domingo, 23 de junho de 2013

Quem Bom!


 

 

            

       Vinha tão perto, a tarde estava linda, era de admirar.

       Durante a tarde pela manhã em casa no apê do quinto andar do edifício Timburé, mentalizou mentalizou projetou a noite que desejava que procurava que queria que teria que precisava. Uma noite de sexta-feira produtiva e boa e calma. Santa paciência, sempre sempre, pelo amor de Deus! Sem chuvas sem ventos fortes sem atropelos sem embaraços sem galimatias. E acendeu uma vela azul de laço azul para a Nossa Senhora da Aparecida, odor de santidade, e outra vermelha de laço vermelho para o São Cristóvão.

       Ora essa! Aos 14 de junho de dois mil e treze... Saiu a tarde inefável e entrou a noite.

       Embarcou purificada na estação Itaquatiara do metrô às 20 horas. Ela foi, à hora aprazada, ao encontro do promissor acaso imprevisto futuro, batom sabor bombom. Por um triz ia perdendo o trem. Noite metropolitana, luzes pela cidade, ruídos do trânsito incessante, gente voltando na maioria. Procurava por um programa leve que possibilitasse ir às compras na segunda-feira e ao shopping no domingo.

       Preferência por preferência tinha em princípio suas preferências por homens de barba rala, homem  de bigode era ridículo, homens de cabelo natural, homens dos trinta para baixo, homens grandes esses que é bom. Imaginava sonhava aquela e várias outras coisas.

       Chegou ao centro às 20:30 e foi para a rua Itajubá. Escolhida a rua pela calçada larga arborizada da esquerda as árvores alternativas, cambará-do-campo juazeiro jacarandá-pitanga pindaúba. Caminhava devagar. Adianta muito sorrir e fica bonito bonita. Com aquele jeito tanto de quem está sozinha procurando companhia diversão entretenimento lazer distração. Nem séria, nem espetacular. Pensamentos contra ideias. Jeito distraído, abordável, suave, limpa, cunhantã, arzinho sério, jeito perfeito de passatempo, perscrutadora, cinturinha estreita, um sorriso muito lindo. Esclarecimentos completos. Vestida com tênis e meiões de listras verdes e amarelas, um número ímpar, cabelo bem caído sobre os olhos, saia curta lilás plissada com babados incríveis, miniblusa tomara-que-caia com enseadas e lajes e cascatas do rio Paraibuna e uma pochete à tira colo. Uma beleza concentrada, um número, pura verdade, ótima ideia, criativa, beleza matriculada, criatura privilegiada, bonita maravilhosa que nem se fala!, esguia como palmeira guacuri, sadia, inesquecível, madeixas douradas. Pelo formato, pelo tipo, pelo jeito, pelo andar, pelo sabor e parando à frente de cada vitrine, fumando, displicente, simples, solene, formalizada: uma putinha fresca.

       Parou um carro no meio da rua bonito de vidro fumê placa de lugarejo distante, ora se viu!, de Itamonte o vidro elétrico desceu e uma das duas mulheres a convidou:

       - Quer um programa, linda taguari?

       Aceitou o amável convite. Ela embarcou calculando o preço o babado a noite de romance o baile as horas de folguedo as libações. Cobraria alto, em dobro, mais que com homens e seria até melhor.

       Tem bom!

       Pegou um táxi na madrugada de volta para casa. O dinheiro dinheiro na pochete. Daria para fazer e ainda sobraria. Como foi e como não foi. Não é todo dia que as coisas vão tanto bem.

       Tomou um banho de água quente doce e se perfumou com aroma de andirapuampé. O sol espiando ainda calculando o mundo novo. Agora sentia o corpo pisado, esfregado, lambido, estapeado, as mordidas deixaram marcas. Teve um rápido e terno olhar para com a santa e o santo seus associados e prediletos. Se cobriu até os olhos com o lençol branquinho. Apareceu na cabeça o fantasma a voz do professor de História. Ele era engraçado e ele ficava jovial e ele narrava desfilando na frente do quadro olhando para além da janela envidraçada, às vezes.

       Estava com sono e se virou na cama tentando se abandonar, deixar coisas para pensar amanhã, ou nunca. Um último olhar, de esguelha, para aquele professor de barba rala e grisalha que tinha assunto de sobra. Havia tanta coisa a fazer! As dores nas partes mais sensitivas davam um gemido gostoso totoso, hum!... As duas coroas pegaram pesado, foi. O professor de História falando falando gesticulando andando pela sala de aula colocando assim algo como e aleatoriamente sobre se referindo ao farol do Cabo Branco ou Ponta do Seixas, na João Pessoa... Teve que acompanhá-las na cocaína. Beijos na boca. Faz parte.

 

      

domingo, 2 de junho de 2013

O Jongo


 

 

      
       Uma vez... e me lembro como se fosse hoje.

       Piraba foi com as amigas os amigos na festa à beira-rio a praia branca lá junto da clareira na vizinhança da Garganta do Embaú.

       Ainda era dia quando nadavam rio abaixo. Uns acompanhavam no fundo outros nem tanto mais na superfície pelas margens. Águas limpas ainda no verão dias longos árvores frutíferas floridas verdes cambiantes com aromas de jurema-branca, içá, coirana-de-são-paulo, aturiá, jacarandatã, caruru-amargo, jaborandi-do-mato, vinhático-testa-de-boi.

       O sol caía atrás do pico da Pedra Menina cheio em ondas vermelhas como gigantescas asas abertas de araras-vermelhas-grandes. O boto-cinzento seguia mais à frente guiando mergulhando parando para olhar atrás parando para sorrir parando para rir clicri! clicri!... mergulhando emergindo imergindo frequentemente nadando estabanando à frente indicando o caminho sem correnteza águas claras pelo paraná mais lógico.

       Mas as amigas todas só pensavam no baile, suspiravam antecipado, se abraçavam confidentes, desabafavam os sonhos, ruidosas, relembravam os desejos, retocavam a maquilagem, jolizes, se arrumavam, já que nenhuma ou poucas poucas tinham a tal daquela experiência.

       - Piaba, e esse óculos?!

       - É meu.

       Mas os amigos iam competindo velocidade voos ou saltos e aterrissagens espetaculares fazendo travessuras e gritando bravatas inventando coreografias disputando tolas bobagens trocando caretas temerários irrequietos a valer até com ousadias perigosas orgulhosas malabaristas acrobatas.

       - Eu tenho amigas amigos em todo o mundo!

       - Inclusive da Mongólia? 

       A noite desceu das regiões estratosféricas com uma ninhada de estrelas. O cardume chegou à praça de esportes Duque de Caxias envolta na bagunça da música e tumulto de espécies e de raças, linguagens, bebidas, doces, frutas, espigas de milho verde, pamonhas, onomatopeias, garapas, desfiles na moda, bandeirinhas de papel leve coloridas presas em barbantes puxados de árvore para árvore balançando ao vento que vinha ora da banda da serra da Mantiqueira ora da banda do rio Pitinga.

       As amigas se acomodaram todas pelos cantos nas laterais olhando com olhos acesos esbugalhados redondos saltados noturnos aguados os acontecimentos os fenômenos. Ensaiaram os movimentos da música em pequenas e tímidas rabanadas as guelras bem abertas para respirar melhor fora da água a franja nos olhos. Riram da cócega da novidade da iniciação da exposição e de mais todas as sensações.

       Breve e preocupante, um tiroteio uns tiros de metralhadora no alto do morro do convento de São Bento fez todo mundo se abaixar se jogar no chão se abraçar consigo mesmo pedir aos santos pedir aos berros fechar os olhos fazer promessa. A música desafinou, o pipoco durou cinco minutos, uma indecisão mundial, todos voltaram contrafeitos para o ar livre da festa.

       O Peixe-Lenha veio e pediu a mão de Piraba. Era um moço de chapéu de couro, cordões de linho coloridos no pulso, bonito de barbilhões enormes pontudos esticados até a nadadeira caudal, mais alto, nadadeiras bandeiras ao vento, cheirando à fumaça de cigarro, sapatos de escamas rebrilhantes e escorregadias, copo de bebida verde na mão.

       Esse moço de tal espécie não parou de falar coisas à toa no ouvido da Piraba. Ela gostou de ouvir, adorou se sentir prestigiada conferida, mas não compreendia nada, toda tonta, confusa com as luzes giroscópicas, o riso de tantos, o entra e sai de casais grupos bandos conjuntos, empurra-empurra, o gritinho das mais eufóricas, brincadeiras, tatibitates, etc, azaração, pegação, falação. Experimentou uma bebida vermelha. Era tudo como sonhara e mais.

       Quando se viu sozinha com o rapaz no escuro longe do som da festa na sombra atrás de umas pedras seu corpo tomou de tremer como vara verde ao vento no vento. Sentiu que ele a procurava muito por todas as partes e seu hálito de cerveja era sem graça. Queria de volta seu livre arbítrio. E até amoleceu as nadadeiras as barbatanas a cauda e caiu nos seus braços como uma invertebrada.

       Piraba não sabia como e nem tinha fantasias enrolada num certo transe entorpecente devaneante soporífero irreversível irresponsável transcendente.

       Depois não viu mais o rapaz e nem a lua no céu nem uma estrela pra semente nem um cometa a tiracolo. A mata virou um breu de não se enxergar um palmo esbarrar em tudo. Tentou procurar a clareira a praça da festança, vencer a grama molhada o capim escorregadio as plantas espinhentas o pedregulho pontiagudo, procurou ouvir aquela música, precisava chegar ao rio. Escutou pios assobios estalidos reparou olhos de todos os lados uns mais perto. Alguém a seguiu, muitos a seguiram pé ante pé ou em voos ocultos altos baixos e cegos. Num cemitério mongoió um jacareúna desenterrando a noiva com uma pá enferrujada de cabo curto. Miado de gato-do-mato em olhos de brasa brabos. Árvores se fizeram de estátuas de fantasmas abriram as bocarras as gargantas mostraram as garras secas e mexeram os braços mirados em adeuses. Nervosa sem fala suou muito resmungou para si mesma calafrios boca aberta tiques nervosos pensamento absorvente. Os sapos e gias e bacuraus pediram para esperar, roucos, cavernosos, sérios, cantaram de sentinelas nos ocos nos tocos debaixo de folhas gigantescas nos tucurus nos igarapés e nos igapós. Aglomerações agrupamentos enxames de tatuquiras vieram cheirar seu cabelo iam e voltavam procuraram entrar pelos ouvidos olhos nariz. O chão fofo confundiu com casca de cobra grande. Vezes uma topada no galho baixo uma tropeçada na pedra solta barro até os joelhos. Despertaram distantes no fim do mundo uns riscos de fogo chicotes queimados umas bombas tum! tum!... anunciando temporal. Uma igara passeou suavemente levemente flutuante levada pela pequena incerteza da corrente águas turvas carregada abarrotada de esqueletos brancos sorridentes e espectantes apontando falanges proximais falanginhas mediais falangetas distais indigitando o longo caminho do acaso. A quadragésima vez que passou pela mesma caaxió. Colecionou folhas pedrinhas sementes araticuns-do-mato que ia catando e protegendo e guardando para debaixo do braço.

       Algumas horas outros dias são realmente muito tempo. O tempo desperdiçado ou adquirido. O rio descendente do tempo.

       O tempo do rio. A memória do tempo. O rio sempre rolando. O tempo descendo com o rio.

       Então, a Piraba entrou num novelo remoinho sumidouro rebojo torvelinho sorvedouro, o percurso foi exaustivo exaustivo, numa boca tragada sugada engolida e caiu empanada no abismo da panela.

       E isso é tudo (a história que contei) e não esclarece muito nem nada.