Onze horas
o avinhado já cruzou e recruzou inúmeras vezes o ar do quintal. As nuvens com
cara de avião supersônico andando rumo para o sul. Estrondos saltados do
caminhão-tanque passando acelerado na rua estreita de paralelepípedos. Meio dia
e vinte o sol as dissolveu. O cantando como nunca no pé de macaúba-barriguda.
Quinze horas em ponto batuques do outro lado do bairro já anunciando e dando
conta de que o carnaval fora de época era mesmo aí.
Bom para uma
mãe é ver que sua filha arrasta por onde passa todos os olhares dos rapazes.
Ruim e péssimo para o pai é perceber que esses todos masculinos desejam farejam
babam noite e dia como perdigueiros suados pela puríssima filhinha criada a
pão-de-ló, zelo e segurança. E se essa menina tiver irmãs, estas terão uma
santa inveja aquecendo o peito. E se tiver irmãos, estes terão um santo ciúme
batendo no interior da cabeça e atiçando as orelhas de burro.
Nuvens
mudando de bichos para coisas. Depois a lua em alma muito lentamente. Mais as
estrelas polvilhando o céu. Um avião específico. Depois o mar a praia os
caranguejos conviventes coniventes comovidos comoventes.
A casa azul-clara com olhos
brancos, telhado de telhas vermelhos-velhos feitas em São Sebastião do Caí, uma
elegante e alta palma-branca ancorando tudo o peso da sombra cabelos ao vento desde
o céu até o mundo.
Me lembro
dela bela menina e vizinha ao chegar na manhã espiritual muito cedo à escola do
bairro. Era a primeira vez que aparecia em público e que a víamos solta vestido
azul-marinho plissado camisa branca longas meias brancas sapatos pretos de
fivela e nos cabelos a tiara de flores perfumosas conquistada ao
alecrim-de-são-josé. Ela tinha quesitos como os olhos rasgados e imensamente
verdes iguais às folhas das magnólias-do-mato depois da chuva. E uma pele lisa
e rosada de peixinha de aquário agitada mas feliz. O cabelo anelado loiros
olímpicos pouco abaixo dos ombros. Não era para mais nada, mas isso já enchia
toda medida e ia além da conta de qualquer um de nós expectadores incidentais
esgazeados.
O inventor
dos rios das montanhas dos bichos tilintar das juritis manha dos mocós camuflagem
dos tiús mergulho dos curimbatás empreendedorismo das sarassarás das árvores
verdes azuis amarelas, etc.
Num certo
templo ela era intocável luminosa oxigenada parabólica. Eu gostava de vê-la
jogar vôlei no meio da quieta rua Itália pular distância na cancha de areia da
praça nadar na piscina do clube esportivo saracotear no carnaval da sociedade
recreativa. Seu lindo sorriso fazia uma fortaleza com muros altos e bem
brancos. Perto dela eu ouvia mais que falava e ela queria aprender a andar de
moto.
Um olhar
além do tempo. Que tinha de futuro. Que esperava mais das naturezas. Aonde vai
se chega se retornará.
Nós
ficávamos ao seu redor como mosquitos na sopa do mel. Cada olhar seu dirigido
por acaso a um de nós era comemorado como o gol que a Seleção faz na Copa. No
inverno era a única pessoa que víamos vestida de luvas pretas sem dedos
cachecol verde-musgo e touca do colorado com pompom; os dedos de unhas pintadas
cada uma uma cor e o rostinho emergindo como de bichinho doméstico pedindo
carinho e as pontas dos cabelos com vontade de puxá-los. Ela era de distribuir
tantos gols quanto o número de jogadores e admiradores em a sua área. E como foram
longe como repercutiram as poucas horas da sua aparição aparição. Sagrado era
aquele lugar onde existia uma deusa uma santa uma anja uma princesa uma
beija-flor-safira uma modelo que sabia caminhar na linha.
Fios
finíssimos de água enredavam a luz do dia numa teia úmida e fria de chuva. As
ruas em perfeito estado de espelhos de água. Uma mulher por acaso andando na
calçada espremeu à mão os cabelos loiros molhados de ponta a ponta. Andorinhas
riscavam o espaço e retornavam aos ninhos nas abas da casa verde de olhos
azuis. Depois ruas prédios carros pedestres tomando banho de chuveiro. Quase
sem querer, pois era uma manhã de sábado para outono. Chuva diagonal. Os carros
fungavam zuniam chiavam.
Ela era
linda de sol de noite de dia de chuva de lua, indo e voltando. E os caracóis
tapavam as orelhas no lugar certo, mas engraçada com movimentos e tudo. Caso
fazia sol e ela não aparecia era como se o calor e o verão não fossem o que a
gente queria.
As matas
cobertas de montanhas que resistem ao remar do mar. Não era hora de perguntar,
responder. O vento molhava o inverno nas folhas verdes. Sempre o rio que desce
pelo caminho livre. Para o sul, cidades bonitas e filosóficas Ituitava
Caratinga Tocantins Jequié Jaguaquara; para o norte, cidades amáveis e
sensacionais Princesa Sarapuí Jumirim.
Não foi só
a menina da tarde, mas a menina dos olhos dos sonhos eternos de nossos sentidos.
Qualquer canto que pousasse parecia que ali o sol se punha, o tempo abalava, a
festa explodia, a história se escrevia, o mundo se expunha, a história
acontecia. E para quem achava que Deus não se manifestava... ela sorria
amavelmente toda a prova todo o milagre todo o bom gosto todo o bom senso toda
a majestade com olhos de tinta azul transparentes e molhados de luz.
É bom que
se diga.
Ela
viajava na nossa imaginação. Era enigmática como uma manjerona-do-campo. O sol
das horas silencioso e contrito se inclinava para o laranja da tarde, etc. Se
vestia perfeitamente como uma flor-de-lã. Mas ela mesma pensava muito mais
rápido ainda.
Olhava e nos ouvia sem querer ver ou entender. Adorava o quê!?,
que não se mexia ao seu redor.
A poderosa lua acende seu farol e sobe a montanha já entre as
primeiras estrelas. Dizem que os homens se parecem com Deus descendem de
macacos-pregos e que um dia caíram na terra vindos Adão de um planeta distante
e Eva de uma estrela de outra galáxia evoluídos. Depois as nuvens indecisas
desbocadas descabeladas invejosas e sem rumo deitaram sal na terra.
Ela achava que os pássaros deram origem às árvores e as
árvores deram passagem aos homens. Que os peixes dos rios e mares vieram
serpeando das canas-do-mato das canas-do-rio deixando rastos de lagartos e
pularam para as águas. Daí, que os peixes que retornaram à terra firme foram
tomando forma de tatus capivaras lagartos lagartixas ipecuás pombas-amargosas
titicuãs arapaçus-de-bico-preto. Fosse lá o que fosse, embora, o mundo todo
começou na água. Nuvens em forma de chapéu, quaisquer chapéus.
Volta e
meia sem aviso prévio e surgindo aparecendo do mato, os irmãos chegavam como
quem não querendo nada e ameaçavam com olhares de bracaiás insones e atitudes
bruscas e dentes à mostra e punhos armados de garras e roncos de bugios:
- Te
cuida, fulana!
As irmãs
conversavam muito entre si preparando os quitutes da família e sempre risonhas trocavam
favores e receitas se davam conselhos e indiretas em tom de experimentadas:
- Porque
são todos iguais, uma vez!
E besouros
e borboletas em seus voos assim vibrando com asas de matéria plástica
invisível. Ciscar de cavalos e bois nelores nos jardins da praça Frei Baraúna.
Nuvens desatentas umas e outras.
Custoso
admitir e ter certeza, mas ela tinha sua própria e exclusiva vontade. Um jeito
de olhar habilidoso e persuasivo, mas bonito doce pedinte.
Os guris
que chamavam sua atenção verdadeiramente: os que a surpreendiam sempre com
brinquedos engraçados ou violão: os que eram tímidos e assustados e
desentendidos. E ela naturalmente fazia um esforço para retê-los na mente nos
olhos na pele no rastro do futuro.
Mas se
comportava como deusa.
O sol
procurava afastar as nuvens balão. A mulher e o barco subiram ao rio Una. O rio
uma superfície planejada. E escoavam mulher barco e rio. O rio jogando consigo
com ela e com o barco. Trabalhavam juntos enquanto a conduziam em viagem.
Depois ela projetou sua imagem nas águas e escolheu as cidades a cidade o
chamado das paturis a rua a casa verde com janelas verdinhas.
O rio é
uma coisa e um círculo. Desassossegado dizer de um rio que nunca se separa de
ser ele mesmo dentro de si a favor e em volta de si.
Com diferentes
economias, a família morou pelo custo de quatro anos em tantos bairros como
casas de aluguel, São Cristóvão, Sagrada Família, Coroados, Basalto, Retiro,
São João Bosco, Santa Cruz, Rio Branco, São Peregrino, São João, Três Mártires,
alguns uma vez outros duas três quatro vezes.
Era muito
mais para ser bonita, ela queria cantar, queria fazer sucesso, queria ter fãs
onde quer que fosse aqui ou no exterior. Ganhou um celular bem maneiro no aniversário
de 15 anos e uma viagem a escolher para Foz do Iguaçu ou Bonito.
Mas o
vento não é a mesma coisa do rio e do tempo. A agradável sombra das jaturanas
agradáveis. A árvore na embaúba-verde. Andando por entre uvás, piúvas,
bocaiúvas, tapaiúnas.
Quando
juntamos nossos olhos e começamos a dançar - me lembro como se fosse hoje hoje -,
o salão apertado e muito calor, também um irmão dela com aquela recomendação
impertinente de maritaca:
- Te
cuida, hein, fulana!
Pelas
conversas talvez ela preferisse morar em Barretos, Jupiá, Itabi, Rio Azul, Pontão,
Iguape, Ponte Nova ou Laranjal Paulista.
- Reconheço
que um dia conheço o rio Piranga, a lagoa Opaia, os tingui-botó, o palácio do
Campo das Princesas, a serra de São Francisco.
Deus na
sua extrema e perfeita engenharia fez aquela guria um presente para nossos
olhos cansados de desertos. E fez um poema também um tesouro um diamante um estuário
uma Capitu. Porque não sossegou enquanto não a obrigou a casar com um forasteiro
mais em conta.
Os irmãos
então ergueram as mãos aos céus aleluia cruzaram os braços agradecidos descansados
relaxados divertidos bem humorados bem conformados nas orelhas de abano e as
irmãs bocejaram com enfado a mão na boca e os sorrisos camuflados.
Nada de diferencial
no dia seguinte e ela nem sequer me olhou.
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