Que cunhantã de olhos verdes é jurupari
disfarçado, encrenca na certa, perigo à vista, pororoca. Parece que tem olhos
de vidro, de cobra, de sondaia, falsos, enigmáticos, mágicos de magia maracá.
Olhos moles e espichados e sonolentos e doentios, cansados de olhar o mundo de
cima.
Deve ser de nascença nervos febre
fervura.
Siriú era essa guria de olhos esmeralda.
Uma bala perdida. Ela mesma só veio a se descobrir quando até bichos de estimação se fascinavam. E daí -
que sufoco, meu! -, como controlar a própria emoção, o sucesso entre os homens
e mesmo, surpresa!, entre as mulheres. Não era uma menina qualquer. Era uma
briga de foice no escuro. Rastro de onça-pintada. Uma beleza inevitável. Tinha
olhos verdes de fazer doer.
Tinha, como não haveria de ter, uma
pintinha estandarte uma belezinha do lado no rosto direito e que fazia tudo
bonita o dia o sol a chuva o rio o pássaro a rua a árvore a canção de rádio.
Nariz logo simpático preclaro. Sorria com ar descansado.
E para ajudar ainda já se via surgindo
rápido um corpo bem formado, delgado, jeitoso, bamboleante, açucarado. Os
lábios bons carnudos repentinos relapsos. Beleza delicada. Aerodinâmica. Que
quando passou dos 30 quilos todo mundo já queria provar provar. Já pensou?!
Sempre a deixavam sorrir.
Para ela, e como poucas, amores e emoções
e aventuras de romance nunca irão faltar. Nunca irão saciar esgotar. Preciosa
dos dentes aperolados, passarinho, sorriso sempre normal. Poderá escolher até
com quem não casar. E ninguém que ande do seu lado, uma amiga, terá a mesma
chance. Todos os olhares para ela. Todos os pensamentos e ilusões.
Assim era, mais assim estava para nascer.
Jogaram bebeu recebeu beijos de todas as
procedências de todos os lados de todas as irmandades. Pronto, a gargalhada dela
de todos os dentes atirada para trás. O gorjear bonito de se ver. Olhava o
necessário. Verde vivo serelepe e feliz.
Colhia as histórias de tempo futuro.
Medrada de curiosidades.
Nada era o bastante suficiente, fazia uma
parte do mundo, cheia de si.
Siriú aprendeu isso com a própria carne.
O seu feitiço se virou contra a mesma e cedo. Ditou moda na rua, só pode ser
ela. No colégio, também. Namoro em carro esporte, carisma de artista, até o
salário dela fazia jus aos seus olhos novos em folha. O futuro também.
Fruta de imaginação.
Nem esperou para ver o que ia acontecer.
Não tinha dúvidas do seu amplo manifesto.
Enlouquecera a todos, o irmão, o tio, a
prima, desvairou tudo por onde passou no colégio, no cinema, no CTG, enfim,
onde fosse. Apressou suas histórias nessa parte, se adiantou às outras meninas
e virou logo uns cabelos loiros da hora.
Não queria passar em as brancas nuvens.
Nunca quis ser arquiteta. Estudou
arquitetura, um tempo. Um tempo para estudar odonto. Procurou filosofia.
Estudou psicologia, um tempo.
Colocar uma pedra e riscar o nome ali na
pedra.
Era de se esperar, parecia, era dela
mesma esperar, que a arte da sorte tivesse alguma ideia melhor nela a Siriú.
Comprou polainas várias cores e feitios
no inverno, luvas sem dedos, gorros tricolores, cachecóis. Os piercings em cada
sobrancelha. Uma tatuagem grande de beija-flor subindo em asas abertas irisadas
a partir da virilha.
Tudo se atropelava na vida de Siriú,
principalmente o que devia fazer com calma, demorado sem sustos palmo a palmo.
Respeitava os mais novos;
Um pouco menos os da sua idade;
Nunca os mais bem aposentados.
Teve um dia em março, Siriú encontrou um
rio. O rio Gorutuba. Sentou no lajedo à beira do rio. Não entendia se descia ou
se subia. Em que altura do rio podia entrar. Lógico! Foi descendo o rio.
Encontrou outro rio: rio Arari. Emendou e continuou acompanhando. O rio entrou
por outro rio. O rio Paraitinga. Em frente descendo encorpado era tudo
gravidade forçada.
O modo da planta dizer que era planta, o
modo do pixoxó dizer que era pássaro, o modo do tiú lagartear, o modo da
enxurrada aparecer aquela lagoa.
O sol era bom, as árvores era bom, a
manhã era bom, o rio era bom. Era uma batinguacá que tinha ali. Temporada e
época no tempo certo dos japacanins-do-brejo.
Voltava as ideias para onde preferia.
Nas tardes de domingo, iam visitar as
cidades: Arapuá, São Gonçalo do Abaeté, Três Marias, Porteirinha, Serra Branca,
Coxixola, Carmo do Paranaíba, Presidente Olegário, Itumbiara. Quando estava
Siriú em andanças por mundos.
Nuvens pendentes e de bordas polidas com
opala.
O mundo em universo.
Em Iraí de Minas também é sempre assim.
Em Água Doce do Norte todo mundo é formado em qualquer coisa ou está estudando
para isso. Quem conhece Nova Esperança do Piriá se considera com sorte. O que
há de notável em Santa Bárbara do Tugúrio.
O azul do arco-íris na chuva, o verde do
tiê-sangue, o amarelo do pé de juá, o azul do oceano azul, o verde do
periquito-verde, o amarelo do pé de ipê-amarelo.
Há tempo para tudo.
Siriú estava contente aquela manhã e por
dois motivos:
Vinte e seis anos já haviam decorridos e
o vigésimo sétimo estava por esse fio de horizonte postado de azul.
Siriú suportou a cor do cabelo quanto
pôde.
A conduta desprendida.
Bons modos.
E sobrava para si mesma até a menor das
dúvidas.
Tanto lugar que é para longe a gente ir.
Naquele dia foi que desceu até a beira do
rio Cotinguiba.
Se mirou como uma irerê.
Olhou em volta olhou por dentro de si e
não soube o que falar...
Quantos zinzinares de abelhas guarupu,
mandaçaia-do-chão. Os socó-boi-baio, arapaçu, tovaca, sanhaço-de-coqueiro,
papagaio-de-coleira, siriri, tangará, passarinho-de-verão. Uma família do
luís-cacheiro. O mico-estrela comendo araçá. Filhotes de churi churizinhos. As lava-pés
abrindo trilha na areia fina das pedras roladas.
Se ajoelhou e bebeu em concha,
pirapitinga veio ver, mandi, anujá, cambeva, piapara, joana-guenza,
candiru-açu, acará, saicanga, caboje fazer cócegas nas solas dos pés. Jandaias
carregadas de jambeiro-do-mato. Alaridos alegria esbanjada verde sonora
ruidosa. O curiango-tesoura, primo não totalmente distante de Siriú,
comportamento de atônito atenção de olhos pressurosos desde um topo de murundu.
A cabatatu em itinerário desfile aéreo. Borboleta verde sem peso.
Siriú chorou um só dos seus olhos
cristalinos puros, comovida tonalidade, as esmeraldas nuas pingadas de água
doce no rio.
E contou como eram as árvores,
cachimbo-de-jabuti, cravorana, copaíba, babosa-branca, juruvoca, malícia,
alfavaca-de-cobra, fedegoso-do-pará, ingazeira. Eram árvores. Nunca havia visto
à vista árvores tão centenárias e pacatas e ordeiras. Troca de energias. Os
grasgrasnados dos papagaios-do-peito-roxo, dos pica-paus-de-cabeça-amarela, das
maitacas-azuis, das saracuras-do-brejo, das porutis. A mata ciliar, as plantas
volúveis e perenes.
Tudo ficou de novo com o rodar do tempo
das horas.
Deixou o barco jusante com o rio.
Manchas brancas no azul, parecidas com
naus antigas, boiavam resvalavam flanavam perambulavam pedalavam incorporadas
ao vento nordeste. O voo do toca-viola para os lados de um sarobal fechado.
Estava árvore de assa-peixe, estava piopio de soldadinho.
A Siriú concentrada mais linda que de
quando da primeira vez.
Fazia tanto tempo já.
E ela mesma sempre a mesma.
Toda toda estremecida de tons verdes.
Uma luz rolando no céu parecia com o
disco voador dos marcianos.
Era com a primeira delicadeza que
reparava para contar as árvores, mangarito, jacarandá-antã, mata-barata, timbé,
pixuna, guaxima, sarã, paina-do-campo. As sagradas guajaraís-da-várzea. Era
setembro e as juritis por perto carregadas de sapucaia-branca.
Se agradou da visão e esbarrou o fim do
mundo em redor mais longe com um batólito de serra do Jatobá.
Olhou pensou sentiu tentou adivinhar sonhou.
Horizontes eram mais dentro por dentro um
do outro do que a vista podia falar.
Como não era a pessoa mais velha do
mundo, morreu.
Sempre que buscou encontrou o que nem
perdera, o que lhe pertenceu por dádiva de estrela na testa.
Morreu antes do previsto ou antes de
saber morrer, mas depois de tudo fazer todas as coisas que devia.
É isso aí, como se sabe que é.
O jeito de ser do mundo.
Esse tempo resolvido.
O que foi e era o imposto.
Só mesmo Siriú sabia onde é que estava e
veio parar.
Achou o que tinha achado o que tinha de
achar.
A sensação de chegar, por acaso, onde
sempre procurou estar.
Mas isso ainda não era mais que nada. E
parecia que não era até ali.
Rituais oferendas fogueiras guinchos de
gavião-carrapateiro fetiches com jeito perfeito de pajelanças fulniô.
Aves zinzinavam desde o banhado, do
banhado vinham os zinzinares das aves marrecas-caboclas, marrecas-cricris,
marrecas-caneleiras.
O sol caía em tarde e muito bastante
longe. Uma ou duas nuvens de ouro e de prata, etc.
As certas árvores com ventos nos cabelos,
arranha-gato, guarumbé, bejuco, pitaica, capixim, taiuiá-grande, pindobeira,
manjerona-do-campo.
A lua apareceu como um espelho do rio.
Viu bem Siriú o rio e mergulhou, saiu na
outra ponta, o cabelo molhado de negro, iara procurando a noite de lua para se
personalizar.
Siriú sentou no barranco sobre as
tapiocangas e o capim-gordo, acauã de tocaia em poleiro de quixabeira, vento
aromando o ar com flores de pacovas, estrelas medindo a altura do céu, águas
espumosas e marulhentas, coaxar em ecos de lata dos sapos-ferreiros -, e por
ali ela esperou o acontecer das coisas novas.
Os olhos dela resplendentes, olhos
limpos, cabelos compridos caprichosamente entrançados, olhos negros como a asa
da iraúna.
O tempo todo que se quiser.
Era bonita lisa cabelos negros.