sábado, 21 de dezembro de 2013

Seja Lá o Que Quiser!


 


      

       Quando Deus achou melhor inventou de consertar o mundo com o dilúvio.

       E Deus sempre foi Esse um Homem sério. E Deus foi direto ao assunto.

       Favorecer o mundo com uma nova formatação.

Pois bem.

       O tempo fechou e caiu a chuva grossa e firme. A chuva despencou enorme, envolvente, no meio da chuva, e tudo se encharcou com cara de segunda-feira rente das 13h e 30min. Um mundo borbulhou cheio de chuvas.

       O conto é a história de um poema.

       Se achar estas palavras e seguir estas linhas vai encontrar o que quer saber.

       Tudo muito simples e portanto muito fácil. Tudo que se ensinava também se aprendia, ou mudava. As respostas nas perguntas. E tudo isso sempre era agradável.

       O que poderia ser salvo. Menos os dinossauros, que esses eram tão pesados e famintos e gritalhões.

       A grande enchente cataclismo durou o tempo que todos esperavam. Os dias foram passando sempre com chuva no decorrer do período.

       Uns cantos e outros pios transparentes límpidos molhados de sanãs-carijós no alagado entre plantas aningaçus aquáticas.

       Aí foi bom, porque a chuva parou de repente e a arca encalhou no pico Campestre, lugar conhecido de onde se via a Itupeva. Se abriram as portas e as janelas, que foi aquele recomeço de primavera. Árvores oiticoró sacudindo a cabeleira verde aos quatro ventos. Havia par de deuses em cada morro em cada rio em cada árvore gigante. Os ticuna os suruí-aiqueuara os campa os sanamaicã os xucuru-kariri os tsunhum-djapá os txucarramãe vendiam cestos de taquara potes de barro animalistas parecendo tietinga bicho-preguiça tamanduá tracajá cocar de araras-grandes-azuis trombeta uatapu tapioca beiju e compravam caminhonetes 4x4 cabine dupla.

       O momento de cada coisa, movente ou não, o momento de cada ser ou coisa, o momento. Mas não se sabe, ninguém sabe nada.

       Ninguém era indiferente. E ninguém era melhor que ninguém. Nem diferente.

       Os milagres foram acontecendo devagar.

       Sol fez entrevista e o resto fez apresentação. Porque tudo certo acontecendo.

       A surpresa do mundo em detalhes e mil outras coisas.

       E paz peregrina.

       Uma árvore, uma árvore, uma caamembeca, existia ali e pronto, simples assim.

       Sendo que alguns tomaram posse do mar, das ondas, dos cardumes, até das estrelas da constelação do Escorpião e dos astros da bola de futebol.

       Tinha céu azul montanhas azuis imaginárias rios de pedras verdes correndo entre árvores verdes azuis amarelas. Tapirangas conhecidas cantavam nos primeiros minutos da manhã. O teto azul do dia com chapéus brancos em caravelas abastecidas. O vento se misturando com o verde das plantas alecrins-bravos pequiás-amarelos pereiros-da-serra capitiús catuabas barbas-brancas baririçôs-amarelos salgueiros-do-mato.

       O meio ambiente brincava de mil coisas. Acontecendo mil e uma naturais e outras tantas absurdas sobrenaturais.

       A estação preferida do amarelo da flor preferida. Era para ver tudo pela primeira vez e milagrosamente. E por toda a parte as coisas se inventando se divertindo zumbindo chilreando.

       Como se chegar onde se tem de chegar? E fazer o quê?

       O dia mais alto do chão, o dia mais comprido e a noite mais passageira. O dia e a noite iguais em comprimento.

       A estrada passando por lugares.

       O rio Ivinhema era a liberdade e a felicidade espontâneas. O rio dentro do rio. Nem começo nem fim. Líquido e persistente e permeável da montanha ao mar. Nadando em peixes nadando em si mesmo. E estava certo.

       A enxuí veio procurar a flor. O mono-carvoeiro balançou o sucará. A maritacaca ensinou comer butiá. O sabiá-do-campo cantou para a sabiá-do-campo.

       Tons verdes cambiantes.

       Tudo era coisa, tudo estava brincando para ser nomeado.

       Pronto, inteiro, natural, completo, ruflar de asas, vento leste moderado ameno, sol majestoso ousado, árvores rangentes, voos de pássaros proprietários das aroeiras-brancas, caminho do rio murmurante, campo afora de capim-amargoso, tudo fácil como um dia depois do outro e a noite no entremeio permeio.

       Hoje, depois, pois não, em tempo tão distante daqueles dias naturais e inaugurais.

       Ele parou de braços abertos e esticados assim debaixo da pitangueira em época de pitangas. E ele não sabia, e ele não sabe.

       Nos instantes em que duvidou sobre o que deveria falar.

       As macaíbas murmuravam em arvoredo. Os jaós assobiavam na sombra das frutas-de-coruja.

       Naquele tempo, não era nem homem nem criança, naquele tempo. E passeava com chapéu de palha peririma trançada.

       Enquanto o sol nascia, raios de sol oblíquo, o verde-amarelo das folhas ainda pingado de orvalho, ele caminhava pela beira do rio Pirapó. Isso o que mais o interessava. A voz do rio a voz dos coró-corós a voz das árvores as cores camufladas das borboletas-oitenta-e-oito.

Ele estava pensando estava só espírito desarmado pura descontração e não tinha perguntas. Mas não por muito tempo.

       O gavião-caboclo sobrevoava agreste território e as árvores acapuranas-vermelhas comiam pedaços de céu e de terra.

       Experimentou jabuticabas maduras de sol e de chuva e de vento.

       Então, o mundo exercitava porque tinha alguém olhando.

       A lua redonda quieta meiga alada acompanhada de estrelas quentes saía inflando a noite a noite.

       Assim, por onde for, ele adivinhou que ela estava ali no banho de sanga entre as flores de barbas-de-lagoa e de cristas-de-mutum. E ela o descobriu ali rente, mais ou menos admirado e impositivo, entre as tapinhoãs.

       No primeiro dia o casal comeu e se alimentou, foram dormir para acordar cedo.    

       O céu tão certo o sol tão longe nos espaços o tempo afora. Quase deixaram de cumprir as metas do dia.      Descansaram à sombra das árvores, assobios flagrantes do capitão-de-saíra, amanheceram nos braços e no alto dos galhos da árvore braúna.

       Ele respirava seus lábios quentes e se banhava nos seus cabelos longos. Os olhos dela leves como tenras folhas verdes de caapi. Eles se abraçaram resfolegantes.

       O sorriso contente, o sorriso alegre, o sorriso até depois do regozijo.

       Conversaram sem noção e pelo tempo sem duração. Mas não sabiam disso não sabem disso.

       Modestamente, alcançaram os frutos sazonados do araticum-ponhê.

       O sol apareceu e ficou assim. Árvores gigantescas andavam paravam andavam paravam no caaobi. Os pássaros se repetiam cantando.

       Pelo visto, era em ponto de primavera pegando o verão. Uma reunião de flores rasteiras, flores otimistas, perfumes macios, cachos de flores amarelas lilases verdes, zumbidos, voos.

       Uma pequena gruta oportuna, e com ramas e tramas de trepadeira confundindo a abertura, e eles entraram.

       Dormiram um muito, e com a tarde já se passando, tomaram o caminho de volta.

       Reiniciavam conversas sobre.

       Caminharam passeando sem pressa, ergueram as cordas passando por baixo do arco-íris, derrubaram em voo alarmado um bando de araçaris, os olhos falando doces, se incomodavam com nada.

       Manhã clara, bem clara mesmo de cristal, e bando tagarela de periquitos-de-encontros-amarelos, manhã estava clara como um ponto final, como uma tarde.

       Tudo isso muito divertido e aconchegante. 

 

 

domingo, 3 de novembro de 2013

Sorvete de Abio


         
       Nívea Clara olhou o céu das nove horas em saindo de casa: "parece Deus e o infinito", pensou. Suas roupas tinham sempre seus amarelos. Sabia que uma altura do dia ia chover. E os compromissos e declinações a esperavam; foi mesmo assim. Os dentes mais que o sol. Sem nenhum enfeite de colares pulseiras pendentes tatuagens. A alegria do beija-flor-de-garganta-verde sentindo o sol. As irrequietas jandaíras que zumbizavam que zangavam que zanzavam em torno das flores novas doces coloridas da capitiçoba. Quem tem medo de se molhar não sai de casa! Seus afazeres suas urgências no Centro eram pra hoje, pra ontem também, e pronto; foi sem dúvidas.

       Justamente o dia não era para o número da placa do carro. O metrô pingava de estação em estação, Canoê, Venâncio Aires, Tuatuari, Guaraio, Miracatu... A voz macia feminina anunciava as estações as linhas e conexões o dia todo bom e do melhor: entre 25 e 30 anos, mãe de dois ou três filhos, casada pela segunda vez, um dos desse último, pele acobreada, cabelos longos encaracolados e negros, gosta de batom lilás sabor açaí, "tem gosto pra tudo!", prefere usar calças compridas a saia ou a vestido, a blusa casual, mora de aluguel no distante bairro do Juberi, tem carro próprio, não se decidiu ainda sobre as férias de final de ano com a família na praia em São Pedro da Aldeia ou na serra em Marau, quando beija perde o chão a noção e o coração chega a cem por cento. O barulho arrasador dos vagões se arrastando se atritando em alta velocidade pelas galerias obscuras noturnas do fundo da terra, etc. Um homem a esbarrou pegou a mão ela se assustou se olharam rapidamente nem ele pediu desculpas que nada.

       O Brasil e o Panamá são dois países. As manhãs entram sempre muito tributárias. Tanta menina se oferecendo!  

       No meio da multidão das praças, das calçadas, das ruas e avenidas e das lojas e cafés, tantas coisas tantos sons, paredes de vidro dos prédios reflexos do céu azul com nuvens brancas, Nívea Clara simplesmente cumpria seu périplo de filha, estudante de psicologia, professora particular de matemática, mulher e mãe, tirando passarela entre os homens e outras mulheres de olhares compridos espichados caprichados. Árvores pacíficas em fila indiana. Um catador de latinhas ciscava a lixeira frente do restaurante. Fazia calor um pouco. Se mexendo pra cá e se mexendo pra lá. Os homens e algumas mulheres adoravam seu cabelo alto em fogaréu. Aguardava a vez com ansiedade e prospectos de promoções na mão, disputava espaço entre cotovelos, joelhos, ombros, suores, bafos, perfumes, ora! perdeu o elevador. Tempo para um cafezinho? "Só se for agora!", murmurou.

       Com o tempo vaivém as novidades se atrasavam. Uma vovó e um vovô tomando chimarrão na sacada.  Estavam retirando dos passeios públicos os enormes e antigos vinháticos-do-campo e plantando no lugar possivelmente os jatobazinhos, as cabeças-de-negro, as canaflechas e as tamataranas. Logo olhou pra trás com a sensação de estar sendo seguida, ali perto daquela luminária, um homem alto, jaqueta de couro marrom, se disfarçando, cuidando de soslaio, braços cruzados, tentando passar interesse diante da vitrine da loja de óculos: solteiro, pai de um filho, ex-corretor de imóveis, pela primeira vez na cidade, natural de Cruz das Almas ou Rio Bom, revólver na axila. Mas claro que era só impressão dela. Tudo muito rápido. 

       Nívea Clara excepcionalmente não sonhara à noite com Campos dos Goytacazes, arrumar bagagem malas e cuia, seu sonho recorrente e bonito e sossegado e carnavalesco e pitoresco. O vira-lata malhado de azul e branco sempre inquieto focinhando sério em cada poste em cada pneu estacionado em cada portão metendo o nariz procurando o faro atravessando a rua sem olhar pros lados catando cheiros rindo de língua de fora cauda embandeirada. A alegria dos elevados e viadutos. O sol dobrando as esquinas incendiando fachadas atingindo em cheio as vitrines. Ela não tinha cachorro nem bicho algum em casa porque não tinha tempo. Gostaria de ter um casal de ararunas, e isso se o Ibama permitisse.

       Têm cidades que se parecem com montanhas, outras com grandes rios transbordantes, outras ainda com florestas ou o fundo do mar. Do rio Jaguarão até a lagoa da Messejana. O museu Casa dos Contos de muitas janelas abrindo diretamente para a rua Pinheiro Machado ou a ladeira Caiabi. 

       Quinze dias atrás, Nívea Clara tinha ido conferir uma oferta de emprego secretária de advogado trabalhista melhor salário qualidade de vida lá pros lados do bairro Guajajara ou Tabajara. Bom lugar pra morar, inclusive. E sem avisar em casa sem comentar com as amigas e, principalmente, com os colegas. Ela andava displicente na rua calma e tranquila e honesta dos 26 anos.

       Depois de sair da clínica do Dr. Cutucurim, pulando pra cá e pulando pra lá, se decidiu finalmente por um almoço no shopping Torre Panhame. O garçom por acaso que a atendeu na mesa: orçava entre 54 e 58 anos pai de dois filhos e avô de um neto morando na zona leste o bairro Tambiú ou Xerente cinco anos na casa e dezenove na profissão onde ama beija na boca e não desgruda mais bufando resfolegando trocando bafos quentes ardentes respiração boca a boca.

       Quando não era uma coisa era outra.

       De repente, no meio do calçadão da Presidente Eurico Gaspar Dutra, foram surpreendidos pelos primeiros pingos. Nívea Clara, sussurrou: "vou correr até a loja e pagar minha última conta." Com cuidado pra não escorregar, quicou pra cá e quicou pra lá, chegou respingada à loja e na dúvida cheirando a cachorro molhado. Uma mulher com cara de índia minuano veio lhe atender, cabelos bem pretos, sólida de corpo, riso cristalino: dois anos na cidade natural de Santana do Livramento ou Santo Antônio do Palma, mora com o marido e filho pequeno na pensão da rua Matipó ou Janaúba, o sonho maior de voltar aos pagos e comprar uma casa junto da mãe que já está bem velhinha. No magazine Malali ficou amarrada um século de 40 minutos, o suficiente pra que Deus decidisse mandar aquela chuva toda. Uma bomba d’água.

       Mas isso não ia mudar nada.

       E Nívea Clara já livre das tarefas e obrigações ficou presa sob uma marquise. Chuva cheirando amorosa. A alegria dos carros buzinando na chuva. Momentaneamente se sentiu excitada como há muito tempo não se reconhecia.

       Era bom porque era bom.

       Abriu o zíper da bolsa verde com fivelas de enfeite e pegou o espelhinho e conferiu o sorriso os lábios, principalmente, e as pontas dos cabelos. Um homem passou rente a elogiou ela respondeu qualquer coisa. A loja do lado vendia tudo com facilidade menor preço no cartão no crediário. A alegria das águas em alagados. Cartaz com a modelo catarinense magra loira alta lábios carnudos olhos azuis invasivos boca em coração braços expansivos nariz cinematográfico a chuva batendo em toda a extensão calcinha preta de rendas raspadinha por 49,98 reais meias longas listradas verde e azul por 59,98 reais pernas longas bem feitas e bela como seus olhos linda como seus cabelos longos lisos até a cintura. A praça Guaraciaba, triangular, sob o espetáculo da chuvarada, a alegria das bicuíbas-brancas caranaís-do-mato perobas-iquiras canafístulas sentindo a chuva, no centro uma lagoinha onde voejavam quero-queros, tamatiás, xaiás.

       O rio Paraná serpenteia entre Mato Grosso do Sul e Paraná. Deus com sonhos nas nuvens. As árvores com olhos no rio.  

       Nívea Clara, escorrendo pra cá e escorrendo pra lá, já se considerava molhada até os ossos. A chuva que não teve hora pra vir não se sabia se teria pra ir. E agora? E quando? Deus seja louvado! A pele dos braços bem molhada uma beleza uma alegria uma sensação de conforto um contentamento com o mundo todo os olhos feito água o rosto molhado os braços molhados a roupa molhada a pele bronzeada e molhada a língua pegando chuva.

       Na hora que for. Se não precisa de mais alguma coisa. Deus sabe que existem as perspectivas.

       O ponto do táxi era logo ali. Bastaria aquela caminhada de sapatos na mão pra não escorregar. Dobrou pra cá e dobrou pra lá. Chegaria então em casa a tempo de fazer o jantar. E beber um chá. "Um, dois, três e já estourou o meu dia!"

       A chuva não diminuía. Era um dilúvio. Deus se esquecia de fechar as torneiras as comportas. Uma chuva em cortina branca com luzes acesas. Era um alívio para a alma para tudo. A cidade com a chuva era bonito de se ver e sentir. Quando entrou no táxi pensou ter reconhecido o homem que cruzou os seus passos mas desistiu de conferir de olhar pra trás.

       O taxista falava do tempo do próximo carnaval da rivalidade no clássico estadual do fechamento do túnel Tomé-Açu. Ela esquecera de comprar aquele lenço amarelo de pescoço que lhe caía muito bem; ficava pra próxima. Enxurradas formando caudal que descia sem tréguas o morro do Meinaco atravessava a avenida Piratini tubulões entupidos carregando terras pedras madeiras e outras coisas. Já ficou escuro de repente. Telefonou pra mãe pra amiga Gabriela pra colega Patrícia: "Deixa eu te contar...!" Passou hotel, loja de ferragens, posto de gasolina, prédio antigo abandonado pichado, escola fundamental, cachorro na soleira da porta olhando a chuva deslanchar, a avenida ladeada de camuás, muro com cartazes de deputado e palavras pintadas, ginásio de esportes, imagens que aparecem e se perdem, casas cercadas de grades, salas de musculação, bar Ibiúna, gente correndo de marquise a marquise pulando poças pulando valetas encurvada sob o guarda-chuva, vista do forte Tamandaré, igrejas pentecostais, a alegria dos semáforos. Nem dava tempo de olhar direito. Pensamento molhado. Como, então? Como era isso? O homem tinha o cocuruto pelado bem na parte do topo, tonsura, aeroporto, voltava a reclamar do trânsito pesado devido o horário devido a chuva devido o governo, guiava apressado: dois filhos entre quinze e dezesseis anos, uma filha e um filho, torcedor ferrenho fanático do Náutico, mulher trabalha na loja de móveis Caxicaém, mora no bairro Tupinambá ou Itacolomi, a amante mora na ilha Grande dos Marinheiros com horário reservado nas sextas ou sábados à tarde telefona antes, o carro de praça é da companhia, bebe cerveja depois do expediente oito quarteirões longe de casa, faz tempo que não vai para a terrinha em Vale Verde ou em São Pedro de Alcântara - atendeu o celular no ombro deu uma gargalhada resmungou um palavrão e desligou -, sonho de comprar um carro próprio com longo tempo pra pagar, a amante tem o cabelo acaju e nome Amanda ou Melissa, com ela e exclusivamente com ela gosta de beijar e tem mania de ficar pendurado na orelha sugando e metendo a língua.

       Há cidades que nasceram na praia outras partiram da igreja ainda as que começaram na praça mais aquelas que chegaram com a estação do trem.

       Encharcada por encharcada, molhada, ensopada e meia, voltando de lá e chegando de cá, chuva mansa boa audível etc, Nívea Clara já estava em casa. Quem tem medo de chuva?! Que Deus seja paciente com o ser humano que é paciente com Deus!

       Choveu a noite toda muito porque Deus é assim mesmo: às vezes se distrai. A manhã seguinte intransferível acordou com o sabiá-laranjeira a tesoureira o bem-te-vi-do-bico-largo a curruíra. E o dia limpo bem vestido de branco. E o ar de uma névoa tênue passageira que logo logo daria lugar ao sol de rachar.

       Nívea Clara, então, chegou fácil em casa às 19h e 42min; vontade de um café bem preto com bolachas e mel; prazer de tomar um banho morno e longo. E tudo isso muito esportivo.

 

 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Fora Da Ordem


 


    

       Todo mundo que conheço e não conheço - uma vez uma noite, aí pela meia-noite de lua ou não, sexta-feira treze ou não -, já deve ter visto e assistido na pantalha à película: À Meia-Noite Virei Buscar A Tua Alma. A baforada que anuncia o antigo e truncado filme é de uma voz grave cavernosa pesada empedrada úmida pausada pastosa antiga barrenta emplastada escandida cava penada mal-e-mal. Só o anúncio já arrepia todas as superstições todos os horóscopos todas as vicissitudes todas as repartições todas as idiossincrasias todos os pelos.

       E onde era... E onde não era... Quem sabe!

       Era o vento o vento arisco que virou água, era a terra a terra apetitosa que virou fogo, era a estrela a estrela flutuante que virou  diamante.

       Os mortos ressuscitaram e vieram para contar tudo, fosse pelo que fosse. Muitos anos e séculos que não acontecia esse claudicante vaivém. Foi à noite - porque na noite é que as estrelas, que são muitas, desembarcam no rio. Coisa extraordinária, portentosa, sei lá!, revolução, guerra, horror. Depois de achar que já se flagrara tudo, aconteceu essa!

       Sem razão nenhuma que justificasse, os mortos abandonaram a terra do avesso e vieram, foram por aí desprendidos despojados esfarrapados, entrando de novo nas ruas e nas suas casas. Alma e corpo que definhavam, corpo desgraçado e alma desiludida. Com desejos de reparar ou não suas ex-vidas inúteis, mas um sorriso frequente nas bocas sem lábios, passos lentos e calculados, memórias fracas e sem luz, ouvidos surdos e olhos vazados, chagas abertas e sem remédio, urubus-de-cabeça-vermelha esvoaçando perto em torno.

       Não era um dia especial. Era um dia comum qualquer como muitos iguais. Mas era um dia manancial solerte impávido ganjento solene.

       O rio corria calmo e alheio a tudo; as imbuias balançavam calmas e distantes de tudo isso; as borboletas borboleteavam calmas e sem se importarem; os sorrateiros pixunas não esquentavam a mufa. Chovia um terço dos dias e outro terço fazia frio, no mais ou menos.

       Pela madrugada... no começo do dia... cedo ou tarde... o tempo estava passando...

       Os mortos não precisam de mais nada e sabem disso, antes e depois.

       O meu avô, por exemplo, veio de além aventurando para dizer que não chegara ao paraíso, ao céu, às profundas, à parte alguma que fosse legal, não encontrara respostas, nem entrevistara vovó, nem sequer uma luzinha no fim do túnel, um ar puro soprando numa eternidade de dia azul e verde, chuvas de verão com arco-íris e zabelinhas no espaço lavado, primavera na moda do parque das Sempre Vivas, pássaros brincando nas árvores de frutas de cristal, rios encachoeirados de cartões-postais, avenidas à beira-mar com calçadas em pedrinhas portuguesas.

       Todos os parentes presentes fizeram um, oh!... de espanto pondo a mão na boca tenra. E esses viventes ouvintes, como eu, não souberam o que fazer o que pensar. Diante do precário cadáver ambulante do avô redivivo, congelamos boquiabertos e humildes e desconfiados. Viramos estátuas de pedra suando frio. Perguntamos mais.    

       Então, tinha o sol atrás do horizonte pedindo para nascer, os galos-do-campo as saracuras-três-potes os flamingos os peitos-feridos as sarobas os tibirros-do-campo os quem-te-vestiu em matinada, as folhas pingando orvalho junto ao rio Pindaré, ao rio dos Bois, ao rio Tambaú, ao rio Paraupava, ao rio Kuluene. Quem nasce na beira do rio Ituim, então!

       Com olhos vazios encovados esburacados - de mananga de Boiuna de pesadelo de encantamento de astrologia -, meu avô fixou a paisagem aqui da volta de casa. Meio precavido com as formigas-quenquéns. Alma e corpo já se distanciando, um da outra. E não teve nada não teve fome não teve sede não teve pressa e lembrou de tudo. Examinou as coisas todas com interesse desusado. Não sentiu pena de nada. Não deu festa para o nosso cachorro de estimação o mascote Charrua. 

       A lua caminhava devagar pisando macio leve as copas das vassourinhas-do-campo, dos óleos-vermelhos, das guriris, dos carurus-de-espiga, dos gravatás-da-praia, das candeias, dos cambuís-pretos, das samambaias-douradinhas, das gameleiras-de-veneno; o Negrinho do Pastoreio passeando pelo potreiro montado trotando em pelo o seu cavalo baio. E ia lua luar lunar plena subindo buscar o fundo segredo vazio do alto mais abandonado.

       Avô, filho de Antônio e Tamira, irmão de Júlio e Pedro e João e José e Maria da Graça e Maria Paula, casado com Joana, pai de tantos filhos Ricardo e Flávia e Márcia, muitos netos e dois bisnetos. O avô disse, ainda, então que viu muita gente que tinha ido antes dele. Pessoas e bichos e coisas que lhe pareceram voar com pressa para conquistar o melhor acento na primeira classe do céu. Os exemplos pulularam.

       Passava o vento passava a chuva passava o sol passava as nuvens brancas passava o bando de papagaios-de-cara-roxa.

       Falou mais, apesar das falhas nos lábios carcomidos; gesticulou muito, ameaçando desabar os últimos fiapos de carne podre; gabou vantagens de suas estadas e andanças nas diferentes constelações, a de Escorpião mais interessante e espacial. E assistiu ao grenal pela tevê; bebeu um cafezinho preto sem açúcar com o bolo de chocolate que adorara; foi até a varanda no sétimo andar e olhou a boa praça Mauá, remirou de cima a baixo a sua rua Almirante Tamandaré, admirou porém sem novidades o flabelar da jurubeba-de-espinho, da comigo-ninguém-pode, da estrela-do-norte, da erva-de-bugre e não parou mais de rir e sacudir os ossos quase brancos, rir com os restos de barriga, gargalhar com os restos de gestos, descontrolado, escangalhado, falido, encardido, etc., desespiritualizado.

       E se despediu. Não teve forças para abraçar toda a família. Se queixou do oco na caveira, das articulações dos joelhos e cotovelos, das costelas aéreas, das orelhas caídas, das unhas longas e retorcidas, da barba e do cabelo de barba-de-bode, da língua atrapalhada, dos ossos todos a descoberto sem exceção - que já morrera uma vez com todos eles contadinhos devagar que dava para ver.

       Demais só queria mesmo dar uma voltinha, a última. Cairia de vez na cova fria, para a sombra das raízes das tiriricas e a fome sem-vergonha dos embuás. Se cuidando toda vida para não perder os últimos e derradeiros pedaços, pedaços soltos sentindo falta do bom pedaço que fora, pedaço em pedaços sentindo falta do pedaço amigo que o apoiara. Então, pela hora da morte, todo enfarpelado, voz sincopada, passo aos solavancos, e sem pensar no assunto, deixou seu adeus degradado erguendo a mão cheia de falanges falangetas falanginhas.

       Foi enterrado em igaçaba no ritual do quarup lá na ilha das Flores. A marcha batida da tribo ergueu o chão de poeira vermelha e tremeu o campinho para onde foi dormir os pés juntos. Lugar governado de dia pelos ururaus e de noite pelos bacuraus. Deixou de ser, e também não. Tão simples, a morte!

       O mundo se afasta como coisa perdida. Longe de tudo e de todos. No momento isto e isso e aquilo não têm importância.

       Um vento toca a ponta das cuitezeiras. Uma lufada em conversas de anúncio de chuva sacode as crinas soltas das pindaíbas-d'água, das grinaldas-de-noiva, das jarrinhas-pintalgadas, das salsaparrilhas-do-rio, das canas-do-rio. 

       Deus serve a todos os gostos. 

       As almas vão para as estrelas, as estrelas se enchem de almas, e quanto mais almas melhor.

       O tempo agora só iria sobrar...

 

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

No Devido Tempo


 

 
        O bairro já estava acordado, menos eu.

       Pelo sim pelo não mais ou menos e não mais que isso mesmo, abri os olhos de uma vez e já bem provocado pelas muitas bombas a propósito do dia comemorativo. Mas ainda relutei me perdi fingi me virando e me revirando na cama. Segurei a cabeça com ambas as mãos e preguiça e bocejos e ponderações. Já não tinha mais sonhos quando alvitrei:

       - Quem sabe o dia não me espera para um dia sem igual!

       Cada manhã é um novo mundo e outra pessoa que aparece no meu lugar no mesmo lugar.

       Forte pensei decidi falei comigo:

       - Vou pular da cama e como.

       Olhei pela janela, o sol dardejante, os caminhões em fila indiana prontos para a bênção do santo, as pancadas manchando os ouvidos e o anil do céu. Em vinte minutos pensei nos meus pés nas minhas mãos nas partes todas componentes, etc.

       Fui para fora porque o rebuliço festivo me chamava me convocava me arrastava me dizia me queria, o esquisito berro dos caminhões, a estralada dos rojões, o juncar de gente domingueira na capelinha do aniversariante em o vinte e cinco de julho, o tempo bom sem muito frio, os pichororés, os curutiés, os canários-do-chão, as patativas, os azulões, as nhandaias, os joões-xiquexiques, as cancãs, rimavam:

       - Já não é sem tempo!!!

       O sol brilhava e inundava tudo. O rio se exercitava para o futuro, a árvore, o pássaro, o sol, o rio e tudo mais. O sol brilhava sobre tudo mais.

       Por que apelar em Deus se tudo isso já existe.

       Eu queria ser um elefante para aparecer e andar no meio do povo.

       O vento moderado sacudia os galhos e folhas fazendo ouvir o retinir das folhas das carandaís, o piar das cuaxingubas, o rir das quataquiçauas, o falar das juapocas, o burburinhar das guapebas-vermelhas, o murmurar das pitombeiras, o bulhar dos gervões-cheirosos, o pregar das tipis-açus.

       Tudo isso eu via, tudo eu ouvia. Deus brincava de diversidade de universidade e estava feliz com o gênero humano e outros. Eu vinha depois de Deus, muito depois e bípede pedestre, mas e disposto a tudo.

       A festa do santo era o acontecimento do mundo. A festa acontecia no mundo todo.

       Tatalar de asas, sabiá-ferreiro, saíra-de-papo-preto, tuim, azulinho-do-sul, safira-de-garganta-azul, cordão-de-frade, bacuri, farinha-seca. O dia estava muito engraçado, faz favor!

       Era coisa mais natural do mundo, o céu de uma só cor azul e ausência total de peixes.

       Logo me enturmei, até porque o bairro São Cristóvão em peso estava ali e se mexendo e se encontrando e se achando. O alto-falante cantava tão alterado que era impossível não irritar as lavadeiras-de-cabeça-branca. As meninas vendiam santinhos para colar no para-brisa ou fitinhas com alfinete para prender no peito da camisa.

       O dia liso alto espelhante de muita luz distribuída entre as cores normais.

       E o que é que me faltava.

       São Cristóvão passou no meio do buzinaço, com foguetório retumbante, gigante com menininho Jesus nos ombros, todo decorado de flores e frutas da época, bandeirinhas e fitas de papéis coloridos, ramos e folhas de mucaiás. Foi aplaudido e vivado pela rua pelas ruas que partiu do capitel e até o salão de festas do outro lado do rio Retiro. O povo acreditava que o mito do santo ajudava os viajantes devotos.

       Debaixo das árvores nas sombras aveludadas das cupuaçuranas, o churrasco do meio-dia, o pão caseiro, a salada de batata, a melancia fatiada, as compotas, a família em volta da toalha xadrez estendida, os bordados das conversas as parábolas dos gestos os compassos dos risos as exclamações dos gargarejos os incontidos dos regozijos, os bichos do mato na espreita de marimbondos-tatus, macaúbas, mucuras, mapatis, curicas, cássias-das-antilhas, angicos-vermelhos, catirumbavas, avencas-de-folha-miúda.

       E no dia todo festivo, ainda falei com as primas todas que não me escondiam nada. Andavam pela festa sempre juntas as três em trio abraçadas e risonhas e debochadas. Emparelhadas não queriam saber de empatar comigo. Separadas eram impossíveis um amor atrás do outro.

       A Maria Helena de olhos azuis como o céu na manhã de aniversário do santo. A Alice brincando com a trancinha de cabelo última moda delicada caindo no rosto que ela achou fazer para aquele dia e todos elogiaram. A Ana Paula com seu jeito conformado com seu jeito reparado com seu jeito parecido. Talvez fossem melhor assim!

       O céu branco, duas nuvens, vento muito calmo e passando, cinco seis dez doze curicacas grasnando pelo alto dos tantos pinheiros-do-paraná, pessoas rindo sem assunto nas sombras dos biribás, músicas estridentes vertiginosas, menino andando com refrigerante, raças de automóveis pegando fogo sob o sol, menina andando com sorvete duas bolas coloridas, e era bom sem fazer nada. Borboletas diversas dispersas tolerantes se engraçando com as cores vivas dos vestidos floridos.

       Eu vi Deus e vi Raquel.

       Gostei que Raquel prendesse mais fitinhas de brinde no meu peito de camisa. Virara destaque entre os guris ter duas três ou quatro das fitinhas de cores.

       Olhei nos seus olhos e a guria gentil me sorriu. Ficamos amigos. Foi para lá e já voltou. Sentamos lado a lado, nos emparelhamos nas brincadeiras, nos tocamos com os cotovelos das asas. Fui e fiz  uma volta para retornar. Não me cansava de olhar para ela. Sem obrigação de nada.

       Raquel tinha todos os olhos meus.

       Uma aquela enorme vontade de olhá-la, a cara de menina petulante com cabelos de sempre nos olhos, incomparável bonita de qualquer jeito, os enfeites combinando, o perfume de flor de cipozinho-do-campo, etc.

       Olhava para as pessoas e as pessoas gostavam dela.

       E o andar o passo bonito sem exagero cheia de si elegante.

       O nome das estrelas todas, dos pássaros, dos peixes, das plantas todas.

       Ela falava de uma coisa e eu sempre achava as mil e uma maravilhas:

       "Era uma vez uma formiguinha das perninhas agitadas chegando a um ponto da rua Apicum, em Cururupu. Ela viu uma pessoa senhora com sacola vermelha no ombro e perguntou:

       - A senhora me responde?

       - O que eu puder.

       - Onde fica a padaria mais açucarada?

       Lá para lá foi a formiga-caiapó caprichosa intrépida sistemática de tenaz vibrante e antenas eletrizadas."

       Raquel que me contava um caso e eu aumentava para mais de mil pontos:

       "Era uma vez que eu estava de visita na casa do meu tio minha tia minhas primas, etc., em Erechim. Naquele dia pousava ali num terreno baldio um circo com lona listrada de azul e de amarelo. Fui até lá porque queria ver de perto.

       O cachorro Sarandi - satisfeito mascote das primas -, me perguntou, orelhas altas, cauda vibrante e língua de fora:

       - Pra onde tu vai, prima. Posso.

       Eu deixei bem claro pra ele que não era pessoal, pelo contrário, era animal:

       - Não posso te levar porque vai dar bagunça e o circo pega fogo.

       Fui desacompanhada, boné virado o contrário e em dois passos atravessei a rua Flores da Cunha. Tinha sol e um bando de corrupiões no café da manhã entre as tenras e vergadas hastes do capim-cheiroso.

       O circo era argentino e tinha nome italiano. Andei no meio do acampamento, olhando os trabalhos, espiando os bichos sensacionais e exóticos, as girafas, os leões, as zebras, as renas, os pôneis, as avestruzes, os babuínos... e parei diante de um urso-de-óculos enjaulado. Ele fazia assim... se mexendo de um lado pra outro... como papagaio no poleiro como coruja no galho como pêndulo de relógio de pêndulo. Fiquei intrigada e olhando aquele modo. Ele até parecia não me ver nem estar aí nem nada. Tive de perguntar e indaguei:

       - Por que você não para de balançar pros lados. Tá maluco.

       O urso-de-óculos agora me sintonizou de repente me reparou me focou me fitou de súbito e, mesmo continuando a se gangorrar, respondeu:

       - Yo no hablo brasileño.

       Encontrei por um acaso meu tio espionando o preparo a armação das tendas do picadeiro das arquibancadas de madeira o estender da lona gigante, etc. Confessei que vira um urso-de-óculos e todo desequilibrado lá dentro de uma jaula:

       - É que prometeram a ela um namorado e até hoje, paciência.

       De noite no meu quarto eu fiquei pensando na sorte de pertencer a um circo itinerante e viajar o mundo, os palhaços, os anões, os trapezistas, os tigres de bengala, o distante namorado da ursa-de-óculos, etc. Sonhei que os bichos derrubaram a cerca e invadiram o centro da cidade e chegaram camelo dromedário lhama vicunha guanaco alpaca até a praça da Bandeira pra tomar água no chafariz dos atônitos peixes vermelhos e amarelos."

       Um dia nos encontramos de novo comigo com ela nós eu e  Raquel.

       Um sonho que se repetiu.

       Era um sonho que se realizava.

       Esse puro acontecimento no acaso de nossos humildes dias, que Deus quis assim.

       Depois de dez anos longe um do outro.

       Eu ouvi o silêncio e vi Raquel.

       Num supermercado da cidade de Araripe - por que uma cidade cearense tão inusitada e que coincidência. Os olhos dela sorrindo. Muitos anos depois... aqueles dez anos todos em pós...

       Ela me falou, simpática acolhedora e com voz repassada de emoção:

       - Ah!... Eu que já pensava ter me esquecido de você.

       Eu falei:

       - Quando se quer muito, não se consegue nada. Isso é muito bem feito.

       Ela me contou que cada cidade tinha um rio e uma tribo indígena preparada para contar façanhas pitorescas:

       - Tipo assim, Pirapemas e rio Itanhaém e tribo dos pocheti.

       Eu retruquei:

       - O mundo começa na terra.

       Ela continuou, a voz plana:

       - Se acostumar com um lugar, porque cada lugar tem seus demais a mais.

       Eu perguntei curioso:

       - Dê outro exemplo de viagem ao sem fim.

       Ela exemplificou:

       - Andei pela rua Igaci a praça General Osório a cidade de Serra Branca.

       Eu incentivei:

       - Já se falava em fim de mundo.

       Ela prosseguiu:

       - Você duvida de alguma coisa.

       Eu inventei na hora:

       - Gostaria de visitar o parque Serrinha do Alambari.

       O tempo ou o rio foi passando. O santo gigante cruzando o rio, também os devotos de pés descalços. Os relógios buscando sem parar os tique-taques. Vestido de pelego, cajado na mão esquerda para sondar cauteloso as pedras do rio, o menino no ombro direito cada passo mais pesado, a auréola na cabeça. As pessoas ali brincando de festa de santo padroeiro.

       De tarde mudou o tempo. Mudou o vento. Muda o vento e muda tudo.

       Os pássaros sabem olhar o tempo e pararam de cantar. Os foguetes explodindo intermitentemente. Os meninos correndo entre os autos. Tudo em volta lembrava aos garotos as coisas divertidas as brincadeiras e as correrias.

       Quem sabia olhar o tempo.

       Sinais de chuva. O mundo estava para acabar. O vento soprando o tope das almecegueiras.

       Era ver e sentir e esperar que ia chover.

       Raquel me ouvia me lia me enfeitiçava com seu monte de cabelos, os gritos e berros da tômbola em sorteios de prendas na outra ponta da dimensão surrealista, o rabo de cavalo atirado para as costas ou caído para a frente no ombro direito esquerdo, as unhas pintadas de desenho, e eu falei:

       - Uma vez comecei a gostar de chuva e ainda gosto de ver chover.

       Ela me passou:

       - Não é só você que gosta de chuva e sempre gostou, pois todo mundo gosta de ver a água cachoeirar do céu.

       Botei a mão no seu rosto para sentir a febre se estava febril, e seus olhos saltaram como de boneca com olhos de botão pularam de verdade arredondaram dois lagos claros de luas perplexas.

       Ela me disse:

       - Você prefere ver o mar todos os dias.

       Eu tinha o que dizer:

       - Prefiro ver o mar as árvores o trem a montanha, no mínimo.

       A calma parecia ter parado o tempo e ia chover, choveu.

       Depois de parar a festa de parar a chuva, a lua apareceu no céu na terra e, acompanhada de estrelas e meteoros e discos voadores, se refletiu como fogo faíscas nas poças de água.

       Eu pensei alguma coisa assim rapidamente enquanto nos falávamos, o supermercado me confundia um pouco, mas não disse o que pensava, disse o que revelei.

       - Quando foi que segurei a sua mão. Acho que todas as vezes. Sempre nos encontramos de vez em quando naquela manhã de festa. Quando te revejo agora pela primeira vez.

       Ela me confessou:

       - Tudo que acontece comigo é sempre engraçado.

       Eu repassei:

       - E hoje não termina nunca.

       As duas pessoas que um dia se cruzam novamente em uma data qualquer num lugar e escrito com pena de ouro e ponta de diamante nos alfarrábios das estrelas. Naquele momento Raquel estava vestida assim.

       Ela me contou:

       - Passeei por onde fui. O que vi e tomei nota. Tinha o mar e o litoral, o rio e os barcos, os animais e as árvores da floresta, arauá e gavião e nambiquara-do-sul e oro-uim contando lendas de árvores se mexendo, ponte sobre o rio do Sono, a praça  Sarnambi nos dias de semana, baía de São Marcos, serra dos Carajás, figuras rupestres em Itajobi, o parque Marinha do Brasil nos feriados de manhã de sol. Assim, um labirinto.   

       A luz dos olhos dela estavam iguais na minha memória. Os olhos negros brilhantes e assaltados. A festa o supermercado estavam muito mais interessantes e nem existiam. E o olhar e o sorriso sempre o primeiro do dia. Olhos úmidos e cintilantes que não se fixavam em nada e procuravam curiosos por tudo. Os olhos se perdiam dos olhos do sorriso dos cabelos das palavras, etc.

       Eu sabia o que queria, não sabia o que fazer.

       Então, era como aquele vinte e cinco de julho, eu ainda com vontade de sacudi-la como se sacode uma árvore frutífera, continuei:

       - A sexta-feira é meu dia de sorte.

       Ela falou:

       - Eu gostaria de participar de tudo. Que acha.

       Eu respondi:

       - Não posso ver tudo.

       Ela completou:

       - Nem posso mais mudar.

       Aceitar apenas os fatos narrados.

       Aqueles olhos começaram no infinito e vinham pelo universo. Estrelas cadentes, espaçonaves brilhantes. Aqueles olhos iniciaram em mim e iam pelo universo.

       Os olhos deslizando pelos quatro escaninhos do tempo.

       Era o olhar, mais uma vez eram os olhos. Mas com o sorriso dava para ver tudo muito mais claro e amplo.

       Eu argumentei:

       - Acho que a gente muda para a mesma coisa.

       Ela falou:

       - E todo o resto e tudo o mais.

       Eu fui em frente:

       - Por que você pinta ao redor dos olhos ressaltando a profundidade do olhar.

       Ela aumentou minha saudade dos lugares por onde passou:

       - Eu estava em União, viajei para Acarape, parei seis meses em Viana às margens do rio Anil. Acordei num quarto de hotel em Barbacena relembrando o sonho. O sonho se passava em outro lugar em Rio Claro, Avaré, Cachoeira Paulista ou ilha da Trindade. E voltei a dormir.

       Rimos pelo mesmo motivo. Nos olhamos de cima abaixo ao mesmo tempo.

       Eu provoquei:

       - O rio Jurema inaugurou a tribo dos anapuru.

       Ela tergiversou:

       - Em Mangaratiba muitos baús de piratas no fundo do mar Atlântico.

       Eu voltei:

       - Eu queria plantar árvores no quintal, imburi, mangabeira, limão-do-mato, folha-santa, embaúba.

       Ela corrigiu:

       - Como criança que quer só comer chocolate sorvete pipoca quindim.

       Os olhos os olhos cheios de sonhos, então, o pensamento o pensamento não se definia por essa ou aquela entre mil coisas.

       Pegou minha mão e disse:

       - Sinta minha emo.

       Ficamos nos olhando em que festa de aniversário de santo em que supermercado de cidade escolhida. Era impossível.

       O vento nervoso remexia as sipaúbas da cidade. Começara a chover.

       De novo como a primeira vez.

       Não pensei nada ou ainda milhões de coisas.

       E fiquei assim, empurrado para um planeta de que tipo e longe entre o céu e a terra.

              

domingo, 28 de julho de 2013

Siriú


 

 

      

       Que cunhantã de olhos verdes é jurupari disfarçado, encrenca na certa, perigo à vista, pororoca. Parece que tem olhos de vidro, de cobra, de sondaia, falsos, enigmáticos, mágicos de magia maracá. Olhos moles e espichados e sonolentos e doentios, cansados de olhar o mundo de cima.

        Deve ser de nascença nervos febre fervura.

       Siriú era essa guria de olhos esmeralda. Uma bala perdida. Ela mesma só veio a se descobrir quando até  bichos de estimação se fascinavam. E daí - que sufoco, meu! -, como controlar a própria emoção, o sucesso entre os homens e mesmo, surpresa!, entre as mulheres. Não era uma menina qualquer. Era uma briga de foice no escuro. Rastro de onça-pintada. Uma beleza inevitável. Tinha olhos verdes de fazer doer.

       Tinha, como não haveria de ter, uma pintinha estandarte uma belezinha do lado no rosto direito e que fazia tudo bonita o dia o sol a chuva o rio o pássaro a rua a árvore a canção de rádio. Nariz logo simpático preclaro. Sorria com ar descansado.

       E para ajudar ainda já se via surgindo rápido um corpo bem formado, delgado, jeitoso, bamboleante, açucarado. Os lábios bons carnudos repentinos relapsos. Beleza delicada. Aerodinâmica. Que quando passou dos 30 quilos todo mundo já queria provar provar. Já pensou?!

       Sempre a deixavam sorrir.

       Para ela, e como poucas, amores e emoções e aventuras de romance nunca irão faltar. Nunca irão saciar esgotar. Preciosa dos dentes aperolados, passarinho, sorriso sempre normal. Poderá escolher até com quem não casar. E ninguém que ande do seu lado, uma amiga, terá a mesma chance. Todos os olhares para ela. Todos os pensamentos e ilusões.

       Assim era, mais assim estava para nascer.

       Jogaram bebeu recebeu beijos de todas as procedências de todos os lados de todas as irmandades. Pronto, a gargalhada dela de todos os dentes atirada para trás. O gorjear bonito de se ver. Olhava o necessário. Verde vivo serelepe e feliz.

       Colhia as histórias de tempo futuro.

       Medrada de curiosidades.

       Nada era o bastante suficiente, fazia uma parte do mundo, cheia de si.    

       Siriú aprendeu isso com a própria carne. O seu feitiço se virou contra a mesma e cedo. Ditou moda na rua, só pode ser ela. No colégio, também. Namoro em carro esporte, carisma de artista, até o salário dela fazia jus aos seus olhos novos em folha. O futuro também.

       Fruta de imaginação.

       Nem esperou para ver o que ia acontecer.

       Não tinha dúvidas do seu amplo manifesto.

       Enlouquecera a todos, o irmão, o tio, a prima, desvairou tudo por onde passou no colégio, no cinema, no CTG, enfim, onde fosse. Apressou suas histórias nessa parte, se adiantou às outras meninas e virou logo uns cabelos loiros da hora.

       Não queria passar em as brancas nuvens.

       Nunca quis ser arquiteta. Estudou arquitetura, um tempo. Um tempo para estudar odonto. Procurou filosofia. Estudou psicologia, um tempo.

       Colocar uma pedra e riscar o nome ali na pedra.

       Era de se esperar, parecia, era dela mesma esperar, que a arte da sorte tivesse alguma ideia melhor nela a Siriú.

       Comprou polainas várias cores e feitios no inverno, luvas sem dedos, gorros tricolores, cachecóis. Os piercings em cada sobrancelha. Uma tatuagem grande de beija-flor subindo em asas abertas irisadas a partir da virilha.

       Tudo se atropelava na vida de Siriú, principalmente o que devia fazer com calma, demorado sem sustos palmo a palmo.

       Respeitava os mais novos;

       Um pouco menos os da sua idade;

       Nunca os mais bem aposentados.

       Teve um dia em março, Siriú encontrou um rio. O rio Gorutuba. Sentou no lajedo à beira do rio. Não entendia se descia ou se subia. Em que altura do rio podia entrar. Lógico! Foi descendo o rio. Encontrou outro rio: rio Arari. Emendou e continuou acompanhando. O rio entrou por outro rio. O rio Paraitinga. Em frente descendo encorpado era tudo gravidade forçada.

       O modo da planta dizer que era planta, o modo do pixoxó dizer que era pássaro, o modo do tiú lagartear, o modo da enxurrada aparecer aquela lagoa.

       O sol era bom, as árvores era bom, a manhã era bom, o rio era bom. Era uma batinguacá que tinha ali. Temporada e época no tempo certo dos japacanins-do-brejo.

       Voltava as ideias para onde preferia.

       Nas tardes de domingo, iam visitar as cidades: Arapuá, São Gonçalo do Abaeté, Três Marias, Porteirinha, Serra Branca, Coxixola, Carmo do Paranaíba, Presidente Olegário, Itumbiara. Quando estava Siriú em andanças por mundos.

       Nuvens pendentes e de bordas polidas com opala.

       O mundo em universo.

       Em Iraí de Minas também é sempre assim. Em Água Doce do Norte todo mundo é formado em qualquer coisa ou está estudando para isso. Quem conhece Nova Esperança do Piriá se considera com sorte. O que há de notável em Santa Bárbara do Tugúrio.

       O azul do arco-íris na chuva, o verde do tiê-sangue, o amarelo do pé de juá, o azul do oceano azul, o verde do periquito-verde, o amarelo do pé de ipê-amarelo.

       Há tempo para tudo.

       Siriú estava contente aquela manhã e por dois motivos:

       Vinte e seis anos já haviam decorridos e o vigésimo sétimo estava por esse fio de horizonte postado de azul.

       Siriú suportou a cor do cabelo quanto pôde.

       A conduta desprendida.

       Bons modos.

       E sobrava para si mesma até a menor das dúvidas.

       Tanto lugar que é para longe a gente ir.

       Naquele dia foi que desceu até a beira do rio Cotinguiba.

       Se mirou como uma irerê.

       Olhou em volta olhou por dentro de si e não soube o que falar...

       Quantos zinzinares de abelhas guarupu, mandaçaia-do-chão. Os socó-boi-baio, arapaçu, tovaca, sanhaço-de-coqueiro, papagaio-de-coleira, siriri, tangará, passarinho-de-verão. Uma família do luís-cacheiro. O mico-estrela comendo araçá. Filhotes de churi churizinhos. As lava-pés abrindo trilha na areia fina das pedras roladas.

       Se ajoelhou e bebeu em concha, pirapitinga veio ver, mandi, anujá, cambeva, piapara, joana-guenza, candiru-açu, acará, saicanga, caboje fazer cócegas nas solas dos pés. Jandaias carregadas de jambeiro-do-mato. Alaridos alegria esbanjada verde sonora ruidosa. O curiango-tesoura, primo não totalmente distante de Siriú, comportamento de atônito atenção de olhos pressurosos desde um topo de murundu. A cabatatu em itinerário desfile aéreo. Borboleta verde sem peso.

       Siriú chorou um só dos seus olhos cristalinos puros, comovida tonalidade, as esmeraldas nuas pingadas de água doce no rio.

       E contou como eram as árvores, cachimbo-de-jabuti, cravorana, copaíba, babosa-branca, juruvoca, malícia, alfavaca-de-cobra, fedegoso-do-pará, ingazeira. Eram árvores. Nunca havia visto à vista árvores tão centenárias e pacatas e ordeiras. Troca de energias. Os grasgrasnados dos papagaios-do-peito-roxo, dos pica-paus-de-cabeça-amarela, das maitacas-azuis, das saracuras-do-brejo, das porutis. A mata ciliar, as plantas volúveis e perenes.

       Tudo ficou de novo com o rodar do tempo das horas.

       Deixou o barco jusante com o rio.

       Manchas brancas no azul, parecidas com naus antigas, boiavam resvalavam flanavam perambulavam pedalavam incorporadas ao vento nordeste. O voo do toca-viola para os lados de um sarobal fechado. Estava árvore de assa-peixe, estava piopio de soldadinho.

       A Siriú concentrada mais linda que de quando da primeira vez. 

       Fazia tanto tempo já.

       E ela mesma sempre a mesma.

       Toda toda estremecida de tons verdes.

       Uma luz rolando no céu parecia com o disco voador dos marcianos.

       Era com a primeira delicadeza que reparava para contar as árvores, mangarito, jacarandá-antã, mata-barata, timbé, pixuna, guaxima, sarã, paina-do-campo. As sagradas guajaraís-da-várzea. Era setembro e as juritis por perto carregadas de sapucaia-branca.

       Se agradou da visão e esbarrou o fim do mundo em redor mais longe com um batólito de serra do Jatobá.

       Olhou pensou sentiu tentou adivinhar sonhou.

       Horizontes eram mais dentro por dentro um do outro do que a vista podia falar.

       Como não era a pessoa mais velha do mundo, morreu.

       Sempre que buscou encontrou o que nem perdera, o que lhe pertenceu por dádiva de estrela na testa.

       Morreu antes do previsto ou antes de saber morrer, mas depois de tudo fazer todas as coisas que devia.

       É isso aí, como se sabe que é.

       O jeito de ser do mundo.

       Esse tempo resolvido.

       O que foi e era o imposto.

       Só mesmo Siriú sabia onde é que estava e veio parar.

       Achou o que tinha achado o que tinha de achar.

       A sensação de chegar, por acaso, onde sempre procurou estar.

       Mas isso ainda não era mais que nada. E parecia que não era até ali.

       Rituais oferendas fogueiras guinchos de gavião-carrapateiro fetiches com jeito perfeito de pajelanças fulniô.

       Aves zinzinavam desde o banhado, do banhado vinham os zinzinares das aves marrecas-caboclas, marrecas-cricris, marrecas-caneleiras.

       O sol caía em tarde e muito bastante longe. Uma ou duas nuvens de ouro e de prata, etc.

       As certas árvores com ventos nos cabelos, arranha-gato, guarumbé, bejuco, pitaica, capixim, taiuiá-grande, pindobeira, manjerona-do-campo.

       A lua apareceu como um espelho do rio.

       Viu bem Siriú o rio e mergulhou, saiu na outra ponta, o cabelo molhado de negro, iara procurando a noite de lua para se personalizar.

       Siriú sentou no barranco sobre as tapiocangas e o capim-gordo, acauã de tocaia em poleiro de quixabeira, vento aromando o ar com flores de pacovas, estrelas medindo a altura do céu, águas espumosas e marulhentas, coaxar em ecos de lata dos sapos-ferreiros -, e por ali ela esperou o acontecer das coisas novas.

       Os olhos dela resplendentes, olhos limpos, cabelos compridos caprichosamente entrançados, olhos negros como a asa da iraúna.

       O tempo todo que se quiser.

       Era bonita lisa cabelos negros.