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quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Terra Sem Mal (juvenil) cap. 5



            Ivy-Marae é cidade de claridade. É cidade que passa, mas o dia não passa as horas, os dias não passam os períodos, os pássaros passam passarinhos e as épocas não passam os invernos. As pessoas, também os bichos de toda sorte e as coisas mais santas, gostam de passear pela cidade de Ivy-Marae, pela lagoa, pela praça Triangular, pelos morros de Ivy-Marae. Cidade pintada de cores destacadas e bem distribuídas.          
            A moça do cabelo esvoaçante ainda não tinha nome. Moça leve e com a mão suave acariciou a própria cabeleira. Ela entrou na cidade de Ivy-Marae, e foi entrando, caminhando, mexendo os braços e olhando para o povo que se mexia. Ivy-Marae sempre é uma cidade pequena, quase mínima, vá lá, boa de se viver como essas vilas que já se ouviu falar e onde não acontece quase nada, a menos que se promova e se faça muita propaganda de festa e festival. A moça ainda não havia chegado ao hotel Teiru.
            E vinha pela rua junto com seu cabelo esvoaçante e tudo mais e tudo bem. Os olhos eram duas pedras preciosas e belas. O vento levantando o seu cabelo compridão grandão franjão. Era um cabelo espetado no ar pelo vento. Vento que a seguia por toda a parte e que gostava muito dela e seus cabelos, drapejando com esses seus eles, remexendo neles como se fosse bandeira hasteada.
Aí, as crianças na calçada da praça Triangular acharam graça daquele cabelão. As crianças queriam confundi-la com a mãe-d’água, para dizer a verdade. E a moça por seu lado achou graça no brinquedo que as crianças faziam. O mesmo ela sentia nos cabelos na pele nos olhos em você. Uns riam outros sorriam. E a moça pediu ou solicitou:
            - Me deixem brincar de sapata? E somente depois, desse sonho acordar, sairei para olhar e ver os meus belos pés - a moça disse.
            As crianças olharam com mais interesse para a moça dos cabelos esvoaçantes. Não só esvoaçantes como levantados para trás. E concordaram. A moça se preparou toda. Aliás, a dos cabelões tinha uma preocupação fora do comum com seus compridos cabelos embandeirados. Sempre os ajeitava pra cá e pra lá atrás das orelhas. Eram cabelos rebeldes, tomados pelo vento, leves e coloridos, e muito longos, longos como uma manta de usar no pescoço ou cachecol.
            A sapata era desenhada na calçada em uma duas três, quatro e cinco, seis, sete e oito casas, e mais o céu. A moça claro ia começar pulando, numa perna só, da primeira casa até chegar ao céu. Errando cederia a vez ao próximo brincante. E brincaram. Jogavam uma pedra numa casa e, pronto, já se saía pulando como saci. Riam muito porque era um brinquedo legal. Era um brinquedo que não se usava mais no mundo, mas um ótimo brinquedo, e que se poderia usar, por que não?! As crianças viam que era diferente brincar com uma moça de cabelos esvoaçantes caídos nas costas até a cintura. Uma das crianças, a Rê, falou com a outra criança, a Lilás:
            - Essa moça de cabelão não merece ser cunhantã?
            - Merece. Ela é trilegal e ideal.
            - Então, vamos apresentá-la ao Cacique?
            - Será?
            As crianças ficaram numa pequena indecisão passageira. Logo logo iriam saber resolver. Enquanto isso, brincavam. E a moça do cabelão ficou mesmo craque no assunto da sapata e chamando a atenção de todo mundo que passava e parava na calçada.
            Aí chegou um menininho chamado Eduardinho e ficou por ali como quem não quer nada nada. Ficou olhando as guriazinhas pulando sapata, a moça do cabelão pulando sapata. O Ed ficou num canto quieto como um bom menino. Só admirando aquela brincadeira que ele já conhecia, mas não conhecia com a moça do cabelão. Edu ficou escondido no silêncio até que a Rê o descobriu e o chamou:
            - Ei, Eduardinho! Psiu, vem cá!
            Edinho foi foi... meio que se arrastando de desenxabido. Ele era mesmo uma figurinha esquiva. Mas era um bom garoto. Todo mundo em Ivy-Marae sabia que Eduardinho era um bom personagem. E Rê pegou ele pela mão e o apresentou para a moça do cabelo esvoaçante e maravilhoso:
            - Moça do cabelão... perdão, a gente não sabe o seu nome.
            - Meu nome? Me chamo Caúna.
            - Ah, sim! Pois é, moça Caúna. Este é o Eduardo. Ele é sim um bom garoto e mais.
            A moça dos cabelos de luz se agachou um pouco para chegar perto dos olhos e do nariz do Ed, e dizer:
            - Hum... Eduardinho... você é bacana. Estou convencida que você é um bom garoto. Quer brincar de sapata? Tem lugar.
            O menino fez com a cabeça concordando. Mas com essa ressalva que ele mesmo se encarregou de falar:
            - Eu não sei... brincar de sapata... pe-pe-pê!... pe-pe-pê!...
            Então, todas as crianças meninas e mais a moça Caúna nome bonito acharam muita graça e riram. A moça dos seus vinte anos ainda disse, abraçando o garoto, para completar melhor:
            - Ah, Eduardinho, você é realmente um garoto ideal.
            A partir dali, Eduardinho teve muitas professoras que iriam lhe ensinar a pular sapata. Logo logo viram que Edu era muito menininho e inexperiente para pular num pé. A moça Caúna foi ainda mais paciente e foi segurando e tendo a maior calma para dar confiança ao pixote.
            E Dudu ganhou uma importância fora do comum, tomou a cena, inclusive. Eduardinho era o único menino do grupo, por acaso. Por ser o único menino, ganhou a simpatia de todas, e beijinhos estalados na bochecha. E a moça Caúna parece que gostava de lidar com gente baixinha. A moça merecia mesmo casar com um cacique e virar mãe-d’água. Ela tinha luz própria e tinha um sorriso!, e se vestia de luzes coloridas engraçadas e perfeitas.
            E coisas que acontecem em I-M.
***
            Como passava o tempo! Como passava o tempo? Era só esperar. Melhor se distrair, fingir que não se espera, assobiar, pensar em outra coisa, caminhar pelas ruas. O tempo não avisa. O tempo passa, ou finge passar, tudo sempre igual. O tempo é brincadeira de números no espaço virtual. Pode pintar como pode apagar.
Em Ivy-Marae os quatro elementos viviam juntos, par a par, dividindo o mesmo lugar o mesmo mundo a mesma mesa de refeições. Os elementos estavam aí como sempre, passos leves, presentes, ora contentes, ora quentes. O ar casado com a terra; o fogo casado com a água. Quase que se adorando para sempre. Eles e elas passavam o tempo se gostando, se enfeitiçando, trocando correspondências, trocando palpites. Não era difícil vê-los jogando dominó, por exemplo, em plena praça central a Triangular:
- Ei!, atmosfera, acorde, é sua vez - dizia a terra.
- Tá sufocada, é?! Não me chame de atmosfera. Meu nome é furacão!
                                                                 ***
            Perto de uma poaia-do-campo de altos e de baixos galhos, pousado num galho baixo como se fosse um pássaro, e sendo um pássaro, o jovem sabiá poeta e encantador de versos, declamava suas poesias seus versos. Ele estava assim, e recitou, reclamou:
            - O sabiá-laranjeira admira e gosta da criciúma! Esta parece árvore de natal! Mas é tanto perfume e aroma, folhas e flores!
            Este mais ou menos poeta gostava de fazer figura com a menina da plateia. Sempre tinha amigas queridas na plateia. Assim, ele piou:
            - O sabiá-laranjeira canta na manhã de árvores descabeladas! O sabiá-laranjeira repara as nuvens se aproximando baixas! Não é mais fácil cantar que vai chover daqui a pouco?!
            Apareceu um casal de tico-ticos para ver e ouvir o cantador. E viram e ouviram, o trovador arriscou:
            - O sabiá-laranjeira não tem casa própria! Não para em hotel de estrelas! Ele prefere a paxiúba! Ciscar inteira a terra úmida! Espiar e piar entre as ramas e sombras perfumosas!
            Todos ali tinham vontade de ficar e ouvir mais e mais o poeta. O sol também tinha essa vontade. Os outros passarinhos também. O teiú também. O pessoal que trabalhava na loja de ferragens, idem. A família nhandu nem se fala. E ouviram:
            - O sabiá-laranjeira não prefere brincar! Ele até brinca pouco! Prefere é mesmo voar no entardecer! Prefere voar no enredor!
            Uma estudante para outra estudante, cabecinhas muito próximas, cochicho com murmúrio, vez ou outra tirando autorretrato:
            - Ele não se parece, pelo estilo e pela maneira de arriscar, com aquele escritor e poeta João Lispector?
            A outra estudante melhor amiga que ouviu, respondeu:
            - Então, é índio iuberi!
            Nesta hora é que o povo pensa com seus botões e seus estalidos bem junto do ouvido. Ou imagina que sabe ou que nunca saberá. Quem será mesmo este jovem cantor? Qual sua história dentro de outra história? De onde veio para chegar aqui em Ivy-Marae? Como pensa ou deixa de pensar os problemas do universo? Quem é o jovem encantador e poeta? Tem estrela ou é apenas muito comum? Será que é bom saber de onde ele veio? Ou ninguém tem nada com isso? Ou tanto faz como tanto fez?
            Pois o jovem pássaro poeta dos cabelos longos, escorridos, sempre se mostrando afoito nos gestos das mãos, nos gestos dos pés, nos gestos do corpo todo, veio de onde, veio de longe. Nasceu das águas de um rio, um rio tal de Dourado, que corre e mais adiante deságua no lago de Sobradinho, na cidade famosa e respeitada distante de nome batizada de Marzagão. Então, se diz logo que ele veio na chuva e foi na chuva e foi um acaso de origem na chuva. Este poeta voador é feito de água limpa da chuva.
            Pois o sabiá-laranjeira um dia se enamorou ainda na terra distante lá dele. Um dia se encantou por uma moça morena, no outro dia por uma loira, no outro ainda por uma negra de cabelo grosso. E depois quis ser peixe, quis ser coqueiro caraná, quis ser pedra solta, quis ser ave maguari. Quis correr o mundo em viagens. Um dia sonhou em morar naquela cidade de Muquém de São Francisco, depois na outra cidade de Passa-Vinte, e mais tarde já sonhava de novo morar naquela cidade de Ibiúna em o outro Estado. E até morou em Uruguaiana, Soure, Nova Venécia, Guaraci, Vermelho Novo, Remanso, Pedra, Barcarena. Isto antes de saber que Ivy-Marae existia e era uma doçura.
E viu que as cidades eram diferentes e muito bom morar nelas para conhecê-las e tratá-las e aperfeiçoá-las. Tinha saudades, para dizer tudo, das cidades onde jamais viveria, onde jamais poderia ter tempo de passear de conhecer. E queria ainda ser um pajé da tribo urumi ou tribo juruna e viver numa gruta com cascata sem tevê ou luz elétrica tipo assim na serra de São Geraldo. Viver nessa caverna ou itaóca só para estudar a sina dos fantasmas da tribo, e nas refeições comer raízes e folhas e mel de abelhas uruçu.
            O poeta, dos cabelos longos longos e soltos, se apaixonou por uma guria da cidade e percebeu que era correspondido. Isso ainda lá onde vivia na terra distante. O poeta se apaixonou mesmo e de fato e muito muito por uma cunhã da vizinha tribo guaianá e percebeu que não era correspondido de jeito nenhum. Ficou super indeciso entre amar a moça que gostava dele e amar a cunhantã que não gostava dele. Olhou bem e pensou por duas três noites.
Aí, decidiu amar muito a que não gostava dele. E passou a adorar muito mais a cunhantã que não gostava dele. Aparentemente essa índia era uma guria comum, o que para o poeta já era incomum fora do comum e rara.
            E o pássaro poeta não podia esquecer o amor impossível da garota que não o amava. Por quê? Porque ela tinha um sorriso super liso e quente. Como se o riso dela fosse de doce de caju em calda. Como se o riso dela fosse o mesmo que o rio Flexal correndo, ou chuva caindo, ou a ilha Carnapijó, ou tarde no pôr do sol, ou um peixe brilhado na luz do dia, ou uma vespa camoatim muito elegante, ou uma flor de guachamaca.
            É sim. Foi assim. O poeta iniciante tinha sempre os olhos e as ideias endereçadas para os impossíveis, para as borboletas pintadas de amarelo, de azul, de vermelho, de verde, de duas cores, etc, para as flores e as borboletas, para as coisas impossíveis, para as coisas móveis e difíceis. Queria mesmo viver no meio de coisas divinas e alcançar o inalcançável. Queria mesmo acordar e olhar as nuvens de cima. Queria mesmo tocar teclado na praia mais branca do rio das Garças. Queria ouvir as árvores conversando, as cores do dia nadando na luz azul. Queria ser deus e imortal.
            O poeta que nasceu para ser poeta, viu a palmeira bacabeira voar, o riacho subir a montanha, viu um arco-íris ficar rico contando moedas de ouro. E o poeta queria ver mesmo os impossíveis, a borboleta na flor, a zebelinha de guarda-sol-de-sapo, a passagem da noite para o dia. O poeta estava tonto de fantasias, só isso.
            E existe uma idade que as coisas todas acontecem sem que aconteçam.
            Ele procurava o respeito dos seus sonhos. O jovem tinha um sonho, muitos sonhos, todos os sonhos e que se resumiam num único sonho maior, e que era descobrir o poema mais perfeito para oferecer a sua amada. E queria viver de poesia. E queria tudo hoje.
            Ah, ele queria voar até o infinito... Olha!, e voar como nuvem, sem tocar a terra para nada, sem tocar as árvores para nada, sem se cansar. Voar com as asas invisíveis. E tocar violão no rochedo sobre as ondas da pororoca. E ter sempre uma poesia batendo na emoção, tum! tum! tum!...
            Espiava as flores, espiava, espiava as flores... E as flores se alarmavam. E as flores se coloriam em silêncio. Depois vinha, aparecia, e beijava as flores, beijava como um colibri.
            Numa manhã de ondas altas, surfando muito em ondas altas e tubos, o poeta jovem, ainda jovem, morreu sem mais aquela. Morreu comum.
            Então, o jovem poeta morreu jovem e sonhador. E chegou em Ivy-Marae na manhã seguinte. Tinha um poema no bolso, principalmente isso, descreveu:
            - O sabiá-laranjeira abre os braços! Quer abraçar a manhã a tarde e o começo da noite! Tem o dia todo para voar e se divertir!
            O lago da cidade de Ivy-Marae era sempre o seu lugar predileto. Fazer um barco a vela no papel de caderno onde tem escrito o poema. Gorjear sobre o lago, boiando no lago, molhar os versos no lago, navegar no lago e até nadar nas horas de mais calor.
            O poeta sempre preocupado. Caminhava preocupado, não dormia, muito preocupado. Ele ia pra lá e pra cá com um poema semiacabado no bolso da bermuda. Ele ia e voltava, parava e continuava, e olhava o poema, esperava o amanhecer louco por cantar os seus versos. Ele vinha, parava e olhava, esperava o entardecer para cantar e declamar. O poeta não pegou muito sol na cabeça, não. Ele sempre gostou mesmo era de ver coisas diferentes ou extravagantes ou mágicas ou azuis, sempre foi e nasceu assim. O sabiá-laranjeira não queria que o dia acabasse, mesmo ali em Ivy-Marae.
            - O sabiá-laranjeira chega cedo no dia seguinte no dia a dia! Assobia demoradamente convocando os amigos e as amigas e os concorretes! Depois diz que vai telefonar telefona e desaparece!
            E o mesmo poeta olhava a lua e respirava. Respirava todo o ar possível. Olhava a menina distraída e inspirava. Respirava todo o ar possível. Olhava a sua poesia ali na folha do caderno escolar e suspirava todo o ar. As andorinhas dando voltas e mais voltas no céu, era original. Não sabia dizer, embora, por que tanta andorinha desencontrada na estação. O poeta contava estrelas e não queria dormir. Sonhava sonhava mais acordado.
            O pássaro poeta, dos cabelos longos e dos cabelos escorridos, dos cabelos encaracolados, foi ao monte que avista toda a cidade de Ivy-Marae. Foi mesmo e decidido a colher flores ou poemas. Foi colher caminhos ou poemas. Foi colher borboletas ou poemas. Foi colher folhas ao vento ou poemas. Foi colher poemas vestidos de todo jeito. No campinho viu flores amarelas e cheirou perfumes doces.
Apesar de não ser nem dia longo, nem dia curto, e sim um dia como sempre, o dia estava no meio-dia de certo dia de quinta-feira em Ivy-Marae. O sol subiu bem alto no último degrau da escada do céu. Sombra quase não havia. O famoso poeta era muito jovem mesmo. E o poeta sabiá ainda não chegara ao topo do monte para aí mesmo sentar no chão e olhar a paisagem descortinada aos seus pés.
      Ele estava vendo querendo ver o começo de tudo o início do mundo. Pensou um pouco. Começar o mundo tudo e de novo era fácil, mas de que jeito? Uma árvore é assim como uma camajandura. Um bicho é assim como um mucura. Uma ave é assim como uma jacamim.
                                                                       ***
            Caúna estava na praça Triangular, uma tarde dessas. Então, apareceu o Cacique. Vinha passeando, ocupando o tempo, pedalando, se exercitando, conduzindo a magrela, o cocar muito alto na cabeça de negros cabelos.
            Na rua muitas cores boas de se olhar. Passava família de irara, passavam embrulhos presentes ofertas de natal, passavam alunos com mochila, passavam automóveis verdes ou vermelhos, passavam meninas com sorvete e falando ao telefone, passavam emas e seus filhotinhos seguindo em fila indiana, passavam abelhas e vespas, passavam lambaris e cascudos e traíras, passavam coisas que ninguém esperava, passava família de capincho e capivara. No céu para o sudeste iam nuvens acolchoadas.
Era o próprio Cacique. O Cacique em pessoa e cocar de penas de aves raras. A tarde começando, sol alto e forte, quatorze horas. E o Cacique parou a bicicleta, sem apear, apoiou um pé no chão, e falou:
            - Moça Caúna! Você não quer ser minha filha, ser uma cunhantã?
            A moça, pega de surpresa, replicou:
            - Assim, de repente? Assim, de presente? Assim, por essa hora?
            - É. E tem mais. Depois que os anjos verdes me levarem para o céu dos setecentos e setenta e sete céus, você cuidará da região toda e tudo que há dentro da reserva indígena campé.
            - Hum... É uma ideia, não é?!
            - Então, chega mais lá na aldeia da tribo. Quando quiser. Hoje mesmo.
                                                                       ***
            O Jabuti será mais um personagem que tocou vir para Ivy-Marae. Principalmente esperar em Ivy-Marae até subir aos sete sete sete céus. Mas antes de chegar à cidade de Ivy-Marae, Jabuti remou muito e era e foi um assim apresentável apresentado.
            Quelônio poderia ser chamado de Jabuti, pois ele já se acostumara e não se importava. Nasceu ali onde não existe rio, estrada de ferro, mar ou aeroporto. Na infância cometeu alguns crimes de natureza, tipo: pescar, caçar passarinho, brincar de esconder no mercado Ver-O-Peso, e fazer açude para tomar banho no verão. Brincava de namoro, de namoradas... Namorou sombra de pedra, depois namorou pedras, depois ainda namorou gabiroba, namorou toda a família da lua a lua cheia a lua nova a lua minguante, namorou fortaleza de São José do Macapá, namorou uvaia, namorou gogoia, namorou amapola.
            Então, a vida de Jabuti deu um pulo de alguns anos. Jabuti era jovem e não gostava de trabalhar no pesado. Assim sua família achou melhor mandá-lo estudar com as tias e os tios tigres-d’água lá na ilha do Bananal. Ele foi mesmo. Mesmo sabendo que lá não podia ver e ouvir namorada nenhuma. Foi talvez mais de teimoso e arrogante. E ele foi mesmo assim. Antes de ir, ele, o Jabuti, disse a sua família:
            - Se eu não gostar eu volto, falou?! Se não for uma alegria total e universal, eu volto, é!
            Era isso mesmo. Pois foi como foi. E então ele foi de uma vez para o colégio na ilha do Bananal. Não gostou e ficou assim mesmo de teimoso e orgulhoso. O lugar bem perto de São Domingos do Sul e do teatro da Paz. Pois este convento estava instalado no alto de um rochedo que sumia entre as árvores e as nuvens.
Para chegar no alto havia de subir por um paredão que assustava até passarinho. Só se subia ali puxado por cordas, como alpinista. Ou por imenso guindaste, que não havia. E ele subiu. Ou elevador que ainda não havia sido inventado nem pelo homem nem por Deus. E o Jabuti escalou o paredão da altura de um prédio de cinquenta e nove andares. Teve medo de subir, se arrastou, se raspou, se esfolou em carne viva e subiu. Nem olhou para baixo com terror de cair. O paredão era tão alto que parecia uma fortaleza de oitenta e dois andares. Teve receio de descer, queria cair, e não desceu. Para descer só fazendo rapel ou asa-delta ou suicídio.  
Subiu por etapas, durante os doze ou treze dias. De noite parava para dormir. Parava porque não via por onde subir. E olhava as estrelas, quando havia estrelas. A lua, por exemplo, quando havia lua, ficava sempre cada vez mais e mais perto. Era tudo deslumbrante e assustador. O alto recamado de estrelas naturais, o chão recamado de estrelas artificiais luzes das cidades distantes.
No verão de 2014, ele chegou ao famoso e altíssimo convento. Uma construção de pedra. Uma fortaleza das muito antigas e só de pedra. As pessoas os monges muito parados o aguardavam, o receberam o abraçaram.
            O colégio convento era quieto e isolado do mundo. Assim tinha de ser. O convento era escuro e frio e feito de pura pedra basalto. Assim tinha de ser. O convento era o maior deserto. Assim tinha de ser. O convento era a maior perda de tempo e de ânimo. Assim tinha de ser. O convento era labirinto perigoso. O convento sofria com ventos fortes dos quatro cantos do mundo. O convento era uma geladeira no inverno e uma fornalha no verão. Assim tinha de ser. O convento estava a meio quilômetro do nascer da lua. E Jabuti, então, se desafiou, se comprometeu, desabafou, prometeu:
            - Eu mereço.
            No estreito e seco e pedregoso terreno do penhasco do convento, os monges professores, entre eles o valoroso e novato Jabuti, plantavam abóboras, araticuns-do-morro, ararutas, canas-bravas, galinhas, cabritos, melancias, jabuticabeiras, pitangueiras, abacaxizeiros, cajaranas, jaborandis-do-mato, abutuas, avencões-da-serra, mel de abelhas aramá. Nos dias santos não faziam festas nem convidavam ninguém. Sem dúvidas um mundo isolado e neutro. Uma ilha perto perto das nuvens.
            Jabuti ficou no colégio de pedra desde sua verde adolescência passando pela juventude até sua pálida morte aos cinquenta e cinco anos. Suas últimas palavras no mundo dos mortais, foram:
            - Eu vou... Vou com v-o-u...
O quelônio nunca mais pôde sair do convento e vir passear no mundo aqui onde morava seus familiares. Para nada. Nunca mais desceu da montanha nunca mais saiu do convento edificado no alto do penhasco. Para nada.
Jabuti morreu... (Pausa. Silêncio. Mas por pouco.) E foi enterrado no cemitério do colégio. Num dia com vista para o céu de nuvens brancas. Para nada.
Ele foi plantado no jardim do convento. Morreu de velho e de tanto rezar. Convento esse que ficava no alto do perau mais alto da região de Itamonte. Nem gavião-de-penacho tinha forças para subir no ar até aquela altura. O perau onde ficava o colégio era muito alto, passava das altas árvores, empatava com as nuvens, ficava a dois quarteirões da lua nova.
            Depois de morto e enterrado... não, depois de morto e antes de ser enterrado, Jabuti desceu o perau e veio. Jabuti ressuscitou? Jabuti pegou uma trilha para andar. Escolheu um rumo e uma estrada e caminhou no meio da neblina. Na verdade não era o Jabuti em pessoa, era o seu espírito em fumaça. Era um Jabuti reformado para uma segunda viagem, uma segunda estadia, uma segunda fase, um segundo problema, um segundo plano.
Jabuti ressuscitara? Não, e explico. Jabuti teve mais uma chance, seu espírito teve mais uma fase. E era só o que faltava.
E o espírito de Jabuti, já se sabe, queria chegar mesmo era em Ivy-Marae. Essa Ivy-Marae onde as almas realizam uma parada antes de subir aos céus. E chegaria um dia a Ivy-Marae para esperar o chamado do céu, sempre andando leve e lentamente. Andando como quelônio, andando leve ou flutuando.
                                                                       ***
  Já, agora, nesse instante, Hipocampo visitava em casa de sua mais querida, e recente, muito amiga, a Lilás. Preguiçoso numa rede, na varanda. Perdido de olhos na paisagem, por ali. A parte da tarde, mas poderia ter sido pela manhã, ou uma coisa e outra.
Hipocampo sonhava acordado que ainda vivia de molho, ou seja, que ainda vivia nas águas turmalinas do oceano Atlântico, do mangue, no ar da água do mar salgado e se alimentando de deliciosas fuligens de algas marinhas.
Uma tesoureira com cauda comprida em forma de tesoura, cabeça preta, costas cinzas e barriga branca, crista na cabeça, cantava estrilava, ali de sentinela no alto da guaricanga-de-bengala, verberou:
- Cavalo-marinho! Dança no terreiro! Que o dono da casa! Tem muito pagodeiro!
Depois, Hipocampo balançou o corpo, saiu da sonolência e entrou para dentro da casa, procurando por Lilás:
- L-li-lás!... Onde tá tu?!
A menina surgiu ali, quase preocupada, mas interessada em atender prontamente ao amigo, atalhou.
- Tô aqui. Qual é o galho?
- Ah, nada! Vamos dar um rolê?
- Hum... Vamos. Onde?
- Não sei, por aí. Reconhecer a cidade. Desfiar as ruas da cidade. Contar os pormenores da cidade.
O cavalo-marinho olhou em volta, a decoração da sala de estar, os móveis, os quadros da parede, etc, perguntou:
- Olhe! É uma coleção de xícaras?
- Compramos numa feira de artesanato em Pedra Branca do Amapari. Gostou? Quer tomar um chá ou café?
- Pode ser.
- Tenho chá de camomila, chá de folha de laranjeira, etc, café paulista, café paraná, café capixaba, que você prefere?
- Se não importa prefiro... café mineiro, como você esqueceu.
Tomaram o café, apreciaram, cheiraram o aroma claro do café, pegaram uns biscoitos de polvilho, um pedaço de cuca, trocaram ideias vãs. Lilás convidou, então, o amigo para conhecer outros lugares pitorescos da cidadezinha quase espiritual.
- Vamos de uma vez.
Ivy-Marae já se sabe, é muito boa, um lugar escolhido por natureza, terra do tudo, cidade sonhada, a chuva cai no meio do mato e faz crescer tudo verde. Um lugar ótimo e aromático. Aí, entram todos os tipos de seres, os elementos, o sol, a água, etc, as pedras, as plantas, os bichos, os homens, as mulheres, as crianças, os sacis e os santos. Cidadezinha de bom ar, de paisagens para cartões-postais, de bom caráter, de passarinhos, de ruas calmas e arborizadas de plantas ornamentais, caju-bravo, urundeúva, alecrim-do-campo, aroeira-vermelha, manacá-açu, sensitiva, caçaú, mucunã, jarana, de praças com bancos na sombra, de casas ecumênicas que se prestam para todo tipo de oração que se quer.
Ivy-Marae é cidadezinha misturada de tempos em tempos, além do horizonte das montanhas azuis, um paraíso ou mesmo um lugar divino e lento, muito len-to, len-ta-men-te. Ivy-Marae é tão diferente e ótima que praticamente só existe nos encantos. Ruas ótimas com jacarandás azuis ou lilases nas calçadas. Praça Triangular com discoporto e sombra de umbu, guabiju, grápia, capororoca, guamirim, angico e mais.
Os pássaros e as flores dão ao ar um som e umas cores sempre de primavera mesmo na primavera. As cores e os perfumes mais esperados, mais escolhidos, mais recolhidos, mais separados, dão um tonteamento fantasioso. Andorinhas craques em movimentos vão sacudidas pelo espaço em voos rasantes voos em ziguezagues voos acrobáticos.
Disse Lilás ao Hipocampo, debaixo de um dezembro comum e ideal:
- Vou te mostrar a pedra da cidade, um monumento, uma pedra perfeita vinda do espaço, e que desperta curiosidades, e desperta energias positivas. Venha comigo. É lá no espaço do Jardim Botânico.
Foram para o tal lugar até alcançar a tal pedra espacial, mas sem pressa, chegando na hora. O dia estava bonito, todo em fatia, lindo, como melancia.
- Pronto, aí está, a pedra.
- Mas é muito incomum, gigantesca! Como veio parar aqui? Muito me admiro! Voando? Caindo? Se chocando?
- Chegou de surpresa atirada do espaço. Talvez da estrela Antares. Quer saber o nome dela, da pedra?
- Diga.
- É pedra Amajá.
- Magnífica! Traz consequências? Tem poderes?
- Oh, e muitos e especiais! Não tem cheiro, dá um astral muito bom só chegando perto. É a pedra Amajá, que já diz tudo.
Foram chegando bem próximos da pedra e Hipocampo estendeu a barbatana, tocando Amajá! Primeiro devagar, lentamente, depois com mais confiança. E empurrou o maciço.
- E daí?
- Oh, já me sinto outro cavalo-marinho. Muito bom e muito bem. Meus músculos já se sentiram dominantes.
Lilás e Hipocampo se dirigiram depois à chapada dos dinossauros. Queriam ver o dino encontrado a pouco e que levava já o nome de Sacissauro. Até chegar ao museu dos pré-históricos, a cidade de Ivy-Marae ainda fervia de soluções ótimas, lugares verdes, recantos ótimos, ilhas flutuantes, casas com jardins suspensos, avenidas com plantas da Amazônia, fava-contra, pitomba-de-macaco, jacarandá-preto, vinhático-testa-de-boi, umari, morcegueira. Os pássaros cantavam e os bem-te-vis cantavam e os canários-da-terra cantavam, e a família de pacas passeava solta e sem pressa.
E pela rua muito movimento. Passava bonde, passava trem, passava carroça, passava auto de Salinópolis, passava um com tudo, passava canguçu, passava caapiá-da-lagoa-santa, passavam taquaruçus, passava marreca-caneleira, passava nada mais e nada menos, passava mesmo.
                                                                       ***
            O cachorrinho andava vagando livre, também leve e solto, pelas ruas organizadas da cidade sonhada. Toda casa era bem pintada e tinha um pequeno jardim na frente. Raros e baixos os edifícios. Quando não tinha jardim tinha árvore frondosa. Ele, o cachorrinho, já praticamente conhecia a cidade de Ivy-Marae, e seus habitantes, como a palma da sua patinha. Mas tinha um porém, muito importante ou não.
            Era que o cãozinho se sentia, na maioria das vezes, sozinho e abandonado sem dono fixo. Ele via e reconhecia que os outros cães tinham dono ou chefe e uma vida mais sossegada ou organizada ou bem acompanhada, e ele não. Assim, então, se perguntou e se perguntava seguidamente sempre cheirando um rastro qualquer:
            - Por que não devo ter um amigo humano? Seria bom? Seria legal? Seria loucura?  Seria perder minha própria liberdade? Seria ganhar segurança?
            Era isso, o cãozinho queria latir para alguém que fosse ao mesmo tempo amigo e preocupado com a sua saúde. Aí, o cachorrinho se sentou na calçada e pensou:
            - Seria bom ter um amigo ou amiga humano? Pois quem poderia me dar um bom banho a cada quinze dias? Quem me acompanharia nos passeios pela praça Triangular? Quem passearia comigo pelo parque do lago? Quem me daria um nome e me chamaria pelo nome? Quem prepararia minha refeição enquanto eu tirava um cochilo ou assistia tevê? A quem eu levantaria as orelhas? Quem conversaria comigo coisas sem importância?
            Depois o cãozinho seguiu caminhando e olhando em torno de si, farejando com profundo interesse tudo que encontrava ou achava que encontrava. Viu a sombra da árvore iricurana e se deitou. Parecia rir de boca aberta, a língua pendente do lado, mas estava apenas respirando acelerado e suando muito pela boca. Ali deitado, pacífico, visualizando tudo em volta, escutando tudo que havia, sem saber se tinha corpo e alma ou alma sem corpo ou não, farejando, começou a pensar e a resmungar:
            - Se eu tivesse um amigo ou dono, eu não precisaria me preocupar com cada café da manhã, cada almoço, cada jantar, cada lugar para dormir... É, o dono ou chefe me arrumaria comida boa e de primeira, e me dispensaria carinho. De repente eu poderia até casar e ter filhos sem correr o risco de ficar pobre. Poderíamos nós dois, eu e meu chefe ou chefa, passear no parque do lago para olhar o dia bom que faz. Eu gosto de passear no lago, eu gosto de olhar o lago, eu gosto de pisar na água rasa do lago, eu até gosto de nadar no lago. Não só gosto como acho engraçado. Mas gosto mais de companhia.
            Pois era a pura verdade, dava para dizer. Se o cachorrinho arranjasse um bom amigo ou amiga, não necessitaria virar latas de lixo para farejar o seu almoço. Nem precisaria pedir esmolas nas portas dos mercados. Nem precisaria pedir esmolas nas portas das padarias. Nem correr para uma marquise toda vez que trovejasse e chovesse. E poderia andar de canoa no lago sem precisar remar.
            Ainda deitado na sombra da árvore na praça Triangular, o guaipequinha viu uma gaivota circular, girar, passear no espaço, contornar a lagoa, etc, e pousar na janela aberta da casa de vidro do Jardim Botânico. E o cãozinho nem chegou a sentir desejo de voar, o que era muito importante dizer. O totó não queria tudo na vida, só um pouco de segurança e certeza na hora do almoçar e do jantar.
            A verdade mais profunda era que o cãozinho nunca teve amigos ou amigas humanos. E aí já está uma curiosidade das grandes. Por isso que nem nome tinha. Que nome poderia ter se ninguém lhe dirigia a palavra? Queria muito, no fundo, ter essa experiência.
            E o vira-latinha estava ali era na sombra da árvore guabiju, e pensando em ter um amigo humano bípede. Não um amigo ou amiga que fosse quadrúpede, ou de uma perna só como um saci ou uma árvore, nem bípede de asas, mas um bípede que falasse e lhe pudesse fazer cócegas na barriga com as duas mãos.
                                                                       ***
            Aconteceu um forró, um pagode, uma congada, um fandango, um arrasta-pé... E isso se deu mesmo no pátio do palácio de vidro do Jardim Botânico. Foi o Cacique que promoveu. E veio o povo todo, faz favor!
            Portanto, todo o mundo dançava já despreocupado e bagunceiro. Eduardinho, por exemplo, olhava o forrobodó com receio e curiosidade de iniciante. A Caúna o convidou então para a dança, a fim de quebrar o gelo do bom garoto. E os dois saíram saracoteando no meio do tumulto. Edinho ficou meio pateta e brincando a valer. Edu queria falar tudo, mas não lembrava o quê. E não queria parar de dançar, porque se parasse o mundo acabaria. Mas pensou para si mesmo em voz alta:
            - Não, eu já tenho muita sorte mesmo!
            Era forró, era boi-bumbá, era pagode, era bugiu, era iê-iê-iê!... e parecia mesmo carnaval. Depois a Rê quis tirar o Eduardinho para dançar e o convidou. Ela tinha o cabelo assim... como se diz?, todo frocado ou flocado, macio como pluma e cheirando à flor de goiaba-do-mato em flor. Eduardinho ficou pateta, queria falar um montão de coisas boas para a menina ouvir, para a menina rir, mas não sabia o quê. Pensava até em estar sonhando, mas não queria ser beliscado. Não perdeu o pique, e disse para si mesmo, só para si mesmo e muito só em pensamento quietinho, o queixo no ombro da menina, falou:
            - Não, eu já tenho muita sorte mesmo!
            Queria ser gentil e conversador, mas não sabia lembrar o quê. Toda vez que queria falar alguma coisa para a guria, esquecia o que precisava dizer ou não sabia se era realmente engraçado. Começava e não lembrava como continuar. E pensou alto para si mesmo, somente para si mesmo, mas um pouco alto demais, e disse:
            - Não, eu já tenho muita sorte mesmo!
            O povo apontou para o oco do céu, os outros apontaram também e imediatamente para o alto, Rê apontou para o alto, Lilás apontou para o alto, Eduardinho apontou para as alturas, uma corruíra marrom com asas e cauda barrada também apontou para o alto. No alto flanava uma nave redonda e elétrica. Ou seria um meteoro? Ou seria uma ilusão de ótica? Ou seria uma cor? Ou seria uma mancha de luz? E a nave chegava agora à altura das nuvens brancas. Seriam os anjos verdes e astronautas?      

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

No Devido Tempo


 

 
        O bairro já estava acordado, menos eu.

       Pelo sim pelo não mais ou menos e não mais que isso mesmo, abri os olhos de uma vez e já bem provocado pelas muitas bombas a propósito do dia comemorativo. Mas ainda relutei me perdi fingi me virando e me revirando na cama. Segurei a cabeça com ambas as mãos e preguiça e bocejos e ponderações. Já não tinha mais sonhos quando alvitrei:

       - Quem sabe o dia não me espera para um dia sem igual!

       Cada manhã é um novo mundo e outra pessoa que aparece no meu lugar no mesmo lugar.

       Forte pensei decidi falei comigo:

       - Vou pular da cama e como.

       Olhei pela janela, o sol dardejante, os caminhões em fila indiana prontos para a bênção do santo, as pancadas manchando os ouvidos e o anil do céu. Em vinte minutos pensei nos meus pés nas minhas mãos nas partes todas componentes, etc.

       Fui para fora porque o rebuliço festivo me chamava me convocava me arrastava me dizia me queria, o esquisito berro dos caminhões, a estralada dos rojões, o juncar de gente domingueira na capelinha do aniversariante em o vinte e cinco de julho, o tempo bom sem muito frio, os pichororés, os curutiés, os canários-do-chão, as patativas, os azulões, as nhandaias, os joões-xiquexiques, as cancãs, rimavam:

       - Já não é sem tempo!!!

       O sol brilhava e inundava tudo. O rio se exercitava para o futuro, a árvore, o pássaro, o sol, o rio e tudo mais. O sol brilhava sobre tudo mais.

       Por que apelar em Deus se tudo isso já existe.

       Eu queria ser um elefante para aparecer e andar no meio do povo.

       O vento moderado sacudia os galhos e folhas fazendo ouvir o retinir das folhas das carandaís, o piar das cuaxingubas, o rir das quataquiçauas, o falar das juapocas, o burburinhar das guapebas-vermelhas, o murmurar das pitombeiras, o bulhar dos gervões-cheirosos, o pregar das tipis-açus.

       Tudo isso eu via, tudo eu ouvia. Deus brincava de diversidade de universidade e estava feliz com o gênero humano e outros. Eu vinha depois de Deus, muito depois e bípede pedestre, mas e disposto a tudo.

       A festa do santo era o acontecimento do mundo. A festa acontecia no mundo todo.

       Tatalar de asas, sabiá-ferreiro, saíra-de-papo-preto, tuim, azulinho-do-sul, safira-de-garganta-azul, cordão-de-frade, bacuri, farinha-seca. O dia estava muito engraçado, faz favor!

       Era coisa mais natural do mundo, o céu de uma só cor azul e ausência total de peixes.

       Logo me enturmei, até porque o bairro São Cristóvão em peso estava ali e se mexendo e se encontrando e se achando. O alto-falante cantava tão alterado que era impossível não irritar as lavadeiras-de-cabeça-branca. As meninas vendiam santinhos para colar no para-brisa ou fitinhas com alfinete para prender no peito da camisa.

       O dia liso alto espelhante de muita luz distribuída entre as cores normais.

       E o que é que me faltava.

       São Cristóvão passou no meio do buzinaço, com foguetório retumbante, gigante com menininho Jesus nos ombros, todo decorado de flores e frutas da época, bandeirinhas e fitas de papéis coloridos, ramos e folhas de mucaiás. Foi aplaudido e vivado pela rua pelas ruas que partiu do capitel e até o salão de festas do outro lado do rio Retiro. O povo acreditava que o mito do santo ajudava os viajantes devotos.

       Debaixo das árvores nas sombras aveludadas das cupuaçuranas, o churrasco do meio-dia, o pão caseiro, a salada de batata, a melancia fatiada, as compotas, a família em volta da toalha xadrez estendida, os bordados das conversas as parábolas dos gestos os compassos dos risos as exclamações dos gargarejos os incontidos dos regozijos, os bichos do mato na espreita de marimbondos-tatus, macaúbas, mucuras, mapatis, curicas, cássias-das-antilhas, angicos-vermelhos, catirumbavas, avencas-de-folha-miúda.

       E no dia todo festivo, ainda falei com as primas todas que não me escondiam nada. Andavam pela festa sempre juntas as três em trio abraçadas e risonhas e debochadas. Emparelhadas não queriam saber de empatar comigo. Separadas eram impossíveis um amor atrás do outro.

       A Maria Helena de olhos azuis como o céu na manhã de aniversário do santo. A Alice brincando com a trancinha de cabelo última moda delicada caindo no rosto que ela achou fazer para aquele dia e todos elogiaram. A Ana Paula com seu jeito conformado com seu jeito reparado com seu jeito parecido. Talvez fossem melhor assim!

       O céu branco, duas nuvens, vento muito calmo e passando, cinco seis dez doze curicacas grasnando pelo alto dos tantos pinheiros-do-paraná, pessoas rindo sem assunto nas sombras dos biribás, músicas estridentes vertiginosas, menino andando com refrigerante, raças de automóveis pegando fogo sob o sol, menina andando com sorvete duas bolas coloridas, e era bom sem fazer nada. Borboletas diversas dispersas tolerantes se engraçando com as cores vivas dos vestidos floridos.

       Eu vi Deus e vi Raquel.

       Gostei que Raquel prendesse mais fitinhas de brinde no meu peito de camisa. Virara destaque entre os guris ter duas três ou quatro das fitinhas de cores.

       Olhei nos seus olhos e a guria gentil me sorriu. Ficamos amigos. Foi para lá e já voltou. Sentamos lado a lado, nos emparelhamos nas brincadeiras, nos tocamos com os cotovelos das asas. Fui e fiz  uma volta para retornar. Não me cansava de olhar para ela. Sem obrigação de nada.

       Raquel tinha todos os olhos meus.

       Uma aquela enorme vontade de olhá-la, a cara de menina petulante com cabelos de sempre nos olhos, incomparável bonita de qualquer jeito, os enfeites combinando, o perfume de flor de cipozinho-do-campo, etc.

       Olhava para as pessoas e as pessoas gostavam dela.

       E o andar o passo bonito sem exagero cheia de si elegante.

       O nome das estrelas todas, dos pássaros, dos peixes, das plantas todas.

       Ela falava de uma coisa e eu sempre achava as mil e uma maravilhas:

       "Era uma vez uma formiguinha das perninhas agitadas chegando a um ponto da rua Apicum, em Cururupu. Ela viu uma pessoa senhora com sacola vermelha no ombro e perguntou:

       - A senhora me responde?

       - O que eu puder.

       - Onde fica a padaria mais açucarada?

       Lá para lá foi a formiga-caiapó caprichosa intrépida sistemática de tenaz vibrante e antenas eletrizadas."

       Raquel que me contava um caso e eu aumentava para mais de mil pontos:

       "Era uma vez que eu estava de visita na casa do meu tio minha tia minhas primas, etc., em Erechim. Naquele dia pousava ali num terreno baldio um circo com lona listrada de azul e de amarelo. Fui até lá porque queria ver de perto.

       O cachorro Sarandi - satisfeito mascote das primas -, me perguntou, orelhas altas, cauda vibrante e língua de fora:

       - Pra onde tu vai, prima. Posso.

       Eu deixei bem claro pra ele que não era pessoal, pelo contrário, era animal:

       - Não posso te levar porque vai dar bagunça e o circo pega fogo.

       Fui desacompanhada, boné virado o contrário e em dois passos atravessei a rua Flores da Cunha. Tinha sol e um bando de corrupiões no café da manhã entre as tenras e vergadas hastes do capim-cheiroso.

       O circo era argentino e tinha nome italiano. Andei no meio do acampamento, olhando os trabalhos, espiando os bichos sensacionais e exóticos, as girafas, os leões, as zebras, as renas, os pôneis, as avestruzes, os babuínos... e parei diante de um urso-de-óculos enjaulado. Ele fazia assim... se mexendo de um lado pra outro... como papagaio no poleiro como coruja no galho como pêndulo de relógio de pêndulo. Fiquei intrigada e olhando aquele modo. Ele até parecia não me ver nem estar aí nem nada. Tive de perguntar e indaguei:

       - Por que você não para de balançar pros lados. Tá maluco.

       O urso-de-óculos agora me sintonizou de repente me reparou me focou me fitou de súbito e, mesmo continuando a se gangorrar, respondeu:

       - Yo no hablo brasileño.

       Encontrei por um acaso meu tio espionando o preparo a armação das tendas do picadeiro das arquibancadas de madeira o estender da lona gigante, etc. Confessei que vira um urso-de-óculos e todo desequilibrado lá dentro de uma jaula:

       - É que prometeram a ela um namorado e até hoje, paciência.

       De noite no meu quarto eu fiquei pensando na sorte de pertencer a um circo itinerante e viajar o mundo, os palhaços, os anões, os trapezistas, os tigres de bengala, o distante namorado da ursa-de-óculos, etc. Sonhei que os bichos derrubaram a cerca e invadiram o centro da cidade e chegaram camelo dromedário lhama vicunha guanaco alpaca até a praça da Bandeira pra tomar água no chafariz dos atônitos peixes vermelhos e amarelos."

       Um dia nos encontramos de novo comigo com ela nós eu e  Raquel.

       Um sonho que se repetiu.

       Era um sonho que se realizava.

       Esse puro acontecimento no acaso de nossos humildes dias, que Deus quis assim.

       Depois de dez anos longe um do outro.

       Eu ouvi o silêncio e vi Raquel.

       Num supermercado da cidade de Araripe - por que uma cidade cearense tão inusitada e que coincidência. Os olhos dela sorrindo. Muitos anos depois... aqueles dez anos todos em pós...

       Ela me falou, simpática acolhedora e com voz repassada de emoção:

       - Ah!... Eu que já pensava ter me esquecido de você.

       Eu falei:

       - Quando se quer muito, não se consegue nada. Isso é muito bem feito.

       Ela me contou que cada cidade tinha um rio e uma tribo indígena preparada para contar façanhas pitorescas:

       - Tipo assim, Pirapemas e rio Itanhaém e tribo dos pocheti.

       Eu retruquei:

       - O mundo começa na terra.

       Ela continuou, a voz plana:

       - Se acostumar com um lugar, porque cada lugar tem seus demais a mais.

       Eu perguntei curioso:

       - Dê outro exemplo de viagem ao sem fim.

       Ela exemplificou:

       - Andei pela rua Igaci a praça General Osório a cidade de Serra Branca.

       Eu incentivei:

       - Já se falava em fim de mundo.

       Ela prosseguiu:

       - Você duvida de alguma coisa.

       Eu inventei na hora:

       - Gostaria de visitar o parque Serrinha do Alambari.

       O tempo ou o rio foi passando. O santo gigante cruzando o rio, também os devotos de pés descalços. Os relógios buscando sem parar os tique-taques. Vestido de pelego, cajado na mão esquerda para sondar cauteloso as pedras do rio, o menino no ombro direito cada passo mais pesado, a auréola na cabeça. As pessoas ali brincando de festa de santo padroeiro.

       De tarde mudou o tempo. Mudou o vento. Muda o vento e muda tudo.

       Os pássaros sabem olhar o tempo e pararam de cantar. Os foguetes explodindo intermitentemente. Os meninos correndo entre os autos. Tudo em volta lembrava aos garotos as coisas divertidas as brincadeiras e as correrias.

       Quem sabia olhar o tempo.

       Sinais de chuva. O mundo estava para acabar. O vento soprando o tope das almecegueiras.

       Era ver e sentir e esperar que ia chover.

       Raquel me ouvia me lia me enfeitiçava com seu monte de cabelos, os gritos e berros da tômbola em sorteios de prendas na outra ponta da dimensão surrealista, o rabo de cavalo atirado para as costas ou caído para a frente no ombro direito esquerdo, as unhas pintadas de desenho, e eu falei:

       - Uma vez comecei a gostar de chuva e ainda gosto de ver chover.

       Ela me passou:

       - Não é só você que gosta de chuva e sempre gostou, pois todo mundo gosta de ver a água cachoeirar do céu.

       Botei a mão no seu rosto para sentir a febre se estava febril, e seus olhos saltaram como de boneca com olhos de botão pularam de verdade arredondaram dois lagos claros de luas perplexas.

       Ela me disse:

       - Você prefere ver o mar todos os dias.

       Eu tinha o que dizer:

       - Prefiro ver o mar as árvores o trem a montanha, no mínimo.

       A calma parecia ter parado o tempo e ia chover, choveu.

       Depois de parar a festa de parar a chuva, a lua apareceu no céu na terra e, acompanhada de estrelas e meteoros e discos voadores, se refletiu como fogo faíscas nas poças de água.

       Eu pensei alguma coisa assim rapidamente enquanto nos falávamos, o supermercado me confundia um pouco, mas não disse o que pensava, disse o que revelei.

       - Quando foi que segurei a sua mão. Acho que todas as vezes. Sempre nos encontramos de vez em quando naquela manhã de festa. Quando te revejo agora pela primeira vez.

       Ela me confessou:

       - Tudo que acontece comigo é sempre engraçado.

       Eu repassei:

       - E hoje não termina nunca.

       As duas pessoas que um dia se cruzam novamente em uma data qualquer num lugar e escrito com pena de ouro e ponta de diamante nos alfarrábios das estrelas. Naquele momento Raquel estava vestida assim.

       Ela me contou:

       - Passeei por onde fui. O que vi e tomei nota. Tinha o mar e o litoral, o rio e os barcos, os animais e as árvores da floresta, arauá e gavião e nambiquara-do-sul e oro-uim contando lendas de árvores se mexendo, ponte sobre o rio do Sono, a praça  Sarnambi nos dias de semana, baía de São Marcos, serra dos Carajás, figuras rupestres em Itajobi, o parque Marinha do Brasil nos feriados de manhã de sol. Assim, um labirinto.   

       A luz dos olhos dela estavam iguais na minha memória. Os olhos negros brilhantes e assaltados. A festa o supermercado estavam muito mais interessantes e nem existiam. E o olhar e o sorriso sempre o primeiro do dia. Olhos úmidos e cintilantes que não se fixavam em nada e procuravam curiosos por tudo. Os olhos se perdiam dos olhos do sorriso dos cabelos das palavras, etc.

       Eu sabia o que queria, não sabia o que fazer.

       Então, era como aquele vinte e cinco de julho, eu ainda com vontade de sacudi-la como se sacode uma árvore frutífera, continuei:

       - A sexta-feira é meu dia de sorte.

       Ela falou:

       - Eu gostaria de participar de tudo. Que acha.

       Eu respondi:

       - Não posso ver tudo.

       Ela completou:

       - Nem posso mais mudar.

       Aceitar apenas os fatos narrados.

       Aqueles olhos começaram no infinito e vinham pelo universo. Estrelas cadentes, espaçonaves brilhantes. Aqueles olhos iniciaram em mim e iam pelo universo.

       Os olhos deslizando pelos quatro escaninhos do tempo.

       Era o olhar, mais uma vez eram os olhos. Mas com o sorriso dava para ver tudo muito mais claro e amplo.

       Eu argumentei:

       - Acho que a gente muda para a mesma coisa.

       Ela falou:

       - E todo o resto e tudo o mais.

       Eu fui em frente:

       - Por que você pinta ao redor dos olhos ressaltando a profundidade do olhar.

       Ela aumentou minha saudade dos lugares por onde passou:

       - Eu estava em União, viajei para Acarape, parei seis meses em Viana às margens do rio Anil. Acordei num quarto de hotel em Barbacena relembrando o sonho. O sonho se passava em outro lugar em Rio Claro, Avaré, Cachoeira Paulista ou ilha da Trindade. E voltei a dormir.

       Rimos pelo mesmo motivo. Nos olhamos de cima abaixo ao mesmo tempo.

       Eu provoquei:

       - O rio Jurema inaugurou a tribo dos anapuru.

       Ela tergiversou:

       - Em Mangaratiba muitos baús de piratas no fundo do mar Atlântico.

       Eu voltei:

       - Eu queria plantar árvores no quintal, imburi, mangabeira, limão-do-mato, folha-santa, embaúba.

       Ela corrigiu:

       - Como criança que quer só comer chocolate sorvete pipoca quindim.

       Os olhos os olhos cheios de sonhos, então, o pensamento o pensamento não se definia por essa ou aquela entre mil coisas.

       Pegou minha mão e disse:

       - Sinta minha emo.

       Ficamos nos olhando em que festa de aniversário de santo em que supermercado de cidade escolhida. Era impossível.

       O vento nervoso remexia as sipaúbas da cidade. Começara a chover.

       De novo como a primeira vez.

       Não pensei nada ou ainda milhões de coisas.

       E fiquei assim, empurrado para um planeta de que tipo e longe entre o céu e a terra.