão, riu se sacudindo todo, etc., falou muito na língua lá dele... entendi tudo e aprovei a sinceridade. E acho que ele o Xuri precisa de uma namorada mais que de uma babá, tá ligado?!

            - É, Xuri é um bom janauí, muito sociável, principalmente quando fareja boa gente. E você é boa gente.

            - Uma coisa, seu príncipe. Estamos indo pra que lado, pra que parte, norte sul leste oeste, exatamente? Explique o roteiro.

            - Vamos subir o litoral pela província do Espírito Santo até chegar à Bahia. Esta será nossa primeira etapa da excursão. Da Bahia retornaremos fazendo uma volta por Minas Gerais e São Paulo. Ficaremos fora, excursionando, talvez um ano, um ano e alguns meses. Muito tempo. Muito sertão. Muito chão interior. Muito B de brasis. Muito bem e bom e ótimo!

            - O príncipe nunca antes viajou por estas bandas e campos e chapadões afora?

            - Nunca, por isso quero fazê-lo. Meu pai Dom João VI me incumbiu de cuidar e lutar por esta terra. E para tal tenho bem que conhecer o povo os povoados. Conhecer os nossos rincões querências pagos e cafundós.

            - Tá certo. Por isso que todos lhe adoram.

            - Espero nem decepcionar, já disse e repito. Espero estar à altura dos desejos desta gente toda. Quem sabe um dia...

            - Vai dar tudo certo.

            - É, mas tenho inimigos poderosos, minha rapariguinha. Só eu sei como são terríveis e ridículos e esquisitos e debochados.

            - Um pouco de perigo faz bem, circula uma adrenalina.

            - Ah ah ah!... miudinha miudinha... - riu a bandeiras despregadas Pedro Príncipe Regente, PPR.

            O vento cheirava os verdes das ótimas plantas à beira do caminho, etc., cipós-do-reino, alamandas-de-flor-grande, tanchagens-rabos-de-rato, canelas-do-brejo... O vento era o próprio evento, quando queria. Nada como uma brisa para amaciar os cabelos! E umas nuvens que vinham do mar enfeitadas tipo jangadas com vela vermelha... construídas artesanalmente. Bulha confusão sonora de aves marinhas ao longe, um pouco de brisa salgada, um céu profundo esperto azul-turquesa.

            Comunidade de Cantagalo, praia da Barrinha, e para aquele lado contrário do oceano Atlântico a serra do Mar e da Mantiqueira. Mas, muito mais do que tudo isso: rio Itabapoana, Aiuruoca, Valença, Guaratinguetá, tribo dos autóctones os barururu...

            A menina ia olhando e reolhando e revirando a paisagem do dia ambiente. Era uma manhã início de dia todo, uma manhã que até ria e sem querer. Muita coisa na paisagem, muitos assobios, gavião-bombachinha, saíras-ferrugens, verões, mutuns-de-fava, narcejas-de-bico-torto, concrizes... Olhos grandes para a paisagem, quase olhos grandes de susto, quase assombrados, atônitos, esbugalhados, sobressaltados.

            - Que dia!... Repito, que dia!

            - Quase nada! Reafirmo, quase nada!

            Se fosse que chovesse já seria bom e mágico. Chuva para deixar vazar o rio Candiota. Um grupo de árvores arbustos plantas e embiruçus, hortelãs-do-campo, ervas-de-saracura, anileiras... A cachoeira do Caldeirão, o parque serra do Papagaio. Guanumbis aos bandos aos pares aos voos apreciando o néctar das flores de taboca-gigante. Abelhas jataís insetos polinífagos pois que se alimentam de pólen das diversas flores à disposição existentes selvagens cores para escolher. Que D dá e dádiva.

            O sol caiu de maduro na fresta da tardezinha e noite. A seguir a escuridão vestiu pala poncho fechado e jogou uma moeda de prata para o alto. A lua veio mostrar seu transparente e longo vestido traje de luar. Uma rasga-mortalha, ave das noturnas, estendeu as asas e saiu caçar mariposas. As estrelas, sim, que eram felizes! Os vaga-lumes até se manifestaram, redarguiram refutaram contradisseram replicaram:

            - Aí, sim!

            - O que que se passa?

            O problema principal da caravana seria sem dúvida o cansaço devido às penosas longas distâncias caminhadas cavalgadas, dias e dias, assim por diante. Mas por onde a excursão passava, Nova Glória, São João do Rio do Peixe, Araçuaí, Mercês, Paiva, território da tribo canamari... o príncipe regente era recebido com surpresa, estardalhaço, alegria, festa e jantares. Ali podiam refazer as energias, trocar os cavalos, adquirir mantimentos, curar os calos e as feridas, repousar uns dias em cama boa e fofa. O povo reconhecia no seu príncipe regente o líder, e queria que também fosse o seu imperador ou seu rei. Viam nele o único que podia e tinha o direito de mandar e desmandar e de ocupar o trono do B, a cadeira de braços do mandachuva, etc.

            Já se passou se foi, mundo adentro engolido, o mês de maio desde que a excursão saiu lá do Rio de Janeiro. Assim, chegaram à ilha de Vitória, Espírito Santo. Ali, nessa cidade acolhedora, foram recebidos naturalmente com festas festividades festivais. As ruas enfeitadas, as praças tumultuosas, as janelas das casas dando vivas, gente contente, multidão abanando, cachorros latindo, fogos espocando. Tudo ao vivo ativo aberto. O povo exultava. Entraram desfilando sempre pela rua principal Marechal Cândido Rondon, pisando tapete de folhas verdes e flores coloridas... O príncipe Pedro, montado no seu cavalo baio, de braço erguido mão abanando para o distinto povo.

            - Capixabas e vitorienses! Ilha de Vitória e Barro Vermelho e Praia do Canto e Jardim Camburi!... - falava e acenava o Pedro.  

Descansaram por cinco dias, hospedados no melhor mosteiro da cidade, o mosteiro Zen Morro da Vargem. Nesse tempo, o príncipe conheceu os maiorais do lugar, barões e baronesas mais viscondes e viscondessas, foi padrinho de batismo de dezenas de crianças, inaugurou praça e rua com seu nome. E foi conhecer a famosa e enorme estátua em homenagem ao padre Cícero Romão Batista. Cada família que tinha a honra de recebê-lo em casa, se esmerava nas culinárias quitutes quitandas acepipes manjares almoços jantares frutas em calda, fazendo excelente festa com música dança sarau recital tertúlia. As moças suspiravam por um simples olhar do jovem garboso Pedro Príncipe Regente.

O guaipeca Xuri resmungou consigo mesmo, ganiu, murmurou baixinho, decidiu, olhou para os lados, e se mandou para os becos da cidade. Escolheu o bairro Irajá pegou pela rua Tiririca depois rua Barão de Itapacorá mais adiante a praça Ibirité a rua Pirituba... Foi conhecer a noite da cidade capixaba, etc. Foi andando e tradicionalmente farejando perseguindo os melhores cheiros perfumes aromas e rastos. Quais odores fedores, e carniças? Chegou num beco, o beco de nome Mouchão, deu de cara com botecos e biroscas e boliches e botequins e baiúcas frequentados por desordeiros, fugitivos da cadeia, vadios, traficantes, contrabandistas e bichos animais da pior espécie, etc. Escolheu uma bodega de apelido Pararaca, bateu o pé na soleira e entrou.

- Somente quero e vou entrar pra beber um cauim e já imediatamente sair - rosnou alto e prometeu para si mesmo ou quem quisesse ouvir, o Xuri.

O ambiente estava pesado e recendia exalava principalmente à fumaça dos cigarros feitos de palha de milho. Os frequentadores experimentavam aguardentes cachaças pingas aquiquis a-que-incha amarelinha água-de-cana assina-ponto azulzinha. E jogavam muita conversa fora papo-furado conversa-fiada anedotas piadinhas de humor macabro... O canil tinha péssima fama e muitos cães e cadelas vira-latas. Outros bichos desocupados também rondavam por aí, antas, capivaras, lobos-guarás, jacarés-açus, tuiuiús, guiraguaçuberabas, jaritatacas, catetes... Todos no trago e na algazarra sem que desse para ouvir direito o que se dizia, o que diziam, etc. Quando de repente... de supetão... de um instante pro nada...

- Ei, você aí, cão forasteiro!

Xuri, este um tal e qual cão da estirpe dos janauíra, olhou pro lado olhou pra trás... era com ele a questão, é? Ah, é, é! Então, tá! Se surpreendeu mas porém entretanto pero nem temeu nem tremeu. Até gostou e muito:

- É comigo a questão, por um acaso? Qual é o pó de arroz, oh, meu chapa?!

Aí, então, parece que o tal cão bebum chegou mais perto e se apresentou:

- Tá sabendo com quem está se metendo, hein, mané?! Nem tô te reconhecendo. Você é novo no palco e no pedaço? E qual é a tua? Quem é que te deixou entrar?

Aí, assim, os dois se encararam como dois cachorros loucos. Prontos pra briga pro duelo. Parece que já se odiavam desde a descoberta do Brasil. Sem se conhecerem, já queriam partir pra briga. E se encarando com muita raiva ira e dentes de fora. Quem os dentes, grrrrraaaã!... mais e maiores?

- Nem, nem sei o seu nome sua pessoa sua profissão e o raio que o parta, tá ligado! - foi dizendo o Xuri, e bem na cara babosa do outro. E também nem vim aqui para olhar para sua cara de cão faminto, tá ligado?! Você é péssimo!!

Mas pra quê! O tal cão bebum, o tal aquele que ainda nem se apresentara, ficou uma onça-pintada de bravo, ficou uma fera, um cão danado. Ficou roxo e azul e vermelho e pegando fogo e... latiu babando do lado da bocarra cheia de dentes caninos:

- Eu sou o cão Fanfa e mando e ordeno aqui nesta área neste pedaço e tenho dito e feito, etc. Neste lugar do mundo, bem aqui onde ocê está, quem manda sou eu mesmo, entendeu, tá pescando, seu rebelde?! Você nem é bem-vindo, tá ouvindo?!

Vamos dizer que o ambiente ficou muito carregado e elétrico e maníaco. Era uma coisa esquisita e perigosa. Era o mundo do submundo. Dois cães se confrontando e tudo isso pra quê? Coisa importante? Sabe-se lá! E uma guerra por “daquiaquelapalha!”

Xuri ficou aguardando a primeira reação do tal e qual Fanfa. A coisa parecia se encaminhar para uma luta corpo a corpo. Era pegar ou morder ou agarrar. Os outros fregueses do bar Pararaca se encostaram na parede já prevendo brigaiada, arruaça, desentendimento, desordem, corre-corre, cadeiras voando, mesas quebradas, garrafas voando, copos quebrados, etc., barulheira, algazarra, correria, estraladeira, boletim de ocorrência o tal e qual famoso oficial b.o. 

Por isso mesmo, o Xuri olhou para aquele cão chamado Fanfa, o tal e qual dono do pedaço, o grandão dentuço, que mais?, e era realmente um cão maluco e parecia até perigoso e feroz e carniceiro e etc. Olhou o topete do oponente e rosnou da sua parte o seguinte elementar:

- Tudo mal e muito anormal - foi respondendo na lata, bem na cara do tal Fanfa o corajoso aventureiro Xuri. Eu só acho seu bafo pra lá de infeliz e fedorento, tá ligado! E mais uma coisa: você é um cachorro bebum dos mais bêbados!

Mas pra quê! O negócio pegou fogo de verdade e ao vivo e na hora h. Principalmente porque o ambiente de cachaça e fumo e fofoca já se podia prever levava a esse tipo de comportamento, etc., inevitavelmente. Ia virar briga de foice no escuro!

- Oh, fregueses!... - o dono do boteco (seu Suari da Tuna) tentava chamar à ordem os perigosos arruaceiros, e nada. Oh, moços moçoilos mocinhos mocidades!...

Xuri se preparou mangas arregaçadas para reagir e reagiu. E rolou mesmo uma adrenalina baixa e negativa que resultou numa brigaiada que começou com Xuri e Fanfa, pegou pelos partidários do Fanfa com os partidários do Xuri, e continuou com todo o boteco matilha cainçalha canzoada e os que passavam pela porta do boteco, uns trape-zapes de respeito, e outros curiosos ali da rua, etc., e foram parar na delegacia do distrito Uitoto, travessa Francisco Leonardo Truda, etc. Muitos dos tais e quais autuados em flagrante delito da ordem pública, etc. E falou e disse o guarda policial de plantão:

- Foram detidos por desordem pública! Tudo que disserem será usado contra vocês mesmos! Estão recolhidos ao xadrez à cela ao xilindró!

            No fim dos cinco dias os aventureiros excursionistas pegaram a estrada novamente toda a comitiva, etc., com destino à Bahia. Estradas na verdade nem havia, andavam por trilhas ou piques abertos pelos mateiros, pelos colonos do lugar, etc. Algumas coisas agradáveis pelo caminho, banho de cascata na cachoeira da Indiana em o parque da Pavuna. Olha lá ali!, as localidades Iguatu, Baturité, Quebrangulo, Lauro de Freitas, Itaocara, reserva da tribo dos guerreiros maué... e pularam para a outra margem do rio Ibicuí. Quanta andança, meu!

            - Este rio este rio tem espiiiinhoooo!... - cantava a menina Lilás, espairecendo.

A estrada o caminho saía bem solto na frente e cheio de manhãs e tardes e pássaros os japus, chororós-escuros, trinca-ferros, galinhos-da-serra, tarãs... tudo como no paraíso, as árvores dos capões arvoredos os milhos-d’água, vassourinhas, inhames-de-folha-roxa... copas com cores diferentes predominando os muitos verdes, até mesmo alguns índios da tribo carabuiana negociando mumbavos e aiós feitos de fibra de caroás trançados e os cestos pacarás. Em troca pediam biguana (faca) machado para cortar lenha e fazer canoa ubá queriam roupa para mosquito nem morder a pele ou para se aquecerem melhor durante a noite chuvosa, etc. Caminhos tortuosos ziguezagueantes.

- Este dia este dia nem é nooooiiiiteeee!... - entoava a menina, zoando.

Longos dias alguns dias de muito caminho e cavalgada. Os lugares que ficavam para trás, vilas, cidades pequenas, Mato Verde, Leopoldina, Sete Barras... a serra da Estrela... um mergulho refrescante bonito na cachoeira do Mendanha. Muitos cambucizeiros floridos na paisagem, floríferos. E outros lugares com nomes e Medina, Santa Cruz de Salinas, Novais, Comercinho, Elisiário...

- Será que ainda chove, seu Pedro? - puxou conversa a menina.

- Se chover de tarde nós vamos de manhã, tá certo?!

A caravana andando devagar e sempre. Os soldados dragões da escolta enjoados de tanto pegar o calor do dia. Os cavalos olhando o caminho, etc. Os burros carregados de mantimentos, etc. O caminho que circulava circundava rodeava no rumo do sertão e outros longes. Que vinha depois daquele morro? Este rio tem nome? Será o rio Betari?

- Praqueles lados tá aparecendo umas nuvens carregadas pesadas...

- Por mim pode chover que eu gosto de chuva.

- Faz parte e eu agradeço.

- E se chover aqui vai chover no mundo inteiro? - questionou a menina.

- Olha, é bem possível e meus parabéns!

- Se chover eu vou beber e de língua de fora, tá entendendo?

- Eu mesmo nem vou apear do cavalo, tá percebendo?

- Prefiro chuva gelada e com gosto de abacaxi.

- Tudo bem. Gosto nem se discute. É uma!

Longe disso, um mês e meio depois, muito estropiados, entraram em Salvador e aos olhos da baía de Todos-os-Santos. A chegada da caravana parou a vila o mar o mundo. Procuraram abrigo no quartel da cidade alta. Em cada rua uma igreja do lado da igreja uma praça e assim por diante. Era a cidade do Salvador e a ideia parecia boa. Se o mundo era redondo caminhando sempre pra frente se chegava a algum lugar, era óbvio, óbvio ululante. Epítetos de Roma Negra ou Meca da Negritude e rodeada de irmãs muito promissoras e Madre de Deus, Lauro de Freitas, Simões Filho, Candeias.

- Se caminhar sempre em frente um dia vai chegar no mesmo lugar, é! - disse o príncipe regente. Mas é longe e decora e demora.

- Nem me fale a verdade nesta hora... uuuufa! - suspirou a Lilás.

- Se andar depressa vai pisar nos próprios calcanhares, pois nem! - disse o Pedro.

Chegaram desfilando pela Visconde de Ipiabas, avenida principal central. Os bairros Ondina e Cabula. Os cavalos e burros, totoque! totoque! totoque!... no calçamento de pedras pé de moleque. A praça Manuel Balaio arborizada com pés de piraguaias e canteiros geométricos de açafrões-do-campo, canas-de-macaco, guanandis com os cravos-do-mato... Os habitantes apareceram nas janelas e outros chegaram mais junto da calçada abanar vivar parabenizar os visitantes. O povo batia no peito e tirava o chapéu. A maioria queria olhar o príncipe bem de perto tocar na sua roupa na bota segurar a rédea do cavalo azulego. Tinham ouvido falar e agora viam com os próprios olhos. E parecia novidade.

- É isso aí!

- Muito bem!

- Mal e mal posso crer!

Xuri nem se importava com nada que nem fosse ele mesmo. Era cão de aventuras e tudo mais que ele gostava de fazer e etc. Saiu do aconchego do quartel, onde a comitiva do príncipe estava hospedada instalada no bom e no melhor e no perfeito e no excelente, etc., e foi pelaí dar suas voltas e reviravoltas e cambalhotas, treinar o faro, farejar encrenca, ruas, becos, largos, quintais... Xuri um cão polêmico. Queria conhecer o arredores do município e quem sabe umas ilhas e ilha da Cajaíba e ilha dos Frades e ilha da Maré e ilha de Itaparica.

Desgarrou foi até um quiosque na rua Marechal Floriano, comprou por ninharia as tais e quais famosas fitinhas milagrosas da Bahia e foi revender. Escolheu e foi direto para frente da igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Eram 14h mais 41minutos. E começou oferecendo aos turistas com seus chapéus na cabeça roupas curtas folgadas, que passavam sorridentes bem a sua frente, diferentes procedências:

- Ei, gente azul! Comprem uma fitinha da Bahia e tenham muita sorte a escolher, etc! Depois nem digam que nem avisei! - latia o insuspeito cão Xuri.

As pessoas os animais os insetos todo tipo de ser olhavam a fitinha perguntavam o preço e quase sempre compravam. Era barato e bonito e santificado. E o mundo parecia bacana olhando desse ponto de vista. Olhando a paisagem. E os turistas eram festivos criativos alegóricos com camisas floreadas carnavalescas e imaginação solta. E o dia ensolarado colaborava. Turistas com procedência múltipla. Só quê!...

- Oh!... Oh, carinha! Que tu tá fazendo aqui, oh, carinha?!

Xuri olhou pros lados olhou para o alto para baixo olhou a baía de mar bonito e nem achou que o caso fosse com ele mesmo. Ficou na dele e orelhas em pé. Ficou preparado pra tudo. Um cão notável de olhos grandes e lustrosos. Só quê!...

- Oh, meu chapinha! Tu tá ficando louco?! Sabe que aqui é o meu pedaço, oh, carinha!

- Tá falando comigo, seu bobo mau? - respondeu brabo o Xuri.

Mas aí então o tal se apresentou e veio bem perto, a cara amarrada, a cara lá dele amassada de brava, a cara e o focinho de cão brabo e feroz e etc. O outro, um cão de focinho curto, chegou bem perto. Os dois cachorros frente a frente e babando ira:

- Vou ser franco com sua pessoa, oh, carinha de nada! - rosnou o cão lebréu desconhecido. Aqui este pedaço de Bahia e de Brasil, etc., é meu lugar e meu negócio nem tenho sócio e ninguém tasca e te arranca enquanto estou falando, entendeu?! É sério! Dá... o... fooo-raaa!! Dá... no... piii-raaa!!... Sai Rooomeeeuuu que o lugar é meu!

Xuri olhou pra ele o tal e qual cão mandachuva do lugar do pedaço, cão deste tamanho e até mais, etc., e disse na lata na latinha e latindo com fúria furioso:

- O seu bafo é muito de onça-vermelha e olhe lá!

- Tu sabe com quem tá falando, seu capetinha de vintém?!

- Nem conheço nem reconheço nenhum vintém, seu pinico de hospital!

E os insultos começaram e tudo podia acontecer. O tal cãozarrão cão-tinhoso ficou da cor do vermelho do roxo do azul do branco voltou pro azul e assim por diante e vice-versa até explodir em rugidos latidos uivos grunhidos rosnados e dentes à mostra. Vociferou e babando, cuspiu marimbondos, pôs pra fora cobras e lagartos:

- Quem manda aqui na área sou eu! E este eu sou eu atende pelo apelido de cão Barbatimão! Nunca ouviu meu nome ecoar aí: Barbatimão, Barbatimão?!... Nem nunca ouviu falar do meu sobrenome?! Nunca cheirou farejou falar meu nome aos quatro ventos?! E este lugar, que é meu desde que eu o preferi, ninguém tasca ninguém aluga ninguém rouba ninguém vende sem a minha permissão autorização por escrito, etc! Então é melhor dar o pira senão eu lhe corto as duas orelhas, seu fedelho, seu filhote de papai, seu etc e tal!...

Os cães são muito francos um com o outro. E nem usam de papas na língua. Nem poupam os desalinhos e desaforos e diz que diz quês. Um cheira o traseiro do outro e se pintar briga melhor ainda.

Assim olhando a tempestade se armando... a temperatura aumentando... parecia que o mundo era muito pequeno e cheio de donos e donas. Era horrível conviver assim. Era perigoso sair por perto por longe aí. E nem nada natural e saudável. Podia sair de casa e nem saber se ia voltar. Fazer o sinal da cruz a cada esquina. Ou sonhar com dias melhores.

Dito o dito pelo nem dito, etc., o seu Barbatimão foi pra cima do nosso Xuri e o nosso Xuri, que nem era de recuar pra nada, foi ao encontro e deu no que deu. Foi exatamente uma pechada, uma brigaiada de dar medo, uma topada das grandes. Tipo assim, como é que chama mesmo dois cachorros na briga? E latiram e grunhiram e se ameaçaram de orelhas em pé e cara a cara e dentes a dentes e baba a baba, etc. Ninguém de fora chegava para apartar e dizer o tal e qual “deixam disso, gente boa!” e “nem precisam brigar por nada!” e “vamos nos abraçar e ficarmos igual irmãos!” e “cuidado a polícia, meus amigos!”, e outras coisas que se diz à toa e de praxe nessas horas.

- Eu tenho dentes caninos maiores que os seus... - ameaçava Barbatimão.

- Eu tenho dentes caninos maiores e mais fortes que os teus... - ladrava o Xuri.

Se um deles tossisse primeiro, piscasse... E então partiram em desagravo se atracaram ferozmente como dois cães de guerra e tudo mais e conseguiram até se atrapalhar de tão briguentos. Avançavam e procuravam avançar na jugular no pescoço gorja goela garganta do oponente. E lapadas bofetadas lambadas pra cá pra lá, pra ti pra mi pra mó. Apareceram alguns macacos bugios alguns lobos-guarás alguns mapinguaris uma ou duas jaguatiricas um tatu-canastra para tentar segurar os malucos e nem conseguiram. Moradores da rua Enduro, jogaram umas pedras e paus e nem conseguiram apartar os dois duelistas. Chamaram os home e os home da doze vieram chegaram levaram os dois meliantes arruaceiros cachorros loucos para a delegacia para a cadeia do bairro Capinauá, rua Alhandra, etc. E tinha mesmo que os tais e quais aranhados briguentos precisavam ficar mofando na prisão. Pra aprender. Pra ver um sol quadrado quadriculado ou um jogo da velha.

- Nosso presídio só fornecerá duas refeições ao dia. Um banho de sol de uma hora por dia. Um telefonema pra família a cada sete dias. Visitas só uma por mês e olhe lá - explicou o delegado de plantão.

            Uns dias depois, uns dias mais ou uns poucos dias menos, passado o cansaço e as primeiras recepções em casas de amigos, Lilás e o príncipe regente compareceram à festa em honra de Iemanjá, a rainha do mar, a deusa das águas, a deusa azul e branco.

            - A namorada do mar, hein, príncipe?!

            - Parece ser uma deusa divina meio mulher meio peixe e linda. Na Europa seria uma sereia e atrairia as pessoas pelo canto encantado, é.

As escadarias lavadas da basílica do Senhor do Bonfim, as ruas por onde a santa ia passar, tudo tomado por um oceano de gente devota vestida como na tribo dos pretos ou negros ancestrais. Todos queriam ver, pedir graças, agradecer e presentear a santa da miscigenação.

- Oh, minha santa de devoção!...

Naturalmente a procissão, depois de descer a escadaria da igreja do templo do santuário, seguiu em busca do mar. Aquele ano com um atrativo a mais: o intrépido Pedro Príncipe Regente.

            - Quanta gente querendo tocar a santa - se espantou o príncipe.

            - É um povo muito religioso devotado e sonhador. Tem muita fé.

            - Eu já tinha ouvido falar nesta santa, santa Iemanjá. É Nossa Senhora.

            - É sempre um motivo de sobra pro baiano festar - disse a menina Lilás.

            A procissão azul e branca continuou e foi embora lenta, o Farol da Barra, cantando hinos de louvor à santa, subindo ladeiras e descendo ladeiras, avenida Sete de Setembro, praça Castro Alves, rua Visconde de Porto Seguro, rumo do Pelourinho. Muitas flores, muitos perfumes que davam uns coloridos e uns cheiros maravilhosos ao movimento da fé. A santa no seu andor vestida de todas as perfumarias aparecia no alto na frente carregada por homens e mulheres devotos. Arrastando muito povo a multidão.

            - Oh, santa da minha predileção!...

Desciam e subiam as ladeiras sem fim até a praia. Muitas pessoas, o Mercado Público, vendedores de lembranças, rua Barão do Rio Vermelho, senhoras de idade e em trajes típicos orientavam os que queriam se aproximar. Findo o caminho por terra na praça Martins Pena, agora a santa seguiria por mar pela baía contornando o Recôncavo Baiano e Salinas da Margarida e Saubara e Vera Cruz e São Francisco do Conde e Santo Amaro. Barcos sem conta apinhados de gente enfeitados com flores panos coloridos cheiro de perfumes de flores, a ilha de Itaparica lá do outro lado. E navegaram balançando nas águas verdes-azuis da própria Iemanjá.

- Me sustente me recomende no céu, minha santinha líder, e amém!...

            Se nem todas as pessoas podiam acompanhar a santa na procissão dos barcos, isso nem queria dizer que a festa para elas tinha acabado. Pela rua, nas calçadas, praça do Imbuí, se formaram várias rodas de capoeira, rodas de samba e batuque, onde vibrou o som espantoso e contagiante e apimentado do berimbau, beeerimbaaau!... tambores, chocalhos, tamborins, reco-recos, bandolins, violas-de-cocho...

            - Tá pra nascer povo mais festeiro, seu príncipe!

            - São diferentes das gentes que conheço. Bastante otimistas. É sangue bom. Eu aplaudo e dou os parabéns. Um dia se eu nascer de novo vou preferir nascer aqui na Bahia. E pegar uma jangada pra pescar em alto-mar.

            No dia seguinte Lilás foi à casa de dona Maria Quitéria e conhecer a menina mais famosa de Salvador, da Bahia, a reconhecida Itã, cor de garapa e cheiro permanente da flor de açucena-d’água. A menina Itã, com seu amuleto juju no pescoço para dar sorte em tudo, fitinhas do NS do Bonfim no pulso, tinha uma vida espaçosa, era menina impossível, muito além da lenda legendária. Nem dona Maria Quitéria de Jesus podia domesticá-la dosá-la segurá-la. A Itã fazia o que queria o que lhe dava na telha na veneta na vontade. E cada um por si e D por todos!

E logo de repente essa Itã convidou Lilás para passear pela cidade. Ali ela reinava e conhecia como a palma da mão. Justamente já descendo a ladeira do Iranxe, cidade alta pra cidade baixa, foi comentando:

            - Óxente!, menina Lilás, no sul todas as meninas se parecem contigo, são assim dessa sua cor, lilases? Pode ser o clima, será? Me diga!

            - Nem, assim só eu mesma. Foi pura sorte. Puro acaso. Puro dedo de D.

            - Óxente!, que coisa magnífica. Você é única, é? Você parece um etê que veio do outro lado da lua, é. Desculpe a franqueza. Me fale!

            - Desculpe a originalidade, mas você tá certa. Às vezes isso nem é sempre cem por cento, o pessoal fica esbugalhando esculhambando e me fazendo menos do que sou.

            - Óxente!, nem se dê por vencida e reconhecida. Eu sou assim, aquele que nem gostar de mim, rá rá rá!...

            Desfilaram a pé por tudo, pelas ruas, nas calçadas, nos calçadões. Barraquinha vendendo caldo de cana, vendendo acarajé, vendendo suco de caju, mel de abelha mandaguari. Agora a avenida Guaicuru passando em frente do museu Manuel Congo.

            - Onde você está me levando, enfim? Seria para Marzagão? Seria para Serra de São Bento? Seria para a praia Marambaia? Campo Grande? Me diga e nem esconda nada!

            - Óxente e Oxalá!, vamos subir umas ladeiras do Pelô, você vai conhecer minha avó. Até parece!

            - Ah, sua vovó mora no Pelourinho! Já ouvi falar que é lindo o tal e qual Pelourinho! Me fale direitinho!

            - Óxente!, pois é lá o terreiro da minha avó. É lá que ela faz suas rezas, é lá que ela trabalha pros orixás. Te conto!

            - E o que é orixá? Detalhe!

            Em seguida pegaram a rua estreita do Jundu para o alto do morro do Louva-a-Deus, igreja Santa Bárbara aí mesmo do ladinho, até chegar na casinha, toda de amarelo por fora e por dentro, janelas e portas de azul, onde funcionava o terreiro da mãe de santo, vó Paraíba, avó de Itã e outros netos e netas mais. O lugar já fervia de gente e a dança, o ritual, os processos estavam em andamento em religiosidade em africana musicalidade, gingado, batuque, roda de dança.

            - Óxente!, menina Lilás, vem aqui que vou lhe apresentar minha avó. É agora!

            Lilás foi levada até uma senhora idosa, vestida de branco, vestida de baiana, turbante na cabeça, vestidos rodados, carregada de pulseiras douradas, colares dourados, brincos dourados, balangandãs e berenguendéns, e rodeada de comadres, e cercada de compadres, e pajeada por muitos manos e manas. A velha e simpática senhora pegou as mãos das meninas e as abençoou, se abraçaram apertado, trocaram beijos, tepe! tepe!...

            - Com muito prazer, dona vovó Paraíba - cumprimentou a Lilás.

            - Querem comer bolo de fubá? Querem beiju? Querem suco de pequi? Podem pegar, podem se servir à vontade, netinhas! - ofereceu a boa senhora.

            Outras senhoras faziam a roda e a dança do processo ritual, enquanto o batuque e o berimbau marcavam o passo, o transporte, a mudança deste mundo para o outro em distância de além. De repente uma moça deu um grito, toda carregada de amuletos, como se tivesse sido atingida e ferida:

            - Ai-ai-ai!... ru-ru-ru!... ai-ai-ai-ui!... - e rodou como um pião eletrizado no centro de umbanda, na sala no pátio, no círculo de tias e tios, etc.

            A tal e qual moça anônima de repente incorporou uma entidade, um ente do além, uma voz grossa, estranha, nem era a voz dela. Como se um homem de voz grossa, dos de antigamente da época dos escravos escravizados, falasse pela sua boca falasse por ela adquirisse seu corpo. E falava o quê? Era uma voz forte que falava duro e nem sempre dava para entender. E dizia por quê? Quase nada se entendia. Em volta todos murmuravam umas orações de dar graças aos orixás do candomblé, Xangô, Oxossi, Iansã... A música nem parava, batuque, batuque, bum! bum!... como se fosse na tribo e cada vez mais rápido. A moça dançava gesticulava andava pra cá e pra lá na sala cabeça baixa gingando com estilo e com nervoso. E a moça dizia na voz pausada que o homem queria falar queria aparecer ou dar um pla!... um oráculo:

            - Eu sou de Paraibuna e vim brincar com ocês... quero comer feijoada no almoço... beber vinho tinto tirado da uva da serra de Santa Catarina... uta! que no meu tempo era tão bom... depois vamos pular carnaval na rua do Pitu... borrifar o sovaco com o perfume de flor de cravina-do-campo... acender vela de libra...

A moça anônima agora rolava no chão de terra batida, tentava rasgar a própria roupa, pulava pra cá e pra lá, sacudia a cabeça perigosamente, as luzes das velas e archotes piscavam, ela nem podia controlar o espírito que a possuía, etc. Era tudo muito rápido e sempre na voz do homem do além, as orações, a dança, os trejeitos, caretas e mímicas. E perguntava coisas em voz rouca, pedia bebida, mandava respostas, comunicava mil coisas, ajudava quem precisava de ajuda, aconselhava quem pedia conselho. Daí que entortava a cabeça, pedia confortos, pedia um doce, pedia um abraço, exigia respeito, mostrava a língua vermelha de álcool de cachaça:

- Preciso ur-gen-te-men-te... de uma rede de dormirrrr!... Miiiinha... gente, onde é a festa de São Benedito? Caaporã fica na serra de Santa Cruz? Quem me presenteia uma rede de dormirrrr!... Quero comer muuuita... torta de mangaba...

Sem mais o que dizer e dançar, a moça possuída pelo fungu, possuída pelo guia caboclo, desfaleceu e caiu de boca na terra, tofe!... Pronto, estava livre do homem fulano de tal que a alugara, que a tomara pela mente, que comandara o seu espírito, que fizera dela um cavalo de sela, e que fizera dela um cavalo de puxar carroça, etc.

- Viva nosso pai Oxalá, Oxalá!... Oxalufã e Oxaguiã de Obatalá!...

Aí, assim, a moça tal e qual, foi levada para outro cômodo, arrastada pelos homens, levada na padiola pelos manos, até se recompor, até bater a poeira do vestido, lavar o rosto e os braços, pentear o cabelo, beber um pouco de água mineral, sorrir para os parentes. Trabalho e obra concluídos. Mais calma foi abençoando os que pediam bênção. E até nem se lembrar de nada nada e perguntar. Mais ainda pra frente foi que todo mundo a parabenizou, ganhou os sorrisos os abraços os beijos, pete! pete!... Tinha fãs e era craque de falar com os antigos ancestrais avós...

- Você foi divina e mágica, minha irmã!

- Muito obrigada! Sou apenas uma intermediária!

- Durante o culto, você pegou minha mão, abençoou, abraçou. Lembra? Foi ma-ra-vi-lho-so! Me emocionei!

- Obrigada!

- O teu dom azul e vem de Oxumarê, minha filha!

- Obrigada!

- Você é um anjo! E é sério!

- Pois eu digo e peço, obrigada!

E a maioria ou mesmo todos dos que assistiram o transporte, a manifestação, a cura, a revelação feita pela moça cavalo de sela, a mágica, se sentiram prestigiados pelos santos e deusas. E o pessoal confundiu mesmo, custou muito a acreditar em tudo ao redor e de volta à realidade, etc.

E alguém reparou direito e ninguém reparou conforme, mas a madrugada já estava lá fora e pegava a todos de surpresa com os primeiros raios do sol do sol. Astro de força que sempre vinha chegando rasteiro sobre o mar, aleluia!, etc.

            Naquela mesma manhã em clima, outro dia, pela manhã, o dia novo e novo dia, enfrentando um sol forte, Itã e Lilás já desciam a ladeira do Marandová frente a igreja convento de São Francisco. Olharam o mar, a praia, sentiram fome e sede, praça Pereira Oliveira, vontade de nadar, de navegar na jangada de vela vermelha, etc. Ali e de repente muito barcos iam pro mar e oceano.

            - Hum!... Vamos comer alguma coisa. Tô com tanta fome que chego a suspirar. Você sim ou você nem?!

            - Óxente e Oxalá!, eu também, bem aqui, hem?!, um vazio... Me conta!

            Chegaram à praia da Boa Viagem, se jogaram nas ondas, brincaram de peixe, brincaram de jacaré, boiaram, nadaram de costas. O sal do mar fazia muito bem depois de uma noite cheia de orixás misteriosos enigmáticos. A seguir um acarajé e uma água de coco. Um sanduíche de queijo, um suco de abacaxi. Um caju, dois cajus.

            - A matemática é de todos! - disse a Itã. O sol nasce no leste e vem simbora!

            - Põe mais essa na conta: são 8h e 18min. - falou a Lilás. Que D e dádiva!

            Lá então pelas 10h e 11min chegaram a uma rua estreita identificada Macu-Nadebe, subindo um repecho ladeado de casas antigas, praça 2 de Julho, onde os figurões da cidade, condes e condessas, marqueses e marquesas, duque e duquesa, mais o príncipe Pedro, inauguravam um centro cultural e artístico, museu Sacaca, etc. Gentes e bichos muitos por aí, olhando, batucando, dançando, conversando, rindo... Houve uma pausa para os discursos políticos e em seguida o carnaval reiniciou, e nem foi pouco, e nem parou mais, talvez e etc. O mundo todo sacudido de ritmos balanços coreografias.

            - Óxente!, menina Lilás, vamos sacudir as cadeiras, vamos rebolar, vamos saracotear, vamos sassaricar, vamos arrasar, vamos varrer o chão com os pés...

            - Dê de de-morôoo!...

            E o mundo foi feito assim e para esse fim engraçado. O mundo todo caiu veio abaixo no som dos tambores atabaques zabumbas e cantou “é ôoo!... é no Pelôoo!... é ôoo!... é no Pelôoo!...” braços para cima, risos, braços para baixo, esticando e encolhendo o corpo, agitando as mãos, perna para cá e para lá, palhaçadas, “veio da negra Áfricaaaa!... pra Bahiaiaiaia... nega do Pelôoo!... é ôoo!... é no Pelôoo!...” e parar de dançar estava fora de questão, nem se podia, era contra a lei das cadeiras, dos pés, do corpo, e todos acompanhavam as marcações, e o tambor obrigando o ritmo da dança, a pegada da dança no ritmo e assim mesmo como nas batidas do coração “tum! tum! tum!...” se saboreava acarajé e “tum! tum! tum!...” se saboreava xinxim e tome “tum! tum! tum!... provocando terremoto entre o casario antigo original e colonial da estreita e sinuosa rua Itaguaí, e mais risos, balanceios, agitações, risos, saracoteios, gargalhadas, micagens, bamboleios, risadas, “ahahahah!...” “guá-guá-guá!...”

 

Segunda Parte

 

            Sempre que amanhece um dia todo mundo vai ver ou vem ver. E amanheceu justamente no dia de partir partirem daquela cidade de tantas e tantas igrejas, movida a santos(as) e tambores “tum! tum! tum!...” Pegariam o rumo do sertão e dos sertões, Jacupiranga, Pariquera-Açu, caatinga, região árida, agreste, quase um deserto muito seco, até um dia chegar em Vila Rica de Ouro Preto, Minas Gerais. Tudo de partida sempre sai na manhã curtida! Dia indescritível de lindo e agradável aprazível.

            - Você nem perdeu tempo com sua amiga Itã, nem é mesmo, minha miudinha? - dizia o príncipe.

            - É, foi o máximo. Aquela Itã, óxente!, é um buscapé e um Oxalá. Baiana é assim mesmo: onde tem agito, tá aprontando.

- É da índole! É intrínseco e inerente!

- Hablou e disse, meu tio e príncipe!

            - E eu rodeado de negociantes, comerciantes, coronéis e caciques. Comendo pastéis e bebendo traguinho de chambirra. Que coisa mais sem graça. Tinha vontade de mandar tudo às favas contadas das gencianas-sem-folhas...

            - Como se diz de aí e por assim dizer: ossos oficiais do oficial do ofício!

            O verão fazia era tão-só nem mais que olhar e ver o verão fazia e refazia as árvores conhecidas, malvas-de-marajó, alecrins-da-praia, itajubas, araçazeiros... e nem somente de árvores mas gorjeios dos pássaros sempre empoleirados nos galhos e ramos o fim-fim-grande o picapauzinho-verde-carijó a coruja-do-mato o gaturamo o são-joãozinho, o sebinho, o sanhaço-frade, o sabiá-laranjeira, a mãe-do-sol...       

No segundo dia de caatinga, deserto de terra rachada e pedregulho, a caravana já sentia o que seria o forno, o mormaço, o sufoco, o cansaço, o sol na cabeça o dia todo o dia todo. Muito sol no cocuruto, água racionada, comida idem, bafão triplicado, desânimo puxado. Os cavalos e burros que ficavam pelo caminho nem podiam ser socorridos e viravam manjar de urubus e carcarás e escorpiões e mocós e matintapereras e... Mais uma pobreza, uma secura, uma aspereza desabrigada pela terra, que era de admirar ver gente por aquelas bandas tentando a sorte sortida. E se era para aprender sobre o país, conhecer os vários brasis, aquela seria sem dúvida a aula mais desanimada desanimadora e exaustiva.

- Juro que estou pra lá de esgotada - reclamou a menina.

- É, sei nada, gente! Mas aqui mesmo acho tinha um rio, um dia desses - desanimou o regente Pedro.

- O rio secou como tudo que secou, etc.

- Nem cabe uma nuvem no céu, sequer.

- E o dia é pra lá de quente... de estrada derretendo...

- E a noite é mais que silenciosa e estrelada...

            Lilás ia observando o acontecimento o fenômeno das formigas uajus, etc. Lilás olhou os morros distantes azulados e nem disse mais nada. Meio querendo se distrair distraída olhando os poucos raros pés de araparis, sem pensar em nada, tão-somente reparava o que estava exatamente a sua frente. Cabia tudo no mundo e ainda sobrava lugar. Na superfície do mundo cabia um exagero.

            - Acho que passaram por acá as lavas de um vulcão, isso também!...

            Assim mesmo como passaram por localidades arraiais pequenas comunidades nascentes, vilas depois futuras cidades, Santo Antônio do Amparo, Camacan, São Manuel, Mangaratiba, Cunha... reserva indígena da etnia dos campa... Todas essas cidadezinhas com problemas no abastecimento por causa da seca prolongada. Povoadinhos vilas pequenas e desidratadas, Areias, Campanha, Barão de Antonina, Passo de Torres... Os rios fininhos e desmamados, ossos expostos. Céu azul profundo que dava para ver a galáxia todinha todinha nas noites totais, etc., dava para ver o outro lado do universo. Uma vegetação baixinha tortinha miradinha de xiquexiques, mandacarus, mairás, caetés-vermelhos, favelas, ocas, cega-olhos... E desastres catástrofes destruições ruínas, praticamente tudo que dava errado em outras partes do mundo também podia acontecer aí e em maior número e repentinamente.

            - Se eu fosse D mandava favorecer toda essa área do nordeste - declarou a menina. É muito sol na cabeça do vivente.

            - Se eu fosse Ele mandava colocar aqui um rio gigante rio Maquiné rio Paraibuna rio Curu e rio Catas Altas e mais umas muitas árvores de grande porte, frondosas, florígeras, frutíferas e capororocas e embaúbas e aroeiras-vermelhas...

            - Se eu fosse D coloriria de pássaros aves das estações, saracuras-do-brejo, galos-da-serra, juruvas, cochichos, anus-brancos, gaviões-fumaças, maitacas...

            - Se eu fosse Ele plantaria as plantas amarelas verdes azuis, babosas-do-mato, muricis-da-mata, sapupiras, juncos-de-cobra, vatingas, manacás-da-serra...

            - Se eu fosse D eu nem esquentava tanto assim o dia todo quase nada, é.

            - Se eu fosse Ele eu nem esfriava tanto assim a noite toda praticamente nada, é - declarou o príncipe.

O suor a provação o sacrifício no agreste duraram quase um mês todo. Praticamente um mês de fevereiro pelo deserto da caatinga e nenhum dia de chuva. Nem chovia há 12 meses. Sol forte de dia, friozinho à noite. Água racionada de dia, comida racionada de noite. Muitas estrelas no céu, muitas pedras-monumento no deserto. As estradas de chão batido e areia solta e pedras torradas.

- Sabe, miudinha! Por quê?

- É mesmo, seu príncipe Pedro. A exclamação que nem quer calar: vai aonde!

Uma tarde, umas 15h e 41min, pouco mais pouco menos, começou a pintar umas aves no céu claro. Pássaros de verdade e nem de ficção, pombas-de-santa-cruz, baguás, oracas, pitiguaris, chopins-do-brejo, dragões, carcarás... Um bando de papagaios-moleiros. Pios das anhumas. Isso deu ânimo novo renovado faceiro à caravana.

- Hei, hei!... Olha lá, olha lá!...

- São os tais e quais periquitos-ricos, tô certo? - dizia o regente.

- Talvez seja quem sabe lá as marrecas-caboclas...

- Onde têm pássaros tem rio tem pastagem e campo mais vegetativo mais verde cheio de frutas cheio de bichos e peixes, etc.

E de fato atrás do morrinho já passava ali mesmo o grande e famoso rio São Francisco divisa do Estado da Bahia com o de Minas Gerais. Era um consolo. Procuraram logo um capuaba (pequeno rancho rústico) de catrumano (morador rural) para saber dos caminhos e de se abastecerem se provisionarem. Tinha quem imaginava comer arroz com feijão, outro era o mocotó, mais ainda bolo de fubá, carreteiro, cuscuz, costela na brasa... e nem todos eram vegetarianos.

Pararam com tudo na porta da frente do coió (casebre de costaneira e coberto de palha de buriti) assustando os cães da casa que vieram latir muito perto dos cavalos dos muares e afrontar o próprio Xuri, etc.

- Ô de casa! - foi o príncipe Pedro.

Sem demora sem delongas apareceu o morador e logo em seguida a moradora e mais a penca de filhos em escadinha servida com ambos os gêneros. Pareciam todos bem curiosos com a novidade de gente forasteira chegando em caravana praticamente sem aviso. A poeira o pó era o principal ingrediente e utensílio da paisagem panorama.

- Pode chegar, seu patrão - foi o modo do homem convidar.

- Precisamos de umas informações precisamos de água de comida, etc. - foi falando o príncipe regente.

- Muito bem... Mas pode desmontar e se acomodar que a casa é do convidado.

Logo sobrevoou a noite, e veio com asas escuras, com sombras, com estrelas amarelas, com mães-da-lua. As estrelas precisavam ser contadas uma por uma somadas nomeadas como se fossem cidades conhecidas, Angra dos Reis, Bananal, Pouso Alto, Balneário Gaivota... (me ajudem!), bairro Roçado em São José, Bom Sucesso de Itararé, Itaoca... Eram muitas e brilhantes e distantes e bem bonitas e bem nutridas e bem siderais. Passeava no ar uma que outra acauã. O barulho do rio São Francisco continuava sem parar indo pro mar e convidando ao sono refrescava o ar. E somente amanhã de manhã pela manhazinha transporiam o caudaloso rio.

- Noite de sertão, noite de pegada, noite de contar e recontar astros e estrelas!

- Teologia tupi, hem! De dia Quaraci e de noite Jaci, mãe dos vegetais!

 O cão Xuri se enturmou rapidinho com os três guaipecas da casa e foram pelaí sempre na calada da noite. Tipo alcateia. Para aprontar e acontecer boa coisa que nem era! E a noite caiu com escuridão estrelada repleta e tal e qual que cachorro vê e fareja até melhor no escuro. Se alguém perguntasse de que cor eram as estrelas ali no céu muita gente responderia: “São douradas!” E o horóscopo inteiro estava aceso desenhado enigmático, porém delineado.

- Ali perto do rio podemos caçar umas queixadas um quatimundéu e tal - orientou o cão da casa apelidado de Maromba.

- Acho melhor pescar uns peixinhos dos bons e dos melhores, hein?! - era a cadela da casa apelido de Anani. Nadam ali no rasinho sempre uns pacamãs uns timburés uns cananas-capetas... Só estender as garras de dentes e, nhaaaque!...

- A gente podia tentar pegar pato-mergulhão da beira do rio. Tá assim de mergulhão dando sopa ali. E nesta hora todos meio dormindo, entenderam?! - falou o cãozinho filhote do casal da casa e de apelido Pariri.

Quem na verdade decidiu foi a visita no caso o cão Xuri, descendente de raça dos cachorros-do-mato. E este mesmo latiu, comportamento canino, falou e disse:

- Quer saber, gente boa! Vamos é roubar milho lá na roça. Quero comer milho verde e apetitoso - decidiu por todo mundo o nosso famoso Xuri.

E todos aceitaram e foram roubar a roça de milho e outras coisas mais, etc. Um ronco rouco de uma que outra coruja-buraqueira. A área sombria do cajueiro-bravo. Já o farfalhar restolhar das folhas da palmeira carandá.

Então, por isso mesmo, pé ante pé, ou melhor, patas ante patas, foram os quatro quadrúpedes se esgueirando por entre as espelinas os espinhos-de-santo-antônio as cidreiras-do-mato os sambacuités, etc., até chegar na beira da roça. E de quem era a roça? Alguém tinha plantado ali o tal e qual milharal e queria colher e etc. Quem mandava no pedaço de horta?, a pergunta que sussurrava baixinho.

- A horta é uma das roças da tribo dos índios apotó - respondeu o cão Maromba. Ou seja, foram eles que plantaram os milhos as abóboras os amendoins, etc., para que a gente colhesse sem pedir licença, rau-rau-rau!...

- E os autóctones apotó ficam muito muito nervosos e bravos e irados se alguém invadir e comer o milho deles, por exemplo - completou Anani.

- Ah, é? Então isso é ótimo. Vamos invadir e etc - decidiu mais uma vez por todos o nosso destemido corajoso e cheio de vontades particulares de fazer arruaças e chalaças e trapaças o tal e qual Xuri.

Foram invadindo foram em frente que a noite nem podia terminar sem antes acontecer a aventura. Até chegar bem rente da lavoura. Até entrar na roça pela porta de trás, vindos da capoeira. De repente... uma voz no escurão do milharal:

- Quem vem lá?

E se ouviu um tiro, “teu!...” Se ouviu esta espoleta rebentar seca solitária.

O estampido ecoou pelo sossego da noite afora adentro e etc. Que susto! E que susto! Os quatro ficaram pregados no chão orelhas em pé rabo entre as pernas e muito atordoados estáticos embolados. Tremiam de susto e as consequências. E se ouvia mais nem grilo falando nem vaga-lume esvoaçando nem camundongo-do-mato rasteirinho passando apressando, nada nada mais se ouvia de tão assustado sossegado quieto que ficou o ambiente. Assim novamente a pergunta a voz na calada da noite e super e abundantemente estrelada a noite pálida:

- Quem vem aí?

E outra vez um tiro, “teu!...” Perfeitamente um tiro, tinha que ser um tiro de arma de fogo espingarda trabuco.

Os quatro na moita atrás dos juquiris. Que fazer que falar que pensar numa hora dessas? Que latir, ganir numa hora dessas? Olhos arregalados orelhas em pé rabo entre as pernas, no mínimo. O negócio era abrir uma toca e sumir. O negócio era deitar o cabelo ou o pelo, ou seja, correr, dar o pira...

- Acho que tem um guarda cuidando da horta, gente - foi o Xuri quem finalmente conseguiu falar, depois do susto gelado total.

- Então é lógico que seria melhor dar o fooora - rosnou a cadela Anani.

- Ou a gente cachorrada cerca ele e pega ele por trás, nem é mesmo? É uma! - latiu o Maromba.

Tudo era possível. O milharal estava um pouco alto e isso dificultava a visão dos au-aus. Do lado do milharal tinha a capoeira por onde os au-aus podiam se mandar, etc. E o negócio tinha que ser bem pensado nos prós e contras, ônus e bônus. E como fazer? E o que pensar uma hora extrema? E era o caso do caçador que virou caça, do procurador que foi encontrado, do bestial que virou besta, da fera feroz que virou decoração de parede, de peixe voraz que virou foto de proeza. As contingências incertas casuais acidentais fortuitas.

- Temos que levar em consideração que ele tá armado - foi o Maromba.

- Acertou um tiro e babau, boa noite amor! - concluiu Anani.

- Acho melhor dar o piiira - foi o Pariri.

Depois de pensar um pouco mais lá com suas orelhas grandes que iam e vinham, Xuri decidiu, aliás, grunhiu e rugiu:

- Vou ver qual que é desse tal guarda aí, etc. Vou até chegar perto. Quero cheirá-lo bem de mansinho e na moita e bem de junto dele, ora! Vou bem sorrateiro. Vou meio que rastejando. Vocês ficam aqui na retaguarda quietos e atrás da moita de espinheiro-bravo. Volto quando puder e se puder.

- Tu tá louco, animal peludo?!

- Nem se preocupem. Eu vou sozinho e vou porque quero e vou rasteiro e vou de mansinho. Me aguardem!

- Nem seja maluco, seu Xuri - foi a Anani.

- Pois o senhor está desarmado, seu Xuri - foi o Pariri.

- É, sim, pensa bem no que ocê vai fazê, seu Xuri - foi o Maromba.

Xuri pegou decidiu nem deu mais resposta nem disse outra coisa, etc., pegou e foi para os lados de onde veio o pipoco dos tiros. Foi e foi investigar. Foi espiar. Foi xeretar. Tinha mesmo que cheirar farejar de perto o perigo, senão nem sossegaria. Achava até que ia viver para sempre. E que tinha isso mesmo o corpo fechado para facas, balas, flechas e etc. Protegido dos santos consagrados óleos.

- Gente! Eu nem nasci pra ser cachorro de quintal e com corda no pescoço, né?!

Na manhã seguinte, aí pelas 10h e 11min., os galos da casa, quiquiriqui!... cansados de cantar desde bem cedo, já a comitiva atravessava o fabuloso volumoso famoso garboso rio São Francisco, o velho Chico, e que ali fazia recíproco a beira da Bahia com Minas Gerais. Quem os levou várias viagens daqui para a banda de lá de uma a outra margem foi o barqueiro catrumano o hospedeiro anfitrião da comitiva o chamado conhecido de nome seu Uri Cidrilha, mais a mulher dona Igarassu, e os filhos a Capeba o Boré o Tapirapé a Uirina - escadinha subindo ascendente da esquerda para a direita. Trabalho de navegação que durou três horas e mais um pouco, e foi tudo bem pago remunerado nos patacões nos mil-réis com uns tostões vinténs a mais da gorjeta.

- Até um dia! - se despediu o príncipe.

- Vão com D! - disse o seu Uri.

- D seja louvado! - foi a dona Igarassu.

- Inté, gente! - mais uma vez o príncipe Pedro.

A numerosa comitiva já em Minas Gerais, solo mineiro, então no meio da vegetação do cerrado, o verde das plantas e biribás floridos, paxiúbas dando frutinhas, murumurus mostrando coquinhos... outras aves que nem urubus, as jacamins, os japus, as iraúnas, as jacutingas, as emas seguidas dos eminhos... milhares de passarinhos brincando pulando de haste em haste no capim-paraturá, coleiras, cardeais, sebastiões, barulhentos, papas-lagartas, furrieis...

A missão então sim parecia companhia de teatro circo mambembe atores e atrizes, ou charanga banda de músicos no entrudo de carnaval. Era bonito e os passarinhos estavam gorjeando. Campos verdes, chapadas, chapadões, anambés-pretos, vales, corredores, banhados lotados de canaranas-de-folha-miúda e piratantãs e sapos-bois, riachos, capim-amargoso, cascatas... cachoeira da Marta... lago do Cuniã... serra do Lagarto... rio Pirituba... morros de pedras rochas estacionadas no tempo, anônimas.

Quem vai em frente nem para nem se volta em direção ao passado. O passado é lembrança o presente é panorama o futuro só ao D dará.

- D escreveu este roteiro, gente! - animou o Pedro, se dirigindo à comitiva. Se nem fosse D, eu nem estaria aqui com vocês. E vocês nem estariam comigo. Ninguém estaria andando aqui. E este lugar nem existiria, é.

A graça dos olhos de Lilás estava nos besouros iaiás-de-cintura. Por que existe a põe-mesa? O croar, crou! crou!... do gavião-puva. As mamangabas procurando pólen. E estava o azul do céu de uma cor só e uniforme. E vinha um vento do mundo todo. E uma montanha emendava em outras montanhas fazendo uma serra corcunda. A laranja-de-macaco pendurada ornada enxertada de cravos-do-mato.

Nem passou para ela Lilás despercebida a pequena confusão das dúzias das dezenas e dos mil milhares bando das fogos-apagous. Nem as pedregosas piriricas (corredeiras) no leito do rio São Pedro... do rio Timbó... Os rios começavam tímidos e pequenos no alto das montanhas. Os rios de MG derretem pedras.

- Se eu nem voltar mais... digam o que quiserem... mas os mineiros têm muito ferro pra vender, uma vez - já disse o PPR.

Antes disso daquilo passaram algumas cidades localidades lugares nomeados e na altura dos acontecimentos ainda pequenos povoados vilas aldeias, Jeremoabo, Paulo Afonso, Pedras de Maria da Cruz, Dourados, Itaóca, Teutônia, Triunfo... campo dos aborígenes macurape... sem parada sem estada, somente fazendo sinal de “bom dia!” e “muito prazer!” e “até logo!” e “até um dia” e “tchau e bênção!”, seguindo viagem, passaram a nado pelo rio Salgado, os cavalos e mulas sabem nadar de pescoço pra fora da água e isso desde que nascem naturalmente. Quem sabe nadar? E por quê?

- O estilo do nada é cachorrinho!

- E muito competente competitivo!

Aqui ali cada árvore sabia as horas sabia o sol e a sombra. Cada árvore no arvoredo sabia falar a língua das plantas. Cada árvore sabia reconhecer o seu lugar aqui ou ali. Cada arbusto sabia conhecer nascer e ficar no seu lugar. E umas e outras plantas eram as legítimas quebra-pedras, sempre-vivas-da-serra, ambrosias-americanas, fumos-de-jardim, goupias... E para se ter uma ideia arborícola, cada planta sabia o mês e dia e hora para verdejar suas folhas folífera ter suas próprias flores e seus suculentos frutos frugífera. Cada vegetal sabe a hora de chegar e a hora de partir escafeder-se.

- As urumbambas são protegidas de Tupã, sabia - explicava Pedro pra sua afilhada a menina Lilás. Tipo de palma palmeira que da muita sombra e coquinho.

Pararam numa reserva indígena a aldeia dos potiguara para recuperar a saúde física e mental. Foram anunciados com o toque das trombetas inúbias ou torés. O cansaço pegou todo mundo no varejo e no atacado. Todos tiveram complicações sérias de exposição ao sol, falta de boa comida, falta de sossego e descanso, etc. A jornada dia a dia fora uma tortura, e uma loucura. Era difícil, mas ainda por cima um privilégio. Era um privilégio, mas ninguém precisava se matar. Ninguém precisava se matar para reviver outra vez na próxima reencarnação.

            - Sabe, Príncipe, ui! ui!... consegui um assado de respeito aqui no meu assento - se queixava a menina Lilás.

            - E eu, então! Nossa! Quanto desconforto, quanto sol, quanto chão.

            - Nem vou poder sentar sossegada por um bom período, ui! ui!... - sempre se lamentando a menina.

            - E o Xuri, hem, rapariguinha?! Como vai nosso bom e rápido amigão?

            - Tá como pode, coitadinho. Precisa se cuidar. Pegou muito sol.

            - Um pouco de sombra e água fresca, comida decente, é o que se deseja para todos - declarou o príncipe Pedro. Ninguém precisa se arriscar pra nada e coisa alguma.

            Pois a aldeia dos potiguara recebeu os visitantes com gosto e muita comida de caça e pesca e coleta. O cacique morubixaba Cambuí, vestido distinto de calção enduape de penas. Era só por uma noite, talvez duas ou três. Os guias os batedores da excursão, que iam na frente reconhecendo o caminho e resolvendo as coisas por antecipação, já sabiam que os índios potiguara nem sabiam falar o português e também que os brasileiros da caravana nem sabiam falar o nheengatu que era uma mistura de línguas tupi-guarani, etc. Ou seja, seria bom que se falasse pouco somente o necessário com mímicas algumas palavras e bem calmo devagar pausadamente.

            - Hoje é um dia solene e edificado...

            - É noite e eu nem escuto o barulho da lua... rolando no vácuo...

            - Foi um dia quente... e um sol pra cada um.

            - O sol sempre pode voltar... e volta e retorna.

            - As pacas em bando chovem de repente no barranco do rio... nos banhados... nas baías... nas corixas... nas cordilheiras...

            Todo mundo da comitiva estava cansado, e todos foram dormir na rede na esteira no jirau, etc. Algumas ocas cobertas de folhas de palmeiras-barrigudas cada qual com uma porta e sem janelas. Uns três dragões ficaram fazendo a ronda para cuidar da segurança do príncipe e comitiva. Era sempre assim. Embora nem precisasse, pois os índios eram de paz e confiança e tinham o sono leve.

            Então, quem quis dormir, quem estava cansado e com sono foi dormir. Quem nem quis dormir foi ouvir a velha cunhã Poranga contar patacoadas potocas narrar porandubas inventar histórias desencantar lendas sagas e aventuras.

            Assim, sentada num cepo de tapaiúna, a cunhã Poranga começou o discurso. Os curumins e cunhantains a Lilás o Xuri os outros mascotes da curuminzada (cada curumim cada cunhantaim tinha o seu mascote ou xerimbabo) e todos em volta da narradora os olhos abertos orelhas altas bicos calados respirações suspensas:

            - Que história vocês querem que eu conte, hum?!

            - Uma história com bichos árvores e fantasmas - sugeriu o curumim Caopiá.

            - Uma anedota com árvores que falam como gente e voam como as gralhas-azuis - sugestão da cunhantaim Suiriri.

            - Seria melhor seres que nascem na água e invadem a terra firme e o ar azul, mãe Poranga - sugestão do curumim Timbapeba.

            - Alguma história que comece com a e termine com e - boa ideia da cunhantaim Cambaúba.

            - Um relato falando dum jabuti ou jabota que saiu de casa foi viajar saiu de casa se despediu dos parentes e foi fazer e aventurar poucas e boas aí - sugestão da cunhantaim Flor-da-Cachoeira.

            - Umas aventuras do jaritataca, será possível? - pergunta do curumim Iperó. Jaritataca remando na igara.

            Diante de tantas sugestões e boas ideias de histórias, a índia Poranga ficou pensando numa lenda ou num mito ou num caso mágico ontológico. E a dúvida ou interrogação fazia nuvem passageira na cabeça da Poranga. E na dúvida decidiu por a mais b e contando de um a dez optou começou por perguntar sugestões de personagens protagonistas heróis heroínas mocinhos e bandidos:

            - E que ator ou atriz preferem como protagonista da história? Pode ser gente bicho coisa, etc. Pode viver na água do rio no ar dentro de uma árvore ingá-ferradura.

            - Hum!... A história da iara ou mãe-d’água - pediu o curumim Araçari.

            - Ah!... A lenda do guaraná - quis ouvir a cunhantaim Suiriri.

            - Uê!... Prefiro o conto do boto-cinza - falou a cunhantaim Flor-da-Cachoeira.

            - Opa!... Quero as peripécias do uirapuru - piou o pássaro Saixê, mascote de Caopiá. Dizem que seu canto é melodia e harmonia e ritmo, ao mesmo tempo.

            - U-huuu!... Gostaria muito muito bastante das aventuras do quati - a cunhantaim Cambaúba. Os quatis fazem ninho no alto das cajaranas pra fugir de predadores.

            Ufa, ufa! Mas a mãe Poranga juntou as grandes ideias de histórias com os ótimos personagens míticos e lendários decidindo ela mesma o seguinte. Olhou todos os seus netos suas netas e convidados(as) ali presentes e decidiu contar a história do:

            - Então vou contar a história do pai-do-mato. Assim, o pai-do-mato tem vários outros apelidos caititu, pecari, patira, cateto...

            - Quem é pai-do-mato e que é apelido, tia Poranga? - era o pássaro Mongo, xerimbabo ou mascote de Suiriri, quem assim indagava. Nem complica, né, tia!

            - Apelido é outro nome que nem chega a ser um nome de batismo, etc. Então, o melhor dos apelidos para o pai-do-mato é... porco-do-mato. Entenderam? E o pai-do-mato, começando a contar a história, é um ser com poderes mágicos excepcionais. E quem sabe até um extraterrestre, etc. Assim, digo eu, quem conta mesmo a história pela minha boca é o pai-do-mato, tá falado? Então foi o seguinte e me sigam...

            “E o pai-do-mato (principalmente vivendo na pele de um porco-do-mato) anda sozinho ou acompanhado. Sozinho quando ele quer andar sozinho e acompanhado de bando da família toda e parentes muitos quando ele quer andar em grupo. Gosta mais de andar em bando no mato fechado à procura de gabirobas de pitangas de azedinhas e outras frutas silvestres comidas leves naturais... 

            - E para onde ele vai? - perguntou para saber a cunhantaim Cambaúba.

            - E para onde foi agora? - para saber o curumim Araçari.

            - E para onde foi no mês passado mês de julho? - latiu o mascote Xuri.

            - E para onde vai quando chove? - a cunhantaim ou menina Lilás.

            A índia velha Poranga continuou com seu relato, e com todo respeito, e colocando uma palavra atrás da outra em fila indiana e sequência, em o seguinte:

            - O pai-do-mato ou tateto persegue e mata quem desrespeita os bichos as árvores as coisas da natureza. Isso é verdade. Isso é fato. Isso é sério. Ele nasceu para isso: se vingar de caçador. O pai-do-mato é dono e chefe de tudo que existe na natureza. Amigo dos bichos e árvores e insetos. Você pode olhar em volta e ver e ouvir o que tem aí, etc. Tudo tudo é propriedade responsabilidade do pai-do-mato. Ele é pai das tapiçuás, do tiom-tiom, do arapaçu-grande, do canário-de-crista-negra, do bagre-de-água-doce, da begônia-de-baraço, do suinã ou da corticeira...

            - Ele é pai do colhereiro? - queria saber direitinho o curumim Timbapeba.

            - Ele é pai de maçarico-pintado? - o curumim Caopiá.

            - Ele é pai caprichoso da acácia-de-flores-vermelhas? - dúvida da cunhantaim Flor-da-Cachoeira.

            - Ele pai-do-mato é pai do macaco cuxiú-de-nariz-branco? - quem tinha a dúvida era o curumim Sirinhaém.

            A índia Poranga fazia concordando com os netinhos, “sim-sim!...” com a cabeça. Olhava o céu e pensava. Olhava a plateia e pensava. E foi descarrilando palavras em adjetivos substantivos advérbios conforme a obrigatoriedade:

            - Pois o poderoso pai-do-mato faz qualquer um desaparecer e para sempre. É só ele querer. E quando quer é porque quer. Ele enfeitiça o caçador desalmado e o homem brabo desaparece e pronto. O pai-do-mato é um ser mágico e muito convincente. Nem queira você desafiar os poderes todos do pai-do-mato. Você pode ser pul-ve-rizado. Você pode virar poeira, fumaça, picadinho, cisco, resíduo, esgoto, lixo...

            - Mas como que ele veio e chegou e de onde, dona Poranga? - cunhantaim Lilás.

            - Cada tribo tem o seu próprio pai-do-mato. Ou seja, cada tribo tem uma lenda original que fala das proezas do pai-do-mato. Então existem muitas lendas do pai-do-mato. Assim somos nós os potiguara. Mas nossos muitos vizinhos irmãos e irmãs também chamam ele de pai-do-mato e têm histórias muitas. Umas diferentes outras parecidas, mas sempre com o pai-do-mato protagonizando liderando atuando. Assim são os vizinhos quencatejê-canela ou os juberi ou os temiminó ou os caingangue ou os campé ou os caiapó...

            “Muitas dessas lendas vindas das várias tribos das várias aldeias, acham que o pai-do-mato é um guerreiro que já morreu e virou santo ou espírito mágico, etc. Aí, todo dia de manhã o pai-do-mato nasce na pele de um porco-do-mato ou taititu e sai aí cuidando do que está errado espiando se tem caçador ou lenhador no mato, verificando qualquer coisa, etc. Ele é contra fazer barragem de rio, por exemplo. Ele é contra fazer fogo no mato, por exemplo. Ele é contra garimpar ouro e pedras preciosas no rio. Ele é contra capturar passarinho pra vender na feira.

            “Então, se caso ele precisar virar uma árvore ele vira. Se precisar virar um outro bicho ele vira. Se precisar virar um enxame de abelhas ele vira. Se precisar virar bentinho ou louva-a-deus ele se transforma em galhinho camuflado, etc. Tudo para assustar e espantar o invasor.

            “Está sempre andando correndo pelo mato e espiando tudo que é lugar. Afinal, tudo lhe diz respeito, tudo é dele, tudo tem de cuidar. Se ele virar uma planta ele pode crescer e aparecer de 50 metros e olhar tudo lá do alto com suas mil e tantas folhas olhos-folhas e que na verdade ninguém desconfia. Ele pode ser um perfeito cogumelo. Ele pode se fantasiar de mandarová. Ele é mil vezes mágico. Ele é um vaga-lume. Ele já foi embira-de-sapo, guaçatonga, samambaia-graciosa, cacto-macarrão...

            - Que saúde tem pai-do-mato, né, tia Poranga! - sugeriu Xuri.

            - Que que pai-do-mato gosta de fazer quando nem está trabalhando e caçando caçador? - pergunta da cunhantaim Suiriri. Ele vive cercado de bichos, por ex?

            - Bem, aí ele gosta de comer frutas caídas do pé, pequi, jabuticaba, mangaba, sete-capote, goiaba-do-mato... e ele sempre está presente debaixo de árvores que dão frutos. Pois o pai-do-mato é frugívoro. E gosta de comer frutas e certas folhas folífago e certas flores e certas raízes e certos grãos granívoro... Quando quer descansar entra no tronco de uma árvore e deita e dorme um sono sossegado.

            “Pai-do-mato quando é porco-do-mato ou caitatu gosta muito de andar em bando. Eles conhecem toda a mata e nem se perdem um minuto sequer. Aí eles vão para uma beira de lagoa ou rio ou sanga lamber o barro preto.

            - Lamber o barro? Mas isso é normal, dona Poranga? - o curumim perguntou o Araçari.

            - Claro que é normal para um porco-do-mato. Lambendo o barro ou certo tipo de lama eles encontram sal da terra, sabia? O sal é ótimo para a saúde. Claro que sem exagero. Somente umas lambidas para temperar as folhas as raízes os frutos que eles comem. Já que a comida deles nem tem sal ou nunca é salgada... Então é o jeito.

“E depois os porcos-do-mato fazem outras coisas em bando e em família vara. Eles viajam por um território só deles. Eles bebem água juntos e se alimentam de certa fruta todos ao mesmo tempo e quem pode mais chora menos. Caminham pelo mato todos juntos e vira uma bagunça, querem saber. O bando chega até a assustar a própria onça-pintada. E se veem pela frente um inimigo ou um caçador desalmado eles já batem os dentes que é para mostrar que estão irritados e prontos para a briga. Enfrentam qualquer um. Correm muito e farejam melhor que cachorro. Atravessam rio a nado. Quando chove eles gostam e quando faz muito calor eles deitam e rolam e focinham no lodo. A terra úmida faz bem pra pele e reduz o efeito dos raios ultravioletas.

            - Como o pai-do-mato conseguiu virar esse ente mágico cheio de sortilégios e profissional da floresta? - se interessou a cunhantaim Flor-da-Cachoeira.

            - Eu acho que ele poderia ser um bicho muito maior se ele quisesse - o curumim Caopiá deu a sugestão.

            - O pai-do-mato pode ser o que ele quiser? - a cunhantaim Cambaúba perguntou.

            - Afinal o pai-do-mato é um deus ou um diabo? - pergunta importante da cunhantaim Itaboraí.

            - Acho que é tudo mentira desse tal e qual pai-do-mato, quer saber - foi o Xuri.

            Índia Poranga esticou as pernas de tantas e tantas caminhadas, os braços dormentes, etc. Olhava os netos e netas e visitas com um olhar pensativo. Ela conhecia todos eles e já tinha pego no colo todos eles, etc. Pois continuou engrossando o caldo:

            - Pai-do-mato é mágico quando ele quer. No normal é um porco-do-mato. A diferença é que um dia o grande o super o mega o feiticeiro Tupã pensou pensou e disse falando consigo mesmo: “Preciso criar um protetor da mata e que seja um bicho do mato. Então, já sei: vai ser um porco-do-mato.”

            - Por que Tupã escolheu logo o caititu? - quis saber explicado o curumim Timbapeba. Eu escolheria uma harpia, por ex.

            - É meio que esquisito essa escolha, porém... - o curumim Araçari achou dúvida.

            - E se Tupã tivesse escolhido a juriti-pupu nem seria também muito justo? - pergunta do cão mascote Xuri.

            - Bem, aí Tupã escolheu o porco-do-mato e estava escolhido. Deve ter tido as suas razões divinas, certo? Achou assim e escolheu bem. E Tupã fez dele do tateto um ser mágico e original e esperto. Para cuidar do mato e dos bichos tem que ser muito poderoso e mágico e invisível. Para dar conta de caçadores e lenhadores e garimpeiros desalmados é preciso ser forte mas muito independente autossuficiente. E a melhor das vinganças que o pai-do-mato tinha nas mãos ou nas patas ou nos cascos era: surpreender caçadores ou mateiros e fazê-los desaparecer no ar, assim, oh! num passe de mágica, num piscar de olhos, pofe!... E de maneira impressionante sensacional!

 

Terceira Parte

  

            E surgindo o dia seguinte, os visitantes partiram juntos e de uma vez só. Mais ou menos bem dispostos com 8h e 20min. Jacás carregados. Toda a comitiva a caravana a procissão a excursão. Prosseguiram de viagem. Como se nada houvesse acontecido. Como carreira de formigas-correição. Como se tivesse acontecido. Um pé de cedro-batata só podia ser muito estranho ali parado no campo e olhando ao redor de si. Os pássaros pica-pau-verde-barrado, joão-tolo, araponga-da-horta, gibão-de-couro, chupa-dentes-de-cinta, cambada-de-chaves... voando de sol em sol de céu em céu de árvore em árvore de planta em planta cardo-ananá, alfazema-de-caboclo, capim-navalha, abacate-do-mato... e passarinhos rápidos... um sem-número deles... inúmeras vezes...

            Lilás, sem querer, ficou pensando em como seria confortável se D voltasse a habitar outra vez o paraíso. O tempo passava e bastantes. Uma árvore bem de manhã e amarela como ipê-amarelo. O sol se lembrando como se fosse hoje. Era melhor ser um passarinho. Foi bom conhecer de passagem o rio Iguá. Os maracanãs criavam polêmica nos pés de javaris.

            - A grandeza dessas montanhas e tudo debaixo do sol e de manhã...

            Nem há tempo a perder. O voo majestoso do jaburu. Pássaros abrindo voo a partir das árvores e sabiás-da-mata, arapongas, saurás, vim-vins, corujinhas-do-mato... bando de papa-cacaus... Aves pássaros passarinhos ágeis tranquilos radiantes risonhos lógicos engraçados. Uns esperando a chance de caçar, outros fugindo de predadores.

            E o caminho era sempre longo pelas serras e chapadões e trilhas e estradinhas do cerrado das Minas Gerais, etc. Aqui e ali toda hora cruzavam com um rio de itaipava o rio das Almas as cidadezinhas localidades ainda nem mencionadas de Almenara, Medina, Rio Manso, Jussari, Quissamã, Campos dos Goytacazes, Tabaí (que este município pertence ao vale do rio Taquari). E serra do Cipó, pedras pedregulho rochas expostas e à flor da terra. Vilas famosas afáveis gentis ternas meigas deliciosas aconchegantes, estradinhas subindo montanhas igual trilhas de formigas-carregadeiras.

            - Bons ares, comadre ingazeira!

            - Boa nota, compadre pé de alquequenje-amarelo!

            Na quinta-feira da outra semana já de manhazinha madruga e boa parte da manhã uma chuva de enfrentar. Trisques e trisques e faíscas de energia abrindo o céu escuro na atmosfera cheia cheia de e-le-tri-ci-da-de. Abriu a chuva, choveu. Até o meio-dia e meia choveu o que D concluiu. Na tarde voltou o sol de raios ultravioletas. Abriu a tarde com sol e a noite prometia estrelas muitas para contar, etc. Ou era chuva e barro, ou era sol e poeira. Mas sempre a fadiga o cansaço da longa jornada, e assim por diante. Até se acostumar.

            Os reflexos do sol na água nas cores no verde das plantas dos alagados iaupês-jaçanãs, catuabas-do-mato, ouricuris, lixeiras... O mundo era governado pelo capim-rei. O planeta precisava e muito dos sabiás-pretos, catirumbavas, bicos-miúdos, siriúvas... A terra estava rodeada de canelas-de-ema, bananeiras-bravas, facheiros, carludovicas-brasileiras, cerejas-do-mato... O cipó-timbó era uma liana sempre de leste para o oeste, flexível vistoso saboroso aparentado.

            Somente os lugares são felizes e aprendizes. Bandos de perdizes perdigões perdigotos estes perdidos dos pais, piu-piu! piu-piu!... rio Santana...

            - Minas Gerais nem tem praia de Co-pa-ca-ba-na... hein?!, minha filha - puxava conversa o príncipe regente Pedro. Praia de Mamucabinhas...

            - Nem mesmo um rio largo soberbo de soberbia soberbão, tipo... Tocantins, Purus, Solimões, Jacuí... - completava sua parte a menina.

            Os saripocas-de-bico-riscado cantavam preferencialmente logo de manhãzinha e isso era honesto. A arnica-do-campo florescia em setembro até novembro. Os tamanduás-bandeiras pastavam formigas e cupins e térmites. Ao meio-dia de sol forte, a tapiíra escolhia deitar debaixo na sombra da faveira. Na tarde descabelada beirando a noitinha era a vez da suindara dar umas circuladas voo baixo reconhecendo o ambiente, etc. Uma família de gambás ou sariguês, pai mãe filhotes em ninhada de oito e fila indiana; a família unida em busca de novos horizontes e comida e um lugar mais seguro pra ficar. Ora se tanto!

            - No calor do dia de verão verdadeiro... - suspirou o Pedro. Sinto na pele.

            - Até que o sol aqui é legal - e já respondeu a menina. Um sol de montanhas.

            - Oh, linda situação para se construir uma vila! - disse o príncipe.

            - Pois se nem é! Posso sugerir assim a Fazenda Vilanova ou Brochier ou Cambé.

Lilás olhava as plantas vegetais arbustos com suas cores naturais e troncos e folhas e flores de tamanhos comportados diversos. E colheram araticuns, goiabas-do-mato, muricis, tarumãs, pitangas... As árvores se agitavam, com vento nas costas, pra melhor serem avaliadas reconhecidas apreciadas desfrutadas. O beija-flor-brilho-de-fogo é dos indivíduos passarinhos que gostam do néctar das flores, assim como as abelhas em geral, e são nectarívoros, são polinófagos. E todos são o que são.

- Trajeto largo ondulado e maduro, é.

            Passaram uma pontezinha de pedra quando por baixo rolava um rio o tal e qual rio do Peixe. Quanto tempo de espera para o rio chegar até o mar? Quem disse por que que o rio tem de chegar até despejar no mar? O mundo total tinha um mundo que ia pela direita do rio do Peixe e outro mundo que vinha pela esquerda do mesmo rio. Uma cidade atrás da montanha e Baependi, outro lugarejo e Pati do Alferes e arraial Pitimbu localidade de Cachoeiras de Macacu... área de preservação ambiental São João Marcos... território dos caeté... parque Morro do Ouro...

            - Por que que o mundo tem tanta montanha, seu príncipe Pedro? - era a dúvida momentânea instantânea e urgente da menina. Tudo muito amarrotado.

            - Montanhas que escondem ouro, sim senhora!, querida amiga miudinha.

            - Então são montanhas e serras muito ricas!

            - Sim. Debaixo dentro durante destas montanhas tem muito ouro escondido.

            - Eu duvido e faço pouco!

            - Montanhas de ouro de diamantes de ferro manganês zinco alumínio, etc.

            - Mas por quê? E como? E de onde para onde?

            - Olha, miudinha! Sei lá. Sempre foi assim. As pessoas preferem ouro e prata quando de vez em quando diamantes. As pessoas vendem pedras preciosas rubis ametistas ágatas esmeraldas... para comprar prata e daí sim pagar o ouro dos quilates. As gentes ganham ouro prata pedras preciosas... para comprar mais ouro em barras.

            - Meu pensamento é uma árvore ubiratã - desabafou a menina.

            - Meu pensamento voa como as andorinhas-do-campo, para chegar mais rápido.

A caravana avistou foi chegando chegou e entrou em Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto, céu baixo, terça-feira em meio-dia sem sol, 12h e 34min, nuvens baixas arrastando montanhas, vento conforme, várias casas cobertas com telhado de sapê. Os bichos os cães soltos nas casas vinham dar as boas-vindas saudar vivar, algumas casas cobertas de telha de barro cozido e com janelas vidraçadas umas à moda guilhotina outras venezianas.

Os visitantes decidiram aproveitar a rua estreita Visconde de Inhomirim. Junto a uma igreja em construção - igreja São Francisco de Paula - pararam as alimárias, apearam, saciaram a sede no poço público tanque bica que vinha da montanha mais próxima, deram água aos cavalos e aos burros, e agradeceram ao santo do dia. Na igrejinha ali trabalhavam uns homens escravos alguns outros alforriados uns brancos um mulato pequeno apelidado Aleijadinho.

O arquiteto Antônio Francisco Lisboa já reconheceu ou adivinhou que era para ser o príncipe Pedro e sua comitiva. Então, fez as mesuras, se curvou, sorriu um sorriso quase sem dentes, muito mal na aparência, todo estropiado, praticamente em farrapos, mal na imagem de foto. Falou assim o mestre artesão e construtor pedreiro:

            - É mesmo a sua alteza Pedro Príncipe Regente? Meus olhos nem me enganam?

            - Com certeza, meu amigo escultor - o príncipe Pedro apontou para a comitiva. E mais essa gente toda que me acompanha desde o Rio de Janeiro, capital do Império.

            - Ficamos sabendo pelos viajantes e mercadores que o príncipe estaria para chegar. O povo o aguarda com ansiedade. Só nem tínhamos ideia exata do dia - dizia o Aleijadinho, quase quase comovido deveras.

            - E por falar em povo, onde anda todo mundo? - questionou o príncipe.

            - Pois é, alteza. O povo está todo concentrado em frente da intendência (hoje prefeitura) onde julgam um traidor que atentou contra a Coroa portuguesa.

            - Está bem, vamos até lá. Obrigado pela água, amigo.

            - Sejam bem-vindos a nossa cidade, alteza Pedro Príncipe Regente e comitiva.

            Após andarem praticamente toda a rua Padre Rolim, chegando à intendência, o príncipe regente e sua caravana esbarram com um tumulto no meio da praça, no chafariz Marília de Dirceu, largo do Rosário. Bastou serem reconhecidos para que toda a multidão se voltasse para eles e esquecesse o resto. E foram recebidos com aplausos, vivas, beija-mãos, salamaleques, ademanes, beija-pés, tapinha nas costas, fogos de artifício, uivos, acenos, bimbalhar de sinos, lenços agitados... Todos os viajantes deram a volta com a perna na sela e desmontaram da alimária e bateram o pó e a poeira.

Veio o governador da capitania das Minas Gerais o seu Cláudio Manoel da Costa, e todo agitado, todo nervoso e agitadíssimo, para recebê-los, cumprimentá-los, vivá-los, acarinhá-los, etc., abrir as portas da vila, começando diretamente com a saudação ao príncipe Pedro. E com reverência, sorrisos e brilho nos olhos, beijou a mão do regente em sinal de respeito e hierarquia e honra, fez as gentilezas de todo o povo:

            - É uma felicidade para todos nós da comunidade poder recebê-los, sua alteza Pedro Príncipe Regente e acompanhantes! Um grande acontecimento para esta cidade de Vila Rica e para Minas Gerais! É o dia mais feliz das nossas vidas! Sejam bem-vindos! Estávamos aguardando a chegada e com muita expectativa!

            - Obrigado. Mas, pelo que se vê, há problemas e controvérsias e os quiproquós.

            - Pois é, alteza. Apresentávamos ao povo o traidor da nossa estimada Coroa portuguesa. Pegamos o aventureiro em delito grave e vamos enforcá-lo para servir de alerta e exemplo a outros que por acaso venham a pensar a mesma asneira. Ele tentou fazer a independência das Minas Gerais... e quem sabe do Brasil...

            - Quem é o homem?

            - Um revolucionário, um ex-militar alferes, um bandido de apelido Tiradentes. Nem é de família conhecida, um tal e qual Joaquim José da Silva Xavier.

            - O senhor governador então está a me dizer que se pretende enforcá-lo, esquartejá-lo, é isso?

            - A ideia era julgá-lo, alteza Pedro Príncipe Regente, no rigor da lei e como a lei manda e ordena e permite. O povo assim o quer assim o exige. Pensamos julgá-lo e mandá-lo ao Rio de Janeiro onde seria enforcado e esquartejado. O povo da capital teria um belo espetáculo um grande desfile uma concorrida quermesse e faria um magnífico carnaval de rua. Aliás, o povo carioca ou fluminense adora um enforcamento em praça pública e lá mesmo no parque de Santana.

            - Quero que parem com esse julgamento até eu me inteirar de tudo que está acontecendo e por quê. Por agora gostaria que eu e comitiva tivéssemos bons banhos, boas comidas, confortáveis camas, etc. A viagem por esse país de sertão e sertões foi longa, cansativa, extenuante. Necessitamos de repouso, sono dos justos, três dias e três noites de sono e bons sonhos e silêncio. De acordo, senhor governador?

            - Ouço escuto e obedeço sem titubear, alteza Pedro Príncipe Regente! No que der e vier sempre conte comigo e o povo desta comunidade, senhor!

            E nem houve mais nada naquele dia fechado nublado carrancudo encasacado. O julgamento foi suspenso até segunda ordem e o preso reconduzido recolhido à cela na cadeia pública da rua do Tereterê. Quanto à comitiva, essa foi instalada na intendência mesmo e o príncipe na casa do fazendeiro rico proprietário de 300 escravos e muitas minas de ouro fazendas de gado o tal e qual Tomás Antônio Gonzaga, etc. Os sinos da igreja de Nossa Senhora do Pilar nem pararam de bimbalhar em festa em saudação. Aliás, todas as igrejas fizeram o mesmo e por merecer. E também por toda a cidade de Vila Rica de Ouro Preto um chiado de chuva para provocar bons sonos bons sonhos, e com somente os possíveis e mansos.

            - Que temos nesta vila? - perguntava Lilás ao seu mascote cão Xuri, e ela mesma respondia de imediato. Temos ruas estreitas e ladeiras e igrejas e capelas...

            No meio da tarde começou continuou a chover ainda mais forte. Era justo. O mau tempo pegou a cidade e a trancou em casa. A rua Marquês de Olinda, a principal e mais concorrida, estava deserta e abandonada. Quem sabe outras ladeiras. Tarde de chuva como tem de ser. Um pouco de frio no vento do sul. Água escorrendo na sarjeta junto às casas aos prédios de estilo rococó, simples assim. E o som da chuva no telhado e na rua dava um gosto de dormir que só ouvindo. E a maioria foi dormir e todos foram dormir muito bem naquela tarde úmida, e depois de tomar o bom caldo gorduroso nutritivo revigorante. Todos foram dormir sem pensar que podiam fazer muitas coisas e isso e aquilo e outras mais todos os dias e nas horas e nem só naquela tarde, etc.

            - Vila comovida e comedida...

            O tempo chuvoso e meio frio, no entanto, nem abalou os planos secretos que, junto com seu amigo Xuri, a menina Lilás pretendia planejava executar naquela mesma tarde. Acompanhada seguida ladeada pelo cão de linhagem aracambé, desceu a rua Alvarenga em direção à periferia bairro Nova Vicenza. Caminhou a rua Barão de Vassouras, passou pelo mercado São Pedro, a rua Dom Helvécio, a rua Passa Dez, etc. Minutos depois os dois amigos chegavam à igreja onde encontraram o tal Aleijadinho, este entregue as suas obras de arte sacra encomendas religiosas. Ele ainda no trabalho iluminado mais ou menos por alguns candeeiros lampiões a óleo de bacalhau ou baleia e velas de sebo animal.

            - Seu Aleijadinho, eu poderia falar um minuto com o senhor?

            - Oh, pois nem, miudinha. Vocês acompanham o príncipe Pedro, se bem me recordo. Que desejam deste humilde servo de D?

            - Olha! Eu estava pensando em livrar o Tiradentes da prisão, só quê!...

            - Mas isso é suicídio, uma loucura!... Que ideia!

            - É que nem posso ficar parada e ver aquele herói ser morto assim... sem mais nem menos, entende?! Temos que fazer alguma coisa! E hoje mesmo! De repente vão levá-lo arrastá-lo ao RJ e lá vai ser pior e tudo estará perdido.

            - Eu também sinto dó do pobre homem mas, como se pode fazer? Se nos pegarem tentando libertá-lo vão nos enforcar junto com ele.

            - O príncipe Pedro nos salvará caso nos peguem com a mão na massa.

            - Olha, miudinha, nem sei se o príncipe ficará do nosso lado. Você sabe, ele é membro da família real. E são os nobres portugueses que mandam no país e servem à Coroa. Os mesmos que pretendem enforcar Tiradentes, etc.

            - Uta! Mas eu vou livrar Tiradentes da cadeia. O senhor pode me ajudar, o senhor quer me ajudar, o senhor gostaria de me ajudar? Entenda o meu lado, seu Aleijadinho! O certo é o certo!

            O grande artista escultor ficou de ânimo desconsolado e de braços caídos. Nem conseguiu convencer a menina Lilás e o cão que seria uma operação arriscada e, ao mesmo tempo, nem queria passar por covarde. Que fazer numa hora dessas? Como resolver um problema desses? Que fazer em caso de enchente? Que fazer em caso de incêndio? Ou como se fosse.

            - Ah, se ao menos eu tivesse a minha boa saúde! Que planos a menina tem para libertar o aventureiro revolucionário? Pode falar, sou todo ouvidos!

            - É o seguinte. Vamos combinar uma coisa e antes que anoiteça, e mais isto e...

            Lilás expôs seu plano detalhe por detalhe, passo a passo, sinais e pontos e travessões. Discutiram um porém ou outro e foi, fecharam o caso. Estava decidido. Mãos à obra. E da teoria para a prática. O plano a planície o planalto o planejado. O rumo a direção e os sentidos.

            - Eu aceito entrar na aventura mas... Quero que saiba de uma coisa: estou para pegar uma gripe horrível.

            - Vai dar tudo certo, imagine, será uma moleza.

            - Meu D, se fosse há vinte anos!... - resmungou o Aleijadinho, se recordando dos seus idos tempos de rapaz cheio de força e coragem e vontade e tempo de sobra.

            Lá pelas 17h e 08min., debaixo de uma chuva voluntariosa copiosa, chuva capacitada comprometida, ladeira estreita rua Barão de Vargem Alegre, iniciaram a operação para libertar Joaquim José da Silva Xavier ou o vulgo apelidado Tiradentes.

Aleijadinho e cão Xuri se encaminharam para o portão principal da casa da cadeia localizada na rua do Tereterê, em frente da praça Monsenhor Castilho Barbosa, e ali ensaiaram jocosamente um teatro circense. Aleijadinho gritou, esbravejou, teimou com o pobre cão por n fingidos motivos. Tudo bem esquisito. Em princípio, os guardas olharam e nem queriam sair da guarita. Nem queriam se molhar, nem queriam se irritar, nem queriam conversa com bêbado, nem queriam conversa com mendigo maltrapilho vagabundo vadio acompanhado de cão vira-latas.

E tudo mais ou menos muito estranho. Chovia, e sem parar. Todavia, o alarido foi tão grande, tão sem propósito, tão idiota, que as sentinelas nem tiveram outro trabalho outro remédio a fazer senão intervir. E muito tensos e com os nervos à flor da pele, provocados, resolveram ver do que se tratava. Foi um deles que saiu na frente:

- Isso nem pode ser - disse o guarda Um.

- Isso é coisa do fim do mundo - disse o guarda Dois.

- É uma falta de respeito com a lei e a ordem - disse o guarda Um.

- Nem só com a lei a ordem e o progresso mas com a gente também, os representantes da lei da ordem e do progresso - disse o guarda Dois.

- Então eu vou lá - decidiu o guarda Um.

- Então vamos lá - decidiu o guarda Dois.

- Na chuva para se molhar - disse o Um.

- E molha um e molha dois - disse o Dois.

- Chove chuva debaixo de aguaceiro - hablou o Um.

- Com galochas e sem guarda-chuvas - hablou o Dois.

Assim, ali na calçada de pedras pé de moleque, os guardas chegaram e conferiram aquele homem aparentemente bêbado, gesticulando e bufando a torto e a direito, ora contra o cão, ora contra a chuva, ora ainda contra a própria miséria, a política, muita coisa, etc. O soldado Um se aproximou mais, então, ameaçou com o mosquetão e a ponta pontuda da baioneta, ordenou:

            - Oh, camarada! Que palhaçada é essa? Por que nem vai incomodar na loba boba da tua rua de lua cheia! Vai timbora, vai!

            - Meta-se com sua... vida... cuide... de sua... - Aleijadinho fingindo estar bêbado ou até muito binguço.

            - Vamos, xô! Cai fora antes que lhe passe a borracha ou o cassetete!

            - É minha mulher... nem sabe?!

            - Sei. Ela voltou pra casa dos pais, ela te abandonou, ela nem te aguenta...

            - Ela... ela é uma dama... sem muito, bla-bla-blá!...

            - Quem manda casar sem confiar. Agora cai fora. Minha paciência está se esgotando. Já se esgotou. Nem tenho mais paciência para esperar! Desinfeta!

            - Preciso...  minha esposa...

            - Sim, faça isso! Mas agora saia! Te arranque, borrachudo!

            A dupla de vigias pressentia encarar uma situação limite. O diálogo estava realmente bem amalucado bem brabo destemperado estressado nervosão. E então, dizendo assim, ao mesmo tempo que falava, o guarda Um quis empurrar o pobre homem com a ponta da baioneta presa no mosquetão. Soldado Um foi determinado pra cima do Aleijadinho mas desistiu na hora ao ver o Xuri arreganhar os dentes e rosnar, grrrrr!... O caso ficou num susto e num impasse.

            - Se retirem daqui o quanto antes! Fora! - dessa vez quem gritou foi o guarda Dois. Já deu pra conta, malandros!

            - Está bem, já tô indo... droga! Estamos indo... né, cãozinho?! - resmungou Aleijadinho.

            - Cada vez que me aparece uma com cara de duas ou três - desabafou o Dois.

            Aleijadinho, assim e então, entendeu que já tinham distraído os guardas o suficiente para que a operação pudesse dar prosseguimento e resultado. A representação toda o teatro todo já durara uma boa meia hora. Trinta e oito minutos bem exatos. Como o artesão nem viu nenhuma anormalidade, nenhum alerta nenhum alarma que pudesse denunciar algum fracasso da menina, considerou que assim tudo correra como fora planejado. Isso mesmo, chamou o cão e, devagar e sempre e sob a chuva torrencial, muita água, mundo encharcado, subiram a ladeira do Aranhi e já nas imediações do museu Mariano Procópio. Chovia, e bastantes. Chovia e como descia água ladeira abaixo, nossa! Qualquer um podia ter a impressão de que nunca mais cessaria de chover e o sol e a lua nunca mais reapareceriam. E de uma vez só toda a água do universo.

            - Fizemos tudo certo, Xuri? Será? - perguntas do Aleijadinho para o seu companheiro de empreitada e jornada.

            - Au-au-au!... (tradução simultânea da língua latido, se fosse possível: “Faltou pouco pra eu nem morder um ou dois deles, quer saber! Isso muito me irrita.”)

            - Eu só nem queria ser preso... As masmorras daqui são péssimas e nojentas.

            - Au-au-au!... (“Esse negócio de ser preso e ser mantido na jaula nem passa pela minha cabeça, gruuu!...” Isso também me deixa em cacos, quer saber outra.”)

            Enquanto o Aleijadinho e o Xuri faziam lá o seu teatro no portão principal, Lilás aproveitou a falta de atenção das sentinelas e escalou o muro. Já no pátio interno, procurou entre as várias celas gradeadas a do Tiradentes. Foi difícil procurar sem um mapa, naquele frio, naquela solidão, naquele submundo, naquele molhado alagado. Foi mais difícil encontrar o herói no labirinto. As coisas difíceis, porém, são honestas.

Parecendo brincadeira de criança ou peça de teatro suspense, a menina só foi encontrar o Tira bem nos últimos instantes e na última cela. Fazer o quê? E rapidamente logo depois que o herói foi encontrado, e que soube disso e soube daquilo, trocaram umas ideias a respeito da fuga. Repassando os ditos e falados planos, nos mínimos:

            - Seu Tiradentes! Tô aqui com a missão de livrá-lo. O senhor quer vir comigo?

            - Que dúvida. Mas, e os guardas? Como entrou aqui, miudinha?

            - Pulando o muro. Temos um bom tempo. Se o senhor me ajudar com essas trancas pesadas, upa!... Sairemos daqui e correndo.

            Um pouco de esforço, boa vontade e a necessidade de dar o fora, nada nada de magia, e já o prisioneiro estava livre das grades e correntes. E falando perguntas pertinentes e óbvias e comuns numa hora dessas:

            - Quede o resto do pessoal, miudinha? Você veio sozinha? Você é intrépida?

            - Tem uma turminha ali fora dando um apoio estratégico uma cobertura. Simboralá, seu Tiradentes! A jornada promete!

            - Vamos viajar? Vamos para Guaranésia? Vamos para Ubá? Nos bandearemos para Porto Feliz? Quem sabe a ilha de Itacuruçá, hein?! Eu posso ir para onde for, baía de São Marcos... porto do Mucuripe... e outros bem longes. Prefiro praias! Que tal a praia dos Carneiros a praia da Pedra a praia do Cassino...

            - O senhor com certeza precisará se mandar e urgentemente. A chapa vai esquentar e até queimar, seu Tira! Temos que escolher um destino e é pra já. O mundo é pequeno para quem precisa se esconder!

Do pátio calçado de lajotas ou tijolos adobe, rapidamente pularam o muro de cacos de vidro arame farpado pontas de lança, e caíram no mato. Evitando as ruas centrais e casas habitações para nem serem descobertos. A noite já estava caindo e mais a chuva o vento frio e tudo pontilhado de coaxos e latidos e cri-cris e vu-vuuus!...

- Tenho a sensação de que alguém está nos seguindo. Você nem sente a mesma coisa, amiga miudinha? - pergunta aflita do Tiradentes. Estou todo arrepiado e de frio.

- Com essa chuvarada toda, seu Tira!... Nada, que nada, nem tem ninguém nos nossos calcanhares e garrões.

Tiradentes estava debilitado, fraco, devido a pouca comida, comida podre, e muito aos maus tratos que recebera nesses últimos dias. Mesmo assim, com sacrifício e sufoco, uma hora, pouco mais, chegaram no alto de um morro - morro do Rola-Moça - que circundava a cidade, que via a pequena cidade de longe. Ali, assim e assado, entraram numa casa em ruínas uma choça uma oca um casebre qualquer para descansar e esperar o cantar dos galos. Com sorte até mesmo a chuva pararia. Com conversa fiada até aguentariam a fome e a falta do que comer. Tiradentes falou as tais e quais perguntas que nem queriam calar:

            - Agora podemos conversar melhor. Você poderia me dizer o que pretendem de mim? Acho que há mais gente contigo nessa empreitada, hein?!, miudinha. Você é agente secreto confidencial? Espiã de alguma irmandade beneficente benemérita? Você está agindo em nome do príncipe Pedro e outros nobres? Você veio de tão longe para me libertar? Você é da capitania de Pernambuco? Você é de São José do Vale do Rio Preto? Você é da tribo tabajara? Você nasceu às margens do rio Caceribu? Você toca teclado piano órgão de igreja? Você é poliglota?

            - Ufa! Nem, nada disso. Eu sou somente eu o meu amigo Xuri e meu outro amigo Aleijadinho, nós três e mais ninguém. É um trio trilegal, tralaláaaa!...

            A chuva ainda caía e rolava na sarjeta valeta com a noite que entrava. Mais outras poucas horas friíssimas a noite ficaria mais madura pronta. Na madrugada acordariam os galos para cantar cucuricar cucuritar anunciando a manhã clara, etc.

Seu Tiradentes sofria com muito frio nos ossos, na pele arrepiada, na raiz dos cabelos longos barbas longas como JC. Menina e herói com roupas molhadas e tremendo de frio, batiam os queixos, pingavam dos narizes. As horas demoravam cada qual uma volta completa no relógio e uns 60 minutos. Os galos nem acordavam antes do cedo. Lilás, 01h e 10min, falou sem demora:

- O senhor pretende sumir pela geografia? Tem alguma ideia? Gostaria de tirar férias em Marajó? Ou no parque do Xingu? Ainda quem sabe subir o alto rio Solimões no Estado do Amazonas? Morar em Tabatinga? Nem sei o que recomendar.

E o recomendado era que pegasse o Caminho Novo ou Estrada Real, isso sim. Teríamos aí cidades distantes e aconchegantes tipo Ribeirão Branco, Centenário do Sul, Iguaraçu, Lobato, Ribeira, Flórida (que se localiza a uma latitude 23º05’16” sul e a uma longitude 51º 48’10” oeste, estando a uma altitude de 548 metros).

            - Sei lá. Vou correr até acabar as pernas. Me lembro de Mandaguaçu e Ângulo e Barra do Chapéu e Atalaia. Assim e outra coisa. Como vou agradecer esse favor? Vocês três salvaram a minha modesta vida. Por enquanto.

            - Nem é preciso agradecer. Fiz isso porque o senhor é um homem de valor. Fiz isso porque gosto da H do B. Fiz isso porque gosto de participar e protagonizar e atuar atriz. Faria qualquer coisa para salvar um herói poderoso como o senhor, seu Tira. E outra pergunta que veio me lembrar: o senhor consertaria os dentes dos inimigos?

            - Sabe, eu pensei que era fácil fazer o B independente de Portugal. Infelizmente o povo nem acreditou em mim e nem foi na minha. E o povo é a voz de D. E o Senhor do céu sempre escuta a voz que pede e repete o pedido.

            - Talvez se o senhor tentasse de novo, insistisse noutro lugar, daqui uns anos...

            - É, vamos ver, vamos ver, miudinha. Estou desanimado mas, se nem consegui agora... pelo menos poderão dizer que ousei que tentei que comecei tudo. Mais cedo ou mais tarde alguém terminará o que comecei. Pode demorar, mas a liberdade virá. A independência do país virá! E eu entrarei na História com H maiúsculo! Triunfante! E sem arrancar dentes dos inimigos, ahahahah!...

            - Juro que sim, seu Tira!

            Uma semana após a libertação misteriosa mágica pretensiosa de Tiradentes, Pedro Príncipe Regente (PPR) e sua longa lenta pachorrenta comitiva estavam de partida para São Paulo, pegando aí a poeirenta cascalhada cascalheira Estrada Real. Ao todo uns cento e poucos, entre pessoas cavalos burros cão, os semoventes. Era uma longuíssima tripa fila centopeia. E alaranjada madura amarronzada de sol e poeira.

            - Daqui mesmo se vê muito longe - dizia a menina, admirando o horizonte.

            - Além das montanhas e vales profundos - conversava o príncipe.

            - Eu queria morar em mil lugares ao mesmo tempo...

            - Eu já tenho saudades do Rio de Janeiro, a praia, a lagoa, a baía... Eu acho que já fui alguém reencarnado algo assim em Guapiara ou Nova Campina ou Almirante Tamandaré ou Apiaí (em tupi quer dizer rio dos índios).

            - Por que o B nem tem zebras e girafas e leões e elefantes?

            - Deve de ser porque tem sauás, acamins, camu-camus, carapebas, geribás...

No entanto, antes de sair de Vila Rica de Ouro Preto, passaram na igreja onde o tal Aleijadinho trabalhava laborava. Passaram ali para as despedidas de praxe e gerais e comuns. Deixaram os cavalos beber água, os dragões esperando perfilados, o povo da vila olhando e cochichando, o céu de anil, as montanhas de ferro, as maúbas-amarelas florindo amarelo, saíras-negaças gorjeando, etc. O mundo existia as coisas também torres de igrejas molduras esquadrias de janelas chaminés soltando vapores fumaça.

- Nem existem igrejas iguais a estas e no mundo inteiro, sim senhorita!

No templo sagrado que se erguia aos poucos e conforme o dinheiro os donativos, observaram a arquitetura barroca, olharam também as esculturas, desenhos e pinturas do mestre Manuel da Costa Ataíde, as estatuetas, nichos e capelas, a beleza única e criativa e original, etc. E uma igreja tinha de ser muito rica e bem trabalhada. A Lilás comentou:

- Tenho uma ideia relâmpago!

- Qual?

- Os artesãos podem decorar tudo com anjos céus pássaros e tudo mais que existe de alados, etc. Uma igreja vem logo logo do céu!

Antônio Francisco Lisboa o Aleijadinho era pra ser mesmo um extraordinário artista escultor. Caso raro naquele tempo naquele lugar e arredores. Um gênio da raça. Um artista caprichoso detalhista icônico. Por que isso aconteceu ali? Difícil saber.

            - O senhor - dizia Pedro ao Aleijadinho - me surpreende com seu maravilhoso talento para imagens sacras santas sagradas consagradas. Nunca vi tamanha perfeição em nervuras filigranas. Suas estátuas de santos e santas parecem querer falar, parecem realmente existir, parecem se mexer, parecem com a cara do povo brancos negros e pardos mulatos caboclos mamelucos cafuzos mestiços mestiçagem e místicos.

            - Que nada, alteza! Agradeço o elogio, mas nem mereço. Faço o que posso. Minha saúde já nem é a mesma de alguns poucos anos atrás. Nem sei o porquê ou para quê. D sabe o que faz, e se fez pode desfazer.

            - Muito legal tudo que acontece - completou a Lilás. Os anjos foram tirados do céu, com certeza. Lá de cima das nuvens de algodão e fofos. Anjos de asas coloridas, de rostos alegres, em voos de passarinhos, etc.

            - Pra falar a verdade a inspiração vem mesmo com as crianças, que são anjos presentes aqui na terra. Eles estão aí, eu só os coloco no altar. Depois de esculpidos e pintados e acrescidos de asas, eles bem que podem voar.

            - Genial! Você é craque!

            - Um dia desses mandarei buscá-lo para fazer, lá no Rio de Janeiro, algo parecido. O senhor aceita? O senhor concordaria? - convidava o Príncipe Pedro.

            - Quanta honra, nobre alteza! Também gostaria muito de conhecer o Rio de Janeiro. Dizem sempre os que viajam para lá que é um lugar lindo, de uma natureza exagerada, natureza engraçada e única no mundo, o progresso, as modas que vêm da Europa e da Índia e da China, etc.

            - E com muitas praias fantásticas pra se molhar os pés, fazer piqueniques nos domingos - disse Lilás. Conhece praia marinha e salgada, seu Aleijadinho? Praia de Ipanema... praia da Galheta... praia do Leme...

            - Está aí uma coisa que gostaria de fazer antes de bater as botas, miudinha. Nunca vi o mar. Dizem que o mar é azul como o céu profundo. Nem sei, mas calculo. Deve ser outra vida morar perto do mar e ver o mar todos os dias.

            - Bem, está na hora de partirmos - sugeriu o príncipe. A longa estrada para São Paulo nos espera nos aguarda.

            - Foi um prazer enorme recebê-los em minha humilde igreja, alteza e comitiva!

            - Tenho uma ideia brilhante - ainda lembrou a menina.

            - Qual?

            - O senhor poderia fazer um chafariz na entrada da cidade. Seria bem proveitoso e refrescante. Um chafariz artístico e de época. Um chafariz pra chamar com seu nome, pra chamar de seu.

            Enfim, se ajoelharam diante dos santos na igreja, fizeram o sinal da cruz na testa, montaram nos cavalos e tomaram a estrada. Todos eles e mais alguns. O povo da vila ainda estourou foguetes na praça Padre Lobo, ladeira de Santa Efigênia, bairro Santa Corona, etc.

            - Tenho uma ideia perfeita - foi a Lilás.

            - Au-au-ua!... “Qual?” - perguntou o mascote Xuri.

            - A gente poderia deixar o endereço pro seu Aleijadinho nos visitar lá no Rio, hein, que acha Xuri?!

As eternas montanhas desenhavam corcundas corcovas no horizonte de ferro. Subindo e descendo, contornando grandes peraus, cruzando vales e desfiladeiros... As montanhas do ouro. O rio da Cruz. O vale do Jequitinhonha. Iporanga (o ibge implantou na cidade um marco referencial geodésico situado na rua Joaquim Elisiário de Campos, centro). O tal e qual rio Ferro. A serra do Cipó.

- Tenho uma ideia genial.

- Qual? - desta vez o príncipe perguntou.

- Podíamos viajar de carroça. Nem seria mais cômodo? Dava até para ir dormindo sem o risco de cair.

Os moradores aplaudiram, saudaram, desejaram as boas viagens, dias de bons tempos, etc. Até São Paulo muitos sóis e chuvas, noites mais ou menos frias, cansaços, cavalos estropiados, outras coisas, etc., que os aguardavam.

No último morro da cidade com vista para Ouro Preto, um sinal da cruz diante da capela de Santana. Quem olha para trás sempre volta? Então, tem gente que olha e que nem olha. Tem gente que para o cavalo e se volta para trás. Olha e vê toda a cidade. E Ouro Preto é bonita maravilhosa de perto de longe, vista do alto da montanha.

- Sempre volta - disse o príncipe Pedro.

- E é bom voltar e se deve voltar - concordou a menina, cara aberta risonha.

As árvores falavam com os pássaros. Os passarinhos que se apresentavam às plantas e arbustos. Os espaços falavam com a luz do sol. Em breve outras árvores teriam nomes, canjeranas-do-brejo, quaresmeiras, mangabeiras, girassóis-do-campo, castanhas-mineiras, macucus-do-rio-negro... e outros pássaros pegariam nomes ou apelidos, beija-flores-da-mata, pintassilgos, bicos-chatos-de-orelha-preta, trombeteiros, cardeais-do-araguaia... o bando uniforme chalrante palrante de papagaios-de-coleira comia as frutinhas que encontrava e por isso tinha essa característica de frugívoro.

Localidades aparecendo nas encostas dos montes, Goianésia, Barra, Igaraçu do Tietê, Colombo (a gruta do Bacaetava é uma atração interessante turística próxima à estrada rodovia estadual PR-417 e faz parte do circuito italiano de turismo rural do município). Pareciam brancas de casas brancas com janelas verdes portas verdes. Telhados avermelhados. Campinas de capim-cheiroso. As lianas quinas-cruzeiros carregadas de flores cheias de pólen poliníferas atraindo sempre as abelhas tipo as bijuris, bizzz! bizzz!... Montanhas azuis. Como era viver ali em a aldeia dos piratapuia? O rio Macabu ziguezagueante descendo cachoeiras e corredeiras. E mais adiante São Joaquim de Bicas, Passos, Resende, Juiz de Fora, São João do Sul... mapeadas anotadas no mapa mundial.

- Se eu fosse uma passarinha tipo... saci, eu chegaria primeiro que vocês, é.

- E esperaria por nós e bem sossegada comendo frutinhas da estação, né?!   

Ninguém ficou sabendo que destino na verdade Tiradentes tomou depois que fugiu da penitenciária de Vila Rica. Hipóteses foram levantadas, palpites nem faltaram mas, até hoje, nada foi concretamente apurado e comprovado e registrado na história. As pesquisas vãs foram feitas em vão. A lenda que corre de boca em boca, de livro de História em livro de história, dá conta de que Tiradentes arrumou um disfarce de mascate, regateiro, vendedor ambulante, montado num burrinho ruão, todo carregado e cheio de quinquilharias, e atravessou metade do mapa do país para chegar ao parque Tumucumaque, no Amapá, e bem ao norte. E como é grande este país! Ali no parque armou uma barraquinha e um pequeno comércio e um pequeno negócio, etc., à beira do rio Flexal. E viveu escondido por lá até sua sorte acabar, muito avançado em idade, até sua sorte o abandonar, barbas longas e brancas tipo profeta, cabelos escassos ou meio careca, rodeado de filhos e netos e bisnetos. Passou o tempo plantando aipim pescando colhendo açaí convivendo dentro da reserva dos aborígenes mapuá. Ao certo mesmo, definitivamente, nada nada se sabe até o presente. Nem depoimentos, nem fotos que possam comprovar ou comprometer. E o que deve ter imaginado fantasiado pensado! Continuou a idealizar o país e o mundo. Até os últimos dias e horas da existência. O mundo do outro lado do mundo do outro lado do oceano do outro lado da mata do outro lado da história do outro lado do B de Brasil. Quanto lugar tem o mundo, hein?!

            Mas a jornada da grande comitiva do príncipe regente Pedro estava na metade e seria longa, exagerada, estafante, enervante, gigante, ainda seria longuíssima. Passariam justamente por São Paulo. Os encantos de Minas Gerais ficariam nos arquivos das memórias das lembranças das recordações dos recontos. Uma coisa Minas Gerais possuía e que nenhum outro lugar poderia lhe igualar: as montanhas de ferro, as fontes de água quente, as cavernas de ouro, os rios e tijucos de diamantes, as cidades antigas, Mariana, Miguel Pereira, Santana do Riacho, Barreirinhas, Manhuaçu... aliás e talvez.

            - Essa região de Minas Gerais é lugar de riquezas sem ter fim, minha miudinha - comentou por fim o príncipe. Minas porque tem minas de ouro, e gerais porque tem muita extensão e amplitude de terras.

            - Muitas famílias irão enricar, nem é mesmo? - perguntou a menina Lilás.

            - Igrejas e palácios e casarões e fazendonas serão erguidos do dia pra noite. Tudo por conta do brilho do ouro e do resplendor do diamante da esmeralda dos cristais.

            - E até quando? Quanto tempo?

            - Até sempre. Ou até o sertão virar mar e o mar revirar sertão, hum!...

            Era preciso saber o dia em que estavam e no calendário. Os pássaros acordaram cedo e bateram palmas dentro das árvores bateram asas fora na paisagem fora no céu com azul e nuvens desbaratadas. Aves com temas e assuntos de canto cantar tricotar chilrear e dizer e contar anedotas piadas contorções reflexões.

            - Tenho uma ideia caprichosa! - tirou assunto a menina.

            - Qual?

            - Que as casas ricas e grandiosas e enjaneladas virem museus, etc. Cada cidade aí aqui tem as muitas casas das antigas e históricas tombadas como patrimônio material. Olha a cidade de Iguatama... olha Birigui... olha Uberaba...

            Os olhos dos caravaneiros nem se acostumavam com o resplendor do sol forte. O dia estava cantando bem-te-vis, coleirinhas, tesoureiras, corruíras, canarinhos-da-terra, tico-ticos, curiós, pombas-trocais e outros. Os tipos magros e saltitantes dos passarinhos, das abelhas, das vespas, das cigarras, dos besouros e até das florezinhas-do-campo, faziam a maravilha nos olhos e nos ouvidos dos viajantes cansados fatigados quebrados alquebrados bronzeados hipnotizados. As plantinhas do campo as ervas anônimas disfarçavam o balanço do vento para continuar colorindo perfumando o dia.

            - Daqui mesmo se enxerga longe - falou a menina, cheia de horizontes nos olhos.

            - Já falei que este país é enorme e bonito? - arriscou o Pedro.

            - E tem rios como veias de um corpo.

            - E rio dos tamanduás-bandeiras se chama Tamanduateí.

            Algumas árvores de amarelo e ipês-amarelos, outras árvores e andirobas, juquiris, cuieiras, mutambas, malvaíscos, mata-paús-de-espinho... A tarde imensa imensa enorme, quase do tamanho e cor de uma abóbora madura. Tarde macia e com cheiro de vento verde desde longe... o rio Tega... o parque da serra da Tiririca... No balanço e no andar do cavalo cavalgadura.

            - Quem faz o rio correr e andar? Quem faz o vento circular?

- E por quê?

            Os verdes do cerrado o pipiar do sabiá-coleira o verde dos olhos verdes da mata e bocaiúvas, sucupiras, cujumariranas, velames-do-campo, piranheiras... E passaram por vilas e comunidades, futuras cidades, promissoras municipalidades e Comercinho, Nova União, Engenheiro Paulo de Frontim, Poconé... aldeia dos uirina... rio Grande... já agora pela serra do Espinhaço... e contando os meses os dias as horas as aflições distrações perturbações embaraços desassossegos chamegos bafões perrengues.

            Pois a Lilás gostava de ver os gafanhotos saltar das moitas de sarabatucu, de ver os lobos-guarás beber na sanga, as borboletas-de-restinga, socós-bois-baios voando pesados em direção aos pés de jacatirões, etc., os índios mongoió pescando na técnica da xeripana que consistia de pescar com canoa bem na época da piracema, ou seja, na época em que os peixes procuram migrar para as nascentes dos rios e desovar, etc. Cruzaram uma manhã ensolarada o grande rio Bicudo, onde dava pé ou vau de orelha. Alguns cavalos e burros e mulas já sabiam nadar, nasciam com isso, e outros aprendiam na marra.

            Ainda para trás se passou uma semana e ficou. A caravana ia em frente e ninguém esperava a mala dos milagres cair do céu do céu. Todos os dias com seu tempo de passatempo. Cada boca de noite o fogo de chão.

            - Sabe, seu Pedro!

            - Continue.

            - Nem adianta nada passar aqui uma vez e depois nem mais voltar um dia, entende?!

            - Como assim, rapariguinha?

            - É que tudo isso vai me dar saudades um dia e tal, quem sabe!

            Lilás mesmo queria conhecer a pedra do Ingá. E podia ser no fim do ano no começo do ano no meio do ano no mês de setembro ou de outubro. O quanto antes.

            O verão da região fazia as árvores que faziam os pássaros que faziam os rios que concluíam os panoramas. A paisagem concluía o rio Ratones que refazia o verão que refazia os pássaros que refaziam as plantas. D fez as coisas se entenderem de comum acordo e bem cuidado. A razão de tudo só Ele sabia e guardava em segredo.

            - Tenho uma ideia tupi-guarani!

            - Qual?

            - Morar na floresta como índia assurini como cunhantã de nome Japira e cantar de amor as noites de canções do divino deus Rudá. Tem coisa melhor?, pergunta.

            Já na capitania de São Paulo, a caravana resolveu dar um tempo numa fazendona à beira do Caminho Velho, junto a um riachinho Ipiranga. Eram terras de um tal de Francisco Marins, dono da fazenda Taquara-Poca. Lugar aberto, porém com eco.

 

Quarta Parte

 

E seu Francisco foi logo sendo muito receptivo e atencioso e útil e amigo. Aprontou uma mesa grande e bem sortida de comes e bebes e frutas locais da estação sobremesas compotas quitutes para os visitantes ilustres se fartarem. Nem era todo dia que podia receber o nobre Pedro Príncipe Regente e sua comitiva. Honra dessas só uma vez na história e olhe lá!

Lilás, por sua vez, pegou o amigo Xuri - cão da raça januaíra de procedência selvagem - e uma cestinha cheia de umas fatias de pão com queijo, broa de milho, biscoito beiju-membeca, mel silvestre, frutas do pomar, e foram para a beira do riachinho Ipiranga. O lugar parecia aprazível com a de aprazível. O ar atmosférico com a de atmosférico. O céu aberto com o celeste recomendável.

- E aprazível é bom? E campestre é ótimo? E silvestre é o ar livre?

- Au-au-au!... “Dentro do possível, dentro do possível!” (tradutor simultâneo)

            No caminho encontraram um pássaro, o bem-te-vi-do-brejo, pousado no alto de um jequitibá. Ele o pássaro era impossível. Depois que viu a menina e o Xuri nem largou mais do pé. Falava assim, chirriou:

            - Bem te vi, bem te vi, menina, cachorro!...

            - E daí, e daí! O que você vê por esses lados, com esses seus olhos abertos?!

            - Bem te vi, bem te vi, passear!...

            - Fala outra coisa! O que que você quer, seu plumoso de ouro e prata!

            - Bem te vi, bem te vi, um lanche!...

            - O quê?! Quer um pedaço do meu bauru, é isso?!

            - Bem te vi, bem te vi, um pedaço de pão!...

            - Então pegue, seu peninha! Lá vai, seguuuure!...

            Depois de pegar o naco de pão oferecido, bico cheio, o bem-te-vi-do-brejo caiu fora, voou para outra freguesia, voou para o capão mais próximo, quem sabe alimentar os filhotes. E o céu azul com nuvens brancas espalhadas esgarçadas estendidas direcionadas pelos ventos... O vento que vinha do nordeste fazia ali mesmo a curva para oeste. Vento com aromas de flores do campo. Situação que o mundo rola igual bola.

Lilás continuou seu caminho saltitante tranquila faceira leve solta. Xuri correndo muito afoito na frente na frente. Até toparem com o riachinho Ipiranga. O riozinho era ali muito fininho e tímido e limpo e cristalino e transparente e murmurante iniciante. O rio Ipiranga, mas pode ser qualquer rio, se comportava muito engraçado interessante. Refletia o céu azul as poucas nuvens aqui e ali brancas os pássaros que voavam pra cá pra lá, chupim, brujajara, papa-moscas-de-topete-marrom, traz-farinha-aí, narceja-muda, crispim... A menina foi se estendeu no barranco gramado, se estendeu de costas, ouvidos e olhos ligados nos insetos, zumbizar!... marimbondos cavalos-do-cão, libélulas, joaninhas, etc., lugar com mais de cem espécies de libélulas. E olhou tudo em volta, o céu, contou as nuvens, o alarido desordeiro do gavião-carijó rondando bem pelo alto, ieeeeh!... E começou a pegar no sono no sono e len-ta-men-te divagar devanear... suspendida no ar puro, solta e flutuante...

Dado momento Xuri latiu as orelhas levantadas o corpo todo alerta ligado esticado em excelente superextensão, e latiu avisando:

- Au-au-au!... “Olha ali, olha aí, olha lá!...”

            - Que houve, Xuri? Que que você quer dizer? Fique quieto senão você espanta os peixes e os passarinhos e os insetos e as plantas e as nuvens brancas cada uma qual e tal com cara de objeto real.

            Mas o cão nem sossegou. Mas a menina pouco entendia de au-aus e língua latida. Xuri olhou para o mato ali à beira do riachinho, um capoeiruçu, e acabou falando, e latiu mais ou menos num sotaque parecido com este:

- Au-au-au!... “Tem um cara ali e ali nos cuidando nos olhando e nem é deste mundo deste planeta, tá ligada!...”

            - Que está acontecendo, Xuri? Que nervoso é esse? Você está delirando!

            - Au-au-au!... “Estou vendo sim um fantasma!”

            - Que novidade!

            - Au-au-au!... “Um ser fantástico!”

            - Que ma-ra-vi-lha! Nem me faça rir!

            De repente o Xuri viu cair na água uma pedrinha, pleque!... O cão ficou doido, ainda mais excitado, bem mais nervoso, pra lá de irritado, latiu rouco e falou alto, gesticulou do jeito que os cães gesticulam, grunhiu:

            - Au-au-au!... “Graaa!... Ban-di-do na área!”

Nem demorou muito e novamente outra pedrinha, pleque!...

- Mas afinal - pensou alto a Lilás -, que história é essa de pleque?!... Vou até lá pra vê e confirmar. Um caso enigmático. Que coisa rara, meu!

Chegando lá, bem na beirinha do riachinho, deu de cara com o saci-pererê, com gorro vermelho na cabeça, entidade, cachimbo pegando fogo na boca e uma perna só. Este malandro arteiro moleque, falou, articulou, quicou:

            - Achôooo!, ih ih ih!... Quem é que lhe deu autorização pra descansar aqui, miudinha lilás?, ih ih ih!...

            E este, ih ih ih!... era lá mesmo seu riso muito sincero e engraçado e brincalhão e característico. A menina disse, respondendo na lata na cara e em tua face:

            - Ora, seu Saci! O dono das terras, o seu Francisco Marins, dono da fazenda Taquara-Poca e quem mais haveria de ser?!

            - Pois ele nem manda nada, ih ih ih!... O dono desse mundão sou eu! Sou eu! Ouviu?!, ih ih ih!...

            - Olhe! Deixe de brincadeira comigo. O Xuri aqui pode lhe morder a bundinha, tá sintonizado sintonizando?

            - Ah, ih ih ih!... Só rindo mesmo, ih ih ih!... Eu com medo de cachorro jaguacininga, ih ih ih!... Conta outra, vai! Esta está boa e foi boa, ih ih ih!... Sou mais esperto que qualquer coisa que exista neste mundo, miudinha! Acorda!, ih ih ih!...

            - Você tá mais feliz que um bem-te-vi-gameleiro, que dois bem-te-vis-de-três-riscas, que muitos e até um bando de bem-te-vis-barulhentos!

            - Obrigado obrigado, ih ih ih!...

            - Muito bom, seu Saci. Nem quer me ajudar a comer o lanche? Até te ofereço.

            - Opa!, tô nessa, ih ih ih!... Que você tem aí, ih ih ih!... Compartilhe, ih ih ih!...

            - Sanduíche misto de pão com o queijo, mel de abelhas do campo, doce de pequi para passar no pão, doce de abóbora para passar no pão, broa de arroz, mangaba, araçá, goiaba-do-mato, macaba tirada recém arrecém do pé de macaúba...

            - Tá ótimo e faz o seguinte, ih ih ih!... Te ajudo, ih ih ih!...

            Sentaram os três num lugar bem confortável, bem tranquilo, longe das formigas com tenazes de fogo, longe dos cupins, longe dos micuins, longe quem viu quem deixou de ver dos pulgões das cochinilhas das cigarrinhas, na sombra de uma pitombeira enfeitada de parasitas esponjas-de-raiz, e comeram a merenda. O saci-pererê, sem dúvida alguma, se mostrava o maior dos gulosos dos glutões comilões.

            - Que você tá fazendo aqui por estas bandas, Saci?

            - Nada que preste, ih ih ih!... nhoque!...

            - Este riachinho, é seu, é? Estas matas são suas, são? Esse sol, é seu, é? Esse céu raro azul por tudo e poucas nuvens navegando cada qual a própria caravela, é seu, é?

            - Que rapariguinha supermetida, ih ih ih!... Nem para de fazer perguntas... Só porque repartiu um sanduba, ih ih ih!... pensa que pode se meter na vida alheia dos imortais, nhoque!... Regula, né, guria, ih ih ih!...

            - É, foi mal.

            - E já tá perdoada, ih ih ih!.... O lanche tava bótimo, lambuzei os beiços, ih ih ih!... me cansou a beleza.

            - Dizem que você faz qualquer mágica, é vera?

            - Tá duvidando?, ih ih ih!...

            - Nunca, nem, de jeito manera. Só queria ter certeza.

            - Então, pede, ih ih ih!...

            - Faz aparecer um pé de vento, um rodamoinho. Lá longe...

            - Pé de vento? Rodamoinho?, ih ih ih!... Qual o tamanho?, ih ih ih!... Com chuva ou sem chuva?, ih ih ih!... Com poeira e folhas secas e ciscos?, ih ih ih!...

            - Do tamanho que você puder. Sem chuva. Sem muitos gravetos. Sem granizo. Sem furacão ou tempestade subtropical. Algo em espiral na vertical e já tá bom.

            Então, o brincalhão do saci-pererê aceitou o desafio. Foi daí que sacudiu seu gorro vermelho e de lá de dentro saiu um pé de vento terrível, que foi rodopiando, e aumentando, e levando folhas secas, poeira, pedaços de pau, até mesmo o pobre do Xuri, lá para cima nas nuvens já fantasiadas pro carnaval de verão, altura de quinze andares quinze departamentos, pra lá das copas das altas palmeiras javaris, etc.

Vendo seu amigo nas nuvens plácidas, voando sem as asas, rodopiando como pandorga sem controle, altas esferas, Lilás se apavorou, pôs as mãos na boca e falou:

            - Volta! Volta! Volta com tudo, seu Saci. Volta com o Xuri, desencante o pé de vento, extermine o rodamoinho, seu Saci. Por favor!

            - Mas você, ih ih ih!... nem queria um pé de vento, puxa vida!, ih ih ih! Cal que é, comadre!, ih ih ih!...

            - Sim, eu quis mas... sem o envolvimento do meu amigo Xuri.

            - Ora, ora que miudinha vagal, sô!, ih ih ih!...

            Logo o saci-pererê fez outra mágica com o gorro e o pé de vento foi diminuindo, veio baixando, até extinguir inteirinho, fiapinho, soprinho, bafinho, aterrissando, e sem folhas secas e poeira e cisco, para dentro do gorro do diabinho. E o pobre do Xuri aterrou tontinho tontinho, nem sabia mais para que lado apontava o focinho, a cauda e com as quatro patas perdidinhas bêbado tonto zonzo.

            - Que brincadeira sem graça, seu Saci! Olhe só o Xuri. Coitado, vai vomitar.

            - Pra falar francamente, ih ih ih!... nem sou muito fã de cachorros, cães, guaipecas, cuscos e carroças, carruagens, barcos a vela, jangadas, galeotas, navios...

            - Mas nem precisa humilhar, né!

            - Acabou o lanche?, ih ih ih!... Já vi, vou ter que bater em outra porta e outra freguesia, ih ih ih!... Seu lanche evaporou, pofe!...

            - Tamém!...

            - Sou mesmo é muito rápido, muito de repente, ih ih ih!...

            - Pra onde você vai agora? Posso saber?

            - Nem precisa saber, ih ih ih!....

            - Se se pode com um risinho destes, hein?!

            - Olha só a mágica, ih ih ih!... Fui!!

            E foi o saci-pererê sem deixar pistas, sumindo assim, pofe!... no ar. Foi um passe de mágica. Instantâneo. Milagroso. De repentemente. Num estalo de relâmpago. Num piscar de olhos e zás-trás e em vápite-vúpite!...

Quanto ao Xuri parecia agora melhor, parecia normal, parecia satisfeito, parecia se recuperar e se equilibrar nas quatro perninhas. Seus olhos já haviam parado de girar dentro das órbitas. Vomitara, mas já estava pronto para outra.

Lilás pegou suas tralhas todas do piquenique e retornaram ao casarão da fazenda de seu Francisco. Uma construção dentro da paisagem do potreiro do campo.

Ouvir passarinhos e ver plantas sempre era o normal e do dia a dia. Cada planta cada arbusto cada ser vivente com seu nome próprio ou apelido, orabutã, periquiteira-da-mata, caimito-do-monte, buchinha, juçara, cardeal-do-brasil, quina-cruzeiro... O celeiro o paiol o forno a lenha a estrebaria o chiqueiro o galinheiro e outras construções de pau a pique e taipa de mão taipa de sopapo taipa de sebe.

- Por que todas estas coisas bichos plantas levam os nomes e sobrenomes? Quem diria, meu D! - murmurou a menina no seu alto falar com o cão companheiro.

            Naquela hora, ali, no meio do nosso país, Lilás ficou sabendo - ela também ficou sabendo - uma coisa pra lá de certa e importante: que um bando de ararinhas-azuis nascera ali no meio do rio calmo, calmo riozinho Ipiranga. Era assim mesmo. Estava tudo ótimo. Dia muito bom. Dezesseis horas e pouquinho. Temperatura próxima dos 26°C. O tempo passando de uma maneira aprazível. A brisa mexendo com as árvores.

            Parecia uma frondosa árvore bracuí. Porque uma planta sempre toda sorte longa história sempre produz seu próprio alimento. Então, a árvore qualquer árvore ou planta ou arbusto ou erva, produz seu próprio sustento, e esse processo se chama curiosamente... autótrofo. E tudo quer dizer a mesma coisa com outras palavras.

            - Os dias os dias são miúdos e mínimos, tá certo?!

            - Au-au-au!... “O que mais me choca é que são sempre do mesmo tamanho, é.”

            Porém, somente parecia que alguma coisa nem ia acontecer. O céu com nuvens navegando a favor do vento quente, então e nada de novo no céu. O campo verde com os verdes nas árvores no pasto, etc., aveias-do-campo, imburis, axuás, malvaíscos-de-pernambuco, jarinas. O casal de beija-flores-brancos muito simpáticos beijando bebendo comendo do néctar da flor da congonha-do-gentio. E brilhavam conforme a luz. E trocavam de cor conforme a luz do sol. E trocavam de lugar e de voo conforme a ideia lá deles, etc. Voos firmes decotados picotados estreitos desbastados encurtados.

            Perto da casona da fazenda, Lilás ouviu o maior banzé, a maior algazarra, o maior auê, a maior zorra vindo do terreiro. Comentou com Xuri:

            - Mais uma festa?  Que será que tá havendo? Festa novamente? Que gritaiada, meu!

            O Xuri fez um, au!... tampouco entendendo daquela comemoração além da hora, e latiu o seu modo de falar meio confuso animal mamífero:        

- Au-au-au!... “E parecem eufóricos exaltados surtados!”

Afinal o todo pessoal da comitiva tinha feito um banquete na chegada, já seria o suficiente. Iriam se acostumar mal. Será que nem podiam parar de bebemorar?

Mas aí na dúvida a menina e o cão pegaram e foram lá ver de perto e ao vivo. Caminhando na grama entre umas sombras debaixo das imbuias. E o alarido aumentando conforme. E os tiros de espingardas e bacamartes disparados para o ar. As gargalhadas se ouvindo a quilômetros, gra-gra-gra!... tra-tra-tra!...

            Eram 16 horas mais 20 minutos de 7 de setembro de 1822.

            E ali no pátio da fazenda Taquara-Poca, Lilás pôde comprovar que todo mundo já estava mesmo na maior farra e pândega e se divertindo por conta. Aproveitavam do bom e do melhor, avançavam nos comes e bebes, bagunçavam zombavam durante os discursos com gritos de vivas e aplausos e tapões nas costas. E a rapaziada tomava caninha e falava muito alto. Erguiam brindes um atrás do outro, se abraçavam, dançavam, riam sem parar, e o príncipe Pedro no meio do forrobodó da patuscada... o quê?! O príncipe misturado aos dragões e todos abraçados pulando numa só bagunça, bebendo pinga de alambique e farreando com os simples mortais? E recebendo elogios e muitos cumprimentos e os parabéns? E tomando copos e taças de caipirinha de limãozinho de cachacinha de branquinha? E muitos uivos de comemoração, brincadeiras? Algo estava fora do normal e bem absurdo e nada explicado e explicável.

Lilás se aproximou do príncipe Pedro e lhe perguntou à queima roupa:

            - Que festa de arromba é esta, seu Pedro? Uma vez que seja!...

            - Alegria... alegria... alegria, minha miudinha. De hoje em diante nem somos mais portugueses, somos livres, somos brasileiros!

            - O príncipe tá voltando das nuvens, é? Que que houve? Explique melhor.

            - É que acabo de... de gritar aos sete ventos, aos sete cantos, aos sete interessados o sete de setembro e proclamado a independência do Brasil: Independência ou Morte!

            - O quê, como, por quê?!...

            - Eu sou do... Braaaassssil-sil-sil-sil-sil!... heeeia! heeeia!... leeeeia! leeeeeia!...

            Quando Pedro Imperador falou isto, repetiu este breve discurso, etc., todo mundo, todos os presentes, gritaram malucos e em coro, “ru-ra-raaaa!...” e mais brindes se ergueram, chapéus ou quepes foram jogados às alturas, tiros de garrucha para o alto, “ru-ra-raaaa!...” Era a farra do boi Garantido do boi Caprichoso, no mínimo.

            - Viva o primeiro rei ou imperador do... Braaaasiiiil-sil-sil-sil!!!...

            - Antes taaaardeeee... do queee nuuuncaaa!...

            Por alguns dias o Brasil nem soube o que fazer com essa notícia com essa história a mais importante da sua História: Independência ou Morte! Como sempre acontece, a ficha demorou para cair. Uns souberam da notícia e nem acreditaram; outros souberam só um ano depois; ainda os que nem queriam saber; outros nem souberam e morreram antes de saber; mais alguns que foram morar no estrangeiro, embora recebendo em mil-réis; sem contar os que fizeram anedota e chacota e piada e galhofa.

            - Quem é o pai e a mãe e os filhos da pátria?

            - Que tal o hino do B?

            - Vamos ficar com esse nome: Brasil? Está bom? Está bem?

País livre, povo livre e por quê, e para quê. O povo demorou para entender. Demorou para cair na real, na nova era, no novo tempo, no novo país. Era um milagre ou uma piada de português? Era uma necessidade ou um golpe de esperteza? Era possível ou apenas um faz de conta? Era à vista ou a prazo?

- Reinado ou império? Eis a questão!

- Temos história ou temos Historia? Este é o tema!

Isso tudo podia ser um novo país? E quem ia mandar ou governar o novo país? E como seria o nome do novo país recém-inaugurado? E com que cara? Quem mais tinha que saber disso tudo? O mundo tinha de saber? E pra que um país novo igual ao Brasil? Era necessário um novo país no mundo? Quem tinha a ver com isso? Que lugar era esse, é este? O país novato independente mudaria do Brasil e de nome e sobrenome?

- Eu acho que o Brasil deve ir até o Pará. Sim, e ali no Pará chega estaciona e para. Nem só para como diz: “Parei aqui e até aqui tá bom e muito bem!”

- O maior acontecimento das histórias da História e por séculos e séculos!

Ficaram duas semanas um mês esperando a resposta de D. Talvez os talvezes D nem tenha nada a ver com este país. Vai saber! Uma superação!

- E é um país de santo ou de santa? Tem gente que adora NS Aparecida! Tem devoto que faz tudo por Santo Antônio! E outras rezas e crenças? Claro que sim!

E os membros da caravana foram pensando sobre falando sobre as horas o sol a chuva o calor os boatos as fofocas as lorotas, etc. E se cada coisa estava realmente no seu lugar, o cipó-trindade, a bênção-de-deus, o cordão-de-frade, o caimbé, a capeba-do-mato, a douradinha-do-campo... Cada coisa cada ser tinha o seu lugar de merecimento, a garça-real, o barulhento, o arapaçu-de-bico-preto, o japiim... Os bugios chegavam e comiam as flores que caíam do almeirão-da-terra; pois estes macacos gostavam e se alimentavam de flores doces; então porque eram primatas florífagos, uma vez. Bandos de araras-azuis pares aos pares procuravam nidificar nos buracos do buriti. Os bons e destacados galos-de-campina em bando de 12 ou 14 ou 16 procuravam se acercar das roças de milho e comer a quirera o farelo.

Lilás prestando atenção assim os olhos atônitos olhava e nem via nada ou algo ou alguém fora do lugar. Se sentia assim conforme e de bem com ela mesma bem por dentro e bem por fora. Sossegada relaxada ou até quando.

- Tenho uma ideia imperial!

- E qual? - perguntou o imperador Pedro I.

- Sete de Setembro é um bom dia e mês para começar uma data de aniversário, é.

E sua majestade imperial Dom Pedro I e ele mesmo arrancou um talinho de capim-marmelada olhou o ar de em volta, coisas por fora das horas e horários, mastigando, e disse, proclamou:

- E se cada um e cada qual fosse fazer o que cada um e cada qual deve de fazer e chega, hein?!

- E chegou o dia mês e ano do Brasil. Isso perfeitamente. Isso serve mesmo.

- Amanhã é outro dia, mas... hoje é um dia especial. Hoje se comemora como se fosse durar pra sempre, é.

- Ninguém vai superar este dia, mestre Dom Pedro I!

            Quinze dias depois do grande relâmpago acontecimento que abalou o Brasil, e a Coroa portuguesa lá em Portugal, grito do Ipiranga que ecoou por todo o planeta, a comitiva chegava (e com um prestígio fora do comum e do normal) à ilha de São Vicente, também reconhecida com o nome de Tumiaru, litoral de São Paulo. Com uma fama e um sucesso fora do planeta e da estratosfera e da lógica. Absurdo até. Mas nem parecia real. E nem devia ser compreensível. A chave nem tinha virado.

            - Tenho uma ideia capitã!

            - Qual! - incentivava o novo imperador dos trópicos tropicais.

            - Acho que o nome do nosso país, recém-criado recém-nascido recém-emancipado, poderia se chamar recém-nomeado de... Solar. Nem seria legal, hein?!

            - E por que Solar, minha miudinha?

            - Lugar de muito sol muita praia muita floresta muita chuva muito mar tropical muita arara-vermelha-grande muita fruta de verão e de todas as estações, etc.

Na vila Ipanema - reduto dos colonos invasores ou imigrantes europeus -, Pedro Imperador ficou sabendo que o beato José de Anchieta havia sido tomado como refém pelos silvícolas. Esses índios - os tupinambá, maracajá, carijó, tupiniquim, pancaru, xacriabá, oapixana - exigiam que os brancos os respeitassem, que suas terras fossem desocupadas, que suas cunhantãs e guerreiros nem fossem sequestrados roubados e escravizados, etc. Caso contrário nem libertariam o padre jesuíta. Senão a coisa até podia piorar para atentados horríveis e mortais e fatais. E podia acontecer o estouro de uma guerra sangrenta. E uma guerra seria prejudicial para todos.

- A política nacional começou começando do começo - reclamou Dom Pedro I.

Então, na manhã de segunda-feira, logo no dia seguinte à chegada da caravana, se formou esse grupo de colonos, missionários jesuítas e o próprio Pedro Imperador para ir até a aldeia dos autóctones e tentar as negociações. Aliás, essa pendenga de terras, entre índios e colonos brancos, vinha se arrastando desde muitos anos na região e em outras regiões do país. Estava na hora de se resolver com isso e do melhor modo possível, etc. Resolver de modo que ambos os lados saíssem honrados do acordo.

- Devemos levar presentes aos nossos vizinhos autóctones?

- Sim, sempre levamos presentes: chapéus peças de roupa machados facões...

            Chegando na aldeia dos índios amotinados, os vilões foram convidados a se sentar nos toros de moreira ou jacarandá com os caciques e pajés e índias mais velhas. De ambos os lados havia certa desconfiança, portanto as negociações seriam muito melindrosas e delicadas e arriscadas e perigosas e demoradas. Podia até haver combates ferozes. Inclusive os autóctones estavam pintados de jenipapo e urucum e também armados de tacapes zarabatanas arcos e flechas, dispostos a tudo.

Enquanto ali na taba se discutia política territorial, Lilás e Xuri resolveram dar um rolê pela praia de Itararé. Tinham saudade do mar, de um mergulho, brincar, correr na areia, ver as ondas indo e vindo, gaivotas piando precavidas, etc.

- Tenho uma ideia de alto mar!

- Au-au-au!... “Qual?”

- Vamos visitar a ilha Grande!

Nem andaram muito quando deram por acaso com o beato Anchieta, que escrevia e já ia escrevendo uns versos no chão de areia. Lilás puxou conversa admirada enternecida:

            - Olá!, seu Anchieta. O que o bem-aventurado escreve aí na areia?

            - Um poema em louvor à Maria mãe de JC. Um poema com vários versos em latim.

            - Legal. Sabe, nós viemos com Pedro Imperador para tentar libertá-lo dos índios revoltados. Quem sabe ainda hoje.

            - Os índios estão muito brabos. Eles têm razão. Estão com receio de perder as terras, perder os parentes, perder a liberdade, etc.

            - Negócio complicado. Escuta, seu Anchieta. Eu sei que o senhor é santo, fala com D e tudo mais...

            - Mas nem é todo dia que Ele me escuta. Ou que prefere me ouvir. Nem é bem assim. Imagina o quê!

            - Seguinte. Pensei então, já que o senhor, vez ou outra, fala com o Todo-Poderoso, pudesse me ajudar a resolver um caso. Ajeitar um problema quase particular.

            - Qual caso, minha flor de manjerona-do-campo.

            - É o Xuri. O cão nem fala um português brasileiro conforme e claro e explícito. Quer dizer, falar ele fala, mas uma língua mistura de latidoscompalavras. Tá entendendo, seu santo?! O que eu gostaria que o senhor me ajudasse é ver se ele pode poderia pudesse falar e entender muito bem na língua dos homens e vice-versa. Dar assim uma outra opção de comunicação ao meu cão amigo. Fazer dele um bilíngue fluente. Que entenda e fale o brasileiro fluente, sabe?!

            Seu Anchieta parou de escrever na areia. Levou a mão até a cabeça e segurou o queixo para pensar melhor. Olhou o céu todo azul e bonito por fora e por dentro. A tarde era agradável e imensa e profunda. O mar rangia agradável e azul. O azul do céu emendava com o azul-verde do mar. As aves do mar eram tagarelas e o mar barulhento. Nem apareceram baleias jubartes nem tartarugas-verdes, ainda por enquanto. Havia ondas e espumas flutuantes. Bando de papagaios-do-mangue viajavam da ilha para o continente em alta bem sonora algazarra. Na paisagem ainda se podia curtir o visual da laguna Araruama. Os coqueiros dormiam nas redes dos ventos. O lugar mais bonito do mundo. O beato falou para a menina, voz santa e juízo sensato:

            - Você quer um milagre? Então você vai ter um milagre e tanto. Chame aqui seu amigo Xuri, faz favor.

            - Pra já! Nem demora um segundo!

E Lilás correu gritar assobiar ao Xuri:

- Ei, Xuuuriii!... fiiiiuuu!...

            Lilás assoviou chamando o amigo. O cão corria até o mar, brincando, e voltava com susto das ondas. Quando o cão ouviu o chamado e se aproximou dos dois, o santo padre já erguia a varinha que usava para escrever seus poemas na areia e disse e mandou ou pediu ou comandou humildemente com a ajuda do céu:

            - Xuri, meu bom cão das linhagens dos jaguaracambés, você quer falar também na língua das gentes? E sem sotaque? E sem gaguejar? E sem tatibitatear? Quer mesmo?

            Xuri então baixou a cabeça pensativo, se demorou assim uns quinze segundinhos... e latiu decidido fazendo com a cabeça que sim:

            - Au-au-au!... – “Acho que sim!” - comunicou o Xuri e com certa alegria canina.

            - Então, vamos lá! - favoreceu o jesuíta.

O padre José, então, apontou de leve a mão na testa do cão Xuri. Imediatamente desceu uma luz milagrosa maravilhosa mágica como raios de sol poderosos decorados superquentes superfortes iluminados fortemente... e o cão Xuri virou outro. O cão se sentiu outro. Principalmente por dentro e intelectualmente mentalmente. Tentou resmungar isso e já falando mais ou menos um brasileiro inteligível e aceitável:

            - Tenho... muita... coisa, etc., pra falar!... Me ouvem... bem?!

            - Pode ir com calma senão você engasga. Respira fundo, depois fala. Você praticamente virou uma pessoa comum.

            - É ma... ra... vilhoso!

            - Puxa! Que legal, amigão! Você tá falando, sem dúvida. Te adoro, meu xerimbabo - falou a menina, sem poder se conter de alegria.

            - O... briga... do, seu pa-pa-pa... dre!

            - Vá com calma. Nem precisa falar tudo de uma vez. Nem carece falar tudo num dia - recomendou o santo católico. Escute e ouça o pensamento dez vezes antes de falar; você tem duas orelhas e uma boca. Se lembre sempre que a língua, por azar por ironia por disparate, é mais longa e comprida que a razão, hein?! Nunca fale pelos cotovelos.

            A tarde ia tombando, sustentável, etc., revirando o sol atrás das grandes árvores na floresta da mata atlântica e piraguaias, trapoerabas-vermelhas, rabugens, catingueiras, jundiaís, capebas-do-norte, piaçabas, inhaíbas... o canto dos tantos pássaros da hora e arrelias, corucões, inhambuxororós, xexéus, jacamins, corujas-baratas, peixes-fritos, cardeais-do-sul... De um lado a floresta, do outro o mar, no meio a branca praia sorrindo de orelha a orelha. As nuvens pouco a pouco se tornavam amareladas, as aves mais avermelhadas voavam mais baixo, e os versos da areia chegavam ao fim. De repente um último raio dourado recolheu o poema do seu Anchieta lá para o céu, lá para cima, lá para o universo nem começo nem fim.

            Na boca da noite o grupo de vilões que negociava com os índios voltou com boas notícias e informações e recomendações. O padre Anchieta, mediante acordo com os colonos e o governo, de um lado, e os índios confederados, do outro, poderia voltar para casa, para a vila Ipanema na ilha de São Vicente. Todavia, o bom padre nem aceitou esse porém com quem também. Preferiu continuar entre os índios, os quais precisavam realmente dele. E os autóctones precisavam mais do grande jesuíta que mesmo os brancos. E o padre decidiu viver entre os selvagens nativos ali na aldeia.

Lilás contou logo ao imperador Dom Pedro I:

            - Seu imperador, sabe o que aconteceu aqui na praia?

            - Nem imagino. Conta tudo, nem me esconda nada.

            - O Xuri tá falando melhor que muito professor de ciências? Xuri, fale algo ao imperador pra ele ver e ouvir e ter certeza.

            E o Xuri, todo bobo e feliz, língua de fora, cauda balançando de risos, falou sem latir ou latiu uma fala, assim:

            - E daí, impera?! Tudo legal e outras coisas mais e etc?

            - Ei! Que espantoso! Mas que milagre é este? Xuri engoliu uma ave tipo papagaio-verdadeiro, periquito-tuim, baitaca, maracanã, humaitá? Tá falando!...

            - Nem é o máximo, seu Pedro?!

            E para festejar o acordo com os índios, os colonos e missionários religiosos prepararam uma grande festa um funfungagá à moda do interior e com casamento caipira e quermesse com barraquinhas de doces e prendas e jogos, etc.

            - Tenho uma ideia carnavalesca!

            - Qual? - perguntou autorizando o imperador.

            - Vou inventar o bumba meu boi ou boi-bumbá!

Aí então todo mundo teve que se trajar, até o imperador D. Pedro I e mais os seus dragões, com aquelas roupas típicas, largas, velhas e remendadas. Inclusive riscar um dente a carvão para dizer... “êta, sô!” No centro do terreiro, junto às fogueiras, um casal de noivos, todo envergonhado de falsete, jurou alegria até que a festa acabasse. Quando os noivos iniciaram oficialmente o baile, e dançaram a quadrilha, ninguém mais ficou parado, nem podia, todo mundo foi dançar. Quem perdia o fôlego comia milho verde, pé de moleque, rapadura, cocada preta, cocada branca, broa de centeio, pastel de abóbora, bebia garapa, bebia quentão... E tudo na moda caipira, sô! Até as estrelas dormir e o sol raiar. Até a matinada da passarada dar “bom dia!” na mata na praia, alma-de-caboclo, joão-conguinho, bigode, ararinha-azul, tempo-quente, rabo-branco-de-bigodes, gaúcha-de-cara-suja, cavalo-melado...

            Um rapaz de chapéu na mão e dente de menos se aproximou de Lilás e lhe perguntou, convidando:

            - A miudinha, prum obséquio, qué dançá mais eu?

            - Pois óia, tô em dúvida, seu moço...

            - Mais prum quê? Nem gostô mais eu?

            - Nada, nem, que isso, moço. É qui tô vergonhada, levo receo de pisá no seu pé...

            - Mais eu num reparo. Ocê, permite?

            - Intão, tá!...

            De manhã o céu estava descongestionado e era já do outro dia bem cedo. O mundo já era do outro lado de cá. No fundo do horizonte tinha uma estrela, uns chamam estrela da Manhã outros estrela D’alva ou o planeta Vênus. Mas era sim um sorriso de estrela guia e magnífica. Já o sol vinha deslizando por cima do universo. O sol e sua parábola na curva do mundo. A paisagem ocupando a vista a visão. Um recorde de aves marinhas piando famintas esvoaçando perto da praia.

            Depois já se visualizavam as ilhas jogadas no oceano Atlântico. As mais em conta com o continente. O mar estava verde como a floresta como o azul do céu. Aves pescadoras e impacientes. O continente e o mar.

            - Se um dia eu aqui regressar... Bem, se um dia eu voltar aqui...

            Largando para trás a ilha de São Vicente, a caravana foi costeando o mar rumo de casa. Passaram alguns vilarejos, futuras cidades e Itambé do Mato Dentro, Major Gercino, Botuverá, Cabo Frio, São João da Barra... praia da Feiticeira... e também Nova Trento que era cidade santuário da santa Madre Paulina... parque dos Aparados da Serra... bairro Sanga da Toca em Araranguá... o moço jovem rio Culuene...

            - Por que adoramos voltar pra casa, hein?!, minha amiguinha Lilás.

            - Pra contar as novidades. Pra deixar de ver novidades.

            Mais uns dias e atravessaram o rio Paraíba do Sul dividindo a província de São Paulo da do Rio de Janeiro... carroças carros de boi e lotados de sacos de café... lagoa dos Quadros... mascates com seus burros pesados de canastras e sacolas e bruacas...

            - Tenho uma ideia alçada!

            - Qual? - indagou Dom Pedro I.

            - Penso que o tema da nova bandeira do B precisa de um sol de um céu ou mar e de uma floresta, ou seja, amarelo azul e verde. Tudo isto tocado pela brisa suave. Bandeira ao vento e rindo despregada ao sol.

            Mês seguinte mês de maio, a comitiva do imperador Dom Pedro I entrava apoteoticamente maravilhosamente sensacionalmente no Rio de Janeiro, rua principal avenida da Azenha, e sob os foguetes os aplausos os vivas da massa enlouquecida. A rua Visconde de Uruguai toda atapetada de folhas verdes flores coloridas. Era a glória, foi um sucesso estrondoso. O povo exultava pulava ria alto... avenida Getúlio Vargas... praça General Freitas... avenida das Nações... Biblioteca Nacional...

            - Tenho uma ideia ideal e leal!

            - Qual? - Dom Pedro I interrogou, ao mesmo tempo que abanava para o povo.

            - Por que nem fazer três dias e três noites de carnaval, ué?! Minha ideia!

            Já o pessoal da praia do Coqueirinho e os moradores do Morro do Pai Inácio nem se seguraram na empolgação e gritaram e chamaram e pediram aos expedicionários de regresso:

            - Ei! Olhem pra cá!

            - Ei! Olhe aqui!

            - Ei! Olhem praqui!

            Com efeito, Sua Majestade Imperador Dom Pedro I fez a entrada magnífica na capital do império do B. Entraram na cidade capital percorrendo ruas e foram aplaudidos e vivados. O povo ergueu gritos de alegria para o alto... rua Padre Miguelinho... calçadão João Pinto... panos lenços de seda de linho de algodão cores diversas... a enseada de Botafogo... o logradouro ou largo da Carioca...

Seguindo o Imperador vinha a comitiva a caravana o cortejo e pela frente o chão florido atapetado de folhas de flores as janelas das casas e calçadas com gente abanando feliz. O dia pronto azul e mais. Começo de uma festa de três dias. E dali pra frente a História com H maiúsculo seria bem melhor e diferente. Disseram uns e outros, dizem uns e outros, disseram muitos, dizem muitos... e há testemunhas.

            - Tenho uma ideia capital capital.

            - Qual? - perguntou o mandatário dono e proprietário do B.

            - Fazer do Rio de Janeiro a Corte deste país! O centro nervoso! O olho do furacão! A cidade mais conhecida e badalada do B.

O povo nem se continha na alegria, na euforia, na festança, na algazarra, rua Barão de Piraí, ilha do Governador, ao rever seu ex-príncipe regente agora imperador Dom Pedro I do Brasil:

- Pedro I!... Que D lhe reserve e lhe sirva sempre de muita saúde e sabedoria!

- Que D lhe conceda um milhão de amigos!

- Que D lhe alcance sempre e sempre a melhor sorte do mundo!

A multidão carregou o imperador nos braços até o paço frente o palácio imperial. Tanta foi a folgança, a farra, o número de comícios ali na praça, que se decretou oito nove dias de festa, de feriado, de procissão, de sinos tocando bimbalhando, dom! dom! dom!... em comemoração.

            E tinha que ser muito mais e nem devia ser por menos, uma vez!