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quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Trindade


        Festa na paróquia da Trindade, e o bairro todo ali e estava e muito mais. Todos anônimos.

        Dezenas de brinquedos gigantes, mil barraquinhas de jogos comidas bebidas. O tumulto generalizado. A lua bola enorme, branca, anúncio, amarrada na jubatã.

        Andamos pelo meio da multidão nos esfregando, nos espremendo, nos perdendo, procurando olhar, reparar em figuras bizarras, espiar as tendinhas, os monstros de ferros e luzes e giros e rangidos e solavancos. 

        O céu piscava estrelas perfumadas de vinho quente.        O alto-falante tocava caipiras telenovelas axés recados convites. Havia crianças brincando, escorregando entre a multidão, se esquivando, se esgueirando, atropelando, correndo. Onde foram parar as laranjas que deram nome à festa?

        Juberi, poema de dois pequenos e tenros pomos de sonho, prendeu minha mão, levou minha mão, apoiou minha mão. Atados pelas mãos, compartilhados, divididos, somados, equilibrados, aliados, acorrentados, acolhidos, geminados, acolherados. Queria porque queria experimentar o kamikaze.

        Presos à roda-gigante, as gentes brincavam tagarelavam diziam mil coisas gritavam esperneavam desabafavam quicavam excitadas. Sorrisos e risos a noite toda.

        Em horas tais toda a música todo brinquedo cessavam e a igreja se enchia de fiéis o padre dava início a mais uma missa o candidato a vereador sentava na primeira fila o fabriqueiro passava a sacolinha.

        Do lado de fora, nas escadarias, na pracinha em frente, perto da rua, um senhor de careca reluzente eloquente extraterrestre vendia bilhetes da sorte “é só raspar”. Alagoanos de Ouro Branco ofereciam redes de dormir. Cunhantãs cunhãs curumins da tribo arara-do-aripuanã ofereciam tocos de arabutã disfarçados em cutia sagui quati jacaré-de-papo-amarelo onça-pintada gavião-carijó siriúva. Estudante de Lajes oferecia cartões de aniversário. Casais jogavam argolas de plástico coloridas nas garrafas que valiam 10, 50, 100 reais, comiam pinhão, batata-frita, cachorro-quente, pipoca, pé de moleque, rapadura, se beijavam muito.

        Abracei e fomos andando para lá e voltamos. Lentamente de asas dadas. Como comer algodão-doce e conversar as impressões das coisas vistas e ouvidas e cheiradas.

        Jaracatiás e acás e guarantãs gigantes preenchendo o pátio todo da igreja galhada comprida folhagem abundante verde demais. Fazia o leste.

        De repente parou tudo, paramos todos, tudo congelou travou eternizou ali mesmo. Comportados todos, mão direita no peito, posição de sentido, empertigados, posicionados, perfilados, impávidos cantamos o hino Nacional.

Se sobressaindo da multidão, num pedestal, o São Francisco fazia um gesto com a mão, uma espécie de bênção, ou de adeus, ou de saudação. Gesto sublime que praticamente enternecia. Gesto que se distribuía e se repartia igualmente pelas pessoas e pelos bichos.

        Um santo para cada coisa, um santo para cada desejo, um santo para cada dia, um santo para cada pessoa, um santo para cada casa, um santo para cada cidade, um santo para cada rio.

        A festa retomava seu tumulto sua confusão seu reboliço conforme. O som dos axés estalava na noite leste e estrelada. Um tanto de frio suficiente. Estava escrito nas estrelas.

        Onde foram parar as laranjas douradas e doces que deram cor e sentido e sabor a essa festa?

        A lua namorada, marca, presa aos galhos do jatobá-vermelho, balançava, não subia nem descia. Explodiam alguns foguetes. O tetéu se assustou, voou embora para longe dali do alto das grimpas do pinheiro-do-paraná.

Sentimos sede e fomos tomar garapa com bicada de abacaxi, sentimos fome e fomos comer pastel de queijo com muito sal feito na hora.

        Me vi feliz como um aprendiz, agradecido e aéreo, porque Juberi estava do meu lado e falou “querido”. Olhei para ela e seus gestos seu aconchego seu ronronar de pomba-rola, etc., o balanço dos seus cabelos, e tudo tudo me veio já em câmara lenta. Como um sonho esperado e matriculado e pacífico. Então, a sorte trouxe o seu sentido e seu almejado de sempre.

        Os cidadãos circulavam leves e contentes. Ombro a ombro, passos curtos, movimento apertado, congestionado, copo plástico na mão, em pares, em grupo, conversando, caminhando desencontrado. A festa era grande dentro da noite leste, e isso aí: aniversário da cocada.

        Inesperadamente caíram sobre todos nós, sobre nossas arejadas descobertas indefesas cabeças, choveram canivetes espadas machados foices facas pregos agulhas tudo em pontas que eram presentes dos deuses.

        Um moço vestido à anos setenta assustava crianças e gurias bonitas. Vinte e cinco graus centígrados, sete metros acima do nível do mar. Anunciavam baile no salão paroquial. O pipi no escuro junto ao muro lá nos fundos no limite entre a igreja e o pomar do vizinho. O fuminho fissurante da turma.

        Fogos explodiam no ar da noite. Cada fogo com três pancadas duras de tremer a terra e tapar os ouvidos. Todos alarmados alargavam os sorrisos e riam. Provocavam também aplausos vivas gritos latidos de cães.

        Olhos brilhantes de um verde vivo de Juberi. Moça afável amável delicada agradável bondosa.

        Subiam para o ar das estrelas os pequenos balões de Mônicas e Cebolinhas, abraçados em coração vermelho. Doce de sagu com creme musse de chocolate, gelatinas vermelha verde amarela azul, pudim de leite, arroz doce, sonho com recheio de doce de abóbora, brigadeiro. E as laranjas que dão nome à festa?

        Muito aguardado com anos e anos de atraso a família Real, o cortejo Imperial, Dom Pedro II e a imperatriz dona Teresa Cristina, as princesas Isabel e Leopoldina, toda a corte, os figurões, os nobres, os lacaios, o jogo de capoeira, a tribo dos pitaguaris vestidos de palha de ouricuri e toda a bateria da escola de samba.

        Muito bonito merecendo aplausos e risos e exclamações, a carruagem Real puxada por quatro cavalos brancos, a barba branca do Imperador, tudo tão Real, os ministros, os dragões, os brancos no centro, os negros segurando as sombrinhas e sobrecéus. A plateia se fazendo de povo.

        O Imperador olha para dentro do seu país continental e carrega seu país nos ombros. Segue com passos medidos para o beija-mão segue sorrindo um sorriso giz os olhos azuis de bonachão. Vestido de dourado e veludo e brilhantes e diamantes e ouros e pratas para um baile de carnaval.

        Meus olhos seguiram o cortejo, meus sonhos, meus desejos, meus prazeres, meus instantes favoritos. Meu pensamento leve como o abraço de Juberi.

        O rei Momo vinha até fora cumprimentar as crianças as gurias bonitas, e recebia aplausos, risos, alegrias, um botão de flor fotografias. Se curvava respeitoso respeitosamente sorrindo, elegantemente bem vestido com trajes majestosos pomposos, desenhava no ar com a mão e o lenço amarelo um arco todo chique e engraçado e salamaleque.

        A procissão passeava pelas ruas do bairro, o calçamento atapetado com figuras feitas em serragem pintada, as janelas das casas com toalhas bordadas, a multidão seguia conversando e se distraindo, as crianças corriam na frente, uns carregavam estandartes de santos, as gurias bonitas se fingiam para os guris e estes olhavam as bonitas gurias lindas se achando. Fogos novamente batiam a escuridão da noite como pancadas de bumbo.

        Um minuto fomos presenteados sobrevoados por luzes fosforescentes zumbidos que alguns entenderam quiseram confundir com espaçonaves discos voadores de Marte.

        Minha mão deslizou pelas costas quentes de Juberi e ela achou de me olhar e me dizer e me presentear “estou grávida!” E as estrelas do céu se confundiram com fogos de chuva de estrelinhas coloridas explodindo das galáxias.

        A festa toda em si no mundo dentro do nosso mundo nada mais que uma chama de isqueiro na noite sem fim do universo ao sul e que pagamos para ver piscar todas as noites. E das estrelas do céu até a Terra, quanto de espaço quanto de som quanto de rastro quanto de alto quanto de quilômetros-luz.

        O desfile voltava ao ponto de partida. Os carnavalescos batucavam sem tempo. Os fiéis entravam na igreja para rezar pelos donos do mundo, pelos pecados do mundo, pelas guerras do mundo, pelas secas do mundo, pelas enchentes do mundo, pelos mistérios do mundo, etc.

        A chama da festa era um transporte uma coisa um mistério um milagre. A lua batendo um bolão produto jogando presa no juazeiro. Chegamos à barraca dos quindins. 

        Nos beijamos pela enésima vez e Juberi sempre tinha uns olhos doces verdes delicados impossíveis transfigurados divinizados próximos.

        A festa da cocada, a festa da laranja, amanhecia. Lá do seu escanteio, e campo cósmico do infinito, o sol sempre de prótons, enorme como uma laranja-de-umbigo amarela, anunciava com estardalhaços de cores o dia atômico um céu azul moralizante passarinhos territoriais. Tanto quanto parecem ser coleirinhas e corruíras e tesoureiras e joões-de-barro e tico-ticos e curiós e canarinhos-da-terra e jurutis e pintassilgos acordavam espreguiçavam cantando com saúde.

        Pouco a pouco surgiam os montes, as outras coisas, os prédios, as ruas com fila de javaris, as nuvens altas, os ônibus, o mundo se recriando. E o mundo se recuperando de novo. Um dia nacional contemporâneo respeitável.

        Pronto, eu e mais e Juberi temos os três e o futuro.

        Mas o futuro sim.