Mostrando postagens com marcador pedra. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador pedra. Mostrar todas as postagens

domingo, 19 de janeiro de 2020

Minhas Tardes com o Avô (juvenil)




Primeira Parte

            Aconteceu há dois anos. Não, aconteceu há cinco. Sete anos? Eu penso em dois anos. Com certeza confirmo que foram dez doze.
            Um dia comum e olhe lá. Eram horas da tarde, o céu estava claríssimo, o mundo rondava normalmente como um pião espacial.
            Uma tarde: era tarde de mais ou de menos. A esperança, e a esperança metida a pensar o futuro. Então, um dia como outro qualquer.
            Por isso mesmo a menina Lilás, voz bonita e suave como música suave, apareceu ali no alto da pitangueira, no alto da guabirobeira, no alto da jabuticabeira, no alto do araçazeiro. Agarrada a um galho, temerariamente entre os galhos envergados, tocava para a boca uma e duas e três, etc, frutas, frutinhas.
Pitangueira não cresce do dia para a noite, nem muito; a sete-capotes praticamente é muito difícil de encontrar; e a azedinha tem um gosto agridoce de provocar lágrimas. Passarinho não vive sem, coleirinha, canarinho-da-terra, sabiá-do-campo, pintassilgo, corruíra, cara-dourada, verdelhão, indaié, etc, passarinhos, pássaros, aves. Essas árvores - se demoram! - demoram para crescer.
E Lilás ali, pendurada nos galhos feito bola de cor de enfeitar árvores de natal, e mandando uma duas três, etc, frutos, frutinhas para o próprio bico.
            Lilás amava e adorava espetáculos de águas dançantes, celulares pequenos, presente de amigo secreto, amigo secreto, presentes, desenhar luas no caderno, colecionar sapos de fantasia, procurar cidades na internet. E agora, o que as gentes vão pensar?
Então, a menininha Lilás teve uma dúvida, algumas dúvidas, ali no meio das suas ideias matagais, chacarais, sitioais. E disse mesmo de si consigo:
- Quem fez isso tudo? Quem colocou essas árvores no mundo? As pedras têm coração? As árvores falam, riem e se interessam pelo futuro? Os passarinhos nascem no meio do rio?
Aí, ela saltou da pitangueira, saltou da quaresmeira, saltou do butiazeiro, saltou do araçazeiro, saltou da goiabeira-do-mato, saltou e saiu correndo e correu perguntar ao avô. A curiosidade muito urgente.
Todas as tardes de sempre, a menina Lilás visitava o avô paterno. Eram as tardes de verão, verão. O horário pouco variava. Moravam perto, logo ali, coisa de um quarteirão, subindo o morro.
A menina foi achar o avô ali na área da casa. E o saudou com beijos na face, pete! pete!... As palavras saltando na frente do sem fôlego para respirar. O avô, octogenário, tomava seu chimarrão acomodado na cadeira de balanço, olhando o clima e a temperatura e o céu lá pelos morros. Apreciando o quintal. Olhando o morro lá longe. Acompanhando o crescimento espalhado e disforme do bairro São Cristóvão. Lilás falou com muita pressa:
            - Vô, que dúvida!
            - Hum... Que foi?
            - Quem criou tudo isso: as árvores, as aves, as estrelas, os mares, as galáxias, os ventos, etc?
            O avô entendeu tudo, é. As respostas teriam que ser rápidas e precisas. Mas que respostas? O avô pensou rápido. O vento tocava, empurrava e vergava mais ou menos as árvores do quintal. O Avô se defendeu:
            - Tanta pergunta? Vou me afogar, blublugue!...
            O vento parecia vir de longe. O vento vinha realmente de longe, pra lá da montanha Anhangava na serra da Baitaca. E podia já vir, com nuvens ou sem nuvens, modificar tudo. Um carancho se empoleirou no palanque da cerca de ripinhas pintadas de branco. O avô olhava um lugar à frente, um horizonte longo e sem presença. O avô foi narrando:
- Deus é mesmo um Superpai difícil, minha menina Lilás. Ele e seu mundo. Este mundo: sim e não. E tudo, as árvores, os rios, as estrelas, as montanhas, os detalhes e o futuro. Deus, o Hiperpai, é um mistério, é um enigma, é um segredo. Ninguém O localiza, e nem O encontra assim no mais, nem mesmo assim tão fácil, pensa o quê! E nem te digo que Deus existe e nem te digo que Deus fez tudo o que se vê por aí. É ou não é uma maravilha?!
            - Mas todo mundo elogia Deus, o Todo-Poderoso... Ele vive onde? Ele gosta de mim e de nós e de todo o mundo, praticamente de tudo que se vê?
            - Praticamente óbvio. Não sei. As perguntas são interessantes, as respostas que aguardem. Alá, porém, é mais sábio.
            Lilás via coisas menores que ela, maiores que ela, mais profundas que ela. E via outras coisas que não era bom dizer senão perdia a graça. O jabuti De Flecha patinava na grama, ali entre morder e pegar umas línguas-de-vaca, uns cabinhos de grama verde, umas guaxumas. O fura-bolo da menina enrolava, ou tentava enrolar, uma mecha de cabelos. A Lilás bebeu um gole de limonada e voltou a atacar:
            - Deus vive viajando? Vive entre todas as coisas? É ave? É uma árvore? Mora na ilha da Galheta? Pega um cometa e some para o fim do mundo, ou para o começo do mundo, ainda quem sabe para a estrela Aldebarã?
- Deus teve sonhos. Daí pra frente Deus teve ideias e planos. Agora, Deus tem futuro. Os homens têm sonhos e palavras ou esperança e futuro. Pois, Deus já existia e o universo começou num dia qualquer.
- Que história é essa de Deus e todo o mundo?
- Deus é todo o mundo. Uns gostam de chamá-lo de Deus ou Alá, outros de Big-Bang, outros de Destino, outros de Acaso, outros de Tupã, outros mais de Nhanderuvuçu. São muitos mistérios que envolvem o Megapai e o universo. Às vezes, Ele fica por aqui mesmo na terra, disfarçado. Se escondendo em qualquer coisa, camuflado. Um piscar, Ele vira irapuá no meio do enxame. Vira uma sardinha no cardume de sardinhas. Vira formiga subindo em árvore na floresta. Vira pedra no pedregulho. E assim por diante. E a gente se enche de sustos, essa é que é a pura realidade, e nada. Onde a gente menos espera lá está Deus-Pai, e a gente nem se dá conta, nem se dá por achado, nem se dá por vencido. É, Deus vive na terra dos papagaios; na terra das pacas; na terra das águas dos cavalos-marinhos; na terra das castanheiras-do-pará; na terra das hipérboles. É ou não é uma maravilha?!
            - Então, se pode dizer que Deus é tudo e cada coisa? Que as árvores gostam do verde? O céu do azul? O mar do azul e do verde? Que as estrelas são fogueiras de São João?
            - O que conta, o que importa, o que vale mesmo é a esperança e o futuro. Futuro tem começo e não tem fim; Esperança não tem começo e não tem fim.
            O burro de nome Tapiti, lerdo, solto, manso, pelo marrom, acabou de zurrar lá perto da porteira, zuoooh!... Zurrou de fome, de sede, de preguiça? Lilás perguntou ao avô:
            - Por que Tapiti ri desse jeito, vô?
            - Porque tem pena de mim, pena de ti, etc.
            - Pena?
            O avô conversava, seguia tomando seu chima, olhava o céu sem ver, olhava o horizonte, falava e dizia, às vezes erguia o braço para um gesto. Não oferecia porque a água estava muito quente para o bico da menina. O papagaio Loló, meio de lado no peitoril da janela que dava para a varanda, degustava uma bergamota ou laranja ou pedaço de melão. O avô, como se visse nuvem passar a qualquer hora e toda hora, continuou a desenrolar o carretel:
            - Quer saber o que mais, Lilás? Pois é. Deus colocou três filhos e uma filha, assim sem escalas e diretamente, aqui no mundo: que era para testá-los, obrigá-los a trabalhar, fazê-los se interessar pelos estudos, prendê-los ao mundo e ao futuro da humanidade, ensiná-los a viver e a morrer. Tinham doze anos, dois a mais que você. Não sabiam ou não tinham condições de fazer milagres. Jesus era cabeludo, usava camisolão e turbante latino, acinzentados, de época; Curupira vestido de plumas e penas das aves do mato e do pantanal; Buda cabelo raspado e camisolão com turbante, amarelos, de época; e a celestiosa Sheherazade cabelo longo e ruivo amarrado com fita azul ou amarela, e vestido longo e verde com fita azul na cintura, e sandálias de borracha. Por enquanto.
            A Lilás se interessou e perguntou. As sombras do arvoredo manchavam, com desenhos esquisitos e bonitos, o terreiro ensolarado da chacrinha do vovô. O galo Coronel e família, pelo terreiro, conversavam coisas de família talvez, coisas do clima ou coisas das precisões diárias. A menina Lilás, indagou:
            - Por que Deus queria testar seus filhos? Que que o mundo tem a ver com esses testes? Como Deus teve quatro filhos se não teve esposa, e não tem, não terá? Onde fica o céu?
            - Simples. Deus queria saber se podia contar com seus filhos para o futuro. Para entregar-lhes os astros e as estrelas, o mar, os detalhes e os bichos da terra. Deus queria pretender descansar na aposentadoria; ainda quer, eu acho.
            O avô tomava o seu mate amargo porque achava bom. O jabuti De Flecha cuidava de pastar seu pasto de grama rala do jardim. A menina mordia sua fatia de pão barrada com doce de abóbora ou com marmelada de uva ou com chimia de caju. O sol passeava de guarda-sol no dia azul, pela tarde. Um ferreirinho, ou uma ferreirinha, batia ferrinhos lá no alto, lá mesmo nas grimpas do pinheiro-do-paraná.  Loló telefonava ao amigo ou amiga de Tefé: “Oi! Aqui é de Senhora dos Remédios, é. Em Senhora dos Remédios está muito quente e quentíssimo.” A Lilás voltou à carga, esmolando:
            - Como moravam os três meninos e a menina? Viviam suspensos nas nuvens? Quem sabe numa garrafa de pirata? Um oco de jequitibá? Desenhados nos livros sagrados? Estátuas de praças públicas? Na imaginação do povo?
            - Moravam numa tenda feita de taquaras-pocas, ou de folhas de palmeira babaçu, ou ainda de capim sapé, santa-fé. Várias taquaras embiradas, várias folhas trançadas, feixes de capim amarrados. No meio do deserto poeirento e pedregulhento. No meio de pedras e areia e mais nada. Num lugar de pouco ou nenhum trânsito. Num lugar sem nenhum valor imobiliário. De muito calor no verão e muito frio no inverno e muita chuva no verão e no inverno e ventos que corriam dos lados vindo de todos os cantos. Um lugar sem nada por perto.
            Por isso mesmo, já no sítio do avô da menina, o céu era uma tampa de azul com manchas de nuvens brancas. Os passarinhos corriam, os insetos fugiam. Os variados insetos faziam fosquinhas para o tempo.
            - O que é esperança no futuro, vovô? Eu posso ter isso aí?
            - Futuro é uma estrada assim ou assado, longa ou curta, depende. Esperança é aquilo que se procura todo santo dia atrás do morro, atrás da porta, atrás das horas, atrás da noite, aquilo tudo que se procura e não se alcança, talvez. Assim quer Alá. É ou não é uma maravilha?!
            - Não entendi nada. Não entendo de nada, nem do mundo, nem de esperança, nem de futuro, nem de mim, nem de Deus, nem da planta tamatarana.
            Lilás ficou pensando. Era difícil pensar naquilo tudo assim de uma vez. As folhas das árvores do quintal faziam frufru, flaflá, farfalhá... Um par de alados - o joão-de-barro e a maria-de-barro - piavam, riam e brincavam por aí. Um pouco distante da varanda, para os lados do paiol, a vaca malhada Vaquinha também mugia, falava, ruminava, tossia, conversava. Trocava ideias quem sabe com o compadre cavalinho baio Petiço, senhor de crinas escorridas pelo pescoço de tábua.
O vento remexia as copas das árvores, todas as plantas, e espantava as poucas nuvens. O planeta Terra girava e ninguém percebia. E todos, então, o deixavam girar em paz. E tudo vai e vem, tudo continua até que acabe, até que haja paciência.
Avô continuou:
            - Então. Um dia Curupira acordou cedo, o céu amanhecia, o dia já cheio de sol e andorinhas, tenho certeza. Curupira pegou e foi até a montanha predileta e perguntou ao Deus-Pai: “Tupã, eu posso fazer um rio aqui mesmo, e que desça montanha abaixo até alagar o vale, com cascata cartão-postal e bonita e coisa e tal?” Deus-Pai, de imediato, lascou no céu límpido uma rajada de raios com trovões. Sem demora disse ainda, numa voz teatral: “Claro que sim, meu filho predileto”. E Deus-Pai continuou falando: “Você ergue suas mãos pro alto da nuvem, esta mesma onde me escondo neste momento e feche os olhos e espere só um instantinho”. E o menino Curupira falou tá falado: “Escuto e obedeço, meu grande Pai”. Curupira agiu obediente. Então, quando apontava os braços com as mãos para o alto da nuvem, veio um raio tão forte, tão imprevisível, tão potente que explodiu e sapecou com o menino Curupira.
            A menina Lilás interrompeu a narrativa do avô para um aparte. O dia era de uma quinta-feira à tarde. Avô chuchurreava o mate. O mundo parecia de brinquedo. Loló telefonava para os amigos de Bagé: “Oi! Aqui é de Criciúma, é. Em Criciúma está muito quente e quentíssimo!” A menina questionou:
            - Ele morreu? O menino Curupira, esturricou? Virou fumacinha azul?
            - Não. Os filhos prediletos de Deus são eternos, imortais. Não morreu, mas ficou todo sapecado e com os pés virados para trás. Ficou sabendo, ficou mais esperto. E tossindo tossindo, cofe! cofe!...
            - Mas por Alá! Por que Deus-Pai fez isso, meu Deus? Tupã não tem dó do seu filho magnífico?
            - Sabe-se lá! Ou então era um teste. E depois não foi uma derrota, foi um aprendizado. Curupira levou como aperfeiçoamento. Estava escrito: Maktub.
            - E a coisa passou dali? E Deus ficou brigado com Curupira? E Curupira ficou emburrado com o poderosíssimo Pai?
            - Muito mais do que isso. Mas também nada de muito extraordinário. Então, aí Curupira foi, desceu a montanha e foi para casa. Todo sapecado, envergonhado, cabisbaixo, tossindo tossindo o cofe!... lá dele. Em casa com os irmãos quase não teve coragem de se abrir. Depois pegou e foi saiu novamente foi visitar o padrinho Jurupari. Chegando na palhoça do padrinho, viu o padrinho na varanda, mateando. Curupira chegou, sentou num banquinho e não disse água. De vez em quando tossia tossia, cofe! cofe!... O padrinho Jurupari também ficou na dele, mateando, olhando a paisagem, olhando sem ver. Ficaram assim um tempão, ficaram assim em silêncio.
            Lilás não teve paciência e interagiu. As horas e os números do tempo corriam pelo mundo com o vento ou com a brisa. A laranjeira de pomos vermelhos esticava sua sombrinha junto dos brincos-de-princesa. A menina queria mais:
            - Jurupari, o padrinho dele, tinha ou não esposa? Não tinha filhos? Tinha o quê? Era um profeta de barbas longas e brancas? Um profeta de maracá, choque! choque!...
            - Jurupari tinha uma idade avançada, naquela ocasião. Por volta de 375 anos. E muitos tataranetos e muitas tataranetas...
            - 375 anos de idade?! Mais que uma árvore? Quase mais que uma pedra?
            - Talvez 450. Mas continuo. Jurupari finalmente perguntou a Curupira se ele queria um chima. Curupira disse que talvez. Então, matearam um tempão. Até que Curupira resolveu falar. Falou a história do milagre que queria fazer e que poderia ter feito, e que dera no logro que dera quando um raio veio lhe cair na cabeça. Jurupari só fez, por enquanto, olhar o afilhado. Olhou um pouco o afilhado. Curupira ficou aguardando a boa vontade do padrinho. Jurupari disse, falando após meia hora de silêncio: “Fique tranquilo, Curupira. Alá-Deus-Tupã só está te preparando para o futuro. É um longo aprendizado de erros. Um dia, para o fim e o começo e o meio de tudo, meu afilhado, você mesmo fará seus próprios milagres”.  
            O avô de Lilás tomava o chimarrão, e todo preparado para ver a tarde passear já passeando a sua frente. As andorinhas corriam rasantes entre telhados e árvores e tarde. Os bem-te-vis chamando o quê. O galo Coronel, vermelho de crista vermelha e cauda em preto, cuidava da família, vigiando do degrau da escada do alpendre. Um curió escondido no araçá-congonha chamava a esposa. Vovô prosseguiu:
            - Um dia a voz de Deus-Pai chegou para Jesus e mandou: “Hei!, meu filho. Pegue este carreto aí de vocês, encha-o de pedras e leve-o para o fundo do sertão ou grotão ou curimatá”. Jesus se admirou: “Eu, meu Deus-Pai? Por que logo eu? Não entendo. O deserto já não tem pedras soltas o suficiente?” Deus retrucou lá de cima escondido detrás da nuvem e numa voz de mando: “Pois estou lhe mandando! Vá, obedeça e pronto!” Assim quis Alá. É ou não é uma maravilha?!
            - E Jesus então foi, é? Não tinha outro jeito?
            - Jesus pegou o carreto, encheu de pedras e rumou para o deserto escaldante. Assim como um burrego puxando uma carroça para o deserto de areia fofa e pedras soltas. E você sabe, Lilás, no deserto não tem sopa. Que nada. O deserto não tem outra coisa que areia e pedra solta. Umas estradinhas ruins pacas para passear de carrinho carregado de pedras. Lá o dia é um forno, uma fornalha, e a noite uma geladeira. Não tem água gelada ou sorveterias para uma paradinha. Nada. Não tem chocolate quente, café com salgadinhos. Nada. Sem contar que quando venta venta muito forte, venta tempestade de poeira que modifica a paisagem e você não consegue abrir os olhos, e você se perde.
            Então, a menina lembrou de perguntar uma coisa. Enquanto isso, o Loló telefonava para a amiga de Sabará: “Oi! Aqui é de Piracicaba, é. Em Piracicaba está muito quente e quentíssimo.” Aí, a guriazinha cantou:
            - Jesus já tinha saudade de sair dali? A chapa estava queimando?
            - Que esperança, que futuro...
            - Que cor tem a esperança, vô? Para onde o próprio futuro se atira?
            - Na maré baixa a esperança é verde, na maré alta é azul. E o futuro, e o próprio futuro se apincha para a poeira das estrelas.
            - E é feita de quê? E é feito de quê? Posso esperar? Posso alcançar?
            - A esperança é feita de diamante: pra não morrer nunca nunca. O futuro é feito de vento: vento que vai levando o tempo levando o tempo. Ou vice-versa.
            Lilás lembrou que nunca vira o avô comer pitangas, nunca vira o avô saborear araçás-do-mato, nunca vira o avô se acercar de uma jabuticabeira. Pensou em oferecer. A Jandaia, cadelinha sempre contente, língua de fora, voltava de uma aventura não se sabia onde. Jandaia veio e farejou a menina, se deitou nos pés do avô. O Coronel cantou fora de hora? O Coronel cantou dentro da tarde? O Coronel cantou ali; e um vizinho acolá, respondeu. Avô continuou, acrescentando:
            - Já no segundo ou terceiro dia, Jesus estava muito mal. O deserto escaldante prejudicava muito as bolhas dos pés, das mãos e dos lábios. Dor de cabeça. A luz feria os olhos. Tudo reverberava e resplandecia cegando o sobrevivente. Que nada. Nenhuma sombra para remédio. Nenhum oásis para se refrescar. Jesus não precisava de miragens. Jesus precisava de um milagre.
            - O menino Jesus não sabia fazer milagres? Jesus e seus irmãos e sua irmã já não nasceram sabendo?
            - Jesus queria fazer milagres, mas ainda não podia, não era tempo. O calor muito insuportável do deserto era de esquentar e de ferver e de derreter. Jesus fez de tudo para não se deixar abater, não dormir, não se entregar. Ele até se emocionou.
            - Não tinha como? Não tinha uma umazinha de saída?
            - Jesus estava muito extenuado pelo mormaço. Jesus não tinha capacidade para sair da enrascada sozinho. E Jesus tinha que se virar sozinho.
            - Jesus nunca mais saiu do deserto?
            - O menino Jesus pegou as poucas forças que lhe restavam e voltou pra casa de arrasto. Sozinho, aborrecido, sonolento e assustado. Deixou para lá a carguinha de pedras. Muito magoado com a sorte. Os joelhos e os cotovelos contundidos de tanto cair no chão.
            - Deus tinha culpa? Deus Todo-Poderoso ia falar com Jesus?
            - Jesus achou naquela hora que Deus procurava castigá-lo ou dar-lhe uma lição das boas. Só não sabia causo de que e para quê. Jesus ficou com febre alta, delirou, falou coisas estranhas e abstratas. Os irmãos tinham que cuidar para que ele não caísse da rede de dormir.
***

            O dia amanheceu radioso, depois choveu, mais à tarde amainou. Um avião de carga passou deixando rasto de fumaça branca.
            A menina Lilás subiu o morrinho e logo chegou na varanda no alpendre na área da casa do avô. Era fácil. De boné e camisa de listras e bermuda cheia de bolsos. Lá pelas dezesseis horas. Cabelo vermelho longo sobrando do boné esverdeado, camisa de faixas horizontais em azul e branco e bermuda xadrez preta com verde.
             No céu, ali perto, ainda nuvens parando para comprar, nuvens comendo pipocas doces salgadinhos guaranás, nuvens viajando de óculos escuros, nuvens contando as novidades cochichando umas com as outras. Brancas nuvens.
            O sol isso assim esgotando a tarde.
            O par de pintassilgos veio rir e riu. Riram os dois e partiram.
            A guria achava engraçado quando ouvia o avô sorver o mate e fazer aquele chiado de estar no fim, tipo assim..., esfrrrommme!... Este chiado, provocado pelo ar que entra na bomba do mate, quando a água acaba, que era engraçado. E também havia outras coisas engraçadas no mundo. Uns alguns tico-ticos campeando sementinhas, quirerinhas, migalhinhas ali pelo chão do pátio. A família do Coronel compartilhando com tico-ticos e coleirinhas, sem crise. Nuvem passava em silêncio para o sul. O avô enchia a cuia e ia dizendo:
            - Os quatro irmãos tinham, cada qual, seu padrinho predileto, já se sabe. Cada padrinho tinha o afilhado predileto, também. Mas, enfim. Curupira sempre procurava o padrinho Jurupari quando tinha lá suas dúvidas. Buda tinha o padrinho Brama. Jesus o padrinho Confúcio. E a verdosa Sheherazade com a madrinha Iara. Quando não estavam em casa, era porque estavam com os padrinhos e com a madrinha. Se não estavam em casa, nem com os padrinhos ou com a madrinha, estariam onde não sei. É ou não é uma maravilha?!
            Lilás perguntou novamente. Jandaia bocejou, se alongando toda como uma cadela de borracha, abrindo bem a boca e mostrando todos os dentes. Passou a língua nos beiços e procurou um que fazer. Parece que foi ver ali ali alguma coisa que pensou. O famoso e trololoso Loló telefonava aos amigos de Ubiratã: “Oi! Aqui é de Verdejante, é. Em Verdejante está muito quente e quentíssimo.” A menina observou outras questões que talvez o avô não pudesse responder:
            - Os garotos e a garota trabalhavam de artesãos e de artesã? Teriam vidas secretas, fora dos testes? Seriam agentes invisíveis? Levariam vida de pessoas comuns? Eram invisíveis disfarçados de humanos?
            - Calma, ainda é cedo. Então, Curupira gostava de ir pra montanha. Seu proceder predileto era pegar uma merenda, um cantil de água e subir a montanha. Só voltava, só descia de lá, quando enjoava. Jesus tinha o rio, o rio sagrado, onde sempre ia pescar. Fingia pescar, não gostava de ver o peixe sofrer. Caminhava sobre as águas. Não pescava nada nada. Nem queria pescar.
            - Não queria pescar? Era vegetariano.
            - Está visto que era isso. Ficava logo amigo dos peixes. Era amigo de tudo. Assim como os outros irmãos e a irmã.
            - Eu gosto de sapos, sabe, vô?! - confessou a Lilás. Tenho sapos de verde, de amarelo, de duas cores, de tricolores, de borracha, de isopor, desenhados, esculpidos. Só não tenho de verdade e ao vivo porque acho que não é justo.
            - Pois quem não gosta de bicho também não gosta de nada mais. E a camomilosa Sheherazade adorava subir no telhado da palhoça onde viviam, e ficava ali, ficava ali se fingindo de passarinho, cantando como um ferreirinho, se achando passarinho, se achando coruja-do-mato. O Buda já gostava de ficar na sombra do umbu centenário. O momento ideal dele era relaxar debaixo da árvore depois do almoço. Cochilava com sorriso beatífico, todo beatificado.
            - O que é a felicidade, vô?
            - Hum... É uma abelha que traz o mel de muito longe no espaço. Imagine uma abelha buscar o mel do outro lado da montanha. Terá dois dias, no máximo dois dias, para essa operação de viver e trabalhar. Ninguém tem nada com isso se acaso a abelha erre o caminho. Assim quis Tupã. É ou não é uma maravilha?!
            O avô adorava aquele momento, todas as tardes, ali observando o clima. Numa mão a cuia. A outra mão segurando um joelho, talvez. Um cotovelo no braço da cadeira de balanço. O avô assobiava. Silenciava para ver um tico-tico mais curioso chegar quase muito perto. Parava de assobiar e continuava a prosa. De Flecha ensinava o esperar, Jandaia ensinava o ouvir, uma corruíra ensinava o curiosar. Vinha daí e de tudo um bafo de forno assando o arvoredo verde. O prático Loló telefonava para os camaradas de Óbidos: “Oi! Aqui é de Sorriso, é. Em Sorriso está muito quente e quentíssimo.” Vovô, promoveu:
            - Um dia Jesus pegou e foi caminhando pela praia ao lado do leito do seu rio predileto. Pelo rio, pelas margens, curucuru, jaburu, capivara, colhereiro, garça-branca, saracura, preá, saíra-ouro, jacaré-do-papo-amarelo, rendeira, ratão-do-banhado.
            - Aqui no Brasil, vô? Seria o rio Tucumandera? Seria o rio Amapá Grande? Não seria o rio Purus? Ou talvez o rio Branco? Quem sabe o rio Trombetas?
            - Acho que sim. Não me lembro bem. Mas poderia ser o rio São Francisco, o rio Turvo, o rio Uruguai, o rio Solimões ou o rio Madeira. Então, Jesus andou com as mãos às costas. Pensando com as nuvens, como quase sempre tinha a mania. Foi indo pela praia fluvial. Demorou um tanto. Caminhou um bom trecho pela areia, pelo cascalho, pelos gravatás. Uma hora se assustou e não sabia mais se queria voltar ou continuar. Olhou o sol e decidiu continuar. Aí, encontrou um santo.
            - Seria o santo São Cristóvão? O santo São Francisco de Assis? O santo São Sebastião? Ou uma santa, a Santa Luzia?
            - Este santo escrevia na areia. Está claro, minha querida, que era o beato Anchieta. Mas Jesus não sabia. Pelo menos naquele dia, naquela hora. E nem se lembrou de perguntar se o futuro santo era santo ou beato.
            - Que oportunidade e tanto.
            - É que foi tudo muito rápido. Jesus viu o beato escrevendo e foi logo indagando, curioso, antes de qualquer coisa: “Que o senhor está escrevendo aí, seu padre?” O beato José Anchieta respondeu logo: “Um extenso poema para elogiar Nossa Senhora”. Jesus perguntou outra coisa: “Quem é essa senhora Nossa Senhora?” O padre jesuíta beato respondeu, de uma vez só: “É a mãe dos meninos divinos e da menina divina”.
            - Ora! E Jesus disse o quê, vovô? Jesus engoliu em seco?
            - Foi muita surpresa para Jesus. Foi tanta a surpresa que Jesus se assustou muito. Jesus tonteou na hora mesmo. Ficou pronto para pedir socorro, perdido perdidinho, sem saber como fazer, o que fazer, onde pôr as mãos e o nariz. E saiu correndo. Chegou em casa correndo, entrou em casa correndo, entrou em casa correndo e com a surpresa nos olhos abertos. Chegou em casa e se sentou no banquinho perto da porta já com o coração saltando pela boca. Estava apavorado e não era por menos.
            - Jesus nunca tinha lembrado da própria mãe? Não sabia que tinha uma mãe tão generosa? Não sabia que tinha quase uma família padrão?
            - Desconfiava, assim como também os outros seus irmãos. Desconfiava, mas não tinha certeza. Não tinha certeza e tinha medo de perguntar. Então, você vê, Lilás. Agora ele passou a ter uma luz. Imagine o susto.
            - Se fosse eu... ora, eu não teria mais sossego o dia todo e a noite inteira.
            - Os irmãos também ficaram assustados e pensativos. Um tentava consolar o outro, mas também estavam pensando a mesma coisa. Eles não sabiam de nada. Os quatro não entendiam o porquê de não morarem com a mãe.
            O avô assobiou foi um verso repetido de uma canção. Um grande pinheiro-do-paraná, lá para os lados do morro, pegava o seu solzinho nos ossos. Jandaia foi até ali fazer só ela sabia o quê. Foi, latiu com calma e ficou. O Coronel olhou para o latido e ficou aguardando o quê. O avô prosseguiu:
            - No outro dia Jesus foi falar com seu padrinho Confúcio, lá na mata de taquaras, taquaral. Demorou perto de dois dias de caminhada para chegar no capãozinho. Chegou e já foi se queixando: “Padrinho Confúcio, eu descobri que tenho uma mãe, e não sei onde nem como. Eu descobri por acaso, agora não sei o que fazer”. Então, o padrinho Confúcio ficou em silêncio. Nada disse nada. Não dizia uma palavra. Aliás, o padrinho Confúcio, padrinho predileto de Jesus, havia feito greve de silêncio há mais de quinhentos anos. Cumprira até ali e cumpriria até sempre.
            - Como poderia, então, dar conselhos a Jesus? - indagou a preocupadíssima menina.
            - Bem... era difícil. Se era. No começo foi mesmo difícil. Depois, Jesus se acostumou e até adorou o jeito silencioso do padrinho.
            Lilás reparou que o vento passava agora mais carregadinho e mexia um tanto mais com as folhas das árvores ali presentes. Um araçá-da-anta conversava com uma guajuvira. Borboletas, poucas e boas borboletas, voando baixo entre os galhos dessas plantas. Outras libélulas quase transparentes. O avô prosseguiu por conta própria:
            - Buda estava naquele certo dia todo sossegado caído lá debaixo do seu umbu secular. Assim, Deus-Pai o encontrou. Deus lhe disse, e numa voz retumbante: “Buda, meu filho, quero que você cate por aí tudo que você puder de lenha e traga aqui e faça um monte com ela”. Buda achou estranha aquela ideia fora de hora e perguntou, então: “Mas por quê, Deus-Pai?” Deus lhe disse, um pouco mais bem explicado, com a voz por dentro da nuvem: “Vá e junte a lenha, faça o monte de lenha e taque fogo”. Buda não esperou mais, pegou e foi.
            - Que Deus queria com tanta urgência, com tanta lenha?
            - Devia de ser mais uma das lições. E acho mesmo que era, porque seis ou oito horas depois, quando Buda terminava de catar toda a lenha na redondeza, Deus voltou lá detrás na nuvem e disse: “Buda, filho querido, agora taque fogo e fique por aí mesmo olhando”. Buda botou fogo e ficou perto, olhando tudo queimar. Levou mesmo umas cinco horas até a fogueira virar um brasedo vermelhinho. Então, Deus-Pai retornou, invisível, ali mais por cima da nuvem, e ordenou novamente: “Buda, filho meu, caminhe sobre as brasas, assente sobre as brasas, deite sobre as brasas e role sobre as brasas”.
            - Nossa! Por essa Buda acho não esperava, eu acho. Uma prova de fogo.
            - Nem eu, minha filha. Nem eu, nem ninguém. E Buda aguentou o que pôde, coitado. Daí, voltou pra casa todo mal e mal assado. Os irmãos trataram de curar as queimaduras. O pobre passou muitas dificuldades. Não podia andar, não podia tomar banho, não podia deitar, não podia muita coisa, não podia tossir, não podia rir. Podia perder a paciência? Podia. E Buda até perdeu a paciência. Cada ferida, cada queimadura, ui! aiaiai! nossa! Dava arrepio só de ver. Dá arrepio só de pensar. Imagine.
            - Buda cheirava a churrasco mal passado?
            - Então não qué?! Pior que insolação na praia. Buda batia o queixo de tanta febre. Ficou febril, delirou, tudo que tinha direito. Um perigo pra saúde, nossa! Porque quase quase torrou. Só não torrou por ser imortal. É ou não é uma maravilha?!
            - Ficou com desconfiança de Deus-Pai, depois? Ou com suspeita? Pelo menos com receio? Muito magoado?
            - Ficou é muito ressabiado. Daí, quando pôde vestir uma roupa melhor, foi atrás de se aconselhar com o seu padrinho Brama. Chegando lá, pois Brama vivia no templo construído no alto da rocha, Buda falou: “Padrinho Brama, por que tive que quase morrer no meio daquele brasil todo?” Aí então, Brama riu: “Ah ah ah!... ran ran ran!... ih ih ih!... ri ri ri!... eh eh eh!...” Brama se expressava rindo a bom rir todos os risos. Brama sabia rir de tudo e de todos.  Rolando sempre de rir. O jeito lá dele. Buda já estava a par, já estava vacinado com as gargalhadas do padrinho. Brama não falava há séculos, mas ria muito e de todo jeito e de todo o coração e de todo o mundo. Brama ria com a boca, o pé, a barriga, o antebraço.
            - E Buda entendia as gargalhadas do seu padrinho Brama. Não era uma alegria às vezes fora de lugar?
            - Talvez por tudo isso que Buda gostava tanto dele. Buda achava seu padrinho muito engraçado e bonachão e direito e direto.
            O jumento Tapiti, lá no pasto junto à taipa de pedras, zurrava, zuoooh!... alegre.
            - Por que Tapiti chora assim, vô?
            - Porque tem compaixão de mim, compaixão de ti, etc.
            - Compaixão?
            Lilás sabia, ou lhe contaram certa vez, que dizem que os peixes são surdos, que as girafas não dormem deitadas, que os grilos têm ouvidos nas patas, que os macacos brigam por arranca rabos, que as galinhas não têm dentes, que os gatos não estão nem aí, que os caranguejos andam pendentes do lado esquerdo, que os urubus dormem em pleno vôo, que as formigas não param não param.
            A guria tinha com ela, no fundo do seu pensamento, que essa necessidade de futuro dá muito trabalho para as pessoas, bichos e coisas. A cadela Jandaia, ali mesmo no terreiro, corria atrás de uma borboleta violeta. E Jandaia parecia mesmo uma criança xereta. O nacional Loló telefonava aos irmãos de Satuba: “Oi! Aqui é de Santa Maria do Salto, é. Em Santa Maria do Salto está muito quente e quentíssimo.” O avô retornou e prosseguiu:
            - Olha, Lilás. Os padrinhos dos quatro também se reuniam para prosear. Eram caras fora de série. Eles eram verdadeiros filósofos, peritos profetas. Eram verdadeiros xamãs. Eram verdadeiros mitos. Eram muito idosos e gostavam de pensar, passear pensando com as mãos às costas, conversar e pensar e passear.
            - Já lá ou aqui se vão muitos e muitos anos, né?! É certo que o tempo vem e vai e vem?
            - O tempo e a distância não são nada. E para os padrinhos dos meninos e da menina, o tempo não passava mesmo de um brinquedo, ou de um balão de aniversário, ou ainda de um passatempo com histórias cruzadas.
            - Eram mágicos? Eram feiticeiros? Ou filósofos místicos?
            - Eram deuses conservadores, porém mágicos, grandes filósofos. Mágicos quando queriam. E eles se reunião vez ou outra. Às vezes iam ao Egito bater um papinho ali no oco de uma pirâmide à beira do rio Nilo. Ou corriam até a Índia visitar o sagrado rio Ganges. Ou às praias salgadíssimas do mar Morto. Ou até Parintins ver a disputa do boi Garantido e do boi Caprichoso. Gostavam de gastar o tempo perene em, Salvaterra, Afuá, Soure, Taperoá, Valença... Mas no interior da pedra da Gávea se sentiam melhor.
            - Um dia, entre os dias do passado, né, vô?!
            - Geralmente dialogavam conversavam sobre coisas importantes, absolutas e indispensáveis. Sentavam-se na mesa do bar-restaurante, só eles quatro. Padrinho Jurupari bebia seu café com biscoitos de polvilho e falava coisas de um novo mundo e de um velho mundo. Padrinho Confúcio bebia seu café com biscoitos de mel e olhava tudo, escutando, sacudindo a cabeça. Padrinho Brama bebia seu café com biscoitos de chocolate e ria, rã rã rã!... rá rá rá!... ri ri ri!... sem parar ele ria. A dona Iara bebia seu café doce com biscoitos vovó-sentada e mexia as antenas lá dela, as asas transparentes lá dela, contava histórias curtas com final engraçado, com final feliz, com final educado, com final amazônico, com final finalícimo.
            - O que padrinho Jurupari falava de tão existencial, por exemplo?
            - O necessário, o possível e o divino. Às vezes até o irremediável. Até mesmo o interminável. Falava de astros e estrelas, falava de futebol nas galáxias, falava do tempo em que era doido por merengue e bala de goma e sorvete seco.
            - Por que nas cavernas da pedra da Gávea? É um lugar especial? Já foi um lugar espacial?
            - Você sabe que existem vestígios de espaçonaves interplanetárias óvinis etês de Varginha, Chapada Diamantina, Maragogipe, etc, né?!
            Os ipês florescem em agosto. As pitangueiras dão pitangas ali por novembro. Os araçás dão araçás ali por janeiro fevereiro. Então, está visto, tudo muito bom. Sabiá-verdadeiro gosta que se amarra em pitangas e araçás-de-coroa. No verão as pitangueiras convocam a passarinhada toda para um banquete.
De Flecha, naquele tal instante, arrastava a casa para a sombra do alpendre. O sol ainda andava na sua voltinha. Pegava o ônibus, o trem, o avião das quatro cinco da tarde. O próprio sol explica melhor o dia, e nem todos os mistérios. Mas o avô seguia a narrativa ladeira abaixo:
            - A sedosa Sheherazade ouviu vozes enquanto estava dormindo, até tarde, uma manhã de domingo. As vozes vinham do teto da cabaninha. A bondosa Sheherazade acordou e abriu a janela, queria ver qual era a da voz. E a voz queria mesmo falar com ela mesma, e falou. A voz veio, então, do alto e da nuvem, de lá de fora do alto. A voz disse com essas palavras fáceis: “Minha lindinha filha cheirosa Sheherazade. Você reconhece minha voz?” Aí, a historiosa Sheherazade disse, respondendo: “Ora, claro que sim, meu Paizão”. Pois a voz voltou do alto da nuvem: “Assim eu digo que você precisa pegar umas frutinhas do araçá-de-minas, pra mim. Vá e me traga umas arrobas dessa frutinha que eu quero provar, tá bem?” E a dengosa Sheherazade respondeu bem respondido: “Escuto e obedeço, bom Pai Todo-Poderoso”.
            - A fabulosa Sheherazade era mesmo uma boa guria, não, vovô?!
            - As meninas sempre são mais fofinhas e quietinhas e bonitinhas e obedientinhas. É normal. Todo o mundo acha. Mas, bem... Aí, a levíssima Sheherazade foi para o espaço aberto do campo procurar o tal do araçá-da-praia.
            - Mas não são alguns tipos e tipos de araçás, vovô?
            - Pode mesmo ser. Todo caso a bonitosa Sheherazade foi para o descampado e encontrou o araçá-de-são-paulo. Subiu na árvore e começou a comer. Não era para ela própria comer, mas quis provar, gostou e continuou comendo. Gostou do gosto e foi se deliciando. Comeu um, comeu muitos. Não resistiu e comeu foi comendo em vez de guardar para Deus, o Megapai de todos nós. Foi aí que ela, a imaginosa Sheherazade, demorou para mais da conta. E Deus se cansou de esperar e fez um milagre que foi o seguinte: Deus deixou que a importantíssima Sheherazade caísse do galho do araçá-do-pará e se atrapalhasse toda. E de fato. Assim, a vitoriosa Sheherazade ficou pendurada pelos cabelos, pelas gadelhas, pelas crinas. A esculturosa Sheherazade ficou presa e pendurada do galho pela juba, e balançava como um móbile que fosse de pano de metal.
            - Nada pior que puxarem o cabelo. Que coisa, né, vô?!
            - Coisa e meia. E doía não só um pouco. Mas a prestigiosa Sheherazade tinha chance de gritar. Chance de gritar era o que ela mais desejava, tanto que esperneou e gritou. Sorte que não tinha ido muito longe e os irmãos puderam ouvi-la e acudi-la e salvá-la e carregá-la.
            - Eu também não gosto que puxem meus cabelos, é!
- A dengosa Sheherazade ficou envergonhada e manhosa que durou uns bons dias com o burro amarrado. Subiu no seu lugar favorito que era o telhado de palha da cabana. Ali podia espiar tudo e ficar sossegada em silêncio. Podia até falar sozinha sem que ninguém reparasse, sem que ninguém ouvisse, sem que ninguém respondesse e sem que ninguém achasse graça. Depois de uns alguns dias ela desceu e saiu para espairecer. Foi visitar a madrinha dela, a dona Iara, é. E a Iara morava no oco de um imenso e grosso e antigo jequitibá, muito perto no barranco do rio Maracá. É, a dona Iara morava ali e a amigosa afilhosa Sheherazade chegou para se consolar e pedir arrego e pedir consolo. Assim quis Tupã.
            O avô parou para abastecer a cuia. E abasteceu. A menina Lilás contava nos dedos as libélulas que chegavam para beber nos pés de bromélias do canteiro junto à varanda. Duas árvores copadas e importantes chegavam mais perto, quais? A gabirobeira e a jabuticabeira. O espaço, para onde os olhos passeavam, perto, vivia cheio de um trânsito de nuvens, passarinhos, abelhas, zangões, vespas, marimbondos. Outros alados e nuvens sobrevoavam o telhado de telhas de barro cozido da casa do avô. O avô continuou a tocar a gaita:
            - Pois a arábica Sheherazade chegou na casa típica da dona Iara e se sentou e se queixou. Sheherazade, a azulada, desabafou sua frustração sofrida no pé de araçá-do-brejo ou araçá-felpudo, sei lá. “Uma piada”, disse ela, toda toda vexada. E dona Iara ouviu, gostou, sorriu, riu, esfregou as mãos, sacudiu as asinhas e depois pediu ela mesma a palavra. Então, dona Iara consolou a galantosa Sheherazade com o que sabia de melhor, ou seja, contou uma lenda feita no rio Negro. Uma história de moral e alto astral. E foi uma história das que Sheherazade, a meninosa, gostava e sabia aprender. Uma história de era uma vez... De foi no tempo das árvores falantes... De no ano anterior ao nascimento de tal imperador... De nas terras do herói... De na época que o Brasil tinha um rei e rainha e príncipes e princesas... E a dona Iara sempre tinha muitas histórias para passar o tempo e o vento e o rio. Lendas que iam e vinham. Uma vez um carro-de-boi, sem condutor e sem bois, chegou na ilha das Palmas e... Para lá do norte havia, talvez para sempre, um país sem tevê e teto, onde os homens não deixavam o bigode crescer e as mulheres não deixavam as unhas crescer... Era um índio completo, de olhos brancos, que não existia, sonhado o ano passado... Enfim, o mundo assim de histórias e tudo acompanhando cheio de aventuras.

***
            Um bom-dia-seu-chico gorjeou bateu asas pipiou saltitou assim assim. O passarinho veio plantar uma sibipiruna para piar o futuro na sombra.
            Quando a menina chegou junto do avô, aquela tarde sonolenta e preguiçosa, já debaixo de um sol...
            Sol interminável, sol acrobata, sol sem camisa.
            Pois o vento soltava os cabelos no espaço. O vento arrastava o tempo. O vento mexia com as andorinhas no céu. O vento era gênio.
            Dia cheio de árvores quentes, dia cheio de preguiça, dia cheio de besouros irisados, dia cheio de tesoureiras chamando, dia cheio de buzinas pelo vai e vem na estrada RS-470 do lugar conhecido mais como da Canhada Funda.
            A hora ficava verdadeira quando vinha um passarinho perguntar as horas. A menina apontava:
            - Olha só um cardeal!
            O avô roncou o mate, esffffrrrooou!... pegou da térmica e encheu a cuia outra vez. A menina Lilás ouviu uma juruviara-verde-amarela cantar. A chacrinha toda ouviu. Ou seria um uirapuru rindo? Uirapuru neste horário? Não é muito difícil e raro ouvir um uirapuru? Papagaio Loló telegrafava aos magrinhos de Viamão: “Oi! Aqui é de Prata do Piauí, é. Em Prata do Piauí está muito quente e quentíssimo.” O avô recitava contando:
            - Os quatro irmãos se davam muito bem, isso é certo. Sem mais nada, o dia passou. E desceu realmente a noite com tudo. Na noite costumavam acender uma fogueira no pátio. A fogueira era um costume antigo que se tinha para guiar os viajantes no deserto ou até para espantar o sono. Os quatro irmãos faziam isso até para se aquecerem no inverno. E era uma oportunidade que tinham para contar estrelas, olhar estrelas. Sentavam em volta da fogueira, braços cruzados, olhando as chamas, conversando. Buda poderia dizer: “Acho que as estrelas são diamantes muito muito das enormes. Cada estrela um enorme enormíssimo diamante solitário.”Curupira completaria: “Como são puras e distantes, praticamente, não perderão nunca nunca o brilho.” Sheherazade, a morenosa, opinaria: “As estrelas são janelinhas do céu. Quem sabe fogueirinhas de papel-jornal.” E Jesus consideraria: “Como são muito muito distantes, suas cores vêm num brilho só, numa cor sozinha e fria, sem som ou eco.”
            - Os irmãos e a irmã namoravam, vovô?
            - Hein?! Ah, sim! De uma feita os três guris saíram para um baile na cidade Bom Pastor. Era carnaval e os irmãos se fantasiaram de três tracajazinhos. Pularam a noite toda. Não se cansaram tão facilmente. Carnaval é gostoso e bom e muito bom para quem não se cansa, uma vez. E já imitaram o caminhar ou dançar da galinha, do galo. Depois o dançar ou andar da vaca, do boi. E assim por diante. Imitaram o capitari e sua namorada a tartaruga-da-amazônia. A dança e a coreografia da perdiz e do perdigão. Iniciando imitar os animais domésticos até chegar nos da mata atlântica. Quando amanheceu pensaram em ficar e curtir o segundo, o terceiro, e o quarto dia de cinzas.
            - E a esquecidíssima Sheherazade não foi, vô?
            - Acho que ela tava com gripe, na ocasião, é.
            - É mesmo?
            - Sim. Faz tempo. Acho que era isso mesmo. Se não foi isso foi quase isso, sim. O que não faz muito mal, não. O futuro pertence a todos. E o futuro tem recursos de sobra. Tupã esculpiu os homens para que fossem teimosos, no bom sentido.
            Aí, o vovô quis dar um tempo no chimarrão. Colocou a cuia para descansar no porta-cuia. Se ergueu da cadeira de balanço apoiado na bengala, apoiado na bengala. Então, caminhou pela área. Os bichos da casa se assanharam, o Coronel gaguejou, a Jandaia bocejou, o Loló trololou. O avô ia dizendo o que mesmo. O avô, reagiu:
            - Ah, sim! Deus-Pai chamou os quatro uma vez mais e disse, dali mesmo, de detrás da nuvem: “Peguem de se antenarem que hoje mesmo vamos todos para a floresta mais próxima”.
            - Deus só falava de detrás das nuvens? Que estratégia segura, não é, vô? Porém a voz era reconhecível e trovejosa e assombrosa.
            - E tanto. Era só a voz que soprava de lá mesmo de detrás da nuvem. E os meninos e a menina perguntaram: “Fazer o quê, Deus-Pai?” E Deus respondeu: “Quando chegarem à floresta eu digo.” E Deus não falou mais nada, calou-se, nublou-se. É ou não é uma maravilha?!
            O avô que falava. Agora um pouco ali parado em pé para esticar as pernas, meio que andando pela área, girando o telescópio. Reparou mal e mal nas laranjeiras vermelhas, laranjeiras vermelhas. Um gavião-real nadava no azul. E o avô teve uma ideia, e falou, virando o corpo para a menina que vinha pelo lado. O avô declamou:
            - A esperança... corre corre acuda!, a esperança, e é bom que se diga, a esperança não pode ser esquecida ou substituída ou enganada ou mal empregada. Para que viva a esperança, para que continue o futuro, é preciso que se vá para o nada pelo menos uma vez na vida. E que se sonhe renascer no infinito.
            Vovô falou isso e se calou por um minuto. Um gavião-papa-formigas pousou na ponta do palanque da cerca. Continuou lá e olhando. Sem ser incomodado pelos bem-te-vis, pelas tesoureiras, pelos quero-queros, pelos caraxués, pelos ferro-velhos. Continuou pesquisando o quê. O Loló gastava mais um número para os companheiros de Quatá: “Oi! Aqui é de Pontalina, é. Em Pontalina está muito quente e quentíssimo.” O avô, voltou ao tema:
            - Aí, os três meninos e a menina foram para a floresta. Chegaram lá e entraram na mata cheia de gritos, roncos, chiados, silvos, pipios, berros, rastos e sombras. Sombras que se mexiam, plantas tortas, pedras respirantes, olhinhos acesos e piscantes, árvores de copa vermelha, amarela, verde, azul. Foram caminhando e olhando por onde andavam. Pássaros quase falavam. Enxame de mosquitos. O chão atapetado pelas folhas secas. E andaram andaram, e sempre na dúvida, é claro. Bando de macacos bugios regougava. E marimbondos, tananás, saci-pererê, ipupiara. A caminhada até cansar pelas trilhas mal e mal. Aqui e ali um corguinho para beber água. Caminharam, eles andando em fila, centopeia, procurando um caminho, buscar o quê, se indagando, caminhando. Pararam e ficaram na dúvida. Mudaram de trilha, mudaram de ânimo, mudaram de conversa. Aguardavam que Deus se pronunciasse. Deus não se pronunciava. Bando de papagaios falando muito alto, palmeiras com coqueiros, patativa piando. Então, a floresta existia e se apresentava e se pronunciava. E foram ver era mesmo? Era mesmo um chupa-cabra? Assim até cansarem, até esgotarem. E Deus não se pronunciava mesmo, não se pronunciou. Os mateiros ficaram na dúvida.
            - Duvidaram de quê, vô? Duvidaram do futuro e muito mais? Ficaram presos na floresta? Ficaram grilados com a sombra fria da floresta?
            - A dúvida maior era: o que Deus-Pai queria com eles ali naquela floresta que mal dava para caminhar? E por que Deus já não aparecia de uma vez e dizia o que queria de uma vez? Então, na dúvida não resolvida, os quatro pegaram e se sentaram no chão úmido. Iam esperar até que Deus desse o ar de sua graça.
            - Então, não esperaram muito, quase nada? E esperaram até que horas? Esperaram horas, eu acho.
            - Nossa! Toda vida. Quer dizer, toda vida se ficassem esperando lá como estátuas. Só aguentaram esperar umas horas e pronto, já perderam a paciência. Acho que sim. Esperaram até o sol cair fora do dia. O gavião-de-penacho passou por cima da mata e gritou, latiu, urrou e até ululou. Aí, ficaram muito muito preocupados. Acharam que Deus tinha feito uma gozação com eles.
            - Voltaram pra casa emburrados? Voltaram se perguntando interrogações? Voltaram por outro caminho?
            - Pensaram isso, mas já era quase noite. Já era bem escuro. O pior é que não tinham onde dormir. Não enxergavam o caminho. Faz frio à noite na floresta, pensa o quê. Há feras perigosas saindo pra caçar. A onça-pintada, por exemplo, a sucuriju, a murucututu, a martinta-pereira, o boto, o janauí. E muito mais. Poderiam se perder no labirinto de árvores e arbustos e folhagens e ervas e cipós e lianas.
            - Por que Deus não mandava uma luz, a própria lua?
            - Porque era outro teste. Uma prova tipo de sobrevivência na floresta. Tipo prova de recruta. Prova de índio tupinaé adolescente. Deus queria ver se eles quatro choravam de fome, de sede, ou não. Pensa o quê?! O futuro tem mistérios, nhenhenhém!...
            - Ficaram, então, aquela noite na floresta? Sem dormir, aposto.
            - Naquela noite e mais cinco dias com as cinco noites. Pensa o quê. Na verdade se perderam na floresta. Cipós e trepadeiras e carrapichos se agarravam às pernas. Um labirinto de varadouros e furos e caminhos de anta e caminhos de porco-do-mato e caminhos de galinha-d’água que não se podia confiar. O que é bem comum, quando não se conhece e não se sabe por onde andar. E dentro do silêncio um ruído, um ruído que arranhava e rasgava e triturava, cleque! cleque!... De repente o ruído vinha e ia e voltava. Vinha devagar, ia devagar, retornava devagar... Dentro do silêncio noturno, o ruído andava e caminhava e se mexia. Com medo das feras e dos ruídos noturnos, quebraram o galho dormindo no alto de um angico, um guamirim, um caramuru, uma ingazeira. Isto quando conseguiram. De repente até podia cair uma chuva, se Deus mandasse e assim preferisse.
            - Tavam perdido no mato sem cachorro, sem gps, sem celular.
            - Tranquilo, tchê. E olha só. Tinham que ir atrás do de-comer. O que a floresta, aliás, só oferecia meio assim na moita: raízes, frutinhas miúdas, folhas doces, flores coloridas, água límpida, mel de abelha. Nem isqueiro havia pra uma fogueira. Além disso, ainda precisavam encontrar o caminho de casa.
            - Eu mesma conheço de nome e ouvir falar e ver na tevê, por exemplo, um número de frutas e de frutos: abacaxi, pitanga, caju, biribá, buriti, cupuaçu, pinhão, guabiroba, ingá, taperebá, pequi, cereja-do-mato, jabuticaba, tarumã, azedinha, guabiju. Eu conheço de comer as frutas e frutos: araticum, araçá. As que mais adoro de frutas e os frutos: butiá, goiaba-do-mato. As que nunca pude provar e sei que são frutas e frutos que existem e são apetitosos: açaí, sete-capotes.
            E o vovô já prosseguia na aventura dos quatro divinos:
            - Bem, remando o barco morro abaixo. Um dia daqueles o céu começou ameaçando céus e terras com muita chuva, baita temporal. As aves piavam assustadas com o tempo nervoso. Era, aliás, um dia demais a mais muito abafado. De minuto em minuto relâmpagos trincavam o céu escuro. Trovões se sucediam com estrondos cada vez mais pesados e por perto. A terra chegava a tremer com ameaça do céu cair sobre nossas cabeças. Para logo começou a chegar pesados e frios pingos frios e grossos varando a folharada. Os hóspedes involuntários da mata batiam os queixos, abraçados com o próprio corpo arrepiado molhado. Descia dos galhos e folhas uma cortina de água fria. Caía chuva torrencial. Os pés afundavam no afofado tapete molhado das folhas molhadas tombadas no solo. Vento por tudo retorcendo copas e galhos. Mais raios e trovões que não cessavam. A água correndo. Vendaval, tormenta. O quarteto divino já achou, então, que Deus de todos nós, exagerava, uma vez.
            O avô apoiou uma mão na mureta de ripinhas da área. A outra ainda segurava a bengala. De Flecha comia sua língua-de-vaca com muita calma e economia. Lilás entendia, de ouvir dizer, que quando Deus fez a fala, Ele já tinha dito tudo; quando Alá fez os dez dedos, Ele já tinha pesquisado todos os números; quando Tupã fez os rastos, Ele já andara de tamancos no barro. Vovô voltou para revelar, reviver: 
- Bem, custaram mesmo a sair da floresta. Até que tiveram uma luz. Pensaram assim: “Mas que lado fica nossa casa? Não fica no sentido do nascer do sol? Então, vamos nos guiar pelo sol do leste!” E assim os quatro esperaram mais dois dias até aparecer o sol. Pois um dia apareceu e foi comemorado. Aí, então, foi um abraço. Foram no sentido do sol nascente, deixaram o sol passar por cima, viram o sol do outro lado. Quatro cinco dias assim. E depois de muito pisar em espinhos, andar e andar por quebradas e trilhas e caminhos, dormir de noite nos braços das árvores, saíram da floresta, da mata atlântica. É, saíram da floresta. E voltaram para casa no deserto de areia e pedras e sol de rachar. Foi melhor para eles quatro.
            - Alá, o Bondoso, não bateu palmas, não deu os parabéns, não vivou?
            - Tupã? Que nada. Nem apareceu no alto atrás da nuvem. Nem água. Nem te ligo. Nem a sua voz de trovão se fez ouvir. E Deus nos livre e guarde!
            Avô voltou a sua cadeira de balanço. Lugar predileto seu, e continuou. No alto, bando de papagaios, bando de periquitos, bando de araras-vermelhas, bando de araras-azuis, bando de tuins, um par de maritacacas. Avô olhando reto, longe, longe. O avô prosseguiu e devolveu:

            - Então, certo dia, chegou uma correspondência, um e-mail. O imperador Dom Pedro II os convidava para passar um fim de semana na Quinta da Boa Vista, palácio São Cristóvão, passear pela cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
            - Muito bom. Pelo menos alguém os conhecia, né?!
            - Sim. Filho de algo, fidalgo. Muita gente bem informada os conhecia. Assim, os três meninos e a menina olharam aquele convite e ficaram na dúvida: “Será que nosso Pai eterno aprovará? Como saber se Deus deixará?” Querer viajar eles queriam. Saber com certeza se poderiam é que não sabiam.
            - O jeito era consultar o trovão, então?
            - Isso ou aquilo. Viagem muito longa, o fuso. Querer ir era uma coisa, outra coisa era desobedecer a Deus. Eles ficaram com receio de que o Pai não gostasse. Eram meninos e menina obedientes, claro.
            - O que fizeram? Ficaram em casa?
            - Aí resolveram perguntar para a nuvem.
            - E com que palavras? Palavras novas?
            - Acenderam uma vela cada qual e se ajoelharam. Mãos dadas para fazer uma corrente de pensamento mais forte. E rezaram tudo o que sabiam olhando a nuvem através da janela. Pediram um sinal, um som, uma luz, sete cores do arco-íris, um vento forte, um fenômeno qualquer. A resposta demorou pra quase uma semana. E todo dia eles rezavam, todo dia ajoelhavam, velas de espermacete ligadas, olhar ansioso lá para a nuvem passando pela janela envidraçada ou janela aberta. Pra você vê que no céu também existe uma burocracia. Deus só atende quando quer, e se quiser. Enfim, lá pela quinta-feira, véspera da partida, na última hora, chegou o anjo-mensageiro com a resposta. O anjo da resposta oficial, pensa o quê. É ou não é uma maravilha?!
            - O arcanjo Gabriel, quase certo. Ou o arcanjo Miguel.
            - Não sei, não vi a placa. Não sei se era arcanjo, serafim ou anjo barroco. Eu digo anjo porque com certeza levava umas asas nas costas e nos calcanhares. Veio pelo ar. Era, com justiça, um tipo riponga. Não sei se era Gabriel, Rafael, Raziel, Miguel, Tonel, ave ou pássaro ou passarinho. Era um nome desses. Bem, então o anjo falou com eles e disse: “Ordem de Deus: vocês quatro podem ir sim passar o fim de semana no palácio São Cristóvão e visitar a família imperial.” E o anjo aproveitou para dar uns conselhos por conta própria: “Colecionem figurinhas de jogador de futebol, colecionem cedês de marchinhas antigas de carnaval, colecionem cartões-postais da cidade ex-capital do país, fotografem a pedra da Gávea, a baía da Guanabara, a floresta da Tijuca. Isso no mínimo”. O anjo esperou que eles fizessem as malas e só então bateu asas e se foi, subindo lá para o alto, escorregando entre as nuvens. Era um anjo que voava alto, asas brancas, asas que douravam aos raios do sol, asas que se perdiam entre nuvens, asas azuis com bordas douradas. E o céu se rindo de raios de ouro.
            - Os meninos foram a pé? Não era longe pacas? Por que o anjo não os carregou pelo ar? Por que o anjo não os teletransportou?
            - Claro que era longe. Então, Jesus disse que poderiam ir até o rio das Antas e lá pegar uma chalana, ou uma gaiola, ou uma jangada, ou uma lancha a motor. Foi o que fizeram. Os filhos de Deus ainda não eram de fazer milagres por conta própria.
            - Eu gosto de rios. Que rio passava por ali? 
            - E acho que continua passando. Sim, era o rio Xingu. O rio Pelotas, também. Mais o rio dos Sinos. Com certeza o rio Tietê ou o Guaporé ou o Gravataí ou o Ianamu ou o Jari ou o Cuiabá.
            - Nenhuma aventura a mais na viagem? Muitos mosquitos? Vento na cara?
            - Nada de mais. Nenhum incidente. Nenhum ataque de pororocas. Nenhuma peleia, nenhum entrevero. Os rios eram navegáveis. Não era tempo de seca, não era tempo de bandeirantes e nem passavam por terras de corredeiras perigosas, terras de dinossauros, ou terras de vespas gigantes, lugar de cataratas.
            - Era a primeira vez que iam ver o mar?
            - Acho que sim. Enfim, chegaram ao palácio na sexta-feira à tarde. O sol quase entrando. A cidade do Rio de Janeiro com a lagoa Rodrigo de Freitas, a praia de Ipanema, o Pão de Açúcar, o Cristo no alto do Corcovado. E os habitantes baianos, mineiros, pernambucanos, paraibanos. Uma cidade com muito a oferecer em termos de atrações turísticas, altas praças e ruas e calçadas decoradas de pedrinhas portuguesas, futebol, shows de música, restaurantes, praias, desfiles de escolas de samba e tiroteios na madrugada. O imperador Pedro e a imperatriz Teresa Cristina exultaram, pularam de alegria, fixaram um sorriso satisfeito quase permanente, decretaram dia santo. Os meninos e a menina receberam do casal imperial todas as graças, privilégios, honras, mordomias, distinções, estimas, homenagens, liberdades, franquezas, condecorações, primazias e importâncias. O imperador pessoalmente mostrou o palácio, o jardim de verão, o jardim de inverno, o jardim botânico, o jardim das visitas, o jardim mourisco. A imperatriz convidou para o chá-da-índia no jardim da cidade, no jardim das orquídeas, no jardim de cristal, no jardim de pedras preciosas, no jardim dos ipês-roxos.
            - O imperador e a imperatriz já sabiam, talvez, que os três meninos e a menina eram filhos prediletos do Criador das estrelas e das montanhas e dos oceanos?
            - Sem dúvida. Senão não os teriam convidado para conhecer as suas três filhas princesas e mais o príncipe herdeiro.
            - O imperador queria era casar suas filhas e seu filho com os divinos, é?
            - Claro, quem não gostaria?! O imperador e a imperatriz não davam ponto sem nó. Já pensavam em casar no mínimo uma filha. O imperador Pedro queria ser quase parente de Deus. É ou não é muito? É ou não é uma maravilha?!
            - Eu acho legal, essa ideia imperial do imperador e da imperatriz.
            - Mas os meninos e a menina só tinham doze anos, dois mais que você, Lilás. É, pra você vê, Lilás. A coisa não podia andar nessa velocidade.
            O avô ficou olhando sem ver. Olhando o espaço sem ponto. Olhando o céu sem ver e pensando sem razão nenhuma. O espírito em reticências. Nem percebeu se passavam nuvens passageiras, passarinhos ligeiros, besouros redondos, joaninhas abauladas, colibris elétricos. A rua Itália seguia em frente feita de terra vermelha batida ladeada de árvores uns pinheiros uns coqueiros-aracuris umas casinhas aqui e mais ali com portãozinho de ferro. Depois avô ouviu a menina perguntar. O vento voava manso e quente por sobre a casa do avô, sobre o sítio. A Lilás, cobrou:
            - Eles, os hóspedes, caíram em tentação, vô? Que pensaram diante de tantos luxos e circunstâncias? O palácio devia era estar mesmo decorado com caríssimas obras de arte do mundo todo, é? Peças de ouro, tapete vermelho, dragões da independência, hein?! E as paisagens com montanhas e praias ao redor e ali por perto?
            - Está com receio por eles, é, querida Lilás? Veja só. Durante o dia comiam do bom e do melhor. Frequentavam a piscina, a praia, o parque. Conversavam com as princesas e com o príncipe. Iam a passeios pela orla marítima, subiam nas montanhas que olham a vista da cidade, corriam até a floresta da Tijuca, desfilavam pela cidade em carruagem aberta, visitavam igrejas folheadas a ouro, tiravam fotos sentados nas muretas das pontes, tomavam sorvete na calçada de ondas, escalavam o Corcovado, tocavam no Pão de Açúcar. E à noite, altas festas, com carnaval muito animado, e muitos artistas famosos, badalação, capas de revistas, jogos de futebol, autógrafos de celebridades, etc., festas surpresas, festas de aniversário, reuniões dançantes nos jardins climatizados.
            - Alá, o Esmeraldino, estava vendo tudo isso. Deus estava vendo tudo isso. Tupã não deixaria de ver tudo isso.
            - Ora ora! Imagine se Deus perderia seus filhos prediletos e divinos de vista! Por nada desse mundo, netinha! Ele, garanto, ainda tava era mesmo rindo e muito.
            - Porque já devia ser mesmo outro dos testes para os meninos e a menina. Aposto nisso.
            - Mas bah, tchê, guria! Sem sombra de nenhuma dúvida.
            - Avô, me diga o nome das filhas e filho do imperador Pedro II com a imperatriz Teresa Cristina.
            - Uma que eu sei era a Isabel. Havia mais duas, agora. Ah, já sei. Havia a Leopoldina e a Clarissa. Havia o príncipe Pedro José Antônio Carlos João Manoel Ricardo Maria Estêvão Miguel Portugal de Alcântara Aragão e Bragança. Por aqueles dias eram essas três e esse um.
            - E os meninos gostaram das namoradas? E a menina gostou do príncipe? Foram e se apaixonaram? Trocaram beijos, claro. Trocaram telefones e selfies e endereços.
            - Os meninos gostaram, olharam, trocaram lá um que outro beijinho, agradeceram e vieram embora. A menina ficou na dela, deixou que o príncipe pegasse na mão e olhe lá. Sabe, sempre fica um pouco de perfume em quem entrega orquídeas, em quem pega orquídeas, em quem vê orquídeas. Na segunda-feira pela manhã, para decepção do imperador, da imperatriz, das princesas e do príncipe, os quatro divinos puxaram o carro e voltaram pra casa. É que os meninos e a menina, no fim das contas, sabiam que a missão deles era mais importante que pensar em curtir longas festas, longas férias. Como filhos de Deus, como divinos, tinham uma missão maior. Maior que todas. Uma missão pra lá de Bagdá. Uma missão total, internacional, universal, eternal. Uma missão de esperança no futuro, no futuro. Uma missão, enfim, pra não sobrar mais nada, pra não faltar mais nada.
            - A missão de cada um era ser Deus como o próprio Deus-Pai?
            - É isso mesmo. Cada qual se tornaria um Deus no futuro. Um Deus, uma Deusa de esperança para o povo. E serem exemplos perfeitíssimos de bondade e paciência e tolerância e condescendência. De fazerem milagres sérios e necessários e pontuais e memoráveis.
            - Voltaram pra casa direitinho, e bonitinhos.
            - Pois é. Voltaram à rotina normal e espetacular de aprendizes de deus.
            - Vô, então, me explique o que são a beleza, a felicidade, o amor e a amizade.