Possível impossível, bem, a menina
Lilás foi até lá em a Pedra Bonita vestiu a asa-delta e pulou do palco do
trampolim da plataforma diante da montanha no espaço espaço sucursal do céu do
céu. E se fosse possível impossível nem precisaria, uma vez!
Asas abertas e bem grandes e bem
demais mesmo totais.
- Ih-uuu!... Sou um pássaro um avião
uma nave espacial um meteorito e quem mais!... - se empolgou ela consigo mesma
e com a própria façanha.
E foi exatamente como aprendeu. Saiu
correndo pela plataforma em rampa pulou no ar espaçoso do éter e caiu voando em
pleno aéreo sem bater as grandes asas. Planando. A asa-delta brinquedo que
ganhou da tia Siriúba, agora no décimo aniversário. Lá embaixo a praia minúscula
milimétrica filigrana miligrama de São Conrado.
A ideia inicial era chegar ir longe até
o parque do Caparaó. E passou por Ametista do Sul, acima dos 2 mil metros.
Fazendo rasto de sombra lá no chão bem sobrevoando Faxinalzinho. Cruzando os
céus de Dom Pedrito e numa velocidade de 100 por hora. Hora local umas 10 horas
e mais ou menos lá vão os cascalhos.
- Ah-uuu!... Valeu?! Cinco motivos
para voaaaaar!...
Este o voo de braços abertos sobre a
imensidão da paisagem. Sol de dia e de noite, areia branca sem nuvem, mar azul
do Atlântico, praia do Sossego. A floresta da Tijuca rio Sergipe aldeia dos
uirina.
Voou nadando como os urubus os
gaviões-das-taperas os andorinhões-de-coleira os araçaris... Voo silencioso de
asa-delta e tudo mais. Usou as correntes de ar quente, etc., e várias vezes. Navegando
em grandes círculos cada vez mais abertos mais longe mais largos mais ocos
vazios... Pessoal do chão olhava pra cima e admirava a coragem da guria.
- Tá vendo aquelas manchinhas lá
embaixo? Já te digo!
Lilás falando consigo mesma, o tal
solilóquio, voz alta e sonora:
- São manchinhas e migalhas e
formigas e outras ninharias. Assim mesmo pelo estilo.
Mais uma pausa e de novo com ela
mesma, e na intimidade, particularidade:
- Pois é a praça Nossa Senhora da
Paz. E a ilha Redonda. E a rua Tiapira. E a cidade de Coronel Freitas. Quer
mais?! Tchau e até logo!
Outra pausa e mais uma coisa a dizer,
falando os pensamentos, voando com o vento:
- Oh-uuu!... As pessoas parecem
ciscos, os rios parecem fios de barbante largados no solo, as cidades parecem
pequenos povoados, as fazendas talhões de roça e lavoura.
Deslizando manobrando dialogando sozinha
apartada em pleno céu, e cheio dos panoramas à vista. São Miguel das Missões
pertence a Santo Ângelo e veio nascida do sítio arqueológico de São Miguel
Arcanjo, e os miguelinos ao patrimônio histórico e cultural da humanidade e
mais ainda representados no dinheiro na nota de 5.000 cruzeiros reais, sendo
que isso tudo desde o século XVII.
Um V atlético aéreo alado e como se
vê no meio do vento no meio do sol no meio do ar puro azul veloz voraz. Voo livre
necessário complementar e sem nuvem. Emparelhando apostando corrida com casais
de araras-azuis araras-vermelhas araras-roxas araras-verdes araras-amarelas.
E passou boiando acima de lagoas e matos e capitais,
Ipiaú, Jaguaribe, Cananeia, Comendador Gomes. E chegou ao rio Jacu perto de
Domingos Martins. E do céu cristalino pouso aterrissagem espetacular.
- Uma parada para um abastecimento um
lanchezinho! - se justificou com ela mesma.
Lilás armou para a aterrissagem na
montanha. Escolheu o alvo, uma pequena clareirinha do tamanho de uma quadra de
futsal no alto da Pedra Azul. Também identificada pelos turistas como Pedra
Amarela ou Pedra do Lagarto.
Foi fácil foi difícil, e pousou sem
maiores na perpendicular. Se fosse difícil nem seria fácil! Como fazem as aves
pernaltas esticando as pernas e abrindo muito bem as asas.
- Nem é bem assim!... Veja onde
estou!...
A menina Lilás ficou sabendo que no
alto da montanha Azul, pousavam, e pousam, além de asas-deltas e parapentes,
pousam os tais e quais discos voadores. É por aí que entram, um dos sítios ou
portais, os alienígenas no nosso planeta. Sentiu tanta curiosidade, tanta comichão
nos rins no fígado no nariz no pescoço, que resolveu ir até lá para ver qual que
era. E efetivamente veio e voou e aterrissou, sensacionalmente.
- A verdura sem par destas matas! As
frutinhas da estação!
E foi assim. Foi verificar. Saiu de
casa logo pela manhã, pegou a asa-delta debaixo do braço, andou dois quarteirões
pela rua Barão de Ipanema, uns poucos 10 anos e muito linda. E atravessou pelo
alto 3 mil metros as geografias, matas, oceano, planaltos, planícies,
continente e serras. De óculos escuros chegou logo ali à tardinha, no inverno. Pousou
como se viu, como acreditamos. Pouso seguro perfeito de ave acostumada como um
falcão-de-peito-vermelho, e dos grandes.
- Vamos ver o que temos acá - falou
sozinha com muito desembaraço sem timidez sem nada de vergonha na cara, uma
atriz ensaiando com o espelho.
Tudo tão deslumbrante que foi só o
tempo de desvestir a asa gigante e ficar de olho em tudo. Olhão arregalado e
fixo, e atônita, catatônica, tônica. Apreciando a altitude da Pedra Azul. Apreciando
a paisagem de perder de vista de perder o fôlego e que proporcionava
encantamento deslumbramento apaixonamento. Sem receio da altura. Sem dúvida
nenhuma em olhar pra baixo. Sem vertigem.
Na compostura das 17h se deparou Lilás com o senhor da
terceira idade conhecido Arari Mondé. Muito quieto e morando aí mesmo. Este tinha
quase nada de barba e cabelo, alguma coisa grisalha atrás das orelhas, chapéu de
palha trançada feita de fibras da palmeira pupunheira. Estava sentado sobre uma
pedra em posição de quem espera espera... e o olhar longe de quem nunca ou
raramente alcança. A garotinha se aproximou mais do velhinho bisavô e
perguntou:
- Ei, seu sábio pajé! É assim desse
modo que se chega ao lugar dos discos voadores, astronaves, os tais óvnis, e
tripulados por alienígenas e etês e extraterrestres e divinos e deusas deuses?
Uns tais e quais que chegaram ontem ou anteontem de Marte?
Arari Mondé, por acaso batendo o
queixo e pingando pelo nariz por causa da friagem do frio da altitude, nada lhe
respondeu nem emitiu pio algum. Continuou sentado, meditabundo, distante,
apatetado e olhando qualquer coisa ou lugar lá longe no belo horizonte. Parecia
estátua durinha desumanizada. Parecia uma copaíba-marimari vegetando. Igual um
jomirim plantado. Uma manjerona-do-campo enraizada. A menina insistiu, falou um
pouco mais alto:
- Seu índio da montanha! Você tá
bem? Poderia me dizer se estou no discoporto certo?
Uma longa e interminável pausa de
dois minutos dois instantes. Era sobre tarde tardezinha. A menina voltou à
carga, pausando as sílabas palavras termos sons letras:
- Ei!... Aqui é da Terra. Será que chove? Hein?!
Nem adiantou. O passado antigo, Arari
Mondé, nem se mexeu, nem piscou, nem sorriu, nem tugiu e nem mugiu. Era parado presente
como um vegetal tipo canela-sassafrás ou angelim-araroba ou ipê-pardo-vacariano.
Ou seja, continuou firme na mesma posição como se nada fosse com ele. Na mesma mirada
sempre olhando para aquele horizonte perdido e largo e profundo. Foi nesse
instante que surgiu, ou já estava encostada ali aqui, a ruana mula sem cabeça.
A assombração se encontrava a poucos
metros, e pastava... o quê?! Sim, pastava a grama-das-boticas rala e seca e os
talinhos das ervas-da-vida e as hastes das quinas-de-cipó e os brotinhos de
erva-santa... levantava o toco do pescoço pro céu frio que vinha escurecendo,
dava uma choradinha... o quê?! Sim, se lamentava e voltava a pastar os raminhos
de malvas-do-campo e as florzinhas de maniçobas-do-piauí e as frutinhas do
murici-pinima... A menina chegou mais e falou à criatura esquisita ente
sobrenatural:
- Oi, coisa estranha. Vi você
pastar, ouvi você lamentar... será que estou endoidecendo? O que me diz a sua
graça? É de hoje em dia e esqueceu a cabeça, meu?!
A murzela mula sem cabeça nem se
virou para a guria, nem se perturbou, nem se dignou, nem nada que a fizesse
mudar de comportamento. Apenas continuou a engolir as folhas tenras do
feijãozinho-bravo e da baunilha-do-pará e do maracujá-de-cobra, vez e outra se
lamuriando pro céu que já quase anoitecia penumbrava. Agora o espaço aéreo um
tanto encoberto por nuvens baixas cinzentas úmidas frias pesadas, e fazendo o tipo
de tempo que promove promete chuva chuvarada.
Lilás se voltou novamente pro senhor
Arari, que continuava na dele, absorto, absorvido, embevecido, enlevado,
indiferente e o encarou nos olhos, bem dentro dos olhos, nas meninas dos olhos,
e que eram azuis, tudo azul, talvez devido ao fato de ficar observando o azul
do céu, o azul da Pedra Azul, e lhe perguntou indagou:
- Puxa, seu autóctone! Me desculpa a
urgência da pergunta. É que apareceu uma aparição que pasta e uiva! Que rumina
e se lamenta mesmo sem pescoço, tá entendendo?! Afinal, que lugar é esse, cara?
Que personagens, hein, tio?
Pausa. A menina ficou mais
preocupada e sozinha na imensidão. O mundo dava lugar ao tempo. Se a gente
pensar no tempo... A guriazinha sempre preocupada:
- Mas o que que é, gente?! Ninguém
fala neste território montanhoso passando ao frio de altitude?
A menina chegou mesmo a tocar no
ombro do seu Arari, pessoa de idade. Nem, definitivamente o pajé estava em
outra. Paciência. E por falar em paciência, resolveu se sentar também sobre uma
pedra e meditar, relaxar. Procurou a postura de iogue, esticou aprumou o torso,
cruzou as pernas e sentou em cima, descansou as mãos livres sobre os joelhos e
olhou... olhou direto, reto, longe no horizonte. A terapia. A meditação
buscando o centro... O centro de quê? O centro de quem e de si mesma?
Agora Lilás ficou sossegada estática
fixa olhando o infinito muito compenetrada, olhos baixos. Ficou olhando lá
longe e observando daquele jeito espichado. Como fazem nos conventos os ociosos
religiosos monges monjas. Meditando filosofia e versos sagrados.
Escolheu ao acaso o rato-espinhoso que ia passeando lá
junto de umas rochas, no meio de uns gravatás e cipós-escadas. Fixou os olhos
no bichinho e o seguiu, para cá e para lá, subindo e descendo, se enfiando
entre as pedras e as capebas-do-norte, ou correndo ágil, enfim, todas as suas cabriolas
e artimanhas e artifícios e artes propriamente ditas. Eta!, bichinho ativo. E
tinha família aqui ali em que parte do perau? E criatura de D.
E o rato-espinhoso parecia sozinho, procurando o de-comer,
trabalho esse que nem era fácil. Porém persistente. E tinha uns olhinhos opacos
de quem lacrimeja e nem tem lenço para assoar o nariz. Um pai de família uma
mãe zelosa? E o frio o vento gelado da altitude lhe arrepiavam o pelo. Era arrepiado,
descascado, inquieto, exilado, mais ou menos preocupado. Suas patinhas pisavam
descalças as pedras e os espinhos de ananás-de-agulha. Uma das patinhas cortada
talvez ferida por um espinho ou um graveto. Tinha no geral o pelo uma cor de
poeira. Os bigodes de poucos e duros fios finos. Sua fala, “crite! crite!...”
ou “chipe! chipe!...” era sempre manhosa e dava para distinguir. A cor dos
olhinhos, atormentados pela insônia, levavam um azul pobre. O cheiro era pesado
de quem nem tomava banho há dias há meses. E precisava encontrar um jantar já
perto do anoitecer. Ou seria um ser um animalzinho noturno notívago.
Quando escureceu, e o céu azul ficou
pontilhado de janelas estreladas, fogueiras de São João, olhinhos de meninos
maus piscando na boca da noite, e quase nem se percebia os passeios do rato-espinhoso
- e somente se via pouco e pouco sua sombra, seu vulto fininho - veio o
gavião-real, surgido inesperadamente de onde?, uma enorme e predadora harpia, e
que o levou embora grampeado pelas garras arqueadas potentes.
Lilás acompanhou surpreendida toda a ação da ave de
rapina. Esta voou até o alto no topo da montanha Azul e rodeada com cerração
densa, e numa reentrância de rocha, o pouso no ninho de galhinhos e folhas
secas. Ali a harpia repartiu a comida em duas partes, uma com o filhote que piava
aflito, “clii! clii!...” e outra para ela, “crou! crou!...” Então, a menina
desconcentrou, saiu do transe, virou a chave o foco e ligou novamente na tomada.
Se erguendo de onde estava, a menina
Lilás procurou saber do antigo Arari Mondé. Ele andava aí e lá e aqui
procurando palha, gravetos e paus para a fogueira. A menina desabafou, afastou,
declarou:
- Sabe! Bem que estou tentando
conversar com sua pessoa presente. É, tô magoada! Tá ouvindo? Tá escutando,
nosso amigo? Talvez nem goste de crianças, ou de visitas, ou de estrangeiros, ou
de viajantes de asa-delta. É isso?
Uma pausa longitudinal de dois
minutos dois momentos dois tempos:
- Tá, tá certo! Nem tá mais aqui
quem falou nem foi ouvida escutada.
O ancião Arari, mais uma volta e
mais uma vez outra ocasião, nem deu ouvidos. Fazia um montinho com a palha, os
gravetos e os paus secos de pequiá. Depois riscou uma pedra com outra, até
saltar uma faísca. A fumaça e a luz subiram para o alto, para o espaço; fizeram
nuvens, e estrelas cintilantes cadentes. Aproveitando o calor, o autóctone (índio)
preparou uma sapecada de raízes de inhames-cigarras.
Enquanto aguardavam a comida, uma
espécie de batata típica da região, o velho Mondé olhava as estrelas, as
nuvens, a lua por entre as nuvens, e assobiava para as altas montanhas que nem
eram poucas. O sítio ficou macabro assombrado com rochas, vales e canhadas
penando no escuro. O escurão fechado firme e o rebrilho das chamas da fogueira
nas pedras e rochas.
Quando a boia ficou no ponto, seu Arari Mondé tirou as
tuberosas das brasas. Colocou uma à disposição da menina. Lilás foi comer a
merenda, estava quente, “ui! ui!...” foi descascando devagar, devagarzinho,
pegando aos bocadinhos, mastigando com receio, soprando, “ufe! ufe!...”
engolindo a custo.
Feito a banal e comum refeição,
Lilás sentiu o peso morto do sono invadindo seu cérebro congestionando seu
corpo inteiro amortecendo os nervos. Veio chegando numa onda impossível de
conter. Anestesiou tudo. Um instante de esquecimento. E uma olhada para dentro
de si. Como se passou?
O velhinho pajé se recostou debaixo
do tal poperi que era uma espécie de barraca rústica e improvisada. Deitou no
comprido e aquietou e dormiu sem um “boa noite!” sequer e como se fosse tal e
qual uma pedra da rocha basáltica.
De repente, olhando o fogo, olhos apertados
e miúdos de sono, as chamas cabeludas de vermelho, Lilás viu apareceu a tordilha
mula sem cabeça e que se aproximava do calor esfregando os cascos; veio também
o boto-cinza, furo no cocuruto, viola atravessada no peito e cantando uma
canção gingando um maxixe que lamentava o frio os rios as distâncias; e de
dentro das labaredas num pulo mágico salto acrobático, e redemoinhou rodopiou
no ar rolou desenrolou, e se ajeitou bem perto, o saci-pererê. Algumas
entidades e entes, em?
D Nosso Senhor sempre lá na sua azul
sala de escritório e despachos reencarnando algumas almas ou espíritos. Ele que
manda gente pessoas aqui pra terra, e é mesmo. Quando D encarna a alma no
material temporal mortal pegajoso, o conjunto todo vira um ser vivente (eu você
ele ela). Este corpo prontamente voa para T de Terra e para o B de Brasil com
os lugarejos, Descalvado, Porto Ferreira, Luís Antônio, Analândia... O ente encarnado,
então, desce pro mundo e nasce se parecendo com índio e índia paiaguá,
catauixi, juma, itatim... ou bicho como a seriema o camaleão o sagui-imperador
o tamanduá-mirim... ou planta do quiabinho-do-campo do mangue-de-água-doce do
jasmim-pipoca da seringueira-itaúba...
Sabiá-ferreiro surgindo com o sol bem-te-vi-barulhento
a manhã azul profundo beija-flor-safira no ar quase parado umas garrinchas-choronas
as montanhas encasacadas de nevoeiro branquinho a saíra-militar pulando
gorjeando nos galhos refolhudos da árvore bicuíba o casal de canários-do-mato o
bando de pintassilgos... a boa e velha algazarra de toda manhãzinha de sempre festiva
nova novidades. Enxame de abelhas aramá e borás-cavalos e vorás-bois procurando
flores deliciosas apetitosas suculentas doces. Nuvens correndo no céu e cheias bombadas
estufadas e nos intervalos de tempo aéreo.
A menina acordou bocejou esticou os braços abraçou o
mundo inteiro. E pulando de pedra em pedra escorregando pelo barranco subindo
em árvore juazinho-amarelo. Diagnosticou, e disse:
- Ontem e hoje vai ser bom igual de
amanhã!... Dentro do dia a dia, é!
E já o seu Arari estava de pé fazendo exercícios
matinais. Pareciam golpes de dança, umas gingadas suaves, lentas, leves, soltas.
Sincronismo com a natureza das aves, dos ventos, das pedras, da montanha, das
plantas anhangapiris, jambuaçus, carás-silvestres... Eram movimentos de braços
e mãos, de pernas, de sombras. Acompanhando o balanço dos galhos e caules na
altitude da montanha. Imitava, ou queria imitar, um bicho qualquer, ou vários
deles ao mesmo tempo o sariguê o guariba a tapiti o barrigudo-pardo a cotiara...
A mente concentrada, os olhos vivos. Um passo para cá, outro para o lado e as
mãos em concha, ou fechadas, ou ainda abertas, livres, desenhando estranhos
caracteres no ar figuras invisíveis imaginadas imaginosas aleatórias.
Lilás foi se juntar a ele. Como já
entendia que o pajé nem falava, então assim, nem o cumprimentou. Cada qual na
sua. Preparando o corpo e o psicológico pro dia. Foi um ensinamento, um
aprendizado sem parecer que fosse. Só pelo exemplo.
Depois dos exercícios suados, Arari
Mondé seguiu uma trilha até chegar num fio de água. Beberam a água azul que
descia da montanha Azul. Colheram e comeram frutos silvestres e mangaba, araçá,
pitanga, azedinha, mendubim, mel de uruçu... A menina declarou, abriu o
coração, para a montanha hiperpedra remota alta distanciada:
- Linda montanha da Pedra Azul, teto
do mundo, maravilhosa... A sua verdade é o silêncio, o frio, o alto, alguma
nebulosidade ao amanhecer. Tão perto de D. Agora sei que pareço um inseto
formiga quenquém-mineira-de-duas-cores. Meus olhos nem lhe alcançam, meu
coração te abraça e se sente abraçado. Adorei!
O Arari Mondé pegou do seu marraque
e rumou para oeste, serra de Itatiaia. A separação foi inevitável e definitiva.
Lilás nunca mais o veria. E sem nunca, “psiu!...” ouvir palavra de sua boca voz
da sua fala.
Um pequeno cupim entrando em casa
sua própria habitação uns deles entrando em casa no cupinzeiro muitos e mais de
mil entrando agora mesmo em casa, ou seria um mega ultra superlativo superlotado
condomínio. O cupinzeiro no meio do matinho rasteiro de jalapas-vermelhas
parecia uma pirâmide uma ilha um império uma megalópole supertumultuada. Quanta
gente! Qual o coletivo de cupim? Seria enxame ou hoste ou legião ou chusma ou
colmeia ou cardume ou cupinzama?
A menina vestiu as barbatanas longas
de cor verde a asa-delta. Asas duronas e grandes e maiores ainda. Foi até a
rampa do precipício e tomou decisão e tomou impulso e tomou vento na cara.
Correndo na descida vertiginosa radical irracional praticamente vertical, uma
aventura perigosa:
- Ih-uuu!...
Se lançou no espaço azul como um
pássaro conhecido. Igual gavião-pombo-grande. Pulou da Pedra Azul para o D
dará. Era real especial e atiçava todos os nervos mexia com a adrenalina. A
legítima andorinha-do-campo. Mas também ainda mais uma menina fora do seu
elemento natural, etc., e assim por diante.
Mata atlântica rio de Contas reserva
dos índios assurini-do-tocantins... Dez motivos para visitar Itapagipe... Uns
cinco motivos para gostar de Uruana de Minas... Velocidade voo controlado
sobrenadando arroio Ponche Verde e a localidade de Camaquã e Cotiporã...
- Uh-uuu!... Pois aquele aparelho lá
ao norte é o forte... forte como nunca de Santa Cruz de Itamaracá! - gritava a
menina para si mesma e cheia de uma empolgação e cheia de muitas razões.
Contava uma pausa. Logo pegava a empolgar
como nunca, voando, nadando no céu:
- Oh-uuu!... E depois a cidade de... de Piatã! Aquele
ziguezague ali embaixo é o rio... o rio dos Sinos! - e mal podia se coçar
segurando as asas grandonas brilhantes ao sol bem abertas no dia específico.
O sol encestado em si mesmo, braços longos cruzados no
sistema Solar. E por que nem chovia hoje, todavia? Logo assim naturalmente há
uma diferença entre os humanos nós e o sol ele, podemos dizer. O sol é divino é
deus mas nem é humano, uma vez!
Pronto. A menina foi voando a nado para cá e para lá
no céu limpo como sonham voar as pessoas e como fazem naturalmente os alados bicos-chatos-de-orelha-preta.
Uns 2 mil metros de altitude. Era verão. Pintada no espaço magnífico magnético.
As ondas de ar quente esticando os cabelos elásticos. E passou por lugares e mais
a Pedra das Flores e esta toda vestida revestida florida de bromélias orquídeas
samambaias anilaçus... E na tarde sobre o parque Ararigboia, ela guria toda
acompanhada de aves cantoras interpretes lado a lado com as paralelas e
emparelhados os jaós tovacas marrecas-caneleiras pararis...
- Eh-uuu!... Nunca tinha pensado nisso. Verdade que
sim!
Dia claro como em janeiro e um sol que gira o mundo no
eixo e de maneira organizada.
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