sexta-feira, 30 de junho de 2017

Contos de Santa Luzia (13)




            Quipá fugia sem parar. Caminhara trezentos dias evitando estradas estadas rastos pessoas e cachorros. Há muitos dias desde agosto que estava enfrentando o capoeirão seco, espinhoso, pedregoso. Muitos sóis pelo deserto vermelho. O calor terrível insuportável. Dor nos pés nas pernas e no resto da alma. O ar irrespirável de terra vermelha. Nada de sombra. Nada de nada. Tudo um clima de boca de forno fornalha. Terra esturricada. Pedras cansadas. E noites frias e abandonadas e sem fim.
            E carregava cinco mortes nas costas. Nenhuma delas na consciência. As primeiras duas por vingança vingança. Mais outras duas por encomenda, por dinheiro, por tarefa, por vontade de ganhar um faz-me rir. A última foi para mandar embora o tédio e ver o tombo.
Fugira da cadeia com outros tantos. A rebelião pôs fogo à cidade. E fugia pelas veredas, atalhos, picadas, capoeirões, beiras de rios secos, terras cinzentas, terras castigadas, pedreiras cavadas.
            Do alto do morro viu a aldeia de Santa Luzia. Anoitecia. Se encolheu na aba de uma rocha gigante e tentou se acalmar. Não queria descer durante a escuridão. Não conhecia o lugar e receava alguma surpresa detestável. Poucos casebres. Tudo um silêncio. Não queria acordar os aldeões, mas acordou a mula sem cabeça o anhangá-pitã.
            Pela manhã subiu no grande rochedo para olhar mais longe. A bola escaldante do sol rolava para o oco toda encoberta daquela poeira vermelha. Observou a aldeia de Santa Luzia. Uma aldeia pequenina as casas precárias de pau-a-pique e cobertas de sapê. Procurou alguma coisa para espantar a fome a sede.
            - Vou me apresentar - decidiu o estrangeiro, falando para si mesmo.
            Quipá Cataguá entrou pela única rua da aldeola chão batido britado. Parou na pracinha onde a gurizada improvisara um campinho com goleiras de tijolos. Jogavam calçando as mãos com chinelas de tiras de borracha. Descalços os dedos nodosos encardidos chutavam uma enferrujada lata vazia de compota de caju. A molecada o convidou; faltava um goleiro:
            - Ei, vem de goleiro, seu viajante?!
            - Pô, vem!
            - Vem aí, vai!
            - Ataca o que dá, meu!
            - Mmmmm - foi só o que Cataguá conseguiu gemer no momento.
            Quipá, olhar insone aturdido, entrou no gol sem muita vontade meio relaxado chateado. Não era goleiro, nem nunca fora, nem queria ser. Mas como precisava se enturmar... pensou um pouco... aceitou. Foi entrou no gol pelo time dos sem-camisas. Dois tijolos faziam as vezes de traves, e o travessão a altura dos braços erguidos ou do pulo do goleiro. O campinho era um terrão desnivelado sem linhas laterais ou áreas.
E o desconhecido voava com estilo e elasticidade sempre catando a lata. Na pior das hipóteses espalmava para escanteio. De repente se viu rilhando os dentes relinchando se exibindo. O time dos sem-camisas virou o jogo. O goleiro improvisado não deixava passar nem suspiro. E miau! miau!... de gato.
O time dos camisas-rasgadas tinha um centroavante driblador e artilheiro e craque pra cachorro pra burro. Esse cobra não conseguia mais vencer a eficiência do goleiro-forasteiro. E daí que o culepe se irritava que só vendo: falava palavrões, babava, enviesava uns olhares de louco a cada lance frustrado, exigia pênaltis, teimava por cobranças de faltas, canelava, discutia, apitava, xingava, destratava, ameaçava, brigava, não parava de esbravejar; merecia uns tocos e uns puxões de orelha.
            Uma vez o tal centroavante-artilheiro-craque dos camisas-rasgadas pegou a bola no meio campo. O dito cujo mesmo. Veio driblando todo mundo. Chegou perto da área e chutou firme no canto... Que nada! Nada da bola da lata passar. O goleiro-forasteiro voou lá e a catou com as duas mãos. Então, todos viram, o viajante era uma parede, uma muralha, um santo, uma jaguatirica; fazia a diferença:
            O calor latejava na cabeça, as luzes doídas piscavam, os ruídos insistiam xaropes incomodativos, etc...
            - Onde estou? Qual que é? Muito longe? Agora mais perto? Sem que ou por quê? Miragem? Ah, chega de perguntas! - resmungou consigo mesmo o Quipá.
Uma cerca bem torta malfeita de secas taquaras-pocas. Uma linha de passe... uma linha de zagueiros... ouviu alguém gritar: “passa a bola!” Fazia luz, fazia sombra. Muito calor pelo corpo, muita luz dentro dos olhos, não conseguia ver nada. Não, um chiado, um zumbido dentro da ideia, um miado no labirinto do ouvido... um zunido de serra-fita serrando vidro dentro da cabeça...
            Então, Quipá Cataguá despertou gemendo, “ahn! ahn!...” Estava atrás do gol. Largado ali, estirado no chão, tonto. Uma terrível dor na cabeça. Coberto de poeira vermelha. Passou a mão na testa e se apavorou: um corte profundo, e estava lavado de sangue. A luz imprecisa do sol nos olhos. Não entendeu nada. Estava vazando da cabeça e não tinha ideia do acontecido.
            Quipá mal conseguia abrir os olhos, tanta a dor na cabeça. No seu lugar, na goleira, fazendo as vezes de goleiro, a piazada havia posto uma pequena escada de abrir. Que se passara com ele? Que acontecera pra ele estar ali atirado e de cabeça rachada?
            E queria ver aquela ferida. Queria cuidar da ferida e curar a dor. Se ergueu, a cabeça latejando, zonzo, muita dor. Se sentia mal pra cachorro pra burro, completamente aturdido, febril, destruído, até com ânsias de vômito. Tentou chamar por socorro. Gritou por socorro:
            - Ei! Socoooorro!!
Que nada. Não veio ninguém. Esperou um pouco e não chegou ninguém. Dor na cabeça. Tudo em volta meio que rodando ondeando. Memória desparafusada, ideias quebradas, quase pensamento vazio.
            Depois de uma hora ali jogado, perdido, gemendo, ele se ergueu para tentar uma ajuda. A piazada já digladiava de outra coisa em outro lugar. Cambaleando foi até a capela e se sentou na escadinha de pedra basalto. Não conseguia pensar. Acontecia alguma coisa que não tinha consciência. A cabeça rachada, vazando sangue, muita dor na cabeça. Aconteciam coisas ao redor que não entendia, não podia perceber.
- Que é isso? Sofri um acidente, tive um desmaio, será? Sofri um atentado? - não tinha ideia de nada.
            Talvez lá para o outro dia...
Os claros de um sol empanado despontaram atrás dos morros de capoeira ressequida mortiça, o oco tomado de nuvens gigantes de poeira vermelha, um vento dos infernos sempre incendiando a região, ermo sem remédio.
E Quipá desacordou num casebre destelhado, e olha lá! Passara a noite enrolado numa esteira no chão. Dormira com pesadelos e a constante e terrível sensação de perda de poda de sacrifício.
            Se sentiu muito estranho ao acordar. Bota estranho nisso! Se sentiu esquisito. Levou a mão ao patuá seguro ao pescoço por um cordão de embira. Nem havia mais amuleto algum. Olhou para o lado, estava sozinho. Procurou se consultar... E lhe faltava um braço, o esquerdo. Foi um choque:
- Estou doente da cabeça? Talvez tenha sofrido sério acidente. Pode ser um defeito do pesadelo.
Quipá se cortou? Cataguá cortou a si mesmo? Quipá cortou o Cataguá? Mas como se não acordara na hora horrível da operação? E como adivinhar o que acontecerá mais tarde?
            O desenxabido olhou o ombro esquerdo. Onde havia um forte e utilíssimo braço agora somente o ombro vazio. Doía um tanto, vá lá! A amputação fora recente, e muito precisa, quieta. Então, perdera o braço do dia pra noite e um pouco menos de alma.
            Pois ele botou a mão que lhe restava na testa. O caroço da pancada, recebida no campinho no jogo com a molecada, ainda estava alto, duro, doído. E doía todo o crânio, e o lugar da amputação junto e ao mesmo tempo incluído.
            Cataguá, Quipá saiu para fora do casebre. A aldeia de Santa Luzia estava quieta e sempre deserta. Rebrilhava muito escondido o fogo do sol. Os gabiotos eram de pedras e paus e costaneiras apodrecidos. Uns vinte ou vinte e cinco entre aldeões e aldeãs que teimavam ali. Todos alquebrados, desgrenhados, desleixados, desfigurados, amarrotados. E eles ficavam observando o viajante pelos buracos das paredes.
O ar poluído de poeira vermelha. As árvores ex-urucubas ex-parinaris ex-ananis da pracinha. Uns pivetes se açoitavam e se perseguiam e se combatiam ali. O preso recebia dez varadas nas costas ou nas pernas ou na bunda. O moleque que apanhava chorava por uns minutos até cansar ou passar a ira. Depois, voltava a participar dos pegas. Os agressores zombavam cuspiam na mão para preparar o tapão davam as voadoras os rabos-de-arraia as tesouras; treinavam vale-tudo. E sempre corriam atrás de alguém em nova perseguição. Cada um por si. E logo uma outra vítima. Recomeçavam açoites gritos xingos... e assim por diante.
            Não chovia na região talvez há dois três quatro anos. Tudo coberto de fuligem. Nuvens de pó vadiando pelo oco. A vila coberta pela poeira vermelha. O saci irrequieto no redemoinho da rua Única.
            Quipá, constrangido pelo roubo do braço, caminhou até a calçada da capela. Sentou numa laje. Não se acostumava com a falta do braço esquerdo. Não parava de pensar nisso. E repensou: “Decerto que já houve gentes e bichos que nasceram sem os dois braços, sem o braço com a respectiva mão. Um verme não tinha braços, um caracol não tinha braços, uma lesma não tinha braços, uma minhoca não tinha braços e mãos e pernas.”
            Depois, sem dúvida o mesmo Quipá, sentiu mais fome e sentiu ainda sede. Não se acostumava com a falta de certeza e de equilíbrio que o ex-braço causava. De volta à praça das ex-macambiras ex-facheiros-pretos ex-capororocas-verdadeiras, se sentou recostado a um tronco de paineira queimada do calor.
            A fornalha assava o mundo sem nenhuma pressa sem dó e por fora por dentro. Um dos moleques desmoronou. As costas marcadas por dezenas de cortes vergões tatuagens desenhados pelas varadas. E a palhaçada sempre a mesma e continuava. Todos descalços, todos sujos, todos desocupados, tontos de fome.
            Cataguá espiou em volta tudo tomado pelo mormaço pela luz intensa pelo cheiro de terra requeimada. Fora os moleques, não se via mais nada se mexendo. Dentro da aldeia os adultos não existiam. Raramente se via um aldeão ou uma aldeã caminhando com enxada às costas catando pedras para o almoço. Encontrar dois aldeões num dia era indício de muito azar.
- Onde esses tipos bisonhos se entocam? - pensou, falando alto. Talvez adoentados, talvez dormindo de dia e caçando à noite.
            A noite chegou sem surpresas, ignorante, sem nada para dizer, sem nada de novidade. Uns gemidos e uivos aqui e ali, de lá pra cá. Um número impreciso de relinchos. Um lobisomem, uma martinta-pereira, um jurupari. O estrangeiro se perguntou logo:
            - Será que chego a dezembro?
            Acordou na manhã de quinta-feira junto com o primeiro bafo de calor. Esperou e olhou em volta a ruína do casebre. Um silêncio no grotão. Quando, enfim, se decidiu levantar do colchão de espuma de borracha... faltou a perna direita, careceu da perna direita, necessitou da perna direita... etc.
            - Minha perna direita! E cadê?!
            Quipá Cataguá achou um absurdo aquilo. E falou alto novamente, e com razão:
- Mas não posso dormir que me roubam as partes?! E agora a perna direita, tão útil e necessária!
            Quipá ficou assim, olhando olhando o lugar vazio do seu corpo onde havia uma perna direita. Tinha que acreditar no absurdo no irracional no surreal. Ficou muito irritado. Operação muito entendida, silenciosa, indolor, incolor. Se sentia mais leve era verdade, mas isso longe de o satisfazer. E também com uma sensação que era só saudade, dor além da saudade. Fora roubo ou fora acidente? Alma trouxa e mais leve.
            Cataguá se cortou? Quipá cortou a si mesmo? Cataguá cortou o Quipá? Mas como se não sentira tanta dor assim? Como adivinhar o que acontecerá mais tarde?
            Se ergueu com custo com custo. Faltou equilíbrio prática e calma. Como não sabia quicar na perna presente, caminhar como um saci, pegou um galho seco de buranhém e foi se apoiando. Saiu para o dia de mormaço e vento carregado de poeira. Pensou rápido, pensou, viu o dia, olhou em volta, e só resmungou:
- Que dia para perder umas partes!
            Então, olhou o dia entupido de terra: era praticamente o mesmo dia de ontem ou de amanhã. O arraial o mesmo. Talvez as mesmas nuvens de pó no oco acinzentado. E os poucos moleques, descalços e arteiros, brigando de arrastar outro pixotinho de cá pra lá e de lá pra acolá, e gritaiada, berredo, choraria, disputa de pedradas.
            Quipá foi indo atravessando a rua Única, tropeçou e caiu de bico. Falou alto:
            - Ai meu queixo!
            Não podia ter prática mesmo. Daí se dirigiu à capela. Entrou na capela às oito e meia e se sentou num banco de visgueiro em frente da santa Luzia. A santa Luzia... olhava para o atento teto da capela. A santa Luzia... levava os próprios olhos num cálice de ouro falso. A santa Luzia... uma guria vestida de guria. A santa Luzia... um vestido longo sem decote cobrindo até os pés. A santa Luzia... olhos azuis na tacinha como era normalmente o azul do oco antes do fim do mundo.
            Cansado, dor nas costas, o estrangeiro resolveu sair picando para fora. O calor era tudo, por ali. A luz muito forte. Muita poeira. A capoeira ia longe capoeira pedras arames retorcidos engrenagens perdidas. Os piás corriam atrás uns dos outros, se atirando pedras, bodocadas, pauladas. Era só o que queriam fazer e desfazer. Os maiores os enturmados, agarravam alguém e viviam dando cascudos pontapés rasteiras sardelinhas, torturando o prisioneiro.
            Cataguá olhou para o meio das nuvens avermelhadas. Olhou com um olho meio se fechando e o outro fechado. O sol era forte por trás das nuvens de terra. As nuvens vermelhas contaminavam os últimos penitentes do deserto.
            Quando Quipá olhou para trás... viu um moleque que o seguia seguia. Vinha traiçoeiramente em silêncio, cara de doente, um porrete na mão uma das pontas arrastando na poeira. Farejava seu rasto. Quipá estacou e o esperou e o encarou. O pivete também parou. Ficaram os dois parados, meditando, se olhando, se medindo. O pequeno bandido foi do humilde ao indiferente, passando pelo nervoso.
O cramulhãozinho desistiu, tossiu, virou as costas e se foi. O pixote baixou os olhos, olhou por pura necessidade, foi indo, olhando para trás e trotando, voltou a cabeça para olhar, arrastando o porrete no chão, foi andando meio de lado, o porrete riscando a poeira. Parecia um cachorro louco. Caminhava torto, olhando para os lados e para trás. Olhava sempre, precisava olhar outra vez.
            Quipá sentiu um amargo no fundo. Estava sempre com sede e fome.
- Uma perna e um braço a menos para dar de comer - remoeu.
Foi até a ex-padaria no delírio de escolher umas fatias de torta de chocolate. E parou no meio do caminho. Vento abrasado, calor debaixo de calor.
            Os moleques acocorados ao redor da fogueira provavam entre si quem era mais valente esticando a mão para as chamas. Todos encardidos de poeira vermelha. Uns gritavam e amaldiçoavam, outros choravam, outros ainda urravam tipo bicho.
            Quipá se sentou junto ao ex-ingazeiro, mesmo tronco encarvoado de ontem, um espeto apontando o oco nublado de vermelho e que não tinha sombra e que preferia virar pedra. Pois logo logo os moleques se espalharam, uma gritaria, e começaram uma guerra de pedradas, todos armados de funda.
            Anoitecia. Nem lua nem estrelas. O boitatá revoava baixo sobre o capoeirão. O lobisomem pulava fora das estacas de espantalho para virar assombração. O curupira enganava com os pés virados.
            - Assim eu não chego a dezembro - pensou alto o Cataguá.
            Demorou, mas ele acordou naquela manhã fedorenta e de muita luz insatisfeita. Era mais um dia no deserto vermelho. E sentiu certa dificuldade de se mexer e logo descobriu o porquê. Seu braço direito também havia sumido... Uma má notícia. O que era péssimo para os negócios, para os projetos, para o porvir, horrível para uma prática natural.
            - Que que é isso, meu! - gritou esse lamento solitário e abichornante.
            Quipá fez todo um exercício de contorcionismo para se erguer da esteira.
- É, estou sendo roubado na calada das noites. É para a leveza da alma - falou para quem quisesse ouvir, e bramiu.  
E só lhe restava uma perna na sua relação com o resto dos tempos. Tinha que se virar e se contorcer como um verme rebolante.
            Quipá se cortou? Cataguá cortou a si mesmo? Quipá cortou o Cataguá? E por que não acordava na madrugada se esvaindo e com dores? Como adivinhar o que acontecerá mais tarde?
            O desimportante viajante queria a luz do dia com ou sem nuvens vermelhas. Fora do barraco mais calor e sufoco. Não podia sequer se coçar. Uma dor no lugar da amputação; sensação de perda; vontade de se coçar; vexame perante os habitantes - que, aliás, quase não se viam pelo dia a dia da aldeia destroçada.
            Então, ele foi quicando preocupado com seu horizonte cinzento. Quicou até o tronco da sua árvore predileta ex-sapotaia. Antes de chegar chutou sem querer uma pedra solta do caminho. E caiu no chão poeirento com estas palavras:
            - Ai meu queixo!
            Conseguiu se sentar junto da caputuna queimada. Um grande e muito machucado esforço concentrado. O calor matava a pau. As nuvens vermelhas passeavam, faziam suas trapaças pelo oco. Os moleques corriam para cima e para baixo da rua poeirenta, atrás de uma lata vazia, chutando a droga junto com as pedras e paus, gritando palavrões, se empurrando. E o calor o fogo o incêndio.
Quipá então respirava oprimido. Um moleque veio farejar olhar e de pertinho. Quipá não reconheceu o pivete. Aí o culepe chegou mais e farejou o pé sobrado. Depois tentou roubar a única sandália de borracha. Foi um custo se dobrar e se desdobrar e enxotá-lo. Depois o doidinho foi embora olhando para os lados, para trás, torto, e lá adiante se sentou ainda na poeira, se coçando atrás da orelha direita, sempre espionando. Quipá cuidava com o rabo do olho. Mais tarde o pivete foi e sumiu.
            Cataguá sentiu um espinheiro de fome na barriga. Se ergueu com esforço, quicou até a ex-padaria. Tentou bater a porta lacrada. Voltou. Não tinha vontade de chorar. Era um desinfeliz, mas não tinha vontade de se lamuriar. Não podia tocar o mundo com as mãos, isso principalmente. O azar parecia uma prova com camisa de força. Estava todo podado.
            - Quero enterrar minha perna - falou pra ninguém.
            Após o que, Cataguá quicou foi picando para os lados da capela. Todo o dia, um dia todo, pela frente. Um dia era pouco, ou era muito. Viu os piás brigando de repartir o adversário ao meio, um de cada lado, cada um com um braço, cabo de guerra. A vítima teria de ter muita coragem, pois a brincadeira só seria interessante, engraçada, quando os ossos estalavam, as juntas estalavam. A vítima, para ser engraçada aos outros, teria que chorar, espernear, gritar e pedir por socorro, mil vezes por sos. E continuar xingando e pedindo clemência.
            Nas lajes da capela, Quipá deu de cara com um molequinho mal-encarado e mal-intencionado. O culepe olhou Cataguá com olhos famintos e maus e fixos e vermelhos de poeira. Quipá quicou rapidinho para o interior da capela. Detrás da porta ficou espiando, até que o pestinha desistiu e se mandou embora.
            Quipá fingiu que tinha algo a fazer rua abaixo. Foi até lá. Aí lembrou que poderia fingir a mesma coisa rua acima. Quicou até lá. Assim passou um tempo. Cansado de quicar para cá e para lá, voltou e se jogou numa laje da calçada da capela.
            Depois, o estrangeiro cochilou, quase dormiu. Uma pivetinha chegou e se sentou a sua frente. O viajante se incomodou. Saltitou como o saci até uma pedrinha solta por aí e fez de tudo para chutá-la na direção da guriazinha. Parecia joguinho de sapata, mas não era. E era difícil. Era questão muito séria, de segurança.
            E a guriazinha vinha, chegava mais perto, depois corria, voltava sempre curiosa, mostrava a língua seca. Assustada e curiosa. De repente, correu buscar umas pedras. O visitante ficou pensando. Aí a molequinha começou a fazer uma casinha de pedras rua de pedras bichos de pedra. E se distraía sozinha vez ou outra olhava o forasteiro e construía a casinha.
            Os pixotes, lá no meio do terrão da pracinha, esticaram tanto o menorzinho da turma, tentaram tanto reparti-lo ao meio, que parecia que o desinfeliz já estava devidamente esbagaçado: assim como um espantalho, assim como um asterisco, como um crucificado. Os braços da vítima já eram maiores, sem dúvida. Alguns ossos e juntas já estavam comprometidos. Andando parecia um ex-macaco-prego.
            Quipá tinha a perna cansada, o pé cansado de ficar quicando por aí sobre um chão quente e rachado. Olhou o caco da própria sombra... Era uma figura de peça de quebra-cabeça. Com certeza menos alma para dar conta no juízo final. Um boneco em desconstrução? Um retalho, um caco, uma lasca.
            Assim ele viu nos olhos da pivete: a guria quase mais não tinha receio. Logo de supetão de repente teria coragem de atacar.  Bastaria um mais ousado para que os outros também viessem com tudo. Aí então não sobraria nada pra ser enterrado.
            Assim assim os bandidinhos maiorzinhos largaram a primeira vítima e agarraram a seguinte. A primeira vítima não tinha mais forças nos braços sendo que as mãos chegavam já aos tornozelos. Era um boneco desengonçado, um piá de borracha, um ex-macaco-barrigudo destroncado.
            Quipá decidiu quicar até ali, até lá... Olhou para trás - e para isso dar certo fez uma manobra arriscadíssima, quase perdendo o equilíbrio - e constatou, já metade incomodado, outra metade já acostumado, até envergonhado, que um moleque o seguia e o espreitava tipo cachorro louco.
            Cataguá tinha muita saudade de fazer muitas coisas com as mãos... Mas quede os braços e as mãos? Cataguá fora um homem prático, antes de perder os braços e as mãos, perder a perna. Agora então pateticamente não podia mais se coçar.
            Anoitecia sem ruído algum na vila Santa Luzia. A luz empanada do sol decaiu e a sombra escorregou seu peso pelas montanhas não tão altas abaixo e veio se esgueirando tomando conta. E só faltava o quê? E lobisomem uivar nos tucurus vazios. E martinta-pereira piar no meio do capoeirão.
            - Acho que não vou chegar a dezembro, é - Cataguá sentenciou.
            Amanheceu. Quipá abriu os olhos cheios entupidos de poeira. Fez uma ginástica para ter certeza de estar no limbo. Era o que nem esperava: estava um toco. Só lhe restava o busto: a última perna já se fora. Todo desmembrado. E fazer o quê?
- Até este ponto posso repensar as coisas, e depois? - falou incomodadíssimo.
            Cataguá se cortou? Quipá cortou a si mesmo? Cataguá cortou o Quipá? E toda noite não via o ladrão, por quê? Como adivinhar o que acontecerá mais tarde?
            Dessa desfiguração, o estrangeiro via o mundo por baixo e rasteiro, a poucos centímetros do chão, rastejando como fizeram as serpentes os caramujos as minhocas as lesmas. Teria que rastejar como uma sombra.
- Quero enterrar minhas partes - agora se preocupou.
Pronto, Quipá Cataguá tinha muita dó de si mesmo. E nem ia a lugar algum todo constrangido de ideias horríveis horripilantes horrorosas destopadas.
            - Ai meu queixo!
            Como um caracol, e sem a casa nas costas, Quipá foi se esgueirando para fora da oca. Demorou muito para rolar dois metros, e não tinha nem a prática. Ralou o peito, a barriga e o queixo. Resolveu não ir à pracinha. Do outro lado da rua era muito distante. Rolou porta afora da palhoça e ficou por aí. Rolou como um pneu furado. Rolou como um pau de massa. Erguia a cabeça de vez em quando, e espiava o entorno. Como já faziam as sucuriús as cotiaras as jararacas-da-seca. Depois logo cansou de se ralar e se jogou para trás, deitou de costas, olhou as nuvens de pó, fechou também os olhos.
- Se um caracol, ou uma lesma, podia e não se importava e não se lastimava, eu também posso e eu também não vou arrancar meus cabelos.
            Ficou ali deitado. Respirando demorado no calor como faziam os peixes fora da água. Cansado de olhar o oco nublado de vermelho. Quando cansava de um lado se virava, se revirava. Cansado de olhar o chão poeirento se virava, se revirava. Era muito incômodo mesmo, tudo disforme, tudo difícil. Era quase quase uma pedra, um toco, um pedaço de pau largado no chão.
            O oco dançava conforme os ventos, terroso e mormacento. Era um silêncio. Quase um grande engano universal. Ali onde estava atirado, o visitante ouvia muito pouco do quase nada da aldeia. E não via nada também. O mundo rasteiro era sem sorte. O horizonte a dois passos ou dois metros ou dez minutos. Nariz cheio de pó. E muitos calos no queixo.
            Depois chegou um pivete que parou na sua frente. Carregava um pedaço de pau na mão direita. O visitante mostrou a língua seca... Talvez isso tenha sido um erro. Tanto que isso não abalou o moral do trombadinha.
E o culepe até se sentiu mais confiado, chegou a cuspir de lado, coçou o meio da perna. Então, o guri sentou no chão para olhar o freguês demoradamente fixamente sono-lenta-mente. E o estrangeiro cuidou e curtiu umas dúvidas.
Uma vez ou outra o moleque bocejava. Parecia ter muita preguiça. Aí o pivete se deitou como um cachorro, a cabeça sobre as mãos, as pernas balançando. Depois o piá fingiu olhar para o outro lado. E logo quase dormia ali na espera na espia. Pouco mais reabriu os olhinhos quase fechados. E o culepe não tinha pressa.
            Quipá Cataguá, estirado aí como um pedaço de galho seco de batinga, uma pedra solta, um bagaço de coisa. Não tinha sono, queria dormir. Uma falta do que fazer. Uma alma pequena. E já-já chegaria a noite.
            - Não, não vou chegar a dezembro - concluiu.
              


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