O general era
bom e bondoso e orgulhoso e valoroso e digno e colorado e festivo. Seu único
deslize em ter fraco por amantes.
Essa amante era viúva de outro
amigo general. Amante que certo dia chegou no ambiente do gabinete lhe dando notícias
preliminares de que estava esperando um filho.
De um dia para o outro.
Cabelos retilíneos, ombros
cacheados, brincos, colar, anéis em todos os dedos, cor verde um vestido
debruado procurando os joelhos de pernas grossas, olhos estudantes de altos mares
absolutos, seios afoitos, olhos cintilando, o relógio de pulso 16h e cinco,
oitenta graus de calor.
Ele se
sentou na cadeira ao contrário os braços cruzados apoiados no encosto. Se
desculpou, se uivou, se macerou, se retorceu, se asnou. Seus olhos efervesciam em
surpreendido, em siderado.
A
metafísica da consciência.
E a sorte
tenra e macia, evanescente, até.
O impávido
general, apesar de amar a amante honestamente e euforicamente, não podia sofrer
o escândalo que esse filho inesperado com certeza lhe traria. Durante dias esse
patriota de farda ficou pensativo procurando uma nobre saída. Então, lhe surgiu
na cachola a ideia resplandecente, original, leguminosa, redentora.
Deslizando
no liso teto azul da cor, o sol abriu os braços por diante das neblinas.
Precisava
o pássaro piririguá do dia ciscar o sol da manhã precisa.
As coisas
que o mundo eram leves cor coisa cumplicidade e perfumadas.
O generoso e terno general expôs
à amante a sua ideia que ambos debateram com prós e contras e talvezes. Se
deram as mãos e ele beijou as mãos dela em conchas. Então, a amante entrou no
acordo que isso aí assim mesmo era a única saída para o caso.
A mulher passou em revista a
tropa e cheirou mediu calculou pensou sopesou olhou muito bem seu futuro
marido. A boca entreaberta. As narinas acesas pesquisando os cheiros. Uma saia
branca plissada, blusinha cinzenta leve, os sapatos pretos de agulha, bochechas
chiclete de limão bonitas rosadas. Ela procurava um belo olhos claros e abre-alas
zagueiro de sobra. Alguém que não se distanciasse do general noventa e dois
quilos em quase nada. Escolheu um sargento boa-praça que por motivos alheios a
sua vontade ainda não casara e gostava de bichos de estimação.
O sargento
escolhido a dedo foi chamado ao gabinete do general onde lá também já se encontrava
a sua futura esposa. O espelho de cabelos louros, olhos bem de águas profundas,
pele de papel novo em folha, pernas e braços louros, olhos bem nítidos, boca
procurando um beijo, os seios de aconchegos, de transformações, de
deslocamentos, de sonos, de clarezas, de nuvens, de anjos parecidos. A janela
estava aberta para a rua com trânsito interrompido coagulado na esquina. Foi
uma conversa franca otimista de tarde inteira e regada a café ou suco de
abacaxi com bolachinhas de mel ou açaí. A grande caraná-branca atravessava a
rua com seus braços hercúleos. Os automóveis se acumulavam no cruzamento,
depois reagiam.
O destino
que convém a cada um é problema de cada um.
As curvas
do rio são propriedades do próprio rio.
Marcaram o
casamento para breve no final de setembro, no sempre e cobiçado despertar dos
ipês-amarelos, cumarus-verdadeiros, capitiçobas, pitaicas-pretas, embiruçus,
guaxixins, parajus, maçarandubas, caamis, barbatimões, gloxínias,
begônias-sempre-florida, petúnias, carandás-guaçus, buganvílias, jarinas,
jatobás-de-anta, e outras plantas magníficas.
A amante ficou feliz pois
teria um pai honesto amoroso dedicado presente carinhoso para seu filho. E o
sargento ficou feliz pois teria uma mulher e esposa e amante e a imediata
promoção aguardada.
A
oficialização do casamento foi às claras como na tradição, com pompa e
circunstância e música ao vivo. Ele olhou para ela e viu olhos de cristal. A
festa de arromba a dança do cururu em torno da piscina no clube XV de Novembro
em São Martinho da Serra. Ela olhou para ele e viu riacho corrente doce entre
as pedras roladas. Obviamente todos os amigos presentes olharam e murmuraram.
Como se
estivessem viajando uma nuvem bem alta enlevados sem ninguém por perto.
Andar de
trem para alargar os enigmas.
Viajando
em climas de diferentes latitudes longitudes e recém, sorridentes falantes
expansivos e aconchegados enamorados para tudo que se passava, e passou
Floresta dos Guarás, visitaram Balsas e Guapé e Resplendor, conheceram a cidade
de Itaperuna, seguiram para Guaraniaçu, Monte Santo, o vento de outubro soprou
seus cabelos pele nariz rosto os olhos de cristal, um calor com igual perfume e
uma alma com aroma feito de flor de jasmim-do-mato, na sequência Juazeiro do
Piauí e Sobradinho e São Sebastião, em novembro já estavam em Catolé do Rocha,
Peixe, Caraguatatuba, de avião para Cambé, subindo o rio Gurupi até a aldeia
dos tapirapés, uma semana depois passaram em São Pedro dos Ferros, e assim por
diante, Itatiba, Três Rios, Batatais, Barra do Piraí, Rio do Sul, São Raimundo
das Mangabeiras, Laguna, Jaguapitã.
Ao fim do
mundo inteiro.
Extraíram
coisas do tempo assim em fantasias reais, manhãs de sol, invenções de lagos, contando
igrejas, árvores parecidas com bichos, pássaros insólitos, casas geminadas e
uma de cada cor, acarajés, ruas tortuosas paralelepípedos casas antigas da
velha cidade portuária, angaturama dos muras, rua 25 de Março, metrô na estação
da praça da República, chuva repentina e quente e doce na praia de Jurerê.
Uns seis
meses depois e o casal se mudou definitivamente para a região do norte do país
continente.
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