sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Fora Da Ordem


 


    

       Todo mundo que conheço e não conheço - uma vez uma noite, aí pela meia-noite de lua ou não, sexta-feira treze ou não -, já deve ter visto e assistido na pantalha à película: À Meia-Noite Virei Buscar A Tua Alma. A baforada que anuncia o antigo e truncado filme é de uma voz grave cavernosa pesada empedrada úmida pausada pastosa antiga barrenta emplastada escandida cava penada mal-e-mal. Só o anúncio já arrepia todas as superstições todos os horóscopos todas as vicissitudes todas as repartições todas as idiossincrasias todos os pelos.

       E onde era... E onde não era... Quem sabe!

       Era o vento o vento arisco que virou água, era a terra a terra apetitosa que virou fogo, era a estrela a estrela flutuante que virou  diamante.

       Os mortos ressuscitaram e vieram para contar tudo, fosse pelo que fosse. Muitos anos e séculos que não acontecia esse claudicante vaivém. Foi à noite - porque na noite é que as estrelas, que são muitas, desembarcam no rio. Coisa extraordinária, portentosa, sei lá!, revolução, guerra, horror. Depois de achar que já se flagrara tudo, aconteceu essa!

       Sem razão nenhuma que justificasse, os mortos abandonaram a terra do avesso e vieram, foram por aí desprendidos despojados esfarrapados, entrando de novo nas ruas e nas suas casas. Alma e corpo que definhavam, corpo desgraçado e alma desiludida. Com desejos de reparar ou não suas ex-vidas inúteis, mas um sorriso frequente nas bocas sem lábios, passos lentos e calculados, memórias fracas e sem luz, ouvidos surdos e olhos vazados, chagas abertas e sem remédio, urubus-de-cabeça-vermelha esvoaçando perto em torno.

       Não era um dia especial. Era um dia comum qualquer como muitos iguais. Mas era um dia manancial solerte impávido ganjento solene.

       O rio corria calmo e alheio a tudo; as imbuias balançavam calmas e distantes de tudo isso; as borboletas borboleteavam calmas e sem se importarem; os sorrateiros pixunas não esquentavam a mufa. Chovia um terço dos dias e outro terço fazia frio, no mais ou menos.

       Pela madrugada... no começo do dia... cedo ou tarde... o tempo estava passando...

       Os mortos não precisam de mais nada e sabem disso, antes e depois.

       O meu avô, por exemplo, veio de além aventurando para dizer que não chegara ao paraíso, ao céu, às profundas, à parte alguma que fosse legal, não encontrara respostas, nem entrevistara vovó, nem sequer uma luzinha no fim do túnel, um ar puro soprando numa eternidade de dia azul e verde, chuvas de verão com arco-íris e zabelinhas no espaço lavado, primavera na moda do parque das Sempre Vivas, pássaros brincando nas árvores de frutas de cristal, rios encachoeirados de cartões-postais, avenidas à beira-mar com calçadas em pedrinhas portuguesas.

       Todos os parentes presentes fizeram um, oh!... de espanto pondo a mão na boca tenra. E esses viventes ouvintes, como eu, não souberam o que fazer o que pensar. Diante do precário cadáver ambulante do avô redivivo, congelamos boquiabertos e humildes e desconfiados. Viramos estátuas de pedra suando frio. Perguntamos mais.    

       Então, tinha o sol atrás do horizonte pedindo para nascer, os galos-do-campo as saracuras-três-potes os flamingos os peitos-feridos as sarobas os tibirros-do-campo os quem-te-vestiu em matinada, as folhas pingando orvalho junto ao rio Pindaré, ao rio dos Bois, ao rio Tambaú, ao rio Paraupava, ao rio Kuluene. Quem nasce na beira do rio Ituim, então!

       Com olhos vazios encovados esburacados - de mananga de Boiuna de pesadelo de encantamento de astrologia -, meu avô fixou a paisagem aqui da volta de casa. Meio precavido com as formigas-quenquéns. Alma e corpo já se distanciando, um da outra. E não teve nada não teve fome não teve sede não teve pressa e lembrou de tudo. Examinou as coisas todas com interesse desusado. Não sentiu pena de nada. Não deu festa para o nosso cachorro de estimação o mascote Charrua. 

       A lua caminhava devagar pisando macio leve as copas das vassourinhas-do-campo, dos óleos-vermelhos, das guriris, dos carurus-de-espiga, dos gravatás-da-praia, das candeias, dos cambuís-pretos, das samambaias-douradinhas, das gameleiras-de-veneno; o Negrinho do Pastoreio passeando pelo potreiro montado trotando em pelo o seu cavalo baio. E ia lua luar lunar plena subindo buscar o fundo segredo vazio do alto mais abandonado.

       Avô, filho de Antônio e Tamira, irmão de Júlio e Pedro e João e José e Maria da Graça e Maria Paula, casado com Joana, pai de tantos filhos Ricardo e Flávia e Márcia, muitos netos e dois bisnetos. O avô disse, ainda, então que viu muita gente que tinha ido antes dele. Pessoas e bichos e coisas que lhe pareceram voar com pressa para conquistar o melhor acento na primeira classe do céu. Os exemplos pulularam.

       Passava o vento passava a chuva passava o sol passava as nuvens brancas passava o bando de papagaios-de-cara-roxa.

       Falou mais, apesar das falhas nos lábios carcomidos; gesticulou muito, ameaçando desabar os últimos fiapos de carne podre; gabou vantagens de suas estadas e andanças nas diferentes constelações, a de Escorpião mais interessante e espacial. E assistiu ao grenal pela tevê; bebeu um cafezinho preto sem açúcar com o bolo de chocolate que adorara; foi até a varanda no sétimo andar e olhou a boa praça Mauá, remirou de cima a baixo a sua rua Almirante Tamandaré, admirou porém sem novidades o flabelar da jurubeba-de-espinho, da comigo-ninguém-pode, da estrela-do-norte, da erva-de-bugre e não parou mais de rir e sacudir os ossos quase brancos, rir com os restos de barriga, gargalhar com os restos de gestos, descontrolado, escangalhado, falido, encardido, etc., desespiritualizado.

       E se despediu. Não teve forças para abraçar toda a família. Se queixou do oco na caveira, das articulações dos joelhos e cotovelos, das costelas aéreas, das orelhas caídas, das unhas longas e retorcidas, da barba e do cabelo de barba-de-bode, da língua atrapalhada, dos ossos todos a descoberto sem exceção - que já morrera uma vez com todos eles contadinhos devagar que dava para ver.

       Demais só queria mesmo dar uma voltinha, a última. Cairia de vez na cova fria, para a sombra das raízes das tiriricas e a fome sem-vergonha dos embuás. Se cuidando toda vida para não perder os últimos e derradeiros pedaços, pedaços soltos sentindo falta do bom pedaço que fora, pedaço em pedaços sentindo falta do pedaço amigo que o apoiara. Então, pela hora da morte, todo enfarpelado, voz sincopada, passo aos solavancos, e sem pensar no assunto, deixou seu adeus degradado erguendo a mão cheia de falanges falangetas falanginhas.

       Foi enterrado em igaçaba no ritual do quarup lá na ilha das Flores. A marcha batida da tribo ergueu o chão de poeira vermelha e tremeu o campinho para onde foi dormir os pés juntos. Lugar governado de dia pelos ururaus e de noite pelos bacuraus. Deixou de ser, e também não. Tão simples, a morte!

       O mundo se afasta como coisa perdida. Longe de tudo e de todos. No momento isto e isso e aquilo não têm importância.

       Um vento toca a ponta das cuitezeiras. Uma lufada em conversas de anúncio de chuva sacode as crinas soltas das pindaíbas-d'água, das grinaldas-de-noiva, das jarrinhas-pintalgadas, das salsaparrilhas-do-rio, das canas-do-rio. 

       Deus serve a todos os gostos. 

       As almas vão para as estrelas, as estrelas se enchem de almas, e quanto mais almas melhor.

       O tempo agora só iria sobrar...

 

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