domingo, 1 de junho de 2014

Águas-Marinhas


      

 

 

       O general era bom e bondoso e orgulhoso e valoroso e digno e colorado e festivo. Seu único deslize em ter fraco por amantes.

Essa amante era viúva de outro amigo general. Amante que certo dia chegou no ambiente do gabinete lhe dando notícias preliminares de que estava esperando um filho.

De um dia para o outro.

Cabelos retilíneos, ombros cacheados, brincos, colar, anéis em todos os dedos, cor verde um vestido debruado procurando os joelhos de pernas grossas, olhos estudantes de altos mares absolutos, seios afoitos, olhos cintilando, o relógio de pulso 16h e cinco, oitenta graus de calor. 

       Ele se sentou na cadeira ao contrário os braços cruzados apoiados no encosto. Se desculpou, se uivou, se macerou, se retorceu, se asnou. Seus olhos efervesciam em surpreendido, em siderado.

       A metafísica da consciência.

       E a sorte tenra e macia, evanescente, até.

       O impávido general, apesar de amar a amante honestamente e euforicamente, não podia sofrer o escândalo que esse filho inesperado com certeza lhe traria. Durante dias esse patriota de farda ficou pensativo procurando uma nobre saída. Então, lhe surgiu na cachola a ideia resplandecente, original, leguminosa, redentora.

       Deslizando no liso teto azul da cor, o sol abriu os braços por diante das neblinas.

       Precisava o pássaro piririguá do dia ciscar o sol da manhã precisa.

       As coisas que o mundo eram leves cor coisa cumplicidade e perfumadas.

O generoso e terno general expôs à amante a sua ideia que ambos debateram com prós e contras e talvezes. Se deram as mãos e ele beijou as mãos dela em conchas. Então, a amante entrou no acordo que isso aí assim mesmo era a única saída para o caso.

A mulher passou em revista a tropa e cheirou mediu calculou pensou sopesou olhou muito bem seu futuro marido. A boca entreaberta. As narinas acesas pesquisando os cheiros. Uma saia branca plissada, blusinha cinzenta leve, os sapatos pretos de agulha, bochechas chiclete de limão bonitas rosadas. Ela procurava um belo olhos claros e abre-alas zagueiro de sobra. Alguém que não se distanciasse do general noventa e dois quilos em quase nada. Escolheu um sargento boa-praça que por motivos alheios a sua vontade ainda não casara e gostava de bichos de estimação.

       O sargento escolhido a dedo foi chamado ao gabinete do general onde lá também já se encontrava a sua futura esposa. O espelho de cabelos louros, olhos bem de águas profundas, pele de papel novo em folha, pernas e braços louros, olhos bem nítidos, boca procurando um beijo, os seios de aconchegos, de transformações, de deslocamentos, de sonos, de clarezas, de nuvens, de anjos parecidos. A janela estava aberta para a rua com trânsito interrompido coagulado na esquina. Foi uma conversa franca otimista de tarde inteira e regada a café ou suco de abacaxi com bolachinhas de mel ou açaí. A grande caraná-branca atravessava a rua com seus braços hercúleos. Os automóveis se acumulavam no cruzamento, depois reagiam.

       O destino que convém a cada um é problema de cada um.

       As curvas do rio são propriedades do próprio rio.

       Marcaram o casamento para breve no final de setembro, no sempre e cobiçado despertar dos ipês-amarelos, cumarus-verdadeiros, capitiçobas, pitaicas-pretas, embiruçus, guaxixins, parajus, maçarandubas, caamis, barbatimões, gloxínias, begônias-sempre-florida, petúnias, carandás-guaçus, buganvílias, jarinas, jatobás-de-anta, e outras plantas magníficas.

A amante ficou feliz pois teria um pai honesto amoroso dedicado presente carinhoso para seu filho. E o sargento ficou feliz pois teria uma mulher e esposa e amante e a imediata promoção aguardada.

       A oficialização do casamento foi às claras como na tradição, com pompa e circunstância e música ao vivo. Ele olhou para ela e viu olhos de cristal. A festa de arromba a dança do cururu em torno da piscina no clube XV de Novembro em São Martinho da Serra. Ela olhou para ele e viu riacho corrente doce entre as pedras roladas. Obviamente todos os amigos presentes olharam e murmuraram.

       Como se estivessem viajando uma nuvem bem alta enlevados sem ninguém por perto.

       Andar de trem para alargar os enigmas.

       Viajando em climas de diferentes latitudes longitudes e recém, sorridentes falantes expansivos e aconchegados enamorados para tudo que se passava, e passou Floresta dos Guarás, visitaram Balsas e Guapé e Resplendor, conheceram a cidade de Itaperuna, seguiram para Guaraniaçu, Monte Santo, o vento de outubro soprou seus cabelos pele nariz rosto os olhos de cristal, um calor com igual perfume e uma alma com aroma feito de flor de jasmim-do-mato, na sequência Juazeiro do Piauí e Sobradinho e São Sebastião, em novembro já estavam em Catolé do Rocha, Peixe, Caraguatatuba, de avião para Cambé, subindo o rio Gurupi até a aldeia dos tapirapés, uma semana depois passaram em São Pedro dos Ferros, e assim por diante, Itatiba, Três Rios, Batatais, Barra do Piraí, Rio do Sul, São Raimundo das Mangabeiras, Laguna, Jaguapitã.

       Ao fim do mundo inteiro.

       Extraíram coisas do tempo assim em fantasias reais, manhãs de sol, invenções de lagos, contando igrejas, árvores parecidas com bichos, pássaros insólitos, casas geminadas e uma de cada cor, acarajés, ruas tortuosas paralelepípedos casas antigas da velha cidade portuária, angaturama dos muras, rua 25 de Março, metrô na estação da praça da República, chuva repentina e quente e doce na praia de Jurerê.

       Uns seis meses depois e o casal se mudou definitivamente para a região do norte do país continente.