Uma vez... e me lembro como se fosse
hoje.
Piraba foi com as amigas os amigos na
festa à beira-rio a praia branca lá junto da clareira na vizinhança da Garganta
do Embaú.
Ainda era dia quando nadavam rio abaixo.
Uns acompanhavam no fundo outros nem tanto mais na superfície pelas margens.
Águas limpas ainda no verão dias longos árvores frutíferas floridas verdes
cambiantes com aromas de jurema-branca, içá, coirana-de-são-paulo, aturiá,
jacarandatã, caruru-amargo, jaborandi-do-mato, vinhático-testa-de-boi.
O sol caía atrás do pico da Pedra Menina
cheio em ondas vermelhas como gigantescas asas abertas de
araras-vermelhas-grandes. O boto-cinzento seguia mais à frente guiando
mergulhando parando para olhar atrás parando para sorrir parando para rir
clicri! clicri!... mergulhando emergindo imergindo frequentemente nadando
estabanando à frente indicando o caminho sem correnteza águas claras pelo
paraná mais lógico.
Mas as amigas todas só pensavam no baile,
suspiravam antecipado, se abraçavam confidentes, desabafavam os sonhos,
ruidosas, relembravam os desejos, retocavam a maquilagem, jolizes, se
arrumavam, já que nenhuma ou poucas poucas tinham a tal daquela experiência.
- Piaba, e esse óculos?!
- É meu.
Mas os amigos iam competindo velocidade
voos ou saltos e aterrissagens espetaculares fazendo travessuras e gritando
bravatas inventando coreografias disputando tolas bobagens trocando caretas
temerários irrequietos a valer até com ousadias perigosas orgulhosas
malabaristas acrobatas.
- Eu tenho amigas amigos em todo o mundo!
- Inclusive da Mongólia?
A noite desceu das regiões
estratosféricas com uma ninhada de estrelas. O cardume chegou à praça de
esportes Duque de Caxias envolta na bagunça da música e tumulto de espécies e
de raças, linguagens, bebidas, doces, frutas, espigas de milho verde, pamonhas,
onomatopeias, garapas, desfiles na moda, bandeirinhas de papel leve coloridas
presas em barbantes puxados de árvore para árvore balançando ao vento que vinha
ora da banda da serra da Mantiqueira ora da banda do rio Pitinga.
As amigas se acomodaram todas pelos
cantos nas laterais olhando com olhos acesos esbugalhados redondos saltados
noturnos aguados os acontecimentos os fenômenos. Ensaiaram os movimentos da
música em pequenas e tímidas rabanadas as guelras bem abertas para respirar
melhor fora da água a franja nos olhos. Riram da cócega da novidade da
iniciação da exposição e de mais todas as sensações.
Breve e preocupante, um tiroteio uns
tiros de metralhadora no alto do morro do convento de São Bento fez todo mundo
se abaixar se jogar no chão se abraçar consigo mesmo pedir aos santos pedir aos
berros fechar os olhos fazer promessa. A música desafinou, o pipoco durou cinco
minutos, uma indecisão mundial, todos voltaram contrafeitos para o ar livre da
festa.
O Peixe-Lenha veio e pediu a mão de
Piraba. Era um moço de chapéu de couro, cordões de linho coloridos no pulso,
bonito de barbilhões enormes pontudos esticados até a nadadeira caudal, mais
alto, nadadeiras bandeiras ao vento, cheirando à fumaça de cigarro, sapatos de
escamas rebrilhantes e escorregadias, copo de bebida verde na mão.
Esse moço de tal espécie não parou de
falar coisas à toa no ouvido da Piraba. Ela gostou de ouvir, adorou se sentir
prestigiada conferida, mas não compreendia nada, toda tonta, confusa com as
luzes giroscópicas, o riso de tantos, o entra e sai de casais grupos bandos
conjuntos, empurra-empurra, o gritinho das mais eufóricas, brincadeiras,
tatibitates, etc, azaração, pegação, falação. Experimentou uma bebida vermelha.
Era tudo como sonhara e mais.
Quando se viu sozinha com o rapaz no
escuro longe do som da festa na sombra atrás de umas pedras seu corpo tomou de
tremer como vara verde ao vento no vento. Sentiu que ele a procurava muito por
todas as partes e seu hálito de cerveja era sem graça. Queria de volta seu
livre arbítrio. E até amoleceu as nadadeiras as barbatanas a cauda e caiu nos
seus braços como uma invertebrada.
Piraba não sabia como e nem tinha
fantasias enrolada num certo transe entorpecente devaneante soporífero
irreversível irresponsável transcendente.
Depois não viu mais o rapaz e nem a lua
no céu nem uma estrela pra semente nem um cometa a tiracolo. A mata virou um
breu de não se enxergar um palmo esbarrar em tudo. Tentou procurar a clareira a
praça da festança, vencer a grama molhada o capim escorregadio as plantas
espinhentas o pedregulho pontiagudo, procurou ouvir aquela música, precisava
chegar ao rio. Escutou pios assobios estalidos reparou olhos de todos os lados
uns mais perto. Alguém a seguiu, muitos a seguiram pé ante pé ou em voos
ocultos altos baixos e cegos. Num cemitério mongoió um jacareúna desenterrando
a noiva com uma pá enferrujada de cabo curto. Miado de gato-do-mato em olhos de
brasa brabos. Árvores se fizeram de estátuas de fantasmas abriram as bocarras
as gargantas mostraram as garras secas e mexeram os braços mirados em adeuses.
Nervosa sem fala suou muito resmungou para si mesma calafrios boca aberta
tiques nervosos pensamento absorvente. Os sapos e gias e bacuraus pediram para
esperar, roucos, cavernosos, sérios, cantaram de sentinelas nos ocos nos tocos
debaixo de folhas gigantescas nos tucurus nos igarapés e nos igapós.
Aglomerações agrupamentos enxames de tatuquiras vieram cheirar seu cabelo iam e
voltavam procuraram entrar pelos ouvidos olhos nariz. O chão fofo confundiu com
casca de cobra grande. Vezes uma topada no galho baixo uma tropeçada na pedra
solta barro até os joelhos. Despertaram distantes no fim do mundo uns riscos de
fogo chicotes queimados umas bombas tum! tum!... anunciando temporal. Uma igara
passeou suavemente levemente flutuante levada pela pequena incerteza da
corrente águas turvas carregada abarrotada de esqueletos brancos sorridentes e
espectantes apontando falanges proximais falanginhas mediais falangetas distais
indigitando o longo caminho do acaso. A quadragésima vez que passou pela mesma
caaxió. Colecionou folhas pedrinhas sementes araticuns-do-mato que ia catando e
protegendo e guardando para debaixo do braço.
Algumas horas outros dias são realmente
muito tempo. O tempo desperdiçado ou adquirido. O rio descendente do tempo.
O tempo do rio. A memória do tempo. O rio
sempre rolando. O tempo descendo com o rio.
Então, a Piraba entrou num novelo
remoinho sumidouro rebojo torvelinho sorvedouro, o percurso foi exaustivo
exaustivo, numa boca tragada sugada engolida e caiu empanada no abismo da
panela.
E isso é tudo (a história que contei) e
não esclarece muito nem nada.