Eu
sou o rio passo por aqui toda hora todo ano e corro as estações, embora, até o
oceano pororoca contra o mar. E eu e você e nós e é ver Meri Elen na
paisagem.
Meri,
Meri Elen estava de arigó na fábrica de amendoim Abaruna, distrito de
Botocudos, cidade de Vargem Alegre, Paraná. Nove horas diariamente completadas
como uma mariposa voejando em torno de uma máquina ensacadora amparando
limpando agilizando vigiando lubrificando aprontando trocando. Ela ficava ali
como chegara como estava como todo dia e mais nada apenas nadando no molho sem
fim nem começo do seu passivo interior enigmático, infiltrada de sonolência.
O
sorriso analógico.
Como
sempre, Meri ousava com seus olhos verdes e cabelos negros presos em rabo de
cavalo cor bronze da pele pernas longas com às vezes um diadema para segurar a
franja irrequieta. O corpo desempenado planejado as mãos nos bolsos as mãos nos
quadris os braços cruzados os seios voando na frente olímpicos. Naturalmente
com as unhas entupidas de poeira de semente e de gordura e de óleo. Se vestia
como homem maquiagem pesada olhos riscados com sombras fortes e escuras dando nítida
impressão de guria carismática olhar 3x4 e da mulher fatal. Com calos nas mãos
nos pés sapatão o tempo todo em pé e cansada e faminta.
O
sorriso infraestrutura.
Eu
sou o rio e sempre e honesto já disse. Corro por todos, por mim, por você, por
nós, por Meri Elen. Eu não tenho memória e tenho todas as outras coisas. Antes
durante e depois é comigo. Você caminha por si mesmo. Porque ambos estamos no
mesmo lugar e andamos.
Mas
impossível, olhando bem e tirando o encardido da pele, as horas de cansaço, a
pele picada de borrachudos e de moscas e de carunchos e de formigas, se via que
Meri poderia ser bonita e muito linda e uma beldade.
De
uma página do diário oficial de M. E.:
"Sou
quase sempre assim. Chego em casa e aumento o som. É pouco. Sou movida a rock
pauleira, pedreira, pedradas, pedras do neolítico, chuva de granizo. Solto os
cabelos e ando pela casa fazendo as coisas ordinárias. Não tenho guitarra vou
de rock mesmo, pego a vassoura e power power. Na frente do espelho da sala eu
executo e sacudo a cabeleira pro meu público virtual delirar. É rouco. Comprei
esta pulseira e me agradeço, obrigada. Nem rock nacional nem rock latino nem
rock português, o meu rock é power, é muito pesado, é muito metais, é muito
suicídio. É louco."
Os
homens olhavam para ela e não acreditavam e não desligavam e não queriam mais
viver e se desesperavam em pânico, batiam na cabeça com a mão fechada viravam a
cabeça como fazem as corujas-buraqueiras batiam com a cabeça na parede mais próxima
surtavam de ciúmes; de tão linda e distante e perigosa e deslumbrante: ela
parecida.
A
minha sorte de viver como rio. Passo por dentro daquela hidroelétrica e faço
acender algumas cidades aí. O meu leito é de areia e pedrinhas redondas. Passo
agora e é bom demais. Eu me rolo porque o mundo é quadrado. Conto as cidades
nos dedos e você é uma delas. Anoto os lugares do país e você é um deles. O
vento batendo na copa das árvores com os ventos, etc.
Meri
não terminou o ensino médio. Gostava de História e Geografia e meninos de
cabelo curto e olhos azuis ou verdes. Mas ouvia bandas o dia todo no celular.
Sempre aqueles rocks nervosos impulsivos furiosos famigerados. Então, ela
ficava também possuída e abria a camisa e se agarrava e pulava da cadeira do
sofá do degrau da escada. E tinha o diário que escrevia de vez em quando à
noite ou nos fins de semana, quando apertava as saudades de quê, saudades de
uma sorte que continha que perigava que transitava que permeabilizava:
"Amanhã
é natal e logo depois o ano novo, vem o verão e o carnaval. As manas me
enlouquecem com seus gritinhos parecendo uivos de cachorrinhos abandonados.
Casa de pobre quarto de pobre beliches de pobre e minhas irmãzinhas não ligam
para os pufes... que largam no ar. Por que não nasci uma jabuticaba, por que não
uma jabuticabeira? Por favor, meu, eu queria ser menino com nome de índio de pássaro
Tapiranga!"
Quando
eu vou eu vou sem acidentes e sem incidentes e sem novidades porque eu sou o
rio. Eu mesmo me cuido e me navego e me levo. Tenho os verbos do tempo na palma
da mão. Viajo de canoa viagem divertida corro entre matos descanso num remanso
olho uma restinga canto na chuva gargarejo na sombra entre pedras basálticas. Já
conhece o Itaimbezinho? As capivaras correm para mim e me abraçar. Ariranhas
mergulham riem e se penduram nos barrancos. Homens e mulheres se refrescam
passeando de pés descalços e espantando garças-de-cabeça-preta. Eu sou um rio e
meu rio é longo e inverso. Os curumins e cunhãs da tribo macu-camã brincam de
mania de pular do trampolim dos galhos da cabiúna-do-campo. Os macacos bugios comem
frutas dos galhos das árvores e deixam cair para a festa dos maparás. Um
chirriar de irerês. Bando de papagaios-de-peito-roxo almoçam a minha direita e
dormem a minha esquerda.
Um
dia o gerente da fábrica chegou exatamente quando do intervalo para o almoço.
Um seu Pita Jaguané de óculos muito escuros, sem bigode, barriga proeminente,
roupa limpa, gravata de grife e limpíssima camisa polo azul com o bolsinho de
outra cor cheia do celular. De repente este só queria ver os olhos dela, da
impressionante Meri, olhos de felina, olhos de mistério num poço. E Elen tão
linda tão linda que dava um nervoso de rir e de não sair de perto e de vício e
de hipnotizar e de viajar e de imaginar tudo de bom.
O
sorriso gázeo.
Meri
comia chupava uma bergamota diante da televisão na sala de recreio. Tinha
dentes ótimos. Toda suada, roupas do uniforme manchadas de graxa, a touca para
segurar o cabelo, comia com a mão trêmula pelo esforço do serviço. Ela sozinha
pensava uma palavra: Positivo.
(Nuvens
pianíssimas tocavam flautas ou eram oboés,
Aeronaves
redondas zumbiam luziam mirabolantes de Marte,
Oito
casais na sombra da canjerana discutiam o tintim! do caroço da camuá,
Uma
japira beijando a boca no espelho retrovisor.)
Sou
um rio acostumado ao meu destino ao meu gosto ao meu comando ao meu instinto ao
meu sorriso. As arraias-de-fogo farejam o fundo do meu aquário. Acompanho um
matagal onde umas araucárias predominantes se agigantam se elevam como taças,
assim, extraterrestres e imperiais e impessoais. Revoluteio por entre o
resfolegar da sempre-lustrosa, o mexerico da gameleira, o sobe e desce da taiuiá-de-cipó.
Conforme ouço o chiliar do chupa-mel, ali assobio da lavadeira-de-cabeça-branca,
chirriar do japu-verde, arrulhar da pomba-galega, andar da anhuma, tatalar
verde do coqueiro-guariroba, gargalhada do anambé-branco-de-bochecha-parda. Sou
como o irmão rio Bagagem, assim-assim mais ou menos gueguê-guê.
Lá
vem a lua, lá vem! Noite de lua trepando.
O satélite contornando o quarto da terra. Entre antes e depois as estrelas
comem pipocas ou amendoins ou bombons recheados de cupuaçu. Já ficava tarde e
saíram dormir no meu veio de rio.
E o
gerente com a garganta seca, o espírito em polvorosa, a carne em frêmitos de
febre, esperou a guria de dezessete anos completar dezoito e levá-la até em
casa. Ele tinha os dias contados como todo mundo, e Meri tinha os dias contados
também. O jeito dela sorrir, então, o sorriso mais bonito da fábrica, o formato
do rosto, os olhos, principalmente, a harmonia parecida.
O
sorriso parabólico.
Meri
Elen foi no carro conversível, um vermelho ou bordô com tudo elétrico, os
longos cabelos jogados fora para o alto para trás esvoaçantes e sensacionais e
engraçados, e se sentiu mole. Um dia como sempre foram bonitos os cabelos de
Meri! Meri morava tinha a sorte com a mãe e três irmãs menores, total estrela
de cinco pontas.
O
sorriso perolado.
Pita
ligou o rádio nas últimas músicas de sempre a estrada a paisagem o vento as malícias
virentes cento e vinte por hora mais ou menos. Ele olhava para ela Meri
intermitentemente e sorria e falava muito em outras coisas. Pita prometeu
ajudar a família e remediar o mundo todo e cumpriu a promessa.
É
isso. Meri carecia de aventuras, de invenções, de escolhas, de oportunidades,
de opções. Meri Elen sorriso de Meri Elen. Meri era ela mesma e tinha a sua própria
sorte com esse mundo. Meri tinha uma sorte e queria rever essa sorte numa ou
noutra reencarnação, se possível, se necessário.
Sei
mesmo alguns lugares de cor, por passagem, já faz tempo, por desaguar naquelas
paragens, Uruaçu, Jataí, Pouso Alto, Santa Rita, Serra Dourada, Santa
Leopoldina, Gameleira de Goiás, eu sou rio enquanto líquido ambulante, em Morro
Grande na época dos tropeiros parou uma mula e não conseguiu mais andar travou
das quatro rodas foram ver e ela empacara por carregar um santo Antônio e todos
se ajoelharam e fizeram uma capela para o protetor que mais tarde virou santo
padroeiro do lugar da comarca.
Elen
aceitou o gerente como amante porque sua mãe lhe fez ver e aconselhou e
recomendou e apoiou e orientou. E de fato ao longo do tempo Meri não se
arrependeria muito. Calculando todas as coisas em prós e contras. A mãe deu seu
último pitaco e depois calou, falando mais precisamente em confidência de
mulher para mulher e pelo menos uma vez na história:
- Olá!
Meri Elen, ele vai querer cabelo barba e bigode e você pensa bem porque no
fundo o lugar é todo somente teu. O homem todos eles é um bicho formigão não
pode ver buraco que depois pra ti não tem volta, compreende?
A
primeira vez de Pita com Meri saiu todo arranhado. A primeira vez de Meri Elen
com Pita oitenta e oito quilos e lábios secos e vontade de tomar chá de gravatá-das-rãs.
O
sorriso abruptamente.
Sendo
eu rio em Estado do Pará, regressei hoje mesmo de lá para cá em viagem de 2 a 8
dias. Ali do meu canal vi o mato encorpado e compacto e elevado. Deixei uma
ilha de Tinharé e um lago Dumbá, para trás. Estou à vontade e escolhi o meu
ritmo. O tal de tropeiro-da-serra canta porque procura uma família. Canguçu
ronca para marcar território.
Pita
num dia de sol na piscina do hotel em Olinda, Sergipe, dizendo com boca de suco
de abacaxi e a sorte barganhada:
-
Meri! Você é um anjo que desce e sobe e desce do céu, da terra, nasce das águas,
etc.
- Se
você me gosta tanto, então, me tatue!
O
sorriso preciso.
A
família gostou muito dos negócios que iam remediando. Estridulavam birros no
alto do jatobá junto à cerca. Chegaram cestas de alimentos, luz elétrica,
geladeira ecologicamente, roupas de cama mesa e banho, tevês de plasma,
computadores portáteis. Estrilavam avoantes na sarobá depois além da cerca.
Muito passarinho quicando pendente de hastes de capim-da-colônia,
capim-marmelada, cunabi, campainha-branca, anchieta, batatinha-do-campo de cá e
de lá da tal cerca de arame farpado. Todo mundo da casa passou a comer iogurte
beber refrigerante tomar banho quente diariamente mandar recado pelo
feicebuque. Meri mudou mudou a família mudaram e viraram gente de outro
estatuto.
O
sorriso ecumênico.
A
missão de Meri era ser linda. Positivo. Demais a mais frequentar uma faculdade
para ter o que fazer e o que pensar e onde ir. De carro, claro. Pintar o cabelo
embora não precisasse. Por causa da vaidade. Disputar o concurso de miss
cidade. Um exemplo.
Era
manhã emergente e eu descia em cachoeira cascata catarata degrau. Meio de longe
avisto a serra do Lambari me acompanhando um bom pedaço, mato de landis arubatãs
sarãs jaguaranas louros-tamancões, o irmão rio Corrente pela ala esquerda.
Do
distrito de Botocudos ela foi montar apartamento na cidade mais ou menos grande
da região e sozinha Muquém de São Francisco com 300 e tantos mil habitantes
para perto de 400. Por ali morava muita gente e agora ela também. Edifício Araé
oitavo andar pela avenida Araripe Júnior um vaso de jasmim-do-mato no corredor
para o elevador e vice-versa.
Uma
vez Meri Elen escreveu no diário de bordo o que aconteceu num passeio com Pita,
se falaram a dois dedos um do beiço do outro, trocando hálitos de doce de pequi:
"
- Tá vendo aquela bandeira ali atrás daquele prédio antigo e alto e neoclássico?
- Tá, tô!
-
É a nossa bandeira nacional brasileira meu povo, positivo?
- Por quê? É dia de sete de setembro?
Me
lembro porque era um dia como hoje de sol quente forte e agora rebrilhando na
vidraça da sala fazendo um calor as cores todas do arco-íris... depois eu
explico melhor."
O
sorriso incidental.
A
lua terminou encontrando um enxame de nuvens, as nuvens entupiram estrelas,
apagaram as luzes a tevê no quarto de dormir, o sol desceu pela parede, o mar
escapava e retornava no oceano, o Pita (ele, sim) despertou perto da Meri (ela,
não) dos cabelos acajus e baratinados.
Elen
acabou se interessando e querendo mais ir ao cabeleireiro e passar toda a tarde
lá. Tudo bem. E curtindo seus vestidos novos, acessórios, sapatos, meias com
figurinhas e amigas para telefonar. Uma vez por
mês acompanhava o namorado em passeios pela capital do Estado uma vez
por ano na capital do país e quem sabe quem sabe no fim do ano uma justa
escapada na capital do mundo. O que custa o melhor hotel da Avenida Paulista em
São Paulo São Paulo.
E
Meri foi perdendo aquela mania de pobre por favor desculpa obrigada as suas
ordens bom dia sorria você está sendo filmado como vai se Deus quiser e ele há
de querer.
O
sorriso experimental.
Esses
dias eu voltava do mar, e meio aéreo, vaporoso, nublado, subindo baixo a
encosta abrupta da serra do Mar, entrando mais no continente já na serra do Pilão,
quase em nuvens carregadas de chuva, me precipitando ali por volta da região de
Apiaí e enchendo o rio Manuel Alves, rio Tubarão, rio das Mortes, rio Piraí,
outros, de cima a baixo, etc., é que eu venho embora e porque sempre retorno
vou em rios e volto em nuvens.
Foi
que recomeçou os estudos ou mais ou menos. Não deixava de telefonar para casa
mas raramente ia lá. Os fins de semana ainda eram do ex-gerente agora namorado
ou amante, as baladas e os jantares e as viagens e os vídeos pornôs.
M.
tinha o sorriso perolado. O quê? Como umas pérolas. Ah, é?! O sorriso Meri.
Igual de umas opalas. Como assim? Da cor dessa pedra, a opala. Pura sorte Meri
Elen. Um sorriso aperolado.
Tomo
uma medida de sol aqui mesmo nessa itapeba enfeitada de musgos liquens artrópodes.
É bom. Árvores faladeiras mexeriqueiras resmungonas, cabelos ao vento, uma cor
e uns tons apegados à sorte de verde, mapixi carajuru gameleira-de-purga
fruta-de-lobo lixeira flor-de-maio suma ginjeira-da-terra uvá capim-gengibre.
Meri
ainda não lambia a axila do namorado. Talvez daqui um mês, um ano, talvez nunca
embora. Os seios sublevados. Os seios do tamanho da mão, embora, maiores que a
boca do freguês.
Ela
parou diante do espelho grande do quarto e desnuda e fez um solo de guitarra o
som tremendo a casa toda o prédio todo, etc. Tocava a guitarra com tesão, como
se fosse tocar uma com os dedos mais dedos... se fosse homem pegaria na mão do
cabo... embora, fez um esforço danado, se atirou no chão, rolou, quicou pelo chão,
rolou mais e gozou.
O
sorriso fisiológico.
De
onde se avista o mar, posso dizer, eu passo passando pela serra de
Paranapiacaba, etc. Eu sou feito de água pura, você sabe eu sei todos nós
sabemos. Sapipocas pirararas arurás tubaranas nasceram crescem sorteiam e
povoam o meu país. Bonito apelido esse de Paranapiacaba, hein?!
Ela
queria experimentar pular de paraquedas, pular de parapente, pular de
asa-delta, mergulhar fundo em Abrolhos e na enseada lá da ilha Fernando de
Noronha. Precisava como ninguém de autoafirmação confiança coragem poder de
iniciativa se sentir solta independente desimpedida liberada desinterditada
desobrigada viajar sozinha e dar um passo a frente.
O
sorriso locupletado.
O diário
abre as aspas e os anzóis e Meri fala pelo que escreveu se confidenciando:
"Saí
do banho e não me sequei pois fiquei debaixo do chuveiro duas horas. Já fui me
deitar na varanda debaixo de um sol quente do tamanho de uma lua aquarela. Para
falar a verdade eu queria ter sardas pelo corpo pela pele e cabelos vermelhos e
pelos vermelhos e cabelos trançados. Eu até queria ser um menino pra mim mesmo
com o nome indígena de pássaro ou ave Acanati-de-Bico-Verde. Agora lembrei,
agora. Vou tatuar na perna direita essa uma rara e lendária ave pessoa superior
mais imortal de quinhentos anos vermelha carrega um elefante põe ovo no alto da
palmeira do Egito assim como o sol no seu ir e vir."
(O
tempo sempre tem escamas de itapema,
A ponte sobre o rio de itamaracás suspensas,
Alma que os dedos no vento das nuvens,
Já os translúcidos azuis em raios de sol.)
Na
altura de Miracatu há muito jacaré-de-papo-amarelo, ainda bem, nas proximidades
de Bujaru a reserva dos índios xambioá, ainda bem, na ilha Caviana profusão de
maguaris mucuras ariranhas agriões-do-pará taguás, do parque dos Aparados da
Serra o rio Urussanga e o rio Mãe Luzia desde ali me acompanham, em boa hora.
Um céu
maior e sem igual de azul plácido domingo. Por que o céu por que o azul ninguém
sabe ninguém viu. Apesar do dia passageiro, o resto estava como Deus sempre quer.
Tudo presença de Deus e perguntas.
Meri
E. a voz um pouco rouca, rouca de um certo modo gostoso natural dela e ótimo de
se ouvir, os olhos, ou melhor, as pálpebras um tanto cerradas ou baixas ou
semicerradas naturalmente que dão um charme um fascínio e um estilo de quem tem
alergia ao sol ou muita claridade nos olhos, bandida, por exemplo, etc.
A
estonteante Meri fundou várias lojinhas em shoppings da cidade. Uma loja de
bijuterias caras. Uma loja de comidas para cães e gatos e pássaros exóticos e
peixinhos ornamentais da Amazônia legal com autorização do Ibama. Uma loja de
roupas íntimas de rendas de bilros importadas do Rio Grande do Norte. Uma loja
de roupas de verão com chimarrão sempre quente na térmica e biscoitos de
polvilho na bandeja.
O
sorriso comercial.
Meri
sempre gostaria de se chamar um pássaro ou árvore na língua da tribo manitsauá,
por exemplo. Ela foi ali e pegou a uva pegou o araticum-cortiça pegou a banana
escolheu a maçã e mordeu com casca e tudo. Andou pelo quarto pela sala até perto
da janela, só de bermuda, de tope. Se chamar pássaro Uracaçu e ter um pedacinho
a mais de chocolate. Todos os dias pareciam domingo. Um dia ela vai e acorda
com vontade de ler um livro e lê duas páginas e vai e liga a tevê e troca de
canal centenas de vezes e vai e entra no feicebuque e vai e se debruça na
janela da rua para ver o trânsito fluir.
"Hoje
é meu dia. Estou comendo essa maçã e escrevendo isso nesse diário. O resto estão
todos bem. Você acha que é, você acha que sou? Há pouco vi um cara de olhos
azuis muito perfeitos. Escrevo com as duas mãos enquanto seguro a maçã nos
dentes. Ele me olhou de passagem não falou nada mas como se dissesse que queria
muito me... morder. De repente senti essa vontade enorme inadiável de andar de
bicicleta, mas eu preciso comprar uma bicicleta. Embora o Pita tenha olhos de
outra cor, e daí, nada a ver."
Um
sorriso de um branco mais que precioso, transfigurado, brilho assim prateado,
quando Meri ri tudo num raio de duzentos e setenta metros quadrados se ilumina,
gota de água puríssima, aperolado, opala de cor preciosa e preferível.
Choveu
parte da noite e eu me enchi mais um pouco nas cabeceiras nos mananciais. No
dia seguinte vi o sol às cinco e vinte e dois e a lua às seis e doze. Percorri
um dia claro e tais e quais. Rolo dentro de uma caixa de areia e pedras, etc. O
que eu destino o que eu oriento o que eu digo o que eu levo é muito por experiência
própria. Chego e me distraio com a baía de Iguape. Essas paragens são ótimas e
todas povoadas de socós, tuiuiús, garças-brancas, saracuras, colheireiros, biguás.
A barra verde do rio Vermelho. Hoje, hoje mesmo, eu contemplei as aves aquáticas
nos seus voos pesados o alvoroço que fazem na manhã e no fim da tarde e no almoço,
no almoço, e me perguntei:
Meri
querida abriu uma loja de aviamentos lãs linhas novelos agulhas, Meri Elen
Aviamentos. Não vingou pois o ponto era distante do centro. Alugou uma peça no
centro da cidade e abriu uma loja de roupas masculinas calças bermudas camisas
de botão gravatas meias cuecas sapatos cintos. Não durou muito pois a concorrência
já estava instalada a bem mais tempo. Inaugurou uma loja de produtos de colégio
cadernos lápis canetas borrachas lapiseiras pastas colas mochilas enfeites de
aniversário o nome em inglês To Look e durou só um verão. É que o preço bom já
vinha demarcado endereçado desde da 25 de Março.
"Mas
eu prefiro lamber ou ser lambida? Eu sei que ainda vou pensar sobre isso. Nada
mais a declarar por hoje, tchau! Me falta alguma coisa então acho que vou tomar
um comprimido para dormir. Estou sozinha e sem saco para a internet. Amanhã eu
vou acordar às dez e depois não sei ainda se vou à praça de alimentação. Eu só
queria me desligar de tudo só até amanhã ali pelas dez e meia. Antes que me
esqueça, eu estou com vontade de levar uns tapas na bunda. De leve leve. A
cidade lá embaixo noturna parece um fundo de mar e afogada. O mais importante
que não sei de quem, se do Pita ou de alguém que estou pensando, de quem."
Unhas
pintadas em arabescos em mandalas, um dedo de outra cor ou outro desenho, com
pedrinhas que faíscam conforme a luz e se perdem conforme o uso, unhas um pouco
longas e tamanho feminino. Sair sem um motivo sem um lugar definido para bater
o carro na saída do posto de gasolina.
Com
a loja de bichos de estimação, ela adotou um cachorro de nome Quenquém. Depois
de dois meses um gato com apelido de Saputá. Mais tarde um pássaro da fauna
internacional que chamou de Charão. Até chegar num peixe decorativo que ficou
nomeado de Boró.
O
sorriso papagaio.
O
Quenquém era legal e divertido pois quase não parava de pôr a língua e sacudir
a cauda. O Saputá fazia companhia para assistir televisão e trocava de canais e
aumentava o volume na conta própria. Charão cantava imitando os pios que vinham
de fora ou o gorjeio que vinha do rádio. O Boró nadava e mandava beijinhos e
chupos e estalidos de beijinhos e de chupos de debaixo da água submerso
mergulhado.
Boró
acordava cedo e despertava com a luz e vinha na superfície sempre que via Meri
Elen por perto. O Charão cantava e arremedava sempre que queria comer ou
brincar ou sair da gaiola. Pois Saputá acordava para comer e assistir o
programa preferido. Quenquém acompanhava a dona pela casa seguia ela até no
banheiro uivando o rock de garagem pela calçada até a padaria sentado no carona
andando junto ao meio-fio cheirando as plantas da rua não perdendo a dona de
vista sociável com outros da sua espécie.
"Eu
sou toda sensações, mas o que é isso de sensações? Depois da chuva eu e Quenquém
demos a volta na praça dos Acroá. Enquanto Quenquém, eu fiquei lendo abri o
livro na página oitenta e dois fiquei tentando me concentrar na leitura poucos
diálogos da Alice Para Sempre. Os japiins-do-mato tricotavam no alto da
bracatinga. As plantas gotejavam pingos moles. Paramos na padaria para comprar
pão de queijo e melancia plastificada."
O
sorriso melífluo.
O
peixinho Boró tinha todo o aquário para si dois palmos quadrados e água todo
dia renovada com enfeites no fundo pedrinhas arca caravela e umas algas que
faziam as vezes de moitas. O gato Saputá tinha a caixa de areia no canto da área.
O pássaro Charão a bandeja da gaiola ou o parapeito da janela ou a prateleira
com enfeites esquisitos lembranças da Bahia de Vitória de Pelotas do
Internacional. O cão Quenquém saía acompanhado toda manhã ali pelas onze e meia
para a rua perto de uma árvore no jardim do meio da avenida na praça debaixo do
guarda-chuva sobre a manchete do correio diário, conforme.
Quando
eu olho para mim mesmo eu me reconheço eu reconheço o céu o sol a cidade a
montanha e todo mundo. Eu gosto de barcos de praias de peixes de aves aquáticas.
Não sei se eu mereço, mas tenho o tamanho de tudo. Agora mesmo eu faço a curva
e almoço na aba sul da montanha Dedo de Deus.
O pássaro
tinha olhos de Boró, o Quenquém tinha olhos de gato, o peixe tinha olhos de
Charão, o Saputá tinha olhos de cachorro. Meri Elen tinha olhos e sorriso e
focinho de dona de cachorro gato pássaro peixinho.
O
sorriso de Meri parava o tempo parava o ar parava o trânsito parava o país.
Como um raio como os raios de luzes naturais sobre a prata ou sobre as
preciosas pedras opalas. O sorriso de Meri jogava os longos cabelos para trás e
ria. Tique-taques para sustentar as pontas dos cabelos e não pendularem
diariamente diante dos olhos. Os homens reparavam distendiam convencionavam
nela o que as outras não tinham nas outras faltavam. Quando ouvia barulho o seu
sorriso era rocha rock pedras cantando.
Um
dia o aquário ficou tranquilo como água de tanque. Um certo dia o pássaro
deixou saudade numa pena verde metálico abandonada no chão da sala de estar. O
gato não compareceu ao pires de leite morno na pia da cozinha. O Quenquém saiu
com a Meri pela coleira em horário de sempre e foram passear ao longo da rua
arborizada Valentim Magalhães ida pela esquerda volta pela direita.
"Fui
no feice e mandei ver os recados aos quatro cantos e para tais e quais. Mas eu
gostaria de viver em Manaus, pelo menos uma temporada da minha sorte. Mas eu
gostaria de morar para sempre em Brasília, pelo menos uns meses. Mas eu tenho
pena de mim que não saio daqui desta cidade nem com reza braba. Do meio dos
meus ex-bichinhos de estimação, somente o Boró gostava de rock. O aquário se
tremia todo Boró pegava onda a água se oxigenava. No fundo no fundo eu ainda
queria ser índio gueguê e chamar Tiê-Preto. Certo, Chapéu?!"
Os
oito anos já haviam se passado que Meri convivia com o amante e sem maiores
pesos ou medidas ou sobressaltos. Cada um sabia o que o outro pensava, cada um
sabia o que o outro sentia. E nessa altura o destino quis que Pita se fizesse
separar da sua esposa e ficasse livre como um cachorro abandonado numa ilha anônima.
O
sorriso risonho.
Sendo
assim, Meri Elen Jacumaíba mais Pita Jaguané, casaram. Decidiram morar com a
família dela, no interior, no distrito de Botocudos. E o distrito a essa altura
depois de oito nove anos já tinha virado cidade dois mil e meio de habitantes
com outro nome Paiaguá e o mesmo endereço a mesma latitude.
(O
gosto de pegar tudo com a mão,
Esperando o sol secar igual cavalo na chuva,
O melhor abacaxi vem do Nordeste,
Nuvens fritando bolinhos de chuva.)
As
ruas estavam sempre calmas parecendo sempre no domingo de manhã em a nova
cidade Paiaguá no bairro Curugu. Os joões-de-barro habitavam com suas
gargalhadas assim mais ou menos. As casas de janelas escancaradas, flores em
latas velhas de tinta, cães nervosos atrás de cerquinhas de ripas de madeira
apontadas e pintadas de branco ou de azul. Carros tomando banho na frente da
garagem ou no meio-fio e aproveitando o gosto contrafeito do vizinho para
detonar uma certa música que acesa a todo volume. Um mundo com qualidade de vida,
bem-te-vi na porta, gambá escondido no teto da garagem, cumaru-amarelo
perfumando no pátio, cardume de taviriris conquistando os canteiros de orquídeas
e de bromélias, sem dúvida sem demora sem pressa.
"Estou
sem cabeça para escrever ler na internet falar no celular. Sim, eu sei. Assisti
um filme e fiquei impressionada, íntima, estonteada, recortada. Estou sem cabeça
para pensar, então, eu penso em nada. Estou sem cabeça para dirigir, senão eu
ia a algum lugar da cidade fazer alguma coisa que não sei, etc. A história se
passava no interior do Espírito Santo, a cidade de Corumbá de Goiás, e narrava
que dizia que o casal se separou e cada um foi para seu lado e existir a dita
própria de cada um em separado e lá pelo segundo mês ela descobriu que estava
grávida não disse nada pra ele nunca mais não disse nada pra ninguém nunca
jamais e não se falaram nunca mais e ele nunca ficou sabendo de nada jamé."
Era
aquela noite grande de lua enorme fazendo luar doce e claro como o dia,
praticamente. Cheguei a Guaratuba. As pessoas me olham e me curtem. São olhos
de todo tipo. Onde no passado era um imenso carrascal hoje é Guaratuba e como
cresceu e cresce. Provavelmente amanhã ou depois posso e devo embarcar numa
chuva, amanhã.
O céu
achatado. Uns anzóis como aspas no diário de Meri:
"Acordei,
tomei banho, tomei café, fui com o Quenquém ao mercado comprar bolachinhas
maria suco de açaí, vi uma porção de rolinhas-caldo-de-feijão espalhadas pelo
chão da praça Mandaçaia, preparei o almoço, almoçamos com Pita, fiz chicote do
cabelo, fui ao cinema assistir uma comédia, e dessa vez, jantamos com Pita e
estou escrevendo este diário e pouco antes ansiosamente de dar que já me está
paralisando o cérebro, praticamente."
O
sorriso sublime.
Aqui
me desvio para a esquerda para passar bem rente por esse lugar feliz e raro e
conhecer de perto as grutas tão decantadas. O parque estatual Cunhambebe, o
lago serra da Mesa. Repetidos sem conta e perdidos pios de urutau. Vou devagar
e levando no bojo jurupocas, mandis-chorões, bagres, dourados, piratingas,
joaninhas, acarás-disco, piraís.
O
rock invade os miolos e galvaniza todo o corpo num nervoso numa tensão num tesão
de carne ossos ganidos cabelos pra baixo e pra trás. Ela esquece tudo e só fica
pirada nuns desejos e pensamentos elevados e violentos e velozes, perturba tudo
e fica cheia de sorrisos e satisfeita. Falou para o diário, depois, já meio
mais calma e pacificada:
"Eu
amo rock! Demais! Tudo! Caramba! É um êxtase uma raiva um power tipo assim de
animal na jaula, ira! Meu combustível, minha vitamina, muita adrenalina. As
vozes dos caras, vozes muito cavernosas, letras satânicas, linguagens malditas,
vozes muito cavas, muito cavas, vozes medonhas, muito central, muito ancestral,
muito catedral, ok, cara!"
Já noutra manhã, de manhã, ainda, todo o
mundo queria mesmo pegar o sol com a mão e ele escorregou para o céu. O novo céu
brincando de avião a jato, andorinhas, peixe-frito, alma-de-tapuio, picaçu,
japu, marianinha. As árvores crescendo com o vento, espinho-de-maricá, boicaá,
bucha-dos-paulistas, assa-peixe, caabopoxi, cará-barbado.
O
sorriso ímpeto.
De
outra página virada do diário aberto de Meri Elen:
"Você
me parece com cara de quê. E escreve e olha o que escreve e fica escrevendo o
que pensa. Eu não te reconheço. Não sei de nada.
E
onde penso que vou, de onde penso que volto?
Sou
a mesma de ontem. Quero ser a mesma de ontem. Não sou a mesma de ontem e de
amanhã.
Olho
esse texto. Tá olhando?
Olho
o horizonte por trás daquele morro do Realengo. Tô olhando.
O
horizonte é um rio. Um rio é horizonte.
É o
que quero ver.
Pois
eu vou me dizer e te digo:"
O
dealbar do dia, jurupensém saltando no meu meio de rio, aves palradoras e
gritadoras, teiú pacífico deitado no galho do curuiri. E farfalhando folhas
caindo do guajará-branco, do cajueiro-bravo, do nó-de-porco, da
beldroega-grande, do gulandim. A favor de quantos, de quem especialmente, a
favor do mundo, a favor de um por vez e todos de uma vez. Passa voando a sombra
do gavião-tesoura e chiando, pieeeé!... Eu bebo tudo, bebo as pedras, bebo a
cidade de Giruá, bebo a minha sombra, o meu rio, bebo a minha maneira de
ser.
Um
ano, outro, mais outros, mais ainda.
Depois
da chuva. As estrelas brilham, os olhos brilham, as folhas verdes, anos-luz
brilham, os insetos, as águas brilham depois da chuva.
O
sorriso obsoleto.
Corro
à rédea solta. De um lado terras dos pitaguari, do outro lado país dos pancaru.
Passo no meio, desliso macio, sou bem fundo, largo e profundo. O que hoje em dia
é pouco, no passado distante passei em meio às guerras lá entre esses. Sou bem
tratado.
Todos
embarcam no mesmo rio, e eu cuido disso, e eu cuido, e cuido disso tudo.
Conservo minha forma no verão, no inverno. De noite eu ando mais com vagar, sou
bem dotado e ouço os grilos, os sapos-ferreiros, o bando de canelas-ruivas, os
curiangus.
Elen
amanheceu. Não demorou muito, mais nada, pretenderam um filho. Meri muito mais
que Pita. Fizeram de tudo e etc.
O
sorriso futuro.
"Eu
devo emagrecer vinte quilos, quinze quilos, cinco quilos, quatro quilos e assim
por diante. Pita já emagreceu dez quilos e pretende mais dez ou quinze. Muito
suco de melancia, que eu adoro. Tenho amigos no feice desde o Amapá até a Islândia
a Austrália o Cabo Verde, etc."
As
minhas águas rolam, assim como os anos, e eu me levo junto. Sou da cor da terra
como a cidade de Santa Rita do Araguaia e Anicuns e Itanhandu. Desliso pelas
pedras corredeiras esfrego os olhos e corro. Devo descer mais um degrau desvio
pela esquerda e procuro o poente do sol. Sinto vontade de chorar mas desisto.
Dobro
com essa curva para a direita e arredondo a cidade de Couto de Magalhães, terra
bastante natural de tapanhoacanga, o morro Pedra Selada, irmão Jauru nos alcança,
irmão Tibagi nos acompanha. Corro para o poente, aruanás rezam comigo, a noite é
calma e fria, a ponto de. A lua, é meia-noite, cai dentro do meu álveo. Não sei
mais o que vejo.
Meri
de barriga alta e grossas pernas pesadas rosto inchado os bicos pontudos os
cabelos flutuantes. Se sentou na cadeira de balanço olhando o interior de si a
barriga de si o mundo o planeta o Senhor dos mares e das estrelas dentro de si
para si. Muitos talvezes e ses. Juntou os três dedos da mão esquerda nos beiços
e ficou olhando fixada o olhar parado vazio pensativa em nada no infinito.
"Deus?!
E como se joga esse jogo e fica tudo bem? Me passa um recado. Eu rezo, é
ousadia, e Você me passa um enigma. Queria começar de novo. E no princípio tudo
era bom. Não acredito em Você, mas agora eu vou rezar, dá licença!"
O
sorriso altíssimo.
Eu
sou o sistema do rio e o céu continua côncavo distante imenso lendário. No
mesmo ambiente de ingás-de-flor-amarela, mucujês, pacovas-catingas,
favas-de-bolota, os alados cabatatus, araquãs, papagaios-da-serra, papa-capins
que ficam disputando em andares diferentes o mesmo dia que inicia com a manhã.
Sou a invenção dos números primos.
Agora
também sou o mesmo e sou outros ao mesmo tempo. Passo bem, passo ao largo de
Boa Vista da Aparecida, são os dias 12, às 23h e 35min, quase os dias 13 de
outubro, como se dizia. Grilos pendurados das estrelas e de cabeça pra baixo
tocam dedilham se esforçam a gaita de fole. A cidadezinha tentando dormir como
num espelho. Sou calmo paciente e venho da eternidade.
Meri
e Pita tiveram o menino que puseram o nome de Tarumã, Tarumã Jacumaíba Jaguané.
E passeavam com o filho no carrinho pelas calçadas com vitrines e na praça
Pindamonhangaba. Dias de noitinha domingos feriados. Passeavam com elezinho no
carrinho azul e branco pela rua de paralelepípedos trepidantes da rua Fagundes
Varela. E era só eles dormirem que elezinho acordava.
Noite
de duas horas e trinta e sete minutos
quinta-feira do dia nove de novembro a lua no céu com as estrelas em
escorpião brilhavam como nunca, Tarumã nasceu vestiu roupas casuais de toda cor
foi lá fora correu atrás das coisas foi uma época que experimentou toda sorte
de marca de cerveja casou com uma tal de Juriti da tribo dos guajá e foram
morar em Volta Grande, não lia jornais não comia alface não suportou faculdade
de direito nunca usou chapéu não visitou Aracaju fez a faculdade paga e tardia
de administração beijou as duas filhas até os dezessete anos os oito netos à
medida que surgiam passou porção de férias na praia Quatro Ilhas, veio a
aposentadoria e a viuvez e oito viagens oito anos seguidos até Belém sempre
para ver o Círio de Nazaré trocou o quarto carro colecionou um quadro com
imagem da ponte Rio-Niterói a troco de decorar a sala de estar, fugiu do
hospital para comer uma pizza de chocolate com queijo morreu ladeado por uma
estrela e uma cruz às três e oito da tarde de sexta-feira vinte e um de outubro
na cidade de Monte Alegre de Goiás capital do doce de murici plena de
muricizeiros.
Eu
vinha vindo do interior de Rondônia, passo por campos de gado branco aqui e ali
um chupim no cupim marruá escarvando vestígios de cerrado requeimado país dos
janduí papagaios-moleiros fazendo buracos nos itaimbés suçuaparas corrupião-preto
coçando a asa direitinho, deito na sombra, lia de olhos fechados a brisa com
cheiro de brasa viva, me acomodei, me ajeitei desse lado que eu prefiro, almoço
as pedras do leito, cochilei, cochilo.
(Dormir
pescar bater cabeça se é que se dorme uns cochilos intermitentes cochilos e
mais cochilos nervosos um atrás dos outros;
A chuva por trás da chuva, chuva por dentro da
chuva, chuva antes e depois da chuva;
Cores cítricas resolvidas cuidam como nunca de
assobiar gorjear cantar para o amanhecer;
A avenida Macurape com árvores postes
cachorros automóveis, a praça Urupê deserta de árvores postes cachorros automóveis;
A última mulher era boa morena adulta calça
jeans apertadíssima piercing no nariz e com uma senhora sacola a tiracolo;
Bateu três vezes a cabeça com a cabeça na lua;
Então, uma alma não morre e volta sempre
quando quiser e para rever e servir aos amigos redivivos.)
Eu sempre fui rio e quando morri rezei muito
para reencarnar em rio e consegui. Não é difícil ser rio, e eu gosto. Rio
tranquilo por entre pedras por baixo das sombras das árvores, etc. Se passou
essa história em Itapetim. O meu caso é sempre ser rio rumo do mar. Ser rio é
difícil contentar a todo mundo. Vejo uritutu, teatro Santa Isabel, cardume de
caranás, boi barroso, cardume de guaximbés. Para encher isso tudo no mundo,
etc. Eu arrastando o sol daqui pra lá e de lá pra cá. É uma, né?!
"Quando
eu era menina eu queria ser menino, agora sou arremesso. Mas na próxima encarnação
eu quero ser borboleta com duas asas apenas duas semanas de vida e uma uma só
chegada me chegará. Vou pendurar roupas na área para secar. Quando sobra tempo
não tenho o que fazer, quando falta tempo tudo por fazer. Comprei ganhei todos
os azuis possíveis para o pimpolho vestir daqui até o inverno o verão de 2020.
Comprei um colar de ouro para enfeitar a esposa do meu marido."
O
sorriso universal.
Boa
parte de mim mesmo já dormia o sono das águas paradas ou muito calmas, aí pelas
2h e pouco, quando descaiu uma chuva avassaladora e não pude mais dormir de
ponta a ponta. As piraíbas muito bastantes gostaram imenso. Sem demora fico
grosso vermelho e transbordante. Me precipitei por lá na altura de Timbé do
Sul. Carrego no papo empapuçado o rolo compressor da enxurrada com terra e
seixos e galharias de erosão em avalanche. Chovia todo dia. As pontas das
montanhas e morros descem para me pegar com mais força e volume.
A
primeira palavra de Tarumã? A primeira letra de Tarumã? A primeira pergunta de
Tarumã? O primeiro T de Tarumã? Quem adivinhou, quem soube, quem entendeu, quem
viu primeiro.
Apesar
de sempre querer ser homem, Meri está cada vez mais mulher; apesar querer
sempre partir para algum novo endereço, volta para o primeiro ninho; apesar de
querer sempre ser independente, vive cada vez mais enfiada nos seus. A pele
pegou um pouco mais de sol, mas os olhos e o sorriso não mudaram nada nem
nunca.
"Mas
Taru já é um menininho afoito que empurra cadeira se joga para a luz da janela
e chama quando tem fome e dorme em qualquer lugar e acorda sempre às três e
vinte e oito. E ele me cheira e me olha e me sabe e me faz bem, um bem enorme.
Não tenho palavras, só olho. É preciso entender para melhorar. É preciso que
aconteça para se aprender. É preciso selecionar para sentir saudades."
O
sorriso ocidental.
M.
Elen sim gosta aí sim de cabelos longos e power power como o próprio coração
power. Como se explicar que o rock dá um tesão enorme. E ela se joga e se abraça
e o que vier na cabeça e power vira roqueiro fica numa pilha e se agiganta como
defunto da tumba vira bicho de dente de sabre paisagem na era da pedra lascada
homem das cavernas túnel mal-assombrado das eras antes e depois de Deus na
terra, etc. Não é para entender, é para se ouvir, é rock, é power. O corpo
tinindo com vontade de gritar e grita e ri e escabela. O som power é o som que
ela sempre power power quis e tem vontade de power. Ela para de agitar e atende
o feice, porra! é alguém.
Naquele
dia tão antigo de outrora que faz muito do tempo, oi então, eu viajava
escoteiro, Deus por testemunha, Deus servido, ia pelo trilho escolhido, pelo
valo sem fundo das terras dos guaná, noite e dia, chuva ou sol, pé por pé,
pombas-de-bando em revoada ao longe, céu com terra, vou porque vou. E o futuro
todo dos pés à cabeça todo ele de todos de todos nós depende de mim
exclusivamente de mim, de mim. O meu braço esquerdo de mim estava caindo com
força de irmão rio Paraibuna. Escuto os guachos cantando na mata ciliar. Passo
raspando por Crixás.
No
primeiro aniversário de Tarumã, elezinho aprendendo a segurar balão de ar da
cor azul branca amarela vermelha, Meri contando pras comadres nos dedos da mão
a trajetória dela com elezinho, o seu Pita envolvido debaixo da escada sugando
o pescoço da irmã mais nova de Meri e talvez mais bonita que a própria Meri
Elen dos bons tempos de Meri Elen lindíssima, etc. Foi depois de cantar os
parabéns, Taru chorar oito vezes, acabar o guaraná e alguns convidados já terem
ido embora, etc.
O
sorriso visível.
Eu
corria entre praias do Piauí, entre matos de buiuçus, tapiricas, canelas-capitão-mor,
marias-pretas, e cidades altas e baixas, Aruanã, São Gonçalo do Amarante,
Treviso, Ulianópolis, me junto com os irmãos rio do Peixe, rio Paraopeba, rio
Meia-Ponte e é o que te digo. De quando em quando cai uma chuvinha que muito me
acomoda e muito me apessoa.
Quem
contou isso tudo para a Meri foi a própria irmã caçula bendita Jarina conhecida
na família como Já ou Ina, que disse tudo como foi e aconteceu e explicou
direitinho, às vezes tentando olhar a irmã mais velha nos olhos e difícil,
confessando por conta e risco, não sabendo onde pôr as mãos, descarrilando:
-
Tipo começou quando eu nem sei tipo quando vocês vieram para cá pra Paiaguá
tipo de volta para nossa casa tipo um olhar dele me derreteu tipo um beijo forçado
dele me derreteu tipo ele me emprestou trezentos reais a fundo perdido tipo
houve outros beijos na boca tipo beijos no pescoço tipo eu prometi não abrir o
bico tipo ele prometeu me ajudar e ajudou a comprar passagem aérea para BH tipo
um dia eu descobri marcas de dedos nas coxas tipo eu descobri que não resisto a
beijos no pescoço tipo ele me presenteou com um celular tipo não sei por que
tudo isso comigo com ele com nós tipo fico alucinada com beijo no pescoço tipo
ele soube explorar isso tipo mais beijos escondidos tipo lambida no pescoço
tipo fiquei doida tipo não me segurava mais tipo o que ele queria eu dava tipo
o que eu quero ele me presenteia tipo isso está rolando a três meses tipo é
isso tipo não sei se mereço seu perdão tipo me perdoa tipo você nunca vai me
perdoar tipo deixa eu chorar em paz tipo ninguém merece tipo eu errei mil vezes
tipo se é para chorar então eu paro tipo...
E a
Já cansou de se confessar, e enquanto falava a voz ganhava um eco ridículo que
dava até para rir se quisessem, e Já sentiu uma falta de fôlego, uma ânsia de
acabar com tudo, e Jarina sentiu sede.
Meri
até teve muita calma nessa hora: cumprimentos e muito bem! Depois
imediatamente, passou a mão nos cabelos assim. Foi que ouviu tudo que pôde com
calma e segurança e olhar na parede. Sentiu algo flutuar, a ideia. E virou as
costas se retorceu e se foi para a cozinha preparar o de-mamar do Tarumã. Ouviu
algo estilhaçar, o rumo. Sentiu algo ranger e bufar, o prumo.
"Um
pouco de risco é bom um pouco de dúvida um pouco de perigo um pouco de crise
vai me fazer bem. Eu fiquei perto da parede com o dedo na parede e me perdi
pensando em nada, acabrunhada, indiferente, o ombro na parede, muito não
sentindo, e o tudo vazio, o frio, as lágrimas começando na garganta e com muita
dó de mim. Eu sei que sou um rio e meu
filho é outro rio e os rios saem dos rios o rio saiu de mim. O que importa,
importa muito, importa tudo. E nada disso aparece."
O
sorriso metafísico.
As
perguntas que se faz nessa hora e tudo mais:
-
Oi! Quando essas coisas explodem na nossa cara com a nossa cara como juntar
todos os caquinhos? Como almoçar? Como dormir?
Meri
se sentiu muito imatura. Ademais tudo parecia mesmo praticamente novo. Se
sentiu também como se tivesse que recomeçar do zero. E tudo chato, tudo polêmico.
A tal da esperança.
Me
lembrei que já era domingo de carnaval, que já estava em o lago Arari, que já
estava muito perto do macaréu, a chuva em boa parte de mim foi torrencial a
noite toda, o dia seguinte todo e me espraiei. Positivo. As tabujajás piavam em
meio aos sarandis. Pois não.
O
sorriso substrato.
Meri
olhou para dentro de si e tudo mais, olhou para si, olhou para Tarumã dormindo
na caminha, olhou a noite quase no fim, olhou as casas se revelando ao dia,
olhou sem olhar, olhou a rua Cuité, olhou e deu voltas e mais voltas. Pensou
alto mais de uma vez:
-
Oi! O que fazer ou não fazer, fazer ou desfazer, fazer e acontecer?
O
sorriso aquífero.
Depois
do choque, a Meri Elen foi pensar uma saída para a falcatrua. Obrigação dela.
Custava pensar nessa questão e o pensamento sorteava um moinho de opções. E
houve dúvida como pintar uma flor. E houve dúvida como imitar a postura do
bacurau. E houve dúvida como inaugurar um labirinto. E houve dúvida como achar
um tesouro.
O
sorriso simplificado.
Sou
a novidade, o antigo, o que há de vir, etc. E vou dizer com todas as águas.
Aqui eu coloco esta cidade de Diamante do Sul, ali a ponte estaiada, ali a
serra da Canastra, os periquitos-reis na copa da jabuticabeira-branca, ali a
Meri Elen me olhando sem me ver.
Meri
esperou três meses para se decidir e aprovou essas resoluções. Cortou fora o e
jogou para além da janela aos cachorros. Meri encheu a cara de Pita no jantar
foram fazer pela madruga afora e seria aquele o milésimo gol da milésima vez e
ele dormindo anestesiado ela pegou a tesoura segurou na ponta e zape correu à
janela aberta e jogou para o pátio onde os cachorros começaram a disputar com
alvoroço lavou as mãos que o maior acabou engolindo o menor.
O
sorriso peixe.
Elen
foi no banco raspou a conta conjunta e convidou o melhor amigo do monte do
marido para um passeio de fim de semana em Gramado e Canela e Nova Petrópolis e
São Marcos. Quando voltou três dias depois Pita perguntou onde você se meteu
sua maluca eu fui e passei um ótimo fim de semana com Juá seu melhor amigo nus
em pelo nos hotéis paradisíacos com cama redonda paredes espelhadas cinema a
bordo cascata artificial camareira e garção no toque de campainha e espumantes
gelados para refrescar o banho na banheira de hidromassagem e com que dinheiro
com o nosso dinheiro meu e seu por que não gostou achou pouco e olhe que ainda
posso fazer melhor e mais longe e mais demorado e fila indiana com mais de um
de dois dos seus ótimos amigos alguma mais pergunta alguma dúvida.
O
sorriso paisagem.
Saiu
de casa, ela e Tarumã, e foram viver numa cidade distante que até hoje não se
sabe qual é mas que tem de tudo um pouco e se vive bem conforme tem praças tem
teleférico tem shoppings tem praia na frente zoológico plantado dentro de um
mato de árvores que cantam pássaros do dia a dia e até homens tico-tico
dispostos ricos viajados em boa forma a escolher.
O
sorriso aventura.
Não
obstante. Pegou deu uns tapas na irmã sem noção jogou uns pratos e panelas e
talheres na cabeça do Pita cara de pau disse as verdades aguardou uma semana
levou uma semana e depois não se falou mais disso e a vida continuou por ali
mesmo voltaram às mansas e assim e tudo mais e tudo muito corriqueiro e pacato
e remendado. Até porque as pessoas são livres e devem ser livres para sempre e
independentes e respeitadas nas suas liberdades esse negócio de casar e ficar
preso em anéis e em casal é coisa inventada de passado antigo remoto ou coisa
de araras-vermelhas-grandes.
O
sorriso estrela.
Desliso
por entre tardezinha laranja e matos verdes, vou deixando praias brancas ilhas
verdes lagos engraçados, ouvindo o gargarejo das capororocas, e sempre por
terras pretas ou vermelhas ou tabatingas. Tempo seco de poucas chuvas, frio,
tempo chuvoso e quente, indo de menos cinco a mais de quarenta graus. Quase
tudo dormia quando passávamos por Passa Vinte e cruzamos por baixo da ponte e
sigo adiante.
Assim,
eu afirmo, eu mereço você merece nós merecemos Meri Elen merece, e que é que é
sempre que se olha para uma ponte suspensa no ar embalado da tardezinha
embalado na paisagem tardezinha.