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segunda-feira, 31 de março de 2014

Não Sei Se Aline Ainda Existe E Por Onde Anda


      

 

   
 
       Onze horas o avinhado já cruzou e recruzou inúmeras vezes o ar do quintal. As nuvens com cara de avião supersônico andando rumo para o sul. Estrondos saltados do caminhão-tanque passando acelerado na rua estreita de paralelepípedos. Meio dia e vinte o sol as dissolveu. O cantando como nunca no pé de macaúba-barriguda. Quinze horas em ponto batuques do outro lado do bairro já anunciando e dando conta de que o carnaval fora de época era mesmo aí.

       Bom para uma mãe é ver que sua filha arrasta por onde passa todos os olhares dos rapazes. Ruim e péssimo para o pai é perceber que esses todos masculinos desejam farejam babam noite e dia como perdigueiros suados pela puríssima filhinha criada a pão-de-ló, zelo e segurança. E se essa menina tiver irmãs, estas terão uma santa inveja aquecendo o peito. E se tiver irmãos, estes terão um santo ciúme batendo no interior da cabeça e atiçando as orelhas de burro.

       Nuvens mudando de bichos para coisas. Depois a lua em alma muito lentamente. Mais as estrelas polvilhando o céu. Um avião específico. Depois o mar a praia os caranguejos conviventes coniventes comovidos comoventes.

A casa azul-clara com olhos brancos, telhado de telhas vermelhos-velhos feitas em São Sebastião do Caí, uma elegante e alta palma-branca ancorando tudo o peso da sombra cabelos ao vento desde o céu até o mundo.   

       Me lembro dela bela menina e vizinha ao chegar na manhã espiritual muito cedo à escola do bairro. Era a primeira vez que aparecia em público e que a víamos solta vestido azul-marinho plissado camisa branca longas meias brancas sapatos pretos de fivela e nos cabelos a tiara de flores perfumosas conquistada ao alecrim-de-são-josé. Ela tinha quesitos como os olhos rasgados e imensamente verdes iguais às folhas das magnólias-do-mato depois da chuva. E uma pele lisa e rosada de peixinha de aquário agitada mas feliz. O cabelo anelado loiros olímpicos pouco abaixo dos ombros. Não era para mais nada, mas isso já enchia toda medida e ia além da conta de qualquer um de nós expectadores incidentais esgazeados.

       O inventor dos rios das montanhas dos bichos tilintar das juritis manha dos mocós camuflagem dos tiús mergulho dos curimbatás empreendedorismo das sarassarás das árvores verdes azuis amarelas, etc.

       Num certo templo ela era intocável luminosa oxigenada parabólica. Eu gostava de vê-la jogar vôlei no meio da quieta rua Itália pular distância na cancha de areia da praça nadar na piscina do clube esportivo saracotear no carnaval da sociedade recreativa. Seu lindo sorriso fazia uma fortaleza com muros altos e bem brancos. Perto dela eu ouvia mais que falava e ela queria aprender a andar de moto.

       Um olhar além do tempo. Que tinha de futuro. Que esperava mais das naturezas. Aonde vai se chega se retornará.

       Nós ficávamos ao seu redor como mosquitos na sopa do mel. Cada olhar seu dirigido por acaso a um de nós era comemorado como o gol que a Seleção faz na Copa. No inverno era a única pessoa que víamos vestida de luvas pretas sem dedos cachecol verde-musgo e touca do colorado com pompom; os dedos de unhas pintadas cada uma uma cor e o rostinho emergindo como de bichinho doméstico pedindo carinho e as pontas dos cabelos com vontade de puxá-los. Ela era de distribuir tantos gols quanto o número de jogadores e admiradores em a sua área. E como foram longe como repercutiram as poucas horas da sua aparição aparição. Sagrado era aquele lugar onde existia uma deusa uma santa uma anja uma princesa uma beija-flor-safira uma modelo que sabia caminhar na linha.

       Fios finíssimos de água enredavam a luz do dia numa teia úmida e fria de chuva. As ruas em perfeito estado de espelhos de água. Uma mulher por acaso andando na calçada espremeu à mão os cabelos loiros molhados de ponta a ponta. Andorinhas riscavam o espaço e retornavam aos ninhos nas abas da casa verde de olhos azuis. Depois ruas prédios carros pedestres tomando banho de chuveiro. Quase sem querer, pois era uma manhã de sábado para outono. Chuva diagonal. Os carros fungavam zuniam chiavam. 

       Ela era linda de sol de noite de dia de chuva de lua, indo e voltando. E os caracóis tapavam as orelhas no lugar certo, mas engraçada com movimentos e tudo. Caso fazia sol e ela não aparecia era como se o calor e o verão não fossem o que a gente queria.

       As matas cobertas de montanhas que resistem ao remar do mar. Não era hora de perguntar, responder. O vento molhava o inverno nas folhas verdes. Sempre o rio que desce pelo caminho livre. Para o sul, cidades bonitas e filosóficas Ituitava Caratinga Tocantins Jequié Jaguaquara; para o norte, cidades amáveis e sensacionais Princesa Sarapuí Jumirim.

       Não foi só a menina da tarde, mas a menina dos olhos dos sonhos eternos de nossos sentidos. Qualquer canto que pousasse parecia que ali o sol se punha, o tempo abalava, a festa explodia, a história se escrevia, o mundo se expunha, a história acontecia. E para quem achava que Deus não se manifestava... ela sorria amavelmente toda a prova todo o milagre todo o bom gosto todo o bom senso toda a majestade com olhos de tinta azul transparentes e molhados de luz.

       É bom que se diga.

       Ela viajava na nossa imaginação. Era enigmática como uma manjerona-do-campo. O sol das horas silencioso e contrito se inclinava para o laranja da tarde, etc. Se vestia perfeitamente como uma flor-de-lã. Mas ela mesma pensava muito mais rápido ainda.

       Olhava e nos ouvia sem querer ver ou entender. Adorava o quê!?, que não se mexia ao seu redor.

       A poderosa lua acende seu farol e sobe a montanha já entre as primeiras estrelas. Dizem que os homens se parecem com Deus descendem de macacos-pregos e que um dia caíram na terra vindos Adão de um planeta distante e Eva de uma estrela de outra galáxia evoluídos. Depois as nuvens indecisas desbocadas descabeladas invejosas e sem rumo deitaram sal na terra.

       Ela achava que os pássaros deram origem às árvores e as árvores deram passagem aos homens. Que os peixes dos rios e mares vieram serpeando das canas-do-mato das canas-do-rio deixando rastos de lagartos e pularam para as águas. Daí, que os peixes que retornaram à terra firme foram tomando forma de tatus capivaras lagartos lagartixas ipecuás pombas-amargosas titicuãs arapaçus-de-bico-preto. Fosse lá o que fosse, embora, o mundo todo começou na água. Nuvens em forma de chapéu, quaisquer chapéus.

       Volta e meia sem aviso prévio e surgindo aparecendo do mato, os irmãos chegavam como quem não querendo nada e ameaçavam com olhares de bracaiás insones e atitudes bruscas e dentes à mostra e punhos armados de garras e roncos de bugios:

       - Te cuida, fulana!

       As irmãs conversavam muito entre si preparando os quitutes da família e sempre risonhas trocavam favores e receitas se davam conselhos e indiretas em tom de experimentadas:

       - Porque são todos iguais, uma vez!

       E besouros e borboletas em seus voos assim vibrando com asas de matéria plástica invisível. Ciscar de cavalos e bois nelores nos jardins da praça Frei Baraúna. Nuvens desatentas umas e outras.

       Custoso admitir e ter certeza, mas ela tinha sua própria e exclusiva vontade. Um jeito de olhar habilidoso e persuasivo, mas bonito doce pedinte.

       Os guris que chamavam sua atenção verdadeiramente: os que a surpreendiam sempre com brinquedos engraçados ou violão: os que eram tímidos e assustados e desentendidos. E ela naturalmente fazia um esforço para retê-los na mente nos olhos na pele no rastro do futuro.

       Mas se comportava como deusa.

       O sol procurava afastar as nuvens balão. A mulher e o barco subiram ao rio Una. O rio uma superfície planejada. E escoavam mulher barco e rio. O rio jogando consigo com ela e com o barco. Trabalhavam juntos enquanto a conduziam em viagem. Depois ela projetou sua imagem nas águas e escolheu as cidades a cidade o chamado das paturis a rua a casa verde com janelas verdinhas.

       O rio é uma coisa e um círculo. Desassossegado dizer de um rio que nunca se separa de ser ele mesmo dentro de si a favor e em volta de si.

       Com diferentes economias, a família morou pelo custo de quatro anos em tantos bairros como casas de aluguel, São Cristóvão, Sagrada Família, Coroados, Basalto, Retiro, São João Bosco, Santa Cruz, Rio Branco, São Peregrino, São João, Três Mártires, alguns uma vez outros duas três quatro vezes.

       Era muito mais para ser bonita, ela queria cantar, queria fazer sucesso, queria ter fãs onde quer que fosse aqui ou no exterior. Ganhou um celular bem maneiro no aniversário de 15 anos e uma viagem a escolher para Foz do Iguaçu ou Bonito.

       Mas o vento não é a mesma coisa do rio e do tempo. A agradável sombra das jaturanas agradáveis. A árvore na embaúba-verde. Andando por entre uvás, piúvas, bocaiúvas, tapaiúnas.

       Quando juntamos nossos olhos e começamos a dançar - me lembro como se fosse hoje hoje -, o salão apertado e muito calor, também um irmão dela com aquela recomendação impertinente de maritaca:

       - Te cuida, hein, fulana!

       Pelas conversas talvez ela preferisse morar em Barretos, Jupiá, Itabi, Rio Azul, Pontão, Iguape, Ponte Nova ou Laranjal Paulista.

       - Reconheço que um dia conheço o rio Piranga, a lagoa Opaia, os tingui-botó, o palácio do Campo das Princesas, a serra de São Francisco.

       Deus na sua extrema e perfeita engenharia fez aquela guria um presente para nossos olhos cansados de desertos. E fez um poema também um tesouro um diamante um estuário uma Capitu. Porque não sossegou enquanto não a obrigou a casar com um forasteiro mais em conta.

       Os irmãos então ergueram as mãos aos céus aleluia cruzaram os braços agradecidos descansados relaxados divertidos bem humorados bem conformados nas orelhas de abano e as irmãs bocejaram com enfado a mão na boca e os sorrisos camuflados.

       Nada de diferencial no dia seguinte e ela nem sequer me olhou.