quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Voo Livre (juvenil)

 

 

 


 

            Possível impossível, bem, a menina Lilás foi até lá em a Pedra Bonita vestiu a asa-delta e pulou do palco do trampolim da plataforma diante da montanha no espaço espaço sucursal do céu do céu. E se fosse possível impossível nem precisaria, uma vez!

            Asas abertas e bem grandes e bem demais mesmo totais.

            - Ih-uuu!... Sou um pássaro um avião uma nave espacial um meteorito e quem mais!... - se empolgou ela consigo mesma e com a própria façanha.

            E foi exatamente como aprendeu. Saiu correndo pela plataforma em rampa pulou no ar espaçoso do éter e caiu voando em pleno aéreo sem bater as grandes asas. Planando. A asa-delta brinquedo que ganhou da tia Siriúba, agora no décimo aniversário. Lá embaixo a praia minúscula milimétrica filigrana miligrama de São Conrado.

            A ideia inicial era chegar ir longe até o parque do Caparaó. E passou por Ametista do Sul, acima dos 2 mil metros. Fazendo rasto de sombra lá no chão bem sobrevoando Faxinalzinho. Cruzando os céus de Dom Pedrito e numa velocidade de 100 por hora. Hora local umas 10 horas e mais ou menos lá vão os cascalhos.

            - Ah-uuu!... Valeu?! Cinco motivos para voaaaaar!...

            Este o voo de braços abertos sobre a imensidão da paisagem. Sol de dia e de noite, areia branca sem nuvem, mar azul do Atlântico, praia do Sossego. A floresta da Tijuca rio Sergipe aldeia dos uirina.

            Voou nadando como os urubus os gaviões-das-taperas os andorinhões-de-coleira os araçaris... Voo silencioso de asa-delta e tudo mais. Usou as correntes de ar quente, etc., e várias vezes. Navegando em grandes círculos cada vez mais abertos mais longe mais largos mais ocos vazios... Pessoal do chão olhava pra cima e admirava a coragem da guria.

            - Tá vendo aquelas manchinhas lá embaixo? Já te digo!

            Lilás falando consigo mesma, o tal solilóquio, voz alta e sonora:

            - São manchinhas e migalhas e formigas e outras ninharias. Assim mesmo pelo estilo.

            Mais uma pausa e de novo com ela mesma, e na intimidade, particularidade:

            - Pois é a praça Nossa Senhora da Paz. E a ilha Redonda. E a rua Tiapira. E a cidade de Coronel Freitas. Quer mais?! Tchau e até logo!

            Outra pausa e mais uma coisa a dizer, falando os pensamentos, voando com o vento:

            - Oh-uuu!... As pessoas parecem ciscos, os rios parecem fios de barbante largados no solo, as cidades parecem pequenos povoados, as fazendas talhões de roça e lavoura.

            Deslizando manobrando dialogando sozinha apartada em pleno céu, e cheio dos panoramas à vista. São Miguel das Missões pertence a Santo Ângelo e veio nascida do sítio arqueológico de São Miguel Arcanjo, e os miguelinos ao patrimônio histórico e cultural da humanidade e mais ainda representados no dinheiro na nota de 5.000 cruzeiros reais, sendo que isso tudo desde o século XVII.

            Um V atlético aéreo alado e como se vê no meio do vento no meio do sol no meio do ar puro azul veloz voraz. Voo livre necessário complementar e sem nuvem. Emparelhando apostando corrida com casais de araras-azuis araras-vermelhas araras-roxas araras-verdes araras-amarelas.

E passou boiando acima de lagoas e matos e capitais, Ipiaú, Jaguaribe, Cananeia, Comendador Gomes. E chegou ao rio Jacu perto de Domingos Martins. E do céu cristalino pouso aterrissagem espetacular.

            - Uma parada para um abastecimento um lanchezinho! - se justificou com ela mesma.

            Lilás armou para a aterrissagem na montanha. Escolheu o alvo, uma pequena clareirinha do tamanho de uma quadra de futsal no alto da Pedra Azul. Também identificada pelos turistas como Pedra Amarela ou Pedra do Lagarto.

            Foi fácil foi difícil, e pousou sem maiores na perpendicular. Se fosse difícil nem seria fácil! Como fazem as aves pernaltas esticando as pernas e abrindo muito bem as asas.

            - Nem é bem assim!... Veja onde estou!...

            A menina Lilás ficou sabendo que no alto da montanha Azul, pousavam, e pousam, além de asas-deltas e parapentes, pousam os tais e quais discos voadores. É por aí que entram, um dos sítios ou portais, os alienígenas no nosso planeta. Sentiu tanta curiosidade, tanta comichão nos rins no fígado no nariz no pescoço, que resolveu ir até lá para ver qual que era. E efetivamente veio e voou e aterrissou, sensacionalmente.

            - A verdura sem par destas matas! As frutinhas da estação!

            E foi assim. Foi verificar. Saiu de casa logo pela manhã, pegou a asa-delta debaixo do braço, andou dois quarteirões pela rua Barão de Ipanema, uns poucos 10 anos e muito linda. E atravessou pelo alto 3 mil metros as geografias, matas, oceano, planaltos, planícies, continente e serras. De óculos escuros chegou logo ali à tardinha, no inverno. Pousou como se viu, como acreditamos. Pouso seguro perfeito de ave acostumada como um falcão-de-peito-vermelho, e dos grandes.

            - Vamos ver o que temos acá - falou sozinha com muito desembaraço sem timidez sem nada de vergonha na cara, uma atriz ensaiando com o espelho.

            Tudo tão deslumbrante que foi só o tempo de desvestir a asa gigante e ficar de olho em tudo. Olhão arregalado e fixo, e atônita, catatônica, tônica. Apreciando a altitude da Pedra Azul. Apreciando a paisagem de perder de vista de perder o fôlego e que proporcionava encantamento deslumbramento apaixonamento. Sem receio da altura. Sem dúvida nenhuma em olhar pra baixo. Sem vertigem.

Na compostura das 17h se deparou Lilás com o senhor da terceira idade conhecido Arari Mondé. Muito quieto e morando aí mesmo. Este tinha quase nada de barba e cabelo, alguma coisa grisalha atrás das orelhas, chapéu de palha trançada feita de fibras da palmeira pupunheira. Estava sentado sobre uma pedra em posição de quem espera espera... e o olhar longe de quem nunca ou raramente alcança. A garotinha se aproximou mais do velhinho bisavô e perguntou:

            - Ei, seu sábio pajé! É assim desse modo que se chega ao lugar dos discos voadores, astronaves, os tais óvnis, e tripulados por alienígenas e etês e extraterrestres e divinos e deusas deuses? Uns tais e quais que chegaram ontem ou anteontem de Marte?

            Arari Mondé, por acaso batendo o queixo e pingando pelo nariz por causa da friagem do frio da altitude, nada lhe respondeu nem emitiu pio algum. Continuou sentado, meditabundo, distante, apatetado e olhando qualquer coisa ou lugar lá longe no belo horizonte. Parecia estátua durinha desumanizada. Parecia uma copaíba-marimari vegetando. Igual um jomirim plantado. Uma manjerona-do-campo enraizada. A menina insistiu, falou um pouco mais alto:

            - Seu índio da montanha! Você tá bem? Poderia me dizer se estou no discoporto certo?

            Uma longa e interminável pausa de dois minutos dois instantes. Era sobre tarde tardezinha. A menina voltou à carga, pausando as sílabas palavras termos sons letras:

- Ei!... Aqui é da Terra. Será que chove? Hein?!

            Nem adiantou. O passado antigo, Arari Mondé, nem se mexeu, nem piscou, nem sorriu, nem tugiu e nem mugiu. Era parado presente como um vegetal tipo canela-sassafrás ou angelim-araroba ou ipê-pardo-vacariano. Ou seja, continuou firme na mesma posição como se nada fosse com ele. Na mesma mirada sempre olhando para aquele horizonte perdido e largo e profundo. Foi nesse instante que surgiu, ou já estava encostada ali aqui, a ruana mula sem cabeça.

            A assombração se encontrava a poucos metros, e pastava... o quê?! Sim, pastava a grama-das-boticas rala e seca e os talinhos das ervas-da-vida e as hastes das quinas-de-cipó e os brotinhos de erva-santa... levantava o toco do pescoço pro céu frio que vinha escurecendo, dava uma choradinha... o quê?! Sim, se lamentava e voltava a pastar os raminhos de malvas-do-campo e as florzinhas de maniçobas-do-piauí e as frutinhas do murici-pinima... A menina chegou mais e falou à criatura esquisita ente sobrenatural:

            - Oi, coisa estranha. Vi você pastar, ouvi você lamentar... será que estou endoidecendo? O que me diz a sua graça? É de hoje em dia e esqueceu a cabeça, meu?!

            A murzela mula sem cabeça nem se virou para a guria, nem se perturbou, nem se dignou, nem nada que a fizesse mudar de comportamento. Apenas continuou a engolir as folhas tenras do feijãozinho-bravo e da baunilha-do-pará e do maracujá-de-cobra, vez e outra se lamuriando pro céu que já quase anoitecia penumbrava. Agora o espaço aéreo um tanto encoberto por nuvens baixas cinzentas úmidas frias pesadas, e fazendo o tipo de tempo que promove promete chuva chuvarada.

            Lilás se voltou novamente pro senhor Arari, que continuava na dele, absorto, absorvido, embevecido, enlevado, indiferente e o encarou nos olhos, bem dentro dos olhos, nas meninas dos olhos, e que eram azuis, tudo azul, talvez devido ao fato de ficar observando o azul do céu, o azul da Pedra Azul, e lhe perguntou indagou:

            - Puxa, seu autóctone! Me desculpa a urgência da pergunta. É que apareceu uma aparição que pasta e uiva! Que rumina e se lamenta mesmo sem pescoço, tá entendendo?! Afinal, que lugar é esse, cara? Que personagens, hein, tio?

            Pausa. A menina ficou mais preocupada e sozinha na imensidão. O mundo dava lugar ao tempo. Se a gente pensar no tempo... A guriazinha sempre preocupada:

            - Mas o que que é, gente?! Ninguém fala neste território montanhoso passando ao frio de altitude?

            A menina chegou mesmo a tocar no ombro do seu Arari, pessoa de idade. Nem, definitivamente o pajé estava em outra. Paciência. E por falar em paciência, resolveu se sentar também sobre uma pedra e meditar, relaxar. Procurou a postura de iogue, esticou aprumou o torso, cruzou as pernas e sentou em cima, descansou as mãos livres sobre os joelhos e olhou... olhou direto, reto, longe no horizonte. A terapia. A meditação buscando o centro... O centro de quê? O centro de quem e de si mesma?

            Agora Lilás ficou sossegada estática fixa olhando o infinito muito compenetrada, olhos baixos. Ficou olhando lá longe e observando daquele jeito espichado. Como fazem nos conventos os ociosos religiosos monges monjas. Meditando filosofia e versos sagrados.

Escolheu ao acaso o rato-espinhoso que ia passeando lá junto de umas rochas, no meio de uns gravatás e cipós-escadas. Fixou os olhos no bichinho e o seguiu, para cá e para lá, subindo e descendo, se enfiando entre as pedras e as capebas-do-norte, ou correndo ágil, enfim, todas as suas cabriolas e artimanhas e artifícios e artes propriamente ditas. Eta!, bichinho ativo. E tinha família aqui ali em que parte do perau? E criatura de D.

E o rato-espinhoso parecia sozinho, procurando o de-comer, trabalho esse que nem era fácil. Porém persistente. E tinha uns olhinhos opacos de quem lacrimeja e nem tem lenço para assoar o nariz. Um pai de família uma mãe zelosa? E o frio o vento gelado da altitude lhe arrepiavam o pelo. Era arrepiado, descascado, inquieto, exilado, mais ou menos preocupado. Suas patinhas pisavam descalças as pedras e os espinhos de ananás-de-agulha. Uma das patinhas cortada talvez ferida por um espinho ou um graveto. Tinha no geral o pelo uma cor de poeira. Os bigodes de poucos e duros fios finos. Sua fala, “crite! crite!...” ou “chipe! chipe!...” era sempre manhosa e dava para distinguir. A cor dos olhinhos, atormentados pela insônia, levavam um azul pobre. O cheiro era pesado de quem nem tomava banho há dias há meses. E precisava encontrar um jantar já perto do anoitecer. Ou seria um ser um animalzinho noturno notívago.

            Quando escureceu, e o céu azul ficou pontilhado de janelas estreladas, fogueiras de São João, olhinhos de meninos maus piscando na boca da noite, e quase nem se percebia os passeios do rato-espinhoso - e somente se via pouco e pouco sua sombra, seu vulto fininho - veio o gavião-real, surgido inesperadamente de onde?, uma enorme e predadora harpia, e que o levou embora grampeado pelas garras arqueadas potentes.

Lilás acompanhou surpreendida toda a ação da ave de rapina. Esta voou até o alto no topo da montanha Azul e rodeada com cerração densa, e numa reentrância de rocha, o pouso no ninho de galhinhos e folhas secas. Ali a harpia repartiu a comida em duas partes, uma com o filhote que piava aflito, “clii! clii!...” e outra para ela, “crou! crou!...” Então, a menina desconcentrou, saiu do transe, virou a chave o foco e ligou novamente na tomada.

            Se erguendo de onde estava, a menina Lilás procurou saber do antigo Arari Mondé. Ele andava aí e lá e aqui procurando palha, gravetos e paus para a fogueira. A menina desabafou, afastou, declarou:

            - Sabe! Bem que estou tentando conversar com sua pessoa presente. É, tô magoada! Tá ouvindo? Tá escutando, nosso amigo? Talvez nem goste de crianças, ou de visitas, ou de estrangeiros, ou de viajantes de asa-delta. É isso?

            Uma pausa longitudinal de dois minutos dois momentos dois tempos:

            - Tá, tá certo! Nem tá mais aqui quem falou nem foi ouvida escutada.

            O ancião Arari, mais uma volta e mais uma vez outra ocasião, nem deu ouvidos. Fazia um montinho com a palha, os gravetos e os paus secos de pequiá. Depois riscou uma pedra com outra, até saltar uma faísca. A fumaça e a luz subiram para o alto, para o espaço; fizeram nuvens, e estrelas cintilantes cadentes. Aproveitando o calor, o autóctone (índio) preparou uma sapecada de raízes de inhames-cigarras.

            Enquanto aguardavam a comida, uma espécie de batata típica da região, o velho Mondé olhava as estrelas, as nuvens, a lua por entre as nuvens, e assobiava para as altas montanhas que nem eram poucas. O sítio ficou macabro assombrado com rochas, vales e canhadas penando no escuro. O escurão fechado firme e o rebrilho das chamas da fogueira nas pedras e rochas.

Quando a boia ficou no ponto, seu Arari Mondé tirou as tuberosas das brasas. Colocou uma à disposição da menina. Lilás foi comer a merenda, estava quente, “ui! ui!...” foi descascando devagar, devagarzinho, pegando aos bocadinhos, mastigando com receio, soprando, “ufe! ufe!...” engolindo a custo.

            Feito a banal e comum refeição, Lilás sentiu o peso morto do sono invadindo seu cérebro congestionando seu corpo inteiro amortecendo os nervos. Veio chegando numa onda impossível de conter. Anestesiou tudo. Um instante de esquecimento. E uma olhada para dentro de si. Como se passou?

            O velhinho pajé se recostou debaixo do tal poperi que era uma espécie de barraca rústica e improvisada. Deitou no comprido e aquietou e dormiu sem um “boa noite!” sequer e como se fosse tal e qual uma pedra da rocha basáltica.

            De repente, olhando o fogo, olhos apertados e miúdos de sono, as chamas cabeludas de vermelho, Lilás viu apareceu a tordilha mula sem cabeça e que se aproximava do calor esfregando os cascos; veio também o boto-cinza, furo no cocuruto, viola atravessada no peito e cantando uma canção gingando um maxixe que lamentava o frio os rios as distâncias; e de dentro das labaredas num pulo mágico salto acrobático, e redemoinhou rodopiou no ar rolou desenrolou, e se ajeitou bem perto, o saci-pererê. Algumas entidades e entes, em?

            D Nosso Senhor sempre lá na sua azul sala de escritório e despachos reencarnando algumas almas ou espíritos. Ele que manda gente pessoas aqui pra terra, e é mesmo. Quando D encarna a alma no material temporal mortal pegajoso, o conjunto todo vira um ser vivente (eu você ele ela). Este corpo prontamente voa para T de Terra e para o B de Brasil com os lugarejos, Descalvado, Porto Ferreira, Luís Antônio, Analândia... O ente encarnado, então, desce pro mundo e nasce se parecendo com índio e índia paiaguá, catauixi, juma, itatim... ou bicho como a seriema o camaleão o sagui-imperador o tamanduá-mirim... ou planta do quiabinho-do-campo do mangue-de-água-doce do jasmim-pipoca da seringueira-itaúba...

            Sabiá-ferreiro surgindo com o sol bem-te-vi-barulhento a manhã azul profundo beija-flor-safira no ar quase parado umas garrinchas-choronas as montanhas encasacadas de nevoeiro branquinho a saíra-militar pulando gorjeando nos galhos refolhudos da árvore bicuíba o casal de canários-do-mato o bando de pintassilgos... a boa e velha algazarra de toda manhãzinha de sempre festiva nova novidades. Enxame de abelhas aramá e borás-cavalos e vorás-bois procurando flores deliciosas apetitosas suculentas doces. Nuvens correndo no céu e cheias bombadas estufadas e nos intervalos de tempo aéreo.

A menina acordou bocejou esticou os braços abraçou o mundo inteiro. E pulando de pedra em pedra escorregando pelo barranco subindo em árvore juazinho-amarelo. Diagnosticou, e disse:

            - Ontem e hoje vai ser bom igual de amanhã!... Dentro do dia a dia, é!

E já o seu Arari estava de pé fazendo exercícios matinais. Pareciam golpes de dança, umas gingadas suaves, lentas, leves, soltas. Sincronismo com a natureza das aves, dos ventos, das pedras, da montanha, das plantas anhangapiris, jambuaçus, carás-silvestres... Eram movimentos de braços e mãos, de pernas, de sombras. Acompanhando o balanço dos galhos e caules na altitude da montanha. Imitava, ou queria imitar, um bicho qualquer, ou vários deles ao mesmo tempo o sariguê o guariba a tapiti o barrigudo-pardo a cotiara... A mente concentrada, os olhos vivos. Um passo para cá, outro para o lado e as mãos em concha, ou fechadas, ou ainda abertas, livres, desenhando estranhos caracteres no ar figuras invisíveis imaginadas imaginosas aleatórias.

            Lilás foi se juntar a ele. Como já entendia que o pajé nem falava, então assim, nem o cumprimentou. Cada qual na sua. Preparando o corpo e o psicológico pro dia. Foi um ensinamento, um aprendizado sem parecer que fosse. Só pelo exemplo.

            Depois dos exercícios suados, Arari Mondé seguiu uma trilha até chegar num fio de água. Beberam a água azul que descia da montanha Azul. Colheram e comeram frutos silvestres e mangaba, araçá, pitanga, azedinha, mendubim, mel de uruçu... A menina declarou, abriu o coração, para a montanha hiperpedra remota alta distanciada:

            - Linda montanha da Pedra Azul, teto do mundo, maravilhosa... A sua verdade é o silêncio, o frio, o alto, alguma nebulosidade ao amanhecer. Tão perto de D. Agora sei que pareço um inseto formiga quenquém-mineira-de-duas-cores. Meus olhos nem lhe alcançam, meu coração te abraça e se sente abraçado. Adorei!

            O Arari Mondé pegou do seu marraque e rumou para oeste, serra de Itatiaia. A separação foi inevitável e definitiva. Lilás nunca mais o veria. E sem nunca, “psiu!...” ouvir palavra de sua boca voz da sua fala.

            Um pequeno cupim entrando em casa sua própria habitação uns deles entrando em casa no cupinzeiro muitos e mais de mil entrando agora mesmo em casa, ou seria um mega ultra superlativo superlotado condomínio. O cupinzeiro no meio do matinho rasteiro de jalapas-vermelhas parecia uma pirâmide uma ilha um império uma megalópole supertumultuada. Quanta gente! Qual o coletivo de cupim? Seria enxame ou hoste ou legião ou chusma ou colmeia ou cardume ou cupinzama?

            A menina vestiu as barbatanas longas de cor verde a asa-delta. Asas duronas e grandes e maiores ainda. Foi até a rampa do precipício e tomou decisão e tomou impulso e tomou vento na cara. Correndo na descida vertiginosa radical irracional praticamente vertical, uma aventura perigosa:

            - Ih-uuu!...

            Se lançou no espaço azul como um pássaro conhecido. Igual gavião-pombo-grande. Pulou da Pedra Azul para o D dará. Era real especial e atiçava todos os nervos mexia com a adrenalina. A legítima andorinha-do-campo. Mas também ainda mais uma menina fora do seu elemento natural, etc., e assim por diante.

            Mata atlântica rio de Contas reserva dos índios assurini-do-tocantins... Dez motivos para visitar Itapagipe... Uns cinco motivos para gostar de Uruana de Minas... Velocidade voo controlado sobrenadando arroio Ponche Verde e a localidade de Camaquã e Cotiporã...

            - Uh-uuu!... Pois aquele aparelho lá ao norte é o forte... forte como nunca de Santa Cruz de Itamaracá! - gritava a menina para si mesma e cheia de uma empolgação e cheia de muitas razões.

            Contava uma pausa. Logo pegava a empolgar como nunca, voando, nadando no céu:

- Oh-uuu!... E depois a cidade de... de Piatã! Aquele ziguezague ali embaixo é o rio... o rio dos Sinos! - e mal podia se coçar segurando as asas grandonas brilhantes ao sol bem abertas no dia específico.

O sol encestado em si mesmo, braços longos cruzados no sistema Solar. E por que nem chovia hoje, todavia? Logo assim naturalmente há uma diferença entre os humanos nós e o sol ele, podemos dizer. O sol é divino é deus mas nem é humano, uma vez!

Pronto. A menina foi voando a nado para cá e para lá no céu limpo como sonham voar as pessoas e como fazem naturalmente os alados bicos-chatos-de-orelha-preta. Uns 2 mil metros de altitude. Era verão. Pintada no espaço magnífico magnético. As ondas de ar quente esticando os cabelos elásticos. E passou por lugares e mais a Pedra das Flores e esta toda vestida revestida florida de bromélias orquídeas samambaias anilaçus... E na tarde sobre o parque Ararigboia, ela guria toda acompanhada de aves cantoras interpretes lado a lado com as paralelas e emparelhados os jaós tovacas marrecas-caneleiras pararis...

- Eh-uuu!... Nunca tinha pensado nisso. Verdade que sim!

Dia claro como em janeiro e um sol que gira o mundo no eixo e de maneira organizada.

           

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