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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 32




Sol Totalmente Pirótico

            Eu buscava, busco, até que vou buscar, até que vou alcançar, até que espero alcançar, aquilo que me anima desde sempre, que nem sei, que nem sei completo, que nem entendi, que tenho que encontrar e nem sei onde está, nem sei o total.
            Precisava das coisas. Mas do jeito que aconteciam nem estava adiantando.
            Quero ver o país, pensava.
            Pescar ali a cidade o rio o dia a dia as horas e devolver o peixe.
            As mesmas respostas para as mesmas perguntas sempre identificadas com o mesmo lugar. Pessoa assim que fazia sempre as mesmas coisas tudo igual e nem conseguia sair dali. As respostas e as perguntas.
            O perigo que estava passando, o perigo que estava correndo, que estava ficando, que estava parando, o perigo que estava rolando, o perigo que estava perdendo.
            Eu nunca passei muito por isso de ficar pensando.
            Sonhei, eu e meus cinco irmãos - onde fomos parar àquela noite? -, que entramos numa igreja, nem rezamos, ficamos um tempo gasto à toa com bobagens, sinos, carrilhões, estátua de santo de santa de anjo, janelas vitrais da via-sacra, saímos, viemos embora a pé e quando chegamos em casa... olhamos estarrecidos atônitos do outro lado da rua... a nossa casa dos pais da família incendiada desaparecida pegara fogo e com tudo que tínhamos dentro... sem restos sem sobras somente escombros e fumacinha...
            A lua ia indo rolando arqueando e se perguntando em o espaço. E cada vez mais a lua se aproximando do sol.
            O ano apenas estava no seu (re)começo.
                                                                       ***
            Enigmática na paisagem.
Sinais por toda parte. Dai-vos e tirai-vos! Setembro. Isso nem estava na seleção na lista de espera: socavão, socalco, sopapo, sacalão, socarrão. Domingo. Óculos escuros irisados. Araribás-amarelos. Escorpião de o zodíaco.
Uma manhã calma menos pelos passarinhos nos ares arredores, os tais e quais chirriares, bicos-roxos, gralhas-do-campo, saíras-pintores, cauanãs, iratauás... e  carros nas ruas, um sol como deve ser, uma lua para cada um. Toda a melhor boa vontade.
Isso nem era acontecimento de mundo. Nem comigo. Nem com ela.
Todo mundo achava a Enigmática boa, muito boa, linda, querida, atraente, inteligente, sociável e aérea. Aérea nem. Etérea. Coisa do espaço sideral estelar cósmico interplanetário azul infinito e universal.
Mas a presença de Enig e quem chegava e quem partia e quem era ali e quem era a lua.
Ver como um filme, olhar bem de perto dentro dela. E ela tinha o meu nome entre os dentes certinhos? O sorriso dela esquecia tudo.
            O que tenho certeza que era o que nem era: indefinível, misteriosa, ambígua, onipresente: Enigmática.
            Que adiantava? Nem sabia, nem sei. Eu mesmo, é, procurava outra pergunta e nem encontrava melhor.
                                                                       ***
            Um calor de verão sufocante endêmico. Até parecia pronto para uma pancada de chuva. Para os lados de lá, noroeste, de onde sempre vinha a chuva, as nuvens estavam carregadas e baixas e pretas e elétricas e em movimento, irmãs confabulando entre si, chamados e chiochios de chuva, suiriris, cutipuruís, sabiás-pocas, pica-paus-do-campo... pois sabiam o que era certo e o que errado.
            Grunhidos de autos na rua Cipó-Cruz com a avenida Masacá, gritos de caxinguelê no alto da tapeacuaçu, relinchos de cães por dentro dos quintais, resmungos de gatos nas varandas, zumbidos de gente nas calçadas discutindo o novo preço do cacetinho pela hora da morte.
            Eu os irmãos os primos fomos tomar banho no açude meio que afluente do rio Retiro. Um açude que localizava nas terras banhados pertencentes ao tio Urubici. Cruzamos o caponete e chegamos ao açude feito por nós mesmos a gurizada de pedras e pedregulho. Ouvimos uns gritinhos de meninas, o quê?! Espiamos por entre as aroeiras-de-bugre e era mesmo. Eram as 4 filhas do seu Xerimbabo Cuicuro. Família recém-chegada e bem-vinda de Serrinha ou Maraial, Alagoas ou Sergipe.
            Eram os dias e meses e mares e ano de 1983 e meus 14 ou 15 verões sobrevoando sobrenadando em os meus 70 pra 75kg. As aves cantavam e os pássaros escolhiam parceiras meio malucos por toda parte, mariquita-tio-tio, gaudério, poiaeiro-de-sobrancelha, botió, carão... Olhei o relógio digital 14:02, duas e dois da tarde, simples como dois e dois são 9, pensei.
            Chegamos mesmo assim com cara de pau, de surpresa, em bando, ali do meio do matinho de guamirins, pitangueiras, saboneteiras, cambuins, paracaris... Elas gritaram com vontade parecendo mesmo as tuimaitacas. Uma delas sofreu de tensão nervosa e desmaiou. Depois riram porque nos reconheceram. Meu primo Mbéru se convidou, o bobo:
            - Podemos tomar banho também e juntos?
            - Mas é claro!
            Aí, os malucos já estavam sem camisa mesmo, de calção mesmo, chinelas de tiras de borracha, e nos atiramos na água límpida e fria, água até a cintura, como pernilongos, capororocas, garças-brancas-grandes, jaburus, aracuãs...
            As gurias eram 4 e a mais ou menos era a mais velha, a Piúva. Mbéru se animou e já se apinchou pro lado dela, o idiota, o arteiro. As outras 3, Caranha e Cará e Aicanã, eram de menor e menos de 30 quilos, dispensamos, chave de cadeia. Riam e chilreavam à vontade e mesmo próprio próximo das idades, abre-asas-de-cabeça-cinza, iraúna-grande, choca-barrada, barboletinha-do-mato...  
            E meu irmão Pajeú ficou teso logo de saída, apesar da água fria corrente e tal. Eu ria que me quebrava e até alertei. Ele nem aí, e ainda disse bem alto para quem quisesse ouvir:
            - Tá aqui e nem tá lá em casa!
            Eu continuei na minha e olhe lá. A gente parecia um bando de pula-pulas, gralhas-picaças, cujubis, socós-bois, quero-queros... Fiquei sem preocupação já que nem havia por que ter preocupação.
            Depois de meia hora elas as 4 foram simbora. Foi frustrante. Bateram asas, figuinha-do-mangue, saíra-sapucaia, risadinha, beija-flor-de-orelha-violeta... Mas foram embora e nem teve jeito. Eu e cia ficamos ali e rindo e contando vantagens, vantagens que nem aconteceram, o mundo nem tinha lógica e garantias, sabiá-pimenta, japacanim, pica-pau-branco, fura-barreira, macuco... E tinha sido bom.
            De repente a mais velha, a Piúva, apareceu de volta e, sanhaço-de-encontro-azul, dizendo, tagarelando:
            - Me esqueci do sabão, ah ah ah!... Dão licença...
            Pegou o sabão fez continência com muita pressa e foi se arrancando enrolada na toalha de banho com inspiração da praia de Joaquina, Paraná. Meu primo Malvaísco, pato-bravo, se aproveitou que ela estava longe das irmãzinhas e mostrou tangapema pra ela. Todo zonzo, girado. Ele alertou, zurrou:
            - Olha de uma vez, Piúva, ah ah ah!...
            Ela olhou, udu-de-coroa-azul, e mostrou a língua e-xor-bi-tantemente.
                                                                       ***
            Sorri ver se ia chover. Nuvens passavam em seus jatinhos particulares e ou em lotações coletivas. Do outro lado da calçada morava o famoso bar Maria-Gomes. Nesta cidade da pedra basalto neste lugar do país todo mundo abre bar abre loja para vender, pensei.
Parei para beber como um tracajá, um caburé-ferrugem, um preá, um gambá. Ou melhor, como um caiarara, um guirá, um teiú, quati, chocão-carijó. Nunca cheguei ao leão, mas ao burro foram várias e tantas que perdi a conta as tentativas. Quase nem me viciei, mas me acostumei. E discutia futebol atrás de copos de cerveja e pratinhos de batatinha frita ou cubinhos de queijo com torresmo. E outras discussões. E discutia com destilados, fermentados ao alcance das patas e garras. Oh!, sim, muito entendido. Bastante entendido só um pouco esquecido.
            Por tais motivos da bebida, saí de casa por dois dias, abandonei o barco o lar por três dias. Ninguém me procurou. Ou nem me encontraram, nem quiseram me resgatar. Ninguém se preocupou. Obrigado? Ou fingiram nem se dar conta da minha impresença. Um dia ou dois ou três, uma semana. Eu me desencontrando nem queria me procurar!
            Naquele pouco tempo deu pra sentir o inevitável do fracasso. Eu tinha vontade de correr e nem parar mais. Mas vou dizer que tive vontade de ser um cachorro solto, ou uma pedra abandonada na beira da estrada para Juiz de Fora, Tenório, Parelhas ou um peixe de cardume acarapicu em pleno mar-oceano.
            E voltei somente porque tinha todas as ideias e sabia o que iria fazer dali para a frente. Ou nenhuma ideia, nenhuma saída, completamente confuso e vazio e sem vontade de trabalhar.
            Eu queria correr uma maratona e chegar na frente e ganhar e receber os parabéns e os prêmios e o beijo da guria e os vivas e os elogios e a grana toda.
            As cidades que eu viajava na maionese estavam sempre lá com rio Tapajós correndo na margem da avenida Beira-Rio. O rio Araguaia na dele e a cidade de Goiânia sempre mais ligeira.
                                                                       ***
            Pensamento para maiores. Assistíamos tevê lá em casa? Parece que sim. Jogo de futebol, provavelmente. O tempo, qual era? N-nem sei. A família e mais um ou dois estranhos. Nem lembro da cara de ninguém. Mas eram esses, minha família de cara dura, e dois estrangeiros animais silenciosos. Dois assassinos profissionais? Parasitas incidentais? Casal de drogados? De doentes terminais?
            E o tempo passava e eu sabia que tinha hora para sair, para chegar no trabalho, caminhar um bocado, pegar quem sabe o ônibus o metrô ou ganhar uma carona. E, mesmo assim, que difícil sair da frente da tevê. Nem era pelo jogo em si. Sei lá por quê. Sabia também que tinha de me mexer, me aprontar todo e sair correndo. De-pressa!
            Um sonho de afogado. Tomar banho, comer, trocar de roupa, pegar coisas aqui e ali, me apressar, nem esquecer nada e pedalar sem parar. Senão nem faria hora entrar na farmácia.
            E quando foi mais pra frente o tempo já era tudo muito tarde. E eu perdia a hora. Tinha que correr, tomar banho, vestir, chegar na hora... v-a-mos! Minha cabeça sabia disso tudo e meus pés nem se mexiam. Me recusava me dar co-comando. Ninguém me pegou pelo braço e disse:
            - Olhe! Já tá na tua hora, menino! Te mexa, meu doce!
            Impressionante que eu estava preocupado pra nem perder a hora do trabalho e, ao mesmo tempo, nem queria chegar a tempo. Ninguém pegou no meu braço e me fez andar, ninguém me falou nada, tipo:
            - Veja! Te levanta daí! O sol já bate nas janelas envidraçadas do palácio Karnak!
Queria muito nem perder a hora, mas nem conseguia me arrancar da cadeira sonâmbulo onde estava plantado enraizado esperando cair a mala do céu. Como pode? Como pôde?
E o dia estava pra lá de aconteceu tudo num belo dia claro.
                                                                       ***
            Terceiro ano do ensino médio na época segundo grau e tudo bem, já sei, já disse. Bem que eu dizia com certo alívio: nem caiu nenhum raio na minha cabeça, bala perdida, briga de facão no escuro, atropelamento, casamento, filho, polícia. A turma estava mais enxuta. Havia os mais amigos que outros. Talvez faríamos uma excursão até Foz do Iguaçu ou até Tramandaí ou Torres ou Cassino ou Canela ou Santa Luzia para ver o palácio de Ondina.
E ensaiamos uma peça do tempo dos romanos, césares augustos antônios imperadores guarda pretoriana. Eu era um pobre auxiliar de carrasco, codinome Candombe. Meu único fazer na peça era aparecer na horinha de empurrar um cristão para a cova dos invisíveis leões famintos. E me ajoelhar na frente do incrível imperador e solicitar clemência de nem me ver ali simplesmente o seu escravo dedicado da mais baixa ralé. Enigmática era Cleópatra? Iracema? Ceci do Peri?
            E Enigmática tinha um sol no peito. Um enorme sol de cabelos amarelos espetados. Abraçada ao sol. Deusa-Sol. Um sol amarelo na cabeça, como chapéu, no peito, nas pernas e toda de ouro. Toda de ouro puro. Toda de sol amarelo. Toda de raios e brilhos e cores e dias claros e carnavais. Seu peso em ouro. Toda de sol e luz forte no verão. Colar com medalhão de sol ensolarada brasão imperial e dourado. Sabe aquele sol de criança de escola primária? Pois era a Enigmática-Sol. E pintada inteira de ouro. E uns cabelos de leões em jubas.
            Me lembro como se fosse contar de novo. As ordens do ordenança do imperador que por sua vez obedecia ao comando da imperatriz solar: e empurrei súdito eu mesmo com vontade com essas mãos atadas de serviçal o meu colega o Seridó para o poço sem fundo sem volta dos famintos leões invisíveis lá atrás da porta em o colégio NSAparecida.
            Meio-dia direto e reto sem pestanejar era o que a sol me dizia.          
                                                                       ***
            Nascera um tanto ciclotímico, bipolar, bem neurastênico, com ciúme da bicicleta. Ciclotímico? Que palavra é essa, meu?! Todo mundo usa na tevê e eu sei como é.
            Porque o dia nem era já o mesmo dia era outro mas o mesmo outra volta.
            Olhei de longe longe e D era parecido ou disfarçado ou a própria com a planta Cordão-de-Frade.
            Quando chegar o acaso das respostas se encontrar com as perguntas e ou as palavras certas.
            - Querem me mandar vão me tocar para a serra do Roncador, Estado de Teresina!
            Trocava de pessoa para pessoa, de pessoa para peixe, árvore, pessoa, ave, sapo-pipa, quebra-pedra, gente, sanhaço-cinzento e no correr das décadas e gerações. Sem discutir com quem o por quê.
            D, se havia D, me levava me julgava me devolvia com requintes a escolher.
                                                                       ***
            Depois ficava sem fazer nada.
Enigmática nem era problema. Era solução. Insolação e o rio Purus todo pela frente. Cabelos macios e flexíveis. Prendia os cabelos quando e onde queria. Achava melhor soltar. Prendia de um lado. Cabelos pra lá de jeitosos. Cabelos pra todo lado. E ela mesma com ela mesma nem tinha problema. Um rosto com sorriso e mais tudo de bom pela frente pelo ano vindouro pelo avanço tecnológico de chegar ao planeta Marte e ao mistério decifrado do fim dos dinos no sertão carrascal do Cariri. Cores tendências acessórios e 1.70m com ela.
            A boca comedora de frutas maduras doces amarelas suculentas se derretendo na boca nos lábios que dava até água na boca.
            Beleza como ela mesma punha na mesa. Encostar ali perto dela me plantar bem rente feito pé de taboca-de-marajó. Depois aguardar que acontecer alguma coisa notável e boa e provável.
            O pouco que ela me dirigia a palavra me dizia me percebia era pouco era muito era bom era unguento.
                                                                       ***
            Belém houve um churrascão do clã lá pros lados do Maragata ou bairro Rio Branco, divisa com a reserva da tribo dos marubo. Quase todos os tios e tias chegaram por lá. Então, assim mesmo, que nós fomos e estivemos. Um barracão enorme que comportava duas mesas gigantescas de madeira araucária, uma para menores nem muito menores e outra para maiores e bem menores. Muitos parentes aderentes, primos e primas, cores do vermelho pimentão ao cuia atarracado, cariboca, caboclo, mulato, cafuzo, mameluco, caburé.
            Pois eu era uma ave de rapina no céu, um gavião-carijó, e sobrevoava o pedaço de chão fazendo sombra no rincão sobrenadando a paisagem, alagados, charnecas, capões de cátedras, umburanas, vinháticos-testa-de-boi, mata-pasto, a chapada das Mesas, cercanias limites fronteiras com Lagoa Santa, Pimenteiras, Bodó, Frei Martinho... a região toda.  
            Dia o de muito sol, graça de D, muito ar e pouco vento. Todos chegando e se cumprimentando. Eu os contava um por uma. Minha tia Materlândia nascera num mês de julho e nem era uma pessoa interessante à primeira vista e mas era calma e falava pouco. O tio Araxá, no meio da gritaria dos pirralhos, distribuía balas e bênçãos. O primo Mbéru apresentava me apresentou a Iruri. As primas cunhantains gêmeas Maria-Branca e Mocinha-Branca vestidas iguais nem se separavam na hora do pega-pega, esconde-esconde, puxa-puxa. E chegavam soldados tenentes soldadas capitãs de Alfenas, Crato, Moji Mirim, Catende, Guaratinguetá...
A prima Aguanil chegou mais tarde, de moto, capacete esfolado, vestida de couro. Estacionou a moto debaixo de uma alta braúna alta e copada. Uma moto azul com cilindradas. Tirou o capacete agitando a cabeleira para longe. Vestida de couro ou algo parecido apropriado. Veio para junto de nós com tudo, com moça, com mistério, com motoqueira de lenço floreado no pescoço, com calça justa bem atochada em v, com cabelos louros e soltos e enfunados. Membro da família do tio Tembé - proprietários e anfitriões -, o cão Avião correu para cheirá-la. Ela solteira cão solteiro se abraçaram se falaram se beijaram na boca com lambidas. Durante e depois Avião esticou as orelhas e balançou a cauda. Ela tirou um petisco do bolso e o presenteou. Avião foi seguindo a mina por todo um tempo, cheirando, ouvindo conversas, participando dividindo os encontros. Avião sentou ali e por ali mesmo ficou mais um pouco enamorado atento enamorado tanto de enamorado como de atento.
            Os homens barbados cuidavam do churrasco e das caipirinhas e das anedotas de corno. As mulheres mães cuidavam das saladas e dos trajes de sábado à noite. Os primos e primas jogavam caçador, corriam, subiam em árvores, quipá, rabo-de-arara, tapaciriba-amarela, cedro-branco... dependendo da idade da altura e disposição. Idades que nem faltavam.
Uma tia Mandaçaia preparava o mate doce. Um tio Quixexeu preparava o mate amargo. A família de cinco seis com o tio Guibá na frente de tuxaua trouxe tudo de som entendidos de som e preferiram no caso barulho e agito e zoeira e dança. Chegaram placas sempre dos lugares, Pilão Arcado, Juazeiro, Queimadas, Mundo Novo, Alagoinhas, Ibiraiaras... Um prevenido tomava chá para o fígado. Uns tomavam refrigerante com bastante gelo e rodela de limão. Era uma paz de dezembro a janeiro e todo mundo contava vantagens. E o azul do céu era puro calor e luz e pássaros, ferro-velho, freirinha, rabo-mole-da-serra, topetinho-vermelho... Um competidor já saiu preparando o som alternativo de sertanejas e gauchescas. Zunidos zuniam abelhas sobre as plantas luzes incendiando floridas e verdes. Dupla de trio preparava as cervejas nuns isopores com gelo e serragem.
            Prima Aracaí e Caiana e Aitá brincavam com os marmanjos do futebol. Elas praticamente nem sabiam chutar. Elas praticamente nem entendiam com que pé era o chute. Elas eram puro cabelo gigantesco. Elas eram adoráveis e lindas e importantes e risonhas de bermudas curtas e pernas longas. As duas mãos segurando cabelo e um bico na bola. E, por princípio, elas riam muito e todos riram muito mesmo.
            E primo Eugenópolis explicou como comprava carros usados, fazia motor e lataria, e os revendia por seminovos. Primo Felisburgo sonhava com um trator para o plantio da soja ou do trigo ou do arroz. A prima Argirita nem falava nada, ria muito, ria para contagiar todo mundo. Por falar em primas, eu tinha as mais lindas primas do mundo. Umas ainda tenras tenras. Também uma prima Jaci carente carente preguiçosa dormente manhosa quieta esperando o namorado Timutu que ainda demorava nem tinha telefonado quem sabe lá e natural de Jaboticatubas. A prima Cuíca-Lanosa se perdeu 30 quilômetros durante São Paulo e era só atravessar a avenida São João de carro novo em folha andar mais dois quarteirões se atrapalhou com uma carreta que ia passando bem na hora os sinais de trânsito os retornos foi parar na rodovia Presidente Dutra a BR-116 a SP-60 depois de trinta km e só foi resgatada ao se dignar telefonar e pedir socorro. Tínhamos cervejas louras e cervejas pra lá de pretas.
            E por que aconteceriam acontecimentos coisa de alarme mesmo de crime passional ou milagre? Apontar os céus com os dedos as mãos os braços jogados para o alto, por natureza. Todos empenhados com ultrapassar para o terceiro milênio.  
            E minha tia Bocaiuva era viciada em novela de tevê, programas de auditório, em tevê dominical de um modo geral. Eu pensava que tal mania nem aparecia mas compareceu, etc e tal. Tio Baldim nem tinha uma perna. Veio à festa como sempre fazia nesses últimos tempos: com perna de pau. Ele perdeu num acidente de carro, logo na estreia, lá no autódromo internacional de Tarumã, Guaporé. Capotou bateu no barranco foi ao alambrado atropelou os espectadores, nem sei bem, foi recebido no palácio do governador o Piratini. Mas ele nem ainda nem estava todo conformado. Ninguém podia falar mal do seu time time dele time teu que ele pulava. E pulava bravo numa perna só como o mascote do próprio time. As crianças o adoravam. As crianças o achavam muito teatral e gótico. Distribuía balas mas nem era vovó nem natal nem aniversário.
Tia Jatuaúba me contou que gostaria de me emprestar um dinheiro pra eu fazer faculdade quem sabe em Rio Grande ou São Mamede ou Cruzeta... Eu acreditei, agradeci, disse que nem precisava, ficava no aguardo. Quando eu fosse fazer vestibular. Ela me beijou duas vezes nas bochechas, disse que só pensara, nem podia mesmo, só cogitara, bem que queria e tal porque eu merecia. Ela tinha que comprar muitos remédios para o meu tio o marido dela o Timbapeba e que, coitadinho, nem pôde vir ao churrasco, que tinha lutado nas revoltas dos Quebra-Quilos lá dos 1872-77, vai saber!, peleias danadas de boas e duras e controversas e condecoráveis.
            Na planície da tarde toda de sol tudo parecia estudado e contado e às vezes os pássaros, as árvores, as plantas, fumos-bravos, macucus-do-rio-negro, espinhos-de-agulha, caapiás... as crianças, às vezes o Avião, o laguinho onde só os patos-corredores e marrecas-carijós e cisnes-de-pescoço-preto nadavam... O sol batendo nos telhados nas árvores nas pedras nos pássaros em geral e de grátis. As árvores exultavam, os pássaros com esmero.
E a priminha de oito anos Tapiçuá incompletos já sabia desenhar com lápis e caneta e colorir com lápis de cor, quer ver, titio?! Como quem pode quem viu responder toda a cascata de perguntas. Como se todo dia fosse de bela solene solerte belezinha nada encabulada de festa festival.
            O meio-dia foi rápido e rasteiro e nhãme-nhãme-nhãme... sucesso nos olhos dentes sanguinários lábios cheios de farofa pão de padeiro salada de batata. E boca cheia de festa festança e galhardia. O churrasco chegou aplaudido ferreiro espeto de pau. E justo que nos lançamos todos como cachorros esfomeados formigas-cortadeiras humanos e gente em geral. Ataques com golpes de duelo duelando. O Avião ficou na beirada em baita expectativa todo acelerado. E rimos com os tragos, cervejas, vinhos tintos e brancos de garrafão e guaranás. Bocas cheias, bocas gordurosas, bocas enfarofadas, bigodudos como tio Calumbi ou tia Braúna, todo mundo se enticando, olhando um para a cara da outra, todos para a cara de um e achando a maior graça. As sobremesas com variedade de compotas e sagus e jabuticabas e araticuns-ponhês, amoras-do-mato, cachacinha no butiá, graspa com essência de catuaba-do-mato, licor de pitangas.
A mordomia um calorão e um mormaço e uma preguiça de derrubar tudo. Foram embora as poucas e boas disposições de recolher o estrago da festa. Todo mundo se atirou nas cordas, se deitou na rede, se esticou na esteira, roncou na grama na sombra dos taxizeiros-brancos. Minha tia Jurema por parte de tio Pocheti gostava muito e sabia muito contar causos de mentiroso de bêbado e de velho gagá.
            Prima motoqueira Aguanil foi embora mais cedo, acelerando tudo, bundinha sem dúvida, cabelo aparecendo por baixo do capacete. Saiu pela estradinha levantando poeira fazendo onda fazendo ziguezague quase empinando tirando ohs! Avião acompanhou e latiu atrás correndo até cansar. Ela era muito importante pra ficar ali mais tempo. Primo Jequeri bebeu demais e tiveram que levá-lo ao pronto-socorro. Muitos beberam bem bebidos. Prima Brasópolis viera com o Icó namorado muito mais alto que ela meio metro e foi assim: pela manhã ficaram à parte, se beijando e se beijando debaixo do pinhão-roxo; pelo meio-dia sempre agarrados prometeram sair logo para o centro da cidade tomar sorvete ver gente desfilar pela praça dos Carabuiana; na tarde ainda agarrados debaixo do pé de umari-gordo nem haviam brigado uma única vez e graças, quem vai saber! às orações da mãe minha tia Jetirana. Eu mesmo fiquei surpreso e obcecado.
            Mas a coisa mais importante da festa do clã qual foi qual que era? Eu nem preciso pensar muito. Ninguém precisa nem adivinhar. Qualquer tomado sabe do que estou falando. O fato mais importante que aconteceu: a morte do boi. O boi veio até ali amarrado e sem precisar muito esforço. Anônimo e bem nutrido alto soberbo nas quatro pernas de gigante. Um boi nelore muito branco e farpela e cupim com pouca ou nenhuma guampa. Deixaram-no junto a uma janela do paiol. Ele berrava de vez em quando, talvez com fome, talvez com sede, pressentindo, adivinhando. Tio Gameleira o cevou por mais de onze doze meses lá na estância do Iapu, Protásio Alves. E o boi assustou meio mundo. Eu vi neguinho correr do sapateado do berro. Na hora h quando o boi mais precisou berrar.
            Minha prima Embiá divorciada do Chincoã Cuité mãe de quatro filhos meninos todos correndo pelaí solicitada a todo momento calma matreira quase sempre acomodada na cadeira e braços cruzados. Uns olhos pouco comuns raros e que se imagina em fina fantasia. Prima Embiá tinha responsabilidade tanta que ver suas histórias era ver e ouvir uma catedral. Mesmo ou apesar dos olhos lindos indecifráveis quase ausentes. Uma santa santa. Boca diferente de desenho de linhas retas. Uma igreja da Sé um palácio República dos Palmares um museu Casa dos Contos. Ela sabia sabendo antes de saber. Por menos idade que tivesse os caras iriam preferi-la por causa dos olhos dela impagáveis imbatíveis. Olhar da tia que ficava parado no alvo longe invisível muitos dias. Um olhar de cores de botânicas misturadas de flores de orquídea típica do cerrado. Uns diziam que era frio de serpente, eu achava que era de harpia.
Tio Gameleira chegou de mancinho e como quem nem queria nada, de supetão, escondendo a faca nas costas, nem pôde chamar pelo nome Canjo o boi, esticou o braço pela janela, esqueceu o nome do boi ou fingiu esquecer, cravou a faca no coração do pobre bicho animal praticamente domesticado. O boi abriu um berro de terneiro desmamado e evacuou... O boi se debateu contra a parede do paiol, pará-papá-patá!... O sangue o vinho jorrou esguichou vermelho e alto e longe e acintoso como um chafariz na festa da uva e do vinho em Flores da Cunha... O sangue do boi repercutiu longe e foi muito... O boi tonteou e caiu para sempre... O vermelho na parede na terra no boi tinha uma pele grossa e lenta...
- Era melhor comer carne de pacu piau piapara mandi-bicudo...
- Agora mesmo subiu aos céus dos touros e bois e vacas...
- Vou tomar mais café bem forte bem doce.
- Quando ele veio de lá da estrebaria... logo que eu vi o bicho... bem, ele com certeza me viu também olhou pra mim pra nós, muaaá!... e fez qualquer pedido de por favor! pra nós todos... Eu acho. Eu tou toda melindrada...
Depois caiu de lado ainda preso à corda encurtada, sem se dar conta que poderia morrer enforcado, a cara espremida na parede. O boi foi desatado arrastado descascado lonqueado desfeito em postas muito grandes. O ex-novilho foi posto pendurado em ganchos e pendurado por partes ainda no anexo da estrebaria. O boi era era manso e tinha até nome próprio o Canjo.
O dia todo uma luminosidade branca, oh!, incendiada sem uma única nuvem branca o dia todo branco: eu mesmo fiz. Todos fizeram. D fez a parte Dele.
O mesmo tio Gameleira inventou de encher a bexiga do boi para fazer uma bola e atirou o brinquedo para os guris. Partes foram para as brasas. O boi foi engolido entre farofa e goles de cerveja ou guaraná e risadas. Correria de crianças, grupos de homens palestrando discutindo o peso do bicho carneado, reunião de mulheres com foco principal na roupa de domingo. As pessoas riram, cansaram de rir, quase se cansaram da tarde. Os carnívoros consumiram muito boi e até fartar. As pessoas nem quiseram nem pensar ao menos o nome do boi do pai do filho do espírito santo e amém.
Pois esse tio Calumbi que se escalou para comer os pagos do assassinado. De noite beijaria a minha tia esposa mulher dele na alegria e na tristeza beijaria tia Tubaiaiá bem ali mesmo na boca dela. E disse, em alto e bom tom:
- Querem um tira gosto?! Provem! É afrodisíaco, ah ah ah!...
Só podia era só o que faltava e lá pelas horas quentes e preguiçosas da tarde, verão crepitando na brasa, o tio Maricá puxou o lagarto do bolso e o apresentou e o estendeu na grama. Assim mesmo ali para apreciação e na sombra das favelas-brancas debaixo do nariz de certa plateia escolhida, enquanto as crianças corriam lá longe em torno do laguinho turvo. Quando se deram conta as galinhas cocoricaram os perus glugluzaram e foi um escândalo uma vaia geral. Ele tio Maricá sempre fazia isso em festa inda mais já tocado de cerveja. Minha tia esposa do girado tia Tibuna tentou cobrir com uma toalha de prato. Nem adiantou, tio atirou longe e fez fosquinha. Uns e outros jogaram outras coisas chinelo tamanco pedaço de tijolo qualquer calhau outras coisas possíveis e ele só recusava devolvia e dava gargalhadas, eh eh eh ah!...
E o que todo mundo riu nem foi fácil. Porque nem era que meu tio Calumbi passava por inocente como um pobre porco ou burro ou socó-de-bico-largo. Exemplificava, mastigando mascando manducando enchendo as bochechas escorrendo sumo pelos cantos dos lábios. Beijo na boca da titia Tubaiaiá. Hálito de vinagre azeite cebola limão sal pimenta alho bagos bem assados misturados na farofa e no palito. Bem engolido. Chupando os dentes ferozes inquieto fogoso. Beijo na boca de bocas e línguas e salivas apetitosas ácidas esverdeadas. Imaginamos do que estou falando, o acordo social de esforço cooperativo contraofensivo exatamente linguodentalabiais. Os frutíferos espaços quentes os tempos incertos meiguices arrulhos, ro-ro-rô!... de caçuirobas, asas-brancas, papa-bananas...
Sem nada da pressa para onde ir e vir. Tão calmo quieto meio-termo que nada precisava ser modificado.
                                                                       ***
            Apareceu o sol no seu jeito no seu espaço na sua mania no seu modo dos imperadores insolente.
De uma maneira fácil, tranquila, bem de brincadeira, de estalo de dedos, um dia Pitiguari subiu para as nuvens e bateu numa porta com aldrava, toque! toque! toque!... As pessoas sempre batem três vezes na madeira. Mesmo os que nem são nem um pouco supersticiosos como eu.
            A porta azul abriu e apareceu alguém que parecia um anjo um pássaro um beija-flor-de-peito-azul. Ou inseto de longas asas transparentes, helicóptero. Esse tal e qual indivíduo etéreo asado indagou da menininha:
            - Então?!... Já fez a lição de casa?
            Pitiguari, uns olhos desajeitados grandes negros molhados, se explicou:
            - Eu vim para uma volta no céu. Nem tinha com quem brincar de boneca ou outra coisa.
            A cunhataim estava feliz e os olhos brilhantes, que se via bem claramente, transbordando os sorrisos e os olhos abertos e os cabelos soltos esvoaçantes e a pele saudável. O etê que explicou sublimou lá o seu lado na história:
            - O céu nem recebe turistas. Você deve entrar se é que vem para ficar, uma vez. Só recebemos inquilinos com pagamento adiantado.
            Pitiguari, uma libélula, pensou um pouco mais ou menos rapidamente. Logo depois disse:
            - Eu posso entrar para telefonar?
            - Você nem tem telefone?
            - Nem, nem tenho aqui comigo. Você empresta?
            - Hum...
            O responsável concordou já meio contrariado e sem mesmo outro jeito fez salamaleque. A guriazinha entrou, olhou em volta, estava num amplo salão de entrada do céu, parecia o palácio do Campo das Princesas, procurou alguns objetos para ver, podia ser o museu do Ipiranga, pelo ar muitos alados brincando de voa-voa, saí-azul, marianinha, peitoril, arredio-pálido, grimpeiro, uirapuru ave título do Amazonas... o que mais viu foi a entrada da casa de D.
            Pitiguari andou andou andou... até uma mesinha branca perto de uma branca parede de nuvem branca onde ficava o fixo branco. Tinha estrela acesa dia e noite mas tudo meio transparente translúcido sem nenhum quadro de enfeite. E discou para as pessoas da sua alçada da sua comarca. A primeira pessoa foi avó Machineri, ainda o avô seu Uraricoera, depois na sequência seu cãozinho Sapupira, a turma do colégio 11 de Agosto e que eram a Ica, o Iú, a Ixu, o Itu, o Iri. E foi com Ixu que continuou o bate-papo, dizendo:
            - Adivinha só onde é que tou, guria? E tou no céu!
            - Tá fazendo aí? E isso é imortal?
            - Telefonando, por enquanto, depois vou vê.
            - Até quando, até amanhã, até o fim de semana?
            - Até eles me dizê: chega, né!
            Depois de telefonar para todos que pensou falar, Pitiguari foi aprender a fazer araras, baitacas, periquitos, bem-te-vis, arus, saguis-brancos, macaúbas-mirins, bagres, borboletas-da-restinga, joaninhas, açaizeiros, inhames-cigarras, alecrins-de-são-josé e tudo mais que se fabrica no começo do mundo.
            A lua remoçada quente vagarosa ensimesmada saindo na hora h do meio das folhas da ibabiraba. Tão lenta tão doce tão sorte enamorada que parecia uma lagoa sobre a superfície ótima do rio São Francisco.
            Uma noite calma, já oito dias de Pitiguari no celeste do céu, ela foi conversar com a lua nova. A lua caminhava no céu já meio distraída, cheia de formiga, redonda como prato, então o ir e vir, olhando para a frente para os lados ouvindo a cidade uma ou outra vez que poucas olhou para trás. A menininha parou a lua nova e conversou:
            - Oi, Lua Nova!
            - Hum...
            A lua nova estava se olhando na lagoa Itapeva e penteava as longas e prateadas melenas com espinha de peixe piabanha. E ela se demorava porque era atenta e vaidosa e com muito tempo, toda a noite para se cuidar e aparecer linda. E passou horas e nuvens pela frente. Até quê:
            - O seu nome, guriazinha?
            - É Pi-ti-gua-ri.
            - Onde você pensa que vai essa hora da noite?
            - Hum...
            Numa praça de cidade, outra praça de cidade, mais praças de cidades, se ouviu gente tagarelando, conversando alto, cantando em coro perto do coreto, na frente do palácio da Abolição. E a lua nova se preparou para ouvir tudo isso e sorrir. E a lua nova se distraiu muito na praça Dom Sebastião.
            Pelas 22h e 11min, subiu um santo. O ombro lotado de passarinhos, andorinha, canarinho-da-terra, sabiá-laranja, tico-tico, papagaio-de-cara-roxa, rabo-de-palha... os mais famosos. O santo vinha quieto, decerto cansado e satisfeito do sacrifício da viagem. Pitiguari chamou a atenção:
            - Oi, Santo!
            - Hum...
            O santo assustou o santo reparou bem mais de perto quem chamava e até tropeçou num fiapo solto de nuvem e acordou de todo. Os aladinhos começaram a cantar nas várias línguas pensando que já era dia de recorrer. Aí, o santo olhou melhor e viu a menininha, e disse:           
- Que faz aqui solta no espaço e sozinha, guria?
            - Eu tou passeando, uma vez. O dia de noite tá bom. Ocê nem acha, Santo? Nem tinha ideia que os avião a jato passavam tão perto, uma vez.
            E a comunidade toda ali todos eles foram entrando para o interior da casa universal do infinito, pulando uma janela muito aberta e baixa e larga. Onde foi e voltou aquela lua aquela hora e brilho e ressonância. Depois que entraram caiu uma chuva bonita e ruidosa e boa de se ver.
            No outro dia, e como era dia claro, e como era domingo, bem aí pelas 10h e 11min, Pitiguari acordou com uma nota batendo na janela. Os passarinhos com os pios e cantares todos de cada qual, curica-cuiú, caneleirinho-de-chapéu-preto, soldado, ararajuba símbolo do Brasil...
            Pitiguari que viu e D logo ali e parecido e disfarçado e bonitinho e feliz por Si mesmo como uma Sape-Sape.
            A cunhataim abriu a janela e era dia e era de volta à casa dela em plena segunda-feira. Perguntou por perguntar, mas já sabia:
            - Quem bateu na minha janela?
            - Fui eu mesmo - disse o sol ali do alto.
            - E pois o quê?!
            - Fazendo um favorzão... Me vê aí um copo de suco de abacaxi gelado!
            Os passarinhos aproveitavam o dia livre. Poderes do sol da lua das estrelas dos rios das cidades. Os olhos maiores das casas das ruas das coisas dos automóveis que vigiavam com interesse.
            E porque o mundo era feito do que Pitiguari do jeito que acreditava do que via no espelho todas as manhãs.
            Parabéns aos caminhos e na boa para os lugares, Santa Bárbara do Tugúrio, Arapeí, Barbacena, São José do Barreiro...
O céu estava verde para os lados do sul, azul mais para o centro, um pouco mijuí para os lados do leste, um tanto branco para os lados do oeste, um tom mais amazônico ao norte.


sexta-feira, 30 de junho de 2017

Contos de Santa Luzia (13)




            Quipá fugia sem parar. Caminhara trezentos dias evitando estradas estadas rastos pessoas e cachorros. Há muitos dias desde agosto que estava enfrentando o capoeirão seco, espinhoso, pedregoso. Muitos sóis pelo deserto vermelho. O calor terrível insuportável. Dor nos pés nas pernas e no resto da alma. O ar irrespirável de terra vermelha. Nada de sombra. Nada de nada. Tudo um clima de boca de forno fornalha. Terra esturricada. Pedras cansadas. E noites frias e abandonadas e sem fim.
            E carregava cinco mortes nas costas. Nenhuma delas na consciência. As primeiras duas por vingança vingança. Mais outras duas por encomenda, por dinheiro, por tarefa, por vontade de ganhar um faz-me rir. A última foi para mandar embora o tédio e ver o tombo.
Fugira da cadeia com outros tantos. A rebelião pôs fogo à cidade. E fugia pelas veredas, atalhos, picadas, capoeirões, beiras de rios secos, terras cinzentas, terras castigadas, pedreiras cavadas.
            Do alto do morro viu a aldeia de Santa Luzia. Anoitecia. Se encolheu na aba de uma rocha gigante e tentou se acalmar. Não queria descer durante a escuridão. Não conhecia o lugar e receava alguma surpresa detestável. Poucos casebres. Tudo um silêncio. Não queria acordar os aldeões, mas acordou a mula sem cabeça o anhangá-pitã.
            Pela manhã subiu no grande rochedo para olhar mais longe. A bola escaldante do sol rolava para o oco toda encoberta daquela poeira vermelha. Observou a aldeia de Santa Luzia. Uma aldeia pequenina as casas precárias de pau-a-pique e cobertas de sapê. Procurou alguma coisa para espantar a fome a sede.
            - Vou me apresentar - decidiu o estrangeiro, falando para si mesmo.
            Quipá Cataguá entrou pela única rua da aldeola chão batido britado. Parou na pracinha onde a gurizada improvisara um campinho com goleiras de tijolos. Jogavam calçando as mãos com chinelas de tiras de borracha. Descalços os dedos nodosos encardidos chutavam uma enferrujada lata vazia de compota de caju. A molecada o convidou; faltava um goleiro:
            - Ei, vem de goleiro, seu viajante?!
            - Pô, vem!
            - Vem aí, vai!
            - Ataca o que dá, meu!
            - Mmmmm - foi só o que Cataguá conseguiu gemer no momento.
            Quipá, olhar insone aturdido, entrou no gol sem muita vontade meio relaxado chateado. Não era goleiro, nem nunca fora, nem queria ser. Mas como precisava se enturmar... pensou um pouco... aceitou. Foi entrou no gol pelo time dos sem-camisas. Dois tijolos faziam as vezes de traves, e o travessão a altura dos braços erguidos ou do pulo do goleiro. O campinho era um terrão desnivelado sem linhas laterais ou áreas.
E o desconhecido voava com estilo e elasticidade sempre catando a lata. Na pior das hipóteses espalmava para escanteio. De repente se viu rilhando os dentes relinchando se exibindo. O time dos sem-camisas virou o jogo. O goleiro improvisado não deixava passar nem suspiro. E miau! miau!... de gato.
O time dos camisas-rasgadas tinha um centroavante driblador e artilheiro e craque pra cachorro pra burro. Esse cobra não conseguia mais vencer a eficiência do goleiro-forasteiro. E daí que o culepe se irritava que só vendo: falava palavrões, babava, enviesava uns olhares de louco a cada lance frustrado, exigia pênaltis, teimava por cobranças de faltas, canelava, discutia, apitava, xingava, destratava, ameaçava, brigava, não parava de esbravejar; merecia uns tocos e uns puxões de orelha.
            Uma vez o tal centroavante-artilheiro-craque dos camisas-rasgadas pegou a bola no meio campo. O dito cujo mesmo. Veio driblando todo mundo. Chegou perto da área e chutou firme no canto... Que nada! Nada da bola da lata passar. O goleiro-forasteiro voou lá e a catou com as duas mãos. Então, todos viram, o viajante era uma parede, uma muralha, um santo, uma jaguatirica; fazia a diferença:
            O calor latejava na cabeça, as luzes doídas piscavam, os ruídos insistiam xaropes incomodativos, etc...
            - Onde estou? Qual que é? Muito longe? Agora mais perto? Sem que ou por quê? Miragem? Ah, chega de perguntas! - resmungou consigo mesmo o Quipá.
Uma cerca bem torta malfeita de secas taquaras-pocas. Uma linha de passe... uma linha de zagueiros... ouviu alguém gritar: “passa a bola!” Fazia luz, fazia sombra. Muito calor pelo corpo, muita luz dentro dos olhos, não conseguia ver nada. Não, um chiado, um zumbido dentro da ideia, um miado no labirinto do ouvido... um zunido de serra-fita serrando vidro dentro da cabeça...
            Então, Quipá Cataguá despertou gemendo, “ahn! ahn!...” Estava atrás do gol. Largado ali, estirado no chão, tonto. Uma terrível dor na cabeça. Coberto de poeira vermelha. Passou a mão na testa e se apavorou: um corte profundo, e estava lavado de sangue. A luz imprecisa do sol nos olhos. Não entendeu nada. Estava vazando da cabeça e não tinha ideia do acontecido.
            Quipá mal conseguia abrir os olhos, tanta a dor na cabeça. No seu lugar, na goleira, fazendo as vezes de goleiro, a piazada havia posto uma pequena escada de abrir. Que se passara com ele? Que acontecera pra ele estar ali atirado e de cabeça rachada?
            E queria ver aquela ferida. Queria cuidar da ferida e curar a dor. Se ergueu, a cabeça latejando, zonzo, muita dor. Se sentia mal pra cachorro pra burro, completamente aturdido, febril, destruído, até com ânsias de vômito. Tentou chamar por socorro. Gritou por socorro:
            - Ei! Socoooorro!!
Que nada. Não veio ninguém. Esperou um pouco e não chegou ninguém. Dor na cabeça. Tudo em volta meio que rodando ondeando. Memória desparafusada, ideias quebradas, quase pensamento vazio.
            Depois de uma hora ali jogado, perdido, gemendo, ele se ergueu para tentar uma ajuda. A piazada já digladiava de outra coisa em outro lugar. Cambaleando foi até a capela e se sentou na escadinha de pedra basalto. Não conseguia pensar. Acontecia alguma coisa que não tinha consciência. A cabeça rachada, vazando sangue, muita dor na cabeça. Aconteciam coisas ao redor que não entendia, não podia perceber.
- Que é isso? Sofri um acidente, tive um desmaio, será? Sofri um atentado? - não tinha ideia de nada.
            Talvez lá para o outro dia...
Os claros de um sol empanado despontaram atrás dos morros de capoeira ressequida mortiça, o oco tomado de nuvens gigantes de poeira vermelha, um vento dos infernos sempre incendiando a região, ermo sem remédio.
E Quipá desacordou num casebre destelhado, e olha lá! Passara a noite enrolado numa esteira no chão. Dormira com pesadelos e a constante e terrível sensação de perda de poda de sacrifício.
            Se sentiu muito estranho ao acordar. Bota estranho nisso! Se sentiu esquisito. Levou a mão ao patuá seguro ao pescoço por um cordão de embira. Nem havia mais amuleto algum. Olhou para o lado, estava sozinho. Procurou se consultar... E lhe faltava um braço, o esquerdo. Foi um choque:
- Estou doente da cabeça? Talvez tenha sofrido sério acidente. Pode ser um defeito do pesadelo.
Quipá se cortou? Cataguá cortou a si mesmo? Quipá cortou o Cataguá? Mas como se não acordara na hora horrível da operação? E como adivinhar o que acontecerá mais tarde?
            O desenxabido olhou o ombro esquerdo. Onde havia um forte e utilíssimo braço agora somente o ombro vazio. Doía um tanto, vá lá! A amputação fora recente, e muito precisa, quieta. Então, perdera o braço do dia pra noite e um pouco menos de alma.
            Pois ele botou a mão que lhe restava na testa. O caroço da pancada, recebida no campinho no jogo com a molecada, ainda estava alto, duro, doído. E doía todo o crânio, e o lugar da amputação junto e ao mesmo tempo incluído.
            Cataguá, Quipá saiu para fora do casebre. A aldeia de Santa Luzia estava quieta e sempre deserta. Rebrilhava muito escondido o fogo do sol. Os gabiotos eram de pedras e paus e costaneiras apodrecidos. Uns vinte ou vinte e cinco entre aldeões e aldeãs que teimavam ali. Todos alquebrados, desgrenhados, desleixados, desfigurados, amarrotados. E eles ficavam observando o viajante pelos buracos das paredes.
O ar poluído de poeira vermelha. As árvores ex-urucubas ex-parinaris ex-ananis da pracinha. Uns pivetes se açoitavam e se perseguiam e se combatiam ali. O preso recebia dez varadas nas costas ou nas pernas ou na bunda. O moleque que apanhava chorava por uns minutos até cansar ou passar a ira. Depois, voltava a participar dos pegas. Os agressores zombavam cuspiam na mão para preparar o tapão davam as voadoras os rabos-de-arraia as tesouras; treinavam vale-tudo. E sempre corriam atrás de alguém em nova perseguição. Cada um por si. E logo uma outra vítima. Recomeçavam açoites gritos xingos... e assim por diante.
            Não chovia na região talvez há dois três quatro anos. Tudo coberto de fuligem. Nuvens de pó vadiando pelo oco. A vila coberta pela poeira vermelha. O saci irrequieto no redemoinho da rua Única.
            Quipá, constrangido pelo roubo do braço, caminhou até a calçada da capela. Sentou numa laje. Não se acostumava com a falta do braço esquerdo. Não parava de pensar nisso. E repensou: “Decerto que já houve gentes e bichos que nasceram sem os dois braços, sem o braço com a respectiva mão. Um verme não tinha braços, um caracol não tinha braços, uma lesma não tinha braços, uma minhoca não tinha braços e mãos e pernas.”
            Depois, sem dúvida o mesmo Quipá, sentiu mais fome e sentiu ainda sede. Não se acostumava com a falta de certeza e de equilíbrio que o ex-braço causava. De volta à praça das ex-macambiras ex-facheiros-pretos ex-capororocas-verdadeiras, se sentou recostado a um tronco de paineira queimada do calor.
            A fornalha assava o mundo sem nenhuma pressa sem dó e por fora por dentro. Um dos moleques desmoronou. As costas marcadas por dezenas de cortes vergões tatuagens desenhados pelas varadas. E a palhaçada sempre a mesma e continuava. Todos descalços, todos sujos, todos desocupados, tontos de fome.
            Cataguá espiou em volta tudo tomado pelo mormaço pela luz intensa pelo cheiro de terra requeimada. Fora os moleques, não se via mais nada se mexendo. Dentro da aldeia os adultos não existiam. Raramente se via um aldeão ou uma aldeã caminhando com enxada às costas catando pedras para o almoço. Encontrar dois aldeões num dia era indício de muito azar.
- Onde esses tipos bisonhos se entocam? - pensou, falando alto. Talvez adoentados, talvez dormindo de dia e caçando à noite.
            A noite chegou sem surpresas, ignorante, sem nada para dizer, sem nada de novidade. Uns gemidos e uivos aqui e ali, de lá pra cá. Um número impreciso de relinchos. Um lobisomem, uma martinta-pereira, um jurupari. O estrangeiro se perguntou logo:
            - Será que chego a dezembro?
            Acordou na manhã de quinta-feira junto com o primeiro bafo de calor. Esperou e olhou em volta a ruína do casebre. Um silêncio no grotão. Quando, enfim, se decidiu levantar do colchão de espuma de borracha... faltou a perna direita, careceu da perna direita, necessitou da perna direita... etc.
            - Minha perna direita! E cadê?!
            Quipá Cataguá achou um absurdo aquilo. E falou alto novamente, e com razão:
- Mas não posso dormir que me roubam as partes?! E agora a perna direita, tão útil e necessária!
            Quipá ficou assim, olhando olhando o lugar vazio do seu corpo onde havia uma perna direita. Tinha que acreditar no absurdo no irracional no surreal. Ficou muito irritado. Operação muito entendida, silenciosa, indolor, incolor. Se sentia mais leve era verdade, mas isso longe de o satisfazer. E também com uma sensação que era só saudade, dor além da saudade. Fora roubo ou fora acidente? Alma trouxa e mais leve.
            Cataguá se cortou? Quipá cortou a si mesmo? Cataguá cortou o Quipá? Mas como se não sentira tanta dor assim? Como adivinhar o que acontecerá mais tarde?
            Se ergueu com custo com custo. Faltou equilíbrio prática e calma. Como não sabia quicar na perna presente, caminhar como um saci, pegou um galho seco de buranhém e foi se apoiando. Saiu para o dia de mormaço e vento carregado de poeira. Pensou rápido, pensou, viu o dia, olhou em volta, e só resmungou:
- Que dia para perder umas partes!
            Então, olhou o dia entupido de terra: era praticamente o mesmo dia de ontem ou de amanhã. O arraial o mesmo. Talvez as mesmas nuvens de pó no oco acinzentado. E os poucos moleques, descalços e arteiros, brigando de arrastar outro pixotinho de cá pra lá e de lá pra acolá, e gritaiada, berredo, choraria, disputa de pedradas.
            Quipá foi indo atravessando a rua Única, tropeçou e caiu de bico. Falou alto:
            - Ai meu queixo!
            Não podia ter prática mesmo. Daí se dirigiu à capela. Entrou na capela às oito e meia e se sentou num banco de visgueiro em frente da santa Luzia. A santa Luzia... olhava para o atento teto da capela. A santa Luzia... levava os próprios olhos num cálice de ouro falso. A santa Luzia... uma guria vestida de guria. A santa Luzia... um vestido longo sem decote cobrindo até os pés. A santa Luzia... olhos azuis na tacinha como era normalmente o azul do oco antes do fim do mundo.
            Cansado, dor nas costas, o estrangeiro resolveu sair picando para fora. O calor era tudo, por ali. A luz muito forte. Muita poeira. A capoeira ia longe capoeira pedras arames retorcidos engrenagens perdidas. Os piás corriam atrás uns dos outros, se atirando pedras, bodocadas, pauladas. Era só o que queriam fazer e desfazer. Os maiores os enturmados, agarravam alguém e viviam dando cascudos pontapés rasteiras sardelinhas, torturando o prisioneiro.
            Cataguá olhou para o meio das nuvens avermelhadas. Olhou com um olho meio se fechando e o outro fechado. O sol era forte por trás das nuvens de terra. As nuvens vermelhas contaminavam os últimos penitentes do deserto.
            Quando Quipá olhou para trás... viu um moleque que o seguia seguia. Vinha traiçoeiramente em silêncio, cara de doente, um porrete na mão uma das pontas arrastando na poeira. Farejava seu rasto. Quipá estacou e o esperou e o encarou. O pivete também parou. Ficaram os dois parados, meditando, se olhando, se medindo. O pequeno bandido foi do humilde ao indiferente, passando pelo nervoso.
O cramulhãozinho desistiu, tossiu, virou as costas e se foi. O pixote baixou os olhos, olhou por pura necessidade, foi indo, olhando para trás e trotando, voltou a cabeça para olhar, arrastando o porrete no chão, foi andando meio de lado, o porrete riscando a poeira. Parecia um cachorro louco. Caminhava torto, olhando para os lados e para trás. Olhava sempre, precisava olhar outra vez.
            Quipá sentiu um amargo no fundo. Estava sempre com sede e fome.
- Uma perna e um braço a menos para dar de comer - remoeu.
Foi até a ex-padaria no delírio de escolher umas fatias de torta de chocolate. E parou no meio do caminho. Vento abrasado, calor debaixo de calor.
            Os moleques acocorados ao redor da fogueira provavam entre si quem era mais valente esticando a mão para as chamas. Todos encardidos de poeira vermelha. Uns gritavam e amaldiçoavam, outros choravam, outros ainda urravam tipo bicho.
            Quipá se sentou junto ao ex-ingazeiro, mesmo tronco encarvoado de ontem, um espeto apontando o oco nublado de vermelho e que não tinha sombra e que preferia virar pedra. Pois logo logo os moleques se espalharam, uma gritaria, e começaram uma guerra de pedradas, todos armados de funda.
            Anoitecia. Nem lua nem estrelas. O boitatá revoava baixo sobre o capoeirão. O lobisomem pulava fora das estacas de espantalho para virar assombração. O curupira enganava com os pés virados.
            - Assim eu não chego a dezembro - pensou alto o Cataguá.
            Demorou, mas ele acordou naquela manhã fedorenta e de muita luz insatisfeita. Era mais um dia no deserto vermelho. E sentiu certa dificuldade de se mexer e logo descobriu o porquê. Seu braço direito também havia sumido... Uma má notícia. O que era péssimo para os negócios, para os projetos, para o porvir, horrível para uma prática natural.
            - Que que é isso, meu! - gritou esse lamento solitário e abichornante.
            Quipá fez todo um exercício de contorcionismo para se erguer da esteira.
- É, estou sendo roubado na calada das noites. É para a leveza da alma - falou para quem quisesse ouvir, e bramiu.  
E só lhe restava uma perna na sua relação com o resto dos tempos. Tinha que se virar e se contorcer como um verme rebolante.
            Quipá se cortou? Cataguá cortou a si mesmo? Quipá cortou o Cataguá? E por que não acordava na madrugada se esvaindo e com dores? Como adivinhar o que acontecerá mais tarde?
            O desimportante viajante queria a luz do dia com ou sem nuvens vermelhas. Fora do barraco mais calor e sufoco. Não podia sequer se coçar. Uma dor no lugar da amputação; sensação de perda; vontade de se coçar; vexame perante os habitantes - que, aliás, quase não se viam pelo dia a dia da aldeia destroçada.
            Então, ele foi quicando preocupado com seu horizonte cinzento. Quicou até o tronco da sua árvore predileta ex-sapotaia. Antes de chegar chutou sem querer uma pedra solta do caminho. E caiu no chão poeirento com estas palavras:
            - Ai meu queixo!
            Conseguiu se sentar junto da caputuna queimada. Um grande e muito machucado esforço concentrado. O calor matava a pau. As nuvens vermelhas passeavam, faziam suas trapaças pelo oco. Os moleques corriam para cima e para baixo da rua poeirenta, atrás de uma lata vazia, chutando a droga junto com as pedras e paus, gritando palavrões, se empurrando. E o calor o fogo o incêndio.
Quipá então respirava oprimido. Um moleque veio farejar olhar e de pertinho. Quipá não reconheceu o pivete. Aí o culepe chegou mais e farejou o pé sobrado. Depois tentou roubar a única sandália de borracha. Foi um custo se dobrar e se desdobrar e enxotá-lo. Depois o doidinho foi embora olhando para os lados, para trás, torto, e lá adiante se sentou ainda na poeira, se coçando atrás da orelha direita, sempre espionando. Quipá cuidava com o rabo do olho. Mais tarde o pivete foi e sumiu.
            Cataguá sentiu um espinheiro de fome na barriga. Se ergueu com esforço, quicou até a ex-padaria. Tentou bater a porta lacrada. Voltou. Não tinha vontade de chorar. Era um desinfeliz, mas não tinha vontade de se lamuriar. Não podia tocar o mundo com as mãos, isso principalmente. O azar parecia uma prova com camisa de força. Estava todo podado.
            - Quero enterrar minha perna - falou pra ninguém.
            Após o que, Cataguá quicou foi picando para os lados da capela. Todo o dia, um dia todo, pela frente. Um dia era pouco, ou era muito. Viu os piás brigando de repartir o adversário ao meio, um de cada lado, cada um com um braço, cabo de guerra. A vítima teria de ter muita coragem, pois a brincadeira só seria interessante, engraçada, quando os ossos estalavam, as juntas estalavam. A vítima, para ser engraçada aos outros, teria que chorar, espernear, gritar e pedir por socorro, mil vezes por sos. E continuar xingando e pedindo clemência.
            Nas lajes da capela, Quipá deu de cara com um molequinho mal-encarado e mal-intencionado. O culepe olhou Cataguá com olhos famintos e maus e fixos e vermelhos de poeira. Quipá quicou rapidinho para o interior da capela. Detrás da porta ficou espiando, até que o pestinha desistiu e se mandou embora.
            Quipá fingiu que tinha algo a fazer rua abaixo. Foi até lá. Aí lembrou que poderia fingir a mesma coisa rua acima. Quicou até lá. Assim passou um tempo. Cansado de quicar para cá e para lá, voltou e se jogou numa laje da calçada da capela.
            Depois, o estrangeiro cochilou, quase dormiu. Uma pivetinha chegou e se sentou a sua frente. O viajante se incomodou. Saltitou como o saci até uma pedrinha solta por aí e fez de tudo para chutá-la na direção da guriazinha. Parecia joguinho de sapata, mas não era. E era difícil. Era questão muito séria, de segurança.
            E a guriazinha vinha, chegava mais perto, depois corria, voltava sempre curiosa, mostrava a língua seca. Assustada e curiosa. De repente, correu buscar umas pedras. O visitante ficou pensando. Aí a molequinha começou a fazer uma casinha de pedras rua de pedras bichos de pedra. E se distraía sozinha vez ou outra olhava o forasteiro e construía a casinha.
            Os pixotes, lá no meio do terrão da pracinha, esticaram tanto o menorzinho da turma, tentaram tanto reparti-lo ao meio, que parecia que o desinfeliz já estava devidamente esbagaçado: assim como um espantalho, assim como um asterisco, como um crucificado. Os braços da vítima já eram maiores, sem dúvida. Alguns ossos e juntas já estavam comprometidos. Andando parecia um ex-macaco-prego.
            Quipá tinha a perna cansada, o pé cansado de ficar quicando por aí sobre um chão quente e rachado. Olhou o caco da própria sombra... Era uma figura de peça de quebra-cabeça. Com certeza menos alma para dar conta no juízo final. Um boneco em desconstrução? Um retalho, um caco, uma lasca.
            Assim ele viu nos olhos da pivete: a guria quase mais não tinha receio. Logo de supetão de repente teria coragem de atacar.  Bastaria um mais ousado para que os outros também viessem com tudo. Aí então não sobraria nada pra ser enterrado.
            Assim assim os bandidinhos maiorzinhos largaram a primeira vítima e agarraram a seguinte. A primeira vítima não tinha mais forças nos braços sendo que as mãos chegavam já aos tornozelos. Era um boneco desengonçado, um piá de borracha, um ex-macaco-barrigudo destroncado.
            Quipá decidiu quicar até ali, até lá... Olhou para trás - e para isso dar certo fez uma manobra arriscadíssima, quase perdendo o equilíbrio - e constatou, já metade incomodado, outra metade já acostumado, até envergonhado, que um moleque o seguia e o espreitava tipo cachorro louco.
            Cataguá tinha muita saudade de fazer muitas coisas com as mãos... Mas quede os braços e as mãos? Cataguá fora um homem prático, antes de perder os braços e as mãos, perder a perna. Agora então pateticamente não podia mais se coçar.
            Anoitecia sem ruído algum na vila Santa Luzia. A luz empanada do sol decaiu e a sombra escorregou seu peso pelas montanhas não tão altas abaixo e veio se esgueirando tomando conta. E só faltava o quê? E lobisomem uivar nos tucurus vazios. E martinta-pereira piar no meio do capoeirão.
            - Acho que não vou chegar a dezembro, é - Cataguá sentenciou.
            Amanheceu. Quipá abriu os olhos cheios entupidos de poeira. Fez uma ginástica para ter certeza de estar no limbo. Era o que nem esperava: estava um toco. Só lhe restava o busto: a última perna já se fora. Todo desmembrado. E fazer o quê?
- Até este ponto posso repensar as coisas, e depois? - falou incomodadíssimo.
            Cataguá se cortou? Quipá cortou a si mesmo? Cataguá cortou o Quipá? E toda noite não via o ladrão, por quê? Como adivinhar o que acontecerá mais tarde?
            Dessa desfiguração, o estrangeiro via o mundo por baixo e rasteiro, a poucos centímetros do chão, rastejando como fizeram as serpentes os caramujos as minhocas as lesmas. Teria que rastejar como uma sombra.
- Quero enterrar minhas partes - agora se preocupou.
Pronto, Quipá Cataguá tinha muita dó de si mesmo. E nem ia a lugar algum todo constrangido de ideias horríveis horripilantes horrorosas destopadas.
            - Ai meu queixo!
            Como um caracol, e sem a casa nas costas, Quipá foi se esgueirando para fora da oca. Demorou muito para rolar dois metros, e não tinha nem a prática. Ralou o peito, a barriga e o queixo. Resolveu não ir à pracinha. Do outro lado da rua era muito distante. Rolou porta afora da palhoça e ficou por aí. Rolou como um pneu furado. Rolou como um pau de massa. Erguia a cabeça de vez em quando, e espiava o entorno. Como já faziam as sucuriús as cotiaras as jararacas-da-seca. Depois logo cansou de se ralar e se jogou para trás, deitou de costas, olhou as nuvens de pó, fechou também os olhos.
- Se um caracol, ou uma lesma, podia e não se importava e não se lastimava, eu também posso e eu também não vou arrancar meus cabelos.
            Ficou ali deitado. Respirando demorado no calor como faziam os peixes fora da água. Cansado de olhar o oco nublado de vermelho. Quando cansava de um lado se virava, se revirava. Cansado de olhar o chão poeirento se virava, se revirava. Era muito incômodo mesmo, tudo disforme, tudo difícil. Era quase quase uma pedra, um toco, um pedaço de pau largado no chão.
            O oco dançava conforme os ventos, terroso e mormacento. Era um silêncio. Quase um grande engano universal. Ali onde estava atirado, o visitante ouvia muito pouco do quase nada da aldeia. E não via nada também. O mundo rasteiro era sem sorte. O horizonte a dois passos ou dois metros ou dez minutos. Nariz cheio de pó. E muitos calos no queixo.
            Depois chegou um pivete que parou na sua frente. Carregava um pedaço de pau na mão direita. O visitante mostrou a língua seca... Talvez isso tenha sido um erro. Tanto que isso não abalou o moral do trombadinha.
E o culepe até se sentiu mais confiado, chegou a cuspir de lado, coçou o meio da perna. Então, o guri sentou no chão para olhar o freguês demoradamente fixamente sono-lenta-mente. E o estrangeiro cuidou e curtiu umas dúvidas.
Uma vez ou outra o moleque bocejava. Parecia ter muita preguiça. Aí o pivete se deitou como um cachorro, a cabeça sobre as mãos, as pernas balançando. Depois o piá fingiu olhar para o outro lado. E logo quase dormia ali na espera na espia. Pouco mais reabriu os olhinhos quase fechados. E o culepe não tinha pressa.
            Quipá Cataguá, estirado aí como um pedaço de galho seco de batinga, uma pedra solta, um bagaço de coisa. Não tinha sono, queria dormir. Uma falta do que fazer. Uma alma pequena. E já-já chegaria a noite.
            - Não, não vou chegar a dezembro - concluiu.