Festa na
paróquia da Trindade, e o bairro todo ali e estava e muito mais. Todos
anônimos.
Dezenas de
brinquedos gigantes, mil barraquinhas de jogos comidas bebidas. O tumulto
generalizado. A lua bola enorme, branca, anúncio, amarrada na jubatã.
Andamos pelo
meio da multidão nos esfregando, nos espremendo, nos perdendo, procurando
olhar, reparar em figuras bizarras, espiar as tendinhas, os monstros de ferros
e luzes e giros e rangidos e solavancos.
O céu piscava
estrelas perfumadas de vinho quente. O
alto-falante tocava caipiras telenovelas axés recados convites. Havia crianças
brincando, escorregando entre a multidão, se esquivando, se esgueirando, atropelando,
correndo. Onde foram parar as laranjas que deram nome à festa?
Juberi, poema de
dois pequenos e tenros pomos de sonho, prendeu minha mão, levou minha mão,
apoiou minha mão. Atados pelas mãos, compartilhados, divididos, somados,
equilibrados, aliados, acorrentados, acolhidos, geminados, acolherados. Queria
porque queria experimentar o kamikaze.
Presos à
roda-gigante, as gentes brincavam tagarelavam diziam mil coisas gritavam
esperneavam desabafavam quicavam excitadas. Sorrisos e risos a noite toda.
Em horas tais
toda a música todo brinquedo cessavam e a igreja se enchia de fiéis o padre
dava início a mais uma missa o candidato a vereador sentava na primeira fila o
fabriqueiro passava a sacolinha.
Do lado de fora,
nas escadarias, na pracinha em frente, perto da rua, um senhor de careca
reluzente eloquente extraterrestre vendia bilhetes da sorte “é só raspar”.
Alagoanos de Ouro Branco ofereciam redes de dormir. Cunhantãs cunhãs curumins
da tribo arara-do-aripuanã ofereciam tocos de arabutã disfarçados em cutia
sagui quati jacaré-de-papo-amarelo onça-pintada gavião-carijó siriúva. Estudante
de Lajes oferecia cartões de aniversário. Casais jogavam argolas de plástico
coloridas nas garrafas que valiam 10, 50, 100 reais, comiam pinhão,
batata-frita, cachorro-quente, pipoca, pé de moleque, rapadura, se beijavam
muito.
Abracei e fomos andando para lá e
voltamos. Lentamente de asas dadas. Como comer algodão-doce e conversar as
impressões das coisas vistas e ouvidas e cheiradas.
Jaracatiás e
acás e guarantãs gigantes preenchendo o pátio todo da igreja galhada comprida
folhagem abundante verde demais. Fazia o leste.
De repente parou
tudo, paramos todos, tudo congelou travou eternizou ali mesmo. Comportados
todos, mão direita no peito, posição de sentido, empertigados, posicionados,
perfilados, impávidos cantamos o hino Nacional.
Se sobressaindo da multidão, num
pedestal, o São Francisco fazia um gesto com a mão, uma espécie de bênção, ou
de adeus, ou de saudação. Gesto sublime que praticamente enternecia. Gesto que
se distribuía e se repartia igualmente pelas pessoas e pelos bichos.
Um santo para
cada coisa, um santo para cada desejo, um santo para cada dia, um santo para
cada pessoa, um santo para cada casa, um santo para cada cidade, um santo para
cada rio.
A festa retomava
seu tumulto sua confusão seu reboliço conforme. O som dos axés estalava na
noite leste e estrelada. Um tanto de frio suficiente. Estava escrito nas
estrelas.
Onde foram parar
as laranjas douradas e doces que deram cor e sentido e sabor a essa festa?
A lua namorada,
marca, presa aos galhos do jatobá-vermelho, balançava, não subia nem descia.
Explodiam alguns foguetes. O tetéu se assustou, voou embora para longe dali do
alto das grimpas do pinheiro-do-paraná.
Sentimos sede e fomos tomar garapa
com bicada de abacaxi, sentimos fome e fomos comer pastel de queijo com muito
sal feito na hora.
Me vi feliz como
um aprendiz, agradecido e aéreo, porque Juberi estava do meu lado e falou
“querido”. Olhei para ela e seus gestos seu aconchego seu ronronar de
pomba-rola, etc., o balanço dos seus cabelos, e tudo tudo me veio já em câmara
lenta. Como um sonho esperado e matriculado e pacífico. Então, a sorte trouxe o
seu sentido e seu almejado de sempre.
Os cidadãos
circulavam leves e contentes. Ombro a ombro, passos curtos, movimento apertado,
congestionado, copo plástico na mão, em pares, em grupo, conversando,
caminhando desencontrado. A festa era grande dentro da noite leste, e isso aí:
aniversário da cocada.
Inesperadamente
caíram sobre todos nós, sobre nossas arejadas descobertas indefesas cabeças,
choveram canivetes espadas machados foices facas pregos agulhas tudo em pontas
que eram presentes dos deuses.
Um moço vestido
à anos setenta assustava crianças e gurias bonitas. Vinte e cinco graus
centígrados, sete metros acima do nível do mar. Anunciavam baile no salão
paroquial. O pipi no escuro junto ao muro lá nos fundos no limite entre a
igreja e o pomar do vizinho. O fuminho fissurante da turma.
Fogos explodiam
no ar da noite. Cada fogo com três pancadas duras de tremer a terra e tapar os
ouvidos. Todos alarmados alargavam os sorrisos e riam. Provocavam também
aplausos vivas gritos latidos de cães.
Olhos brilhantes
de um verde vivo de Juberi. Moça afável amável delicada agradável bondosa.
Subiam para o ar
das estrelas os pequenos balões de Mônicas e Cebolinhas, abraçados em coração
vermelho. Doce de sagu com creme musse de chocolate, gelatinas vermelha verde
amarela azul, pudim de leite, arroz doce, sonho com recheio de doce de abóbora,
brigadeiro. E as laranjas que dão nome à festa?
Muito aguardado
com anos e anos de atraso a família Real, o cortejo Imperial, Dom Pedro II e a
imperatriz dona Teresa Cristina, as princesas Isabel e Leopoldina, toda a
corte, os figurões, os nobres, os lacaios, o jogo de capoeira, a tribo dos
pitaguaris vestidos de palha de ouricuri e toda a bateria da escola de samba.
Muito bonito
merecendo aplausos e risos e exclamações, a carruagem Real puxada por quatro
cavalos brancos, a barba branca do Imperador, tudo tão Real, os ministros, os
dragões, os brancos no centro, os negros segurando as sombrinhas e sobrecéus. A
plateia se fazendo de povo.
O Imperador olha
para dentro do seu país continental e carrega seu país nos ombros. Segue com
passos medidos para o beija-mão segue sorrindo um sorriso giz os olhos azuis de
bonachão. Vestido de dourado e veludo e brilhantes e diamantes e ouros e pratas
para um baile de carnaval.
Meus olhos
seguiram o cortejo, meus sonhos, meus desejos, meus prazeres, meus instantes
favoritos. Meu pensamento leve como o abraço de Juberi.
O rei Momo vinha
até fora cumprimentar as crianças as gurias bonitas, e recebia aplausos, risos,
alegrias, um botão de flor fotografias. Se curvava respeitoso respeitosamente
sorrindo, elegantemente bem vestido com trajes majestosos pomposos, desenhava
no ar com a mão e o lenço amarelo um arco todo chique e engraçado e
salamaleque.
A procissão
passeava pelas ruas do bairro, o calçamento atapetado com figuras feitas em
serragem pintada, as janelas das casas com toalhas bordadas, a multidão seguia
conversando e se distraindo, as crianças corriam na frente, uns carregavam
estandartes de santos, as gurias bonitas se fingiam para os guris e estes
olhavam as bonitas gurias lindas se achando. Fogos novamente batiam a escuridão
da noite como pancadas de bumbo.
Um minuto fomos
presenteados sobrevoados por luzes fosforescentes zumbidos que alguns
entenderam quiseram confundir com espaçonaves discos voadores de Marte.
Minha mão
deslizou pelas costas quentes de Juberi e ela achou de me olhar e me dizer e me
presentear “estou grávida!” E as estrelas do céu se confundiram com fogos de
chuva de estrelinhas coloridas explodindo das galáxias.
A festa toda em
si no mundo dentro do nosso mundo nada mais que uma chama de isqueiro na noite
sem fim do universo ao sul e que pagamos para ver piscar todas as noites. E das
estrelas do céu até a Terra, quanto de espaço quanto de som quanto de rastro
quanto de alto quanto de quilômetros-luz.
O desfile
voltava ao ponto de partida. Os carnavalescos batucavam sem tempo. Os fiéis
entravam na igreja para rezar pelos donos do mundo, pelos pecados do mundo,
pelas guerras do mundo, pelas secas do mundo, pelas enchentes do mundo, pelos
mistérios do mundo, etc.
A chama da festa
era um transporte uma coisa um mistério um milagre. A lua batendo um bolão
produto jogando presa no juazeiro. Chegamos à barraca dos quindins.
Nos beijamos
pela enésima vez e Juberi sempre tinha uns olhos doces verdes delicados
impossíveis transfigurados divinizados próximos.
A festa da
cocada, a festa da laranja, amanhecia. Lá do seu escanteio, e campo cósmico do
infinito, o sol sempre de prótons, enorme como uma laranja-de-umbigo amarela,
anunciava com estardalhaços de cores o dia atômico um céu azul moralizante
passarinhos territoriais. Tanto quanto parecem ser coleirinhas e corruíras e
tesoureiras e joões-de-barro e tico-ticos e curiós e canarinhos-da-terra e
jurutis e pintassilgos acordavam espreguiçavam cantando com saúde.
Pouco a pouco
surgiam os montes, as outras coisas, os prédios, as ruas com fila de javaris,
as nuvens altas, os ônibus, o mundo se recriando. E o mundo se recuperando de
novo. Um dia nacional contemporâneo respeitável.
Pronto, eu e mais
e Juberi temos os três e o futuro.
Mas o futuro
sim.