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sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Aline de irrefragável (romance) - capítulo 6




Gliptodonte ou coisa que o valha e que o confere e que o dedique. Ele está ali dormindo parecendo e faz um minuto. Então se assusta acorda e parece despertar para um domingo de manhã. As orelhas pequenas o focinho de pelos longos apontando todas as direções. Fica se olhando se comparando se medindo ao espelho, vis-à-vis. Bicho razoável e cordial. Com certeza vai passear pela à beira-mar. Praça do Bombeiro, rua Carolina Maria de Jesus. Quer urgente consultar uma especialista otorrinolaringologista. O quiosque que vende lanches e cervejas. Seria o mesmo dos tempos idos e vividos? Nem pode ser. Claro... que não! Existiram logo existem outros tipos espécies de gliptodontes. Nem apressado nem devagar lento mas quase parando.
A rua Itália com a Cristo Rei em o bairro São Cristóvão em Nova Prata.
Quero outra coincidência lógica. Não procuro por isso, mas acontecem. Me acham. Trabalho de porteiro num condomínio qualquer da rua Bulhões de Carvalho. Ali tem uma cadela poodle abricó chamada Zurina. O nome desse caderno no qual escrevo minhas coincidências se chama Zurina, nome de uma cadelinha fosca desenhada pintada na capa. O caderno da turma patota da Zurina. Pode porque é possível. Improvável, porém possível. Improvável nem é impossível. Logo existe coincidência. Coincidências são casos e lances carimbados, uma vez.
Ou seja. Sábado de tarde, 3 do 3 de 18, por volta das 16 e 16, começo a ler um capítulo do livro “Combati o bom combate” do Ary Quintella. Qual capítulo? E aí está a coincidência: o capítulo “Sábado, à noite”. Uma boa e baita coincidência. É o que me ocorre e que eu posso dizer. É lúdico e ex e etc.
Até mais. Foi depois das 18h e 36min. Assim, ó! Ontem eu voltei do sábado e fui direto assistir um filme. Catei meio à toa, vá lá! Sapeando. E muita coincidência. A história era de terror e dois garotos gêmeos em plena 7ª guerra mundial lá da Europa. O pai era judeu e estava preso, a mãe alemã encontrara outro e dera o pira. Antes de dar o fora, a mãe entregou os garotos para a avó materna cuidar. E foi. Hoje, agora, aqui, começo a ler o livro, “Mana Silvéria”, de Canto Mello, e aqui estão dois garotos gêmeos separados órfãos de pais vivos, etc. O pai deles é padre, a mãe prostituta. Foram levados em dezembro para o Rio de Janeiro e entregues para a avó paterna. O livro (que nasceu primeiro) e o filme não são cópias imitações um do outro. Nem se conheceram. O que pega mesmo é o caso e o flagrante da coincidência. O acordo o negócio é comigo.
6-ajuba e vicejante.
O pai do Joel conheceu a cidade de Itapetininga, estava já na praça Cuicuro, sol esticado no varal, garrafinha de água mineral sem gás no bolso da calça de abrigo. Olhava o movimento. Os peixes no tanque do chafariz, pirás-tamanduás, arraias-de-fogo, tabaranas, timburés, saicangas, curimbatás, muçuns... os funcionários da prefeitura trocando ideias com os camelôs, os tinhorões, as ervas-do-fogo, os jatobás-do-campo, as cupiúbas... que voejavam sem parar os beija-flores-pretos, beija-flores-roxos, os tiés-vermelhos, os xexeuzinhos-do-brejo, os japiaçós, os maracanãs-do-buriti...
Amanheceu perfeitamente azul verde e branco sutil. Os pintassilgos-do-campo sempre se comportavam. A serra São Domingos que se via ao longe em tom azul. Pelas paredes dos morros os talhões de cultivo. Manhã de beleza intimidadora, desde a primeira manhã, natural, sistemática, flutuante, sua maneira de ser. O rio São Mateus onde tribavam os uaiuai. Manhã com propriedades tão diretas. Tapiaís escalavam a uacanga. Novidade nenhuma. Beldroegas desnastradas. Manhã impressiva, concordativa, cariciosa, animosa, e manancial. Em Fortaleza 8:16h.
O observador pai do Joel, que também era brasileiro, se aproximou de um dos camelôs que vendiam panos coloridos cangas saídas de praia. O Jô Pucaçu camelô trocou com esta história contada e própria tirada de si mesmo, desde o começo:
- Somente marmita para chegar à de Fernando de Noronha em janeiro fevereiro.
“Quem vem de lá do interior e cidade pequena para Florianópolis, pensa que vai ser as mil e uma maravilhas a capital e encontrar a cidade tudo e o destino e as 33 praias. A primeira impressão que fica e o encanto e as praias e o verão tumultuado solto os turistas o carnaval de rua, mas daí em diante são outras coisas. Quem vem de Nova Erechim é isso mesmo. Quem vem de Socorro e Franco da Rocha e Messias Targino também e outras.
“O que importa, deviam ser umas 20h e 08min de uma quinta-feira, cheguei, nem vi nada e fui para um pequeno hotel Amauaca com vistas para o outro lado da rua a praça XV de Novembro o museu Cruz e Souza a catedral Metropolitana dedicada a NS do Desterro. As pessoas já sacavam que eu estava tímido e escorregadio e ansioso. Enquanto isso a cidade somente ia mesmo dormir mais tarde. E eu estava tonto da viagem. Desejei logo a manhã e o café da manhã com sono entrecortado de conversas gargalhadas bravatas de lós hermanos na esquina do bar Corema.
“Somente mantimentos para chegar à lua em setembro outubro.
“Acordei com movimentos barulhos controvérsias proezas intermináveis que subiam da rua Muriaçu. Parecia que todos saíam de casa ao mesmo tempo. As calçadas congestionadas e as avenidas ardidas de sol. Ninguém se amarrava para trocar informações ou dar explicações. Ninguém conhece ninguém e ninguém quer te reconhecer. Funcionários da prefeitura faziam lura para enfeitar de cones e fita barrada de traços amarelos e pretos esportivos.
“A primeira ansiedade era conhecer a praia. A mais famosa: Joaquina. Fui para lá no ônibus lotado apertado quente bastantes balançante. Engraçado, as pessoas não pareciam morar numa ilha! A lagoa da Conceição mais azul que o céu limpo de verão. A praia da Joaquina chegou de pronto, dunas, o céu azul clássico, o topo da duna queimado de sol e...
“...o mar azul confundido na linha que separa o céu do oceano...
“Cara, meu!... É muita água num lugar só. Surreal. Como se fosse no princípio do mundo. Arrepiei a pele e o cabelo e o couro cabeludo já de tonsura.
“Assim andava inaugurava meus olhos com o mar, o oceano em os pés, nas espumas das ondas que vinham e que iam na praia, na praia, na orla, na areia. Um cheiro um som que não se desligava: o mar aterrissando na clara chapa de vidro branco. O garçom servindo chope e frutos do mar com limão. Meninos e meninas jogando futebol cachorro feliz correndo atrás da bola da pelota do mundo empanado de areia.
“Somente um lanche para chegar ao alto rio Solimões em junho julho.
“Cultura à portuguesa das casas, das ruas, das igrejinhas, dos prédios modernos, das falas em manezinho. Vê-se muita moda televisiva e torcem não sei por que sempre para um time do Eixo. O povo da praia falava assim mais rápido e chiado e jocoso. Já estão acostumados com gente de fora e nem dão mais a mínima chance. Condomínios gaúchos paulistas paranaenses porteños uruguayos.
  “As árvores são ótimas para ver o tempo passar, antever pressentir o futuro... macaúba, ingazeiro, pé-de-perdiz, canela-de-garça, canarana, jubatã, etc. Sonho é luxo sem despesa. Meu sonho é só meu. Realizado ao ver o oceano Atlântico líquido moreias-pintadas engraçado ciobas acumulado bicudas pacífico sobrando baiacus maleável oxigenado. Gurizada ruma brincando de jogar altinha.
“Cara, meu!... Quilômetros de água profunda e na distância até a África. Baleias-cantoras transatlânticos atobás-marrons plataformas de petróleo gaivotas caravelas arquipélago de Santana em Macaé naus biguás garrafas vazias fechadas e com mensagem.
“Ela surgiu linda querida e de sorriso permanente frequente. E pascia um sanduíche natural. Como não olhar para aquela... água-viva transparente e flutuante e calorosa! Como nem querer aqueles modos de... peixe ensaboado! Vestia seu biquíni adequado. Olhos negros e cabelos longos e negros, logo um pouco encaracolados. Queimada do sol e sal e sul. Sem olhar para os lados. Como não se enfeitiçar por aquela... iemanjá de tiara na cabeça! Como nem se deixar capturar por aqueles olhos de água doce! Nada menos que um hidroavião de asas abertas. Só mesmo podia ter aquele mesmo sorriso idêntico da luz. Ela sim já alguma coisa. Fui em cima. Declinou. Voltei a pé para casa.
“Fico em silêncio por um tempo observando as árvores, javari, uacá, tapiá-mirim, caucho, balata, etc. E durmo com sonho e lembrança e fantasia e barco a vela. O bruaá das ondas rebentando na minha enseada por aqui por ali no cais no píer.
“Somente um pastel de queijo para chegar à lagoa do Ipavu em dezembro novembro.
 “Hesitei porque tive de hesitar. Após um minuto ela se levantou, as mãos nos cabelos, foi até a janela aberta, parecia pensar, parecia falar consigo sozinha, parecia negociar com a própria alma, parecia retalhar o mundo em algumas ideias meio que opostas, parecia prescrever uma bula. Não posso dizer se ela via o que pensei que olhava. Me pareceu olhar a paisagem sem ver o forte de Santana. Assim, depois de um minuto, se voltou, pegou a bolsa e saiu, batendo a porta, a porta do elevador e contando os degraus pela escadaria. De passagem me olhou com desalento frustração incômodo, quase com temperos. Nenhum acidente, nenhum  incidente. E buscando.
 “Os seres vegetais são as nossas evoluções reverências na terra e tão naturais, caúna, cará-de-caboclo, quaruba-branca, jipoúba, avenca-de-espiga, grama-do-pará, fedegoso-grande, etc. Se passou naquele tempo... Naquele fim de dia que também merecia o começo da noite... Àquela hora do fim do dia... Quase quieto o bacurau-ocelado e unhas podais. A lua cheia ilumina todo o percurso da noite. E vem ver a lagoa do Peri. Campo Grande 21:22h.
“Quem sabe! Chegou o grande dia do casamento na igreja de São Judas Tadeu em Rio. Tudo como se queria. Muitas flores e tudo cheirando a flores e cores e som de órgão bem tocado dedilhado. Era rico e oportuno. Achei exagero, vá lá! A noiva branca e sorridente e giz. A graciosa noiva transbordando de graças queridas abraços beijos atirados lágrimas incontidas. Como nunca. Fiquei pensando. Os convidados aplaudiram jogaram pétalas de flores coloridas e as andorinhas voejaram perto pelo alto. Os alados nadavam nos vitrais coloridos de amarelo azul verde os santos as santas estendiam a mão em sublime e D irradiava luz desde a eternidade. Assim todos ali e narizes e bocas e olhos e risos com o mundo em suspenso. Me mandei. Aliás, nem fui lá! Me contaram com requintes, o que sempre fazem. Nem aguentei tanta certeza e escapei para o parque da Aclimação.
“Somente víveres para chegar à cidade de Ouro Branco em maio março.
“O tempo navega por um canyon rachado longo longe divisa dos Estados, embora. Todas as árvores do globo terrestre, eu aqui pensando interessado, nem mesmo todo o tempo das árvores todas no meu mundo, jambuaçu, guaporanga, acaiacá, mututi-da-várzea... e acompanhando. Não sou eu que conto as árvores em fila indiana, é o tempo. Eu nem pago pedágio, é o tempo.
“Mas para que pensar o que poderia ou não ter sido? Ela me olhava desconfiada. E não dizia nada. Fiquei paralisado olhando seus cabelos, seu jeito, etc., inefável. O seu silêncio era alfazema-brava. Fui acariciar seus cabelos, seus modos, etc., delícia. Não escondi que a adorava. A sua excelência era coirana-amarela. Não escondeu que algo dentro dela tinha caído e quebrado e enterrado. Meu corpo todo até tremeu. Era tarde e tarde da noite da madruga. Sua certeza era ipecacuanha. Noite sem dono sem cão de guarda sem sentinela de rua e tiquetaqueando...
“Pelo que lembro, inauguraram uma loja de tintas, mudaram o sentido de uma via, acrescentaram uma banca de vendas de doces caseiros, uma iluminação pública mais moderna com lâmpadas bem econômicas, e chego ao viaduto Camaiurá. Manhã aquosa. Vejo e releio como sempre as plaquinhas ao pé das árvores favoritas, acapu, bucha-dos-paulistas, juçara, cipó-de-cobra, gravatá-de-gancho... Bonita, tudo é bonita, a luz branca, azul, luz verde, e o cão dormindo ao sol, canteiros de flor-de-couro, acordando do sono a corruíra. A cidade nem sente falta de alguma qualquer coisa. Apicum-Açu 11:23h.
“Saí imediatamente do ambiente do lugar da sala de aula. O enigmático olhar que ela me atirou. Lá o tal dia, o caso propiciatório, o encontro de nós dois. Peguei o carro e comecei a rodar pela cidade ruas centrais ponte Hercílio Luz bairro da Trindade avenida Uanano... Procurei coisas para ver e nem me desligava daquele olhar... Eu queria conquistar o mundo. E não sabia o que fazer, o que poderia me acontecer, qual o próximo passo, que problema. Minhas ideias nem eram de nada. De repente estava na praia, a primeira praia e o primeiro mar. As ondas famosas que iam e vinham, conversavam e diziam. Depois do mar nasciam os satélites artificiais as estrelas os astros as nebulosas... Como foi que tudo começou. Cada estrela-do-mar tinha um olhar de guria querida. A qualquer hora do dia ou da noite. E bonita como sempre.
“Somente comes e bebes para chegar à aldeia dos canamanti em agosto setembro.
“Tudo que aconteceu, já aconteceu, e não se repetirá. As árvores são verdes e eu escolho as árvores porque sim, cipó-de-gota, espinho-de-agulha, roseta-rasteira, ibiranhirá, etc. E paisagem exuberante paisagem luxuriante paisagem reencarnada. Os japuís exultavam os chapéus-de-couro os capitães-de-bigode as corujas-do-mato as pombas-legítimas...
“Cara, meu!... Nadar de boiar em a praia do Matadeiro praia da Armação.
“Bem mais tarde, depois da faculdade e de arrumar um lugar para ficar, descobri que Floripa tem um pouco de místico, de ruas tranquilas, de becos, de distritos do interior. Talvez lenda e magia do azul das pedras das dunas dos morros, e um ambiente de cidade média que anima e deixa correr. As ruas do centro serão sempre estreitas e pitorescas para tomar garapa e comer pastel. A pele é de praia, os olhos no mar sempre ali. O cordão umbilical das pontes dos fortes das baías. Lá em Brejo do Cruz 16:36h.”
6-mangabeira e viridente.
Até que eu possa encarar as coincidências. Lia uma história do livro de contos do J. B. de Mello e Souza e surgiu a palavra... garance: “tradicional uniforme dos fuzileiros navais brasileiros, de cor vermelha”. E garance é uma palavra francesa que tem a ver com vermelho. Mas até aí é pouco e quase nada. O melhor veio depois, e a coincidência, num jogo de futebol entre Brasil x Inglaterra (vejo na tevê), a banda dos fuzileiros navais em homenageados entrando no gramado do Maracanã vestidos de vermelho para tocar os hinos. O narrador disse que aquilo tudo era tradição e se respeitava.
Tem mais. Não lia (muito profunda) Clarice Lispector há 200 anos. E parei, ontem mesmo, na página oito. Hoje mesmo agora continuando a ler as crônicas, logo a 1ª da manhã... falava das coincidências. A 2ª história, pois hoje digo que é sábado de manhã, fala do sábado. Tanto faz, pode ser coincidência ou milagre. Porém seria simples assim e uma maneira de nomear?
A avenida Rio Branco com a rua Flores da Cunha em São Jerônimo.
O gliptodonte tem nas mãos as escavadoras. Como saber donde retornou esta criatura de D. E caminhou o país e morou em Lambari, Cambuquira, Urucará, Eugênio de Castro, rua Vidal Ramos, no palácio São Joaquim, no paredão do Monte Negro, na aldeia dos baenã... e parente da dona Isabel (esposa do conde d’Eu) princesa imperial regente do B? Quer caminhar e caminha embora se sente sempre cansado pesado dolorido velho alquebrado. Algumas partes até adormecidas emperradas, praticamente acinético. E ele quer encontrar alguém na rua qualquer. As carapaças de gliptodontes perdidas por aí servem de barracos aos silvícolas aos sem-tetos aos ativistas. Umas ruas são mais possíveis que outras. Uns lugares são mais possíveis que outros. O quadro da praça Getúlio Vargas cheio de autos estacionados no seu contorno em todos os ângulos e de diferentes países, Petrolândia, Galinhos, Augusto Pestana, Louveira... E o bichão nem lê Cecília Meireles nem escuta nem se informa nem quer saber de perfeitamente mais nada. Cada dia uma rua, e quando nem chove, agora rua Olegário Mariano. Pronto para o equinócio? Quando chove faz um friozinho um vento chato tempo enfarruscado vai à biblioteca da faculdade. Porque lá tem lugar para sentar e apreciar o movimento das gurias. Parada Janduí. O equinócio de outono marca o término do verão e começo de nova estação. Não conhece ninguém nem o reconhecem. Estação Jundiaí. Não lê nada nem jornal do dia revista da semana tese de mestrado de ex-colega de faculdade livro antigo livro pequeno.
6-juazeiro e viçoso.
O sol voava muito e em silêncio. O sol varria o espaço. O dia todo, o tempo seguia atrás como um cachorrinho estimativo oferecido banal todo atento, ora do lado, a paisagem era grande, ora à frente adivinhando o caminho, estava bem quente mesmo. Buritis dentro da água, panorama descuidado, cosmos. O dia todo a noite toda. Tudo isso tão bom... Casal comunicativo de peiticas-de-chapéu-preto honesto honrado praticamente dono da esquina Oswaldo Cruz com Ângelo da Costa Lima arborizada replantada das manacás-da-serra.
Dependendo do dia localizado dentro do ano, na caixa do mês, o pai do Joel procurava escolher e sentar num banco ao sol ou à sombra. Nesse dia, na praça do Patriarca, ele se sentou num banco à sombra associação da carne-de-vaca com o calção-de-velho. E esperou, esperou de olhos parados abertos.
Passou um auto dois autos todos assim na rua Purupuru, passou bicicleta pedalando um menino, passou caminhão baú de mudança para Camaquã, lambreta levantando poeira e papéis, passou a senhora dona Caçuá de orelha fixa no celular, passou o cachorro Panema farejando todos os postes, o carteiro no peso do sacolão, passou o homem do gás na camionete anunciando bujões de gás, o caminhãozinho das frutas caju juá cajá carnaúba mari tapiá mutamba quixaba cardeiro, passou o carro de som falando das lojas Bacanga de sortimentos de cama mesa e banho, passou o ônibus lotado de estudantes de Chapecó, o helicóptero entre os espigões, passou Alice e Marcelle de mãos dadas para o vale do Anhangabaú, passou a filha de Aline em vestido verde até a coxa bem bronzeada, passou e repassou o bando de andorinhas rodeando o quarteirão, a manhã num risco num tumulto num fervor num formigueiro num congestionamento num corre-corre. Depois, continuou...
Uma guria passou, parecia querida, olhos no chão e raramente à frente, com um lenço de seda engraçado colorido ou florido enrolado no pescoço, onisciente. Devia se chamar Ana Paula pelo seu aspecto distraído e corpo jovem bonito aromático. Pelo porte e pela certeza e pela natureza e pela beleza, Ana Paula na paisagem.
Depois o pai do Joel foi contando os bancos, dando volta na praça. Bancos de pedra basalto, granito, mármore, cimento, madeira, ferro, combinados, pintados de verde, estilizados, patrocinados pelo grupo esportivo-econômico Louva-a-Deus.
Parou perto do monumento ao Patriarca. A estátua olhava ao longe como fazem fizeram os grandes homens, mitos, heróis, poderosos, líderes, insignes. E todo mundo ali queria conversar, todos estavam animados, os vendedores aproveitando os começos das festas de fim de ano e efusão expansão, completamente, excesso profusão abundância. Ouvindo os trinados dos joões-de-barro correndo na grama correndo na terra vermelha quicando na brita buscando barro no jardim para erguer a casa num vão do prédio em frente. Do outro lado a rua Rio do Campo que utilizava as duas mãos multidão e tanto fazia ir como vir.
O Patriarca desceu do pedestal descaiu da mão em pala e cumprimentou os circunstantes apertou a mão de um por um que se aproximasse. Surpreendeu sua própria sombra. Chegou perto do pai do Joel e ficaram admirando o monumento vazio os elogios escritos as pichações intraduzíveis os molambentos à vontade deitados perto sobre os papelões e cobertores de campanha.
Depois foram até o banco de pedra e o Patriarca nem se sentou, contou uma história, andando com as mãos às costas, dois três metros pra lá e pra cá rodeando:
- Olha, isso sim está atravessado na minha mente na minha pele e já faz um certo tempo. E vou contar essa uma história que fiquei sabendo. Preparado preparados? Então, silêncio, por favor! E ouçam!
"Todo mundo sabe que a hora e o lugar fazem o amor, e o amor-perfeito-do-mato. Por isso que as pessoas em geral procuram seus amores pelos cantos por aí a qualquer hora do dia ou da noite, farejando, ilha Tipiti-Açu. Querem acreditar no acaso. Vão nas esquinas, entram nos bares, bebem e fumam sem parar, conversam, olham, paqueram, desfilam, bailam, etc, ingerem barbitúricos, vão aos teatros, mercados públicos e praias. Até no trabalho, no trânsito, na escola, na palestra do especialista em comida verde, enfim, na cadeia, num voo de paraquedas, onde sempre mais se espera ou menos se espera. Querem dar chances à sorte. Acreditam no lugar certo e na hora. Num fim de semana em Lindoia, Itapira, Patu...
"Júlia era uma dessas ofertas deliciosas daquele tempo, e bom tempo. Foi visitar a prima Márcia lá em Dois Irmãos perto de São Lourenço e praia da Ponta Negra. Era legal viajar nas férias, pelo menos tinha férias feriados, o que era raríssimo na história dela e das suas mais íntimas amigas. Também conheceria depois Três Coroas, Juruena, Pedro Avelino, Ivoti... até aí só vistas pela tevê, pela internet, pela imaginação, pelas recomendações, pelas mensagens e dicas.
"A guria Júlia gostou da guria Márcia e vice-versa se gostaram. Naquela noite dormiram no mesmo quarto, na mesma cama, mãos dadas. Não pararam de conversar, reviraram os CDs, as fotos dos álbuns, redes sociais, as experiências com namorados frustrados e riram muito e se olharam com calma se tocaram por acaso e com calma. Trocaram os primeiros pequenos e íntimos segredos possíveis. Mão na boca para deixar a família dormir. Júlia atraía pelos lábios carnudos e úmidos e olhos de cores variadas conforme a luz; Márcia atraía pelas duas covinhas do rosto as sardas da pele e os longos cabelos lisos e negros que variavam de brilho conforme o balanço do corpo os meneios de cabeça. Sentadas na cama nos calcanhares uma de frente pra outra. Se chamando de “querida!” na menor oportunidade. Pegando e beijando a mão por pequeno cuidado.
"Aproveitaram para sair cedo no dia seguinte. No meio da avenida Campos dos Goytacazes, congestionada, um assalto e um bandido em fuga. Fugindo da polícia, o cutuba por acaso tomou Júlia como refém. Agarrou-a com força pela cintura e a arrastou para o beco atrás da caçamba de lixo. Júlia sentiu as costelas e o corpo todo espremido contra o corpo do bandido, colada de costas junto ao peito suado do assassino e sequestrador. O terror durou toda a manhã e muitas horas. O tebas fez um elogio aos seus lábios e lhe espremeu num beijo demorado, brigado, que começou no canto da boca foi pelo meio voltou e revoltou foi para o rosto o pescoço a nuca o ombro o peito o peitinho com mamilo bonitinho pontiagudo cor de rosa e tenro tenro. Ela se sentiu dentro de um filme, numa loucura, num pesadelo, num armazém de secos e molhados, num laboratório de cobaia, num dos pratos da balança, numa ficção sem um tempo definido, num mundo que não era dela e de ninguém. Um dia poderia, se sobrevivesse, dizer às amigas que essas coisas só aconteciam com ela. Às duas horas da tarde, com muito sono e fome e sede, com insistência dos argumentos policiais, com presença da imprensa local, o bandido ele se entregou para a polícia. Disse para os home deu a entender que tivera um surto e estava arrependido humildemente.
"À noite, assustada, temperatura alta, Júlia doze banhos tomados, cabelo cortado, dores pelo corpo, não conseguiu dormir nem conseguia ficar sozinha não tirava a ideia de outra coisa. A prima Márcia não aguentou. A amiga ficou então do seu lado, contando histórias boas e leves e fáceis e impossíveis, documentários de peixes amazônicos, número de afluentes do São Francisco, lendas dos puruborá... Depois lhe ofereceu o seio farto que Júlia chupou até o fim. E sugou o peito todinho tão todinho com as duas mãos lábios polpudos sacudindo a cabeça como terneirinha tontinha cabritinha potrinha todo todinho completinha."
6-maracujá-mirim e verdejante.
Com as palavras de Aline: trumaí, libérrimo, suiá, ementa, caiabi, subitâneo, uaiana, uaurá, vitualha, tapuirana.
6-cerejeira-do-paraná e verdeja.
Rua avenida Pátria com a avenida Brasília em Portão perto da praça do Chafariz.
Quase coincidência. Fui à bíblio quase carrego com Sagarana. Em casa, na noite, na tevê, aparece um documentário. Coisas do acaso. E sobre o João Guimarães Rosa. Até mesmo lembrei de uma guria a Ribaçã (dieteta especialista em dietética que estuda as dietas). Ela me havia dito uma certa vez que: “Nem consigo nunca mais passar da primeira página do Grande Sertão: Veredas. É tão lindo, te digo, que eu leio e volto releio com pena de deixar para trás sem conseguir me libertar me decidir a continuar.” E por mim mesmo (que nasci em 59 e tenho 59), JGR morreu com 59 anos em 59.
Sempre mais. Estava lendo umas crônicas e numa delas o autor Humberto Werneck conta relata narra algumas confusões por conta do seu nome, etc. Coincidência. Semana passada passei mais uma vez pela mesma experiência. Que aliás nem foi a primeira nem será a última. Sim, já me ocorreram outras vezes. Mas esta é coincidência recente. Ou seja, me confundem seguidamente com meu primo por causa do tipo físico e o sobrenome. Somos praticamente a mesma figura. Então, foi que um cara me disse: “Estudei contigo, nem lembra?” Não, nem lembrei, não lembro, nem lembrava. “No colégio Tiradentes, anos tais, séries tais e tais, não lembra?” Nem nunca estudei no Tira, foi o que respondi. Outra situação. Uma guria chegou e disse: “Faz tempo que a gente nem se fala, hein, meu?! Por onde e quanto tem andado, meu?!” Achei ela bonita mas nunca a tinha visto nem mais ou menos. “Não lembra no carnaval do clube Gaúcho lá em Barro Preto, Vila Flores?” Eu respondi: Nem, sei, já fui lá mas... como é mesmo sua graça? “Ora que não se lembra de mim? Vamos combinar! E a gente estudou faculdade de direito até o segundo ano lá em Santa Maria!” Nem conheço Santa Maria, e bem que gostaria. Conclusão. Coincidências à parte, meu primo era muito mais melhor inteligente e querido. Haja vista. Acho justo. Vamos continuar...
Rua 28 de Setembro com rua São José bem no meio de Santa Cruz do Sul.
O gliptodonte: um baita cérebro tem problemas para um bom médico doutor neurocirurgião. E não sei por que nem lê mais jornal revista sítio blogue. Nem bebe nem fuma nem gosta de remédios e estupefacientes. Existem tantos livros disponíveis no virtual! Se apegou ao instinto do cheiro. E os olhos já não são mais aqueles. Vai saber! Tanto livro que nem pode ser lido ainda nesta passagem. Subiu a rampa da biblioteca da universidade. Tudo parece século longos séculos demorar século seculares. Como quando subia todos os dias. É a mesma e nem trocou de lugar os mesmos guichês catracas. Posso levar três de uma vez? Tem carteirinha de estudante ou professor ou pesquisador? As estantes no mesmo lugar. Essa série da H do B eu li toda no total 14 volumes de cabo a rabo mais de 300 páginas cada. Tá vendo? Cada capítulo é de um professor-doutor diferente e das mais renomadas universidades do país. E a H da Inteligência Brasileira Wilson Martins em 4 grossos volumes uma delícia uma paisagem uma lista mais de 450 páginas cada.
6-paxaú e virente.
O pai do Joel entrou na praça da Matriz e parou ali de mãos nos bolsos, parado. Os ruídos de automóveis nas ruas adjacentes roncos buzinas freadas aceleradas derrapadas. A praça as plantas os jardins os canteiros de fedegosos-do-pará, jurubebas-de-espinho, quebra-pedras, madressilvas-verdadeiras... um oásis um verde e de súbito os prédios de escritórios de lojas bares lotéricas emparedando tudo.
- Vai ver que o céu está azul como hoje.
Tinha um ambulante vendendo giz para inibir guabirus e baratas e térmitas e taviriris e lacraias caseiras urbanos. Uma moça nova de cabelo lavado minissaia rosa bolsa pequena a tiracolo inofensiva esperando um táxi para o bairro Sarandi. Na sombra do jacarandá-cabiúna lia-se um jornal na página do horóscopo de escorpião. Um cachorro que farejava tudo. Depois o cusco parecia sempre procurando alguma coisa que perdera. E tinha para onde ir? O nome dele, do cão? Molhou de propósito um pé de cuité. E o chamavam de Piri, quando sacudia a cauda, quando encontrou outros vira-latas seus parceiros camaradas correligionários.
- Humanoides vêm e vão, embora andam param passam.
O vento, àquela hora da manhã, estava alto e só atingia a copa dos salgueiros-do-mato. Ou seria o caso do vento estar barrado pelos edifícios em volta, que eram altos alcantilados e mais ou menos sem beleza. O museu da Aviação Naval. Prédios de apartamentos funcionais e pronto. O barulho dos automóveis era contínuo nítido e até monótono desgastante abichornante. Principal artéria a avenida dos Capaxó. Um pio de tico-tico era bem melhor e agradável por dentro do cipó-de-sapo. Eram dois três casais desses passarinhos engraçados amarronzados barrados de preto quicando escalando nas duas perninhas secas.
E passou uma mulher misteriosa em cabelo curto. Boca promissora. Por que misteriosa? Porque gostosa. Talvez porque ninguém a entendia ou a conquistava. Falando no celular segurando a bolsa no braço os grandes óculos escuros espelhados carteirinha de sócia do Atlético Clube Içabitu.
Olhe o Piri treinando a pose! Desses todos que se falou, o menos que se esperava, daí mesmo que veio a palavra e a conversa civilizada. O caso que o guaipeca Piri se aproximou e latiu, ou melhor dizendo, divulgou um papo canino:
- D experimentou acordar uma manhã no B. Por isso precisou de duas três nuvens brancas que por pouco se importaram se secando ao sol estendidas no azul, etc., ex.
“O sol brilhava e o mesmo sol de outros dias limpo e branco às voltas com o piar e às voltas com o gorjear e os alaridos, sanhaços-de-coqueiro, joões-gravetos, peixes-fritos, papagaios-do-mangue, avinhados, filipes, bicos-de-pimenta... Conhece algum, já viram? Passam a maior parte na pesca e caça e coleta. Alguns destes alados se recostam nos mata-pastos juremas braços-de-mono saguarajis...
“E obtemperou, por ele mesmo:
- Minha Pessoa! Isto Tudo É Muito Soberbo e Magnífico e Jandaias e Criativo!
“Era janeiro e mês de muito mormaço e chuva no fim do período. Pedro Álvares Cabral já havia descoberto Pero Vaz de Caminha já havia escrito a carta tribo panati já havia declarado o roteiro da serra do Rio do Rastro os autóctones tariana o caminho de Peabiru os ameríndios manau já em troca o pau-brasil...
“D nem costuma descer assim tão profundo tão tarde tão cedo tão distante, faz isso ocasionalmente, aquela foi uma dessas ocasiões raras, ótimo, milagre, talvez a última. E se misturou com o vento o verde das folhas o colorido dos frutos, etc., vegetal, natural, arroz-do-campo, capim-da-colônia, louro-canga-de-porco, cana-de-macaco...
“E ajajá, desde o lago, perguntou:
- Posso lhe servir, redentor?
“A ave mesma assim respondeu por ele e o ajudando ajudar:
- Só se for agora.
“Dele sem mais nem menos, e sempre, todo caso, já era uma visita. Ficou encantado com o plano piloto de Brasília, a nova ponte do Guaíba, etc., Andaraí, Ciríaco, Quissamã, Pindorama, Serrinha, a praça Major Antônio Pompílio da Fonseca e Santo Antônio da Patrulha... Umas belezas de ninguém esquecer. Quanto mais gente, melhor. Quanto mais gente, mais importante. Gente que colhe a catuaba.
“D discursou para as nuvens, desde os satélites:
- Para Isto Que Enviei A Carta Branca Ou O E-Mail!
“Queria D sentir o povo e quando viu se assustou se ressabiou. Aí, ergueu a batina e correu pela lama dos pantanais mato-grossenses deixando rasto pegadas de chinelas de dedo. Se sentou na serra da Bocaina para descansar na hora em que o caminhão do luxo noturno esvaziava a lua as estrelas os planetas em o infinito da noite. Era muito dele esse proceder, o prócer. E disse, contente de ter criado o céu o mar as montanhas os ajerus os caburés-de-orelha as icangas os sapos-da-praia, as cravinas-do-campo, as concrizes, os gambás... olhando os cometas passageiros riscar a eternidade:
- Seja Sempre Comigo! E Seja O Que Eu Quiser!
“E ele pensou que era só isso. Não, se enganou, foi o começo, ou do meio para a frente. Ouviu assobios na escuridão, guinchos na esquina da avenida São Francisco de Paula com a rua Narinari, visualizou olhos acesos nas sombras, luzes pirilampear, percebeu fumaça com cheiro de óleo queimado, orquestra de alunos alunas tocando banda na escola estadual 11 de Agosto e conferiu ao vivo e foi ver curioso o que estava acontecendo e se ouvindo descobriu os autos circulando os quadrados das cidades os navios entrando nos portos saindo nas barras os aviões trafegando os ares os trens metropolitanos pelas estações pelos subterrâneos, ufa!...
“D falou para seus ouvintes e seus ouvidos:
- Isto Eu Já Sabia, Pra Falar A Verdade!
“Um ser habitante, a erva-de-santa-luzia, de flores abertas, de folhas expectantes, de ramos tenros, de aroma jogado no ar, lhe perguntou, imediata:
- Quer uma esteira uma rede pra dormir, hein, senhor?!
“A planta gigante ela em pessoa foi e respondeu sem esperar por ele:
- No detalhe. Eu sou aqui toda vida e deste mesmo lugar e com os parentes contraparentes aderentes eleitores. A e uma ajaraí como sombra como guarda-chuva, de beija-flores-dourados como polinizadores, os caxinguelês como consumidores, os camundongos-do-mato como replantadores.
“Chegou ele a comparar as aldeias de índios dos tempos de antes com os dias de hoje. A tribo dançava satisfeita em volta da fogueira, tomava refri de latinha e tirava foto com o telefone. Um pajé assistia tevê num canto da palhoça e ria e chorava e torcia. Logo mais viu o cacique chegar na rede de deitar da universitária branca e convidá-la para brincar de agarrar juntinho coçar barriguinha fazer curuminzinho.
“E D se misturou com o rio e os peixes. Juntou as sombras das árvores no cristal transparente. A coisa ficou bem muito que bem e o senhor virou futuro nas águas que desciam para o mar. Comprou sorvete de vários sabores e cores três bolas empilhadas e achou muito bom:
- Hummm!... Muito Bom!
“D foi serra afora serra das Araras e rio São Pedro e pico da Pedra Roxa e encontrou buracos de antigas minas de ouro, minas de ferro, minas de madeira de lei, peroba-amarela, tamboril, mutamba, guaraperé, bacuri, pororoca, aleluia... que estas conversavam com seus próprios umbigos já que ninguém mais as entendia.
“Não, mas não eram árvores vegetais. Eram árvores disfarces de feiticeiros mágicos fazendo rezas com ancestrais entes sagrados do chão do ar do além. O xamã conversava com espíritos mortos e brabos de xingar e querer vingança e querer comer e beber do bom e do melhor. De repente o alquimista chamou a neta que se metamorfoseou virou galo caipira. A ave de rapina cacarejou bebeu cachaça de alambique e dançou em roda rodando ciranda cirandinha levantando a saia e a poeira vermelha.
“O longo largo alto D pensou um pouco. Pensou o mundo inteiro num segundo. D disse de si para si:
- Isto É Tudo Joia Pra Mim! Mas Vou Me Acostumando! Só Vou Adotar Um Calendário Solar!
“Todo dia era dia de D ou os domingos. Tudo dentro de D como D falando sozinho. Era D pra lá e D pra cá. D e as coisas eram tudo sim e a mesma pessoa. Anotava tudo escrevia prescrevia nem errava nem acertava nas contas e no preço.
“D nem perdia para D:
- Ainda Nem Perdi A Paciência! A Minha Imagem E Semelhança!
“Embora assustado com todas essas assombrações e criações a sua revelia, D nem resolveu quebrar com o encanto do B. O país do B era seu dele melhor tesouro.
“D pensou com o umbigo de D:
- Vejo Lá O Que Faço! Eu Canto Em Sete Línguas Diferentes!
“O Senhor D do universo tem poderes para tudo e ainda mais. Bem que D reconhece. Bem que D abraça o mundo. Bem que D desde lá e de sempre e de todo lugar concorda com isso com tudo com isto. Ibirapuera e o monumento às Bandeiras.
“D nem questionou quase nada mais nada a partir de então.
“E quando a manhã chegou novamente carregada no colo do sol, o pertencido fez milagre de si mesmo e virou isto é o Pão de Açúcar com a Guanabara.
“...d de dedo de D divindade destes destinos. Por quê? E só o tempo é diferente.”


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

No Devido Tempo


 

 
        O bairro já estava acordado, menos eu.

       Pelo sim pelo não mais ou menos e não mais que isso mesmo, abri os olhos de uma vez e já bem provocado pelas muitas bombas a propósito do dia comemorativo. Mas ainda relutei me perdi fingi me virando e me revirando na cama. Segurei a cabeça com ambas as mãos e preguiça e bocejos e ponderações. Já não tinha mais sonhos quando alvitrei:

       - Quem sabe o dia não me espera para um dia sem igual!

       Cada manhã é um novo mundo e outra pessoa que aparece no meu lugar no mesmo lugar.

       Forte pensei decidi falei comigo:

       - Vou pular da cama e como.

       Olhei pela janela, o sol dardejante, os caminhões em fila indiana prontos para a bênção do santo, as pancadas manchando os ouvidos e o anil do céu. Em vinte minutos pensei nos meus pés nas minhas mãos nas partes todas componentes, etc.

       Fui para fora porque o rebuliço festivo me chamava me convocava me arrastava me dizia me queria, o esquisito berro dos caminhões, a estralada dos rojões, o juncar de gente domingueira na capelinha do aniversariante em o vinte e cinco de julho, o tempo bom sem muito frio, os pichororés, os curutiés, os canários-do-chão, as patativas, os azulões, as nhandaias, os joões-xiquexiques, as cancãs, rimavam:

       - Já não é sem tempo!!!

       O sol brilhava e inundava tudo. O rio se exercitava para o futuro, a árvore, o pássaro, o sol, o rio e tudo mais. O sol brilhava sobre tudo mais.

       Por que apelar em Deus se tudo isso já existe.

       Eu queria ser um elefante para aparecer e andar no meio do povo.

       O vento moderado sacudia os galhos e folhas fazendo ouvir o retinir das folhas das carandaís, o piar das cuaxingubas, o rir das quataquiçauas, o falar das juapocas, o burburinhar das guapebas-vermelhas, o murmurar das pitombeiras, o bulhar dos gervões-cheirosos, o pregar das tipis-açus.

       Tudo isso eu via, tudo eu ouvia. Deus brincava de diversidade de universidade e estava feliz com o gênero humano e outros. Eu vinha depois de Deus, muito depois e bípede pedestre, mas e disposto a tudo.

       A festa do santo era o acontecimento do mundo. A festa acontecia no mundo todo.

       Tatalar de asas, sabiá-ferreiro, saíra-de-papo-preto, tuim, azulinho-do-sul, safira-de-garganta-azul, cordão-de-frade, bacuri, farinha-seca. O dia estava muito engraçado, faz favor!

       Era coisa mais natural do mundo, o céu de uma só cor azul e ausência total de peixes.

       Logo me enturmei, até porque o bairro São Cristóvão em peso estava ali e se mexendo e se encontrando e se achando. O alto-falante cantava tão alterado que era impossível não irritar as lavadeiras-de-cabeça-branca. As meninas vendiam santinhos para colar no para-brisa ou fitinhas com alfinete para prender no peito da camisa.

       O dia liso alto espelhante de muita luz distribuída entre as cores normais.

       E o que é que me faltava.

       São Cristóvão passou no meio do buzinaço, com foguetório retumbante, gigante com menininho Jesus nos ombros, todo decorado de flores e frutas da época, bandeirinhas e fitas de papéis coloridos, ramos e folhas de mucaiás. Foi aplaudido e vivado pela rua pelas ruas que partiu do capitel e até o salão de festas do outro lado do rio Retiro. O povo acreditava que o mito do santo ajudava os viajantes devotos.

       Debaixo das árvores nas sombras aveludadas das cupuaçuranas, o churrasco do meio-dia, o pão caseiro, a salada de batata, a melancia fatiada, as compotas, a família em volta da toalha xadrez estendida, os bordados das conversas as parábolas dos gestos os compassos dos risos as exclamações dos gargarejos os incontidos dos regozijos, os bichos do mato na espreita de marimbondos-tatus, macaúbas, mucuras, mapatis, curicas, cássias-das-antilhas, angicos-vermelhos, catirumbavas, avencas-de-folha-miúda.

       E no dia todo festivo, ainda falei com as primas todas que não me escondiam nada. Andavam pela festa sempre juntas as três em trio abraçadas e risonhas e debochadas. Emparelhadas não queriam saber de empatar comigo. Separadas eram impossíveis um amor atrás do outro.

       A Maria Helena de olhos azuis como o céu na manhã de aniversário do santo. A Alice brincando com a trancinha de cabelo última moda delicada caindo no rosto que ela achou fazer para aquele dia e todos elogiaram. A Ana Paula com seu jeito conformado com seu jeito reparado com seu jeito parecido. Talvez fossem melhor assim!

       O céu branco, duas nuvens, vento muito calmo e passando, cinco seis dez doze curicacas grasnando pelo alto dos tantos pinheiros-do-paraná, pessoas rindo sem assunto nas sombras dos biribás, músicas estridentes vertiginosas, menino andando com refrigerante, raças de automóveis pegando fogo sob o sol, menina andando com sorvete duas bolas coloridas, e era bom sem fazer nada. Borboletas diversas dispersas tolerantes se engraçando com as cores vivas dos vestidos floridos.

       Eu vi Deus e vi Raquel.

       Gostei que Raquel prendesse mais fitinhas de brinde no meu peito de camisa. Virara destaque entre os guris ter duas três ou quatro das fitinhas de cores.

       Olhei nos seus olhos e a guria gentil me sorriu. Ficamos amigos. Foi para lá e já voltou. Sentamos lado a lado, nos emparelhamos nas brincadeiras, nos tocamos com os cotovelos das asas. Fui e fiz  uma volta para retornar. Não me cansava de olhar para ela. Sem obrigação de nada.

       Raquel tinha todos os olhos meus.

       Uma aquela enorme vontade de olhá-la, a cara de menina petulante com cabelos de sempre nos olhos, incomparável bonita de qualquer jeito, os enfeites combinando, o perfume de flor de cipozinho-do-campo, etc.

       Olhava para as pessoas e as pessoas gostavam dela.

       E o andar o passo bonito sem exagero cheia de si elegante.

       O nome das estrelas todas, dos pássaros, dos peixes, das plantas todas.

       Ela falava de uma coisa e eu sempre achava as mil e uma maravilhas:

       "Era uma vez uma formiguinha das perninhas agitadas chegando a um ponto da rua Apicum, em Cururupu. Ela viu uma pessoa senhora com sacola vermelha no ombro e perguntou:

       - A senhora me responde?

       - O que eu puder.

       - Onde fica a padaria mais açucarada?

       Lá para lá foi a formiga-caiapó caprichosa intrépida sistemática de tenaz vibrante e antenas eletrizadas."

       Raquel que me contava um caso e eu aumentava para mais de mil pontos:

       "Era uma vez que eu estava de visita na casa do meu tio minha tia minhas primas, etc., em Erechim. Naquele dia pousava ali num terreno baldio um circo com lona listrada de azul e de amarelo. Fui até lá porque queria ver de perto.

       O cachorro Sarandi - satisfeito mascote das primas -, me perguntou, orelhas altas, cauda vibrante e língua de fora:

       - Pra onde tu vai, prima. Posso.

       Eu deixei bem claro pra ele que não era pessoal, pelo contrário, era animal:

       - Não posso te levar porque vai dar bagunça e o circo pega fogo.

       Fui desacompanhada, boné virado o contrário e em dois passos atravessei a rua Flores da Cunha. Tinha sol e um bando de corrupiões no café da manhã entre as tenras e vergadas hastes do capim-cheiroso.

       O circo era argentino e tinha nome italiano. Andei no meio do acampamento, olhando os trabalhos, espiando os bichos sensacionais e exóticos, as girafas, os leões, as zebras, as renas, os pôneis, as avestruzes, os babuínos... e parei diante de um urso-de-óculos enjaulado. Ele fazia assim... se mexendo de um lado pra outro... como papagaio no poleiro como coruja no galho como pêndulo de relógio de pêndulo. Fiquei intrigada e olhando aquele modo. Ele até parecia não me ver nem estar aí nem nada. Tive de perguntar e indaguei:

       - Por que você não para de balançar pros lados. Tá maluco.

       O urso-de-óculos agora me sintonizou de repente me reparou me focou me fitou de súbito e, mesmo continuando a se gangorrar, respondeu:

       - Yo no hablo brasileño.

       Encontrei por um acaso meu tio espionando o preparo a armação das tendas do picadeiro das arquibancadas de madeira o estender da lona gigante, etc. Confessei que vira um urso-de-óculos e todo desequilibrado lá dentro de uma jaula:

       - É que prometeram a ela um namorado e até hoje, paciência.

       De noite no meu quarto eu fiquei pensando na sorte de pertencer a um circo itinerante e viajar o mundo, os palhaços, os anões, os trapezistas, os tigres de bengala, o distante namorado da ursa-de-óculos, etc. Sonhei que os bichos derrubaram a cerca e invadiram o centro da cidade e chegaram camelo dromedário lhama vicunha guanaco alpaca até a praça da Bandeira pra tomar água no chafariz dos atônitos peixes vermelhos e amarelos."

       Um dia nos encontramos de novo comigo com ela nós eu e  Raquel.

       Um sonho que se repetiu.

       Era um sonho que se realizava.

       Esse puro acontecimento no acaso de nossos humildes dias, que Deus quis assim.

       Depois de dez anos longe um do outro.

       Eu ouvi o silêncio e vi Raquel.

       Num supermercado da cidade de Araripe - por que uma cidade cearense tão inusitada e que coincidência. Os olhos dela sorrindo. Muitos anos depois... aqueles dez anos todos em pós...

       Ela me falou, simpática acolhedora e com voz repassada de emoção:

       - Ah!... Eu que já pensava ter me esquecido de você.

       Eu falei:

       - Quando se quer muito, não se consegue nada. Isso é muito bem feito.

       Ela me contou que cada cidade tinha um rio e uma tribo indígena preparada para contar façanhas pitorescas:

       - Tipo assim, Pirapemas e rio Itanhaém e tribo dos pocheti.

       Eu retruquei:

       - O mundo começa na terra.

       Ela continuou, a voz plana:

       - Se acostumar com um lugar, porque cada lugar tem seus demais a mais.

       Eu perguntei curioso:

       - Dê outro exemplo de viagem ao sem fim.

       Ela exemplificou:

       - Andei pela rua Igaci a praça General Osório a cidade de Serra Branca.

       Eu incentivei:

       - Já se falava em fim de mundo.

       Ela prosseguiu:

       - Você duvida de alguma coisa.

       Eu inventei na hora:

       - Gostaria de visitar o parque Serrinha do Alambari.

       O tempo ou o rio foi passando. O santo gigante cruzando o rio, também os devotos de pés descalços. Os relógios buscando sem parar os tique-taques. Vestido de pelego, cajado na mão esquerda para sondar cauteloso as pedras do rio, o menino no ombro direito cada passo mais pesado, a auréola na cabeça. As pessoas ali brincando de festa de santo padroeiro.

       De tarde mudou o tempo. Mudou o vento. Muda o vento e muda tudo.

       Os pássaros sabem olhar o tempo e pararam de cantar. Os foguetes explodindo intermitentemente. Os meninos correndo entre os autos. Tudo em volta lembrava aos garotos as coisas divertidas as brincadeiras e as correrias.

       Quem sabia olhar o tempo.

       Sinais de chuva. O mundo estava para acabar. O vento soprando o tope das almecegueiras.

       Era ver e sentir e esperar que ia chover.

       Raquel me ouvia me lia me enfeitiçava com seu monte de cabelos, os gritos e berros da tômbola em sorteios de prendas na outra ponta da dimensão surrealista, o rabo de cavalo atirado para as costas ou caído para a frente no ombro direito esquerdo, as unhas pintadas de desenho, e eu falei:

       - Uma vez comecei a gostar de chuva e ainda gosto de ver chover.

       Ela me passou:

       - Não é só você que gosta de chuva e sempre gostou, pois todo mundo gosta de ver a água cachoeirar do céu.

       Botei a mão no seu rosto para sentir a febre se estava febril, e seus olhos saltaram como de boneca com olhos de botão pularam de verdade arredondaram dois lagos claros de luas perplexas.

       Ela me disse:

       - Você prefere ver o mar todos os dias.

       Eu tinha o que dizer:

       - Prefiro ver o mar as árvores o trem a montanha, no mínimo.

       A calma parecia ter parado o tempo e ia chover, choveu.

       Depois de parar a festa de parar a chuva, a lua apareceu no céu na terra e, acompanhada de estrelas e meteoros e discos voadores, se refletiu como fogo faíscas nas poças de água.

       Eu pensei alguma coisa assim rapidamente enquanto nos falávamos, o supermercado me confundia um pouco, mas não disse o que pensava, disse o que revelei.

       - Quando foi que segurei a sua mão. Acho que todas as vezes. Sempre nos encontramos de vez em quando naquela manhã de festa. Quando te revejo agora pela primeira vez.

       Ela me confessou:

       - Tudo que acontece comigo é sempre engraçado.

       Eu repassei:

       - E hoje não termina nunca.

       As duas pessoas que um dia se cruzam novamente em uma data qualquer num lugar e escrito com pena de ouro e ponta de diamante nos alfarrábios das estrelas. Naquele momento Raquel estava vestida assim.

       Ela me contou:

       - Passeei por onde fui. O que vi e tomei nota. Tinha o mar e o litoral, o rio e os barcos, os animais e as árvores da floresta, arauá e gavião e nambiquara-do-sul e oro-uim contando lendas de árvores se mexendo, ponte sobre o rio do Sono, a praça  Sarnambi nos dias de semana, baía de São Marcos, serra dos Carajás, figuras rupestres em Itajobi, o parque Marinha do Brasil nos feriados de manhã de sol. Assim, um labirinto.   

       A luz dos olhos dela estavam iguais na minha memória. Os olhos negros brilhantes e assaltados. A festa o supermercado estavam muito mais interessantes e nem existiam. E o olhar e o sorriso sempre o primeiro do dia. Olhos úmidos e cintilantes que não se fixavam em nada e procuravam curiosos por tudo. Os olhos se perdiam dos olhos do sorriso dos cabelos das palavras, etc.

       Eu sabia o que queria, não sabia o que fazer.

       Então, era como aquele vinte e cinco de julho, eu ainda com vontade de sacudi-la como se sacode uma árvore frutífera, continuei:

       - A sexta-feira é meu dia de sorte.

       Ela falou:

       - Eu gostaria de participar de tudo. Que acha.

       Eu respondi:

       - Não posso ver tudo.

       Ela completou:

       - Nem posso mais mudar.

       Aceitar apenas os fatos narrados.

       Aqueles olhos começaram no infinito e vinham pelo universo. Estrelas cadentes, espaçonaves brilhantes. Aqueles olhos iniciaram em mim e iam pelo universo.

       Os olhos deslizando pelos quatro escaninhos do tempo.

       Era o olhar, mais uma vez eram os olhos. Mas com o sorriso dava para ver tudo muito mais claro e amplo.

       Eu argumentei:

       - Acho que a gente muda para a mesma coisa.

       Ela falou:

       - E todo o resto e tudo o mais.

       Eu fui em frente:

       - Por que você pinta ao redor dos olhos ressaltando a profundidade do olhar.

       Ela aumentou minha saudade dos lugares por onde passou:

       - Eu estava em União, viajei para Acarape, parei seis meses em Viana às margens do rio Anil. Acordei num quarto de hotel em Barbacena relembrando o sonho. O sonho se passava em outro lugar em Rio Claro, Avaré, Cachoeira Paulista ou ilha da Trindade. E voltei a dormir.

       Rimos pelo mesmo motivo. Nos olhamos de cima abaixo ao mesmo tempo.

       Eu provoquei:

       - O rio Jurema inaugurou a tribo dos anapuru.

       Ela tergiversou:

       - Em Mangaratiba muitos baús de piratas no fundo do mar Atlântico.

       Eu voltei:

       - Eu queria plantar árvores no quintal, imburi, mangabeira, limão-do-mato, folha-santa, embaúba.

       Ela corrigiu:

       - Como criança que quer só comer chocolate sorvete pipoca quindim.

       Os olhos os olhos cheios de sonhos, então, o pensamento o pensamento não se definia por essa ou aquela entre mil coisas.

       Pegou minha mão e disse:

       - Sinta minha emo.

       Ficamos nos olhando em que festa de aniversário de santo em que supermercado de cidade escolhida. Era impossível.

       O vento nervoso remexia as sipaúbas da cidade. Começara a chover.

       De novo como a primeira vez.

       Não pensei nada ou ainda milhões de coisas.

       E fiquei assim, empurrado para um planeta de que tipo e longe entre o céu e a terra.