Todo mundo que conheço e não conheço -
uma vez uma noite, aí pela meia-noite de lua ou não, sexta-feira treze ou não
-, já deve ter visto e assistido na pantalha à película: À Meia-Noite Virei
Buscar A Tua Alma. A baforada que anuncia o antigo e truncado filme é de uma
voz grave cavernosa pesada empedrada úmida pausada pastosa antiga barrenta
emplastada escandida cava penada mal-e-mal. Só o anúncio já arrepia todas as
superstições todos os horóscopos todas as vicissitudes todas as repartições
todas as idiossincrasias todos os pelos.
E onde era... E onde não era... Quem
sabe!
Era o vento o vento arisco que virou
água, era a terra a terra apetitosa que virou fogo, era a estrela a estrela
flutuante que virou diamante.
Os mortos ressuscitaram e vieram para
contar tudo, fosse pelo que fosse. Muitos anos e séculos que não acontecia esse
claudicante vaivém. Foi à noite - porque na noite é que as estrelas, que são
muitas, desembarcam no rio. Coisa extraordinária, portentosa, sei lá!, revolução,
guerra, horror. Depois de achar que já se flagrara tudo, aconteceu essa!
Sem razão nenhuma que justificasse, os
mortos abandonaram a terra do avesso e vieram, foram por aí desprendidos
despojados esfarrapados, entrando de novo nas ruas e nas suas casas. Alma e
corpo que definhavam, corpo desgraçado e alma desiludida. Com desejos de
reparar ou não suas ex-vidas inúteis, mas um sorriso frequente nas bocas sem
lábios, passos lentos e calculados, memórias fracas e sem luz, ouvidos surdos e
olhos vazados, chagas abertas e sem remédio, urubus-de-cabeça-vermelha
esvoaçando perto em torno.
Não era um dia especial. Era um dia comum
qualquer como muitos iguais. Mas era um dia manancial solerte impávido ganjento
solene.
O rio corria calmo e alheio a tudo; as
imbuias balançavam calmas e distantes de tudo isso; as borboletas borboleteavam
calmas e sem se importarem; os sorrateiros pixunas não esquentavam a mufa.
Chovia um terço dos dias e outro terço fazia frio, no mais ou menos.
Pela madrugada... no começo do dia...
cedo ou tarde... o tempo estava passando...
Os mortos não precisam de mais nada e
sabem disso, antes e depois.
O meu avô, por exemplo, veio de além
aventurando para dizer que não chegara ao paraíso, ao céu, às profundas, à
parte alguma que fosse legal, não encontrara respostas, nem entrevistara vovó,
nem sequer uma luzinha no fim do túnel, um ar puro soprando numa eternidade de
dia azul e verde, chuvas de verão com arco-íris e zabelinhas no espaço lavado,
primavera na moda do parque das Sempre Vivas, pássaros brincando nas árvores de
frutas de cristal, rios encachoeirados de cartões-postais, avenidas à beira-mar
com calçadas em pedrinhas portuguesas.
Todos os parentes presentes fizeram um,
oh!... de espanto pondo a mão na boca tenra. E esses viventes ouvintes, como
eu, não souberam o que fazer o que pensar. Diante do precário cadáver ambulante
do avô redivivo, congelamos boquiabertos e humildes e desconfiados. Viramos
estátuas de pedra suando frio. Perguntamos mais.
Então, tinha o sol atrás do horizonte
pedindo para nascer, os galos-do-campo as saracuras-três-potes os flamingos os
peitos-feridos as sarobas os tibirros-do-campo os quem-te-vestiu em matinada,
as folhas pingando orvalho junto ao rio Pindaré, ao rio dos Bois, ao rio
Tambaú, ao rio Paraupava, ao rio Kuluene. Quem nasce na beira do rio Ituim,
então!
Com olhos vazios encovados esburacados -
de mananga de Boiuna de pesadelo de encantamento de astrologia -, meu avô fixou
a paisagem aqui da volta de casa. Meio precavido com as formigas-quenquéns.
Alma e corpo já se distanciando, um da outra. E não teve nada não teve fome não
teve sede não teve pressa e lembrou de tudo. Examinou as coisas todas com
interesse desusado. Não sentiu pena de nada. Não deu festa para o nosso
cachorro de estimação o mascote Charrua.
A lua caminhava devagar pisando macio
leve as copas das vassourinhas-do-campo, dos óleos-vermelhos, das guriris, dos
carurus-de-espiga, dos gravatás-da-praia, das candeias, dos cambuís-pretos, das
samambaias-douradinhas, das gameleiras-de-veneno; o Negrinho do Pastoreio
passeando pelo potreiro montado trotando em pelo o seu cavalo baio. E ia lua
luar lunar plena subindo buscar o fundo segredo vazio do alto mais abandonado.
Avô, filho de Antônio e Tamira, irmão de
Júlio e Pedro e João e José e Maria da Graça e Maria Paula, casado com Joana,
pai de tantos filhos Ricardo e Flávia e Márcia, muitos netos e dois bisnetos. O
avô disse, ainda, então que viu muita gente que tinha ido antes dele. Pessoas e
bichos e coisas que lhe pareceram voar com pressa para conquistar o melhor
acento na primeira classe do céu. Os exemplos pulularam.
Passava o vento passava a chuva passava o
sol passava as nuvens brancas passava o bando de papagaios-de-cara-roxa.
Falou mais, apesar das falhas nos lábios
carcomidos; gesticulou muito, ameaçando desabar os últimos fiapos de carne
podre; gabou vantagens de suas estadas e andanças nas diferentes constelações,
a de Escorpião mais interessante e espacial. E assistiu ao grenal pela tevê;
bebeu um cafezinho preto sem açúcar com o bolo de chocolate que adorara; foi
até a varanda no sétimo andar e olhou a boa praça Mauá, remirou de cima a baixo
a sua rua Almirante Tamandaré, admirou porém sem novidades o flabelar da
jurubeba-de-espinho, da comigo-ninguém-pode, da estrela-do-norte, da
erva-de-bugre e não parou mais de rir e sacudir os ossos quase brancos, rir com
os restos de barriga, gargalhar com os restos de gestos, descontrolado,
escangalhado, falido, encardido, etc., desespiritualizado.
E se despediu. Não teve forças para
abraçar toda a família. Se queixou do oco na caveira, das articulações dos
joelhos e cotovelos, das costelas aéreas, das orelhas caídas, das unhas longas
e retorcidas, da barba e do cabelo de barba-de-bode, da língua atrapalhada, dos
ossos todos a descoberto sem exceção - que já morrera uma vez com todos eles
contadinhos devagar que dava para ver.
Demais só queria mesmo dar uma voltinha,
a última. Cairia de vez na cova fria, para a sombra das raízes das tiriricas e
a fome sem-vergonha dos embuás. Se cuidando toda vida para não perder os
últimos e derradeiros pedaços, pedaços soltos sentindo falta do bom pedaço que
fora, pedaço em pedaços sentindo falta do pedaço amigo que o apoiara. Então,
pela hora da morte, todo enfarpelado, voz sincopada, passo aos solavancos, e
sem pensar no assunto, deixou seu adeus degradado erguendo a mão cheia de
falanges falangetas falanginhas.
Foi enterrado em igaçaba no ritual do
quarup lá na ilha das Flores. A marcha batida da tribo ergueu o chão de poeira
vermelha e tremeu o campinho para onde foi dormir os pés juntos. Lugar
governado de dia pelos ururaus e de noite pelos bacuraus. Deixou de ser, e
também não. Tão simples, a morte!
O mundo se afasta como coisa perdida.
Longe de tudo e de todos. No momento isto e isso e aquilo não têm importância.
Um vento toca a ponta das cuitezeiras.
Uma lufada em conversas de anúncio de chuva sacode as crinas soltas das
pindaíbas-d'água, das grinaldas-de-noiva, das jarrinhas-pintalgadas, das
salsaparrilhas-do-rio, das canas-do-rio.
Deus serve a todos os gostos.
As almas vão para as estrelas, as
estrelas se enchem de almas, e quanto mais almas melhor.
O tempo agora só iria sobrar...