Uns
vinte vinte e três vinte e seis camaradas barbudos, sem mulher alguma à vista,
pararam um dia ali na beira do valão. E olharam olharam lá embaixo a voçoroca
do rio extinto. Uns bombearam mais que os outros. Uns sacanearam e outros nem
bola. Uns puxaram e acenderam cigarro.
Depois,
dia seguinte, num outro dia, quarta-feira à tarde, os mesmos cabras já foram
erguendo cinco ou seis gabiotos de costaneiras e de taquaras cobertos de folhas
secas de palmeiras uruás. Ouviram rádio a pilha, falaram alto, relincharam,
pregaram caibros e sarrafos e mata-juntas.
Na
outra semana, começo de outubro, assim como assim, começaram a esticar a ponte
sobre o grotão. Bateram estacas, plantaram paus e pedras, contaram bravatas, fizeram
argamassa, empurraram carrinho de mão com pneu de câmera.
Um
desses homens da ponte tinha uma cadelinha chamada Cuíra. E Cuíra era uma
ruiva, era uma esquiva, uma assustadiça, uma magricela e árida cachorrinha
vira-lata.
Os
cupinchas lidaram com caminhões e retroescavadeiras e tombeiras e tratores de
esteira lagarta que, grandões fortões, fizeram um barulhão soprando fumaça azul
no ar poeirento. Os guaxos falaram de mulheres solteiras, falaram de futebol, rincharam
muito e cuspiram pro lado. Imprecaram contra o calor impossível, discutiram o
por acaso dum piquete, jogaram baralho e morderam palitos de fósforo.
A
obra talvez fosse durar de seis a doze meses, com direito a mais cinco caso os
pagamentos atrasassem. Um calor enorme sempre presente. Nem chovia há decênios.
O mormaço sufocante de todos os dias. O oco sempre enfarruscado por nuvens de
carvão, luz débil e amarga. Poeira do deserto.
Um
dia Cuíra foi até a capoeira e se viu rodeada de cães famigerados. Ficou alerta
e quis se adiantar se escafeder se mandar. Os guaipecas foram atrás. Cuíra
rosnou e não adiantou nada. Cuíra, então, correu para o deserto de terra
vermelha.
O
faro da cadela falhou um tanto por causa do vento contra e a poeira calcinada.
Mas suas oiças responderam atiçadas e como nunca.
Então, pouco
mais tarde, foi que ela ouviu, parou e ficou ligada. Eram os cães no seu rastro
e conversando e proseando e desabafando. Uns cinco ou seis cães caçadores
perdigueiros. E eles diziam um pro outro, ela ouvindo, meio longe dela, ela ouviu:
-
Vamo pegá-la...
-
Vamo fazê o seguinte, tu-tu-tu!...
-
Vamo tomá-la...
-
Vamo estrachinhá-la (sic)...
-
Vamo derrubá-la...
-
Vamo comê-la...
-
Vamo dividi-la...
E
logo eles a alcançaram a dominaram a grampearam com unhas e dentes. Ela rosnou
muito, mas não adiantou nada. Ela cuinchou barbaridade, porém nem resolveu
nada. Cada cachorro daqueles chegou por cima ou por baixo e, tu-tu-tu!... Ela
tartamudeou bastante, entretanto não comprometeu nada. E foi o que restou e o
que sobrou.
E
a cadela ficou dias e dias, embora, rodeada de cães arpoadores de língua de
fora baba grossa e olhar fingido. Então foi um incerto dia, os cachorros ficaram
dormindo até mais tarde na areia aquecida, ela se ergueu e se mandou. Fincou no
rumo do vermelho terrão. Assim mesmo, automaticamente mais perdida que cega em
tiroteio. Nem se dando conta de nada, e foi andando andando...
A
desavisada cadela Cuíra desertou, porém assim, focinhando o ar poeirento o
ambiente infernal. Era mesmo uma cadela sem eira nem beira nem coleira. Achou
falta de barulhos. Pulou à vontade, tentou andar nas patas traseiras, deu
voltas, deu cambalhotas e rolou no chão.
E Cuíra teve
coragem de se mandar sozinha pelo deserto de terra incendiada. Ondas de poeira avermelhada.
O oco sempre encoberto e assombrado. E foi o que fez e nem poderia dizer o que mais
seria justo lhe acontecer.
Ainda
em uma ocasião, Cuíra ouviu os cães latindo nas suas pegadas. Os guaipecas flibusteiros
sempre determinados e incansáveis. Ela continuou sem parada sem arrego pelo
deserto impossível. E ganiu uma vez que outra para si mesma:
-
Nem espero nada de ninguém. Jamais nunca nem.
Umas
três semanas e mais a tarde daquele dia, que dia? muito quente. Toda mole,
desencontrada, desconfiada, estracinhada. Onde estava? No meio do nada vermelho
e cavando. Parou e procurou um caminho. Sobrou ali perdida e mais outro tanto.
E se sabe lá o que mais!
O astro espiando
envolto em nuvens de cinzas. Nada sobreviveu. O vento empurrando areia pra
frente pra trás e em volta. Nem chovia havia dezenas de milênios.
Ela abriu as
orelhas, empinou o focinho, provou a poeira, ficou preocupada. O seu corpo lhe
participou algumas reações estranhas, umas ânsias, umas pontadas, uns
calafrios, uns formigamentos, uns enjoos intermitentes. Sacis interromperam
seus estudos para sair na sua perseguição.
E Cuíra tentou
buscar a cola, a ponta da cauda para sugar, mas o rabo estava muito longe. Não ficou
nada para fazer ou desfazer. Se sentiu fora do tempo, longe no espaço e disse, bufando
para si mesma:
-
Agora sim estou terminada... e mais ou menos... muito mal das pernas.
A
voz de Cuíra arranhou diferente da noite fria para o dia requentado caloroso. Uma
rouquidão de causar desconforto constrangimento preocupação. Se sentiu distante
dividida recortada em partes muitas partes como em quebra-cabeça. Interessada e
desinteressada, interessante e desinteressante. Foi gatinhando se arrastando se
acovardando para a touceira seca mais ali.
Ela
mesma já nem mais se entendendo naquela passagem naquele transe. O calor
exagerado exasperante de derreter o lombo e os cornos. E longos dias insalubres
irrespiráveis. Não chovia desde sempre. Apenas o vento com carregadas de areia.
Tucurus vazios saltando entre arbustos mortos com pedras atoladas na areia.
País das pedras pedregulho cascalho.
Cuíra
olhou o alto e vislumbrou, distante empanada pelas nuvens de poeira, uma
estrela decadente. Era imposição? A noite chegando mais. Viu outras luzinhas
piscando. Esperou mais. Era delírio? Um vento provocante atiçando ondas de
areia marrom.
Noite
mal-assombrada, a cadela restou encolhida enrodilhada em si mesma. E muito
febril, tiritando de frio, se sentindo bastante estranha, dor de cabeça,
cansada, mal podendo abrir os olhos doloridos. Ela mesma sem saber o que esperar.
A noite penetrou friinha mesmo muito fria. Não comera os meses todos e não
tinha fome. Não bebera os meses todos e tinha muita sede. O seu corpo estranho
estranhíssimo. A garganta cheia de poeira. Algo diferente e inédito já ia lhe
acontecer por dentro, por acaso, bem lá por dentro, querendo ou não saltar pra
fora. Coisa de meia hora. Por isso se deitou ali, se preparou para o
acontecimento, para o que desse e viesse, fosse o que fosse. Deitou na poeira e
pernas sobre pernas. Esperando precariamente acontecer o que teria de suceder.
Um tempo mais que se foi, e nem pensou em latir.
E
se encontrou naquele lugar isolado no capoeirão, no seco da poeira vermelha, do
lado do pedregulho. E ali enovelada recolhida em si mesma em si mesma. O corpo
tremendo. E daria cria. Os filhotes já chutaram assim assim dentro da sua
barriga. Foram muitos latidos e todos ao mesmo tempo. Alguns transtornos de
praxe. E a vira-lata deu prole.
Os
filhotinhos foram aparecendo lançados para o chão de terra solta. A cadela procurou
recolhê-los, recuperá-los, limpá-los, alisá-los, conhecê-los, admirá-los com
seus olhos vesgos e vagos. Muitas coisas na cabeça: exausta, zonza, aérea, boca
seca, curiosa, assombrada.
Os
cusquinhos já imediatamente se arrastaram até os seios da mãe, todos cegos,
tontos, idiotas. Ela lambeu as crias e sem interesse para mais nada. Pois nem
sentia fome, e muito ardia de sede. A noite terminando de rolar seu pião sem
lua sem estrelas no oco assombrado pelo vento terroso. Por detrás de dunas e
morrinhos, o forno já vinha cedo relampear o seu fogo inclemente, vá lá!
Um
e outro filhotes morderam esganados os mamilos da mãe. Os droguinhas ganiram, brigaram
entre si em cabeçadas, roncos, arranhões, como se já no ninho formassem as
características de bandidos. Deram coices, chocalharam, miaram, choraram,
mordiscaram.
A cadela Cuíra
nem conseguiu as forças para educá-los. O mundo rodou suas horas e dias. Mais
ou menos os perdidos e com a família no meio do nada. O tempo e o deserto questionaram
com a paciência, vá lá!
As
criaturas acordaram umas coisinhas muito sem noção. Bolinhas cheias de raiva. Os
tipinhos se apegaram ao mundo sem as unhas e sem os dentes. Por quê? Focinhos sujos
de pó vermelho e já resolvidos a enfrentar os desafios. Discutiram por tudo e
por nada. Urgentes. Olhos olhares de famintos esfaimados ferozes. Impositivos. Programados
para roer o osso, esconder o osso, brigar por um osso.
Filhotes
com pelos diferentes, como se tivessem a artimanha de muitos pais. Foram muito
mal-educados, uta! Barulhentos e provocadores e impertinentes e neurastênicos.
Andaram pela macega seca aos tombos, aos berros, aos xingos, aos trancos e
barrancos. Titubearam por aí, farejando ou brigando pela pedrinha encontrada, já
se pegando, um agredindo o outro, um roubando do irmão. O tempo ausente e os
dias superquentes.
Os
jovenzinhos impertinentes, sem nome, macios, desamparados de pai, já deram os
primeiros passos de olhos abertos. Aventuraram, querendo ver além do ninho que
a mãe improvisara na poeira do capoeirão. Nem chovia há seis anos.
E
lá foi o primeiro miudinho. Um pretinho com manchas vermelhas aqui e ali. Sumiu
no meio das macegas esturricadas, ex-línguas-de-vaca, ex-guanxumas,
ex-falsos-paratudos... Se perdeu na poeira. Mussitou, miou, mas já era tarde.
Foi andando sem rumo, tropeçando, dando voltas. O caminho sofria um aclivezinho.
Foi em frente e subindo. O calor sufocante, as pedras quentes, a terra solta e
acabada. Sentiu na alma umas comichões de andar, andar... Um vento levantando a
mesma poeira vermelha. Se viu sozinho e desimportante, miou, acoou, gemeu... Conferiu
o entorno. Não soube o que querer, não soube o que procurar, não soube o que
pensar. Seguiu um rumo atraído belo brilho das pedras. Chegou no alto do morrinho.
Descobriu moedas de ouro ali pelo chão. E o droguinha foi e garfou uma das moedas
de ouro com cara de Imperador do Brasil. Assim resolveu brincar, mastigar, sempre
a cauda balançando, tentando instintivamente engolir o dinheiro de ouro achado.
Foi
aí que um pivete da vila Santa Luzia conheceu o cachorrinho extraviado. E o pixote
berrou para seus parceiros de artimanhas:
-
Ei, chiruzada medonha e danada! Um Bauru vem vindo na minha e até sacudindo as
orelhas!
Cuíra,
a boca cheia entupida de poeira, tossiu tossiu... Uma dor de cabeça, uma
fraqueza nas pernas, e tudo mais. E tremeu geral e total. Penava com fortes dores
nas partes e esperava por um calmante. Sem acreditar que pudesse se erguer, continuou
lambendo as patas as pedras as folhas secas ao alcance.
O
segundo filhotinho se arriscou e foi foi, rumou para o sul. Passou as macegas
secas, a ex-tucumãi-da-terra-firme, caminhou pelo capoeirão esterilizado, foi
deixando marcas na poeira. Começou a descer o morrinho, descer. Viu umas luzinhas
pequeninas brilhar no chão e achou interessante. Alguns raios uv queimavam o
lombinho. No traçado ainda um tronco podre barrou o caminho. Demorou tentando
escalá-lo. Demorou tentando roê-lo. Depois, sem entender de que jeito, deu a
volta e prosseguiu. Negociou umas moedas de ouro com o monte de terra seca,
mexeu, lambeu, remexeu, mordeu, enterrou o que já estava quase enterrado. Continuou
procurando e cheirando os gravetos do caminho, tão fascinado. De súbito olhou o
panorama muito baixo, latiu, ciciou, miou, sentiu uma saudade... e continuou.
Mas não encontrou a mãe em nada. Achou umas sombras se mexendo ali na frente e
pensou que eram irmãos, miou, chirriou...
Por desconsideração
do acaso, por acaso, foi visto pelo luziense piá arteiro:
-
Olá, tiriricas! Um Bauru vem de encontro ao degas e farejando em tudo, hein?!
A
cadela Cuíra tentou olhar o oco avermelhado. Os olhos logo logo cansaram. As
partes do corpo que nem mais respondiam desinteressadas. Também!, nem há dois
séculos sem chuva.
O terceiro pouca-sombra seguiu
farejando o segundo. Viu algo de um reflexo no alto da duna e pensou que era
tudo que queria. Descobriu outros brilhos e mais pedras, coisas diferentes, atrativas,
chamativas, quentes, presentes. E foi subindo a encosta do morrinho. Nem ligava
para mais nada. Foi indo e aprendendo a cheirar tudo. E ele se sentiu outro, se
sentiu excitado, se sentiu maior, se sentiu super. Sentiu coisas difíceis de
explicar. Enxergou o brilho no oco, achou importante e miou, rosnou... Depois chegou
num determinado lugar e foi cheirando moedas de ouro, das grandes, das pesadas,
das desenhadas, das cunhadas pelo Império do Brasil. Achou tudo possível. Decidiu
enterrá-las como tesouro seu. Então, com as patas fraquinhas, fez buraco e com
o focinho empurrou a terra seca de volta. Aí mesmo cansou de trabalhar e se
sentou. Teve tempo e sossego para olhar o ali por perto. Descansado, resolveu o
quê? E começou a lutar contra uma pedrinha rolante. A pedra não se cansava
rolava fugia, o que lhe dava ganas. Espiou a pedrinha e a pedrinha se fingindo
de morta. Se encararam se prepararam para um duelo, como as últimas coisas
importantes do planeta. Depois, voltaram a rolar e a se agarrar.
Um
pixotinho do arraial Santa Luzia estava ali desocupado vadiando procurando
restos de nada e o caçou. Foram os gritos repercutidos em eco:
-
U-huu!... seus merdinhas secas. É Bauru! Bauru!...
Cuíra
soçobrou assim muito fraquinha e desanimada. Faminta sedenta de dias, já sonhara
com isso delirara com aquilo. O calor muito forte no mundo todo. Meses sem
chuva. Não chovia há dezenas de anos luz. As ideias de Cuíra só fizeram, então,
se estreitar mais e mais dentro do círculo de fogo da dor de cabeça.
O
quarto e último rebento também quis deixar a família e foi andando e deixou
mesmo tudo para trás. O tipinho acinzentado, pequeno, tímido, sumiu entre a
macega falecida, a barba-de-bode seca, se desorientando na capoeira esturricada.
Foi indo como por instinto, curioso, imantado pelas pedras brilhantes. Andou no
rumo do leste. Latiu e resmoneou, parou e viu paisagens rasteiras e secas, olhou
coisas e coisas soltas pela caatinga. Discutiu pormenores com um pedaço de pau.
Depois, balançou o corpo como para tirar a canseira e seguiu o chamado das
pedras brilhantes. Chegou e não chegou. Farejou. Farejou por ali tudo, miou,
ronronou... Nem entendia dizer o que farejava. Descobriu uma ou duas moedas de
ouro. Enterrou algumas moedas de ouro com cara de Imperador Dom Pedro II. Parou
e nem atinou mais o que fazer. Esperou alguma coisa, piou, bufou... As pernas
mais curtas que o caminho que o caminhar.
E foi que um
piazinho o descobriu no meio da capoeira caída entre as pedras derretidas
diante dos tucurupucas depredados:
-
Oi, seus culepes! Achei achei um Bauru todo todo passeador!
E
Cuíra, cachorrinha muito séria, tonta de sono e fadiga, procurou a rua Única da
vila de Santa Luzia. Trançou perninhas pela rua poeirenta e britada até que os
moleques a encontraram. Os pixotes foram de encontro à forasteira e ela se viu
cercada. Deitou no chão, rabo entre as pernas, e rosnou resmungou tossiu,
trocou orelhas... E ela se recolheu como um extinto tatuzinho-de-jardim. A
vira-latinha nem tentou mais fugir. Nem pensamento algum. Não procurou se
envolver em brigas e correrias e fuzarcas.
O mundo bafando
como uma fornalha atiçada. O arraial de Santa Luzia reunido, os aldeões as
aldeãs os aldeõezinhos as aldeãzinhas todos juntos, e olhando a marmitinha. Uma
aldeia sem começo sem meio e sem fim.
E o primeiro
dia, e o dia a dia, e o outro dia, e o último dia.
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