domingo, 9 de março de 2014

E Teve Mesmo


      
       Nuvens inúmeras carregadas de objetos cortantes perfurantes broqueadores procuravam nos topônimos as esquinas encruzilhadas auspiciosas propícias para um despacho.

       Não fazia calor nem fazia frio, e o rio de passagem em passagem em plena longevidade. Vento das onze horas confuso ou empolgado ainda não sabia por onde andar, etc.

       Têm coisas tudo que se parecem com um rio e são.

       Uma vez chegou ao povoado intrépido diligente um jovem sacerdote da igreja clássica. O burgo ansiava pelas missas aos domingos e aos sábados e aos dias santos e aos batizados e etc. O caudilho comunicou ao sujeito padre, junto à pequena progressista comunidade, para que assumisse as ordens religiosas na branca e tosca capela. Esse sacerdote aceitou, e louvou e evangelizou e pregou na missa aos domingos, sábados, feriados de dia santo e nacionais. Chovia copiosamente.

       No dia seguinte, ao alvorecer e ao alvorecer, o pequeno lugar começou a crescer a pegar, len-ta-men-te, ares de cidadezinha. Raras nuvens altas presas ao céu rajado aberto engraçado metálico. Todo mundo conhecia aquele céu diáfano imponderável e de beleza exemplar. O sol surgiu atrás do novo dia, milagrosamente.   

No entanto, a cidadezinha sestrosa não tinha certeza de nada. Olhava o nada, de onde dizem, vem o futuro.

       Uma taviriri com meia tonelada de madeira de lei nas costas às costas. O planeta estava redondo. Vieram gentes de Porto Calvo, Abreu e Lima, Arujá, Piratini, Areias, Poá, ilha Mangunça, Lagoa de Itaenga, pico Piraí. Os mangaritos tocando flautas travessas. Automóveis esportivos pintando paredes temáticas. Os jupiedis tilintando triângulos equiláteros. Bicicletas sorvendo sucos e mais sucos de abacaxi por causa do calor por causa da dieta por causa do sabor. Os gogós-de-guariba estreitando as harmônicas. Lojas de departamentos correndo atrás do almoço. A lua completando o céu, tem apenas e por isso mesmo o prazer de seduzir, depois de sacudida pelas pontas de galhos das calungas dos maús das coiranas-de-caravelas dos carás-açus das imburanas das almecegueiras-vermelhas das guaximas. Uma gostosa macaíba cantou aquela composição memorável de carnaval passado, “alá lá ôoo!... mais que calôoo!...” Avião teco-teco comendo algodão-doce caminhando displicentemente de mão dada com a babá bimotor no parque 13 de Maio. E chegaram gentes novas de Lavras do Sul, Glória do Goitá, Boqueirão do Leão, Chuvisca, Icaraí de Minas, São José do Barreiro, rio Paraná, Largo da Concórdia, obelisco do Piques. A gata do vizinho braços cruzados na janela do primeiro andar. Uma lata de óleo comestível marca Guaiaúna estendida ao sol das 14h e 30min em janeiro. A senhora dona Francisca Caiçara de Guaiamum vende-se inesperadamente uma camionete verde marca modelo ano meia sete em estado a partir de tais reais ou à vista. O céu voltado para a lua cheia para as estrelas decantadas o meteorito com cauda de vassoura. Que horas são 18h então com toda a natureza chovendo em Belém e em toda a região Amazônica. O mundo não era redondo, ok!?, e coisa nenhuma.

       Depois de dois anos compreenderam que uma igreja mais forte mais alta mais larga mais moderna mais aguda mais acústica era necessário em substituição da pioneira, em nome de Deus e de São Cristóvão o padroeiro da cidade. A igrejinha ficaria como relíquia como sagrada como pintura como cartão-postal como procissão como novena até que o tempo a levasse. Assim, em ritmo de urgente urgentíssimo, foi pensada a nova casa do Senhor das estrelas dos rios das montanhas.

       O rio, do meu tempo, mudou de lugar. Naquele tempo, o rio era puxado por um ímã. O rio encontrado perto (tomando banho junto com araguaris, canaranas, primaveras, pitiás, jataís) de uma sanga, por acaso.

       Mas e os recursos, meu Deus?! O povo se organizou, e se realizaram missas e festas e quermesses, torneios de laço de futebol de baralho, bingos e rifas e sorteios e tômbolas, esmolas e doações e livros de ouro para acumular fundos. Todos trabalhariam seus seis dias em mutirão tudo dependendo de todos e Deus de si para o andamento da obra.

       Outras nuvens afoitas, agora mesmo, conversaram animadamente com algumas árvores vistosas verdes naturais endêmicas canafístulas manjeronas-do-campo cebolas-do-mato coroas-de-frade quebra-pedras ipês-tabacos jequitibás-rosas. Mais nuvens passaram discretamente a seguir com o vento oblíquo. Árvores pensativas olhando o rio elástico, logístico, vistoso, quebradiço, etc. De repente, um pouco, altas guabirabas sacudiram as copas perguntando se já era hora do almoço. Sem demora, agorinha mesmo, os fumos-bravos (dos verdes universais e comportados) consultaram as sombras espichando o ouvido para músicas de irapuãs cabatatus besouros zabelinhas joaninhas. Ares de engorda planejando pela planície, espaço refulgente. Céu rasurado de nuvens atarefadas, dois três oito nove bugios uma família numerosa espertos irrequietos desobedientes caminhando de galho em galhos. Se perceberam árvores silenciosas perdidas em seus próprios pensamentos ou induções. Era disso que os jasmins-do-mato mais gostavam. Era disso que os alecrins-do-campo mais apreciavam. Era disso que as capebas-cheirosas mais adoravam. Muitas jias e muitos sapos bufantes se mexeram colheram engoliram e sorriram a esmo, praticamente.

       Escolheram um lugar mais apropriado no alto do morro escorregadio que observava bem a cidade de beleza consoladora de ruas poucas e necessárias e caprichosas praça com a bandeira desfraldada. Uma alta escadaria terminada com um cruzeiro de madeira de lei serviria até de romaria para os devotos. Plantaram a cruz de jurema-branca a escada com trezentos e trinta e três degraus de concreto e iniciaram os fundamentos das obras do templo.

       A lua só pensou em si. Mas todos se perguntaram: muito sobre vários temas. Nenhum som e um movimento fantástico. A claridade atômica. Como nessa noite, que subiu até o meio das horas e choveu.

       Vieram trabalhadores de muitos distritos e bairros e profissões mandados pelas famílias. Em seguida uns bois cavalos e carroças, tratores caçambas e caminhões nos fins de semana. Pedras e ferros e madeiras e vidros e plásticos e panos de cada pequenina empresa do lugar. Reboaram martelos machados e serrotes desde as horas mais serenas. E tudo mais de necessário.

       O contemplativo rio Pirangi corria nessa hora honesto e exato. E mais abençoado seja por isso.

       Sempre o tempo passava insuspeitado de gervão-cheiroso de cambacica de caiabi de timbu de pedra em pedra.

       A igreja nova lutou anos para se erguer e conseguiu. Inauguraram com todas as luzes da manhã de domingo de sol pelos vitrais coloridos na festa de São Cristóvão e já com algumas andorinhas corruíras instaladas no sobrado da abóboda.

       O rio que passa dia a dia, mais dia menos dia, de noite e de dia.

       Então, poucos dias após, o padre envelheceu e morreu enlutando a paróquia. Ser índio da tribo cauaíbe era o melhor que ele gostaria de ser. Bateu asas uma vez na primeira porta do céu celeste. Ser uma siriúba era o que melhor ele gostaria de ser. O velório foi na igreja nova em folha. Ser um rio Camaquã era o que de melhor ele gostaria de ser. Os setenta e oito anos não foram setenta e oito dias ou setenta e oito horas. Ser uma irara era tudo o que melhor gostaria de ser. Nenhum parente do padre vindo da sua cidade natal Santana do Ipanema lá em a distante província de Sergipe, mas toda a cidade que escolheu e que o acolheu se apresentou. Ser uma maria-farinha era o que muito embora gostaria de ser. A coruja ululou e o sacerdote virou conselheiro bento beato milagreiro pajé mágico caboclo místico. Ser um corricho era o que de melhor gostaria de ser. O caixão foi posto debaixo no cavado mesmo junto aos alicerces das colunas principais e centrais e colossais da igreja. Ser um acari era o que muito melhor gostaria de ser. Nem mesmo hoje soube da sua própria e verdadeira estatura. Ser um uracaçu era o que muitíssimo melhor gostaria de ser. Um santo como aqueles de estátuas paciências santinhos dia nas folhinhas padroeiro de cidades. Ser um maracajá era o que por mais gostaria de ser. E bom bondoso bonachão na terra como no céu. Ser um papa-cacau era demais que gostaria de ser. Nunca mais apareceu nem notícias suas voltaram.  

Reprovava reprovava a teimosia a reincidência. Passava horas sentado embaixo do mororó. Parava as horas para ouvir o gorjeio do pintassilgo-do-campo da lavadeira-de-cabeça-branca do gaturamo do pixoxó do uru do sanhaço do guaxe do tizio o perfume da flor do caroá o sumo da pitomba o som do arroio entre as pedras trelando sozinho e o Hino Nacional. Interessado estudante dedicado pesquisador entomologista de gosto esportivo com cartas e e-mail trocados com faculdade de Mogi das Cruzes.

Pode ser... porque é Deus quem sabe.

As pessoas vêm de perto e de longe, Guiratinga, Itacoruba, Coromandel, rio Pardo, serra do Espinhaço, conforme, para se ajoelharem nas duas lajes significativas e santas como a estrela e a cruz. Depositam presentes orações beijos carinhos sorrisos. Querem saber o que aconteceu. Compram artesanatos moldura com estampa velas de cores diversas bananas maduras fitinhas para amarrar no pulso chapéu de palha trançada da imburi água mineral.

 

        

 

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