segunda-feira, 5 de maio de 2014

Já Não Era Sem Tempo


     

       Era anestésico estúrdio engraçado porque o tempo ou o dono dele fazia o empilhamento das semanas, a semana acumulava os dias e as noites, o dia estocava as horas em fila indiana, a hora recontava os minutos passo a passo, o minuto dedilhava os bilros da renda... Tudo rolando morro acima desmanchando rio abaixo guinchando nas asas altas do caracará.

Quero ter esses poderes efeitos especiais e maravilhosos e absurdos e mitológicos de construir um mundo sonhado e parecido e sublimado. Um lugar sem experiência. Somente entrariam aquelas importâncias que fazem as pessoas espontaneamente jogar e gostar e rir e cantar.

E eu mas vou para lá!

Percebo que é em janeiro este findar de mês muito quente mormaços e correrias de andorinhas no entardecer.

A paisagem o laranja do céu oferecem tons inacreditáveis inefáveis e os dias magníficos vitrificados esplendidos, umas nuvens brancas bonitas desconfiadas tirando mágicas da sacola, araçás-do-brejo, cuipeúnas, igreja da Capela Dourada, aldeia arachane, rio Caparaó, Araci, Quijingue, Caturama.

       Estou indo. Já vou. Vou para esse lugar que tem o meu jeito e o meu cheiro e o meu gosto e o meu rasto. Embora sabendo pouco do que me espera. Um lugar o mesmo lugar cercado de lugares. Sem saber o que é que se vai fazer.

       Sem falar sem ouvir mais nada, somente ver, ou falar sempre ou falar demais, narrar, ouvir causos mentirosos de outras eras.

       Pronto, já arrumei as minhas malas e a minha alma. O que eu preciso, mais ou menos, já está por lá. Eu, com os poucos, preciso só de certezas.

       Subir a serra do Japi, entrar no rio, descer, sair do rio, erva-cidreira-do-mato, araruta-caixulta, galo-da-serra, só isso para fazer. No alcance se vê o mar caindo na tarde, pico do Jaraguá, seus cabelos saem para trás voando acelerados, Jundiaí, Cajamar, balança joga os cabelos para trás, guaricangas-de-folha-larga, ajajás, nuvens andando de sombra pelo mato pela encosta pelo rio pelos boqueirões.

       Sem jornais e revistas sem faces e tabletes, só um rádio tocando dia e noite as músicas locais e caiçaras. E como gosto de música, posso levar para lá os velhos ritmos dançantes as melodias tonais. Assim mais poesia encanto sedução mulheres cadência harmonia. Os de hoje e os antigos e os de sempre.

       Pode ser! Pode ser!

       A alegria e o sossego serão constantes. Não aquela história de rezar e penar e se conformar. Porque um lugar legal não precisa de esquemas, de sistemas, de governo, precisa só de sonho, e sonhos. Sem deixar de desejar a arte. Aquela sabedoria da paciência, das fantasias, da pintura, das pessoas sem medo. Nada sairá do controle. A sorte simples sem concorrência, sem desperdício, sem lixo, sem abandono. Cada um plantando o seu necessário. E todos os pássaros voltando em bando do mundo dos pássaros. E todas as árvores conversando com o vento. O rio na sua reta importante, araticum-cortiça, soroca, gameleira-branca, os catuquinaru, a praia do Perequê, a ilha de Santa Bárbara, a cidade de Tupaciguara, Malhada.

       Posso dizer agora. Pois agora há o que ver ouvir e dizer.

       Já estão chegando no trem da manhã a Vânia a Cinara a Joana a Marisa a Maria Clara a braúna-parda os acaraparaguás os sabiás-do-campo os tiús o casal de tchintchorrintchos a aldeia toda dos acarapi.

       Vão ver e vejam lá!

       Sem pressa se chega às lembranças, e vem açude, e vem escalada em pinheiro-do-paraná, e vem jogo de bola na chuva em tarde de domingo, noite de fogueira de São João com pinhão quentão casamento caipira, e meninas de cabelo nos olhos. A memória faz bem, a montanha, o rio subindo a serra, as árvores pintadas de amarelo azul, anhumas, curubás, aratingas-de-bando.

       E isso tudo é praticamente certo!

       Elena se parece com pandorga ao vento, Irma parece com a lua crescente, Carmem é com flor de anavinga. As pessoas e os bichos se parecem com coisas, avião, barco, caju, nuvem, joana-guenza, aracuã, curiango, serra da Borborema, rio Curimataú, Pirpirituba, Bananeiras, Jaboticatubas.  

       Temos várias praias com valor agradável. Uma praia para cada dia do ano para cada aniversário para cada carnaval. E outras coisas como sol, árvore, lua, cachoeira, estrela, brisa, ana-velha, jaraticaca, gruta, flor-de-maio, jirimato, serra da Cantareira, rio Urucuia, Itabira, aldeia bacairi, enfim, me esgoto me canso. Assim, esse mundo novo é ser farto de imaginação de entretenimento.

       Olhando as coisas, as naturezas, a natureza, as coisas olhando vendo enxergando escutando apreciando. Estrelas leves elétricas endêmicas sortidas roucas sociáveis. Escolher chocolate, sorvete, guaraná.

       Plantamos malva-do-campo cana-brava embaúba-puruma juá-amarelo cará-do-mato leiteira caraipé guaxima sangue-de-drago angelim-coco e também milharais mandiocais para colher espigas verdes pamonhas beijus tapiocas pipocas e replantar.

       A anatômica Jurema tem o hábito de me chamar de “meu bem querer”, a Beatriz tem o gosto de me chamar de “meu amor” ou simplesmente “mor”, a Ana Carolina tem o sentimento de me chamar de “querido”. 

       Ela ri como sempre e os dentes aperolados. Ela tem suas delicadezas. Ela fazendo importância com o que gosta. Ela jogando a vasta crina ondulada penteando com os dedos afeiçoando atrás das orelhas. Ela pernas recolhidas sobre a esteira. Ela me agradecendo “muito obrigada” com mão no peito.

       O céu assim assim como em tratamento de arte pintado de verde. Certeza de chover no fim do período e dever cumprido.

       Cada dia chegam mais figuras. Como ficam sabendo? Vêm gentes e bichos montados na canoa.

       Até mesmo os marmanjos as mulheres as crianças os cavalos as flores as arancins os anduiás os joões-botinas as marrecas-piadeiras as formigas-de-novato todo tipo de sorte as gabirobas as jabuticabas os uiratatás os iraúnas todos aprendendo a fazer barcos de papel de papelão de gravetos de palha, agarra-pés, malvariscos, chibatãs, sorvas-grandes.

       A Irene conta as suas passagens as suas aventuras as suas façanhas com viagens com maridos com filhos com enteados por outros lugares, rio Carinhanha, e Nova Prata, Varre-Sai, Guaçuí, Terra Rica...

       O caminho das montanhas, a serra, os chapadões, a chapada, os campos, o campo de cima da serra, os vales, algum vale seguindo rio córrego ribeirão sanga, o caminho da floresta, as trilhas pelo mato conhecendo árvores e aves e orquídeas e colibris.

       Uma porção de olhos femininos e lábios e braços e abraços e pernas, joelhos e tornozelos, olhos celestes, olhos esmeraldas, olhos luminosos, em quantidade em qualidade em procedência.

       Sempre em turma, enturmado, turma segue para a beira do rio, turma para acampar na montanha, para a praça, para a copa das árvores, para a inauguração do sol, turma para a expectativa dos discos voadores, para o eclipse lunar.

       Uma pessoa viaja quando quer viajar!

       Mas e assim não se passam os dias os anos a sorte nem os rios.

       Pois, então, um mundo das lendas não tem limites, é do sem fim. A surpresa fazendo o colorido da imaginação. Muito mais coisas que o homem inventa ou deixou para Deus criar. A festa nunca acaba no melhor da festa.

      

 

        

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