O rio
passa solto mineral blandicioso pela mão estendida, o sol pousa dourado nas
costas logogramadas da borboleta-da-restinga, o vento fecha um pouco os olhos, as
simarubas avançam dois passos abrem as asas na sombra inclinam os troncos sobre
o imponderável.
Somente a
sorte tem jeito.
Pressentimentos,
premonições ora com sol ora com lua ora com chuva.
Assim na
terra no mar como no céu.
Sem quê
nem para quê.
Mais
assim, sem mais nem menos.
Um dia aquela guria bonita
(mas poderia ser qualquer uma) que só vendo, se apaixonou por um cara de metro
e sessenta e cinco assim como ela, olhos pretos saltados, rosto sempre bem
barbeado, brinco na orelha direita, tocador de violão, ensino médio incompleto
assim como ela, contador de causos, nariz adunco, pomo-de-adão saliente, barraca
armada de improviso, voz de locutor, não rico assim como ela e que sabia rir
cristalino com extrema facilidade. Eles se desejaram muito, amor de verdade,
amor à primeira vista, amor fulminante, amor presente, amor aventura, amor
perfeito, amor apurado, amor sem maiores explicações, e decidiram se juntar
para ontem imediata e ardentemente. Só que...
O pai a
mãe os irmãos as irmãs, família numerosa da Guajiçara, não aceitaram o
relacionamento nem quiseram saber do amado namoro da filha ou da irmã.
Descartaram quaisquer hipóteses dos dois chegarem a namorar ou noivar ou casar
e ter filhos. Impensável mesmo. E abriram o jogo para a dupla de sabiapocas.
A guria,
então, brigou contra os familiares com cabelo desgrenhado com soluços com
garras com dentes cerrados com uivos com braços cruzados com socos no
travesseiro fofo com profundo amor-próprio com doida nos olhos. E foi trancada
no alto do prédio onde moravam no quinquagésimo oitavo andar. Sofreu tanto que
começou a chorar chorar e chorou quase sempre... Nossa Senhora de Aparecida!
Chorou tanto que inventou um dilúvio particular. O lago foi subindo e subiu
tanto que toda a cidade e o mundo ao redor ficaram debaixo da água no mar afogados
submersos inundados.
A guria
viu uma mulher de saia em forma de sino tocando violão com os dedos da mão
esquerda e achou que poderia, viu uma beldade de olhar de jaguatirica fazer
ensaio artístico e também fascinou, viu uma pilota de boné num jato voo rasante
e também achou, viu uma mochileira de bermuda cheia de bolsos visitar Belém do
Pará, ilha de Comandatuba, aldeia machineri, Tracunhaém, Gurinhém, Mari e ainda
mais achou que também, viu uma atleta medalhista rabo de cavalo jogando as
olimpíadas de Pequim e também idealizou, etc.
Viu uma garota
vestida com roupa enfeitada de ouros e diademas com as flores de
rainha-do-abismo e também gostou. Viu uma Iemanjá de pés descalços andar sobre
as águas verdes e também adorou. Viu uma modelo em trajes de sol pisar a linha
imaginária na areia branca da praia de Araçagi e também amou. Viu uma colibri borboletear
de loja em loja e pagar suas contas com seus próprios cartões e também enfeitiçou.
Logo
pensou em virar camurim em virar guatapará em virar papa-vento em virar juruva
em virar caravela em virar nuvem branca, e abria os braços cabelos ao vento decote
insinuante narinas acesas procurando as asas da imaginação.
Quatro
sóis, quatro luas, quatro horas da tarde, quatro irmãs na janela do quarto
andar esperando a lua no quarto crescente. Quatro gerações de
tamanduás-bandeiras com seu campo de cupinzeiros prediletos.
Um dia
pediu doce de abóbora, segundo dia pediu doce de cajá, noutro uma bebida verde
ou azul, dia indeterminado um prato cheio de macarrão com molho de tomate, uma semana
intermediária para O Guarani que leu até a página trinta dobrando uma orelha.
Olhando a
chuva e o céu velado, contou uma chaminé duas casas três homens bebendo quatro
cervejas oito aviões largando dezesseis rios de fumaça de seis cores.
Após o banho e passar perfume
andava nua ia de um lado para outro em passos contados pelo quarto seios
opulentos joelhos na mesma altura pente despenteado - um convite aos binóculos
indiscretos dos prédios e andares vizinhos.
Depois
pensou na cor azul na cor verde nas cores suas preferidas nos encontros de
cores e nuances e contrastes e tonalidades do bem-te-vi-pirata.
Visitou o
face telefonou e apareceram pizzas, batatas-fritas, saladas de frutas, massas-folhadas,
cor de cabelo, cremes à base de óleo de sebipira.
Como queria
ter filhos, e sonhava, pensou em comer brócolis, o outro dia com a dieta dos
sucos de frutas e de legumes, outra vez nos sorvetes coloridos e sem açúcar,
pediu até uma cerveja gelada zero cal, ginástica localizada, tatuagem na batata
da perna.
A qualquer
hora do dia ou da noite, quando sentia, ela parava na frente do espelho de
corpo inteiro e olhava para seus cabelos afofava amarrava escovava alisava
sopesava as pontas esticava balançava enfeitava e os beijava com ela ali dentro
olhando fascinada olhos brilhantes terna gostosa olhos castanhos se
glorificando.
Um doce de
abacaxi com mangaba, ingá-doce com sabor de guabiju, gabiroba apetite de caju,
mangangás guarupus na pitombeira-de-marajó.
Queria um
ano de férias em extensão pela Amazônia legal conhecer os rios da direita da
esquerda, depois retornar para a axila de Deus atrás da folha do
guajará-branco.
Ao deixar
o mundo assim no mais, pensando em voltar no corpo de uma guaiquica, ela no
corpo de uma aguapé, ela quem sabe no corpo de uma formiga-cordadeira, antenas ligadas
totalmente num espírito formiga, “já sei, caminho até encontrar uma boa árvore,
já sei, subo na saca-rolha, já sei, arranco uma fatia de folha verde, já sei,
caminho de volta ao ninho, já sei, muito caminho e muito caminhar, já sei, chego
no formigueiro deposito a porção de folha, já sei, volto pela mesma trilha
junto com companheiras apressadas, já sei, subo a planta outra vez, já sei...”
E pensava
em outras coisas, o derretimento dos polos, o aumento do nível do mar, o aquecimento
global, as chuvas torrenciais na região de Goiana, as secas no rio Mearim, os
invernos abaixo de zero em Chaval, as temperaturas altas em Pirassununga, o desaparecimento
da lua por dentro da serra do Mar vestidas de azul.
A
inundação durou o tempo do seu desassossego, uns 40 dias e umas 40 noites. Só
se salvaram do dilúvio quem ela rezou para se salvar, ou seja, os peixes do
lago do jardim jurupocas piraputangas acarás-discos bajurquis piabas, pois
esses sabiam nadar; os passarinhos anambés-de-rabo-branco bate-bicos sebinhos
coroas-de-fogo ajurujurás socós-bois-baios tangarás pichororés, pois esses se
abrigaram no alto da torre junto com as antenas e lhe fizeram companhia nos
longos dias; e, principalmente, o seu namorado amado e idolatrado e salve salve
Meruquiá, que, como filho de pescador, tinha um bom barco e sabia aguentar as
ondas para chegar até ela pela janela aberta.
Quando Meruquiá
chegou a Guajiçara parou de chover. As ondas acalmaram, o sol apareceu, nhambumirins
piaram na sombra do capão, os sons que eram da tarde, as águas foram se
esgotando até a normalidade, ruídos sem importância na tardezinha, as estrelas
contaram até mil, o rio Taperoá desenhou a fita, a lua veio olhar o lago, notícias
quase secretas do fundo do mar, a iara emergiu para pentear melhor os longos cabelos
negros e lisos. Um outro mundo, assim do tipo de mata atlântica de comercial,
surgiu no novo mundo que era somente para eles.
Não havia
mais nada a dizer a escutar, o que tivesse de ser e seria, amor aconchegante
amor interminável amor desinibido amor atraente amor depurado amor incoercível.
Que desejo
de transpiração, que desejo de transfiguração.
Foram
felizes até onde sei, e vão bem, e são muitos que apostam sempre assim mesmo sem
parar.
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