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domingo, 3 de novembro de 2013

Sorvete de Abio


         
       Nívea Clara olhou o céu das nove horas em saindo de casa: "parece Deus e o infinito", pensou. Suas roupas tinham sempre seus amarelos. Sabia que uma altura do dia ia chover. E os compromissos e declinações a esperavam; foi mesmo assim. Os dentes mais que o sol. Sem nenhum enfeite de colares pulseiras pendentes tatuagens. A alegria do beija-flor-de-garganta-verde sentindo o sol. As irrequietas jandaíras que zumbizavam que zangavam que zanzavam em torno das flores novas doces coloridas da capitiçoba. Quem tem medo de se molhar não sai de casa! Seus afazeres suas urgências no Centro eram pra hoje, pra ontem também, e pronto; foi sem dúvidas.

       Justamente o dia não era para o número da placa do carro. O metrô pingava de estação em estação, Canoê, Venâncio Aires, Tuatuari, Guaraio, Miracatu... A voz macia feminina anunciava as estações as linhas e conexões o dia todo bom e do melhor: entre 25 e 30 anos, mãe de dois ou três filhos, casada pela segunda vez, um dos desse último, pele acobreada, cabelos longos encaracolados e negros, gosta de batom lilás sabor açaí, "tem gosto pra tudo!", prefere usar calças compridas a saia ou a vestido, a blusa casual, mora de aluguel no distante bairro do Juberi, tem carro próprio, não se decidiu ainda sobre as férias de final de ano com a família na praia em São Pedro da Aldeia ou na serra em Marau, quando beija perde o chão a noção e o coração chega a cem por cento. O barulho arrasador dos vagões se arrastando se atritando em alta velocidade pelas galerias obscuras noturnas do fundo da terra, etc. Um homem a esbarrou pegou a mão ela se assustou se olharam rapidamente nem ele pediu desculpas que nada.

       O Brasil e o Panamá são dois países. As manhãs entram sempre muito tributárias. Tanta menina se oferecendo!  

       No meio da multidão das praças, das calçadas, das ruas e avenidas e das lojas e cafés, tantas coisas tantos sons, paredes de vidro dos prédios reflexos do céu azul com nuvens brancas, Nívea Clara simplesmente cumpria seu périplo de filha, estudante de psicologia, professora particular de matemática, mulher e mãe, tirando passarela entre os homens e outras mulheres de olhares compridos espichados caprichados. Árvores pacíficas em fila indiana. Um catador de latinhas ciscava a lixeira frente do restaurante. Fazia calor um pouco. Se mexendo pra cá e se mexendo pra lá. Os homens e algumas mulheres adoravam seu cabelo alto em fogaréu. Aguardava a vez com ansiedade e prospectos de promoções na mão, disputava espaço entre cotovelos, joelhos, ombros, suores, bafos, perfumes, ora! perdeu o elevador. Tempo para um cafezinho? "Só se for agora!", murmurou.

       Com o tempo vaivém as novidades se atrasavam. Uma vovó e um vovô tomando chimarrão na sacada.  Estavam retirando dos passeios públicos os enormes e antigos vinháticos-do-campo e plantando no lugar possivelmente os jatobazinhos, as cabeças-de-negro, as canaflechas e as tamataranas. Logo olhou pra trás com a sensação de estar sendo seguida, ali perto daquela luminária, um homem alto, jaqueta de couro marrom, se disfarçando, cuidando de soslaio, braços cruzados, tentando passar interesse diante da vitrine da loja de óculos: solteiro, pai de um filho, ex-corretor de imóveis, pela primeira vez na cidade, natural de Cruz das Almas ou Rio Bom, revólver na axila. Mas claro que era só impressão dela. Tudo muito rápido. 

       Nívea Clara excepcionalmente não sonhara à noite com Campos dos Goytacazes, arrumar bagagem malas e cuia, seu sonho recorrente e bonito e sossegado e carnavalesco e pitoresco. O vira-lata malhado de azul e branco sempre inquieto focinhando sério em cada poste em cada pneu estacionado em cada portão metendo o nariz procurando o faro atravessando a rua sem olhar pros lados catando cheiros rindo de língua de fora cauda embandeirada. A alegria dos elevados e viadutos. O sol dobrando as esquinas incendiando fachadas atingindo em cheio as vitrines. Ela não tinha cachorro nem bicho algum em casa porque não tinha tempo. Gostaria de ter um casal de ararunas, e isso se o Ibama permitisse.

       Têm cidades que se parecem com montanhas, outras com grandes rios transbordantes, outras ainda com florestas ou o fundo do mar. Do rio Jaguarão até a lagoa da Messejana. O museu Casa dos Contos de muitas janelas abrindo diretamente para a rua Pinheiro Machado ou a ladeira Caiabi. 

       Quinze dias atrás, Nívea Clara tinha ido conferir uma oferta de emprego secretária de advogado trabalhista melhor salário qualidade de vida lá pros lados do bairro Guajajara ou Tabajara. Bom lugar pra morar, inclusive. E sem avisar em casa sem comentar com as amigas e, principalmente, com os colegas. Ela andava displicente na rua calma e tranquila e honesta dos 26 anos.

       Depois de sair da clínica do Dr. Cutucurim, pulando pra cá e pulando pra lá, se decidiu finalmente por um almoço no shopping Torre Panhame. O garçom por acaso que a atendeu na mesa: orçava entre 54 e 58 anos pai de dois filhos e avô de um neto morando na zona leste o bairro Tambiú ou Xerente cinco anos na casa e dezenove na profissão onde ama beija na boca e não desgruda mais bufando resfolegando trocando bafos quentes ardentes respiração boca a boca.

       Quando não era uma coisa era outra.

       De repente, no meio do calçadão da Presidente Eurico Gaspar Dutra, foram surpreendidos pelos primeiros pingos. Nívea Clara, sussurrou: "vou correr até a loja e pagar minha última conta." Com cuidado pra não escorregar, quicou pra cá e quicou pra lá, chegou respingada à loja e na dúvida cheirando a cachorro molhado. Uma mulher com cara de índia minuano veio lhe atender, cabelos bem pretos, sólida de corpo, riso cristalino: dois anos na cidade natural de Santana do Livramento ou Santo Antônio do Palma, mora com o marido e filho pequeno na pensão da rua Matipó ou Janaúba, o sonho maior de voltar aos pagos e comprar uma casa junto da mãe que já está bem velhinha. No magazine Malali ficou amarrada um século de 40 minutos, o suficiente pra que Deus decidisse mandar aquela chuva toda. Uma bomba d’água.

       Mas isso não ia mudar nada.

       E Nívea Clara já livre das tarefas e obrigações ficou presa sob uma marquise. Chuva cheirando amorosa. A alegria dos carros buzinando na chuva. Momentaneamente se sentiu excitada como há muito tempo não se reconhecia.

       Era bom porque era bom.

       Abriu o zíper da bolsa verde com fivelas de enfeite e pegou o espelhinho e conferiu o sorriso os lábios, principalmente, e as pontas dos cabelos. Um homem passou rente a elogiou ela respondeu qualquer coisa. A loja do lado vendia tudo com facilidade menor preço no cartão no crediário. A alegria das águas em alagados. Cartaz com a modelo catarinense magra loira alta lábios carnudos olhos azuis invasivos boca em coração braços expansivos nariz cinematográfico a chuva batendo em toda a extensão calcinha preta de rendas raspadinha por 49,98 reais meias longas listradas verde e azul por 59,98 reais pernas longas bem feitas e bela como seus olhos linda como seus cabelos longos lisos até a cintura. A praça Guaraciaba, triangular, sob o espetáculo da chuvarada, a alegria das bicuíbas-brancas caranaís-do-mato perobas-iquiras canafístulas sentindo a chuva, no centro uma lagoinha onde voejavam quero-queros, tamatiás, xaiás.

       O rio Paraná serpenteia entre Mato Grosso do Sul e Paraná. Deus com sonhos nas nuvens. As árvores com olhos no rio.  

       Nívea Clara, escorrendo pra cá e escorrendo pra lá, já se considerava molhada até os ossos. A chuva que não teve hora pra vir não se sabia se teria pra ir. E agora? E quando? Deus seja louvado! A pele dos braços bem molhada uma beleza uma alegria uma sensação de conforto um contentamento com o mundo todo os olhos feito água o rosto molhado os braços molhados a roupa molhada a pele bronzeada e molhada a língua pegando chuva.

       Na hora que for. Se não precisa de mais alguma coisa. Deus sabe que existem as perspectivas.

       O ponto do táxi era logo ali. Bastaria aquela caminhada de sapatos na mão pra não escorregar. Dobrou pra cá e dobrou pra lá. Chegaria então em casa a tempo de fazer o jantar. E beber um chá. "Um, dois, três e já estourou o meu dia!"

       A chuva não diminuía. Era um dilúvio. Deus se esquecia de fechar as torneiras as comportas. Uma chuva em cortina branca com luzes acesas. Era um alívio para a alma para tudo. A cidade com a chuva era bonito de se ver e sentir. Quando entrou no táxi pensou ter reconhecido o homem que cruzou os seus passos mas desistiu de conferir de olhar pra trás.

       O taxista falava do tempo do próximo carnaval da rivalidade no clássico estadual do fechamento do túnel Tomé-Açu. Ela esquecera de comprar aquele lenço amarelo de pescoço que lhe caía muito bem; ficava pra próxima. Enxurradas formando caudal que descia sem tréguas o morro do Meinaco atravessava a avenida Piratini tubulões entupidos carregando terras pedras madeiras e outras coisas. Já ficou escuro de repente. Telefonou pra mãe pra amiga Gabriela pra colega Patrícia: "Deixa eu te contar...!" Passou hotel, loja de ferragens, posto de gasolina, prédio antigo abandonado pichado, escola fundamental, cachorro na soleira da porta olhando a chuva deslanchar, a avenida ladeada de camuás, muro com cartazes de deputado e palavras pintadas, ginásio de esportes, imagens que aparecem e se perdem, casas cercadas de grades, salas de musculação, bar Ibiúna, gente correndo de marquise a marquise pulando poças pulando valetas encurvada sob o guarda-chuva, vista do forte Tamandaré, igrejas pentecostais, a alegria dos semáforos. Nem dava tempo de olhar direito. Pensamento molhado. Como, então? Como era isso? O homem tinha o cocuruto pelado bem na parte do topo, tonsura, aeroporto, voltava a reclamar do trânsito pesado devido o horário devido a chuva devido o governo, guiava apressado: dois filhos entre quinze e dezesseis anos, uma filha e um filho, torcedor ferrenho fanático do Náutico, mulher trabalha na loja de móveis Caxicaém, mora no bairro Tupinambá ou Itacolomi, a amante mora na ilha Grande dos Marinheiros com horário reservado nas sextas ou sábados à tarde telefona antes, o carro de praça é da companhia, bebe cerveja depois do expediente oito quarteirões longe de casa, faz tempo que não vai para a terrinha em Vale Verde ou em São Pedro de Alcântara - atendeu o celular no ombro deu uma gargalhada resmungou um palavrão e desligou -, sonho de comprar um carro próprio com longo tempo pra pagar, a amante tem o cabelo acaju e nome Amanda ou Melissa, com ela e exclusivamente com ela gosta de beijar e tem mania de ficar pendurado na orelha sugando e metendo a língua.

       Há cidades que nasceram na praia outras partiram da igreja ainda as que começaram na praça mais aquelas que chegaram com a estação do trem.

       Encharcada por encharcada, molhada, ensopada e meia, voltando de lá e chegando de cá, chuva mansa boa audível etc, Nívea Clara já estava em casa. Quem tem medo de chuva?! Que Deus seja paciente com o ser humano que é paciente com Deus!

       Choveu a noite toda muito porque Deus é assim mesmo: às vezes se distrai. A manhã seguinte intransferível acordou com o sabiá-laranjeira a tesoureira o bem-te-vi-do-bico-largo a curruíra. E o dia limpo bem vestido de branco. E o ar de uma névoa tênue passageira que logo logo daria lugar ao sol de rachar.

       Nívea Clara, então, chegou fácil em casa às 19h e 42min; vontade de um café bem preto com bolachas e mel; prazer de tomar um banho morno e longo. E tudo isso muito esportivo.