domingo, 16 de fevereiro de 2014

Sei Mais Lá O Quê


      

       O rio passa solto mineral blandicioso pela mão estendida, o sol pousa dourado nas costas logogramadas da borboleta-da-restinga, o vento fecha um pouco os olhos, as simarubas avançam dois passos abrem as asas na sombra inclinam os troncos sobre o imponderável.

       Somente a sorte tem jeito.

       Pressentimentos, premonições ora com sol ora com lua ora com chuva.

       Assim na terra no mar como no céu.

       Sem quê nem para quê.

       Mais assim, sem mais nem menos.

Um dia aquela guria bonita (mas poderia ser qualquer uma) que só vendo, se apaixonou por um cara de metro e sessenta e cinco assim como ela, olhos pretos saltados, rosto sempre bem barbeado, brinco na orelha direita, tocador de violão, ensino médio incompleto assim como ela, contador de causos, nariz adunco, pomo-de-adão saliente, barraca armada de improviso, voz de locutor, não rico assim como ela e que sabia rir cristalino com extrema facilidade. Eles se desejaram muito, amor de verdade, amor à primeira vista, amor fulminante, amor presente, amor aventura, amor perfeito, amor apurado, amor sem maiores explicações, e decidiram se juntar para ontem imediata e ardentemente. Só que...

       O pai a mãe os irmãos as irmãs, família numerosa da Guajiçara, não aceitaram o relacionamento nem quiseram saber do amado namoro da filha ou da irmã. Descartaram quaisquer hipóteses dos dois chegarem a namorar ou noivar ou casar e ter filhos. Impensável mesmo. E abriram o jogo para a dupla de sabiapocas.

       A guria, então, brigou contra os familiares com cabelo desgrenhado com soluços com garras com dentes cerrados com uivos com braços cruzados com socos no travesseiro fofo com profundo amor-próprio com doida nos olhos. E foi trancada no alto do prédio onde moravam no quinquagésimo oitavo andar. Sofreu tanto que começou a chorar chorar e chorou quase sempre... Nossa Senhora de Aparecida! Chorou tanto que inventou um dilúvio particular. O lago foi subindo e subiu tanto que toda a cidade e o mundo ao redor ficaram debaixo da água no mar afogados submersos inundados.

       A guria viu uma mulher de saia em forma de sino tocando violão com os dedos da mão esquerda e achou que poderia, viu uma beldade de olhar de jaguatirica fazer ensaio artístico e também fascinou, viu uma pilota de boné num jato voo rasante e também achou, viu uma mochileira de bermuda cheia de bolsos visitar Belém do Pará, ilha de Comandatuba, aldeia machineri, Tracunhaém, Gurinhém, Mari e ainda mais achou que também, viu uma atleta medalhista rabo de cavalo jogando as olimpíadas de Pequim e também idealizou, etc.

       Viu uma garota vestida com roupa enfeitada de ouros e diademas com as flores de rainha-do-abismo e também gostou. Viu uma Iemanjá de pés descalços andar sobre as águas verdes e também adorou. Viu uma modelo em trajes de sol pisar a linha imaginária na areia branca da praia de Araçagi e também amou. Viu uma colibri borboletear de loja em loja e pagar suas contas com seus próprios cartões e também enfeitiçou.

       Logo pensou em virar camurim em virar guatapará em virar papa-vento em virar juruva em virar caravela em virar nuvem branca, e abria os braços cabelos ao vento decote insinuante narinas acesas procurando as asas da imaginação.

       Quatro sóis, quatro luas, quatro horas da tarde, quatro irmãs na janela do quarto andar esperando a lua no quarto crescente. Quatro gerações de tamanduás-bandeiras com seu campo de cupinzeiros prediletos.   

       Um dia pediu doce de abóbora, segundo dia pediu doce de cajá, noutro uma bebida verde ou azul, dia indeterminado um prato cheio de macarrão com molho de tomate, uma semana intermediária para O Guarani que leu até a página trinta dobrando uma orelha.

       Olhando a chuva e o céu velado, contou uma chaminé duas casas três homens bebendo quatro cervejas oito aviões largando dezesseis rios de fumaça de seis cores.

Após o banho e passar perfume andava nua ia de um lado para outro em passos contados pelo quarto seios opulentos joelhos na mesma altura pente despenteado - um convite aos binóculos indiscretos dos prédios e andares vizinhos.

       Depois pensou na cor azul na cor verde nas cores suas preferidas nos encontros de cores e nuances e contrastes e tonalidades do bem-te-vi-pirata.

       Visitou o face telefonou e apareceram pizzas, batatas-fritas, saladas de frutas, massas-folhadas, cor de cabelo, cremes à base de óleo de sebipira.

       Como queria ter filhos, e sonhava, pensou em comer brócolis, o outro dia com a dieta dos sucos de frutas e de legumes, outra vez nos sorvetes coloridos e sem açúcar, pediu até uma cerveja gelada zero cal, ginástica localizada, tatuagem na batata da perna.

       A qualquer hora do dia ou da noite, quando sentia, ela parava na frente do espelho de corpo inteiro e olhava para seus cabelos afofava amarrava escovava alisava sopesava as pontas esticava balançava enfeitava e os beijava com ela ali dentro olhando fascinada olhos brilhantes terna gostosa olhos castanhos se glorificando.

       Um doce de abacaxi com mangaba, ingá-doce com sabor de guabiju, gabiroba apetite de caju, mangangás guarupus na pitombeira-de-marajó.

       Queria um ano de férias em extensão pela Amazônia legal conhecer os rios da direita da esquerda, depois retornar para a axila de Deus atrás da folha do guajará-branco.

       Ao deixar o mundo assim no mais, pensando em voltar no corpo de uma guaiquica, ela no corpo de uma aguapé, ela quem sabe no corpo de uma formiga-cordadeira, antenas ligadas totalmente num espírito formiga, “já sei, caminho até encontrar uma boa árvore, já sei, subo na saca-rolha, já sei, arranco uma fatia de folha verde, já sei, caminho de volta ao ninho, já sei, muito caminho e muito caminhar, já sei, chego no formigueiro deposito a porção de folha, já sei, volto pela mesma trilha junto com companheiras apressadas, já sei, subo a planta outra vez, já sei...” 

       E pensava em outras coisas, o derretimento dos polos, o aumento do nível do mar, o aquecimento global, as chuvas torrenciais na região de Goiana, as secas no rio Mearim, os invernos abaixo de zero em Chaval, as temperaturas altas em Pirassununga, o desaparecimento da lua por dentro da serra do Mar vestidas de azul.  

       A inundação durou o tempo do seu desassossego, uns 40 dias e umas 40 noites. Só se salvaram do dilúvio quem ela rezou para se salvar, ou seja, os peixes do lago do jardim jurupocas piraputangas acarás-discos bajurquis piabas, pois esses sabiam nadar; os passarinhos anambés-de-rabo-branco bate-bicos sebinhos coroas-de-fogo ajurujurás socós-bois-baios tangarás pichororés, pois esses se abrigaram no alto da torre junto com as antenas e lhe fizeram companhia nos longos dias; e, principalmente, o seu namorado amado e idolatrado e salve salve Meruquiá, que, como filho de pescador, tinha um bom barco e sabia aguentar as ondas para chegar até ela pela janela aberta.

       Quando Meruquiá chegou a Guajiçara parou de chover. As ondas acalmaram, o sol apareceu, nhambumirins piaram na sombra do capão, os sons que eram da tarde, as águas foram se esgotando até a normalidade, ruídos sem importância na tardezinha, as estrelas contaram até mil, o rio Taperoá desenhou a fita, a lua veio olhar o lago, notícias quase secretas do fundo do mar, a iara emergiu para pentear melhor os longos cabelos negros e lisos. Um outro mundo, assim do tipo de mata atlântica de comercial, surgiu no novo mundo que era somente para eles.

       Não havia mais nada a dizer a escutar, o que tivesse de ser e seria, amor aconchegante amor interminável amor desinibido amor atraente amor depurado amor incoercível.

       Que desejo de transpiração, que desejo de transfiguração.

       Foram felizes até onde sei, e vão bem, e são muitos que apostam sempre assim mesmo sem parar.

        

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