sexta-feira, 2 de junho de 2017

Contos de Santa Luzia (23)


                                               


            Uns vinte vinte e três vinte e seis camaradas barbudos, sem mulher alguma à vista, pararam um dia ali na beira do valão. E olharam olharam lá embaixo a voçoroca do rio extinto. Uns bombearam mais que os outros. Uns sacanearam e outros nem bola. Uns puxaram e acenderam cigarro.
            Depois, dia seguinte, num outro dia, quarta-feira à tarde, os mesmos cabras já foram erguendo cinco ou seis gabiotos de costaneiras e de taquaras cobertos de folhas secas de palmeiras uruás. Ouviram rádio a pilha, falaram alto, relincharam, pregaram caibros e sarrafos e mata-juntas.
            Na outra semana, começo de outubro, assim como assim, começaram a esticar a ponte sobre o grotão. Bateram estacas, plantaram paus e pedras, contaram bravatas, fizeram argamassa, empurraram carrinho de mão com pneu de câmera.
            Um desses homens da ponte tinha uma cadelinha chamada Cuíra. E Cuíra era uma ruiva, era uma esquiva, uma assustadiça, uma magricela e árida cachorrinha vira-lata.
            Os cupinchas lidaram com caminhões e retroescavadeiras e tombeiras e tratores de esteira lagarta que, grandões fortões, fizeram um barulhão soprando fumaça azul no ar poeirento. Os guaxos falaram de mulheres solteiras, falaram de futebol, rincharam muito e cuspiram pro lado. Imprecaram contra o calor impossível, discutiram o por acaso dum piquete, jogaram baralho e morderam palitos de fósforo.
            A obra talvez fosse durar de seis a doze meses, com direito a mais cinco caso os pagamentos atrasassem. Um calor enorme sempre presente. Nem chovia há decênios. O mormaço sufocante de todos os dias. O oco sempre enfarruscado por nuvens de carvão, luz débil e amarga. Poeira do deserto.
            Um dia Cuíra foi até a capoeira e se viu rodeada de cães famigerados. Ficou alerta e quis se adiantar se escafeder se mandar. Os guaipecas foram atrás. Cuíra rosnou e não adiantou nada. Cuíra, então, correu para o deserto de terra vermelha.
            O faro da cadela falhou um tanto por causa do vento contra e a poeira calcinada. Mas suas oiças responderam atiçadas e como nunca.
Então, pouco mais tarde, foi que ela ouviu, parou e ficou ligada. Eram os cães no seu rastro e conversando e proseando e desabafando. Uns cinco ou seis cães caçadores perdigueiros. E eles diziam um pro outro, ela ouvindo, meio longe dela, ela ouviu:
            - Vamo pegá-la...
            - Vamo fazê o seguinte, tu-tu-tu!...
            - Vamo tomá-la...
            - Vamo estrachinhá-la (sic)...
            - Vamo derrubá-la...
            - Vamo comê-la...
            - Vamo dividi-la...
            E logo eles a alcançaram a dominaram a grampearam com unhas e dentes. Ela rosnou muito, mas não adiantou nada. Ela cuinchou barbaridade, porém nem resolveu nada. Cada cachorro daqueles chegou por cima ou por baixo e, tu-tu-tu!... Ela tartamudeou bastante, entretanto não comprometeu nada. E foi o que restou e o que sobrou.
            E a cadela ficou dias e dias, embora, rodeada de cães arpoadores de língua de fora baba grossa e olhar fingido. Então foi um incerto dia, os cachorros ficaram dormindo até mais tarde na areia aquecida, ela se ergueu e se mandou. Fincou no rumo do vermelho terrão. Assim mesmo, automaticamente mais perdida que cega em tiroteio. Nem se dando conta de nada, e foi andando andando...
            A desavisada cadela Cuíra desertou, porém assim, focinhando o ar poeirento o ambiente infernal. Era mesmo uma cadela sem eira nem beira nem coleira. Achou falta de barulhos. Pulou à vontade, tentou andar nas patas traseiras, deu voltas, deu cambalhotas e rolou no chão.
E Cuíra teve coragem de se mandar sozinha pelo deserto de terra incendiada. Ondas de poeira avermelhada. O oco sempre encoberto e assombrado. E foi o que fez e nem poderia dizer o que mais seria justo lhe acontecer.
            Ainda em uma ocasião, Cuíra ouviu os cães latindo nas suas pegadas. Os guaipecas flibusteiros sempre determinados e incansáveis. Ela continuou sem parada sem arrego pelo deserto impossível. E ganiu uma vez que outra para si mesma:
            - Nem espero nada de ninguém. Jamais nunca nem.
            Umas três semanas e mais a tarde daquele dia, que dia? muito quente. Toda mole, desencontrada, desconfiada, estracinhada. Onde estava? No meio do nada vermelho e cavando. Parou e procurou um caminho. Sobrou ali perdida e mais outro tanto. E se sabe lá o que mais!
O astro espiando envolto em nuvens de cinzas. Nada sobreviveu. O vento empurrando areia pra frente pra trás e em volta. Nem chovia havia dezenas de milênios.
Ela abriu as orelhas, empinou o focinho, provou a poeira, ficou preocupada. O seu corpo lhe participou algumas reações estranhas, umas ânsias, umas pontadas, uns calafrios, uns formigamentos, uns enjoos intermitentes. Sacis interromperam seus estudos para sair na sua perseguição.
E Cuíra tentou buscar a cola, a ponta da cauda para sugar, mas o rabo estava muito longe. Não ficou nada para fazer ou desfazer. Se sentiu fora do tempo, longe no espaço e disse, bufando para si mesma:
            - Agora sim estou terminada... e mais ou menos... muito mal das pernas.  
            A voz de Cuíra arranhou diferente da noite fria para o dia requentado caloroso. Uma rouquidão de causar desconforto constrangimento preocupação. Se sentiu distante dividida recortada em partes muitas partes como em quebra-cabeça. Interessada e desinteressada, interessante e desinteressante. Foi gatinhando se arrastando se acovardando para a touceira seca mais ali.
            Ela mesma já nem mais se entendendo naquela passagem naquele transe. O calor exagerado exasperante de derreter o lombo e os cornos. E longos dias insalubres irrespiráveis. Não chovia desde sempre. Apenas o vento com carregadas de areia. Tucurus vazios saltando entre arbustos mortos com pedras atoladas na areia. País das pedras pedregulho cascalho.
            Cuíra olhou o alto e vislumbrou, distante empanada pelas nuvens de poeira, uma estrela decadente. Era imposição? A noite chegando mais. Viu outras luzinhas piscando. Esperou mais. Era delírio? Um vento provocante atiçando ondas de areia marrom.
            Noite mal-assombrada, a cadela restou encolhida enrodilhada em si mesma. E muito febril, tiritando de frio, se sentindo bastante estranha, dor de cabeça, cansada, mal podendo abrir os olhos doloridos. Ela mesma sem saber o que esperar. A noite penetrou friinha mesmo muito fria. Não comera os meses todos e não tinha fome. Não bebera os meses todos e tinha muita sede. O seu corpo estranho estranhíssimo. A garganta cheia de poeira. Algo diferente e inédito já ia lhe acontecer por dentro, por acaso, bem lá por dentro, querendo ou não saltar pra fora. Coisa de meia hora. Por isso se deitou ali, se preparou para o acontecimento, para o que desse e viesse, fosse o que fosse. Deitou na poeira e pernas sobre pernas. Esperando precariamente acontecer o que teria de suceder. Um tempo mais que se foi, e nem pensou em latir.
            E se encontrou naquele lugar isolado no capoeirão, no seco da poeira vermelha, do lado do pedregulho. E ali enovelada recolhida em si mesma em si mesma. O corpo tremendo. E daria cria. Os filhotes já chutaram assim assim dentro da sua barriga. Foram muitos latidos e todos ao mesmo tempo. Alguns transtornos de praxe. E a vira-lata deu prole.
            Os filhotinhos foram aparecendo lançados para o chão de terra solta. A cadela procurou recolhê-los, recuperá-los, limpá-los, alisá-los, conhecê-los, admirá-los com seus olhos vesgos e vagos. Muitas coisas na cabeça: exausta, zonza, aérea, boca seca, curiosa, assombrada.
            Os cusquinhos já imediatamente se arrastaram até os seios da mãe, todos cegos, tontos, idiotas. Ela lambeu as crias e sem interesse para mais nada. Pois nem sentia fome, e muito ardia de sede. A noite terminando de rolar seu pião sem lua sem estrelas no oco assombrado pelo vento terroso. Por detrás de dunas e morrinhos, o forno já vinha cedo relampear o seu fogo inclemente, vá lá!
            Um e outro filhotes morderam esganados os mamilos da mãe. Os droguinhas ganiram, brigaram entre si em cabeçadas, roncos, arranhões, como se já no ninho formassem as características de bandidos. Deram coices, chocalharam, miaram, choraram, mordiscaram.
A cadela Cuíra nem conseguiu as forças para educá-los. O mundo rodou suas horas e dias. Mais ou menos os perdidos e com a família no meio do nada. O tempo e o deserto questionaram com a paciência, vá lá!
            As criaturas acordaram umas coisinhas muito sem noção. Bolinhas cheias de raiva. Os tipinhos se apegaram ao mundo sem as unhas e sem os dentes. Por quê? Focinhos sujos de pó vermelho e já resolvidos a enfrentar os desafios. Discutiram por tudo e por nada. Urgentes. Olhos olhares de famintos esfaimados ferozes. Impositivos. Programados para roer o osso, esconder o osso, brigar por um osso.
            Filhotes com pelos diferentes, como se tivessem a artimanha de muitos pais. Foram muito mal-educados, uta! Barulhentos e provocadores e impertinentes e neurastênicos. Andaram pela macega seca aos tombos, aos berros, aos xingos, aos trancos e barrancos. Titubearam por aí, farejando ou brigando pela pedrinha encontrada, já se pegando, um agredindo o outro, um roubando do irmão. O tempo ausente e os dias superquentes.
            Os jovenzinhos impertinentes, sem nome, macios, desamparados de pai, já deram os primeiros passos de olhos abertos. Aventuraram, querendo ver além do ninho que a mãe improvisara na poeira do capoeirão. Nem chovia há seis anos.
            E lá foi o primeiro miudinho. Um pretinho com manchas vermelhas aqui e ali. Sumiu no meio das macegas esturricadas, ex-línguas-de-vaca, ex-guanxumas, ex-falsos-paratudos... Se perdeu na poeira. Mussitou, miou, mas já era tarde. Foi andando sem rumo, tropeçando, dando voltas. O caminho sofria um aclivezinho. Foi em frente e subindo. O calor sufocante, as pedras quentes, a terra solta e acabada. Sentiu na alma umas comichões de andar, andar... Um vento levantando a mesma poeira vermelha. Se viu sozinho e desimportante, miou, acoou, gemeu... Conferiu o entorno. Não soube o que querer, não soube o que procurar, não soube o que pensar. Seguiu um rumo atraído belo brilho das pedras. Chegou no alto do morrinho. Descobriu moedas de ouro ali pelo chão. E o droguinha foi e garfou uma das moedas de ouro com cara de Imperador do Brasil. Assim resolveu brincar, mastigar, sempre a cauda balançando, tentando instintivamente engolir o dinheiro de ouro achado.
            Foi aí que um pivete da vila Santa Luzia conheceu o cachorrinho extraviado. E o pixote berrou para seus parceiros de artimanhas:
            - Ei, chiruzada medonha e danada! Um Bauru vem vindo na minha e até sacudindo as orelhas!
            Cuíra, a boca cheia entupida de poeira, tossiu tossiu... Uma dor de cabeça, uma fraqueza nas pernas, e tudo mais. E tremeu geral e total. Penava com fortes dores nas partes e esperava por um calmante. Sem acreditar que pudesse se erguer, continuou lambendo as patas as pedras as folhas secas ao alcance.
            O segundo filhotinho se arriscou e foi foi, rumou para o sul. Passou as macegas secas, a ex-tucumãi-da-terra-firme, caminhou pelo capoeirão esterilizado, foi deixando marcas na poeira. Começou a descer o morrinho, descer. Viu umas luzinhas pequeninas brilhar no chão e achou interessante. Alguns raios uv queimavam o lombinho. No traçado ainda um tronco podre barrou o caminho. Demorou tentando escalá-lo. Demorou tentando roê-lo. Depois, sem entender de que jeito, deu a volta e prosseguiu. Negociou umas moedas de ouro com o monte de terra seca, mexeu, lambeu, remexeu, mordeu, enterrou o que já estava quase enterrado. Continuou procurando e cheirando os gravetos do caminho, tão fascinado. De súbito olhou o panorama muito baixo, latiu, ciciou, miou, sentiu uma saudade... e continuou. Mas não encontrou a mãe em nada. Achou umas sombras se mexendo ali na frente e pensou que eram irmãos, miou, chirriou...
Por desconsideração do acaso, por acaso, foi visto pelo luziense piá arteiro:
            - Olá, tiriricas! Um Bauru vem de encontro ao degas e farejando em tudo, hein?!
            A cadela Cuíra tentou olhar o oco avermelhado. Os olhos logo logo cansaram. As partes do corpo que nem mais respondiam desinteressadas. Também!, nem há dois séculos sem chuva. 
            O terceiro pouca-sombra seguiu farejando o segundo. Viu algo de um reflexo no alto da duna e pensou que era tudo que queria. Descobriu outros brilhos e mais pedras, coisas diferentes, atrativas, chamativas, quentes, presentes. E foi subindo a encosta do morrinho. Nem ligava para mais nada. Foi indo e aprendendo a cheirar tudo. E ele se sentiu outro, se sentiu excitado, se sentiu maior, se sentiu super. Sentiu coisas difíceis de explicar. Enxergou o brilho no oco, achou importante e miou, rosnou... Depois chegou num determinado lugar e foi cheirando moedas de ouro, das grandes, das pesadas, das desenhadas, das cunhadas pelo Império do Brasil. Achou tudo possível. Decidiu enterrá-las como tesouro seu. Então, com as patas fraquinhas, fez buraco e com o focinho empurrou a terra seca de volta. Aí mesmo cansou de trabalhar e se sentou. Teve tempo e sossego para olhar o ali por perto. Descansado, resolveu o quê? E começou a lutar contra uma pedrinha rolante. A pedra não se cansava rolava fugia, o que lhe dava ganas. Espiou a pedrinha e a pedrinha se fingindo de morta. Se encararam se prepararam para um duelo, como as últimas coisas importantes do planeta. Depois, voltaram a rolar e a se agarrar.
            Um pixotinho do arraial Santa Luzia estava ali desocupado vadiando procurando restos de nada e o caçou. Foram os gritos repercutidos em eco:
            - U-huu!... seus merdinhas secas. É Bauru! Bauru!...
            Cuíra soçobrou assim muito fraquinha e desanimada. Faminta sedenta de dias, já sonhara com isso delirara com aquilo. O calor muito forte no mundo todo. Meses sem chuva. Não chovia há dezenas de anos luz. As ideias de Cuíra só fizeram, então, se estreitar mais e mais dentro do círculo de fogo da dor de cabeça.
            O quarto e último rebento também quis deixar a família e foi andando e deixou mesmo tudo para trás. O tipinho acinzentado, pequeno, tímido, sumiu entre a macega falecida, a barba-de-bode seca, se desorientando na capoeira esturricada. Foi indo como por instinto, curioso, imantado pelas pedras brilhantes. Andou no rumo do leste. Latiu e resmoneou, parou e viu paisagens rasteiras e secas, olhou coisas e coisas soltas pela caatinga. Discutiu pormenores com um pedaço de pau. Depois, balançou o corpo como para tirar a canseira e seguiu o chamado das pedras brilhantes. Chegou e não chegou. Farejou. Farejou por ali tudo, miou, ronronou... Nem entendia dizer o que farejava. Descobriu uma ou duas moedas de ouro. Enterrou algumas moedas de ouro com cara de Imperador Dom Pedro II. Parou e nem atinou mais o que fazer. Esperou alguma coisa, piou, bufou... As pernas mais curtas que o caminho que o caminhar.
E foi que um piazinho o descobriu no meio da capoeira caída entre as pedras derretidas diante dos tucurupucas depredados:
            - Oi, seus culepes! Achei achei um Bauru todo todo passeador!
            E Cuíra, cachorrinha muito séria, tonta de sono e fadiga, procurou a rua Única da vila de Santa Luzia. Trançou perninhas pela rua poeirenta e britada até que os moleques a encontraram. Os pixotes foram de encontro à forasteira e ela se viu cercada. Deitou no chão, rabo entre as pernas, e rosnou resmungou tossiu, trocou orelhas... E ela se recolheu como um extinto tatuzinho-de-jardim. A vira-latinha nem tentou mais fugir. Nem pensamento algum. Não procurou se envolver em brigas e correrias e fuzarcas.
O mundo bafando como uma fornalha atiçada. O arraial de Santa Luzia reunido, os aldeões as aldeãs os aldeõezinhos as aldeãzinhas todos juntos, e olhando a marmitinha. Uma aldeia sem começo sem meio e sem fim.
E o primeiro dia, e o dia a dia, e o outro dia, e o último dia.


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