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sábado, 21 de dezembro de 2013

Seja Lá o Que Quiser!


 


      

       Quando Deus achou melhor inventou de consertar o mundo com o dilúvio.

       E Deus sempre foi Esse um Homem sério. E Deus foi direto ao assunto.

       Favorecer o mundo com uma nova formatação.

Pois bem.

       O tempo fechou e caiu a chuva grossa e firme. A chuva despencou enorme, envolvente, no meio da chuva, e tudo se encharcou com cara de segunda-feira rente das 13h e 30min. Um mundo borbulhou cheio de chuvas.

       O conto é a história de um poema.

       Se achar estas palavras e seguir estas linhas vai encontrar o que quer saber.

       Tudo muito simples e portanto muito fácil. Tudo que se ensinava também se aprendia, ou mudava. As respostas nas perguntas. E tudo isso sempre era agradável.

       O que poderia ser salvo. Menos os dinossauros, que esses eram tão pesados e famintos e gritalhões.

       A grande enchente cataclismo durou o tempo que todos esperavam. Os dias foram passando sempre com chuva no decorrer do período.

       Uns cantos e outros pios transparentes límpidos molhados de sanãs-carijós no alagado entre plantas aningaçus aquáticas.

       Aí foi bom, porque a chuva parou de repente e a arca encalhou no pico Campestre, lugar conhecido de onde se via a Itupeva. Se abriram as portas e as janelas, que foi aquele recomeço de primavera. Árvores oiticoró sacudindo a cabeleira verde aos quatro ventos. Havia par de deuses em cada morro em cada rio em cada árvore gigante. Os ticuna os suruí-aiqueuara os campa os sanamaicã os xucuru-kariri os tsunhum-djapá os txucarramãe vendiam cestos de taquara potes de barro animalistas parecendo tietinga bicho-preguiça tamanduá tracajá cocar de araras-grandes-azuis trombeta uatapu tapioca beiju e compravam caminhonetes 4x4 cabine dupla.

       O momento de cada coisa, movente ou não, o momento de cada ser ou coisa, o momento. Mas não se sabe, ninguém sabe nada.

       Ninguém era indiferente. E ninguém era melhor que ninguém. Nem diferente.

       Os milagres foram acontecendo devagar.

       Sol fez entrevista e o resto fez apresentação. Porque tudo certo acontecendo.

       A surpresa do mundo em detalhes e mil outras coisas.

       E paz peregrina.

       Uma árvore, uma árvore, uma caamembeca, existia ali e pronto, simples assim.

       Sendo que alguns tomaram posse do mar, das ondas, dos cardumes, até das estrelas da constelação do Escorpião e dos astros da bola de futebol.

       Tinha céu azul montanhas azuis imaginárias rios de pedras verdes correndo entre árvores verdes azuis amarelas. Tapirangas conhecidas cantavam nos primeiros minutos da manhã. O teto azul do dia com chapéus brancos em caravelas abastecidas. O vento se misturando com o verde das plantas alecrins-bravos pequiás-amarelos pereiros-da-serra capitiús catuabas barbas-brancas baririçôs-amarelos salgueiros-do-mato.

       O meio ambiente brincava de mil coisas. Acontecendo mil e uma naturais e outras tantas absurdas sobrenaturais.

       A estação preferida do amarelo da flor preferida. Era para ver tudo pela primeira vez e milagrosamente. E por toda a parte as coisas se inventando se divertindo zumbindo chilreando.

       Como se chegar onde se tem de chegar? E fazer o quê?

       O dia mais alto do chão, o dia mais comprido e a noite mais passageira. O dia e a noite iguais em comprimento.

       A estrada passando por lugares.

       O rio Ivinhema era a liberdade e a felicidade espontâneas. O rio dentro do rio. Nem começo nem fim. Líquido e persistente e permeável da montanha ao mar. Nadando em peixes nadando em si mesmo. E estava certo.

       A enxuí veio procurar a flor. O mono-carvoeiro balançou o sucará. A maritacaca ensinou comer butiá. O sabiá-do-campo cantou para a sabiá-do-campo.

       Tons verdes cambiantes.

       Tudo era coisa, tudo estava brincando para ser nomeado.

       Pronto, inteiro, natural, completo, ruflar de asas, vento leste moderado ameno, sol majestoso ousado, árvores rangentes, voos de pássaros proprietários das aroeiras-brancas, caminho do rio murmurante, campo afora de capim-amargoso, tudo fácil como um dia depois do outro e a noite no entremeio permeio.

       Hoje, depois, pois não, em tempo tão distante daqueles dias naturais e inaugurais.

       Ele parou de braços abertos e esticados assim debaixo da pitangueira em época de pitangas. E ele não sabia, e ele não sabe.

       Nos instantes em que duvidou sobre o que deveria falar.

       As macaíbas murmuravam em arvoredo. Os jaós assobiavam na sombra das frutas-de-coruja.

       Naquele tempo, não era nem homem nem criança, naquele tempo. E passeava com chapéu de palha peririma trançada.

       Enquanto o sol nascia, raios de sol oblíquo, o verde-amarelo das folhas ainda pingado de orvalho, ele caminhava pela beira do rio Pirapó. Isso o que mais o interessava. A voz do rio a voz dos coró-corós a voz das árvores as cores camufladas das borboletas-oitenta-e-oito.

Ele estava pensando estava só espírito desarmado pura descontração e não tinha perguntas. Mas não por muito tempo.

       O gavião-caboclo sobrevoava agreste território e as árvores acapuranas-vermelhas comiam pedaços de céu e de terra.

       Experimentou jabuticabas maduras de sol e de chuva e de vento.

       Então, o mundo exercitava porque tinha alguém olhando.

       A lua redonda quieta meiga alada acompanhada de estrelas quentes saía inflando a noite a noite.

       Assim, por onde for, ele adivinhou que ela estava ali no banho de sanga entre as flores de barbas-de-lagoa e de cristas-de-mutum. E ela o descobriu ali rente, mais ou menos admirado e impositivo, entre as tapinhoãs.

       No primeiro dia o casal comeu e se alimentou, foram dormir para acordar cedo.    

       O céu tão certo o sol tão longe nos espaços o tempo afora. Quase deixaram de cumprir as metas do dia.      Descansaram à sombra das árvores, assobios flagrantes do capitão-de-saíra, amanheceram nos braços e no alto dos galhos da árvore braúna.

       Ele respirava seus lábios quentes e se banhava nos seus cabelos longos. Os olhos dela leves como tenras folhas verdes de caapi. Eles se abraçaram resfolegantes.

       O sorriso contente, o sorriso alegre, o sorriso até depois do regozijo.

       Conversaram sem noção e pelo tempo sem duração. Mas não sabiam disso não sabem disso.

       Modestamente, alcançaram os frutos sazonados do araticum-ponhê.

       O sol apareceu e ficou assim. Árvores gigantescas andavam paravam andavam paravam no caaobi. Os pássaros se repetiam cantando.

       Pelo visto, era em ponto de primavera pegando o verão. Uma reunião de flores rasteiras, flores otimistas, perfumes macios, cachos de flores amarelas lilases verdes, zumbidos, voos.

       Uma pequena gruta oportuna, e com ramas e tramas de trepadeira confundindo a abertura, e eles entraram.

       Dormiram um muito, e com a tarde já se passando, tomaram o caminho de volta.

       Reiniciavam conversas sobre.

       Caminharam passeando sem pressa, ergueram as cordas passando por baixo do arco-íris, derrubaram em voo alarmado um bando de araçaris, os olhos falando doces, se incomodavam com nada.

       Manhã clara, bem clara mesmo de cristal, e bando tagarela de periquitos-de-encontros-amarelos, manhã estava clara como um ponto final, como uma tarde.

       Tudo isso muito divertido e aconchegante.