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domingo, 28 de fevereiro de 2016

Contos de Santa Luzia (1)

                                              


         Uma quinta-feira ou sexta-feira com cara de sábado à tarde, com silêncio de domingo pela manhã, com nada que fazer de feriado de Sete de Setembro; certo ou nem tão correto das horas do meio-dia ou pouco mais ou pouco menos, se tanto, o sol rachando caindo em chapa no ouro atômico, ressolana terrível.
         A Fera felina pulou agilmente da carroceria do caminhão-jaula placa de Santa Maria. E começou a andar e procurar pelo deserto de terra vermelha. Caprichosamente e perfeita pintada com pintas e pingos amarelas e pretos. Os grandes olhos bem acesos, pupilas verticais, olhos de dentro do sol, redondos, estalados, recortados, ligados, amarelos, solares. Maleável perfeitamente como uma felina original nacional profissional. E seguiu sempre preocupada na planície deserta e escaldante minada de tucurus.
Uma baita felina que podia muito bem ser uma leoa, uma tigresa, uma guepardo, uma leopardo, uma pantera, uma modelo de passarela. Nem podia ser a onça-pintada ou parda ou negra ou vermelha, a puma, a jaguar, a jaguaretê, a jaguatirica, a suçuarana, a gato-maracajá, a canguçu, a gato-do-mato-pequena.
         A Fera xucra foi vazando pela terra esturricada. Tocos podres ou requeimados de ex-árvores, passariúvas, tucunarés-mereçás, dois-por-dois, butuas-catinguentas. E olhando assustada, alerta, escaldada, cuidadosa, se movimentando macia, camuflada, trocando orelhas, treque-treque!... Nem reconheceu do lugar coisa alguma. O coração tocando fora do normal, em marcha acelerada, em tom de tambor, com gosto amargo na boca, pelo incendiado. O grande chapadão de terra vermelha vento vermelho nuvens vermelhas. Desconfiada, melindrada, nervosa, ressabiada. Nem era seu território e nunca seria.
Parava intermitentemente indecisa para escutar, cheirar, pensar, estudar, calcular, olhar para trás. Tentou tentou se orientar. Olhos ardidos, língua de fora, unhas quebradas, pés cortados no pedregulho e requeimados na terra quente. Sol muito forte e daí para mais.
Cravou as garras no chão de terra requeimada, cavou, cavou procurando. Olhou os lados, levantou a voz rouca e desafiadora, ruuuuu!... Queria descansar mas o sol forte do meio-dia.
Depois, quando, horas do meio-dia, encontrou subiu num guamirim-felpudo arrancado caído e olhou em torno o descampado desnaturado. E nem pôde dormir nem nada. Um longo bocejo, uma boca normal de fera, uma boca enorme de dentes grandes e pontiagudos, boca aberta com a língua de fora mal resfolegando o ar quente do mundo todo. Pontada do lado.
         Dia e horas e horas de silêncio. Sol desesperado. Sol desleal. O vento jogando punhados de poeira nos olhos. O vento carregando a terra seca sem parar sem parar. Calor e poeira sem necessidade.
         A vila de Santa Luzia sempre pobre, silenciosa, mínima, arruinada. E nuvens de pó vermelho, polvadeira, poeirada, poeirama. Poucas casinhas, vinte ou vinte e uma, todas cobertas de capim, ladeando a única rua, a rua Única. Casas de pau-a-pique praticamente quebradas pelo esforço do sol diário, pelo esforço da poeira constante, pelo esforço dos redemoinhos de saci. Uma pracinha com ex-arvorezinhas todas torradas e requeimadas de sol, tangaracás-açus, jacitarapuís, bacuparis-do-campo. Fantasmas de homens e mulheres esquálidos, desgrenhados, descadeirados. A vila os vilões apodreciam no vazio. E uma capela em honra à Santa Luzia.
         Nuvens nem muito altas nem muito rápidas tocadas por um bafo quente, sopro nem muito forte nem muito insistente mas seco e vermelho e constante. Sol confuso e ofendido. Um sol que ainda nem nunca havia saído de cena.
         Na sombra mormacenta do casebre torto, óculos escuros e palito no canto da boca, o ex-Tratorista agrícola nem olhava a rua Única. Mastigava o palito e nem pensava em mais nada. Dia de meio-dia coberto de poeira.
Uma pequena onda de terra vermelha se ergueu lá na ponta sul da rua Única. Ninguém viu. Todos podiam ver. Era sempre assim mesmo. Um deserto de sol muito chapado no fim de tudo. Sol espantoso que já torrara o mundo todo.
         A estiagem mais os incêndios fizeram do lugar um ambiente abafado e irrespirável e arruinado e infernal. O mundo coberto de cinzas e poeira vermelha.
Os poucos semoventes do arraial perdidos na fumaça, na poeira, na soalheira, no silêncio. Vilões e vilãs sonolentos, cansados, preguiçosos, esmolambados, desgrenhados, desalinhados, mudos. Os olhos ardidos, as gargantas ressequidas, os cabelos requeimados. Vila e vilões sem altura de pouca estatura. E tentavam dormir e nem se olhavam e nem se falavam.  
Vento em ondas quentes de terra vermelha, tudo sufocante: mundo sob as cinzas, mundo sob o pó vermelho, mundo sob o sol atônito. O mundo todo já derretido.
         Durante todo o sol e a claridade do solar e o sol que aniquila, a Fera já arrependida e já boquiaberta e já com dor de cabeça. Sentia o vazio e o frio do fogo pelo interior do bucho. A força do instinto a alertou para o perigo da gastura estomacal. A garganta apertando, quase sem voz, rouca, greeeee!... focinhando a terra esturricada. Procura que procura uma saída e um lugar novo em pleno meio-dia.
         E a Fera engolia os redemoinhos de poeira. Prestava atenção no vento quente e nem nada nas distâncias. O sol quente e tudo silencioso. Assim, foi andando delirando foi andando vendo fornalhas nas horas plenas do meio-dia. O solo baforando fumaça e calor e poeira e silêncio e nada.
Desceu até umas lajes escaldantes e entrou no leito de ex-rio que virara caminho de areia e de pedras soltas. Lambeu umas pedras lisas, cavou à vontade na areia, cavou, bufou e bufou, vu-vu-vu!... A Fera estava afobada, cansada, inchada de calor. Com uma dor de cabeça de rachar o crânio, e que só fazia aumentar. Urrou, urrrrro!... ao mundo todo, garganta seca e dor de estômago e pontadas do lado. Nem conseguiu esquecer o vazio na barriga. A língua de fora, os pés em chapa quente. A luz excessiva tirando faíscas das pedras e doendo nos olhos amarelos amarelos.
         Se encaminhou para qualquer lado. Na mente derretida a figura insistente de um abrigo qualquer. E tentou achar graça nas folhas secas do chão, nos gravetos requeimados, nas pedras soltas, na poeira das mãos. Ciscou aqui e ali, cavou e cavou, o coração fora de compasso. Ergueu as garras para o ar, arranhou a sombra das pedras, escarafunchou o chão encardido, bramiu, braaaaa!... Caiu estonteada cheia de cansaço e preguiça e formigamento pelo corpo.
         A Fera, criada guaxa, nem se perguntou mais nada. A Fera somente se cozinhava no caldeirão do meio-dia. A mente felina já vazia de imagens. A Fera tentou respirar o ar quente, quentíssimo. As meninas da felina nem se acostumavam com tanta luminosidade. A Fera fechou os olhos diante de tanta luz. O incêndio que borbulhava desde dentro dela mesma.
         O ex-Açougueiro de chapéu de palha macaúba trançada desfiado, camisa amarela de mangas curtas desabotoada na frente e bermudão azul desbotado sem bolso, deu meia volta na casa pequena e foi para a frente na porta da ex-loja. No alto do batente uma ferradura pregada. Abriu a porta da sala vazia, escancarou a janela do nascente, esfregou as mãos. Olhou a única rua da vila. Tudo silêncio e poeira e sol. Tudo muito calor. Sentou numa cadeira de balanço, ali no meio da porta. Olhou a rua Única e nem esperou nada. A praça deserta cheia de luz intensa. O sábado ou domingo por volta das doze horas nem tinha nada.
         Sentado na sombra vacilante da ex-farmácia, chapéu de palha buriti no joelho direito, o ex-Farmacêutico coçava a orelha esquerda com a ponta da unha do dedo mindinho esquerdo. Um céu meio confuso de poeira vermelha, um mundo que seguia em ondas de calor e poeira, vento quente, mormaço e terra andando. As ex-plantas da pracinha pareciam espetos de pontas pretas voltados para o céu, espetos tucuns, espetos gervões-do-alagadiço, espetos jerivás, espetos azedas-do-prejo.
         Encostada no batente da porta de casa que dava para a rua Única, a vilã descadeirada, uma ex-Lavadeira, cabelos em desalinho, olhava sem ver o horizonte escaldante. Chão e alto tomados de toda luz e poeira vermelha e redemoinhos de saci. Colunas e mais colunas de poeira, nuvens e nuvens flutuando fazendo o ar irrespirável, vermelho. O silêncio era tudo total. Sol insuportável do meio-dia e estalando.
         A Fera felina só fazia grunhir, graaaaa!... cansada de andar, e andar tanto, andar ao léu. Nem ouviu um som, nem conseguiu pesquisar um cheiro, nem seguiu um rasto. Aí, lembrou o vazio absurdo no estômago. Lambeu sem querer os beiços peludos e chamuscados, as solas dos pés requeimadas, e tentando a todo custo iludir a falta de ar. A dor de cabeça insuportável, latejante. Os olhos desolados e ardidos diante de tanta luz.
         A capela em homenagem à Santa Luzia ficava sempre atenta, sempre de porta aberta. Casinha de pau-a-pique coberta de palha santa-fé. Dentro, em altar, Santa Luzia segurava os olhos azuis numa balancinha com bandejinha empanados de pó.
Guria e moça e cunhantã, Luzia nunca esquecera de insistir: “Haveria de ser santa”. Era de família nobre e rica e poderosa e requintada e numerosa. A beleza da menina era beleza de uma lindeza mais que admirável, incomparável, longos cabelos brancos com pontas cacheadas, olhos grandes negros, dentes certinhos brancos, lábios carnosos rosados e tudo ajustado em os um metro e setenta e cinco. Uma beleza incontrolável, incontestável, eloquentíssima. Levava uma sina de criança esquiva e quieta e estudiosa.
Depois, Luzia tinha muitas árvores e flores no jardim enorme bem cuidado, árvores frondosas com milhões de folhas para contar e que tagarelavam com o vento, e flores magníficas como a brinco-de-princesa cor vermelha cor branca cor azul, e os dois-amores, e as rosas-do-campo, e os amores-do-campo, e as begônias-sempre-floridas. Muitos avinhados e pinéus e mães-da-taoca e tangarás e quenquéns e joões-arredios e saurás vinham cantar no seu quintal. Tinha de presente uma potra baia cebruna para voar e correr subir e descer as coxilhas e as canhadas e os boqueirões.
Com dezesseis anos, Luzia foi submetida à torturas, os seios foram decepados, acabou morrendo. O céu ficou escuro na hora e choveu três longos dias e noites sem parar sem parar. A enxurrada levou barrancos e casas e carroças para o fundo do rio Itoupava. Fora de dúvida que foi um desastre ecológico e tanto para a cidade de Jaquirana e arredores em Amapá.
Cedo, Luzia se revelou para a vocação monástica. Aceitou sem reservas as regras severas do confinamento. Passou sua vida no convento, marcada por acontecimentos milagrosos. Parentes e amigos que a visitavam no aniversário diziam ver uma aura de ouro em sua volta. Viveu para as meditações e orações e cuidados com os doentes terminais. Tinha enorme predileção para com as árvores as flores os pássaros falando com os bichos que encontrava por acaso pequenos médios e grandes. Passava horas e horas do dia ajoelhada contra a parede, rezando. Passava dias e noites em jejum caminhando entre as pedras e dunas e ou escrevendo na areia da praia da Enseada.
Luzia recusou casar com o Imperador e por isso foi encarcerada, chicoteada, estuprada, torturada na roda de quebrar ossos - a roda se despedaçou e os estilhaços de madeira atingiram alguns espectadores. Decapitada, de suas veias jorraram leite. Seu corpo teria sido levado por anjos, anjos todos com branco, anjos de grandes asas brancas de bordas douradas.
Quando ainda bem mocinha, no século IV, Luzia fugiu de casa e foi ordenada freira. O convento ficava no morro mais alto da cidade. A cidade de Serra Negra na serra da Mantiqueira foi invadida e saqueada durante perseguição aos cristãos. E todos procuraram se esconder, todos procuraram cavernas e lapas e minas, todos procuraram ocos de árvores e ninhos de araras-azuis-grandes. Cães farejadores farejaram Luzia, que foi presa e morta - degolada, corte de orelha a orelha.
Conta-se de Luzia, que ainda foi raptada durante uma invasão dos bárbaros e vendida como escrava. Levada arrastada presa acorrentada de lugar para lugar imigrou contrabandeada para até além do rio Mucuri na região da serra da Cantareira. Aí, por não querer renunciar a sua fé cristã, foi torturada, os pés arrancados e crucificada de cabeça para baixo.
Ela, a bendita Luzia, se dedicou aos pobres e enfermos e desenganados da justiça. Beijava e lambia as feridas dos doentes. Foi martirizada, por volta do século II, durante a perseguição aos cristãos na cidade de São Francisco de Paula. Teria tido os olhos arrancados por seus carrascos e executada por se recusar a violar o voto de virgindade. Depois seus olhos voltaram a suas órbitas, por milagre. É representada com os olhos sobre um pratinho limpo.
         Dias do mais quente dos verões e bem nas quentíssimas horas do meio-dia na vila de Santa Luzia. Uma calma que o lugar dava. Um sol que derretia as pedras. Troncos secos de ex-árvores espetavam o céu pardacento, jatobás-do-cerrado, samaumeiras-da-terra-firme, sumarés-do-campo. Calor que causava tremores calafrios. As ondas de poeira indo de um lado pro outro. Terra vermelha em brasa.
O ex-Açougueiro, sentado na cadeira de balanço, suor escorrendo no pescoço encardido, coçava as canelas, coçava os joelhos, já ia coçando os cotovelos. Os pés empoeirados e rachados com sandálias de franciscano pescador. Olhava tudo cansado e via as coisas abrir e fechar, e sair e voltar, e distanciar e aproximar. De repente, um redemoinho de saci no meio da rua Única. E sempre o si-lên-cio.
         Um homem de sessenta e dois anos, braços cruzados, a perna apoiada na grade torta da varanda, acompanhava com os olhos vazios a poeirama levantar do lugar deserto. Tudo precisava ser feito, nada se podia fazer. Nem chovia havia duzentos anos. Tempo fixado no sol do meio-dia. Uma mulher desgrenhada apareceu na janela da cozinha. Olhou o nada. Farejou o dia mormacento poluído de serragem. Depois, baixou a cabeça e desapareceu pelo interior do casebre.
         A aldeia evaporava sob sol vermelho e impiedoso. As coisas meio que crepitavam, estalando com o calor. Um vapor subia do chão criando miragens. Nem chovia há décadas. E as horas do dia nas doze sufocantes e paradas como amortecidas. As miragens e mágicas sofriam terrivelmente por falta de ar puro.
         Então, sentado na cadeira de ferro e lona junto do batente da porta, o ex-Açougueiro olhou sem enxergar a pracinha, o ex-gramado agora já derretido e as ex-árvores, já árvores carbonizadas, espetos de angico, espetos de pau-ferro, espetos de itapicuru, espetos de araticum-cortiça. E reparou o casal de vizinhos sentado na cozinha lá deles as cabeças de ambos pela janela aberta. Ele tossia e olhava o dia ensolarado, ela nem falava nem gesticulava espreitava o dia máximo de luz. O ex-Açougueiro ainda olhou o fundo da única rua da aldeia, olhou para a ponta do sul e para a ponta do norte. Do sul vinha outro pé de poeira de saci. Tudo isso acontecia, nada acontecendo. Tudo derretendo sob o astro de fogo. Sol abobado. Horas sem sombra. E o mundo nem pensava em mais nada.
         O Padre veio à janela da casinha paroquial. Se debruçou na janelinha e olhou o sol que fazia e desfazia. As figuras consumidas das ex-árvores da pracinha, espetos de jabuticabeiras, espetos de pinheiros-do-paraná, espetos de murtinhas. Ou ainda olhando para o céu sempre o mesmo e turvo e cheio de luz, mais das vezes misturado com nuvens de poeira vermelha. E o Padre só podia esperar o sorteio do par ou ímpar.
         Havia uns meses que nem chovia. Sol pesado e ameaçador. O ex-Açougueiro se abanava com o chapéu de palha bacaba-de-leque. Dois homens sentaram na sombra quente da capela. Os dois compadres ficaram quietos como o dia cansado. Dois sócios das horas lentas vestidos com roupas leves e curtas, roupas rasgadas e encardidas. Em volta, um silêncio de tudo e de nada.
         A aldeia mal passava as horas em silêncio e nuvens de pó. Os vilões e as vilãs e os vilõezinhos nem sabiam o que fazer. Passavam o dia cochilando pelos cantos sem poder realmente dormir e descansar.  
         Meninos descalços, sem camisa, então, iam brigar de camoa lá entre as árvores mortas e requeimadas da pracinha, espetos de cambuís, espetos de jabutapitás, espetos de imbaúbas. Todos os piás armados até os dentes com revólveres e fuzis e estilingues. Caíam para trás ao impacto da bala assassina. Espetacularmente se jogavam para trás ao impacto das balas da metralha. Jogavam de matar e assassinar e morrer e se maltratar. Às vezes se amontoavam para focinhar o chão de poeira com arte de se agarrar. Curuminzada de pé rachado, de lábio cortado, de cabelos duros, de lombo riscado de vara e pele pintada na poeira vermelha.
         A Fera se aproximava da aldeia de Santa Luzia. Cansada, louca, variando da cabeça, desequilibrada dos pés, arrastando a cauda. A imagem das casinhas dançava no olhar perdido. Tudo confuso, avermelhado, cheiro de poeira. E quieta como o silêncio, como uma gata, como uma sombra, como uma estrela distante, foi chegando, se arrastando. Nem curtia praticamente mais nada. O gosto de poeira vermelha no ar. Cheiro de queimado, cheiro de dia requeimado, cheiro de tudo passado pelo fogo. Delirava numa dor de cabeça. Viu, por miragens caleidoscópicas, uma placa de metal picada de pedradas e balas de revólver, e com a inscrição: vila Santa Luzia. E isto por muito a incendiou.
A felina foi avançando pela macega requeimada, por entre touceiras de barba-de-bode torrados, se agachando entre a guaxima incinerada, pisando as pedras lascadas e quentes, foi avançando e foi chegando. Nem prestou toda a atenção necessária e devida. Nem olhou realmente nada. A perturbação dos sentidos fazia errar o raciocino, e estragar as horas do meio-dia, as memórias, fazia se perder de tudo. Entrou pelo sul da rua Única. Rua cascalhada e poeirenta.
         O dia em pleno meio-dia de cansaço e forno e fogo e fogão. O céu esperava ainda em vermelho. O sol ainda pingando fogo. E os meninos brincando de pneu correndo pela pracinha. De repente, faziam de um coleguinha um cabo de guerra. O calor estava insuportável, estonteante.
O ex-Açougueiro esborrachado na cadeira de balanço. O casal nem olhava a rua Única, nada interessado, as cabeças no quadro da janela de guilhotina aberta. As pedrinhas da rua faiscavam, tiravam poeira dos olhos. O chão soltava a fumaceira constante. Um saci brincava de anarquia com outro saci e mais outro saci total cinco ou seis sacis.
         O céu sem sinal de qualquer coisa. Um avermelhado de terra e calor, de cristal no forno, de vidro fundido. A luz forte abatendo as coisas. Tudo seco e gretado e esturricado e requeimado e torrado. Dia na hora do meio-dia nem tinha nada. O silêncio desolador. Um mormaço e um cheiro de requentado.
         Depois, o ex-Açougueiro, sentado na soleira da porta da extinta loja, olhou o nada sem ver nada. Os olhos fundos, as órbitas cavadas e escuras, a pele vermelha de poeira. Olhando o nada sem pensar qualquer coisa. Pensamento seco. Tudo fervendo, reverberando. Tudo cheio de muita luz. Nenhum movimento. Ninguém atravessaria a rua sob o sol do meio-dia.
         E apareceu a Fera como uma miragem um vazio virtual. E o ex-Açougueiro apertou os olhos doídos. O casal se levantou da mesa e veio até a janela aberta. Os dois compadres se entreolharam se ergueram interessados ali na sombra quente da capela.
E a Fera foi chegando assim, se arrastando, nariz ardendo, olhos inundados de poeira, subindo pelo sul da rua Única. A língua já nem cabia mais na boca, a cauda entre as pernas vacilantes. E a Fera parecia rir, gargalhar. Comendo poeira. E realmente ria, ria para si, ria de si mesma. Ria para o ar quente, ria para o chão estorricado, e ria para a rua de sacis.
         E a Fera chegou ali, num bom ponto no meio da rua Única. A Fera felina nem tinha nada o que dizer. Nem pensou mais nada. E caiu, caiu principalmente no chão de poeira vermelha e entre as pedrinhas soltas, caiu já entregue a domicílio. Um pofe!... no chão de poeira vermelha. Levantando uma pequenina nuvem vermelha de poeira que irritou os sacis de plantão.
         Daí, de repente, rapidamente, todos os cinquenta ou quarenta e nove moradores da vila Santa Luzia apareceram, surgiram, levantaram do chão duro e seco e antigo. Como enxame de zumbis. Sem perda de tempo. Como cardume de peixes mortos. De certo que estavam cuidando da Fera por trás das venezianas e cortinas encardidas. E todos apareceram correndo. Todos ao mesmo tempo. Saindo de todos os lados como cachorros uivantes, iuuuuu!... e avançando. E avançaram para cima da ex-Fera sempre armados de picaretas enxadas facões foices martelos e pregos.
         Tanto silêncio depois e demais. Silêncio que era excessivo e insistente. Quietude de sombra chegando e mudez. Silêncio da surpresa. Nem havia nada demais em mais nada. Os vilões e as vilãs e as vilãzinhas olharam como às vezes olhavam aquelas ondas de poeira.
         Havia uma certeza na altura dos acontecimentos: ninguém levava a cabeça no lugar.
         Chegava um redemoinho da ponta sul e vinha um outro da ponta norte pela rua Única. Os dois ao mesmo tempo. Com certeza iam se encontrar e iam se chocar e iam se pechar no meio da ruazinha. E logo se encontraram e se chocaram bem no centro da ruela. Foi um encontro de nada. E foi muita confusão de nuvens de poeira se misturando. Muito pó vermelho e vermelhos sacis irritados.
         Se fosse só o vento sob o sol causticante no deserto de terra vermelha.



terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Contos de Santa Luzia (12)


                                               
        
         Apareceram Jegue carregado de Moça. A dupla em cheio em meio do território terrão bem pelas dez e doze. Eram dez e quinze. O sol as constantes correntes de poeira tudo era muito calor e confuso e sufocante. A caatinga em dia de sol chapado e poeira poeira nos olhos. Fazia um calor mormacento.
Pouquinho antes da aldeia, aconteceu isso: Jegue travou as quatro rodas as orelhonas cruzaram recruzaram e nem queria dar mais um passo e de jeito nenhum. O burrinho ficou estátua. Focinho filtrando a poeira reinante insuportável. Ouvidos à espreita.
Seu quadrúpede com Moça nas costas desenhados no chão em a sombra da manhã. A hora que ia passando tiquetaqueou Jegue e Moça indecisos. O vento que sempre dizia aaaaa e terra solta no ar quente queimada.
Jegue de olhos azuis e pelo cor cinza pela Moça de olhos acinzentados. Empacou e amarrou o burro. Dali ali além nem mais. E riscou a pata dianteira na terra seca requeimada chamejante. Ainda chiou zurrou ooooo até a Moça se flagrar que era o fim da linha da picada.
         Moça as pernas longas os pés em sandálias franciscanas de pescador quase arrastando o chão. E levava o cabelo cor de fogo todo torcido no alto da cabeça e preso por espetinho de osso marrom brilhante envernizado. Boleou a perna apeou do Jegue dorso em arco e esperar o quê.
E ela com a descolorida cara de maquiagem-poeira. Vê se achava uma saída miraginal. E nem soube mais o que fazer. E ele olhava à frente olhos fixos em alvo olhos lacrimejantes cheios de poeira. Jegue tinha nome de árvore. Moça já nem sabia o que dizer o que fazer quantas vezes passou as mãos nos cabelos engomados aterrados.
         Pois Moça pegou a bolsa de couro cru a tiracolo passo compassado para fugir de uma possível intermação e seguiu desacompanhada. Caminhou trocentos mil metros em duas horas e tanto. Sol entre nuvens pesadas de poeira vermelha. Mais meia hora. Passos deixando rastos. Mais outro tanto. E mostrava maneira jeito de balançar os braços em o caminhar. Fazia um calor de quarenta e sete graus.
E Moça entrou na aldeia Santa Luzia na manhã das 11 e 22 horas. A coisa evoluiu. E veio 13h e 30 min. Para falar ministério, ela procurava um ser das espécies dos fanerógamos - podia ser oposto ou nem -, do signo de capricórnio, para com esse juntar as manias e idiossincrasias e horas e dias e anos de por vir.
         Um tempo teimoso que caía sobre a pacata ou pataca aldeia de Santa Luzia. Nem chovia há meses. Plantas já haviam estorricado. Um silêncio de tudo abandonado sem insetos ou quaisquer outros bichos semoventes, etc. Um calor impossível. Diferentes crianças, pés descalços e cascosos, brigavam e fumavam cigarro de palha na calçada da capela. Calor de fornalha. Golpes de vento jogando terra seca na cara. Calor terrível de derreter o rasto da freguesa.
         Que a Moça se dirigiu ao ex-açougue para ter com onde quem conversar. Queria muito tomar um comprimido para dor de cabeça. Suando pegajosa perfume vencido cabelos empapados. Estava cansada demais, a boca cheia de terra. Sol inclemente das quatorze. O ex-Açougueiro lhe apareceu de supetão pela esquerda e:
         - Ei, Moça! A Moça chegou a pé, cansada e desabitada?
         - Olha, meu! Sei que é difícil, mas preferiria um chá de cidrilha.
         - Uma coisa eu garanto garanto. A vila nem come e nem bebe há doze anos dois meses e duas semanas e vinte e dois dias.
         Moça contou até cinco dedos. Fácil chegar num lugar estranho e já fazer de conta que tinha aprendido as quatro operações. Mulheres boas fazem sensação pelos quatro cantos e muito rapidamente. Moça nem era de marte nem de saturno nem de Divinópolis nem de Ibaté nem de Itaboraí nem de Corumbá nem de São Miguel do Araguaia.
         Moleques unidos na pracinha a fim de derrubar, do alto daquele galho seco de paineira derretida, derrotar mesmo um molequinho o mais jovem entre eles de uns onze anos com feições de trinta. O pequeno via aquelas pedras voando muito perto da cabeça uuuuu e nem bola. De repente, até pensava fossem comidas voando, mas... passavam tão rápidas uuuuu passavam tão nervosas sozinho passavam tão assoviantes uuuuu. E moleques ali do chão caprichavam cada vez mais com as estilingadas, bodocadas, fundadas. Que um pivete o acertou tooooo bem nos peitos. Foi uma comemoração geral, alarido, escarcéu, gritaria, barulheira. Molequinho empoleirado, ou avezinha torta, o atingido em cheio, caiu com tudo, se despencou, voou sem querer, sem as asas, caiu direto no chão tuuuuu já durinho, sem um pio, desfolhando as perninhas, erguendo poeira, esparramando as asinhas e os bracinhos e os cabelos engessados de terra. E gurizada aplaudiu o seco atirador, o certeiro atirador, bater de latas, gargalhadas, pontapés, petelecos nas orelhas, tapas fortes taaaaa nas costas.
         Assim, que horas eram?, Moça ficou conversando assuntos ali no ex-açougue com o ex-Açougueiro. Conversa que o ex-Açougueiro olhos amarelos puxava afiava o facão testava a serra de fita e vestiu o jaleco apropriado.
E Moça aceitou aquele papo baaaaa porque nem tinha nada de certo para aquela tarde naquele lugar fodido. Já passavam das quinze horas. Dezesseis horas e quinze minutos. A coisa evoluiu. Dezesseis e cinquenta e cinco. Quantos assuntos? Oito, nove, vinte, quinze recontos um atrás do outro. Cinco e mais seis da tarde. O saci rodava rodopiava no meio do pó vermelho da única rua, rua Única. Fazia um calor modorrento. Moça nem viu o ferruginozinho, viu foi só o redemoinho, ouviu o iiiii. Às cinco e meia da tarde. Moça fingiu nem ter sono, mas quase dormia, vacilava, pescava, batia cabeça, e delirou:
- Eu fui essa figura no quiosque comendo pastel de queijo com garapa em plena praça José de Alencar em o Rio. Eu fui ao Rio em junho uma vez na primeira e fui outras e pretendo mais algumas.
- Eu lá estive já um tempo, dois anos atrás, morei dois meses e duas semanas e dois dias na ilha de Marajó. Nadei de peixe gurijuba apapá aruanã curimatã andei de barco e fui muito ao redor das ilhas e mais ilhas e canais do tal arquipélago de Marajó. O boto-cinza o peixe-boi a pororoca o grande rio Amazonas Melgaço Soure Afuá o oceano Atlântico uau. Eu já tinha apreciado “Três Casas e Um Rio”.
Depois, Moça se arrastou como um lagarto bêbado até uma pequena janelinha lateral. Suor cintilante na testa. Nem tinha pressa em fazer as coisas. Subiu pela parede. Media a parede a palmos. Paciência ou complacência. No fundo do delírio procurou fazer um plano de fuga, e caiu. Tanto sono nem era para menos e:
         - Acho que... vou cair... desta pa-rede... opa...
         Os pés querendo andar as mãos agarradas na parede que caía com ela sobre ela. E se pegou pensando, perdeu o que pensava. A parede raaaaa caiu junto. Suando muito o peito sufocado. Imaginou coisas do passado distante e nem tão distante, delirou:
         - Eu compareci presente no carnaval de Olinda. Igual todo mundo, subi os morros de Olinda e olhei Olinda coqueiros-carandaí e o mar de Olinda. Coisa em si pra nós todos tão liiiiinda. E dançamos frevo na frente da igreja de N S das Neves. Também, o dia os turistas a vista estavam tão lindos!
         - Eu corri nós corremos era eu e ele, corremos até alcançar a marquise da loja de ferragens Timbé. Chovia como nunca como sempre como D mandava. Sem parar de rir sem galochas verdes guarda-chuva sem capa transparente impermeável. Plena tarde fim de tarde rua Voluntários da Pátria começo de verão fim de dezembro capital dos gaúchos.
         - Eu, de volta de Valença, eu que já conhecia a taba dos praquio, fui levada para dois dias em Vitória. E a primeira coisa que fiz em Vitória foi olhar o forte São João, de longe. De noite mandei e-mails. E a manhã seguinte, a praia do Canto que se destaca merece.
         O ministério da aldeia de Santa Luzia, disso aí sem chuva sem chover, tinha muitos tucurus de anos e anos abandonados. O saci, a bordo do seu redemoinho em espiral, levava embora os redemoinhos e escondia todos os rastos de todos. Tudo vermelho e o que não era cinzento, poeira e calor.
         Uma bola atômica abrasava a vila o fim do mundo o fim dos tempos tudo. Um sol medonho que só fazia esfarelar pulverizar a terra. Daí, uns bafos de poeira vermelha, venenosa, daninha, irrespirável.
         - Eu andando de bicicleta. Meu caminho preferido. A praça o horto o parque. Pedalando. Quando jaguapebas passeiam de coleirinha com as donas. E parei na sombra de uma gigantesca pracaxi. Postada ali olhando em volta um pé no chão outro no pedal as mãos no guidão. Era relaxante re-laxante.
         Pronto, agora assim, de Moça um peso quadrúpede nos ombros canga pesada. Pendeu a cabeça para frente e capotou. No meio da rua Única pequenos remoinhos parecidos com os malfeitos e feitiços e arruaças e artes iiiii do saci.
         Sete horas e tanto da tarde. Vinte horas em ponto. A coisa evoluiu. Vinte e pouco e vinte e tanto. Quase nove da noite. Uma palhoça de telhado de sapê pegou fogo ministeriosamente. Uns aldeões e umas aldeãs correram lá. Tentaram abafar as chamas atirando terra seca com as pás enxadas picaretas, as cumbucas as próprias mãos.
         Acordou acelerada ofegante e coberta de suor. A imaginação berrava caleidoscópio eeeee corres berrantes variadas. Sentia os pés frios enformigados. As mãos segurando a testa os cotovelos no balcão muita muita fadiga. Pensou pedir um pouco de beijos nos pés aos pés:
         - Alguém vem vindo...
         A moça se viu agarrada com unhas e dentes na cadeira. Nem conseguia traduzir o que o Açougueiro argumentava. Tentando engatinhar, encontrar defesa, fazendo suposição. Do ponto de vista da moça, ela já dormira e acordara dez vezes naquela última hora. Na verdade já estava anestesiada. Nem queria se entregar. Fazia um calor de matar. E o tempo, de repente, nem fez a menor sombra menor diferença menor mossa. Nem ela mais se preocupou com o peso dos minutos que não passavam. Olhos fora da cabeça. E outros fora do corpo e sobre o cepo do açougue.
         Os bichos noturnos os diabos sempre saem pela noite. Cada qual pega seu rumo como num trevo de quatro folhas. São todos por si e procurando, o lobisomem, brigam como cachorros, o caapora, se atiram pedras e paus e facas e tiros, a mula-sem-cabeça, disputam no coice no soco tudo que encontram, o anhangá-pitã, irônicos neurastênicos vaidosos e demônios infantis outros já adultos.
         Os olhos abertos bolinhas de gude parados no cepo. Era dia, era noite, era poeira, era delírio, era susto? Era ontem, era hoje, era amanhã, era de manhã, era de tarde? Nem curto, nem longo, nem largo, nem alto, nem nada. Os olhos o olhar fixos sem brilho sem luz querendo ver bem abertos sem ver fixos firmes longe. Tudo desaparecendo fugindo dos olhos. Meia volta e volver. Seis a sete passos? Emergência, alerta. Os de dentro sair, os de fora querendo entrar. Que horas? Noite adentro noite afora. Tudo parecia calmo e andar sempre devagar. Falta do que fazer? Queria descansar e dormir dormir.
         Lá outro lado da rua, a ex-casinhola de duas portas sem janela, o fogo comera tudo. O alto da noite pegava no breu como um trapo sujo encardido de poeira e cinzas. Subia uma lua confusa poluída contaminada. Nem havia razão nenhuma de nada.
O caapora passeava no capoeirão seco estalando gravetinhos secos chutando pedras pedrinhas assoviando viiiii como extraterrestre. Vento em ondas vermelhas pesadas aterradas. O caapora se espojava no pó vermelho atrás dos tucurupucas abandonados. Dava muita bola para a lua, as sombras de nuvens de poeira as estrelas os ventos com sabores de terra queimada os planetas, saturno.
         O Açougueiro puxou um pito do bolso do casaco pendurado no cabide. Sentou fumou, praticamente sem tirar os olhos dos olhos da moça. Agora era anúncio o preço os fregueses clientes espetinhos tira-gostos aperitivos. Por onde começar o produto final? Que janelinha aberta para a noite...
         - E aí, vai que vai?!
de lua arrastada em plena onda de poeira fumaça. Um silêncio sozinho mexido pelo vento aaaaa carregando a poeira vermelha as cinzas cinzas.
         Pegou Açougueiro passou passou algumas peças no moedor. Um cubinho na boca para aplacar o seco da boca. A moça com os embutidos. Onze horas da noite. Vinte e quatro horas. Uma hora. A coisa evoluiu. Uma hora e dois minutos e doze segundos. A moça ensacada engarrafada amarrada com barbante na ponta. Uma e tanto e passando...
O que o Açougueiro encontrou no bucho da moça?, vejamos ali, então: uma tampinha de garrafa de cerveja marca importada engarrafada em Vassouras; uma esferinha de aço de rolamento de roda de bicicleta dezoito marchas lembrança do triatlo de Ribeirão Bonito; uma chupeta de plástico de mamadeira tamanho de um dedo fura-bolo cor mais ou menos furta-cor; um resto de massa de tomate Siparuna enlatada em Macaíba, Sergipe; uma moeda de cinco centavos platinada começo de um milhão; um grampo de cabelo marca Iuberi; uma camisinha colorida de amarelo e verde com sabor levemente caju; um farrapinho de lã sem cor definida desses de limpar móveis e utensílios e óculos; um esgoto sobra baba de comprimido genérico para dor de cabeça.
         Quando muito, o lobisomem procurou entrar nas choças das aldeãs solteiras, viúvas, nervosas, insones e a fim. Nem importava a longevidade adiposidade escolaridade. E empurrou portas quase despregadas, forçou janelas podres, subiu telhado de palha seca procurando cair já dentro sobre a cama a esteira nos braços da anfitriã. O terrível mutante querendo entrar a qualquer custo pagando o preço que for. E rondou as casas pela noite toda, uivou, arranhou as paredes de barro seco, mordeu as paredes de urupema trançada. As aldeãs solteiras nem conseguiram mais dormir nem rezar. Lobisomem vezes ficou uivando ruuuuu aprendendo a assoviar em cima de tucuruvas abandonados.
         A mula-sem-cabeça veio pateando pela única rua da aldeia de Santa Luzia, rua Única. Soltando labaredas, expelindo fumaça, relinchando nem se sabe como ieeeee olhos lacrimejantes nem se sabe como. Parou e cravou os cascos no pó da rua quando viu a lua ultrapassar uma pequena nuvem de poeira. Aí, sim senhora, relinchou ieeeee.
         O Açougueiro raspava os ossos os artelhos da ex-moça. Duas horas. Duas e pouco. Mastigava uns petiscos aqui e ali, de guloso. Duas e tanto da madruga. A coisa evoluiu. Três da madrugada - para uns era tarde e para outros era cedo. O estava cansado, molhara a camisa, leve dor nas costas com a hérnia de disco. A pancada insistente latejante de um lado do crânio de um início de dor de cabeça crônica.
         O nos últimos derradeiros e petiscava beliscava assim e assim, de guloso. E faltavam rapar dois ou três dos ossos mais delicados e pequeninos e charmosos do pezinho da ex-moça. Ela sempre fora magrinha, modelo de magreza, uma elegância, caule de palmeira-iará, tinha balança de precisão em casa. A noite ia indo embora. Três e meia. Três e trinta e três tigrinhos tridimensionais trescalantes tigrando na trilha de trigo da tribo: bem rápido. A coisa evoluiu. Três e quarenta e quantos.
A mula-sem-cabeça, ou burra-de-padre, pateou no pátio da choça, catou a chave escondida no vaso de folhagem seca, olhou cuidou olhar para os lados, ieeeee rinchou, mugiu:
- Melhor deixar o assunto me descansar, uma vez.
O lobisomem uivou ruuuuu com o coração desabrigado, caminhando no ritmo do seu desagrado, a boca cheirando palha seca e terra queimada.
E anhangá-pitã, de repente, se derreteu com os primeiros respingos de sol e foi escorregar escorregou cheio de artimanhas teeeee fulminado para o fundo do poço seco.
O viiiii caapora, cocar caído na cabeça, quatro e um quarto, olhos cheios de poeira vermelha, andando de costas de volta para o ex-capoeirão, lá para trás das casas de cupins vazias, e voltar a ser índio ou bicho invisível.
         Um redemoinho no meio da rua poeirenta. Já era dia de dia outro dia quinze pras cinco. Antes um riso escarninho madrugador iiiii. E lá se ergueu um pó vermelho e umas folhas secas rolaram umas pedrinhas rolantes seeeee cantaram. E o saci aterrissou. O saci riu alto iiiii. Olhou em volta... A aldeia já o conhecia, a vila já lhe cheirava conforme, e já lhe pertencia. Farejou os rastos pelo pó vermelho da rua Única, esfregou as mãos, riu iiiii. Depois saiu andando num quique. Saiu quicando e rindo iiiii sempre.
         O sol esticou um ou dois raios flagrantes, entre nuvens baixas de grossa poeira vermelha, raios contados raios interrompidos raios raros raios sujos de poeira. O dia como que gaguejou e tossiu acordando, balbuciou de garganta seca, estremunhou ainda tonto de sono e preguiça e noite mal dormida. Os raios tímidos raiaram um a um e lenta e fracamente. Fazia um calor de amassar de arrasar. O lugar todo de Santa Luzia acabado e sem graça carcomido requeimado requentado.
         Falando em ministério, o sol levantou mesmo naquela horinha sem matinada. E já tinha suas flamas de fogo para sair pelo dia poeirento. Pois o sol era uma lenda. O sol ou o dia de cinzas. Começando pelo começo, o sol torrando a pequena vila perdida no meio do nada descampado. Outro dia de sol que já se transfigurava em forno fornalha. Nem chovia há meses. Ao meio-dia a bola de fogo já era uma bicicleta. Mas o sol era uma lua. Na tarde abafadíssima, o sol já estava desfilando e falando com a senhorita Maria Alice. Uma após hora era com a irmã da senhorita Patrícia, nativa de Ribeirão Pires. Na sequência imperou tostar bronzear com Isabel mais Leopoldina, as princesas do palácio São Cristóvão e Quinta da Boa Vista. Porém o sol era uma espaçonave. E no fim do dia de janeiro, avermelhado, o Quaraci passeou para a noite em prata com a Jaci. E no outro dia de pela manhã, nem muito cedo, cinco e vinte e cinco da manhã, sem arvoredos e passaredos, antes do solzão, passeou no terrão queimado do arraial com a filhinha Duda no colo. Era isso mesmo uma biografia uma ilha uma caminhonete verdezinha tração nas quatro patas um chafariz esgotado e um dia inteiro de sol imperial queimando carvão mineral.
         Sol quente naquele momento, tudo terminado, tudo embutido, cortado, retalhado, desossado, triturado, embutido, costurado, moído, que o Açougueiro se sentou e fechou os olhos vermelhos vermelhos. Cerrou os olhos por um momento sonhando com os olhos da Moça. As mãos bem trêmulas do esforço, da pressa, do cansaço.
O saci entrou pulando e rodando pelo meio da rua poeirenta dono do dia. Queria saltar virar cambota fazer círculos redemoinhos espiralados dono do mundo. Queria correr nos remoinhos de pé-de-vento até o fim da rua e voltar levantando poeira. E ria muito alto iiiii vaidade dos vaidosos erguendo poeira vermelha.
         Cinco e meia da manhãzinha ressequida cor de palha seca. O dia já saía apontando pedras e faíscas. O sol vinha para rachar mais uma volta no fim do mundo. O Açougueiro dormia sobre a esteira no chão da lojinha abarrotada de embutidos gulosos. Eram cinco e trinta e um. Eram cinco e quarenta. A coisa evoluiu. Eram quatro e cinquenta e seis.


domingo, 24 de março de 2013

Contos de Santa Luzia, (7)


                          

       Seus lábios finos esfarelados um dia seriam quentes ardentes molhados sensuais:

       - Idade um dois três quatro...

       Vivi era uma menina filha única órfã de pai e de mãe. E ocupava aquela altura já os seus doze anos. Bermuda brocada, colar de contas, pendentes de aro. Não passaria dos doze. Menina escassa, seca por fora, coberta de pó vermelho, vazia por dentro.

       Geralmente bordando no quarto sentada perto da janela aberta cortina descerrada. Bordando lenços lençóis ou olhando a pracinha deserta com a rua solitária e poeirenta.

       Calor sufocante, terra aquecida, chão esturricado, solo estéril. O cheiro de tudo respirava o pó vermelho na abandonada vila Santa Luzia.

       Não tinha revistinha não tinha rádio e não sabia cantar trautear. Cabelos vermelhos cortados curtos, sardentinha, lábios rachados, seios incipientes, pestanas compridas, despreparada, maquiagem vermelha. Nem alta nem baixa para a idade. Sorriso amarelo e de vez em quando.

       Manhã a Vivi atravessou a rua Única; o céu completamente pegado de nuvens vermelhas, revoltas; a luz fosca, a luz tonta sem brilho opaca embaçada do sol; um saci rodou no meio da poeira solta.

       A menina descalça, a rua descalça. A guria foi quase sem pensar, jogando uma perna na frente da outra - como as menininhas fazem quando estão de coração oco. Cruzou a rua poeirenta e pedregosa, única rua da vila, poeira batendo na cara, poeira fina com gosto de incêndio. Chegou à pracinha seca queimada esquecida e parou, de repente.

       Uma quietude esquisita. Nuvens de poeira navegantes encobrindo tudo. Parecia a parada a estação do fim dos tempos. Não existiam passarinhos para ouvir e para ver e para contar, corruíras, pintassilgos, irapurás, tudo desaparecido. Era mesmo o fim do mundo. Não se via verde algum, carandá, maniçoba, pataquera, capitiú, bacuri. Vento e calor em companhia da poeira.

       Vivi ficou ali tanto tempo curtindo o mormaço. Calada e tão mudinha e acocorada como coisa da paisagem seca, como pedregulho confundido na paisagem árida, como toco cariado de angico.

       Cavava um buraquinho com o dedo. Cavava um buraquinho com pedaço de palito. Trocava umas pedrinhas de lugar. Curtida de mormaço. Com a ponta do dedão do pé riscava figuras vazias no chão fofo poeirento.

       A garotinha se ergueu de mansinho e retornou para casa. Foi pegar a velha bicicleta, magrela cheia de enfeites mirabolantes indiscretos, tiras de pano e de plástico em cores variadas, buzina de plástico em forma de corneta sanfonada, catavento de plástico com as pazinhas amarelas, antenas vibrantes de plástico azul com bola na ponta, etc. Andou pedalando pela rua de terra batida. Queria dar banho, mas não tinha água, mas não tinha açude, mas não tinha rio, mas não tinha chuva. Não chovia há dez doze anos. Apreciava muito pedalar morro abaixo e sem freios. Descia o morrinho e lá embaixo dava cavalinho de pau espirando a poeira. E assim por diante.

       Não chovia há dezenas de anos. As árvores paradas da pracinha, plantas esqueléticas, estátuas, empedradas, galhos como espetos pretos apontando o céu avermelhado. Os aldeões e as aldeãs e as aldeãzinhas não comiam e não bebiam. O tempo que não acabava mais. O ar esfarinhado pesado denso sufocante.

       E seus braços abraços afetos aconchegos carinhos diariamente:

       - Idade cinco seis sete...

       Debruçada no parapeito da janela, de cotovelos na janela, fazendo todo o tempo do mundo. O sol por trás por dentro das nuvens pesadas de pó. Cadê horizontes morros montanhas serras. A pracinha doida para se esconder do calor, e não podia. A capela em favor e louvor e glória à santa Luzia. O mundo tantos e tantos meses sem uma gota de chuva, árido, abrasador, sufocante.

       Gostava de subir nas ex-árvores para olhar longe que longe. As árvores secas duras retorcidas e os passarinhos as lendas não sobreviventes, iraúnas-grandes, coleirinhas-do-brejo, tesoureiras, marias-é-dia, tizius, grimpeiros, pituãs.

       A mocinha era uma vidinha mansa e quieta e desbotada e solta. Foi só ela só que reparou no remoinho que vinha só pela única rua da aldeia. Começara um remoinho no meio da rua Única. Era vermelhinho, baixinho, risonhinho, ah ah ih ih ih!... O remoinho vinha rasteiro e de cabeça baixa, farejando, parando e olhando para trás, olhando em volta, quicando, revoando, se arrastando, rodando, caminhando, interpretando, nariz de vermelho pó, não poupando nem as pedras anônimas.

       O diachinho chegou e reparou no quintalzinho da casa de Vivi. Abriu o portãozinho num empurrão, não deu bola, pulou, foi até bem perto de uma ex-pata-de-vaca. Não se incomodou mais e deitou, sossegou. Aí mesmo o remoinho deitou com o queixo sobre as mãos, a cauda sossegada, os olhos fechados ou quase fechados, as orelhas abanando tentando espantar o calor. Talvez sonhando um sonho limpo e comprido.

       Olhos cheios de serragem, a garotinha Vivi estava pendurada na janela. Meio-dia ou doze horas. Não pensava quase nada. Então, Vivi ficou olhando, olhando assim, olhando o quê. Calor forte e poeira vermelha subindo com o vento sul.

       Foi ver o quintal de perto. Andava quase sempre apartada, solita no más, sem ninguém para conversar. Saltou no quintal todo seco e deserto, andou na poeira, se esgueirou por aí, se enroscou num toco de jacarandatã. A menina atirou uma pedrinha para o ar. Ver se a pedrinha voltava parar na sua mão.

       Então, a menina pegou e atravessou o dia cheio de cinza a rua vermelha para chegar à capela a poeira no rosto. Decidiu já estava correndo quase lá. As árvores da praça todas amortecidas, mordidas, arruinadas, loucas de calor. A menina gostava de correr mais que as próprias pernas. Não usava nada na boca para se proteger do pó vermelho. A cabeça vermelha de cabelos muito vermelhos como o fogo que queimava a terra, como as nuvens de pó, como a terra toda estorricada.

       Por tudo ali, nem as formigas sobreviveram.

       A menina se olhou do queixo para baixo. Estava de vestidinho até os joelhos, chinelas de dedo de borracha. O pó da rua já lhe tomando das canelas para baixo. Um mormaço de consumir as pedras. Capela coberta de telhas-vãs enferrujadas.

       Vivi, no tempo, já estava na casinha dos doze. Não passaria dos doze uma dúzia. Já sabia a diferença entre o sonhar e o esperar.

       Tarde quente, abafada, vento norte. As árvores da praça nem podiam se mover nem falar nem respirar. O menino Piracaia lhe prometera, coçando as pernas, torcendo os bracinhos,  rilhando os dentes:

- Vou chegar lá na sua casa hoje, talvez amanhã ou mais tarde, e te pedir em namoro. Tá entendido? Captou?

       Vivi, toda tremendo em calafrios, toda desequilibrada na postura, talvez com susto e mau humor e timidez:

- Vai, Piracaia! Quero só ver se você vai!

Agora, nessa hora, Vivi estava preocupada. Esperava com o coração disparado o coração na mão. Olhava ali da janela; não saía dali da janela. O coração disparado atiçado chutado. Gostava de olhar o tempo passar em vão. O coração aflito cheio de espinhos. O coração tum! tum!.. na mão. Queria que o Piracaia aparecesse e não queria que o Piracaia aparecesse.

       De repente, então, pelas três, Vivi viu o guri passando na bicicleta de espelhinho no guidão. Piracaia e a bicicleta e a sombra poeirenta dos dois. Vivi se escondeu nas dobras da cortina que ela mesma bordara. O coração batia como uma pedra na lata e repetitivo e acelerado e ensurdecedor.

       Mais tarde, três e meia, ele Piracaia menino voltou. Inventou de arrumar a bicicleta logo ali em frente. A sombra se sentara bem do lado direito. A cunhã, coração disparado, atrás da cortina, espiando detrás da cortina bordada que ela mesma havia bordado. O menino olhando para o casebre, calculando o portão. De certo não se sabe, mas podia mesmo estar calculando e se perguntando se teria ou não coragem. Arrumou a bicicleta, a sombra suja de vermelho nos calcanhares, e foram. Foram lentamente, ele e a bíci e a sombra grossa, a sombra acompanhando no mesmo passo, olhando para trás, cabelos amarrotados, cuidando para os lados, demoradamente. O menino mais preocupado que a bicicleta e a sombra.

       Lá vinham eles outra vez, Piracaia e a bíci e a sombra. Passaram para lá, para o leste, olhando a choça a palhoça. Vivi os espreitava atrás da empoeirada cortina bordada de ramos verdes e flores amarelas.

       Na volta o menino veio bem embalado, a bíci sem freios, a sombra de língua de fora, nuvem de pó esperta seguindo o rasto. Vivi de coração agitado assustado perseguido ameaçado. E quando Piracaia olhou a janela, parece que tirando a mão direita do guidão para fazer um gesto de beijo atirado, a bicicleta se desgovernou e pegou também uma pedrinha solta derrapou. Então, foi um só tombo e tanto, tuque!... e tudo pelo ar, a poeira subindo de repelão pegajosa descabelada eriçada. A sombra desajeitada desenxabida se derretendo no pó vermelho.

De pronto rapidamente o menino tentou se erguer para dizer que não doera mas, ai!..., percebeu que quebrara o braço. Deixou a pose de lado, não se importou com o vexame na frente da namorada ou ex-futura, e gritou berrou uivou como gritou, aaaaai!...

Vivi filmava tudo da janela o coração afligido e explodido e detonado, atrás da cortina que ela mesma bordara com fios dourados. E olhava sem poder fazer nadinha.

O menino foi embora, todo curvado e horrorizado e melado de lágrimas e de suor. A sombra mancando, curvada, lenta, machucada, pesada, seguiu o menino Piracaia. A bicicleta deitada deixada na poeira voltou a sonhar.

       Não chovia há meses e meses. Os aldeões e as aldeãs não jogavam baralho e não jogavam nada, não plantavam e não colhiam, ficavam dormindo como se todo dia fosse domingo, esperando mais nada mais tarde. O fogo do sol queimara tudo, calcinara tudo e um pouco mais do mundo todo.

       Seus olhos bem abertos semicerrados fechados para longe para perto para dentro de si:

       - Idade oito nove...

       A Vivi reparou da janela. Viu os dois garotos jogando com uma bola cega de borracha. Um passatempo esportivo pedestre. A bola escapulia para a rua; eles iam atrás. Chão de terra esturricada áspera grosseira. Poeira solta no ar suspensa flutuante. E chutavam a pelota cega um contra o outro; um na perseguição do outro; um empurrando o outro; um driblando o outro; um canelando o outro; ambos atiçados xingando e chutando e erguendo poeira.

       Por ela, Vivi, ela estaria lá com os dois perseguindo a bola com aquela bola cega no meio da rua poeirenta. Jogaria de goleira, rasparia os joelhos, ralaria os cotovelos, esfolaria as mãos. Depois, mais tarde, e quem sabe, poderiam jogar de caçador. O jogo que Vivi mais gostava era brincadeira de caçador. Mas o destino dela não deixava que ela jogasse tanto quanto queria de caçador. Gostava de ser caçada no jogo do caçador. Era uma brincadeira que dava gosto gritar de prazer e rir muito alto e sentir cócegas de tanto se divertir.

       A menina sardenta encardida de poeira vermelha cabelos ao vento do nordeste olhos curtidos de sono bermuda drapejada. Seus olhos não eram verdes, mas poderiam ser verdes, eram verdes. Calor sufocante, terra queimada, poeira batendo.

       Não se descobriu ainda, não se sabe ainda por que as meninas leves gostam tanto tanto de olhar da janela. Vivi era assim mesmo. Ela gostava de espreitar da janela do quarto. E olhava principalmente a rua desolada, abandonada, deserta, única. O horizonte consumido apagado.

       A Vivi entrou na capela. Levou um choque, perturbando o olhar na penumbra. Mais um pouco e seus olhos se acostumaram. Gostava de visitar a santa Luzia. De se sentar e olhar com calma a santa Luzia. Havia anjos bordados. Anjinhos pintados na parede, ou em quadrinhos nas paredes, uns em estátua do lado da santa. A guria parava, como parou, olhos bem arregalados sujos de poeira, olhava com calma, como olhou. Gostava de pensar que um dia voltaria na forma de anjo. Gostava de pensar que voltaria como anjo sobrevoando um lago um mato verde uma chuva entre os besouros colibris isabelinhas mariagombes as lendas flores de angélica-de-rama, etc.

       Vivi sempre admirou, como admirava, os anjinhos e suas praças e suas fontes e arredores. Todos de boa saúde, passando bem, loirinhos, translúcidos, cabelos loirinhos cacheados, sempre rindo. Todos rindo no banho do chafariz. A multidão deles rindo dava a sensação de ouvi-los em gargalhadas como joões-de-barro, ah ah eh eh eh!... Eram felizes em céu de esmeralda, sangas, morros, campos aveludados de capim-grama, dormideiras, azedinhas-grandes, zunidos de tujubas, assobios de saurás-fogos. Eram anjinhos que gostavam de brincar de caçador de nadar no espelho de água de descer das nuvens brancas deslisando pelo arco-da-chuva e assim por diante.

       Reparava bem muito bem nos anjinhos e suas asas e seus olhos azuis e sua cor de papel novo. Eles a achavam engraçada, riam para fora, e riam para ela. Ela ria para fora e para eles. O fantástico mesmo era que tinham asas nas costas e nos pés. Todos vinham do céu já com a bundinha enrolada num lençol sempre azul. Não eram pessoas, não eram meninos vendendo papelotes ou trouxinhas, não eram meninos se embebedando, não eram meninos cheirando cola, não eram meninos de atiradeira no pescoço, não eram deste mundo. Eram como nuvens brancas entre raios de ouro luz colorida.

       Pegou fogo o capoeirão seco. Combustão espontânea, talvez. Aumentando muito o sufoco. O mundo se encheu de fuligem, faíscas, fumaça escura, intoxicação, uma panela de pressão, um forno. Não se via um palmo. Respiração com tosse tosse, lágrimas, irritação. Os aldeães e as aldeãs e os aldeãezinhos sentiram mesmo o que era o beco sem saída. O sol já passava por trás das nuvens de pó vermelho e da fumaceira. Como restos sobras pelo ar de um vulcão em constante roncar.

       Elazinha foi até a praça dar uma volta um rolê. E abraçou os troncos carbonizados de umas ex-árvores que já foram lendas, paineiras, caroás, coxas-de-frango, olhos-do-diabo, etc. Saiu se despedindo de cada uma e de uma por uma. Diante do desengonçado portãozinho de ripinhas já em casa parou para ver se vinha alguém. Ficou olhando para tudo que era lado. Não acontecia nada. Veio sempre uma sombra de nuvens de pó.

       Por tudo aí, nem as baratas sobreviveram nem existiam mais. 

       Quase sempre, principalmente pelas manhãs revoltadas de nuvens de poeira, Vivi abria a janela e olhava a aldeia toda falida, se debruçava no parapeito da janela, olhava a rua Única toda pedregosa. Aí pensava, quase que poderia pensar: por que não. Dito e perfeito. Vivi saía pedalando a magricela pela rua. Quase sempre era isso. Apreciava de sair andando levantando poeira cavacos. Não se importava com mais nada, ou se interessava com qualquer coisinha. A boca cheia de terra, o nariz vermelho, a pele muito queimada e requeimada de sol.

       Se sentou na escadinha que dava para o quintal abandonado. As mãos no queixo, os cotovelos nos joelhos, a ponta dos cabelos empoeirados atrás das orelhas. Nem ela sabia o que esperar da sorte ali, assim. Que nada que dúvida. Vivi era uma menina calma, mansa, quieta, mirrada, silenciosa, de doze anos. Ergueu a barra do vestidinho florido que ela mesma bordou, apartou a calcinha com estampas de bichinhos que bordara, e conferiu a babaquinha. Nem bem sabia o nome. Achou tudo assim como sempre fora. Era isso aí. Tinha que ser. Não havia outro jeito. Fazer o quê.

       Talvez quando crescesse, pensava, como pensou, talvez um dia, crescida, já moça, chegasse a ser santa rodeada de anjinhos como santa Luzia. E todos os anjos estariam rindo um riso feliz. Gostava de pensar e saber que os anjos existem. Que os lugares com anjos existem, rios, enseadas, restingas, iraís, alamedas, hortas, trombas de água, bem-te-vis-do-gado, guaripés, flores-de-babado, paxiubamirins, etc.

       Abriu a janela para acompanhar a lua empanada de poeira. Uma vida inteira que não chovia. A lua esparramando entupindo de prata o ar de poeira vermelha. Acompanhou a lua que fugia na escada rolante. A lua era um caco, um prato, um disco. Tudo meio nublado da poeira que subia do chão tocada pelo vento sudoeste.

       Suas mãos reencontraram macias a brincadeira das partes por tudo por partes o calor o fogo as labaredas:

       - Idade dez onze doze.

       Era um verão centenário sem folga de muita fadiga. Um calorão de rachar as pedras. Os aldeões e as aldeãs dormiam de dia e descansavam à noite. Não chovia no lugar desde há bem pelo menos uns mil quinhentos toco ouricuri.

       Vivi ergueu os braços, estalou, bocejou, arreganhou a boca como não sei, os dentes trincando grãos de terra. Estava acordando distraída esticando o lençol, que ela mesma bordara. Sete horas, um domingo. Fazer como.

       O céu vermelho, não tinha um verde, não havia um inseto voando, nada de pássaro cantando, nada na manhã de barulhar de passaredo, nada que despertasse o dia para o domingo de manhã. E nem as formigas, pois aí não havia nem formigas nem cupins nem micuins. Só o vento leste poeirento se mexia ou tocava a massa vermelha sem rumo certo.

       Haveria sempre alguma coisa nas nuvens vermelhas. O céu nascia do deserto. A cor do céu a mesma da terra, etc.

       A menina apareceu com mania de plantar bananeira. Então, toda vez em casa, ali no pátio seco, virava rolava estrelinha, dava gambotas, rodopiava, imitava lebre saracura jaguatirica sauimpiranga. Gostava de acrobacias equilibrismos malabarismos. Se tivesse uma cartola preta alta de mágico saberia fazer mágicas e apresentar ao público as novidades do mundo oculto.

       Bordara no short uma borboleta impossível de achar por aí. A borboleta azul-ferrete virou bater de asas e voou. A borboleta pirou. A borboleta pintou. A borboleta virou passarinho e escapou. O passarinho pirou. O passarinho amanheceu. O passarinho viajão viajou toda vida para longe procurando água e um ramo verde para descansar.

       Toda menina de doze para na frente do espelho. E não cansa de se olhar no espelho do quarto, espelho de corpo inteiro, espelho de todos os ângulos. Os cabelos da cor do fogo da terra do ar da falta de ar.

       Uma manhã foi de bicicleta até a pracinha e os meninos a cercaram. Um menino pegou a bicicleta e pedalou. Os outros piás, enquanto esperavam vez, a seguraram pelos braços puxaram o cabelo beijaram o rosto sujo de pó.

       E ela viu o mundo todo alaranjado. E viu o mundo todo amarelado. Também um mundo quadrado. E viu o mundo todo recortado picado mordiscado perfurado.

       Um olhar de quem já viu tudo na sorte e não vira nada. Olhos fitos apagados duros hipnotizados amargos. Olhos escorregados de lágrimas na poeira.

       Vivi não sabia não compreendia não sabia explicar.       

       Junto da tarde de céu avermelhado, ela foi até o capoeirão ressequido. Chegou ali e ficou de bobeira. Ela e a  bicicleta sem guarda-lamas sem bagageiro. Foi pedalando para ali, contornou uns pedregulhos com feitio de bicho conhecido. Foi para lá, contornou uns troncos secos há muito secos tocos de pindobeira, de muriri, de mirindiba, etc.

       Foi pedalando e deixando atrás o rasto e a poeira levantada. Parou para ver o rasto e a poeira baixando. Voltou no próprio rasto ou inaugurou outro rasto.

       E pedalou de volta seguindo o rasto da bicicleta. Continuou pedalando pelo capoeirão queimado quando derrapou caiu urucubaca bateu a cabeça na pedra, tuque!...

       A coisa que percebeu foi um silêncio. A dor que ensurdeceu e cegou e rachou a cabeça.

       Caíram com tudo Vivi e bicicleta no meio do pó vermelho e a menina bateu a cabeça na pedra de ponta, tuque!...

       Uma parede alta, um muro alto e grosso e comprido.

       Aparentava uns oito nove anos, meiguice, afeto, carinho, ternura, bracinhos sem muque.

       A última coisa que sentiu foi se ver carregada por uma sombra gigante.

       Faça alguma coisa, menina.

       A menina Vivi não fazia nada não fez mais nada.

       A boca apertou em muxoxo os dedos das mãos em garras os braços em abraços os cabelos apertaram em traça, com fita de pano azul dando o nó na ponta. Mas não mais não conseguiu nem se mexer.

       Surgiu um saci a jato, um redemoinho trouxe poeira ciscos e entupiu os olhos.

       Começou a brincar de caçador com ninguém. Já saiu brincando de caçador com um invisível.

       Jogava de caçador com a cor lilás verde violeta. Jogava de caçador com os anjos azuizinhos no campinho junto do lago, lambaris, tucunarés, tracajás, iaras, pois estava chovendo, sobrevoo de beija-flor-de-garganta-azul, risos de bem-te-vi-de-três-riscas, etc.