Primeira Parte
A escola o colégio é o primeiro
lugar que todos inventam para reunir e correr, gritar, cair, levantar, jogar,
desenhar, juntar, rir, nem parar de rir, gargalhar, ahahahah!...
Pois a menina Lilás, 10 mil-réis em primaveras,
aproveitou a passagem das aulas de História do B pelo palácio (localizado no
paço Imperial de São Cristóvão na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro - na
época de Pedro Príncipe Regente) e caiu no tempo no espaço viajou.
Chegou ao paço real bem cedo pela manhã,
andorinhões-de-coleira chabós circulando no aéreo, araçazal curtindo a
paisagem, subiu as escadarias do casarão e foi barrada na porta por um dragão
uniformizado armado de espada na cintura e espingarda nas mãos ao ombro.
- Alto lá! Alto ali! Alto aqui! Quem
é você, quem pensa que é, que quer afinal?
- Me desculpe chegar assim mas...
queria dar um lero-lero com o príncipe Pedro. Ele tá aí ou acolá?
- O príncipe Pedro Regente nem
poderá lhe atender - retrucou o responsável e perfiladíssimo dragão da guarda.
- Que que há, meu! O príncipe tá com
a agenda lotada, é isso?
- Pode-se dizer que sim. E tenha um
bom dia!
- “Pode-se dizer que sim”, nem é
resposta, ouviu?!
- Terá que marcar hora, dona menininha!
- Pois marco pra agora, tá limpo?!
- Agora já é tarde e nem será
possível... Digo que a porta é serventia da casa!
Neste instante algumas pessoas
vinham descendo os degraus da escada do palácio, e conversando, sendo que uma
delas era o príncipe Pedro. Chegaram perto onde Lilás se encontrava e pararam.
Intrigado com aquela menina estranha, menina lilás, Pedro Príncipe Regente
(título nobiliário, que pertence à nobreza brasileira) perguntou ao soldado
dragão:
- Alferes Juquiá! Quem é essa
rapariga (os portugueses chamam assim às moças e senhoritas) e o que faz aqui?
- Estou tentando descobrir, seu
Pedro Regente. Ela só faz insistir em lhe falar.
- Fale, rapariguinha - autorizou o
nobre PPR.
A menina parou na frente do príncipe
Pedro, olhou para cima, sorriu, desenrolou o currículo a biografia o carretel a
língua e trovou:
- Me chamo Lilás e gostaria de sair
aí com o senhor, fazer aventuras pelo Brasil. Eu sei que o senhor vai viajar e
então pensei em lhe acompanhar. Posso? Gostaria muito. Obrigada!
- A excursão a expedição a
exploração é muito perigosa, cansativa, longa... - dizia o príncipe. Acho que
nem é aconselhável para uma miudinha. Sinceramente...
- Mas eu prometo nem atrapalhar,
viu, seu príncipe! Sabe, eu acho o senhor o maior barato, sempre quis lhe
conhecer, leio tudo sobre sua distinta nobreza e pessoa...
- Nem costumo levar mulheres em
campanhas de aventuras, e uma menina ficaria extremamente problemático. E nem
vejo necessidade...
- Ah, deixa, vai! - insistiu Lilás.
Eu gosto tanto do senhor, sempre achei o senhor muito do lindo. Gostaria de lhe
acompanhar... Quero muito conhecer o país todo...
- Está bem, está bem, miudinha. Você
venceu. Você cuidará do meu cão, o Xuri. Assim terá uma função.
- Valeu! Valeu mesmo! Obrigada pela
chance. Deixa dar um beijo no rosto e nas faces, tepe!... São três pra casar,
tepe! tepe! tepe!...
Chegando ao pátio do formidável
palácio, Pedro Príncipe Regente vistoriou pessoalmente os participantes da
caravana. Cumprimentou todos os dragões da guarda, pediu para que verificassem
as armas, a munição, os cavalos, a tropa de burros cargueiros, os mantimentos,
tralhas, trecos e tarecos, etc., várias coisas e detalhes. Lilás por sua vez
procurou fazer amizade com seu novo companheiro, o jaguara Xuri - descendente
legítimo de cachorro-do-mato-vinagre.
Depois de se despedirem dos familiares e “boa sorte!”
e “boa-fé!” e “boa-vai-ela!” e “fiquem com D!”, a comitiva partiu partiu.
Emendando ruas, rua Sete Lagoas, cada qual montado no seu cavalo ou muar, rua
Duarte Coelho, sempre tentando ir pela sombra das iricuranas e
capebas-cheirosas, rodeando a praça Apolinário Rebelo, pelas ladeiras, rua
Marquês de Monte Alegre, quase saindo da cidade de São Sebastião do Rio de
Janeiro, cemitério São João Batista e campas lajes sepulcrais túmulos
sepulturas, costeando o recôncavo da Guanabara, rua Barão de Teresópolis, rua
Saint Roman, cruzando a pequena ponte de pedra do rio Tapira, estrada de
Saquarema rumo do sertão, vila travessão Lagoa Bela em Flores da Cunha e várias
outras atrações turísticas deixadas desperdiçadas pelo caminho... A caravana
recebia do povo os cumprimentos vivas aplausos bimbalhar de sinos espocar de
foguetes recomendações de felicidades “voltem em breve!” e “até a vista!”
“vamos sentir saudades!”
- O senhor é bem recomendado pelo
povo, príncipe Pedro. Isso é sério.
- Apesar de ser português, eu amo
esta terra e tenho muita afeição por esta gente. Espero nunca deixar de
corresponder a este carinho.
- Pois é. O reconhecimento do povo é
a melhor coisa que se pode ter.
- Agora você, rapariguinha Lilás,
nem me decepcione, hein?! Quero que se comporte. Vamos passar por muitas e
boas. A excursão será demorada, sol, chuva, cansaço, fome, poeira, estradão,
dor de cabeça, dor nos pés, dor na coluna vertebral... Terá que aguentar o
repuxe. Quase nada!
- Prometo, seu príncipe. Estou
preparada e preparadíssima!
- Você mora no Rio de Janeiro?
- Nada. Sou do Rio Grande do Sul,
conhece?
- Ainda nem, mas pretendo. Me
aguardem.
- Sabe, tô realizando um sonho. Me
tornei sua fã desde o primeiro dia que ouvi falar do senhor, que li e reli
sobre sua pessoa. O senhor tá na História do B com H maiúsculo.
- Obrigado pelo carinho. Outra
coisa. Quero que cuide bem do Xuri. Ele é um ótimo companheiro, de muita
utilidade, de muita fidelidade. Ás vezes um pouco mais da conta de chalaceador,
festeiro, malandro, mas sempre uma boa alma. E já me salvou várias vezes de
perigos, bote de urutu-estrela, ataque de onça-parda, mordida de caimão,
emboscada de assaltantes criminosos, tocaia de arruaceiros, súcias de
malfeitores...
- Pode ficar tranquilo, tchê! Nós já
estamos amigos. Ele Xuri me cheirou, lambeu minha mão, riu se sacudindo todo,
etc., falou muito na língua lá dele... entendi tudo e aprovei a sinceridade. E
acho que ele o Xuri precisa de uma namorada mais que de uma babá, tá ligado?!
- É, Xuri é um bom janauí, muito
sociável, principalmente quando fareja boa gente. E você é boa gente.
- Uma coisa, seu príncipe. Estamos
indo pra que lado, pra que parte, norte sul leste oeste, exatamente? Explique o
roteiro.
- Vamos subir o litoral pela
província do Espírito Santo até chegar à Bahia. Esta será nossa primeira etapa
da excursão. Da Bahia retornaremos fazendo uma volta por Minas Gerais e São
Paulo. Ficaremos fora, excursionando, talvez um ano, um ano e alguns meses. Muito
tempo. Muito sertão. Muito chão interior. Muito B de brasis. Muito bem e bom e
ótimo!
- O príncipe nunca antes viajou por
estas bandas e campos e chapadões afora?
- Nunca, por isso quero fazê-lo. Meu
pai Dom João VI me incumbiu de cuidar e lutar por esta terra. E para tal tenho
bem que conhecer o povo os povoados. Conhecer os nossos rincões querências
pagos e cafundós.
- Tá certo. Por isso que todos lhe
adoram.
- Espero nem decepcionar, já disse e
repito. Espero estar à altura dos desejos desta gente toda. Quem sabe um dia...
- Vai dar tudo certo.
- É, mas tenho inimigos poderosos,
minha rapariguinha. Só eu sei como são terríveis e ridículos e esquisitos e
debochados.
- Um pouco de perigo faz bem,
circula uma adrenalina.
- Ah ah ah!... miudinha miudinha...
- riu a bandeiras despregadas Pedro Príncipe Regente, PPR.
O vento cheirava os verdes das
ótimas plantas à beira do caminho, etc., cipós-do-reino,
alamandas-de-flor-grande, tanchagens-rabos-de-rato, canelas-do-brejo... O vento
era o próprio evento, quando queria. Nada como uma brisa para amaciar os
cabelos! E umas nuvens que vinham do mar enfeitadas tipo jangadas com vela
vermelha... construídas artesanalmente. Bulha confusão sonora de aves marinhas
ao longe, um pouco de brisa salgada, um céu profundo esperto azul-turquesa.
Comunidade de Cantagalo, praia da
Barrinha, e para aquele lado contrário do oceano Atlântico a serra do Mar e da
Mantiqueira. Mas, muito mais do que tudo isso: rio Itabapoana, Aiuruoca,
Valença, Guaratinguetá, tribo dos autóctones os barururu...
A menina ia olhando e reolhando e
revirando a paisagem do dia ambiente. Era uma manhã início de dia todo, uma
manhã que até ria e sem querer. Muita coisa na paisagem, muitos assobios,
gavião-bombachinha, saíras-ferrugens, verões, mutuns-de-fava,
narcejas-de-bico-torto, concrizes... Olhos grandes para a paisagem, quase olhos
grandes de susto, quase assombrados, atônitos, esbugalhados, sobressaltados.
- Que dia!... Repito, que dia!
- Quase nada! Reafirmo, quase nada!
Se fosse que chovesse já seria bom e
mágico. Chuva para deixar vazar o rio Candiota. Um grupo de árvores arbustos
plantas e embiruçus, hortelãs-do-campo, ervas-de-saracura, anileiras... A
cachoeira do Caldeirão, o parque serra do Papagaio. Guanumbis aos bandos aos
pares aos voos apreciando o néctar das flores de taboca-gigante. Abelhas jataís
insetos polinífagos pois que se alimentam de pólen das diversas flores à
disposição existentes selvagens cores para escolher. Que D dá e dádiva.
O sol caiu de maduro na fresta da
tardezinha e noite. A seguir a escuridão vestiu pala poncho fechado e jogou uma
moeda de prata para o alto. A lua veio mostrar seu transparente e longo vestido
traje de luar. Uma rasga-mortalha, ave das noturnas, estendeu as asas e saiu
caçar mariposas. As estrelas, sim, que eram felizes! Os vaga-lumes até se
manifestaram, redarguiram refutaram contradisseram replicaram:
- Aí, sim!
- O que que se passa?
O problema principal da caravana
seria sem dúvida o cansaço devido às penosas longas distâncias caminhadas
cavalgadas, dias e dias, assim por diante. Mas por onde a excursão passava,
Nova Glória, São João do Rio do Peixe, Araçuaí, Mercês, Paiva, território da
tribo canamari... o príncipe regente era recebido com surpresa, estardalhaço,
alegria, festa e jantares. Ali podiam refazer as energias, trocar os cavalos,
adquirir mantimentos, curar os calos e as feridas, repousar uns dias em cama
boa e fofa. O povo reconhecia no seu príncipe regente o líder, e queria que
também fosse o seu imperador ou seu rei. Viam nele o único que podia e tinha o
direito de mandar e desmandar e de ocupar o trono do B, a cadeira de braços do
mandachuva, etc.
Já se passou se foi, mundo adentro
engolido, o mês de maio desde que a excursão saiu lá do Rio de Janeiro. Assim,
chegaram à ilha de Vitória, Espírito Santo. Ali, nessa cidade acolhedora, foram
recebidos naturalmente com festas festividades festivais. As ruas enfeitadas,
as praças tumultuosas, as janelas das casas dando vivas, gente contente,
multidão abanando, cachorros latindo, fogos espocando. Tudo ao vivo ativo
aberto. O povo exultava. Entraram desfilando sempre pela rua principal Marechal
Cândido Rondon, pisando tapete de folhas verdes e flores coloridas... O
príncipe Pedro, montado no seu cavalo baio, de braço erguido mão abanando para
o distinto povo.
- Capixabas e vitorienses! Ilha de
Vitória e Barro Vermelho e Praia do Canto e Jardim Camburi!... - falava e
acenava o Pedro.
Descansaram por cinco dias, hospedados no melhor
mosteiro da cidade, o mosteiro Zen Morro da Vargem. Nesse tempo, o príncipe
conheceu os maiorais do lugar, barões e baronesas mais viscondes e
viscondessas, foi padrinho de batismo de dezenas de crianças, inaugurou praça e
rua com seu nome. E foi conhecer a famosa e enorme estátua em homenagem ao
padre Cícero Romão Batista. Cada família que tinha a honra de recebê-lo em
casa, se esmerava nas culinárias quitutes quitandas acepipes manjares almoços
jantares frutas em calda, fazendo excelente festa com música dança sarau
recital tertúlia. As moças suspiravam por um simples olhar do jovem garboso
Pedro Príncipe Regente.
O guaipeca Xuri resmungou consigo mesmo, ganiu,
murmurou baixinho, decidiu, olhou para os lados, e se mandou para os becos da
cidade. Escolheu o bairro Irajá pegou pela rua Tiririca depois rua Barão de
Itapacorá mais adiante a praça Ibirité a rua Pirituba... Foi conhecer a noite
da cidade capixaba, etc. Foi andando e tradicionalmente farejando perseguindo
os melhores cheiros perfumes aromas e rastos. Quais odores fedores, e carniças?
Chegou num beco, o beco de nome Mouchão, deu de cara com botecos e biroscas e
boliches e botequins e baiúcas frequentados por desordeiros, fugitivos da
cadeia, vadios, traficantes, contrabandistas e bichos animais da pior espécie,
etc. Escolheu uma bodega de apelido Pararaca, bateu o pé na soleira e entrou.
- Somente quero e vou entrar pra beber um cauim e já imediatamente
sair - rosnou alto e prometeu para si mesmo ou quem quisesse ouvir, o Xuri.
O ambiente estava pesado e recendia exalava
principalmente à fumaça dos cigarros feitos de palha de milho. Os
frequentadores experimentavam aguardentes cachaças pingas aquiquis a-que-incha
amarelinha água-de-cana assina-ponto azulzinha. E jogavam muita conversa fora
papo-furado conversa-fiada anedotas piadinhas de humor macabro... O canil tinha
péssima fama e muitos cães e cadelas vira-latas. Outros bichos desocupados
também rondavam por aí, antas, capivaras, lobos-guarás, jacarés-açus, tuiuiús,
guiraguaçuberabas, jaritatacas, catetes... Todos no trago e na algazarra sem
que desse para ouvir direito o que se dizia, o que diziam, etc. Quando de
repente... de supetão... de um instante pro nada...
- Ei, você aí, cão forasteiro!
Xuri, este um tal e qual cão da estirpe dos janauíra,
olhou pro lado olhou pra trás... era com ele a questão, é? Ah, é, é! Então, tá!
Se surpreendeu mas porém entretanto pero nem temeu nem tremeu. Até gostou e
muito:
- É comigo a questão, por um acaso? Qual é o pó de
arroz, oh, meu chapa?!
Aí, então, parece que o tal cão bebum chegou mais
perto e se apresentou:
- Tá sabendo com quem está se metendo, hein, mané?!
Nem tô te reconhecendo. Você é novo no palco e no pedaço? E qual é a tua? Quem
é que te deixou entrar?
Aí, assim, os dois se encararam como dois cachorros
loucos. Prontos pra briga pro duelo. Parece que já se odiavam desde a
descoberta do Brasil. Sem se conhecerem, já queriam partir pra briga. E se
encarando com muita raiva ira e dentes de fora. Quem os dentes, grrrrraaaã!...
mais e maiores?
- Nem, nem sei o seu nome sua pessoa sua profissão e o
raio que o parta, tá ligado! - foi dizendo o Xuri, e bem na cara babosa do
outro. E também nem vim aqui para olhar para sua cara de cão faminto, tá
ligado?! Você é péssimo!!
Mas pra quê! O tal cão bebum, o tal aquele que ainda
nem se apresentara, ficou uma onça-pintada de bravo, ficou uma fera, um cão
danado. Ficou roxo e azul e vermelho e pegando fogo e... latiu babando do lado
da bocarra cheia de dentes caninos:
- Eu sou o cão Fanfa e mando e ordeno aqui nesta área
neste pedaço e tenho dito e feito, etc. Neste lugar do mundo, bem aqui onde ocê
está, quem manda sou eu mesmo, entendeu, tá pescando, seu rebelde?! Você nem é
bem-vindo, tá ouvindo?!
Vamos dizer que o ambiente ficou muito carregado e
elétrico e maníaco. Era uma coisa esquisita e perigosa. Era o mundo do
submundo. Dois cães se confrontando e tudo isso pra quê? Coisa importante?
Sabe-se lá! E uma guerra por “daquiaquelapalha!”
Xuri ficou aguardando a primeira reação do tal e qual
Fanfa. A coisa parecia se encaminhar para uma luta corpo a corpo. Era pegar ou
morder ou agarrar. Os outros fregueses do bar Pararaca se encostaram na parede
já prevendo brigaiada, arruaça, desentendimento, desordem, corre-corre,
cadeiras voando, mesas quebradas, garrafas voando, copos quebrados, etc.,
barulheira, algazarra, correria, estraladeira, boletim de ocorrência o tal e
qual famoso oficial b.o.
Por isso mesmo, o Xuri olhou para aquele cão chamado
Fanfa, o tal e qual dono do pedaço, o grandão dentuço, que mais?, e era
realmente um cão maluco e parecia até perigoso e feroz e carniceiro e etc.
Olhou o topete do oponente e rosnou da sua parte o seguinte elementar:
- Tudo mal e muito anormal - foi respondendo na lata,
bem na cara do tal Fanfa o corajoso aventureiro Xuri. Eu só acho seu bafo pra
lá de infeliz e fedorento, tá ligado! E mais uma coisa: você é um cachorro
bebum dos mais bêbados!
Mas pra quê! O negócio pegou fogo de verdade e ao vivo
e na hora h. Principalmente porque o ambiente de cachaça e fumo e fofoca já se
podia prever levava a esse tipo de comportamento, etc., inevitavelmente. Ia
virar briga de foice no escuro!
- Oh, fregueses!... - o dono do boteco (seu Suari da
Tuna) tentava chamar à ordem os perigosos arruaceiros, e nada. Oh, moços
moçoilos mocinhos mocidades!...
Xuri se preparou mangas arregaçadas para reagir e
reagiu. E rolou mesmo uma adrenalina baixa e negativa que resultou numa
brigaiada que começou com Xuri e Fanfa, pegou pelos partidários do Fanfa com os
partidários do Xuri, e continuou com todo o boteco matilha cainçalha canzoada e
os que passavam pela porta do boteco, uns trape-zapes de respeito, e outros
curiosos ali da rua, etc., e foram parar na delegacia do distrito Uitoto,
travessa Francisco Leonardo Truda, etc. Muitos dos tais e quais autuados em
flagrante delito da ordem pública, etc. E falou e disse o guarda policial de
plantão:
- Foram detidos por desordem pública! Tudo que
disserem será usado contra vocês mesmos! Estão recolhidos ao xadrez à cela ao
xilindró!
No fim dos cinco dias os
aventureiros excursionistas pegaram a estrada novamente toda a comitiva, etc.,
com destino à Bahia. Estradas na verdade nem havia, andavam por trilhas ou
piques abertos pelos mateiros, pelos colonos do lugar, etc. Algumas coisas
agradáveis pelo caminho, banho de cascata na cachoeira da Indiana em o parque
da Pavuna. Olha lá ali!, as localidades Iguatu, Baturité, Quebrangulo, Lauro de
Freitas, Itaocara, reserva da tribo dos guerreiros maué... e pularam para a
outra margem do rio Ibicuí. Quanta andança, meu!
- Este rio este rio tem
espiiiinhoooo!... - cantava a menina Lilás, espairecendo.
A estrada o caminho saía bem solto na frente e cheio
de manhãs e tardes e pássaros os japus, chororós-escuros, trinca-ferros,
galinhos-da-serra, tarãs... tudo como no paraíso, as árvores dos capões
arvoredos os milhos-d’água, vassourinhas, inhames-de-folha-roxa... copas com
cores diferentes predominando os muitos verdes, até mesmo alguns índios da
tribo carabuiana negociando mumbavos e aiós feitos de fibra de caroás trançados
e os cestos pacarás. Em troca pediam biguana (faca) machado para cortar lenha e
fazer canoa ubá queriam roupa para mosquito nem morder a pele ou para se
aquecerem melhor durante a noite chuvosa, etc. Caminhos tortuosos
ziguezagueantes.
- Este dia este dia nem é nooooiiiiteeee!... - entoava
a menina, zoando.
Longos dias alguns dias de muito caminho e cavalgada.
Os lugares que ficavam para trás, vilas, cidades pequenas, Mato Verde,
Leopoldina, Sete Barras... a serra da Estrela... um mergulho refrescante bonito
na cachoeira do Mendanha. Muitos cambucizeiros floridos na paisagem,
floríferos. E outros lugares com nomes e Medina, Santa Cruz de Salinas, Novais,
Comercinho, Elisiário...
- Será que ainda chove, seu Pedro? - puxou conversa a
menina.
- Se chover de tarde nós vamos de manhã, tá certo?!
A caravana andando devagar e sempre. Os soldados
dragões da escolta enjoados de tanto pegar o calor do dia. Os cavalos olhando o
caminho, etc. Os burros carregados de mantimentos, etc. O caminho que circulava
circundava rodeava no rumo do sertão e outros longes. Que vinha depois daquele
morro? Este rio tem nome? Será o rio Betari?
- Praqueles lados tá aparecendo umas nuvens carregadas
pesadas...
- Por mim pode chover que eu gosto de chuva.
- Faz parte e eu agradeço.
- E se chover aqui vai chover no mundo inteiro? -
questionou a menina.
- Olha, é bem possível e meus parabéns!
- Se chover eu vou beber e de língua de fora, tá
entendendo?
- Eu mesmo nem vou apear do cavalo, tá percebendo?
- Prefiro chuva gelada e com gosto de abacaxi.
- Tudo bem. Gosto nem se discute. É uma!
Longe disso, um mês e meio depois, muito estropiados,
entraram em Salvador e aos olhos da baía de Todos-os-Santos. A chegada da
caravana parou a vila o mar o mundo. Procuraram abrigo no quartel da cidade
alta. Em cada rua uma igreja do lado da igreja uma praça e assim por diante.
Era a cidade do Salvador e a ideia parecia boa. Se o mundo era redondo
caminhando sempre pra frente se chegava a algum lugar, era óbvio, óbvio
ululante. Epítetos de Roma Negra ou Meca da Negritude e rodeada de irmãs muito
promissoras e Madre de Deus, Lauro de Freitas, Simões Filho, Candeias.
- Se caminhar sempre em frente um dia vai chegar no
mesmo lugar, é! - disse o príncipe regente. Mas é longe e decora e demora.
- Nem me fale a verdade nesta hora... uuuufa! -
suspirou a Lilás.
- Se andar depressa vai pisar nos próprios
calcanhares, pois nem! - disse o Pedro.
Chegaram desfilando pela Visconde de Ipiabas, avenida
principal central. Os bairros Ondina e Cabula. Os cavalos e burros, totoque!
totoque! totoque!... no calçamento de pedras pé de moleque. A praça Manuel
Balaio arborizada com pés de piraguaias e canteiros geométricos de
açafrões-do-campo, canas-de-macaco, guanandis com os cravos-do-mato... Os
habitantes apareceram nas janelas e outros chegaram mais junto da calçada
abanar vivar parabenizar os visitantes. O povo batia no peito e tirava o chapéu.
A maioria queria olhar o príncipe bem de perto tocar na sua roupa na bota segurar
a rédea do cavalo azulego. Tinham ouvido falar e agora viam com os próprios
olhos. E parecia novidade.
- É isso aí!
- Muito bem!
- Mal e mal posso crer!
Xuri nem se importava com nada que nem fosse ele
mesmo. Era cão de aventuras e tudo mais que ele gostava de fazer e etc. Saiu do
aconchego do quartel, onde a comitiva do príncipe estava hospedada instalada no
bom e no melhor e no perfeito e no excelente, etc., e foi pelaí dar suas voltas
e reviravoltas e cambalhotas, treinar o faro, farejar encrenca, ruas, becos,
largos, quintais... Xuri um cão polêmico. Queria conhecer o arredores do
município e quem sabe umas ilhas e ilha da Cajaíba e ilha dos Frades e ilha da
Maré e ilha de Itaparica.
Desgarrou foi até um quiosque na rua Marechal Floriano,
comprou por ninharia as tais e quais famosas fitinhas milagrosas da Bahia e foi
revender. Escolheu e foi direto para frente da igreja Nossa Senhora do Rosário
dos Pretos. Eram 14h mais 41minutos. E começou oferecendo aos turistas com seus
chapéus na cabeça roupas curtas folgadas, que passavam sorridentes bem a sua
frente, diferentes procedências:
- Ei, gente azul! Comprem uma fitinha da Bahia e
tenham muita sorte a escolher, etc! Depois nem digam que nem avisei! - latia o
insuspeito cão Xuri.
As pessoas os animais os insetos todo tipo de ser
olhavam a fitinha perguntavam o preço e quase sempre compravam. Era barato e
bonito e santificado. E o mundo parecia bacana olhando desse ponto de vista.
Olhando a paisagem. E os turistas eram festivos criativos alegóricos com camisas
floreadas carnavalescas e imaginação solta. E o dia ensolarado colaborava. Turistas
com procedência múltipla. Só quê!...
- Oh!... Oh, carinha! Que tu tá fazendo aqui, oh,
carinha?!
Xuri olhou pros lados olhou para o alto para baixo
olhou a baía de mar bonito e nem achou que o caso fosse com ele mesmo. Ficou na
dele e orelhas em pé. Ficou preparado pra tudo. Um cão notável de olhos grandes
e lustrosos. Só quê!...
- Oh, meu chapinha! Tu tá ficando louco?! Sabe que
aqui é o meu pedaço, oh, carinha!
- Tá falando comigo, seu bobo mau? - respondeu brabo o
Xuri.
Mas aí então o tal se apresentou e veio bem perto, a
cara amarrada, a cara lá dele amassada de brava, a cara e o focinho de cão
brabo e feroz e etc. O outro, um cão de focinho curto, chegou bem perto. Os
dois cachorros frente a frente e babando ira:
- Vou ser franco com sua pessoa, oh, carinha de nada!
- rosnou o cão lebréu desconhecido. Aqui este pedaço de Bahia e de Brasil, etc.,
é meu lugar e meu negócio nem tenho sócio e ninguém tasca e te arranca enquanto
estou falando, entendeu?! É sério! Dá... o... fooo-raaa!! Dá... no... piii-raaa!!...
Sai Rooomeeeuuu que o lugar é meu!
Xuri olhou pra ele o tal e qual cão mandachuva do
lugar do pedaço, cão deste tamanho e até mais, etc., e disse na lata na latinha
e latindo com fúria furioso:
- O seu bafo é muito de onça-vermelha e olhe lá!
- Tu sabe com quem tá falando, seu capetinha de
vintém?!
- Nem conheço nem reconheço nenhum vintém, seu pinico
de hospital!
E os insultos começaram e tudo podia acontecer. O tal
cãozarrão cão-tinhoso ficou da cor do vermelho do roxo do azul do branco voltou
pro azul e assim por diante e vice-versa até explodir em rugidos latidos uivos
grunhidos rosnados e dentes à mostra. Vociferou e babando, cuspiu marimbondos,
pôs pra fora cobras e lagartos:
- Quem manda aqui na área sou eu! E este eu sou eu
atende pelo apelido de cão Barbatimão! Nunca ouviu meu nome ecoar aí:
Barbatimão, Barbatimão?!... Nem nunca ouviu falar do meu sobrenome?! Nunca
cheirou farejou falar meu nome aos quatro ventos?! E este lugar, que é meu
desde que eu o preferi, ninguém tasca ninguém aluga ninguém rouba ninguém vende
sem a minha permissão autorização por escrito, etc! Então é melhor dar o pira
senão eu lhe corto as duas orelhas, seu fedelho, seu filhote de papai, seu etc
e tal!...
Os cães são muito francos um com o outro. E nem usam
de papas na língua. Nem poupam os desalinhos e desaforos e diz que diz quês. Um
cheira o traseiro do outro e se pintar briga melhor ainda.
Assim olhando a tempestade se armando... a temperatura
aumentando... parecia que o mundo era muito pequeno e cheio de donos e donas.
Era horrível conviver assim. Era perigoso sair por perto por longe aí. E nem
nada natural e saudável. Podia sair de casa e nem saber se ia voltar. Fazer o
sinal da cruz a cada esquina. Ou sonhar com dias melhores.
Dito o dito pelo nem dito, etc., o seu Barbatimão foi
pra cima do nosso Xuri e o nosso Xuri, que nem era de recuar pra nada, foi ao
encontro e deu no que deu. Foi exatamente uma pechada, uma brigaiada de dar
medo, uma topada das grandes. Tipo assim, como é que chama mesmo dois cachorros
na briga? E latiram e grunhiram e se ameaçaram de orelhas em pé e cara a cara e
dentes a dentes e baba a baba, etc. Ninguém de fora chegava para apartar e
dizer o tal e qual “deixam disso, gente boa!” e “nem precisam brigar por nada!”
e “vamos nos abraçar e ficarmos igual irmãos!” e “cuidado a polícia, meus
amigos!”, e outras coisas que se diz à toa e de praxe nessas horas.
- Eu tenho dentes caninos maiores que os seus... -
ameaçava Barbatimão.
- Eu tenho dentes caninos maiores e mais fortes que os
teus... - ladrava o Xuri.
Se um deles tossisse primeiro, piscasse... E então
partiram em desagravo se atracaram ferozmente como dois cães de guerra e tudo
mais e conseguiram até se atrapalhar de tão briguentos. Avançavam e procuravam
avançar na jugular no pescoço gorja goela garganta do oponente. E lapadas
bofetadas lambadas pra cá pra lá, pra ti pra mi pra mó. Apareceram alguns
macacos bugios alguns lobos-guarás alguns mapinguaris uma ou duas jaguatiricas
um tatu-canastra para tentar segurar os malucos e nem conseguiram. Moradores da
rua Enduro, jogaram umas pedras e paus e nem conseguiram apartar os dois duelistas.
Chamaram os home e os home da doze vieram chegaram levaram os dois meliantes
arruaceiros cachorros loucos para a delegacia para a cadeia do bairro Capinauá,
rua Alhandra, etc. E tinha mesmo que os tais e quais aranhados briguentos
precisavam ficar mofando na prisão. Pra aprender. Pra ver um sol quadrado
quadriculado ou um jogo da velha.
- Nosso presídio só fornecerá duas refeições ao dia.
Um banho de sol de uma hora por dia. Um telefonema pra família a cada sete
dias. Visitas só uma por mês e olhe lá - explicou o delegado de plantão.
Uns dias depois, uns dias mais ou
uns poucos dias menos, passado o cansaço e as primeiras recepções em casas de
amigos, Lilás e o príncipe regente compareceram à festa em honra de Iemanjá, a
rainha do mar, a deusa das águas, a deusa azul e branco.
- A namorada do mar, hein,
príncipe?!
- Parece ser uma deusa divina meio
mulher meio peixe e linda. Na Europa seria uma sereia e atrairia as pessoas
pelo canto encantado, é.
As escadarias lavadas da basílica do Senhor do Bonfim,
as ruas por onde a santa ia passar, tudo tomado por um oceano de gente devota
vestida como na tribo dos pretos ou negros ancestrais. Todos queriam ver, pedir
graças, agradecer e presentear a santa da miscigenação.
- Oh, minha santa de devoção!...
Naturalmente a procissão, depois de descer a escadaria
da igreja do templo do santuário, seguiu em busca do mar. Aquele ano com um
atrativo a mais: o intrépido Pedro Príncipe Regente.
- Quanta gente querendo tocar a
santa - se espantou o príncipe.
- É um povo muito religioso devotado
e sonhador. Tem muita fé.
- Eu já tinha ouvido falar nesta
santa, santa Iemanjá. É Nossa Senhora.
- É sempre um motivo de sobra pro
baiano festar - disse a menina Lilás.
A procissão azul e branca continuou
e foi embora lenta, o Farol da Barra, cantando hinos de louvor à santa, subindo
ladeiras e descendo ladeiras, avenida Sete de Setembro, praça Castro Alves, rua
Visconde de Porto Seguro, rumo do Pelourinho. Muitas flores, muitos perfumes
que davam uns coloridos e uns cheiros maravilhosos ao movimento da fé. A santa
no seu andor vestida de todas as perfumarias aparecia no alto na frente
carregada por homens e mulheres devotos. Arrastando muito povo a multidão.
- Oh, santa da minha predileção!...
Desciam e subiam as ladeiras sem fim até a praia.
Muitas pessoas, o Mercado Público, vendedores de lembranças, rua Barão do Rio
Vermelho, senhoras de idade e em trajes típicos orientavam os que queriam se
aproximar. Findo o caminho por terra na praça Martins Pena, agora a santa
seguiria por mar pela baía contornando o Recôncavo Baiano e Salinas da
Margarida e Saubara e Vera Cruz e São Francisco do Conde e Santo Amaro. Barcos
sem conta apinhados de gente enfeitados com flores panos coloridos cheiro de
perfumes de flores, a ilha de Itaparica lá do outro lado. E navegaram
balançando nas águas verdes-azuis da própria Iemanjá.
- Me sustente me recomende no céu, minha santinha
líder, e amém!...
Se nem todas as pessoas podiam
acompanhar a santa na procissão dos barcos, isso nem queria dizer que a festa
para elas tinha acabado. Pela rua, nas calçadas, praça do Imbuí, se formaram
várias rodas de capoeira, rodas de samba e batuque, onde vibrou o som espantoso
e contagiante e apimentado do berimbau, beeerimbaaau!... tambores, chocalhos,
tamborins, reco-recos, bandolins, violas-de-cocho...
- Tá pra nascer povo mais festeiro,
seu príncipe!
- São diferentes das gentes que
conheço. Bastante otimistas. É sangue bom. Eu aplaudo e dou os parabéns. Um dia
se eu nascer de novo vou preferir nascer aqui na Bahia. E pegar uma jangada pra
pescar em alto-mar.
No dia seguinte Lilás foi à casa de
dona Maria Quitéria e conhecer a menina mais famosa de Salvador, da Bahia, a
reconhecida Itã, cor de garapa e cheiro permanente da flor de açucena-d’água. A
menina Itã, com seu amuleto juju no pescoço para dar sorte em tudo, fitinhas do
NS do Bonfim no pulso, tinha uma vida espaçosa, era menina impossível, muito
além da lenda legendária. Nem dona Maria Quitéria de Jesus podia domesticá-la
dosá-la segurá-la. A Itã fazia o que queria o que lhe dava na telha na veneta
na vontade. E cada um por si e D por todos!
E logo de repente essa Itã convidou Lilás para passear
pela cidade. Ali ela reinava e conhecia como a palma da mão. Justamente já
descendo a ladeira do Iranxe, cidade alta pra cidade baixa, foi comentando:
- Óxente!, menina Lilás, no sul
todas as meninas se parecem contigo, são assim dessa sua cor, lilases? Pode ser
o clima, será? Me diga!
- Nem, assim só eu mesma. Foi pura
sorte. Puro acaso. Puro dedo de D.
- Óxente!, que coisa magnífica. Você
é única, é? Você parece um etê que veio do outro lado da lua, é. Desculpe a
franqueza. Me fale!
- Desculpe a originalidade, mas você
tá certa. Às vezes isso nem é sempre cem por cento, o pessoal fica esbugalhando
esculhambando e me fazendo menos do que sou.
- Óxente!, nem se dê por vencida e
reconhecida. Eu sou assim, aquele que nem gostar de mim, rá rá rá!...
Desfilaram a pé por tudo, pelas
ruas, nas calçadas, nos calçadões. Barraquinha vendendo caldo de cana, vendendo
acarajé, vendendo suco de caju, mel de abelha mandaguari. Agora a avenida
Guaicuru passando em frente do museu Manuel Congo.
- Onde você está me levando, enfim?
Seria para Marzagão? Seria para Serra de São Bento? Seria para a praia
Marambaia? Campo Grande? Me diga e nem esconda nada!
- Óxente e Oxalá!, vamos subir umas
ladeiras do Pelô, você vai conhecer minha avó. Até parece!
- Ah, sua vovó mora no Pelourinho!
Já ouvi falar que é lindo o tal e qual Pelourinho! Me fale direitinho!
- Óxente!, pois é lá o terreiro da
minha avó. É lá que ela faz suas rezas, é lá que ela trabalha pros orixás. Te
conto!
- E o que é orixá? Detalhe!
Em seguida pegaram a rua estreita do
Jundu para o alto do morro do Louva-a-Deus, igreja Santa Bárbara aí mesmo do
ladinho, até chegar na casinha, toda de amarelo por fora e por dentro, janelas
e portas de azul, onde funcionava o terreiro da mãe de santo, vó Paraíba, avó
de Itã e outros netos e netas mais. O lugar já fervia de gente e a dança, o
ritual, os processos estavam em andamento em religiosidade em africana
musicalidade, gingado, batuque, roda de dança.
- Óxente!, menina Lilás, vem aqui
que vou lhe apresentar minha avó. É agora!
Lilás foi levada até uma senhora
idosa, vestida de branco, vestida de baiana, turbante na cabeça, vestidos
rodados, carregada de pulseiras douradas, colares dourados, brincos dourados,
balangandãs e berenguendéns, e rodeada de comadres, e cercada de compadres, e
pajeada por muitos manos e manas. A velha e simpática senhora pegou as mãos das
meninas e as abençoou, se abraçaram apertado, trocaram beijos, tepe! tepe!...
- Com muito prazer, dona vovó
Paraíba - cumprimentou a Lilás.
- Querem comer bolo de fubá? Querem
beiju? Querem suco de pequi? Podem pegar, podem se servir à vontade, netinhas!
- ofereceu a boa senhora.
Outras senhoras faziam a roda e a
dança do processo ritual, enquanto o batuque e o berimbau marcavam o passo, o
transporte, a mudança deste mundo para o outro em distância de além. De repente
uma moça deu um grito, toda carregada de amuletos, como se tivesse sido
atingida e ferida:
- Ai-ai-ai!... ru-ru-ru!...
ai-ai-ai-ui!... - e rodou como um pião eletrizado no centro de umbanda, na sala
no pátio, no círculo de tias e tios, etc.
A tal e qual moça anônima de repente
incorporou uma entidade, um ente do além, uma voz grossa, estranha, nem era a
voz dela. Como se um homem de voz grossa, dos de antigamente da época dos
escravos escravizados, falasse pela sua boca falasse por ela adquirisse seu
corpo. E falava o quê? Era uma voz forte que falava duro e nem sempre dava para
entender. E dizia por quê? Quase nada se entendia. Em volta todos murmuravam
umas orações de dar graças aos orixás do candomblé, Xangô, Oxossi, Iansã... A
música nem parava, batuque, batuque, bum! bum!... como se fosse na tribo e cada
vez mais rápido. A moça dançava gesticulava andava pra cá e pra lá na sala
cabeça baixa gingando com estilo e com nervoso. E a moça dizia na voz pausada
que o homem queria falar queria aparecer ou dar um pla!... um oráculo:
- Eu sou de Paraibuna e vim brincar
com ocês... quero comer feijoada no almoço... beber vinho tinto tirado da uva
da serra de Santa Catarina... uta! que no meu tempo era tão bom... depois vamos
pular carnaval na rua do Pitu... borrifar o sovaco com o perfume de flor de
cravina-do-campo... acender vela de libra...
A moça anônima agora rolava no chão de terra batida,
tentava rasgar a própria roupa, pulava pra cá e pra lá, sacudia a cabeça
perigosamente, as luzes das velas e archotes piscavam, ela nem podia controlar
o espírito que a possuía, etc. Era tudo muito rápido e sempre na voz do homem
do além, as orações, a dança, os trejeitos, caretas e mímicas. E perguntava
coisas em voz rouca, pedia bebida, mandava respostas, comunicava mil coisas,
ajudava quem precisava de ajuda, aconselhava quem pedia conselho. Daí que
entortava a cabeça, pedia confortos, pedia um doce, pedia um abraço, exigia
respeito, mostrava a língua vermelha de álcool de cachaça:
- Preciso ur-gen-te-men-te... de uma rede de
dormirrrr!... Miiiinha... gente, onde é a festa de São Benedito? Caaporã fica
na serra de Santa Cruz? Quem me presenteia uma rede de dormirrrr!... Quero
comer muuuita... torta de mangaba...
Sem mais o que dizer e dançar, a moça possuída pelo
fungu, possuída pelo guia caboclo, desfaleceu e caiu de boca na terra, tofe!...
Pronto, estava livre do homem fulano de tal que a alugara, que a tomara pela
mente, que comandara o seu espírito, que fizera dela um cavalo de sela, e que
fizera dela um cavalo de puxar carroça, etc.
- Viva nosso pai Oxalá, Oxalá!... Oxalufã e Oxaguiã de
Obatalá!...
Aí, assim, a moça tal e qual, foi levada para outro
cômodo, arrastada pelos homens, levada na padiola pelos manos, até se recompor,
até bater a poeira do vestido, lavar o rosto e os braços, pentear o cabelo, beber
um pouco de água mineral, sorrir para os parentes. Trabalho e obra concluídos. Mais
calma foi abençoando os que pediam bênção. E até nem se lembrar de nada nada e
perguntar. Mais ainda pra frente foi que todo mundo a parabenizou, ganhou os
sorrisos os abraços os beijos, pete! pete!... Tinha fãs e era craque de falar
com os antigos ancestrais avós...
- Você foi divina e mágica, minha irmã!
- Muito obrigada! Sou apenas uma intermediária!
- Durante o culto, você pegou minha mão, abençoou,
abraçou. Lembra? Foi ma-ra-vi-lho-so! Me emocionei!
- Obrigada!
- O teu dom azul e vem de Oxumarê, minha filha!
- Obrigada!
- Você é um anjo! E é sério!
- Pois eu digo e peço, obrigada!
E a maioria ou mesmo todos dos que assistiram o
transporte, a manifestação, a cura, a revelação feita pela moça cavalo de sela,
a mágica, se sentiram prestigiados pelos santos e deusas. E o pessoal confundiu
mesmo, custou muito a acreditar em tudo ao redor e de volta à realidade, etc.
E alguém reparou direito e ninguém reparou conforme,
mas a madrugada já estava lá fora e pegava a todos de surpresa com os primeiros
raios do sol do sol. Astro de força que sempre vinha chegando rasteiro sobre o
mar, aleluia!, etc.
Naquela mesma manhã em clima, outro
dia, pela manhã, o dia novo e novo dia, enfrentando um sol forte, Itã e Lilás
já desciam a ladeira do Marandová frente a igreja convento de São Francisco.
Olharam o mar, a praia, sentiram fome e sede, praça Pereira Oliveira, vontade
de nadar, de navegar na jangada de vela vermelha, etc. Ali e de repente muito
barcos iam pro mar e oceano.
- Hum!... Vamos comer alguma coisa.
Tô com tanta fome que chego a suspirar. Você sim ou você nem?!
- Óxente e Oxalá!, eu também, bem
aqui, hem?!, um vazio... Me conta!
Chegaram à praia da Boa Viagem, se
jogaram nas ondas, brincaram de peixe, brincaram de jacaré, boiaram, nadaram de
costas. O sal do mar fazia muito bem depois de uma noite cheia de orixás
misteriosos enigmáticos. A seguir um acarajé e uma água de coco. Um sanduíche
de queijo, um suco de abacaxi. Um caju, dois cajus.
- A matemática é de todos! - disse a
Itã. O sol nasce no leste e vem simbora!
- Põe mais essa na conta: são 8h e
18min. - falou a Lilás. Que D e dádiva!
Lá então pelas 10h e 11min chegaram
a uma rua estreita identificada Macu-Nadebe, subindo um repecho ladeado de
casas antigas, praça 2 de Julho, onde os figurões da cidade, condes e
condessas, marqueses e marquesas, duque e duquesa, mais o príncipe Pedro,
inauguravam um centro cultural e artístico, museu Sacaca, etc. Gentes e bichos
muitos por aí, olhando, batucando, dançando, conversando, rindo... Houve uma
pausa para os discursos políticos e em seguida o carnaval reiniciou, e nem foi
pouco, e nem parou mais, talvez e etc. O mundo todo sacudido de ritmos balanços
coreografias.
- Óxente!, menina Lilás, vamos
sacudir as cadeiras, vamos rebolar, vamos saracotear, vamos sassaricar, vamos
arrasar, vamos varrer o chão com os pés...
- Dê de de-morôoo!...
E o mundo foi feito assim e para
esse fim engraçado. O mundo todo caiu veio abaixo no som dos tambores atabaques
zabumbas e cantou “é ôoo!... é no Pelôoo!... é ôoo!... é no Pelôoo!...” braços
para cima, risos, braços para baixo, esticando e encolhendo o corpo, agitando
as mãos, perna para cá e para lá, palhaçadas, “veio da negra Áfricaaaa!... pra
Bahiaiaiaia... nega do Pelôoo!... é ôoo!... é no Pelôoo!...” e parar de dançar
estava fora de questão, nem se podia, era contra a lei das cadeiras, dos pés, do
corpo, e todos acompanhavam as marcações, e o tambor obrigando o ritmo da
dança, a pegada da dança no ritmo e assim mesmo como nas batidas do coração
“tum! tum! tum!...” se saboreava acarajé e “tum! tum! tum!...” se saboreava
xinxim e tome “tum! tum! tum!... provocando terremoto entre o casario antigo
original e colonial da estreita e sinuosa rua Itaguaí, e mais risos,
balanceios, agitações, risos, saracoteios, gargalhadas, micagens, bamboleios,
risadas, “ahahahah!...” “guá-guá-guá!...”
Segunda Parte
Sempre que amanhece um dia todo
mundo vai ver ou vem ver. E amanheceu justamente no dia de partir partirem daquela
cidade de tantas e tantas igrejas, movida a santos(as) e tambores “tum! tum!
tum!...” Pegariam o rumo do sertão e dos sertões, Jacupiranga, Pariquera-Açu,
caatinga, região árida, agreste, quase um deserto muito seco, até um dia chegar
em Vila Rica de Ouro Preto, Minas Gerais. Tudo de partida sempre sai na manhã
curtida! Dia indescritível de lindo e agradável aprazível.
- Você nem perdeu tempo com sua
amiga Itã, nem é mesmo, minha miudinha? - dizia o príncipe.
- É, foi o máximo. Aquela Itã,
óxente!, é um buscapé e um Oxalá. Baiana é assim mesmo: onde tem agito, tá
aprontando.
- É da índole! É intrínseco e inerente!
- Hablou e disse, meu tio e príncipe!
- E eu rodeado de negociantes,
comerciantes, coronéis e caciques. Comendo pastéis e bebendo traguinho de
chambirra. Que coisa mais sem graça. Tinha vontade de mandar tudo às favas
contadas das gencianas-sem-folhas...
- Como se diz de aí e por assim
dizer: ossos oficiais do oficial do ofício!
O verão fazia era tão-só nem mais
que olhar e ver o verão fazia e refazia as árvores conhecidas,
malvas-de-marajó, alecrins-da-praia, itajubas, araçazeiros... e nem somente de
árvores mas gorjeios dos pássaros sempre empoleirados nos galhos e ramos o
fim-fim-grande o picapauzinho-verde-carijó a coruja-do-mato o gaturamo o
são-joãozinho, o sebinho, o sanhaço-frade, o sabiá-laranjeira, a mãe-do-sol...
No segundo dia de caatinga, deserto de terra rachada e
pedregulho, a caravana já sentia o que seria o forno, o mormaço, o sufoco, o
cansaço, o sol na cabeça o dia todo o dia todo. Muito sol no cocuruto, água
racionada, comida idem, bafão triplicado, desânimo puxado. Os cavalos e burros
que ficavam pelo caminho nem podiam ser socorridos e viravam manjar de urubus e
carcarás e escorpiões e mocós e matintapereras e... Mais uma pobreza, uma
secura, uma aspereza desabrigada pela terra, que era de admirar ver gente por
aquelas bandas tentando a sorte sortida. E se era para aprender sobre o país,
conhecer os vários brasis, aquela seria sem dúvida a aula mais desanimada
desanimadora e exaustiva.
- Juro que estou pra lá de esgotada - reclamou a
menina.
- É, sei nada, gente! Mas aqui mesmo acho tinha um
rio, um dia desses - desanimou o regente Pedro.
- O rio secou como tudo que secou, etc.
- Nem cabe uma nuvem no céu, sequer.
- E o dia é pra lá de quente... de estrada
derretendo...
- E a noite é mais que silenciosa e estrelada...
Lilás ia observando o acontecimento
o fenômeno das formigas uajus, etc. Lilás olhou os morros distantes azulados e
nem disse mais nada. Meio querendo se distrair distraída olhando os poucos
raros pés de araparis, sem pensar em nada, tão-somente reparava o que estava
exatamente a sua frente. Cabia tudo no mundo e ainda sobrava lugar. Na
superfície do mundo cabia um exagero.
- Acho que passaram por acá as lavas
de um vulcão, isso também!...
Assim mesmo como passaram por
localidades arraiais pequenas comunidades nascentes, vilas depois futuras cidades,
Santo Antônio do Amparo, Camacan, São Manuel, Mangaratiba, Cunha... reserva
indígena da etnia dos campa... Todas essas cidadezinhas com problemas no
abastecimento por causa da seca prolongada. Povoadinhos vilas pequenas e
desidratadas, Areias, Campanha, Barão de Antonina, Passo de Torres... Os rios
fininhos e desmamados, ossos expostos. Céu azul profundo que dava para ver a
galáxia todinha todinha nas noites totais, etc., dava para ver o outro lado do
universo. Uma vegetação baixinha tortinha miradinha de xiquexiques, mandacarus,
mairás, caetés-vermelhos, favelas, ocas, cega-olhos... E desastres catástrofes
destruições ruínas, praticamente tudo que dava errado em outras partes do mundo
também podia acontecer aí e em maior número e repentinamente.
- Se eu fosse D mandava favorecer
toda essa área do nordeste - declarou a menina. É muito sol na cabeça do
vivente.
- Se eu fosse Ele mandava colocar
aqui um rio gigante rio Maquiné rio Paraibuna rio Curu e rio Catas Altas e mais
umas muitas árvores de grande porte, frondosas, florígeras, frutíferas e
capororocas e embaúbas e aroeiras-vermelhas...
- Se eu fosse D coloriria de
pássaros aves das estações, saracuras-do-brejo, galos-da-serra, juruvas,
cochichos, anus-brancos, gaviões-fumaças, maitacas...
- Se eu fosse Ele plantaria as
plantas amarelas verdes azuis, babosas-do-mato, muricis-da-mata, sapupiras,
juncos-de-cobra, vatingas, manacás-da-serra...
- Se eu fosse D eu nem esquentava
tanto assim o dia todo quase nada, é.
- Se eu fosse Ele eu nem esfriava
tanto assim a noite toda praticamente nada, é - declarou o príncipe.
O suor a provação o sacrifício no agreste duraram
quase um mês todo. Praticamente um mês de fevereiro pelo deserto da caatinga e
nenhum dia de chuva. Nem chovia há 12 meses. Sol forte de dia, friozinho à
noite. Água racionada de dia, comida racionada de noite. Muitas estrelas no
céu, muitas pedras-monumento no deserto. As estradas de chão batido e areia
solta e pedras torradas.
- Sabe, miudinha! Por quê?
- É mesmo, seu príncipe Pedro. A exclamação que nem
quer calar: vai aonde!
Uma tarde, umas 15h e 41min, pouco mais pouco menos,
começou a pintar umas aves no céu claro. Pássaros de verdade e nem de ficção,
pombas-de-santa-cruz, baguás, oracas, pitiguaris, chopins-do-brejo, dragões,
carcarás... Um bando de papagaios-moleiros. Pios das anhumas. Isso deu ânimo
novo renovado faceiro à caravana.
- Hei, hei!... Olha lá, olha lá!...
- São os tais e quais periquitos-ricos, tô certo? -
dizia o regente.
- Talvez seja quem sabe lá as marrecas-caboclas...
- Onde têm pássaros tem rio tem pastagem e campo mais
vegetativo mais verde cheio de frutas cheio de bichos e peixes, etc.
E de fato atrás do morrinho já passava ali mesmo o
grande e famoso rio São Francisco divisa do Estado da Bahia com o de Minas
Gerais. Era um consolo. Procuraram logo um capuaba (pequeno rancho rústico) de
catrumano (morador rural) para saber dos caminhos e de se abastecerem se
provisionarem. Tinha quem imaginava comer arroz com feijão, outro era o mocotó,
mais ainda bolo de fubá, carreteiro, cuscuz, costela na brasa... e nem todos
eram vegetarianos.
Pararam com tudo na porta da frente do coió (casebre
de costaneira e coberto de palha de buriti) assustando os cães da casa que
vieram latir muito perto dos cavalos dos muares e afrontar o próprio Xuri, etc.
- Ô de casa! - foi o príncipe Pedro.
Sem demora sem delongas apareceu o morador e logo em
seguida a moradora e mais a penca de filhos em escadinha servida com ambos os
gêneros. Pareciam todos bem curiosos com a novidade de gente forasteira
chegando em caravana praticamente sem aviso. A poeira o pó era o principal
ingrediente e utensílio da paisagem panorama.
- Pode chegar, seu patrão - foi o modo do homem
convidar.
- Precisamos de umas informações precisamos de água de
comida, etc. - foi falando o príncipe regente.
- Muito bem... Mas pode desmontar e se acomodar que a
casa é do convidado.
Logo sobrevoou a noite, e veio com asas escuras, com
sombras, com estrelas amarelas, com mães-da-lua. As estrelas precisavam ser
contadas uma por uma somadas nomeadas como se fossem cidades conhecidas, Angra
dos Reis, Bananal, Pouso Alto, Balneário Gaivota... (me ajudem!), bairro Roçado
em São José, Bom Sucesso de Itararé, Itaoca... Eram muitas e brilhantes e
distantes e bem bonitas e bem nutridas e bem siderais. Passeava no ar uma que
outra acauã. O barulho do rio São Francisco continuava sem parar indo pro mar e
convidando ao sono refrescava o ar. E somente amanhã de manhã pela manhazinha
transporiam o caudaloso rio.
- Noite de sertão, noite de pegada, noite de contar e
recontar astros e estrelas!
- Teologia tupi, hem! De dia Quaraci e de noite Jaci,
mãe dos vegetais!
O cão Xuri se
enturmou rapidinho com os três guaipecas da casa e foram pelaí sempre na calada
da noite. Tipo alcateia. Para aprontar e acontecer boa coisa que nem era! E a
noite caiu com escuridão estrelada repleta e tal e qual que cachorro vê e
fareja até melhor no escuro. Se alguém perguntasse de que cor eram as estrelas
ali no céu muita gente responderia: “São douradas!” E o horóscopo inteiro
estava aceso desenhado enigmático, porém delineado.
- Ali perto do rio podemos caçar umas queixadas um
quatimundéu e tal - orientou o cão da casa apelidado de Maromba.
- Acho melhor pescar uns peixinhos dos bons e dos
melhores, hein?! - era a cadela da casa apelido de Anani. Nadam ali no rasinho
sempre uns pacamãs uns timburés uns cananas-capetas... Só estender as garras de
dentes e, nhaaaque!...
- A gente podia tentar pegar pato-mergulhão da beira do
rio. Tá assim de mergulhão dando sopa ali. E nesta hora todos meio dormindo,
entenderam?! - falou o cãozinho filhote do casal da casa e de apelido Pariri.
Quem na verdade decidiu foi a visita no caso o cão
Xuri, descendente de raça dos cachorros-do-mato. E este mesmo latiu,
comportamento canino, falou e disse:
- Quer saber, gente boa! Vamos é roubar milho lá na
roça. Quero comer milho verde e apetitoso - decidiu por todo mundo o nosso
famoso Xuri.
E todos aceitaram e foram roubar a roça de milho e
outras coisas mais, etc. Um ronco rouco de uma que outra coruja-buraqueira. A
área sombria do cajueiro-bravo. Já o farfalhar restolhar das folhas da palmeira
carandá.
Então, por isso mesmo, pé ante pé, ou melhor, patas
ante patas, foram os quatro quadrúpedes se esgueirando por entre as espelinas
os espinhos-de-santo-antônio as cidreiras-do-mato os sambacuités, etc., até
chegar na beira da roça. E de quem era a roça? Alguém tinha plantado ali o tal
e qual milharal e queria colher e etc. Quem mandava no pedaço de horta?, a
pergunta que sussurrava baixinho.
- A horta é uma das roças da tribo dos índios apotó -
respondeu o cão Maromba. Ou seja, foram eles que plantaram os milhos as
abóboras os amendoins, etc., para que a gente colhesse sem pedir licença,
rau-rau-rau!...
- E os autóctones apotó ficam muito muito nervosos e
bravos e irados se alguém invadir e comer o milho deles, por exemplo -
completou Anani.
- Ah, é? Então isso é ótimo. Vamos invadir e etc -
decidiu mais uma vez por todos o nosso destemido corajoso e cheio de vontades
particulares de fazer arruaças e chalaças e trapaças o tal e qual Xuri.
Foram invadindo foram em frente que a noite nem podia
terminar sem antes acontecer a aventura. Até chegar bem rente da lavoura. Até
entrar na roça pela porta de trás, vindos da capoeira. De repente... uma voz no
escurão do milharal:
- Quem vem lá?
E se ouviu um tiro, “teu!...” Se ouviu esta espoleta
rebentar seca solitária.
O estampido ecoou pelo sossego da noite afora adentro
e etc. Que susto! E que susto! Os quatro ficaram pregados no chão orelhas em pé
rabo entre as pernas e muito atordoados estáticos embolados. Tremiam de susto e
as consequências. E se ouvia mais nem grilo falando nem vaga-lume esvoaçando
nem camundongo-do-mato rasteirinho passando apressando, nada nada mais se ouvia
de tão assustado sossegado quieto que ficou o ambiente. Assim novamente a
pergunta a voz na calada da noite e super e abundantemente estrelada a noite
pálida:
- Quem vem aí?
E outra vez um tiro, “teu!...” Perfeitamente um tiro,
tinha que ser um tiro de arma de fogo espingarda trabuco.
Os quatro na moita atrás dos juquiris. Que fazer que
falar que pensar numa hora dessas? Que latir, ganir numa hora dessas? Olhos
arregalados orelhas em pé rabo entre as pernas, no mínimo. O negócio era abrir
uma toca e sumir. O negócio era deitar o cabelo ou o pelo, ou seja, correr, dar
o pira...
- Acho que tem um guarda cuidando da horta, gente -
foi o Xuri quem finalmente conseguiu falar, depois do susto gelado total.
- Então é lógico que seria melhor dar o fooora -
rosnou a cadela Anani.
- Ou a gente cachorrada cerca ele e pega ele por trás,
nem é mesmo? É uma! - latiu o Maromba.
Tudo era possível. O milharal estava um pouco alto e
isso dificultava a visão dos au-aus. Do lado do milharal tinha a capoeira por
onde os au-aus podiam se mandar, etc. E o negócio tinha que ser bem pensado nos
prós e contras, ônus e bônus. E como fazer? E o que pensar uma hora extrema? E
era o caso do caçador que virou caça, do procurador que foi encontrado, do
bestial que virou besta, da fera feroz que virou decoração de parede, de peixe
voraz que virou foto de proeza. As contingências incertas casuais acidentais
fortuitas.
- Temos que levar em consideração que ele tá armado -
foi o Maromba.
- Acertou um tiro e babau, boa noite amor! - concluiu
Anani.
- Acho melhor dar o piiira - foi o Pariri.
Depois de pensar um pouco mais lá com suas orelhas
grandes que iam e vinham, Xuri decidiu, aliás, grunhiu e rugiu:
- Vou ver qual que é desse tal guarda aí, etc. Vou até
chegar perto. Quero cheirá-lo bem de mansinho e na moita e bem de junto dele,
ora! Vou bem sorrateiro. Vou meio que rastejando. Vocês ficam aqui na
retaguarda quietos e atrás da moita de espinheiro-bravo. Volto quando puder e
se puder.
- Tu tá louco, animal peludo?!
- Nem se preocupem. Eu vou sozinho e vou porque quero
e vou rasteiro e vou de mansinho. Me aguardem!
- Nem seja maluco, seu Xuri - foi a Anani.
- Pois o senhor está desarmado, seu Xuri - foi o
Pariri.
- É, sim, pensa bem no que ocê vai fazê, seu Xuri -
foi o Maromba.
Xuri pegou decidiu nem deu mais resposta nem disse
outra coisa, etc., pegou e foi para os lados de onde veio o pipoco dos tiros.
Foi e foi investigar. Foi espiar. Foi xeretar. Tinha mesmo que cheirar farejar
de perto o perigo, senão nem sossegaria. Achava até que ia viver para sempre. E
que tinha isso mesmo o corpo fechado para facas, balas, flechas e etc.
Protegido dos santos consagrados óleos.
- Gente! Eu nem nasci pra ser cachorro de quintal e
com corda no pescoço, né?!
Na manhã seguinte, aí pelas 10h e 11min., os galos da
casa, quiquiriqui!... cansados de cantar desde bem cedo, já a comitiva
atravessava o fabuloso volumoso famoso garboso rio São Francisco, o velho
Chico, e que ali fazia recíproco a beira da Bahia com Minas Gerais. Quem os
levou várias viagens daqui para a banda de lá de uma a outra margem foi o
barqueiro catrumano o hospedeiro anfitrião da comitiva o chamado conhecido de
nome seu Uri Cidrilha, mais a mulher dona Igarassu, e os filhos a Capeba o Boré
o Tapirapé a Uirina - escadinha subindo ascendente da esquerda para a direita.
Trabalho de navegação que durou três horas e mais um pouco, e foi tudo bem pago
remunerado nos patacões nos mil-réis com uns tostões vinténs a mais da gorjeta.
- Até um dia! - se despediu o príncipe.
- Vão com D! - disse o seu Uri.
- D seja louvado! - foi a dona Igarassu.
- Inté, gente! - mais uma vez o príncipe Pedro.
A numerosa comitiva já em Minas Gerais, solo mineiro,
então no meio da vegetação do cerrado, o verde das plantas e biribás floridos,
paxiúbas dando frutinhas, murumurus mostrando coquinhos... outras aves que nem
urubus, as jacamins, os japus, as iraúnas, as jacutingas, as emas seguidas dos
eminhos... milhares de passarinhos brincando pulando de haste em haste no
capim-paraturá, coleiras, cardeais, sebastiões, barulhentos, papas-lagartas,
furrieis...
A missão então sim parecia companhia de teatro circo
mambembe atores e atrizes, ou charanga banda de músicos no entrudo de carnaval.
Era bonito e os passarinhos estavam gorjeando. Campos verdes, chapadas,
chapadões, anambés-pretos, vales, corredores, banhados lotados de
canaranas-de-folha-miúda e piratantãs e sapos-bois, riachos, capim-amargoso,
cascatas... cachoeira da Marta... lago do Cuniã... serra do Lagarto... rio
Pirituba... morros de pedras rochas estacionadas no tempo, anônimas.
Quem vai em frente nem para nem se volta em direção ao
passado. O passado é lembrança o presente é panorama o futuro só ao D dará.
- D escreveu este roteiro, gente! - animou o Pedro, se
dirigindo à comitiva. Se nem fosse D, eu nem estaria aqui com vocês. E vocês
nem estariam comigo. Ninguém estaria andando aqui. E este lugar nem existiria,
é.
A graça dos olhos de Lilás estava nos besouros
iaiás-de-cintura. Por que existe a põe-mesa? O croar, crou! crou!... do gavião-puva.
As mamangabas procurando pólen. E estava o azul do céu de uma cor só e
uniforme. E vinha um vento do mundo todo. E uma montanha emendava em outras
montanhas fazendo uma serra corcunda. A laranja-de-macaco pendurada ornada
enxertada de cravos-do-mato.
Nem passou para ela Lilás despercebida a pequena
confusão das dúzias das dezenas e dos mil milhares bando das fogos-apagous. Nem
as pedregosas piriricas (corredeiras) no leito do rio São Pedro... do rio
Timbó... Os rios começavam tímidos e pequenos no alto das montanhas. Os rios de
MG derretem pedras.
- Se eu nem voltar mais... digam o que quiserem... mas
os mineiros têm muito ferro pra vender, uma vez - já disse o PPR.
Antes disso daquilo passaram algumas cidades
localidades lugares nomeados e na altura dos acontecimentos ainda pequenos
povoados vilas aldeias, Jeremoabo, Paulo Afonso, Pedras de Maria da Cruz,
Dourados, Itaóca, Teutônia, Triunfo... campo dos aborígenes macurape... sem
parada sem estada, somente fazendo sinal de “bom dia!” e “muito prazer!” e “até
logo!” e “até um dia” e “tchau e bênção!”, seguindo viagem, passaram a nado
pelo rio Salgado, os cavalos e mulas sabem nadar de pescoço pra fora da água e
isso desde que nascem naturalmente. Quem sabe nadar? E por quê?
- O estilo do nada é cachorrinho!
- E muito competente competitivo!
Aqui ali cada árvore sabia as horas sabia o sol e a
sombra. Cada árvore no arvoredo sabia falar a língua das plantas. Cada árvore
sabia reconhecer o seu lugar aqui ou ali. Cada arbusto sabia conhecer nascer e
ficar no seu lugar. E umas e outras plantas eram as legítimas quebra-pedras,
sempre-vivas-da-serra, ambrosias-americanas, fumos-de-jardim, goupias... E para
se ter uma ideia arborícola, cada planta sabia o mês e dia e hora para verdejar
suas folhas folífera ter suas próprias flores e seus suculentos frutos
frugífera. Cada vegetal sabe a hora de chegar e a hora de partir escafeder-se.
- As urumbambas são protegidas de Tupã, sabia -
explicava Pedro pra sua afilhada a menina Lilás. Tipo de palma palmeira que da
muita sombra e coquinho.
Pararam numa reserva indígena a aldeia dos potiguara
para recuperar a saúde física e mental. Foram anunciados com o toque das
trombetas inúbias ou torés. O cansaço pegou todo mundo no varejo e no atacado.
Todos tiveram complicações sérias de exposição ao sol, falta de boa comida,
falta de sossego e descanso, etc. A jornada dia a dia fora uma tortura, e uma
loucura. Era difícil, mas ainda por cima um privilégio. Era um privilégio, mas
ninguém precisava se matar. Ninguém precisava se matar para reviver outra vez
na próxima reencarnação.
- Sabe, Príncipe, ui! ui!...
consegui um assado de respeito aqui no meu assento - se queixava a menina
Lilás.
- E eu, então! Nossa! Quanto
desconforto, quanto sol, quanto chão.
- Nem vou poder sentar sossegada por
um bom período, ui! ui!... - sempre se lamentando a menina.
- E o Xuri, hem, rapariguinha?! Como
vai nosso bom e rápido amigão?
- Tá como pode, coitadinho. Precisa
se cuidar. Pegou muito sol.
- Um pouco de sombra e água fresca,
comida decente, é o que se deseja para todos - declarou o príncipe Pedro.
Ninguém precisa se arriscar pra nada e coisa alguma.
Pois a aldeia dos potiguara recebeu
os visitantes com gosto e muita comida de caça e pesca e coleta. O cacique morubixaba
Cambuí, vestido distinto de calção enduape de penas. Era só por uma noite,
talvez duas ou três. Os guias os batedores da excursão, que iam na frente
reconhecendo o caminho e resolvendo as coisas por antecipação, já sabiam que os
índios potiguara nem sabiam falar o português e também que os brasileiros da
caravana nem sabiam falar o nheengatu que era uma mistura de línguas
tupi-guarani, etc. Ou seja, seria bom que se falasse pouco somente o necessário
com mímicas algumas palavras e bem calmo devagar pausadamente.
- Hoje é um dia solene e edificado...
- É noite e eu nem escuto o barulho
da lua... rolando no vácuo...
- Foi um dia quente... e um sol pra
cada um.
- O sol sempre pode voltar... e
volta e retorna.
- As pacas em bando chovem de
repente no barranco do rio... nos banhados... nas baías... nas corixas... nas
cordilheiras...
Todo mundo da comitiva estava
cansado, e todos foram dormir na rede na esteira no jirau, etc. Algumas ocas
cobertas de folhas de palmeiras-barrigudas cada qual com uma porta e sem janelas.
Uns três dragões ficaram fazendo a ronda para cuidar da segurança do príncipe e
comitiva. Era sempre assim. Embora nem precisasse, pois os índios eram de paz e
confiança e tinham o sono leve.
Então, quem quis dormir, quem estava
cansado e com sono foi dormir. Quem nem quis dormir foi ouvir a velha cunhã
Poranga contar patacoadas potocas narrar porandubas inventar histórias
desencantar lendas sagas e aventuras.
Assim, sentada num cepo de tapaiúna,
a cunhã Poranga começou o discurso. Os curumins e cunhantains a Lilás o Xuri os
outros mascotes da curuminzada (cada curumim cada cunhantaim tinha o seu
mascote ou xerimbabo) e todos em volta da narradora os olhos abertos orelhas
altas bicos calados respirações suspensas:
- Que história vocês querem que eu
conte, hum?!
- Uma história com bichos árvores e
fantasmas - sugeriu o curumim Caopiá.
- Uma anedota com árvores que falam
como gente e voam como as gralhas-azuis - sugestão da cunhantaim Suiriri.
- Seria melhor seres que nascem na
água e invadem a terra firme e o ar azul, mãe Poranga - sugestão do curumim
Timbapeba.
- Alguma história que comece com a e
termine com e - boa ideia da cunhantaim Cambaúba.
- Um relato falando dum jabuti ou
jabota que saiu de casa foi viajar saiu de casa se despediu dos parentes e foi
fazer e aventurar poucas e boas aí - sugestão da cunhantaim Flor-da-Cachoeira.
- Umas aventuras do jaritataca, será
possível? - pergunta do curumim Iperó. Jaritataca remando na igara.
Diante de tantas sugestões e boas
ideias de histórias, a índia Poranga ficou pensando numa lenda ou num mito ou
num caso mágico ontológico. E a dúvida ou interrogação fazia nuvem passageira
na cabeça da Poranga. E na dúvida decidiu por a mais b e contando de um a dez
optou começou por perguntar sugestões de personagens protagonistas heróis
heroínas mocinhos e bandidos:
- E que ator ou atriz preferem como
protagonista da história? Pode ser gente bicho coisa, etc. Pode viver na água
do rio no ar dentro de uma árvore ingá-ferradura.
- Hum!... A história da iara ou
mãe-d’água - pediu o curumim Araçari.
- Ah!... A lenda do guaraná - quis
ouvir a cunhantaim Suiriri.
- Uê!... Prefiro o conto do
boto-cinza - falou a cunhantaim Flor-da-Cachoeira.
- Opa!... Quero as peripécias do
uirapuru - piou o pássaro Saixê, mascote de Caopiá. Dizem que seu canto é
melodia e harmonia e ritmo, ao mesmo tempo.
- U-huuu!... Gostaria muito muito
bastante das aventuras do quati - a cunhantaim Cambaúba. Os quatis fazem ninho
no alto das cajaranas pra fugir de predadores.
Ufa, ufa! Mas a mãe Poranga juntou
as grandes ideias de histórias com os ótimos personagens míticos e lendários
decidindo ela mesma o seguinte. Olhou todos os seus netos suas netas e convidados(as)
ali presentes e decidiu contar a história do:
- Então vou contar a história do pai-do-mato.
Assim, o pai-do-mato tem vários outros apelidos caititu, pecari, patira,
cateto...
- Quem é pai-do-mato e que é
apelido, tia Poranga? - era o pássaro Mongo, xerimbabo ou mascote de Suiriri,
quem assim indagava. Nem complica, né, tia!
-
Apelido é outro nome que nem chega a ser um nome de batismo, etc. Então, o
melhor dos apelidos para o pai-do-mato é... porco-do-mato. Entenderam? E o pai-do-mato,
começando a contar a história, é um ser com poderes mágicos excepcionais. E
quem sabe até um extraterrestre, etc. Assim, digo eu, quem conta mesmo a
história pela minha boca é o pai-do-mato, tá falado? Então foi o seguinte e me
sigam...
“E o pai-do-mato (principalmente
vivendo na pele de um porco-do-mato) anda sozinho ou acompanhado. Sozinho
quando ele quer andar sozinho e acompanhado de bando da família toda e parentes
muitos quando ele quer andar em grupo. Gosta mais de andar em bando no mato
fechado à procura de gabirobas de pitangas de azedinhas e outras frutas
silvestres comidas leves naturais...
- E para onde ele vai? - perguntou
para saber a cunhantaim Cambaúba.
- E para onde foi agora? - para
saber o curumim Araçari.
- E para onde foi no mês passado mês
de julho? - latiu o mascote Xuri.
- E para onde vai quando chove? - a
cunhantaim ou menina Lilás.
A índia velha Poranga continuou com
seu relato, e com todo respeito, e colocando uma palavra atrás da outra em fila
indiana e sequência, em o seguinte:
- O pai-do-mato ou tateto persegue e
mata quem desrespeita os bichos as árvores as coisas da natureza. Isso é
verdade. Isso é fato. Isso é sério. Ele nasceu para isso: se vingar de caçador.
O pai-do-mato é dono e chefe de tudo que existe na natureza. Amigo dos bichos e
árvores e insetos. Você pode olhar em volta e ver e ouvir o que tem aí, etc.
Tudo tudo é propriedade responsabilidade do pai-do-mato. Ele é pai das
tapiçuás, do tiom-tiom, do arapaçu-grande, do canário-de-crista-negra, do
bagre-de-água-doce, da begônia-de-baraço, do suinã ou da corticeira...
- Ele é pai do colhereiro? - queria
saber direitinho o curumim Timbapeba.
- Ele é pai de maçarico-pintado? - o
curumim Caopiá.
- Ele é pai caprichoso da
acácia-de-flores-vermelhas? - dúvida da cunhantaim Flor-da-Cachoeira.
- Ele pai-do-mato é pai do macaco
cuxiú-de-nariz-branco? - quem tinha a dúvida era o curumim Sirinhaém.
A índia Poranga fazia concordando
com os netinhos, “sim-sim!...” com a cabeça. Olhava o céu e pensava. Olhava a
plateia e pensava. E foi descarrilando palavras em adjetivos substantivos
advérbios conforme a obrigatoriedade:
- Pois o poderoso pai-do-mato faz
qualquer um desaparecer e para sempre. É só ele querer. E quando quer é porque
quer. Ele enfeitiça o caçador desalmado e o homem brabo desaparece e pronto. O
pai-do-mato é um ser mágico e muito convincente. Nem queira você desafiar os
poderes todos do pai-do-mato. Você pode ser pul-ve-rizado. Você pode virar
poeira, fumaça, picadinho, cisco, resíduo, esgoto, lixo...
- Mas como que ele veio e chegou e
de onde, dona Poranga? - cunhantaim Lilás.
- Cada tribo tem o seu próprio pai-do-mato.
Ou seja, cada tribo tem uma lenda original que fala das proezas do pai-do-mato.
Então existem muitas lendas do pai-do-mato. Assim somos nós os potiguara. Mas
nossos muitos vizinhos irmãos e irmãs também chamam ele de pai-do-mato e têm
histórias muitas. Umas diferentes outras parecidas, mas sempre com o pai-do-mato
protagonizando liderando atuando. Assim são os vizinhos quencatejê-canela ou os
juberi ou os temiminó ou os caingangue ou os campé ou os caiapó...
“Muitas dessas lendas vindas das
várias tribos das várias aldeias, acham que o pai-do-mato é um guerreiro que já
morreu e virou santo ou espírito mágico, etc. Aí, todo dia de manhã o pai-do-mato
nasce na pele de um porco-do-mato ou taititu e sai aí cuidando do que está
errado espiando se tem caçador ou lenhador no mato, verificando qualquer coisa,
etc. Ele é contra fazer barragem de rio, por exemplo. Ele é contra fazer fogo
no mato, por exemplo. Ele é contra garimpar ouro e pedras preciosas no rio. Ele
é contra capturar passarinho pra vender na feira.
“Então, se caso ele precisar virar
uma árvore ele vira. Se precisar virar um outro bicho ele vira. Se precisar
virar um enxame de abelhas ele vira. Se precisar virar bentinho ou louva-a-deus
ele se transforma em galhinho camuflado, etc. Tudo para assustar e espantar o
invasor.
“Está sempre andando correndo pelo
mato e espiando tudo que é lugar. Afinal, tudo lhe diz respeito, tudo é dele,
tudo tem de cuidar. Se ele virar uma planta ele pode crescer e aparecer de 50
metros e olhar tudo lá do alto com suas mil e tantas folhas olhos-folhas e que
na verdade ninguém desconfia. Ele pode ser um perfeito cogumelo. Ele pode se
fantasiar de mandarová. Ele é mil vezes mágico. Ele é um vaga-lume. Ele já foi
embira-de-sapo, guaçatonga, samambaia-graciosa, cacto-macarrão...
- Que saúde tem pai-do-mato, né, tia
Poranga! - sugeriu Xuri.
- Que que pai-do-mato gosta de fazer
quando nem está trabalhando e caçando caçador? - pergunta da cunhantaim
Suiriri. Ele vive cercado de bichos, por ex?
- Bem, aí ele gosta de comer frutas
caídas do pé, pequi, jabuticaba, mangaba, sete-capote, goiaba-do-mato... e ele
sempre está presente debaixo de árvores que dão frutos. Pois o pai-do-mato é
frugívoro. E gosta de comer frutas e certas folhas folífago e certas flores e
certas raízes e certos grãos granívoro... Quando quer descansar entra no tronco
de uma árvore e deita e dorme um sono sossegado.
“Pai-do-mato quando é porco-do-mato
ou caitatu gosta muito de andar em bando. Eles conhecem toda a mata e nem se
perdem um minuto sequer. Aí eles vão para uma beira de lagoa ou rio ou sanga
lamber o barro preto.
- Lamber o barro? Mas isso é normal,
dona Poranga? - o curumim perguntou o Araçari.
- Claro que é normal para um
porco-do-mato. Lambendo o barro ou certo tipo de lama eles encontram sal da
terra, sabia? O sal é ótimo para a saúde. Claro que sem exagero. Somente umas
lambidas para temperar as folhas as raízes os frutos que eles comem. Já que a
comida deles nem tem sal ou nunca é salgada... Então é o jeito.
“E depois os porcos-do-mato fazem outras coisas em
bando e em família vara. Eles viajam por um território só deles. Eles bebem
água juntos e se alimentam de certa fruta todos ao mesmo tempo e quem pode mais
chora menos. Caminham pelo mato todos juntos e vira uma bagunça, querem saber.
O bando chega até a assustar a própria onça-pintada. E se veem pela frente um
inimigo ou um caçador desalmado eles já batem os dentes que é para mostrar que
estão irritados e prontos para a briga. Enfrentam qualquer um. Correm muito e
farejam melhor que cachorro. Atravessam rio a nado. Quando chove eles gostam e
quando faz muito calor eles deitam e rolam e focinham no lodo. A terra úmida
faz bem pra pele e reduz o efeito dos raios ultravioletas.
- Como o pai-do-mato conseguiu virar
esse ente mágico cheio de sortilégios e profissional da floresta? - se
interessou a cunhantaim Flor-da-Cachoeira.
- Eu acho que ele poderia ser um
bicho muito maior se ele quisesse - o curumim Caopiá deu a sugestão.
- O pai-do-mato pode ser o que ele
quiser? - a cunhantaim Cambaúba perguntou.
- Afinal o pai-do-mato é um deus ou
um diabo? - pergunta importante da cunhantaim Itaboraí.
- Acho que é tudo mentira desse tal
e qual pai-do-mato, quer saber - foi o Xuri.
Índia Poranga esticou as pernas de
tantas e tantas caminhadas, os braços dormentes, etc. Olhava os netos e netas e
visitas com um olhar pensativo. Ela conhecia todos eles e já tinha pego no colo
todos eles, etc. Pois continuou engrossando o caldo:
- Pai-do-mato é mágico quando ele
quer. No normal é um porco-do-mato. A diferença é que um dia o grande o super o
mega o feiticeiro Tupã pensou pensou e disse falando consigo mesmo: “Preciso
criar um protetor da mata e que seja um bicho do mato. Então, já sei: vai ser
um porco-do-mato.”
- Por que Tupã escolheu logo o
caititu? - quis saber explicado o curumim Timbapeba. Eu escolheria uma harpia,
por ex.
- É meio que esquisito essa escolha,
porém... - o curumim Araçari achou dúvida.
- E se Tupã tivesse escolhido a
juriti-pupu nem seria também muito justo? - pergunta do cão mascote Xuri.
- Bem, aí Tupã escolheu o
porco-do-mato e estava escolhido. Deve ter tido as suas razões divinas, certo?
Achou assim e escolheu bem. E Tupã fez dele do tateto um ser mágico e original
e esperto. Para cuidar do mato e dos bichos tem que ser muito poderoso e mágico
e invisível. Para dar conta de caçadores e lenhadores e garimpeiros desalmados
é preciso ser forte mas muito independente autossuficiente. E a melhor das
vinganças que o pai-do-mato tinha nas mãos ou nas patas ou nos cascos era:
surpreender caçadores ou mateiros e fazê-los desaparecer no ar, assim, oh! num
passe de mágica, num piscar de olhos, pofe!... E de maneira impressionante
sensacional!
Terceira Parte
E surgindo o dia seguinte, os
visitantes partiram juntos e de uma vez só. Mais ou menos bem dispostos com 8h
e 20min. Jacás carregados. Toda a comitiva a caravana a procissão a excursão.
Prosseguiram de viagem. Como se nada houvesse acontecido. Como carreira de
formigas-correição. Como se tivesse acontecido. Um pé de cedro-batata só podia
ser muito estranho ali parado no campo e olhando ao redor de si. Os pássaros
pica-pau-verde-barrado, joão-tolo, araponga-da-horta, gibão-de-couro,
chupa-dentes-de-cinta, cambada-de-chaves... voando de sol em sol de céu em céu
de árvore em árvore de planta em planta cardo-ananá, alfazema-de-caboclo,
capim-navalha, abacate-do-mato... e passarinhos rápidos... um sem-número
deles... inúmeras vezes...
Lilás, sem querer, ficou pensando em
como seria confortável se D voltasse a habitar outra vez o paraíso. O tempo
passava e bastantes. Uma árvore bem de manhã e amarela como ipê-amarelo. O sol
se lembrando como se fosse hoje. Era melhor ser um passarinho. Foi bom conhecer
de passagem o rio Iguá. Os maracanãs criavam polêmica nos pés de javaris.
- A grandeza dessas montanhas e tudo
debaixo do sol e de manhã...
Nem há tempo a perder. O voo
majestoso do jaburu. Pássaros abrindo voo a partir das árvores e sabiás-da-mata,
arapongas, saurás, vim-vins, corujinhas-do-mato... bando de papa-cacaus... Aves
pássaros passarinhos ágeis tranquilos radiantes risonhos lógicos engraçados.
Uns esperando a chance de caçar, outros fugindo de predadores.
E o caminho era sempre longo pelas
serras e chapadões e trilhas e estradinhas do cerrado das Minas Gerais, etc.
Aqui e ali toda hora cruzavam com um rio de itaipava o rio das Almas as
cidadezinhas localidades ainda nem mencionadas de Almenara, Medina, Rio Manso,
Jussari, Quissamã, Campos dos Goytacazes, Tabaí (que este município pertence ao
vale do rio Taquari). E serra do Cipó, pedras pedregulho rochas expostas e à
flor da terra. Vilas famosas afáveis gentis ternas meigas deliciosas
aconchegantes, estradinhas subindo montanhas igual trilhas de
formigas-carregadeiras.
- Bons ares, comadre ingazeira!
- Boa nota, compadre pé de
alquequenje-amarelo!
Na quinta-feira da outra semana já
de manhazinha madruga e boa parte da manhã uma chuva de enfrentar. Trisques e
trisques e faíscas de energia abrindo o céu escuro na atmosfera cheia cheia de
e-le-tri-ci-da-de. Abriu a chuva, choveu. Até o meio-dia e meia choveu o que D
concluiu. Na tarde voltou o sol de raios ultravioletas. Abriu a tarde com sol e
a noite prometia estrelas muitas para contar, etc. Ou era chuva e barro, ou era
sol e poeira. Mas sempre a fadiga o cansaço da longa jornada, e assim por
diante. Até se acostumar.
Os reflexos do sol na água nas cores
no verde das plantas dos alagados iaupês-jaçanãs, catuabas-do-mato, ouricuris,
lixeiras... O mundo era governado pelo capim-rei. O planeta precisava e muito
dos sabiás-pretos, catirumbavas, bicos-miúdos, siriúvas... A terra estava
rodeada de canelas-de-ema, bananeiras-bravas, facheiros,
carludovicas-brasileiras, cerejas-do-mato... O cipó-timbó era uma liana sempre de
leste para o oeste, flexível vistoso saboroso aparentado.
Somente os lugares são felizes e
aprendizes. Bandos de perdizes perdigões perdigotos estes perdidos dos pais,
piu-piu! piu-piu!... rio Santana...
- Minas Gerais nem tem praia de
Co-pa-ca-ba-na... hein?!, minha filha - puxava conversa o príncipe regente
Pedro. Praia de Mamucabinhas...
- Nem mesmo um rio largo soberbo de
soberbia soberbão, tipo... Tocantins, Purus, Solimões, Jacuí... - completava
sua parte a menina.
Os saripocas-de-bico-riscado
cantavam preferencialmente logo de manhãzinha e isso era honesto. A
arnica-do-campo florescia em setembro até novembro. Os tamanduás-bandeiras
pastavam formigas e cupins e térmites. Ao meio-dia de sol forte, a tapiíra
escolhia deitar debaixo na sombra da faveira. Na tarde descabelada beirando a
noitinha era a vez da suindara dar umas circuladas voo baixo reconhecendo o
ambiente, etc. Uma família de gambás ou sariguês, pai mãe filhotes em ninhada
de oito e fila indiana; a família unida em busca de novos horizontes e comida e
um lugar mais seguro pra ficar. Ora se tanto!
- No calor do dia de verão
verdadeiro... - suspirou o Pedro. Sinto na pele.
- Até que o sol aqui é legal - e já
respondeu a menina. Um sol de montanhas.
- Oh, linda situação para se
construir uma vila! - disse o príncipe.
- Pois se nem é! Posso sugerir assim
a Fazenda Vilanova ou Brochier ou Cambé.
Lilás olhava as plantas vegetais arbustos com suas
cores naturais e troncos e folhas e flores de tamanhos comportados diversos. E
colheram araticuns, goiabas-do-mato, muricis, tarumãs, pitangas... As árvores
se agitavam, com vento nas costas, pra melhor serem avaliadas reconhecidas
apreciadas desfrutadas. O beija-flor-brilho-de-fogo é dos indivíduos passarinhos
que gostam do néctar das flores, assim como as abelhas em geral, e são
nectarívoros, são polinófagos. E todos são o que são.
- Trajeto largo ondulado e maduro, é.
Passaram uma pontezinha de pedra
quando por baixo rolava um rio o tal e qual rio do Peixe. Quanto tempo de
espera para o rio chegar até o mar? Quem disse por que que o rio tem de chegar
até despejar no mar? O mundo total tinha um mundo que ia pela direita do rio do
Peixe e outro mundo que vinha pela esquerda do mesmo rio. Uma cidade atrás da
montanha e Baependi, outro lugarejo e Pati do Alferes e arraial Pitimbu
localidade de Cachoeiras de Macacu... área de preservação ambiental São João
Marcos... território dos caeté... parque Morro do Ouro...
- Por que que o mundo tem tanta
montanha, seu príncipe Pedro? - era a dúvida momentânea instantânea e urgente
da menina. Tudo muito amarrotado.
- Montanhas que escondem ouro, sim
senhora!, querida amiga miudinha.
- Então são montanhas e serras muito
ricas!
- Sim. Debaixo dentro durante destas
montanhas tem muito ouro escondido.
- Eu duvido e faço pouco!
- Montanhas de ouro de diamantes de
ferro manganês zinco alumínio, etc.
- Mas por quê? E como? E de onde
para onde?
- Olha, miudinha! Sei lá. Sempre foi
assim. As pessoas preferem ouro e prata quando de vez em quando diamantes. As
pessoas vendem pedras preciosas rubis ametistas ágatas esmeraldas... para
comprar prata e daí sim pagar o ouro dos quilates. As gentes ganham ouro prata
pedras preciosas... para comprar mais ouro em barras.
- Meu pensamento é uma árvore
ubiratã - desabafou a menina.
- Meu pensamento voa como as
andorinhas-do-campo, para chegar mais rápido.
A caravana avistou foi chegando chegou e entrou em
Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto, céu baixo, terça-feira em
meio-dia sem sol, 12h e 34min, nuvens baixas arrastando montanhas, vento
conforme, várias casas cobertas com telhado de sapê. Os bichos os cães soltos
nas casas vinham dar as boas-vindas saudar vivar, algumas casas cobertas de
telha de barro cozido e com janelas vidraçadas umas à moda guilhotina outras
venezianas.
Os visitantes decidiram aproveitar a rua estreita
Visconde de Inhomirim. Junto a uma igreja em construção - igreja São Francisco
de Paula - pararam as alimárias, apearam, saciaram a sede no poço público
tanque bica que vinha da montanha mais próxima, deram água aos cavalos e aos
burros, e agradeceram ao santo do dia. Na igrejinha ali trabalhavam uns homens
escravos alguns outros alforriados uns brancos um mulato pequeno apelidado
Aleijadinho.
O arquiteto Antônio Francisco Lisboa já reconheceu ou
adivinhou que era para ser o príncipe Pedro e sua comitiva. Então, fez as
mesuras, se curvou, sorriu um sorriso quase sem dentes, muito mal na aparência,
todo estropiado, praticamente em farrapos, mal na imagem de foto. Falou assim o
mestre artesão e construtor pedreiro:
- É mesmo a sua alteza Pedro
Príncipe Regente? Meus olhos nem me enganam?
- Com certeza, meu amigo escultor -
o príncipe Pedro apontou para a comitiva. E mais essa gente toda que me
acompanha desde o Rio de Janeiro, capital do Império.
- Ficamos sabendo pelos viajantes e
mercadores que o príncipe estaria para chegar. O povo o aguarda com ansiedade.
Só nem tínhamos ideia exata do dia - dizia o Aleijadinho, quase quase comovido
deveras.
- E por falar em povo, onde anda
todo mundo? - questionou o príncipe.
- Pois é, alteza. O povo está todo
concentrado em frente da intendência (hoje prefeitura) onde julgam um traidor
que atentou contra a Coroa portuguesa.
- Está bem, vamos até lá. Obrigado
pela água, amigo.
- Sejam bem-vindos a nossa cidade,
alteza Pedro Príncipe Regente e comitiva.
Após andarem praticamente toda a rua
Padre Rolim, chegando à intendência, o príncipe regente e sua caravana esbarram
com um tumulto no meio da praça, no chafariz Marília de Dirceu, largo do
Rosário. Bastou serem reconhecidos para que toda a multidão se voltasse para
eles e esquecesse o resto. E foram recebidos com aplausos, vivas, beija-mãos,
salamaleques, ademanes, beija-pés, tapinha nas costas, fogos de artifício,
uivos, acenos, bimbalhar de sinos, lenços agitados... Todos os viajantes deram
a volta com a perna na sela e desmontaram da alimária e bateram o pó e a
poeira.
Veio o governador da capitania das Minas Gerais o seu Cláudio
Manoel da Costa, e todo agitado, todo nervoso e agitadíssimo, para recebê-los,
cumprimentá-los, vivá-los, acarinhá-los, etc., abrir as portas da vila,
começando diretamente com a saudação ao príncipe Pedro. E com reverência,
sorrisos e brilho nos olhos, beijou a mão do regente em sinal de respeito e
hierarquia e honra, fez as gentilezas de todo o povo:
- É uma felicidade para todos nós da
comunidade poder recebê-los, sua alteza Pedro Príncipe Regente e acompanhantes!
Um grande acontecimento para esta cidade de Vila Rica e para Minas Gerais! É o
dia mais feliz das nossas vidas! Sejam bem-vindos! Estávamos aguardando a
chegada e com muita expectativa!
- Obrigado. Mas, pelo que se vê, há
problemas e controvérsias e os quiproquós.
- Pois é, alteza. Apresentávamos ao
povo o traidor da nossa estimada Coroa portuguesa. Pegamos o aventureiro em
delito grave e vamos enforcá-lo para servir de alerta e exemplo a outros que
por acaso venham a pensar a mesma asneira. Ele tentou fazer a independência das
Minas Gerais... e quem sabe do Brasil...
- Quem é o homem?
- Um revolucionário, um ex-militar
alferes, um bandido de apelido Tiradentes. Nem é de família conhecida, um tal e
qual Joaquim José da Silva Xavier.
- O senhor governador então está a
me dizer que se pretende enforcá-lo, esquartejá-lo, é isso?
- A ideia era julgá-lo, alteza Pedro
Príncipe Regente, no rigor da lei e como a lei manda e ordena e permite. O povo
assim o quer assim o exige. Pensamos julgá-lo e mandá-lo ao Rio de Janeiro onde
seria enforcado e esquartejado. O povo da capital teria um belo espetáculo um
grande desfile uma concorrida quermesse e faria um magnífico carnaval de rua.
Aliás, o povo carioca ou fluminense adora um enforcamento em praça pública e lá
mesmo no parque de Santana.
- Quero que parem com esse
julgamento até eu me inteirar de tudo que está acontecendo e por quê. Por agora
gostaria que eu e comitiva tivéssemos bons banhos, boas comidas, confortáveis
camas, etc. A viagem por esse país de sertão e sertões foi longa, cansativa, extenuante.
Necessitamos de repouso, sono dos justos, três dias e três noites de sono e
bons sonhos e silêncio. De acordo, senhor governador?
- Ouço escuto e obedeço sem titubear,
alteza Pedro Príncipe Regente! No que der e vier sempre conte comigo e o povo
desta comunidade, senhor!
E nem houve mais nada naquele dia
fechado nublado carrancudo encasacado. O julgamento foi suspenso até segunda
ordem e o preso reconduzido recolhido à cela na cadeia pública da rua do
Tereterê. Quanto à comitiva, essa foi instalada na intendência mesmo e o
príncipe na casa do fazendeiro rico proprietário de 300 escravos e muitas minas
de ouro fazendas de gado o tal e qual Tomás Antônio Gonzaga, etc. Os sinos da
igreja de Nossa Senhora do Pilar nem pararam de bimbalhar em festa em saudação.
Aliás, todas as igrejas fizeram o mesmo e por merecer. E também por toda a
cidade de Vila Rica de Ouro Preto um chiado de chuva para provocar bons sonos
bons sonhos, e com somente os possíveis e mansos.
- Que temos nesta vila? - perguntava
Lilás ao seu mascote cão Xuri, e ela mesma respondia de imediato. Temos ruas
estreitas e ladeiras e igrejas e capelas...
No meio da tarde começou continuou a
chover ainda mais forte. Era justo. O mau tempo pegou a cidade e a trancou em
casa. A rua Marquês de Olinda, a principal e mais concorrida, estava deserta e
abandonada. Quem sabe outras ladeiras. Tarde de chuva como tem de ser. Um pouco
de frio no vento do sul. Água escorrendo na sarjeta junto às casas aos prédios
de estilo rococó, simples assim. E o som da chuva no telhado e na rua dava um
gosto de dormir que só ouvindo. E a maioria foi dormir e todos foram dormir
muito bem naquela tarde úmida, e depois de tomar o bom caldo gorduroso
nutritivo revigorante. Todos foram dormir sem pensar que podiam fazer muitas
coisas e isso e aquilo e outras mais todos os dias e nas horas e nem só naquela
tarde, etc.
- Vila comovida e comedida...
O tempo chuvoso e meio frio, no
entanto, nem abalou os planos secretos que, junto com seu amigo Xuri, a menina
Lilás pretendia planejava executar naquela mesma tarde. Acompanhada seguida
ladeada pelo cão de linhagem aracambé, desceu a rua Alvarenga em direção à
periferia bairro Nova Vicenza. Caminhou a rua Barão de Vassouras, passou pelo
mercado São Pedro, a rua Dom Helvécio, a rua Passa Dez, etc. Minutos depois os
dois amigos chegavam à igreja onde encontraram o tal Aleijadinho, este entregue
as suas obras de arte sacra encomendas religiosas. Ele ainda no trabalho
iluminado mais ou menos por alguns candeeiros lampiões a óleo de bacalhau ou
baleia e velas de sebo animal.
- Seu Aleijadinho, eu poderia falar
um minuto com o senhor?
- Oh, pois nem, miudinha. Vocês
acompanham o príncipe Pedro, se bem me recordo. Que desejam deste humilde servo
de D?
- Olha! Eu estava pensando em livrar
o Tiradentes da prisão, só quê!...
- Mas isso é suicídio, uma
loucura!... Que ideia!
- É que nem posso ficar parada e ver
aquele herói ser morto assim... sem mais nem menos, entende?! Temos que fazer
alguma coisa! E hoje mesmo! De repente vão levá-lo arrastá-lo ao RJ e lá vai
ser pior e tudo estará perdido.
- Eu também sinto dó do pobre homem
mas, como se pode fazer? Se nos pegarem tentando libertá-lo vão nos enforcar
junto com ele.
- O príncipe Pedro nos salvará caso
nos peguem com a mão na massa.
- Olha, miudinha, nem sei se o
príncipe ficará do nosso lado. Você sabe, ele é membro da família real. E são
os nobres portugueses que mandam no país e servem à Coroa. Os mesmos que
pretendem enforcar Tiradentes, etc.
- Uta! Mas eu vou livrar Tiradentes
da cadeia. O senhor pode me ajudar, o senhor quer me ajudar, o senhor gostaria
de me ajudar? Entenda o meu lado, seu Aleijadinho! O certo é o certo!
O grande artista escultor ficou de
ânimo desconsolado e de braços caídos. Nem conseguiu convencer a menina Lilás e
o cão que seria uma operação arriscada e, ao mesmo tempo, nem queria passar por
covarde. Que fazer numa hora dessas? Como resolver um problema desses? Que
fazer em caso de enchente? Que fazer em caso de incêndio? Ou como se fosse.
- Ah, se ao menos eu tivesse a minha
boa saúde! Que planos a menina tem para libertar o aventureiro revolucionário?
Pode falar, sou todo ouvidos!
- É o seguinte. Vamos combinar uma
coisa e antes que anoiteça, e mais isto e...
Lilás expôs seu plano detalhe por
detalhe, passo a passo, sinais e pontos e travessões. Discutiram um porém ou
outro e foi, fecharam o caso. Estava decidido. Mãos à obra. E da teoria para a
prática. O plano a planície o planalto o planejado. O rumo a direção e os
sentidos.
- Eu aceito entrar na aventura
mas... Quero que saiba de uma coisa: estou para pegar uma gripe horrível.
- Vai dar tudo certo, imagine, será
uma moleza.
- Meu D, se fosse há vinte anos!...
- resmungou o Aleijadinho, se recordando dos seus idos tempos de rapaz cheio de
força e coragem e vontade e tempo de sobra.
Lá pelas 17h e 08min., debaixo de
uma chuva voluntariosa copiosa, chuva capacitada comprometida, ladeira estreita
rua Barão de Vargem Alegre, iniciaram a operação para libertar Joaquim José da
Silva Xavier ou o vulgo apelidado Tiradentes.
Aleijadinho e cão Xuri se encaminharam para o portão
principal da casa da cadeia localizada na rua do Tereterê, em frente da praça
Monsenhor Castilho Barbosa, e ali ensaiaram jocosamente um teatro circense.
Aleijadinho gritou, esbravejou, teimou com o pobre cão por n fingidos motivos.
Tudo bem esquisito. Em princípio, os guardas olharam e nem queriam sair da
guarita. Nem queriam se molhar, nem queriam se irritar, nem queriam conversa
com bêbado, nem queriam conversa com mendigo maltrapilho vagabundo vadio
acompanhado de cão vira-latas.
E tudo mais ou menos muito estranho. Chovia, e sem
parar. Todavia, o alarido foi tão grande, tão sem propósito, tão idiota, que as
sentinelas nem tiveram outro trabalho outro remédio a fazer senão intervir. E
muito tensos e com os nervos à flor da pele, provocados, resolveram ver do que
se tratava. Foi um deles que saiu na frente:
- Isso nem pode ser - disse o guarda Um.
- Isso é coisa do fim do mundo - disse o guarda Dois.
- É uma falta de respeito com a lei e a ordem - disse
o guarda Um.
- Nem só com a lei a ordem e o progresso mas com a
gente também, os representantes da lei da ordem e do progresso - disse o guarda
Dois.
- Então eu vou lá - decidiu o guarda Um.
- Então vamos lá - decidiu o guarda Dois.
- Na chuva para se molhar - disse o Um.
- E molha um e molha dois - disse o Dois.
- Chove chuva debaixo de aguaceiro - hablou o Um.
- Com galochas e sem guarda-chuvas - hablou o Dois.
Assim, ali na calçada de pedras pé de moleque, os
guardas chegaram e conferiram aquele homem aparentemente bêbado, gesticulando e
bufando a torto e a direito, ora contra o cão, ora contra a chuva, ora ainda
contra a própria miséria, a política, muita coisa, etc. O soldado Um se
aproximou mais, então, ameaçou com o mosquetão e a ponta pontuda da baioneta,
ordenou:
- Oh, camarada! Que palhaçada é
essa? Por que nem vai incomodar na loba boba da tua rua de lua cheia! Vai
timbora, vai!
- Meta-se com sua... vida...
cuide... de sua... - Aleijadinho fingindo estar bêbado ou até muito binguço.
- Vamos, xô! Cai fora antes que lhe
passe a borracha ou o cassetete!
- É minha mulher... nem sabe?!
- Sei. Ela voltou pra casa dos pais,
ela te abandonou, ela nem te aguenta...
- Ela... ela é uma dama... sem
muito, bla-bla-blá!...
- Quem manda casar sem confiar.
Agora cai fora. Minha paciência está se esgotando. Já se esgotou. Nem tenho
mais paciência para esperar! Desinfeta!
- Preciso... minha esposa...
- Sim, faça isso! Mas agora saia! Te
arranque, borrachudo!
A dupla de vigias pressentia encarar
uma situação limite. O diálogo estava realmente bem amalucado bem brabo
destemperado estressado nervosão. E então, dizendo assim, ao mesmo tempo que
falava, o guarda Um quis empurrar o pobre homem com a ponta da baioneta presa
no mosquetão. Soldado Um foi determinado pra cima do Aleijadinho mas desistiu
na hora ao ver o Xuri arreganhar os dentes e rosnar, grrrrr!... O caso ficou
num susto e num impasse.
- Se retirem daqui o quanto antes! Fora!
- dessa vez quem gritou foi o guarda Dois. Já deu pra conta, malandros!
- Está bem, já tô indo... droga!
Estamos indo... né, cãozinho?! - resmungou Aleijadinho.
- Cada vez que me aparece uma com
cara de duas ou três - desabafou o Dois.
Aleijadinho, assim e então, entendeu
que já tinham distraído os guardas o suficiente para que a operação pudesse dar
prosseguimento e resultado. A representação toda o teatro todo já durara uma
boa meia hora. Trinta e oito minutos bem exatos. Como o artesão nem viu nenhuma
anormalidade, nenhum alerta nenhum alarma que pudesse denunciar algum fracasso
da menina, considerou que assim tudo correra como fora planejado. Isso mesmo, chamou
o cão e, devagar e sempre e sob a chuva torrencial, muita água, mundo
encharcado, subiram a ladeira do Aranhi e já nas imediações do museu Mariano
Procópio. Chovia, e bastantes. Chovia e como descia água ladeira abaixo, nossa!
Qualquer um podia ter a impressão de que nunca mais cessaria de chover e o sol
e a lua nunca mais reapareceriam. E de uma vez só toda a água do universo.
- Fizemos tudo certo, Xuri? Será? -
perguntas do Aleijadinho para o seu companheiro de empreitada e jornada.
- Au-au-au!... (tradução simultânea
da língua latido, se fosse possível: “Faltou pouco pra eu nem morder um ou dois
deles, quer saber! Isso muito me irrita.”)
- Eu só nem queria ser preso... As
masmorras daqui são péssimas e nojentas.
- Au-au-au!... (“Esse negócio de ser
preso e ser mantido na jaula nem passa pela minha cabeça, gruuu!...” Isso
também me deixa em cacos, quer saber outra.”)
Enquanto o Aleijadinho e o Xuri
faziam lá o seu teatro no portão principal, Lilás aproveitou a falta de atenção
das sentinelas e escalou o muro. Já no pátio interno, procurou entre as várias
celas gradeadas a do Tiradentes. Foi difícil procurar sem um mapa, naquele
frio, naquela solidão, naquele submundo, naquele molhado alagado. Foi mais
difícil encontrar o herói no labirinto. As coisas difíceis, porém, são
honestas.
Parecendo brincadeira de criança ou peça de teatro
suspense, a menina só foi encontrar o Tira bem nos últimos instantes e na
última cela. Fazer o quê? E rapidamente logo depois que o herói foi encontrado,
e que soube disso e soube daquilo, trocaram umas ideias a respeito da fuga.
Repassando os ditos e falados planos, nos mínimos:
- Seu Tiradentes! Tô aqui com a
missão de livrá-lo. O senhor quer vir comigo?
- Que dúvida. Mas, e os guardas?
Como entrou aqui, miudinha?
- Pulando o muro. Temos um bom
tempo. Se o senhor me ajudar com essas trancas pesadas, upa!... Sairemos daqui
e correndo.
Um pouco de esforço, boa vontade e a
necessidade de dar o fora, nada nada de magia, e já o prisioneiro estava livre
das grades e correntes. E falando perguntas pertinentes e óbvias e comuns numa
hora dessas:
- Quede o resto do pessoal,
miudinha? Você veio sozinha? Você é intrépida?
- Tem uma turminha ali fora dando um
apoio estratégico uma cobertura. Simboralá, seu Tiradentes! A jornada promete!
- Vamos viajar? Vamos para
Guaranésia? Vamos para Ubá? Nos bandearemos para Porto Feliz? Quem sabe a ilha
de Itacuruçá, hein?! Eu posso ir para onde for, baía de São Marcos... porto do
Mucuripe... e outros bem longes. Prefiro praias! Que tal a praia dos Carneiros
a praia da Pedra a praia do Cassino...
- O senhor com certeza precisará se
mandar e urgentemente. A chapa vai esquentar e até queimar, seu Tira! Temos que
escolher um destino e é pra já. O mundo é pequeno para quem precisa se
esconder!
Do pátio calçado de lajotas ou tijolos adobe,
rapidamente pularam o muro de cacos de vidro arame farpado pontas de lança, e
caíram no mato. Evitando as ruas centrais e casas habitações para nem serem
descobertos. A noite já estava caindo e mais a chuva o vento frio e tudo
pontilhado de coaxos e latidos e cri-cris e vu-vuuus!...
- Tenho a sensação de que alguém está nos seguindo.
Você nem sente a mesma coisa, amiga miudinha? - pergunta aflita do Tiradentes.
Estou todo arrepiado e de frio.
- Com essa chuvarada toda, seu Tira!... Nada, que
nada, nem tem ninguém nos nossos calcanhares e garrões.
Tiradentes estava debilitado, fraco, devido a pouca
comida, comida podre, e muito aos maus tratos que recebera nesses últimos dias.
Mesmo assim, com sacrifício e sufoco, uma hora, pouco mais, chegaram no alto de
um morro - morro do Rola-Moça - que circundava a cidade, que via a pequena
cidade de longe. Ali, assim e assado, entraram numa casa em ruínas uma choça uma
oca um casebre qualquer para descansar e esperar o cantar dos galos. Com sorte
até mesmo a chuva pararia. Com conversa fiada até aguentariam a fome e a falta
do que comer. Tiradentes falou as tais e quais perguntas que nem queriam calar:
- Agora podemos conversar melhor.
Você poderia me dizer o que pretendem de mim? Acho que há mais gente contigo
nessa empreitada, hein?!, miudinha. Você é agente secreto confidencial? Espiã
de alguma irmandade beneficente benemérita? Você está agindo em nome do
príncipe Pedro e outros nobres? Você veio de tão longe para me libertar? Você é
da capitania de Pernambuco? Você é de São José do Vale do Rio Preto? Você é da
tribo tabajara? Você nasceu às margens do rio Caceribu? Você toca teclado piano
órgão de igreja? Você é poliglota?
- Ufa! Nem, nada disso. Eu sou
somente eu o meu amigo Xuri e meu outro amigo Aleijadinho, nós três e mais
ninguém. É um trio trilegal, tralaláaaa!...
A chuva ainda caía e rolava na
sarjeta valeta com a noite que entrava. Mais outras poucas horas friíssimas a
noite ficaria mais madura pronta. Na madrugada acordariam os galos para cantar
cucuricar cucuritar anunciando a manhã clara, etc.
Seu Tiradentes sofria com muito frio nos ossos, na
pele arrepiada, na raiz dos cabelos longos barbas longas como JC. Menina e
herói com roupas molhadas e tremendo de frio, batiam os queixos, pingavam dos
narizes. As horas demoravam cada qual uma volta completa no relógio e uns 60
minutos. Os galos nem acordavam antes do cedo. Lilás, 01h e 10min, falou sem
demora:
- O senhor pretende sumir pela geografia? Tem alguma
ideia? Gostaria de tirar férias em Marajó? Ou no parque do Xingu? Ainda quem
sabe subir o alto rio Solimões no Estado do Amazonas? Morar em Tabatinga? Nem
sei o que recomendar.
E o recomendado era que pegasse o Caminho Novo ou
Estrada Real, isso sim. Teríamos aí cidades distantes e aconchegantes tipo
Ribeirão Branco, Centenário do Sul, Iguaraçu, Lobato, Ribeira, Flórida (que se
localiza a uma latitude 23º05’16” sul e a uma longitude 51º 48’10” oeste,
estando a uma altitude de 548 metros).
- Sei lá. Vou correr até acabar as
pernas. Me lembro de Mandaguaçu e Ângulo e Barra do Chapéu e Atalaia. Assim e outra
coisa. Como vou agradecer esse favor? Vocês três salvaram a minha modesta vida.
Por enquanto.
- Nem é preciso agradecer. Fiz isso
porque o senhor é um homem de valor. Fiz isso porque gosto da H do B. Fiz isso
porque gosto de participar e protagonizar e atuar atriz. Faria qualquer coisa
para salvar um herói poderoso como o senhor, seu Tira. E outra pergunta que veio
me lembrar: o senhor consertaria os dentes dos inimigos?
- Sabe, eu pensei que era fácil fazer
o B independente de Portugal. Infelizmente o povo nem acreditou em mim e nem
foi na minha. E o povo é a voz de D. E o Senhor do céu sempre escuta a voz que
pede e repete o pedido.
- Talvez se o senhor tentasse de
novo, insistisse noutro lugar, daqui uns anos...
- É, vamos ver, vamos ver, miudinha.
Estou desanimado mas, se nem consegui agora... pelo menos poderão dizer que
ousei que tentei que comecei tudo. Mais cedo ou mais tarde alguém terminará o
que comecei. Pode demorar, mas a liberdade virá. A independência do país virá!
E eu entrarei na História com H maiúsculo! Triunfante! E sem arrancar dentes
dos inimigos, ahahahah!...
- Juro que sim, seu Tira!
Uma semana após a libertação
misteriosa mágica pretensiosa de Tiradentes, Pedro Príncipe Regente (PPR) e sua
longa lenta pachorrenta comitiva estavam de partida para São Paulo, pegando aí
a poeirenta cascalhada cascalheira Estrada Real. Ao todo uns cento e poucos,
entre pessoas cavalos burros cão, os semoventes. Era uma longuíssima tripa fila
centopeia. E alaranjada madura amarronzada de sol e poeira.
- Daqui mesmo se vê muito longe -
dizia a menina, admirando o horizonte.
- Além das montanhas e vales
profundos - conversava o príncipe.
- Eu queria morar em mil lugares ao
mesmo tempo...
- Eu já tenho saudades do Rio de
Janeiro, a praia, a lagoa, a baía... Eu acho que já fui alguém reencarnado algo
assim em Guapiara ou Nova Campina ou Almirante Tamandaré ou Apiaí (em tupi quer
dizer rio dos índios).
- Por que o B nem tem zebras e
girafas e leões e elefantes?
- Deve de ser porque tem sauás,
acamins, camu-camus, carapebas, geribás...
No entanto, antes de sair de Vila Rica de Ouro Preto,
passaram na igreja onde o tal Aleijadinho trabalhava laborava. Passaram ali
para as despedidas de praxe e gerais e comuns. Deixaram os cavalos beber água,
os dragões esperando perfilados, o povo da vila olhando e cochichando, o céu de
anil, as montanhas de ferro, as maúbas-amarelas florindo amarelo,
saíras-negaças gorjeando, etc. O mundo existia as coisas também torres de
igrejas molduras esquadrias de janelas chaminés soltando vapores fumaça.
- Nem existem igrejas iguais a estas e no mundo
inteiro, sim senhorita!
No templo sagrado que se erguia aos poucos e conforme
o dinheiro os donativos, observaram a arquitetura barroca, olharam também as
esculturas, desenhos e pinturas do mestre Manuel da Costa Ataíde, as
estatuetas, nichos e capelas, a beleza única e criativa e original, etc. E uma
igreja tinha de ser muito rica e bem trabalhada. A Lilás comentou:
- Tenho uma ideia relâmpago!
- Qual?
- Os artesãos podem decorar tudo com anjos céus
pássaros e tudo mais que existe de alados, etc. Uma igreja vem logo logo do
céu!
Antônio Francisco Lisboa o Aleijadinho era pra ser
mesmo um extraordinário artista escultor. Caso raro naquele tempo naquele lugar
e arredores. Um gênio da raça. Um artista caprichoso detalhista icônico. Por
que isso aconteceu ali? Difícil saber.
- O senhor - dizia Pedro ao
Aleijadinho - me surpreende com seu maravilhoso talento para imagens sacras
santas sagradas consagradas. Nunca vi tamanha perfeição em nervuras filigranas.
Suas estátuas de santos e santas parecem querer falar, parecem realmente
existir, parecem se mexer, parecem com a cara do povo brancos negros e pardos
mulatos caboclos mamelucos cafuzos mestiços mestiçagem e místicos.
- Que nada, alteza! Agradeço o
elogio, mas nem mereço. Faço o que posso. Minha saúde já nem é a mesma de
alguns poucos anos atrás. Nem sei o porquê ou para quê. D sabe o que faz, e se
fez pode desfazer.
- Muito legal tudo que acontece -
completou a Lilás. Os anjos foram tirados do céu, com certeza. Lá de cima das
nuvens de algodão e fofos. Anjos de asas coloridas, de rostos alegres, em voos
de passarinhos, etc.
- Pra falar a verdade a inspiração
vem mesmo com as crianças, que são anjos presentes aqui na terra. Eles estão
aí, eu só os coloco no altar. Depois de esculpidos e pintados e acrescidos de
asas, eles bem que podem voar.
- Genial! Você é craque!
- Um dia desses mandarei buscá-lo
para fazer, lá no Rio de Janeiro, algo parecido. O senhor aceita? O senhor concordaria?
- convidava o Príncipe Pedro.
- Quanta honra, nobre alteza! Também
gostaria muito de conhecer o Rio de Janeiro. Dizem sempre os que viajam para lá
que é um lugar lindo, de uma natureza exagerada, natureza engraçada e única no
mundo, o progresso, as modas que vêm da Europa e da Índia e da China, etc.
- E com muitas praias fantásticas
pra se molhar os pés, fazer piqueniques nos domingos - disse Lilás. Conhece
praia marinha e salgada, seu Aleijadinho? Praia de Ipanema... praia da
Galheta... praia do Leme...
- Está aí uma coisa que gostaria de
fazer antes de bater as botas, miudinha. Nunca vi o mar. Dizem que o mar é azul
como o céu profundo. Nem sei, mas calculo. Deve ser outra vida morar perto do
mar e ver o mar todos os dias.
- Bem, está na hora de partirmos -
sugeriu o príncipe. A longa estrada para São Paulo nos espera nos aguarda.
- Foi um prazer enorme recebê-los em
minha humilde igreja, alteza e comitiva!
- Tenho uma ideia brilhante - ainda
lembrou a menina.
- Qual?
- O senhor poderia fazer um chafariz
na entrada da cidade. Seria bem proveitoso e refrescante. Um chafariz artístico
e de época. Um chafariz pra chamar com seu nome, pra chamar de seu.
Enfim, se ajoelharam diante dos
santos na igreja, fizeram o sinal da cruz na testa, montaram nos cavalos e
tomaram a estrada. Todos eles e mais alguns. O povo da vila ainda estourou
foguetes na praça Padre Lobo, ladeira de Santa Efigênia, bairro Santa Corona,
etc.
- Tenho uma ideia perfeita - foi a
Lilás.
- Au-au-ua!... “Qual?” - perguntou o
mascote Xuri.
- A gente poderia deixar o endereço
pro seu Aleijadinho nos visitar lá no Rio, hein, que acha Xuri?!
As eternas montanhas desenhavam corcundas corcovas no
horizonte de ferro. Subindo e descendo, contornando grandes peraus, cruzando
vales e desfiladeiros... As montanhas do ouro. O rio da Cruz. O vale do
Jequitinhonha. Iporanga (o ibge implantou na cidade um marco referencial
geodésico situado na rua Joaquim Elisiário de Campos, centro). O tal e qual rio
Ferro. A serra do Cipó.
- Tenho uma ideia genial.
- Qual? - desta vez o príncipe perguntou.
- Podíamos viajar de carroça. Nem seria mais cômodo?
Dava até para ir dormindo sem o risco de cair.
Os moradores aplaudiram, saudaram, desejaram as boas
viagens, dias de bons tempos, etc. Até São Paulo muitos sóis e chuvas, noites
mais ou menos frias, cansaços, cavalos estropiados, outras coisas, etc., que os
aguardavam.
No último morro da cidade com vista para Ouro Preto,
um sinal da cruz diante da capela de Santana. Quem olha para trás sempre volta?
Então, tem gente que olha e que nem olha. Tem gente que para o cavalo e se
volta para trás. Olha e vê toda a cidade. E Ouro Preto é bonita maravilhosa de
perto de longe, vista do alto da montanha.
- Sempre volta - disse o príncipe Pedro.
- E é bom voltar e se deve voltar - concordou a
menina, cara aberta risonha.
As árvores falavam com os pássaros. Os passarinhos que
se apresentavam às plantas e arbustos. Os espaços falavam com a luz do sol. Em
breve outras árvores teriam nomes, canjeranas-do-brejo, quaresmeiras,
mangabeiras, girassóis-do-campo, castanhas-mineiras, macucus-do-rio-negro... e
outros pássaros pegariam nomes ou apelidos, beija-flores-da-mata, pintassilgos,
bicos-chatos-de-orelha-preta, trombeteiros, cardeais-do-araguaia... o bando
uniforme chalrante palrante de papagaios-de-coleira comia as frutinhas que
encontrava e por isso tinha essa característica de frugívoro.
Localidades aparecendo nas encostas dos montes,
Goianésia, Barra, Igaraçu do Tietê, Colombo (a gruta do Bacaetava é uma atração
interessante turística próxima à estrada rodovia estadual PR-417 e faz parte do
circuito italiano de turismo rural do município). Pareciam brancas de casas
brancas com janelas verdes portas verdes. Telhados avermelhados. Campinas de
capim-cheiroso. As lianas quinas-cruzeiros carregadas de flores cheias de pólen
poliníferas atraindo sempre as abelhas tipo as bijuris, bizzz! bizzz!...
Montanhas azuis. Como era viver ali em a aldeia dos piratapuia? O rio Macabu
ziguezagueante descendo cachoeiras e corredeiras. E mais adiante São Joaquim de
Bicas, Passos, Resende, Juiz de Fora, São João do Sul... mapeadas anotadas no
mapa mundial.
- Se eu fosse uma passarinha tipo... saci, eu chegaria
primeiro que vocês, é.
- E esperaria por nós e bem sossegada comendo frutinhas
da estação, né?!
Ninguém ficou sabendo que destino na verdade
Tiradentes tomou depois que fugiu da penitenciária de Vila Rica. Hipóteses
foram levantadas, palpites nem faltaram mas, até hoje, nada foi concretamente
apurado e comprovado e registrado na história. As pesquisas vãs foram feitas em
vão. A lenda que corre de boca em boca, de livro de História em livro de
história, dá conta de que Tiradentes arrumou um disfarce de mascate, regateiro,
vendedor ambulante, montado num burrinho ruão, todo carregado e cheio de
quinquilharias, e atravessou metade do mapa do país para chegar ao parque
Tumucumaque, no Amapá, e bem ao norte. E como é grande este país! Ali no parque
armou uma barraquinha e um pequeno comércio e um pequeno negócio, etc., à beira
do rio Flexal. E viveu escondido por lá até sua sorte acabar, muito avançado em
idade, até sua sorte o abandonar, barbas longas e brancas tipo profeta, cabelos
escassos ou meio careca, rodeado de filhos e netos e bisnetos. Passou o tempo
plantando aipim pescando colhendo açaí convivendo dentro da reserva dos
aborígenes mapuá. Ao certo mesmo, definitivamente, nada nada se sabe até o
presente. Nem depoimentos, nem fotos que possam comprovar ou comprometer. E o
que deve ter imaginado fantasiado pensado! Continuou a idealizar o país e o
mundo. Até os últimos dias e horas da existência. O mundo do outro lado do
mundo do outro lado do oceano do outro lado da mata do outro lado da história
do outro lado do B de Brasil. Quanto lugar tem o mundo, hein?!
Mas a jornada da grande comitiva do
príncipe regente Pedro estava na metade e seria longa, exagerada, estafante,
enervante, gigante, ainda seria longuíssima. Passariam justamente por São
Paulo. Os encantos de Minas Gerais ficariam nos arquivos das memórias das
lembranças das recordações dos recontos. Uma coisa Minas Gerais possuía e que
nenhum outro lugar poderia lhe igualar: as montanhas de ferro, as fontes de
água quente, as cavernas de ouro, os rios e tijucos de diamantes, as cidades
antigas, Mariana, Miguel Pereira, Santana do Riacho, Barreirinhas, Manhuaçu...
aliás e talvez.
- Essa região de Minas Gerais é
lugar de riquezas sem ter fim, minha miudinha - comentou por fim o príncipe.
Minas porque tem minas de ouro, e gerais porque tem muita extensão e amplitude
de terras.
- Muitas famílias irão enricar, nem
é mesmo? - perguntou a menina Lilás.
- Igrejas e palácios e casarões e
fazendonas serão erguidos do dia pra noite. Tudo por conta do brilho do ouro e
do resplendor do diamante da esmeralda dos cristais.
- E até quando? Quanto tempo?
- Até sempre. Ou até o sertão virar
mar e o mar revirar sertão, hum!...
Era preciso saber o dia em que
estavam e no calendário. Os pássaros acordaram cedo e bateram palmas dentro das
árvores bateram asas fora na paisagem fora no céu com azul e nuvens
desbaratadas. Aves com temas e assuntos de canto cantar tricotar chilrear e
dizer e contar anedotas piadas contorções reflexões.
- Tenho uma ideia caprichosa! -
tirou assunto a menina.
- Qual?
- Que as casas ricas e grandiosas e
enjaneladas virem museus, etc. Cada cidade aí aqui tem as muitas casas das
antigas e históricas tombadas como patrimônio material. Olha a cidade de
Iguatama... olha Birigui... olha Uberaba...
Os olhos dos caravaneiros nem se
acostumavam com o resplendor do sol forte. O dia estava cantando bem-te-vis,
coleirinhas, tesoureiras, corruíras, canarinhos-da-terra, tico-ticos, curiós,
pombas-trocais e outros. Os tipos magros e saltitantes dos passarinhos, das
abelhas, das vespas, das cigarras, dos besouros e até das florezinhas-do-campo,
faziam a maravilha nos olhos e nos ouvidos dos viajantes cansados fatigados
quebrados alquebrados bronzeados hipnotizados. As plantinhas do campo as ervas
anônimas disfarçavam o balanço do vento para continuar colorindo perfumando o
dia.
- Daqui mesmo se enxerga longe -
falou a menina, cheia de horizontes nos olhos.
- Já falei que este país é enorme e
bonito? - arriscou o Pedro.
- E tem rios como veias de um corpo.
- E rio dos tamanduás-bandeiras se
chama Tamanduateí.
Algumas árvores de amarelo e
ipês-amarelos, outras árvores e andirobas, juquiris, cuieiras, mutambas,
malvaíscos, mata-paús-de-espinho... A tarde imensa imensa enorme, quase do
tamanho e cor de uma abóbora madura. Tarde macia e com cheiro de vento verde
desde longe... o rio Tega... o parque da serra da Tiririca... No balanço e no
andar do cavalo cavalgadura.
- Quem faz o rio correr e andar?
Quem faz o vento circular?
- E por quê?
Os verdes do cerrado o pipiar do
sabiá-coleira o verde dos olhos verdes da mata e bocaiúvas, sucupiras,
cujumariranas, velames-do-campo, piranheiras... E passaram por vilas e
comunidades, futuras cidades, promissoras municipalidades e Comercinho, Nova
União, Engenheiro Paulo de Frontim, Poconé... aldeia dos uirina... rio
Grande... já agora pela serra do Espinhaço... e contando os meses os dias as
horas as aflições distrações perturbações embaraços desassossegos chamegos
bafões perrengues.
Pois a Lilás gostava de ver os
gafanhotos saltar das moitas de sarabatucu, de ver os lobos-guarás beber na
sanga, as borboletas-de-restinga, socós-bois-baios voando pesados em direção
aos pés de jacatirões, etc., os índios mongoió pescando na técnica da xeripana
que consistia de pescar com canoa bem na época da piracema, ou seja, na época
em que os peixes procuram migrar para as nascentes dos rios e desovar, etc.
Cruzaram uma manhã ensolarada o grande rio Bicudo, onde dava pé ou vau de
orelha. Alguns cavalos e burros e mulas já sabiam nadar, nasciam com isso, e
outros aprendiam na marra.
Ainda para trás se passou uma semana
e ficou. A caravana ia em frente e ninguém esperava a mala dos milagres cair do
céu do céu. Todos os dias com seu tempo de passatempo. Cada boca de noite o
fogo de chão.
- Sabe, seu Pedro!
- Continue.
- Nem adianta nada passar aqui uma
vez e depois nem mais voltar um dia, entende?!
- Como assim, rapariguinha?
- É que tudo isso vai me dar
saudades um dia e tal, quem sabe!
Lilás mesmo queria conhecer a pedra
do Ingá. E podia ser no fim do ano no começo do ano no meio do ano no mês de
setembro ou de outubro. O quanto antes.
O verão da região fazia as árvores
que faziam os pássaros que faziam os rios que concluíam os panoramas. A
paisagem concluía o rio Ratones que refazia o verão que refazia os pássaros que
refaziam as plantas. D fez as coisas se entenderem de comum acordo e bem
cuidado. A razão de tudo só Ele sabia e guardava em segredo.
- Tenho uma ideia tupi-guarani!
- Qual?
- Morar na floresta como índia
assurini como cunhantã de nome Japira e cantar de amor as noites de canções do
divino deus Rudá. Tem coisa melhor?, pergunta.
Já na capitania de São Paulo, a
caravana resolveu dar um tempo numa fazendona à beira do Caminho Velho, junto a
um riachinho Ipiranga. Eram terras de um tal de Francisco Marins, dono da
fazenda Taquara-Poca. Lugar aberto, porém com eco.
Quarta Parte
E seu Francisco foi logo sendo muito receptivo e
atencioso e útil e amigo. Aprontou uma mesa grande e bem sortida de comes e
bebes e frutas locais da estação sobremesas compotas quitutes para os
visitantes ilustres se fartarem. Nem era todo dia que podia receber o nobre
Pedro Príncipe Regente e sua comitiva. Honra dessas só uma vez na história e
olhe lá!
Lilás, por sua vez, pegou o amigo Xuri - cão da raça
januaíra de procedência selvagem - e uma cestinha cheia de umas fatias de pão
com queijo, broa de milho, biscoito beiju-membeca, mel silvestre, frutas do
pomar, e foram para a beira do riachinho Ipiranga. O lugar parecia aprazível
com a de aprazível. O ar atmosférico com a de atmosférico. O céu aberto com o
celeste recomendável.
- E aprazível é bom? E campestre é ótimo? E silvestre
é o ar livre?
- Au-au-au!... “Dentro do possível, dentro do
possível!” (tradutor simultâneo)
No caminho encontraram um pássaro, o
bem-te-vi-do-brejo, pousado no alto de um jequitibá. Ele o pássaro era
impossível. Depois que viu a menina e o Xuri nem largou mais do pé. Falava
assim, chirriou:
-
Bem te vi, bem te vi, menina, cachorro!...
- E daí, e daí! O que você vê por
esses lados, com esses seus olhos abertos?!
- Bem te vi, bem te vi, passear!...
- Fala outra coisa! O que que você
quer, seu plumoso de ouro e prata!
- Bem te vi, bem te vi, um
lanche!...
- O quê?! Quer um pedaço do meu
bauru, é isso?!
- Bem te vi, bem te vi, um pedaço de
pão!...
- Então pegue, seu peninha! Lá vai,
seguuuure!...
Depois de pegar o naco de pão
oferecido, bico cheio, o bem-te-vi-do-brejo caiu fora, voou para outra
freguesia, voou para o capão mais próximo, quem sabe alimentar os filhotes. E o
céu azul com nuvens brancas espalhadas esgarçadas estendidas direcionadas pelos
ventos... O vento que vinha do nordeste fazia ali mesmo a curva para oeste.
Vento com aromas de flores do campo. Situação que o mundo rola igual bola.
Lilás continuou seu caminho saltitante tranquila
faceira leve solta. Xuri correndo muito afoito na frente na frente. Até toparem
com o riachinho Ipiranga. O riozinho era ali muito fininho e tímido e limpo e
cristalino e transparente e murmurante iniciante. O rio Ipiranga, mas pode ser
qualquer rio, se comportava muito engraçado interessante. Refletia o céu azul
as poucas nuvens aqui e ali brancas os pássaros que voavam pra cá pra lá,
chupim, brujajara, papa-moscas-de-topete-marrom, traz-farinha-aí, narceja-muda,
crispim... A menina foi se estendeu no barranco gramado, se estendeu de costas,
ouvidos e olhos ligados nos insetos, zumbizar!... marimbondos cavalos-do-cão,
libélulas, joaninhas, etc., lugar com mais de cem espécies de libélulas. E
olhou tudo em volta, o céu, contou as nuvens, o alarido desordeiro do
gavião-carijó rondando bem pelo alto, ieeeeh!... E começou a pegar no sono no
sono e len-ta-men-te divagar devanear... suspendida no ar puro, solta e
flutuante...
Dado momento Xuri latiu as orelhas levantadas o corpo
todo alerta ligado esticado em excelente superextensão, e latiu avisando:
- Au-au-au!... “Olha ali, olha aí, olha lá!...”
- Que houve, Xuri? Que que você quer
dizer? Fique quieto senão você espanta os peixes e os passarinhos e os insetos
e as plantas e as nuvens brancas cada uma qual e tal com cara de objeto real.
Mas o cão nem sossegou. Mas a menina
pouco entendia de au-aus e língua latida. Xuri olhou para o mato ali à beira do
riachinho, um capoeiruçu, e acabou falando, e latiu mais ou menos num sotaque
parecido com este:
- Au-au-au!... “Tem um cara ali e ali nos cuidando nos
olhando e nem é deste mundo deste planeta, tá ligada!...”
- Que está acontecendo, Xuri? Que
nervoso é esse? Você está delirando!
- Au-au-au!... “Estou vendo sim um
fantasma!”
- Que novidade!
- Au-au-au!... “Um ser fantástico!”
- Que ma-ra-vi-lha! Nem me faça rir!
De repente o Xuri viu cair na água
uma pedrinha, pleque!... O cão ficou doido, ainda mais excitado, bem mais
nervoso, pra lá de irritado, latiu rouco e falou alto, gesticulou do jeito que
os cães gesticulam, grunhiu:
- Au-au-au!... “Graaa!... Ban-di-do
na área!”
Nem demorou muito e novamente outra pedrinha,
pleque!...
- Mas afinal - pensou alto a Lilás -, que história é
essa de pleque?!... Vou até lá pra vê e confirmar. Um caso enigmático. Que
coisa rara, meu!
Chegando lá, bem na beirinha do riachinho, deu de cara
com o saci-pererê, com gorro vermelho na cabeça, entidade, cachimbo pegando
fogo na boca e uma perna só. Este malandro arteiro moleque, falou, articulou,
quicou:
- Achôooo!, ih ih ih!... Quem é que
lhe deu autorização pra descansar aqui, miudinha lilás?, ih ih ih!...
E este, ih ih ih!... era lá mesmo
seu riso muito sincero e engraçado e brincalhão e característico. A menina
disse, respondendo na lata na cara e em tua face:
- Ora, seu Saci! O dono das terras,
o seu Francisco Marins, dono da fazenda Taquara-Poca e quem mais haveria de
ser?!
- Pois ele nem manda nada, ih ih
ih!... O dono desse mundão sou eu! Sou eu! Ouviu?!, ih ih ih!...
- Olhe! Deixe de brincadeira comigo.
O Xuri aqui pode lhe morder a bundinha, tá sintonizado sintonizando?
- Ah, ih ih ih!... Só rindo mesmo,
ih ih ih!... Eu com medo de cachorro jaguacininga, ih ih ih!... Conta outra,
vai! Esta está boa e foi boa, ih ih ih!... Sou mais esperto que qualquer coisa
que exista neste mundo, miudinha! Acorda!, ih ih ih!...
- Você tá mais feliz que um
bem-te-vi-gameleiro, que dois bem-te-vis-de-três-riscas, que muitos e até um bando
de bem-te-vis-barulhentos!
- Obrigado obrigado, ih ih ih!...
- Muito bom, seu Saci. Nem quer me
ajudar a comer o lanche? Até te ofereço.
- Opa!, tô nessa, ih ih ih!... Que
você tem aí, ih ih ih!... Compartilhe, ih ih ih!...
- Sanduíche misto de pão com o
queijo, mel de abelhas do campo, doce de pequi para passar no pão, doce de
abóbora para passar no pão, broa de arroz, mangaba, araçá, goiaba-do-mato,
macaba tirada recém arrecém do pé de macaúba...
- Tá ótimo e faz o seguinte, ih ih
ih!... Te ajudo, ih ih ih!...
Sentaram os três num lugar bem
confortável, bem tranquilo, longe das formigas com tenazes de fogo, longe dos
cupins, longe dos micuins, longe quem viu quem deixou de ver dos pulgões das
cochinilhas das cigarrinhas, na sombra de uma pitombeira enfeitada de parasitas
esponjas-de-raiz, e comeram a merenda. O saci-pererê, sem dúvida alguma, se
mostrava o maior dos gulosos dos glutões comilões.
- Que você tá fazendo aqui por estas
bandas, Saci?
- Nada que preste, ih ih ih!...
nhoque!...
- Este riachinho, é seu, é? Estas
matas são suas, são? Esse sol, é seu, é? Esse céu raro azul por tudo e poucas
nuvens navegando cada qual a própria caravela, é seu, é?
- Que rapariguinha supermetida, ih
ih ih!... Nem para de fazer perguntas... Só porque repartiu um sanduba, ih ih
ih!... pensa que pode se meter na vida alheia dos imortais, nhoque!... Regula,
né, guria, ih ih ih!...
- É, foi mal.
- E já tá perdoada, ih ih ih!.... O
lanche tava bótimo, lambuzei os beiços, ih ih ih!... me cansou a beleza.
- Dizem que você faz qualquer
mágica, é vera?
- Tá duvidando?, ih ih ih!...
- Nunca, nem, de jeito manera. Só
queria ter certeza.
- Então, pede, ih ih ih!...
- Faz aparecer um pé de vento, um
rodamoinho. Lá longe...
- Pé de vento? Rodamoinho?, ih ih
ih!... Qual o tamanho?, ih ih ih!... Com chuva ou sem chuva?, ih ih ih!... Com
poeira e folhas secas e ciscos?, ih ih ih!...
- Do tamanho que você puder. Sem
chuva. Sem muitos gravetos. Sem granizo. Sem furacão ou tempestade subtropical.
Algo em espiral na vertical e já tá bom.
Então, o brincalhão do saci-pererê
aceitou o desafio. Foi daí que sacudiu seu gorro vermelho e de lá de dentro
saiu um pé de vento terrível, que foi rodopiando, e aumentando, e levando
folhas secas, poeira, pedaços de pau, até mesmo o pobre do Xuri, lá para cima
nas nuvens já fantasiadas pro carnaval de verão, altura de quinze andares
quinze departamentos, pra lá das copas das altas palmeiras javaris, etc.
Vendo seu amigo nas nuvens plácidas, voando sem as asas,
rodopiando como pandorga sem controle, altas esferas, Lilás se apavorou, pôs as
mãos na boca e falou:
- Volta! Volta! Volta com tudo, seu
Saci. Volta com o Xuri, desencante o pé de vento, extermine o rodamoinho, seu
Saci. Por favor!
- Mas você, ih ih ih!... nem queria
um pé de vento, puxa vida!, ih ih ih! Cal que é, comadre!, ih ih ih!...
- Sim, eu quis mas... sem o
envolvimento do meu amigo Xuri.
- Ora, ora que miudinha vagal, sô!,
ih ih ih!...
Logo o saci-pererê fez outra mágica
com o gorro e o pé de vento foi diminuindo, veio baixando, até extinguir
inteirinho, fiapinho, soprinho, bafinho, aterrissando, e sem folhas secas e
poeira e cisco, para dentro do gorro do diabinho. E o pobre do Xuri aterrou
tontinho tontinho, nem sabia mais para que lado apontava o focinho, a cauda e
com as quatro patas perdidinhas bêbado tonto zonzo.
- Que brincadeira sem graça, seu
Saci! Olhe só o Xuri. Coitado, vai vomitar.
- Pra falar francamente, ih ih
ih!... nem sou muito fã de cachorros, cães, guaipecas, cuscos e carroças,
carruagens, barcos a vela, jangadas, galeotas, navios...
- Mas nem precisa humilhar, né!
- Acabou o lanche?, ih ih ih!... Já
vi, vou ter que bater em outra porta e outra freguesia, ih ih ih!... Seu lanche
evaporou, pofe!...
- Tamém!...
- Sou mesmo é muito rápido, muito de
repente, ih ih ih!...
- Pra onde você vai agora? Posso
saber?
- Nem precisa saber, ih ih ih!....
- Se se pode com um risinho destes,
hein?!
- Olha só a mágica, ih ih ih!...
Fui!!
E foi o saci-pererê sem deixar pistas,
sumindo assim, pofe!... no ar. Foi um passe de mágica. Instantâneo. Milagroso.
De repentemente. Num estalo de relâmpago. Num piscar de olhos e zás-trás e em
vápite-vúpite!...
Quanto ao Xuri parecia agora melhor, parecia normal,
parecia satisfeito, parecia se recuperar e se equilibrar nas quatro perninhas.
Seus olhos já haviam parado de girar dentro das órbitas. Vomitara, mas já
estava pronto para outra.
Lilás pegou suas tralhas todas do piquenique e
retornaram ao casarão da fazenda de seu Francisco. Uma construção dentro da
paisagem do potreiro do campo.
Ouvir passarinhos e ver plantas sempre era o normal e
do dia a dia. Cada planta cada arbusto cada ser vivente com seu nome próprio ou
apelido, orabutã, periquiteira-da-mata, caimito-do-monte, buchinha, juçara,
cardeal-do-brasil, quina-cruzeiro... O celeiro o paiol o forno a lenha a
estrebaria o chiqueiro o galinheiro e outras construções de pau a pique e taipa
de mão taipa de sopapo taipa de sebe.
- Por que todas estas coisas bichos plantas levam os
nomes e sobrenomes? Quem diria, meu D! - murmurou a menina no seu alto falar
com o cão companheiro.
Naquela hora, ali, no meio do nosso
país, Lilás ficou sabendo - ela também ficou sabendo - uma coisa pra lá de
certa e importante: que um bando de ararinhas-azuis nascera ali no meio do rio
calmo, calmo riozinho Ipiranga. Era assim mesmo. Estava tudo ótimo. Dia muito
bom. Dezesseis horas e pouquinho. Temperatura próxima dos 26°C. O tempo
passando de uma maneira aprazível. A brisa mexendo com as árvores.
Parecia uma frondosa árvore bracuí.
Porque uma planta sempre toda sorte longa história sempre produz seu próprio
alimento. Então, a árvore qualquer árvore ou planta ou arbusto ou erva, produz
seu próprio sustento, e esse processo se chama curiosamente... autótrofo. E
tudo quer dizer a mesma coisa com outras palavras.
- Os dias os dias são miúdos e
mínimos, tá certo?!
- Au-au-au!... “O que mais me choca
é que são sempre do mesmo tamanho, é.”
Porém, somente parecia que alguma
coisa nem ia acontecer. O céu com nuvens navegando a favor do vento quente,
então e nada de novo no céu. O campo verde com os verdes nas árvores no pasto,
etc., aveias-do-campo, imburis, axuás, malvaíscos-de-pernambuco, jarinas. O
casal de beija-flores-brancos muito simpáticos beijando bebendo comendo do
néctar da flor da congonha-do-gentio. E brilhavam conforme a luz. E trocavam de
cor conforme a luz do sol. E trocavam de lugar e de voo conforme a ideia lá
deles, etc. Voos firmes decotados picotados estreitos desbastados encurtados.
Perto da casona da fazenda, Lilás
ouviu o maior banzé, a maior algazarra, o maior auê, a maior zorra vindo do
terreiro. Comentou com Xuri:
- Mais uma festa? Que será que tá havendo? Festa novamente? Que
gritaiada, meu!
O Xuri fez um, au!... tampouco
entendendo daquela comemoração além da hora, e latiu o seu modo de falar meio
confuso animal mamífero:
- Au-au-au!... “E parecem eufóricos exaltados surtados!”
Afinal o todo pessoal da comitiva tinha feito um
banquete na chegada, já seria o suficiente. Iriam se acostumar mal. Será que
nem podiam parar de bebemorar?
Mas aí na dúvida a menina e o cão pegaram e foram lá
ver de perto e ao vivo. Caminhando na grama entre umas sombras debaixo das
imbuias. E o alarido aumentando conforme. E os tiros de espingardas e bacamartes
disparados para o ar. As gargalhadas se ouvindo a quilômetros, gra-gra-gra!...
tra-tra-tra!...
Eram 16 horas mais 20 minutos de 7
de setembro de 1822.
E ali no pátio da fazenda
Taquara-Poca, Lilás pôde comprovar que todo mundo já estava mesmo na maior
farra e pândega e se divertindo por conta. Aproveitavam do bom e do melhor,
avançavam nos comes e bebes, bagunçavam zombavam durante os discursos com
gritos de vivas e aplausos e tapões nas costas. E a rapaziada tomava caninha e
falava muito alto. Erguiam brindes um atrás do outro, se abraçavam, dançavam,
riam sem parar, e o príncipe Pedro no meio do forrobodó da patuscada... o quê?!
O príncipe misturado aos dragões e todos abraçados pulando numa só bagunça,
bebendo pinga de alambique e farreando com os simples mortais? E recebendo elogios
e muitos cumprimentos e os parabéns? E tomando copos e taças de caipirinha de
limãozinho de cachacinha de branquinha? E muitos uivos de comemoração,
brincadeiras? Algo estava fora do normal e bem absurdo e nada explicado e explicável.
Lilás se aproximou do príncipe Pedro e lhe perguntou à
queima roupa:
- Que festa de arromba é esta, seu
Pedro? Uma vez que seja!...
- Alegria... alegria... alegria,
minha miudinha. De hoje em diante nem somos mais portugueses, somos livres,
somos brasileiros!
- O príncipe tá voltando das nuvens,
é? Que que houve? Explique melhor.
- É que acabo de... de gritar aos
sete ventos, aos sete cantos, aos sete interessados o sete de setembro e
proclamado a independência do Brasil: Independência ou Morte!
- O quê, como, por quê?!...
- Eu sou do...
Braaaassssil-sil-sil-sil-sil!... heeeia! heeeia!... leeeeia! leeeeeia!...
Quando Pedro Imperador falou isto,
repetiu este breve discurso, etc., todo mundo, todos os presentes, gritaram
malucos e em coro, “ru-ra-raaaa!...” e mais brindes se ergueram, chapéus ou
quepes foram jogados às alturas, tiros de garrucha para o alto, “ru-ra-raaaa!...”
Era a farra do boi Garantido do boi Caprichoso, no mínimo.
- Viva o primeiro rei ou imperador
do... Braaaasiiiil-sil-sil-sil!!!...
- Antes taaaardeeee... do queee
nuuuncaaa!...
Por alguns dias o Brasil nem soube o
que fazer com essa notícia com essa história a mais importante da sua História:
Independência ou Morte! Como sempre acontece, a ficha demorou para cair. Uns
souberam da notícia e nem acreditaram; outros souberam só um ano depois; ainda
os que nem queriam saber; outros nem souberam e morreram antes de saber; mais
alguns que foram morar no estrangeiro, embora recebendo em mil-réis; sem contar
os que fizeram anedota e chacota e piada e galhofa.
- Quem é o pai e a mãe e os filhos
da pátria?
- Que tal o hino do B?
- Vamos ficar com esse nome: Brasil?
Está bom? Está bem?
País livre, povo livre e por quê, e para quê. O povo
demorou para entender. Demorou para cair na real, na nova era, no novo tempo,
no novo país. Era um milagre ou uma piada de português? Era uma necessidade ou
um golpe de esperteza? Era possível ou apenas um faz de conta? Era à vista ou a
prazo?
- Reinado ou império? Eis a questão!
- Temos história ou temos Historia? Este é o tema!
Isso tudo podia ser um novo país? E quem ia mandar ou
governar o novo país? E como seria o nome do novo país recém-inaugurado? E com
que cara? Quem mais tinha que saber disso tudo? O mundo tinha de saber? E pra
que um país novo igual ao Brasil? Era necessário um novo país no mundo? Quem
tinha a ver com isso? Que lugar era esse, é este? O país novato independente
mudaria do Brasil e de nome e sobrenome?
- Eu acho que o Brasil deve ir até o Pará. Sim, e ali
no Pará chega estaciona e para. Nem só para como diz: “Parei aqui e até aqui tá
bom e muito bem!”
- O maior acontecimento das histórias da História e
por séculos e séculos!
Ficaram duas semanas um mês esperando a resposta de D.
Talvez os talvezes D nem tenha nada a ver com este país. Vai saber! Uma
superação!
- E é um país de santo ou de santa? Tem gente que
adora NS Aparecida! Tem devoto que faz tudo por Santo Antônio! E outras rezas e
crenças? Claro que sim!
E os membros da caravana foram pensando sobre falando
sobre as horas o sol a chuva o calor os boatos as fofocas as lorotas, etc. E se
cada coisa estava realmente no seu lugar, o cipó-trindade, a bênção-de-deus, o
cordão-de-frade, o caimbé, a capeba-do-mato, a douradinha-do-campo... Cada
coisa cada ser tinha o seu lugar de merecimento, a garça-real, o barulhento, o
arapaçu-de-bico-preto, o japiim... Os bugios chegavam e comiam as flores que
caíam do almeirão-da-terra; pois estes macacos gostavam e se alimentavam de
flores doces; então porque eram primatas florífagos, uma vez. Bandos de
araras-azuis pares aos pares procuravam nidificar nos buracos do buriti. Os
bons e destacados galos-de-campina em bando de 12 ou 14 ou 16 procuravam se
acercar das roças de milho e comer a quirera o farelo.
Lilás prestando atenção assim os olhos atônitos olhava
e nem via nada ou algo ou alguém fora do lugar. Se sentia assim conforme e de
bem com ela mesma bem por dentro e bem por fora. Sossegada relaxada ou até quando.
- Tenho uma ideia imperial!
- E qual? - perguntou o imperador Pedro I.
- Sete de Setembro é um bom dia e mês para começar uma
data de aniversário, é.
E sua majestade imperial Dom Pedro I e ele mesmo
arrancou um talinho de capim-marmelada olhou o ar de em volta, coisas por fora
das horas e horários, mastigando, e disse, proclamou:
- E se cada um e cada qual fosse fazer o que cada um e
cada qual deve de fazer e chega, hein?!
- E chegou o dia mês e ano do Brasil. Isso
perfeitamente. Isso serve mesmo.
- Amanhã é outro dia, mas... hoje é um dia especial.
Hoje se comemora como se fosse durar pra sempre, é.
- Ninguém vai superar este dia, mestre Dom Pedro I!
Quinze dias depois do grande relâmpago
acontecimento que abalou o Brasil, e a Coroa portuguesa lá em Portugal, grito
do Ipiranga que ecoou por todo o planeta, a comitiva chegava (e com um
prestígio fora do comum e do normal) à ilha de São Vicente, também reconhecida
com o nome de Tumiaru, litoral de São Paulo. Com uma fama e um sucesso fora do
planeta e da estratosfera e da lógica. Absurdo até. Mas nem parecia real. E nem
devia ser compreensível. A chave nem tinha virado.
- Tenho uma ideia capitã!
- Qual! - incentivava o novo
imperador dos trópicos tropicais.
- Acho que o nome do nosso país,
recém-criado recém-nascido recém-emancipado, poderia se chamar recém-nomeado
de... Solar. Nem seria legal, hein?!
- E por que Solar, minha miudinha?
- Lugar de muito sol muita praia
muita floresta muita chuva muito mar tropical muita arara-vermelha-grande muita
fruta de verão e de todas as estações, etc.
Na vila Ipanema - reduto dos colonos invasores ou
imigrantes europeus -, Pedro Imperador ficou sabendo que o beato José de
Anchieta havia sido tomado como refém pelos silvícolas. Esses índios - os
tupinambá, maracajá, carijó, tupiniquim, pancaru, xacriabá, oapixana - exigiam
que os brancos os respeitassem, que suas terras fossem desocupadas, que suas
cunhantãs e guerreiros nem fossem sequestrados roubados e escravizados, etc.
Caso contrário nem libertariam o padre jesuíta. Senão a coisa até podia piorar
para atentados horríveis e mortais e fatais. E podia acontecer o estouro de uma
guerra sangrenta. E uma guerra seria prejudicial para todos.
- A política nacional começou começando do começo -
reclamou Dom Pedro I.
Então, na manhã de segunda-feira, logo no dia seguinte
à chegada da caravana, se formou esse grupo de colonos, missionários jesuítas e
o próprio Pedro Imperador para ir até a aldeia dos autóctones e tentar as
negociações. Aliás, essa pendenga de terras, entre índios e colonos brancos,
vinha se arrastando desde muitos anos na região e em outras regiões do país.
Estava na hora de se resolver com isso e do melhor modo possível, etc. Resolver
de modo que ambos os lados saíssem honrados do acordo.
- Devemos levar presentes aos nossos vizinhos
autóctones?
- Sim, sempre levamos presentes: chapéus peças de
roupa machados facões...
Chegando na aldeia dos índios
amotinados, os vilões foram convidados a se sentar nos toros de moreira ou
jacarandá com os caciques e pajés e índias mais velhas. De ambos os lados havia
certa desconfiança, portanto as negociações seriam muito melindrosas e
delicadas e arriscadas e perigosas e demoradas. Podia até haver combates
ferozes. Inclusive os autóctones estavam pintados de jenipapo e urucum e também
armados de tacapes zarabatanas arcos e flechas, dispostos a tudo.
Enquanto ali na taba se discutia política territorial,
Lilás e Xuri resolveram dar um rolê pela praia de Itararé. Tinham saudade do
mar, de um mergulho, brincar, correr na areia, ver as ondas indo e vindo,
gaivotas piando precavidas, etc.
- Tenho uma ideia de alto mar!
- Au-au-au!... “Qual?”
- Vamos visitar a ilha Grande!
Nem andaram muito quando deram por acaso com o beato
Anchieta, que escrevia e já ia escrevendo uns versos no chão de areia. Lilás
puxou conversa admirada enternecida:
- Olá!, seu Anchieta. O que o
bem-aventurado escreve aí na areia?
- Um poema em louvor à Maria mãe de
JC. Um poema com vários versos em latim.
- Legal. Sabe, nós viemos com Pedro
Imperador para tentar libertá-lo dos índios revoltados. Quem sabe ainda hoje.
- Os índios estão muito brabos. Eles
têm razão. Estão com receio de perder as terras, perder os parentes, perder a
liberdade, etc.
- Negócio complicado. Escuta, seu
Anchieta. Eu sei que o senhor é santo, fala com D e tudo mais...
- Mas nem é todo dia que Ele me
escuta. Ou que prefere me ouvir. Nem é bem assim. Imagina o quê!
- Seguinte. Pensei então, já que o
senhor, vez ou outra, fala com o Todo-Poderoso, pudesse me ajudar a resolver um
caso. Ajeitar um problema quase particular.
- Qual caso, minha flor de
manjerona-do-campo.
- É o Xuri. O cão nem fala um
português brasileiro conforme e claro e explícito. Quer dizer, falar ele fala,
mas uma língua mistura de latidoscompalavras. Tá entendendo, seu santo?! O que
eu gostaria que o senhor me ajudasse é ver se ele pode poderia pudesse falar e
entender muito bem na língua dos homens e vice-versa. Dar assim uma outra opção
de comunicação ao meu cão amigo. Fazer dele um bilíngue fluente. Que entenda e
fale o brasileiro fluente, sabe?!
Seu Anchieta parou de escrever na
areia. Levou a mão até a cabeça e segurou o queixo para pensar melhor. Olhou o
céu todo azul e bonito por fora e por dentro. A tarde era agradável e imensa e
profunda. O mar rangia agradável e azul. O azul do céu emendava com o
azul-verde do mar. As aves do mar eram tagarelas e o mar barulhento. Nem
apareceram baleias jubartes nem tartarugas-verdes, ainda por enquanto. Havia
ondas e espumas flutuantes. Bando de papagaios-do-mangue viajavam da ilha para
o continente em alta bem sonora algazarra. Na paisagem ainda se podia curtir o
visual da laguna Araruama. Os coqueiros dormiam nas redes dos ventos. O lugar
mais bonito do mundo. O beato falou para a menina, voz santa e juízo sensato:
- Você quer um milagre? Então você
vai ter um milagre e tanto. Chame aqui seu amigo Xuri, faz favor.
- Pra já! Nem demora um segundo!
E Lilás correu gritar assobiar ao Xuri:
- Ei, Xuuuriii!... fiiiiuuu!...
Lilás assoviou chamando o amigo. O
cão corria até o mar, brincando, e voltava com susto das ondas. Quando o cão
ouviu o chamado e se aproximou dos dois, o santo padre já erguia a varinha que
usava para escrever seus poemas na areia e disse e mandou ou pediu ou comandou
humildemente com a ajuda do céu:
- Xuri, meu bom cão das linhagens
dos jaguaracambés, você quer falar também na língua das gentes? E sem sotaque?
E sem gaguejar? E sem tatibitatear? Quer mesmo?
Xuri então baixou a cabeça
pensativo, se demorou assim uns quinze segundinhos... e latiu decidido fazendo
com a cabeça que sim:
- Au-au-au!... – “Acho que sim!” -
comunicou o Xuri e com certa alegria canina.
- Então, vamos lá! - favoreceu o
jesuíta.
O padre José, então, apontou de leve a mão na testa do
cão Xuri. Imediatamente desceu uma luz milagrosa maravilhosa mágica como raios
de sol poderosos decorados superquentes superfortes iluminados fortemente... e o
cão Xuri virou outro. O cão se sentiu outro. Principalmente por dentro e
intelectualmente mentalmente. Tentou resmungar isso e já falando mais ou menos
um brasileiro inteligível e aceitável:
- Tenho... muita... coisa, etc., pra
falar!... Me ouvem... bem?!
- Pode ir com calma senão você
engasga. Respira fundo, depois fala. Você praticamente virou uma pessoa comum.
- É ma... ra... vilhoso!
- Puxa! Que legal, amigão! Você tá
falando, sem dúvida. Te adoro, meu xerimbabo - falou a menina, sem poder se
conter de alegria.
- O... briga... do, seu pa-pa-pa...
dre!
- Vá com calma. Nem precisa falar
tudo de uma vez. Nem carece falar tudo num dia - recomendou o santo católico.
Escute e ouça o pensamento dez vezes antes de falar; você tem duas orelhas e
uma boca. Se lembre sempre que a língua, por azar por ironia por disparate, é
mais longa e comprida que a razão, hein?! Nunca fale pelos cotovelos.
A tarde ia tombando, sustentável,
etc., revirando o sol atrás das grandes árvores na floresta da mata atlântica e
piraguaias, trapoerabas-vermelhas, rabugens, catingueiras, jundiaís,
capebas-do-norte, piaçabas, inhaíbas... o canto dos tantos pássaros da hora e
arrelias, corucões, inhambuxororós, xexéus, jacamins, corujas-baratas,
peixes-fritos, cardeais-do-sul... De um lado a floresta, do outro o mar, no
meio a branca praia sorrindo de orelha a orelha. As nuvens pouco a pouco se
tornavam amareladas, as aves mais avermelhadas voavam mais baixo, e os versos
da areia chegavam ao fim. De repente um último raio dourado recolheu o poema do
seu Anchieta lá para o céu, lá para cima, lá para o universo nem começo nem
fim.
Na boca da noite o grupo de vilões
que negociava com os índios voltou com boas notícias e informações e
recomendações. O padre Anchieta, mediante acordo com os colonos e o governo, de
um lado, e os índios confederados, do outro, poderia voltar para casa, para a
vila Ipanema na ilha de São Vicente. Todavia, o bom padre nem aceitou esse
porém com quem também. Preferiu continuar entre os índios, os quais precisavam
realmente dele. E os autóctones precisavam mais do grande jesuíta que mesmo os
brancos. E o padre decidiu viver entre os selvagens nativos ali na aldeia.
Lilás contou logo ao imperador Dom Pedro I:
- Seu imperador, sabe o que
aconteceu aqui na praia?
- Nem imagino. Conta tudo, nem me
esconda nada.
- O Xuri tá falando melhor que muito
professor de ciências? Xuri, fale algo ao imperador pra ele ver e ouvir e ter
certeza.
E o Xuri, todo bobo e feliz, língua
de fora, cauda balançando de risos, falou sem latir ou latiu uma fala, assim:
- E daí, impera?! Tudo legal e
outras coisas mais e etc?
- Ei! Que espantoso! Mas que milagre
é este? Xuri engoliu uma ave tipo papagaio-verdadeiro, periquito-tuim, baitaca,
maracanã, humaitá? Tá falando!...
- Nem é o máximo, seu Pedro?!
E para festejar o acordo com os
índios, os colonos e missionários religiosos prepararam uma grande festa um
funfungagá à moda do interior e com casamento caipira e quermesse com
barraquinhas de doces e prendas e jogos, etc.
- Tenho uma ideia carnavalesca!
- Qual? - perguntou autorizando o
imperador.
- Vou inventar o bumba meu boi ou
boi-bumbá!
Aí então todo mundo teve que se trajar, até o
imperador D. Pedro I e mais os seus dragões, com aquelas roupas típicas,
largas, velhas e remendadas. Inclusive riscar um dente a carvão para dizer...
“êta, sô!” No centro do terreiro, junto às fogueiras, um casal de noivos, todo
envergonhado de falsete, jurou alegria até que a festa acabasse. Quando os
noivos iniciaram oficialmente o baile, e dançaram a quadrilha, ninguém mais
ficou parado, nem podia, todo mundo foi dançar. Quem perdia o fôlego comia
milho verde, pé de moleque, rapadura, cocada preta, cocada branca, broa de
centeio, pastel de abóbora, bebia garapa, bebia quentão... E tudo na moda
caipira, sô! Até as estrelas dormir e o sol raiar. Até a matinada da passarada
dar “bom dia!” na mata na praia, alma-de-caboclo, joão-conguinho, bigode,
ararinha-azul, tempo-quente, rabo-branco-de-bigodes, gaúcha-de-cara-suja,
cavalo-melado...
Um rapaz de chapéu na mão e dente de
menos se aproximou de Lilás e lhe perguntou, convidando:
- A miudinha, prum obséquio, qué
dançá mais eu?
- Pois óia, tô em dúvida, seu
moço...
- Mais prum quê? Nem gostô mais eu?
- Nada, nem, que isso, moço. É qui
tô vergonhada, levo receo de pisá no seu pé...
- Mais eu num reparo. Ocê, permite?
- Intão, tá!...
De manhã o céu estava
descongestionado e era já do outro dia bem cedo. O mundo já era do outro lado
de cá. No fundo do horizonte tinha uma estrela, uns chamam estrela da Manhã
outros estrela D’alva ou o planeta Vênus. Mas era sim um sorriso de estrela
guia e magnífica. Já o sol vinha deslizando por cima do universo. O sol e sua
parábola na curva do mundo. A paisagem ocupando a vista a visão. Um recorde de
aves marinhas piando famintas esvoaçando perto da praia.
Depois já se visualizavam as ilhas
jogadas no oceano Atlântico. As mais em conta com o continente. O mar estava
verde como a floresta como o azul do céu. Aves pescadoras e impacientes. O
continente e o mar.
- Se um dia eu aqui regressar...
Bem, se um dia eu voltar aqui...
Largando para trás a ilha de São
Vicente, a caravana foi costeando o mar rumo de casa. Passaram alguns
vilarejos, futuras cidades e Itambé do Mato Dentro, Major Gercino, Botuverá,
Cabo Frio, São João da Barra... praia da Feiticeira... e também Nova Trento que
era cidade santuário da santa Madre Paulina... parque dos Aparados da Serra...
bairro Sanga da Toca em Araranguá... o moço jovem rio Culuene...
- Por que adoramos voltar pra casa,
hein?!, minha amiguinha Lilás.
- Pra contar as novidades. Pra
deixar de ver novidades.
Mais uns dias e atravessaram o rio
Paraíba do Sul dividindo a província de São Paulo da do Rio de Janeiro...
carroças carros de boi e lotados de sacos de café... lagoa dos Quadros...
mascates com seus burros pesados de canastras e sacolas e bruacas...
- Tenho uma ideia alçada!
- Qual? - indagou Dom Pedro I.
- Penso que o tema da nova bandeira
do B precisa de um sol de um céu ou mar e de uma floresta, ou seja, amarelo
azul e verde. Tudo isto tocado pela brisa suave. Bandeira ao vento e rindo
despregada ao sol.
Mês seguinte mês de maio, a comitiva
do imperador Dom Pedro I entrava apoteoticamente maravilhosamente sensacionalmente
no Rio de Janeiro, rua principal avenida da Azenha, e sob os foguetes os
aplausos os vivas da massa enlouquecida. A rua Visconde de Uruguai toda
atapetada de folhas verdes flores coloridas. Era a glória, foi um sucesso
estrondoso. O povo exultava pulava ria alto... avenida Getúlio Vargas... praça
General Freitas... avenida das Nações... Biblioteca Nacional...
- Tenho uma ideia ideal e leal!
- Qual? - Dom Pedro I interrogou, ao
mesmo tempo que abanava para o povo.
- Por que nem fazer três dias e três
noites de carnaval, ué?! Minha ideia!
Já o pessoal da praia do Coqueirinho
e os moradores do Morro do Pai Inácio nem se seguraram na empolgação e gritaram
e chamaram e pediram aos expedicionários de regresso:
- Ei! Olhem pra cá!
- Ei! Olhe aqui!
- Ei! Olhem praqui!
Com efeito, Sua Majestade Imperador
Dom Pedro I fez a entrada magnífica na capital do império do B. Entraram na
cidade capital percorrendo ruas e foram aplaudidos e vivados. O povo ergueu gritos
de alegria para o alto... rua Padre Miguelinho... calçadão João Pinto... panos
lenços de seda de linho de algodão cores diversas... a enseada de Botafogo... o
logradouro ou largo da Carioca...
Seguindo o Imperador vinha a comitiva a caravana o
cortejo e pela frente o chão florido atapetado de folhas de flores as janelas das
casas e calçadas com gente abanando feliz. O dia pronto azul e mais. Começo de
uma festa de três dias. E dali pra frente a História com H maiúsculo seria bem
melhor e diferente. Disseram uns e outros, dizem uns e outros, disseram muitos,
dizem muitos... e há testemunhas.
- Tenho uma ideia capital capital.
- Qual? - perguntou o mandatário
dono e proprietário do B.
- Fazer do Rio de Janeiro a Corte
deste país! O centro nervoso! O olho do furacão! A cidade mais conhecida e
badalada do B.
O povo nem se continha na alegria, na euforia, na
festança, na algazarra, rua Barão de Piraí, ilha do Governador, ao rever seu
ex-príncipe regente agora imperador Dom Pedro I do Brasil:
- Pedro I!... Que D lhe reserve e lhe sirva sempre de muita
saúde e sabedoria!
- Que D lhe conceda um milhão de amigos!
- Que D lhe alcance sempre e sempre a melhor sorte do
mundo!
A multidão carregou o imperador nos braços até o paço
frente o palácio imperial. Tanta foi a folgança, a farra, o número de comícios
ali na praça, que se decretou oito nove dias de festa, de feriado, de
procissão, de sinos tocando bimbalhando, dom! dom! dom!... em comemoração.
E tinha que ser muito mais e nem
devia ser por menos, uma vez!