Nívea Clara olhou o céu das nove horas em
saindo de casa: "parece Deus e o infinito", pensou. Suas roupas
tinham sempre seus amarelos. Sabia que uma altura do dia ia chover. E os
compromissos e declinações a esperavam; foi mesmo assim. Os dentes mais que o
sol. Sem nenhum enfeite de colares pulseiras pendentes tatuagens. A alegria do
beija-flor-de-garganta-verde sentindo o sol. As irrequietas jandaíras que
zumbizavam que zangavam que zanzavam em torno das flores novas doces coloridas
da capitiçoba. Quem tem medo de se molhar não sai de casa! Seus afazeres suas
urgências no Centro eram pra hoje, pra ontem também, e pronto; foi sem dúvidas.
Justamente o dia não era para o número da
placa do carro. O metrô pingava de estação em estação, Canoê, Venâncio Aires,
Tuatuari, Guaraio, Miracatu... A voz macia feminina anunciava as estações as
linhas e conexões o dia todo bom e do melhor: entre 25 e 30 anos, mãe de dois
ou três filhos, casada pela segunda vez, um dos desse último, pele acobreada,
cabelos longos encaracolados e negros, gosta de batom lilás sabor açaí,
"tem gosto pra tudo!", prefere usar calças compridas a saia ou a
vestido, a blusa casual, mora de aluguel no distante bairro do Juberi, tem
carro próprio, não se decidiu ainda sobre as férias de final de ano com a
família na praia em São Pedro da Aldeia ou na serra em Marau, quando beija
perde o chão a noção e o coração chega a cem por cento. O barulho arrasador dos
vagões se arrastando se atritando em alta velocidade pelas galerias obscuras
noturnas do fundo da terra, etc. Um homem a esbarrou pegou a mão ela se
assustou se olharam rapidamente nem ele pediu desculpas que nada.
O Brasil e o Panamá são dois países. As
manhãs entram sempre muito tributárias. Tanta menina se oferecendo!
No meio da multidão das praças, das
calçadas, das ruas e avenidas e das lojas e cafés, tantas coisas tantos sons,
paredes de vidro dos prédios reflexos do céu azul com nuvens brancas, Nívea
Clara simplesmente cumpria seu périplo de filha, estudante de psicologia,
professora particular de matemática, mulher e mãe, tirando passarela entre os
homens e outras mulheres de olhares compridos espichados caprichados. Árvores
pacíficas em fila indiana. Um catador de latinhas ciscava a lixeira frente do
restaurante. Fazia calor um pouco. Se mexendo pra cá e se mexendo pra lá. Os
homens e algumas mulheres adoravam seu cabelo alto em fogaréu. Aguardava a vez
com ansiedade e prospectos de promoções na mão, disputava espaço entre
cotovelos, joelhos, ombros, suores, bafos, perfumes, ora! perdeu o elevador.
Tempo para um cafezinho? "Só se for agora!", murmurou.
Com o tempo vaivém as novidades se
atrasavam. Uma vovó e um vovô tomando chimarrão na sacada. Estavam retirando dos passeios públicos os
enormes e antigos vinháticos-do-campo e plantando no lugar possivelmente os
jatobazinhos, as cabeças-de-negro, as canaflechas e as tamataranas. Logo olhou
pra trás com a sensação de estar sendo seguida, ali perto daquela luminária, um
homem alto, jaqueta de couro marrom, se disfarçando, cuidando de soslaio,
braços cruzados, tentando passar interesse diante da vitrine da loja de óculos:
solteiro, pai de um filho, ex-corretor de imóveis, pela primeira vez na cidade,
natural de Cruz das Almas ou Rio Bom, revólver na axila. Mas claro que era só
impressão dela. Tudo muito rápido.
Nívea Clara excepcionalmente não sonhara
à noite com Campos dos Goytacazes, arrumar bagagem malas e cuia, seu sonho
recorrente e bonito e sossegado e carnavalesco e pitoresco. O vira-lata malhado
de azul e branco sempre inquieto focinhando sério em cada poste em cada pneu
estacionado em cada portão metendo o nariz procurando o faro atravessando a rua
sem olhar pros lados catando cheiros rindo de língua de fora cauda
embandeirada. A alegria dos elevados e viadutos. O sol dobrando as esquinas
incendiando fachadas atingindo em cheio as vitrines. Ela não tinha cachorro nem
bicho algum em casa porque não tinha tempo. Gostaria de ter um casal de
ararunas, e isso se o Ibama permitisse.
Têm cidades que se parecem com montanhas,
outras com grandes rios transbordantes, outras ainda com florestas ou o fundo
do mar. Do rio Jaguarão até a lagoa da Messejana. O museu Casa dos Contos de
muitas janelas abrindo diretamente para a rua Pinheiro Machado ou a ladeira
Caiabi.
Quinze dias atrás, Nívea Clara tinha ido
conferir uma oferta de emprego secretária de advogado trabalhista melhor
salário qualidade de vida lá pros lados do bairro Guajajara ou Tabajara. Bom
lugar pra morar, inclusive. E sem avisar em casa sem comentar com as amigas e,
principalmente, com os colegas. Ela andava displicente na rua calma e tranquila
e honesta dos 26 anos.
Depois de sair da clínica do Dr.
Cutucurim, pulando pra cá e pulando pra lá, se decidiu finalmente por um almoço
no shopping Torre Panhame. O garçom por acaso que a atendeu na mesa: orçava
entre 54 e 58 anos pai de dois filhos e avô de um neto morando na zona leste o
bairro Tambiú ou Xerente cinco anos na casa e dezenove na profissão onde ama
beija na boca e não desgruda mais bufando resfolegando trocando bafos quentes
ardentes respiração boca a boca.
Quando não era uma coisa era outra.
De repente, no meio do calçadão da
Presidente Eurico Gaspar Dutra, foram surpreendidos pelos primeiros pingos.
Nívea Clara, sussurrou: "vou correr até a loja e pagar minha última
conta." Com cuidado pra não escorregar, quicou pra cá e quicou pra lá,
chegou respingada à loja e na dúvida cheirando a cachorro molhado. Uma mulher
com cara de índia minuano veio lhe atender, cabelos bem pretos, sólida de
corpo, riso cristalino: dois anos na cidade natural de Santana do Livramento ou
Santo Antônio do Palma, mora com o marido e filho pequeno na pensão da rua
Matipó ou Janaúba, o sonho maior de voltar aos pagos e comprar uma casa junto
da mãe que já está bem velhinha. No magazine Malali ficou amarrada um século de
40 minutos, o suficiente pra que Deus decidisse mandar aquela chuva toda. Uma
bomba d’água.
Mas isso não ia mudar nada.
E Nívea Clara já livre das tarefas e
obrigações ficou presa sob uma marquise. Chuva cheirando amorosa. A alegria dos
carros buzinando na chuva. Momentaneamente se sentiu excitada como há muito
tempo não se reconhecia.
Era bom porque era bom.
Abriu o zíper da bolsa verde com fivelas
de enfeite e pegou o espelhinho e conferiu o sorriso os lábios, principalmente,
e as pontas dos cabelos. Um homem passou rente a elogiou ela respondeu qualquer
coisa. A loja do lado vendia tudo com facilidade menor preço no cartão no
crediário. A alegria das águas em alagados. Cartaz com a modelo catarinense
magra loira alta lábios carnudos olhos azuis invasivos boca em coração braços
expansivos nariz cinematográfico a chuva batendo em toda a extensão calcinha
preta de rendas raspadinha por 49,98 reais meias longas listradas verde e azul
por 59,98 reais pernas longas bem feitas e bela como seus olhos linda como seus
cabelos longos lisos até a cintura. A praça Guaraciaba, triangular, sob o
espetáculo da chuvarada, a alegria das bicuíbas-brancas caranaís-do-mato
perobas-iquiras canafístulas sentindo a chuva, no centro uma lagoinha onde
voejavam quero-queros, tamatiás, xaiás.
O rio Paraná serpenteia entre Mato Grosso
do Sul e Paraná. Deus com sonhos nas nuvens. As árvores com olhos no rio.
Nívea Clara, escorrendo pra cá e
escorrendo pra lá, já se considerava molhada até os ossos. A chuva que não teve
hora pra vir não se sabia se teria pra ir. E agora? E quando? Deus seja
louvado! A pele dos braços bem molhada uma beleza uma alegria uma sensação de
conforto um contentamento com o mundo todo os olhos feito água o rosto molhado
os braços molhados a roupa molhada a pele bronzeada e molhada a língua pegando
chuva.
Na hora que for. Se não precisa de mais
alguma coisa. Deus sabe que existem as perspectivas.
O ponto do táxi era logo ali. Bastaria
aquela caminhada de sapatos na mão pra não escorregar. Dobrou pra cá e dobrou
pra lá. Chegaria então em casa a tempo de fazer o jantar. E beber um chá.
"Um, dois, três e já estourou o meu dia!"
A chuva não diminuía. Era um dilúvio.
Deus se esquecia de fechar as torneiras as comportas. Uma chuva em cortina
branca com luzes acesas. Era um alívio para a alma para tudo. A cidade com a
chuva era bonito de se ver e sentir. Quando entrou no táxi pensou ter
reconhecido o homem que cruzou os seus passos mas desistiu de conferir de olhar
pra trás.
O taxista falava do tempo do próximo
carnaval da rivalidade no clássico estadual do fechamento do túnel Tomé-Açu.
Ela esquecera de comprar aquele lenço amarelo de pescoço que lhe caía muito
bem; ficava pra próxima. Enxurradas formando caudal que descia sem tréguas o
morro do Meinaco atravessava a avenida Piratini tubulões entupidos carregando
terras pedras madeiras e outras coisas. Já ficou escuro de repente. Telefonou
pra mãe pra amiga Gabriela pra colega Patrícia: "Deixa eu te
contar...!" Passou hotel, loja de ferragens, posto de gasolina, prédio
antigo abandonado pichado, escola fundamental, cachorro na soleira da porta
olhando a chuva deslanchar, a avenida ladeada de camuás, muro com cartazes de
deputado e palavras pintadas, ginásio de esportes, imagens que aparecem e se
perdem, casas cercadas de grades, salas de musculação, bar Ibiúna, gente
correndo de marquise a marquise pulando poças pulando valetas encurvada sob o
guarda-chuva, vista do forte Tamandaré, igrejas pentecostais, a alegria dos
semáforos. Nem dava tempo de olhar direito. Pensamento molhado. Como, então?
Como era isso? O homem tinha o cocuruto pelado bem na parte do topo, tonsura,
aeroporto, voltava a reclamar do trânsito pesado devido o horário devido a
chuva devido o governo, guiava apressado: dois filhos entre quinze e dezesseis
anos, uma filha e um filho, torcedor ferrenho fanático do Náutico, mulher
trabalha na loja de móveis Caxicaém, mora no bairro Tupinambá ou Itacolomi, a
amante mora na ilha Grande dos Marinheiros com horário reservado nas sextas ou
sábados à tarde telefona antes, o carro de praça é da companhia, bebe cerveja
depois do expediente oito quarteirões longe de casa, faz tempo que não vai para
a terrinha em Vale Verde ou em São Pedro de Alcântara - atendeu o celular no ombro
deu uma gargalhada resmungou um palavrão e desligou -, sonho de comprar um
carro próprio com longo tempo pra pagar, a amante tem o cabelo acaju e nome
Amanda ou Melissa, com ela e exclusivamente com ela gosta de beijar e tem mania
de ficar pendurado na orelha sugando e metendo a língua.
Há cidades que nasceram na praia outras
partiram da igreja ainda as que começaram na praça mais aquelas que chegaram
com a estação do trem.
Encharcada por encharcada, molhada,
ensopada e meia, voltando de lá e chegando de cá, chuva mansa boa audível etc,
Nívea Clara já estava em casa. Quem tem medo de chuva?! Que Deus seja paciente
com o ser humano que é paciente com Deus!
Choveu a noite toda muito porque Deus é
assim mesmo: às vezes se distrai. A manhã seguinte intransferível acordou com o
sabiá-laranjeira a tesoureira o bem-te-vi-do-bico-largo a curruíra. E o dia
limpo bem vestido de branco. E o ar de uma névoa tênue passageira que logo logo
daria lugar ao sol de rachar.
Nívea Clara, então, chegou fácil em casa
às 19h e 42min; vontade de um café bem preto com bolachas e mel; prazer de
tomar um banho morno e longo. E tudo isso muito esportivo.
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